The Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron,
traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: O Cerco de Corintho, poema de Lord Byron, traduzido em verso portuguez

Author: George Gordon Byron

Translator: Henrique Ernesto de Almeida Coutinho

Release Date: August 31, 2010 [EBook #33592]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***




Produced by Pedro Saborano





    Nota de transcrio:

    Foi mantida a grafia usada na edio original de 1839, tendo sido
    corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos evidentes.




                          O CERCO DE CORINTHO,

                                 POEMA

                                  DE

                              LORD BYRON,

                     TRADUZIDO EM VERSO PORTUGUEZ,

                                 POR

                            _H. E. A. C._


                                PORTO.
                 TYPOGRAPHIA COMMERCIAL PORTUENSE.
                   LARGO DE S. JOO NOVO N. 12.
                                1839.




AO ESTIMAVEL ANONYMO.


    _Alma prestante, onde reside e impera
    O Genio da Amizade,
    Que a luminosa esfera
    Deixou, para acudir  humanidade,
    Sumida em pesadumes e agonias,
    Em feia escuridade!
    Alma onde o typo eterno no se encobre,
    E que, n'estes d'egoismo ferreos dias,
    O instante de ser util s vigias,
    Sincera, affavel, nobre!
    Acceita, em oblao a ti votado,
    Ancioso de agradar-te, este traslado._

        Henrique Ernesto d'Almeida Coutinho.




_O TRADUCTOR,_


Para perpetuar a gloria do sublime poeta que tanto enriqueceo a sua
patria e o mundo literario com o preciosissimo cabedal de suas
produces, bastaria esta de que emprehendemos e agora publicamos a
traduco. Sciencia dos tempos e dos costumes, vasta erudio, profundo
conhecimento do homem, variedade e magnificncia de quadros, fecunda
elevao de pensamentos, lustre e vigor de poesia, sobresahindo por
effeito da mais acertada e judiciosa distribuio, eis os titulos com
que se engrandece este poema, onde lord Byron no houve mister longo
espao para mostrar-se, immortal.

No  raro tecerem os traductores sobejo encomio ainda a mediocres
originaes, quando com estes despendro vigilias e desvelos; mas nem por
isso receamos que, elogiando a lord Byron, nos accusem de
encarecimento ou de leviandade: as suas obras ahi esto bem patentes, e
a sua reputao  j colossal.

Todavia, notando a mui sincera affeio que consagramos a to estremado
engenho, ninguem haja de persuadir-se que o avaliamos como isento de
toda a mcula. Por certo que lord Byron era homem, e o fragil da
humanidade transparece em algumas das suas produces, e s vezes
procura brilhar em detrimento daquella gentil gravidade que mui bem
assenta nas Musas, e sem a qual desmentem ellas a sua origem celeste;
mas de semelhante desar campea livre o poema que apresentamos
traduzido.--S de passagem mencionaremos um descomedido orgulho
nacional[1], um amor  liberdade, que por vezes degenera
em fanatismo: estes sentimentos os bebeo o poeta com o primeiro alimento
de sua infncia, e, quando concentrados em justo limite, so nobres, e
longe estamos de crimin-los.

No menos que lord Byron admiramos os grandes capites Gregos e Romanos;
tambem nas escolas estudamos e traduzimos Nepote, Tacito, Tito-Livio,
&c. Todavia os heres n'essas historias memorados vivero em tempos mui
diversos dos nossos, e diversissima foi a sua educao fisica e moral:
por tanto o joven enthusiasta hodierno que ambiciona a todo o custo
igual-los, arrisca-se a cometter mil despropositos, e mesmo a ser
victima inutil de suas desattentadas proezas. Para morrer com gloria no
desfiladeiro de Thermpylas, cumpre, alm de haver sido educado em
Esparta, ter  frente um Leonidas. A prudencia de Fabio transtornou os
planos de Annibal e salvou Roma, conseguindo aquillo mesmo que fra
denegado s fastuosas e arrogantes ousadias de Sempronio e de Flaminio.
Do sacrificio de Curcio, despenhando-se armado e com seu proprio cavallo
no boqueiro aberto por um terremoto em certa praa de Roma, que
proveito recolhro os concidados, a patria, ou a especie humana?
Curcio era pois um esquentado enthusiasta, ou antes um orate rematado. 
indubitavel que a cega ambio de figurar com heroismo Grego ou Romano,
associada ao sofrego ardor no sei de que liberdade turbulenta,
insidiosa, desmoralisadora, e de mais pernicioso effeito que qualquer
desmascarada tyrannia, tem excandescido bom numero de cabeas e avultou
de sobejo na mui abalisada revoluo de Frana, que ainda hoje em
sangrentas paginas aterra a humanidade.--Talvez o amor que sempre
tributamos  verdade nos levou em demasia longe; mas como quer que seja,
no cessaremos de confessar que o sublimado engenho de lord Byron nos
penetra de admirao, e deixa, ao menos em nosso alvitre, o homem
justificado pelo poeta.

Quanto  nossa traduco, sobre diligenciarmos que portugueza fosse,
pozemos todo o cuidado em exprimir com clareza os pensamentos do poeta,
bem como em no deteriorar-lhes a nativa gala, que antes nos parece mais
pomposa n'este nosso fertil e sonoro idioma: entretanto no  por nossa
conta que deve correr a cabal deciso na materia, mas sim por conta de
mais competentes juizes, que, versados nas duas linguas, queiro dar-se
ao trabalho de cotejar o original com a verso.

Entre os nossos traductores poetas, alguns houve que gemro sob a
ferrenha tarefa de traduzir tragedias e longos poemas verso por verso;
mas que resultou de tanta diligencia? o substituirem, pela maior parte,
a versos fluentes e vigorosos uma enfiada de semsaborias, de durezas, de
enigmas, onde a graa e louania dos originaes degenera em rugosa e
desalinhada velhice. No negamos que isso tenha cabimento e deva
adoptar-se quando nenhum inconveniente o estorva; porm o verter
affincadamente poemas inteiros verso por verso,  uma curiosidade que em
muitos casos empece  nobre franqueza do estilo,  suavidade do metro, e
ao effeito geral dos quadros poeticos. Estamos persuadidos de que deve o
traductor de um poema ser sempre fiel  quantidade das idas, no assim
 quantidade dos versos: tal foi o nosso systema de traduco no _Crco
de Corintho_.

Ardua e mui ardua emprsa  traduzir poetas; bem o sabemos e
experimentamos. Se todavia para traduzir lord Byron de nada mais se
carecesse que de estar profundamente penetrado das extraordinarias e
sublimes bellezas com que este filho da immortalidade abrilhantou suas
obras, ento nos lisonjeariamos de apresentar a nossos leitores uma
copia digna do original, e preciosa para elles.

    [1] Este orgulho se deixa ver bem claro no _Childe Harold's
    Pilgrimage_, cant. I. est. 16, onde, entre outros motejos com que o
    poeta pertende aviltar os Portuguezes, tambem lhes exprobra o serem

        _A nation swoln with ignorance and pride._
        Nao inflada d'ignorancia e orgulho.

    Querer isto dizer que a Inglaterra  um paiz todo cheio de sabios, e
    onde o orgulho morre de frio, por falta de quem o aquartele?




O CERCO

DE

CORINTHO.


I.

Longo trilho de seculos exhaustos,
Rijas tormentas, bellicos furores,
Infestro Corintho: ella entretanto
Persiste em p, e no alteroso alcar
Nova conquista  Liberdade off'rece.
Nem bramir de tufes, nem terremotos
O alvejante penhasco lhe abalro,
Esse lageoso assento, que, em despeito
Da decadencia sua, inda parece
No sem orgulho contemplar seu cimo;
Esse padro demarcador erguido
Entre os dous mares, que d'um lado e d'outro
Lhe esto rolando purpurinas ondas,
Que sempre a forcejar por se reunirem,
O acato sempre, e vem morrer-lhe s plantas.
Se o sangue n'estes sitios derramado
Desde que n'elles o fraterno sangue
Timolon vertra, ou desde quando
Pelo aviltado despota da Persia
Abandonados foro, borbulhasse
Da terra que o bebeo no morticinio,
Este sangrento oceano sepultra
Sob os tremendos escarcos todo o isthmo:
Ou se podessem amontoar-se os ossos
Dos que alli perecro, surgiria
Por entre aquelles ceos abrilhantados
A colossal pyramide espantosa,
Dando rival  Acrpolis, que as nuvens
Se v roar co'a torreada fronte.


II.

Eis lanas vinte mil sobre as espaduas
Do nebuloso Cithern fulguro;
E em toda a planta do isthmo, sobre as duas
Oppostas praias que o ladeo amplas,
Se eleva o pavilho, brilha o Crescente
Nas federadas linhas Musulmanas;
E o tisnado Spah desfila em bandos
 vista dos Bachs amplo-barbados;
E os olhos podem ver ao longo e ao largo
As cohortes cingidas do turbante,
Que o promontorio alastro, enxameo:
L se ajoelho do Arabe os camelos,
Do Tartaro os ginetes la volteo;
Dando de mo  grei, o Turcomano
Prestes unio ao lado a cimitarra.
Dos bellicos troves crebro rebombo
T faz emmudecer, de susto, os mares,
Profunda-se a trincheira, e muito longe
Silvando va no pelouro a morte;
Sob o peso da bomba assoladora,
Solto-se em pulverento remoinho
Os da muralha esboroados lanos;
E, do recinto d'ella, eis o inimigo
s do Infiel intimaes responde
Com manejo expedito, e fogos destros.
Que vo cruzando os empoeirados plainos,
E os ares que anuvia o fumo em rlos.


III.

Das muralhas porm o mais visinho
Entre os que punho peito e mos  empresa
De as converter em ruina, o mais profundo
Que nenhum dos da prole Musulmana
Nas da guerra artes ttricas, e altivo
Qual nunca o foi assignalado chefe
Colhendo louros em sangrentas lides;
O que voando audaz de posto a posto,
D'um feito a maior feito, se avantaja
Em destro esporear corsel fumante,
Em surdir mais veloz onde arde o p'rigo,
Cada vez que ha sortidas ou assaltos;
E quando a bateria, em mos valentes,
Resiste inexpugnavel, ento mesmo
Com exultante aspecto desmontando
A dar alento, na refrega, aos tibios;
O mais abalisado e o mais recente
Da hoste que lucrou n'estas paragens
Ao sulto de Stamboul renome egregio;
O guia incomparavel em campanhas,
Ou solerte assestando o ferreo tubo,
Ou manejando a temerosa lana,
Ou tufo que rebenta onde ha conflictos,--
 Alp, o Veneziano renegado!


IV.

O renegado de Veneza!--ah! elle
De vetusta linhagem primorosa
Teve o seu nascimento: todavia,
Desterrado a final do patrio ninho,
Contra os concidados tomou as armas,
Em que por elles adestrado fra;
E orna-lhe a fronte rasa hoje o turbante.
Depois d'eventuaes destinos varios,
Sob a lei que Veneza lhe dictra
Se acolheo, como a Grecia, ento Corintho;
E ei-lo que ante seus muros se apresenta,
Inimigo entre os feros inimigos
Da Grecia e de Veneza, e trasbordando
De resentido ardor, qual excandesce
Ao joven convertido a alma orgulhosa,
Onde duestos mil accumulados
Esto sempre em tumulto, e eternos vivem.
Nem por isso com elle quiz Veneza
Desempenhar o civico appellido
Em que firmava o seu brazo = A LIVRE; =
E de So Marcos no palacio excelso,
Delatores incognitos lanro
Na _Boca do Leo_, durante a noite.
Denuncia atroz de requintados crimes,
Que o cobrio de macula indelvel:
Salvou seus dias pressurosa fuga.
Desde esse lance despendia a vida
No meio dos combates, demostrando
Bem claro  patria o que perdeo no alumno
Que contra a Cruz, j supplantada, erguia
O soberbo Crescente, e, guerreando,
S vingar-se ou morrer buscava ancioso.


V.

Coumourgi--aquelle que impz termo aos feitos,
O ultimo perecendo, e o mais pujante,
L nos de Carlowitz sangrentos plainos,
Sem magoa de morrer, porm, raivoso,
Dos Christos maldizendo inclitos louros,
E d'Eugenio adornando o gro triunfo;
Coumourgi--e por ventura a gloria d'este
Conquistador da Grecia derradeiro
Poder perecer, seno surgindo
Brao Christo que restitua  Grecia
Sequer os fros que gozou outr'ora
Por Veneza outorgados? Elle vinha,
J depois de volvidos lustros vinte,
Reintegrar a Othomana prepotencia;
E, os veteranos seus pospondo agora,
Para mandar do exercito a vanguarda
Alp escolheo, que a confidencia summa,
Arrazando cidades, lhe pagava,
E mostrando em faanhas destructoras
O seu zeloso affrro  nova crena.


VI.

A muralha enfraquece: de continuo
As Turcas baterias lhe varejo
O parapeito e ameias; restrugindo,
Sahe de cada canho a voz do raio:
Aqui flammeja, ao rebentar da bomba,
Crepitante zimborio; alm baquea
Este, est'outro edificio derrocado,
Sob o espesso granizo d'estilhaos,
Que em lufadas volcanicas recresce:
Vai resfolgando em rbidas columnas
Voraz incendio, que to alto sobe,
Como sobe o fragor da ruina ingente,
Ou solta-se em terrestres meteoros
Que vo no ceo esvaecer-se infindos:
Mais nebuloso, mais impervio o dia
Se torna  luz do sol, co'a mole opaca
Do fumo alado em tortuosos rlos,
Que d'enxofrado horror a esfera enluto.


VII.

Nem smente ardor cego de vingana,
Que a longa dilao fez mais ferino,
Esporera esse Alp apostatado
 adestrar os guerreiros Mahomtas
N'arte de abrir a promettida brecha.
D'aquelles muros no recinto havia
Uma donzella, cuja mo formosa
Elle obter pertendia apesar mesmo
Do inexoravel pai, que, furibundo,
Aos rogos lha negou, quando Alp outr'ora,
Chamando-se Lanciotto, o bafejavo
Tempos melhores, mais propicios fados;
E sem nota e sem crime de perfidia,
Aos palacios, s gndolas levando
Alegria vivaz, se assignalava
Nos Carnavaes, ou resoar fazendo
Sobre aguas do Adria esses descantes meigos
Que alvoroadas de prazer escuto
 meia-noite as Italas donzellas.


VIII.

Que do seu corao j possessora
No fosse a virgem, suspeitavo muitos;
No em tanto d'infinitos requestada,
E a nenhum acolhendo, persistia
De todo o lao conjugal isenta
A juvenil Francina: e desde o instante
Em que das Adriaticas paragens
Se retirou Lanciotto a pagos climas,
O sorriso expirou nos labios d'ella;
Meditabunda e pallida tornou-se;
Confisses amiudava, e j no era
To vista em mascaradas e assembleas;
Ou, se l ia, os olhos seus descidos
Avassalavo, n'um volver furtivo,
Mil coraes de balde suspirosos:
Nenhum objecto contemplava attenta;
No punha em atavios tanto apuro,
Nem j to terno desprendia o canto;
Seus passos, bem que leves, o ero menos
Que os dos parceiros seus, a quem na dana
Colhia absortos o raiar d'aurora.


IX.

D'um slo aos Musulmanos arrancado,
Quando a soberba lhes calcou Sobieski
Ante os muros de Buda, s margens do Istro;
D'um slo que depois Veneza altiva
Empolgou com violencia desde Patras
T a Euboica enseada, o regimento,
Por ordem sup'rior, tomou Minotti;
E de Corintho na torreada estancia
J elle era do Doge o delegado,
Quando os olhos da Paz fagueiros, pios,
Depois da larga ausencia, confortavo
C'um sorriso dos seus a Grecia sua,
Inda no rto esse armisticio trdo
Que ao jugo anti-Christo a subtrahia.
Entrou Minotti alli co'a filha amavel;
E desde o tempo em que a formosa Helena,
Deixando o esposo e a patria, fez ver quantos
D'um illicito amor desastres broto,
Nunca estas praias adornou belleza
Digna de comparar-se  da estrangeira.


X.

Em crebros boqueires abre-se o muro;
E sobre as ruinas da alluida mole
Vai,  primeira luz, desenvolver-se
Assalto mais que todos formidando.
Tropas enfileiraro-se; escolhidos
Foro para formar toda a vanguarda
Tartaros e Othomanos; e vs outros,
Flor dos guerreiros, a quem foi sem causa
Imposto o sobrenome de _perdidos_,
E para quem a morte e riso,  jgo;
Vs, que co'alfange em punho abris caminho,
Ou de vossos cadaveres juncando
A que o brao rompeo vereda honrosa,
Sois marmoreo degro, por onde affoutos
Os socios trepo,--morrereis mais tarde!


XI.

 meia-noite: a fria lua ostenta
O disco inteiro, e amplo fulgor diffunde
A contrastar co'a sombra das montanhas;
Traja d'azul o mar, d'azul se veste
O firmamento, este suspenso oceano,
Todo cravado d'ilhas que refulgem
L to remotas, com ardor to vivo:
E quem, quem pde attento contempl-las,
E repascer depois os olhos tristes
No valle dos mortaes, sem que apetea
Voar e unir-se para sempre a ellas?
Dormem as ondas, n'uma praia e n'outra,
Placidas e ceruleas como os ares;
S de leve as areas roa a espuma,
Com murmurinho igual ao d'um regato.
Os ventos se recosto sobre as ondas;
E das hastes ao longo quietas pendem,
Em pregas conchegando-se, as bandeiras,
Que remata arci-flgido Crescente.
Nada interrompe esta mudez profunda,
Seno alm a voz da sentinella
Reproduzindo a senha, ou l mais longe
Relincho de corseis agudo e crebro,
Ou cos que respondem dos outeiros,
Ou da hoste bravia o rumor vasto,
Que semelhante ao de agitadas folhas
Alongando-se vai de praia a praia,
Ou preces usuaes que  meia-noite
Levanta o Muezzin, rasgando os ares
Co'a lamentosa garganteada la,
Qual 'spirito que vaga na planicie:
Meldicos accentos, mas prantivos,
Quaes os produz o vento, que, passando,
Encontra as cordas de sonoras harpas,
E extrahe descompassadas harmonias,
Que no conhece o menestrel mundano.
Este som se affigura aos sitiados
Grito agoureiro da infallivel queda;
Elle fere no ouvido aos sitiadores
Como indicio aziago e pavoroso,
Repentina toada indefinivel,
Que os coraes lhes paralisa agora,
E logo os faz pulsar mui apressados,
Co'a vergonha de haver surdido n'elles
To desusada sensao furtiva:
Dest'arte o sino apregoador da morte
Nos sobresalta de repente ouvido,
Inda que seja em funeral d'estranhos.


XII.

Calou-se o som, a rogativa  finda;
As sentinellas em seus postos velo;
Foi a nocturna ronda percorrida,
E em tudo as ordens satisfeitas todas.
Tem Alp o seu tentorio sobre a praia,
E em ancias vai curtir inda esta noite;
Mas bem pde a manh suavis-las,
Na fruio das vantagens to copiosas
Com que o amor e a vingana ho de reunidos
Demora indemnisar to prolongada.
Horas poucas lhe resto, e carece
De repousar, por que expedito esteja
s proezas da crstina matana:
Mas baralhados, quaes estuantes vagas,
Os pensamentos lhe relucto n'alma.
Sem repouso e s elle em todo o campo;
Nem sente o corao entumecer-lhe
Fanatica vangloria blasonante
De ver pelo Crescente a Cruz calcada,
Ou de vender seus dias mui baratos,
Seguro de gozar no paraiso
O sempiterno amor das Houris bellas;
Nem se sente abrazar d'aquelle austero
Patriotico ardor que de bom grado
Supporta rduas fadigas, verte o sangue.
Quando peleja sobre o cho nativo,
Elle no era mais--que um renegado.
Ora verdugo da trahida patria;
Elle no era mais que um peito forte,
Um brao acreditado entre o seu bando.
Seguio-no, por que era valeroso,
E j lhes grangera espolio grande;
Davo-lhe acatamento, por ver quanto
Elle sabia captivar do vulgo
As vontades, e arteiro dispr d'ellas:
Mas nem por isso lhe entejavo menos
O Christo nascimento: inveja influe-lhes
A propria fama atreioadora que elle
Ganhra sob um nome Musulmano:
De qualquer modo, esse esforado chefe
Vil Nazareno foi na juventude.
No lhes era sabido t que ponto
 capaz de curvar-se o orgulho, quando
Murcho e aviltado o pundonor baquea;
No lhes era sabido quo violenta
Chamma voraz em coraes se accende
Que de meigos tornaro-se bravios;
Ignoravo qual zlo de vinganas
Refalsado e fatal se gera e cresce
D'um convertido n'alma. Elle os regia:
Pde um homem reger outros peores,
E de ser o primeiro gloriar-se.
Taes os lees sobre o jakal domino:
Destro o jakal espia e abate a prsa;
Mas, no aperto da rugidora turba,
Da-se por pago, se devora os restos.


XIII.

A cabea lhe ferve, e apressuradas
As arterias palpito-lhe convulsas;
D'um lado e d'outro volta-se, baldando
Modos de repousar; e se dormita,
O som mais leve, o mais pequeno abalo
Prestes o acordo angustiado em dbro.
A fronte excandescida lhe molesta
Hoje o turbante, e, nem que plumbea fosse,
A loriga lhe pesa sobre o peito,
Se bem que tanta vez, e a somno solto,
Sob esse mesmo pso repousasse,
Tendo apenas por leito um cho saibroso,
E por docel o firmamento apenas,
Leito e docel quaes ao guerreiro a noite
Agora os deparou. Elle nem pde
No seu tentorio adormecer, nem quieto
Esperar que desponte a luz diurna,
E eis vaga ao longo da arenosa praia,
Alastrada de tantos que repouso.
Quem os acalentou? e por que causa
Ha de elle s velar, despossuido
D'um bem que logro rasos subalternos,
A quem cabe arrostar maiores p'rigos,
E lidas superar mais affanosas?
Mas ah! que um sonho animador lhes pinta
Os lucros todos do futuro espolio;
E em quanto mil e mil passo dormindo
Esta que a noite extrema  talvez d'elles,
Alp, em vigilia atroz, vaguea anciado,
E lhe  alvo d'invejas quanto encontra.


XIV.

Vai na aprazivel fresquido da noite
Achando refrigerio s ancias d'alma.
Relentoso ora o ceo, bem que tranquillo,
As affogueadas faces lhe aspergia
Com brando orvalho. Apz lhe fica o campo;
De fronte lhe serpea, derramado
Em crebros surgidouros e enseadas,
O golfo de Lepanto; est-lhe  vista
A de Delphos montanha sempiterna,
Onde os glos accrescem, brilho, duro,
De mil estios affrontando a ardencia,
Campeando no golfo, e serro, e clima,
Sem que os dissolva, como a ns, o Tempo.
Desapparecem o tyranno e o servo,
Improprios a aguantar fulgente raio;
Mas este vo deslumbrador e fragil,
De que vs envolvido o monte excelso,
Quando torres baqueo, jazem troncos,
L brilha sempre no empinado alcar;
Pileo na frma, nuvem no elevado,
Na cr e na amplido lanol funereo,
Erguido a designar que a Liberdade
Se ausentou da mimosa estancia sua,
E hoje languida jaz no mesmo slo,
Onde foi largos tempos escutado
Seu profetico ardor em aureos versos.
Oh! que de quando em quando inda l so
Os passos seus sobre arescentes campos,
Sobre tantos altares demolidos;
E ella, um a um mostrando aquelles restos
Abonadores da passada gloria,
Alentar busca os animos prostrados:
Porm de balde bradar, em quanto
No despontar n'um corao preclaro
Destimidez possante, toda accesa
Ao claro d'esses dias que luzro
Sobre a fuga do Persa, e que risonhos
O intrito arrostro do Espartano.


XV.

Inda que fugitivo e criminoso,
Alp admirava as inclitas virtudes
D'esses tempos heroicos; e esta noite,
Em quanto vagueava, e na memoria
O presente e o passado revolvia,
Apreciando as mortes gloriosas
Dos que em defensa da genuina causa
Seu sangue alli vertro, mui bem sente
A que ponto  fallaz, mesquinha, obscura
Quanta fama lucrou d'um bando  frente,
E, nefario traidor, brandindo a espada
Entre as turmas cingidas do turbante,
Que raivoso guira a injusto assedio.
Onde era em cada prospero successo
No menos computado um sacrilegio.
Taes no lhe mostra a fantasia os chefes,
Por quem aquelle p que o circumdava
Fra illustrado, e que as phalanges suas
Perfilavo no plaino, no de balde
Ento de baluartes guarnecido.
Estes morrro escudando a patria,
E eternos vivem no fulgor da gloria:
Suspirar-lhes alli os nomes gratos
Inda parece a brisa; alli seus feitos
So no murmurinho das correntes;
Pova seu renome aquelles campos;
O pilar taciturno, ermo, alvacento,
Demanda aos sacros vultos alliar-se;
Os espiritos seus em trno giro
Dos fuscos serros; a memoria sua
Toda se espelha no cristal das fontes;
O arroio humilde, o caudaloso rio
Perennes fluem co'a perenne fama
Dos estremados campees sublimes.
Por mais que a opprima um jugo,  esta sempre
A patria d'elles, e a manso da gloria!
A Grecia!--ha de levar sempre este nome
Um som despertador ao Mundo inteiro.
Varo que aspira a perpetrar faanhas,
L pem na Grecia o fito, e abjura as normas
Que smente os tyrannos sanccionro;
Para l olha, e se arremessa aonde
Conquiste a Liberdade, ou deixe a vida.


XVI.

Sempre assim meditando silencioso,
Alp ao longo da praia os passos move,
E com brando rocio a noite o ameiga.
Coarctados e sem sto, aquelles mares
Em moto igual ondeo sempiternos,
E a vaga que possuem mais furiosa
Nem um quarto de geira ao slo invade;
E ou se mostre, ou se esconda, ou mude as phases,
No tem sobre elles influencia a lua:
Mansos, tumentes, no alto, na enseada,
Do dominio lunar se movem francos.
O escolho immovel, descobrindo a base,
Olha ao largo, e de balde espera as ondas:
Pde ver-se a que o cinge espumea linha,
Que em baixo lhe traou a mo dos vos.
Um pequeno areal loureja plaino
Entre o salgado leito e o cho relvoso.
Pela marina margem vagabundo,
Eis Alp assoma dos sitiados muros
Desviado no mais que quanto alcana
Um tiro de clavina. Como  crivel
Que alli no fosse visto, ou que evitasse
O golpe hostil? Entre os Christos acaso
Remanecem traidores encobertos?
Qual torpor lhes vincula as mos agora?
Qual glo os coraes lhes paralisa?
Tal brandura elle estranha; mas  certo
Que de nenhum dos lanos l do muro
Escorva reluzio, sibilou bala,
Se bem que to de baixo agora avulte
Dos basties minaces que flanqueo
Essa porta, resguardo da cidade
Pela banda do mar; se bem que possa
Quasi as palavras distinguir ferrenhas,
E os passos numerar da sentinella,
Que so, indo e vindo compassados,
Pela extenso da sotoposta lagem.
Nem os ces, de occupados, lhe latro!
E, magros e famlicos rosnando,
Os v sob a muralha dar-se ao bdo
De sangrentos cadaveres e ossadas:
Ei-los que esto da pelle despojando
Nest'hora um craneo Tartaro, bem como
Ns despojamos o recente figo;
E alvejantes lhes rangem os colmilhos
Sobre a caveira que inda mais alveja,
E que dos queixos lhes resvala, quando
Embotados os deixa o roer crebro;
Mas vo moendo de vagar os ossos,
Se um acaso permitte que no achem
Sobre aquelle torro melhor sustento.
Seu antigo jejum quebrou-se  larga
Nos guerreiros que alli perdendo a vida,
Lhes so manjar em refeio nocturna.
Pelos turbantes sobre a ara esparsos,
Alp a flor do seu bando reconhece;
Bem nota o verde, o carmesim das telas
Com que cingio por costume a fronte;
E cada pericraneo off'rece a esguia
Madeixa longa, e no demais  raso.
Os pericraneos jazem na guela
Feroz dos ces, ao passo que a madeixa
Se lhes enreda em volta das queixadas.
L se v mais alm, do golfo  orla,
Sofrego abutre contender c'um lobo,
Que, das montanhas a prear baixando,
Era alli solitario, e no ousava,
Dos ces espavorido, tomar parte
No amplo repasto das humanas carnes;
Mas engole a rao que lhe coubera
D'um corsel debicado j das aves,
Que da enseada no areal jazia.


XVII.

De to feio espectaculo insoffrivel
Arreda os olhos Alp: elle em conflictos
O que era estremecer no soube nunca;
Porm no  to arduo, to penoso
Olhar ao que estendido se revolve
Do proprio sangue em fumegante lago,
E arqueja entregue  insaturavel sde
E ao vasquejar da morte, quanto  v-lo
Depois que pereceo, e  s cadaver.
No momento fatal, um certo orgulho
Se desenvolve n'alma do soldado,
Lhe adoa o fim cruento: se fenece,
Espera reviver na voz da Fama,
Ficar bemquisto  Honra, que tem sempre
Os olhos fitos no que morre affouto!
Mas quando em fim s'esvaeceo tudo isto,
Bem misero se sente quem percorre
Campo alastrado d'insepultos mortos.
Ao ver como da terra surde o verme,
Deixa o bruto as florestas, a ave desce,
E alli affluem, demandando no homem
Todos quinhoar prsa, e achando todos
O lucro seu na decadencia d'elle.


XVIII.

Alli se via derrocado templo:
So cinza e longo olvido as mos que o erguro.
Inda algumas columnas, e dispersos
De marmore e granito mil fragmentos
O slo opprimem, recobertos d'herva.
Inexoravel Tempo! e nunca inteiras
Deixars ao porvir obras passadas!
Inexoravel Tempo! e has de tu sempre
Querer que do passado fique apenas
Aquillo que o presente affligir deve;
E assim fazer-nos dolorosa a imagem
Do que j foi, do que ha de ser um dia!
Bem como ns, vero nossos vindouros,
Em reliquias d'antigos monumentos,
S pedras que exalou o homem de barro!


XIX.

Ao p d'uma columna Alp eis se assenta:
Co'a mo comprime a face, e o corpo inclina
Como quem se resente acabrunhado
D'aterradores pensamentos tetros;
A cabea descahe-lhe sobre o peito
Excandescido, palpitante, oppresso;
Giro-lhe pela fronte debruada
Os dedos velocissimos, bem como
Pelo eburneo teclado os dedos giro
De primoroso artista, que em preludios
Por ora se entretem, da esclha incerto.
Vergando assim ao pesadume infenso,
Cr que ouvio suspirar nocturna brisa.
Acaso em lagens concavas murmura
Gemido terno de macias auras?
Ergue ento a cabea, e o mar observa;--
Repousa o mar, qual cristalino espelho:
Contempla esguias hervas;--nada as move:
D'onde procederia o som mavioso?
Repara nas bandeiras;--quietos pendem
No alto do Cithern, quaes os deixra,
Inda os hasteados pannos; leve aragem
Nem sequer lhe roou a tz do rosto:
Qual do imprevisto murmurinho a causa?
Volve-se ao lado esquerdo:--ser isto
Illuso ou verdade? Ante seus olhos
Eis joven dama refulgente assoma!


XX.

Se Alp ento visse um inimigo armado
Surgir-lhe face a face, no se ergura
To abalado de profundo assombro.
"Deos de meus pais! que vejo? quem es? como
D'hosts fileiras te aproximas tanto?"
A mo tremente lhe recusa agora
Estampar sobre a fronte essa Cruz mesma
Que elle tanto insultou; mas n'este lance
Se persignra, se a consciencia sua
Lhe no fizesse ver quanto era indigno.
Repara, observa a fundo, e reconhece
O rosto bello, as engraadas frmas:
 Francina, essa virgem suspirada
Que elle a si pertendia unir consorte!
Inda nas faces lhe viceja a rosa,
Porm a rubra cr  menos viva.
Que  do attractivo d'esses labios meigos?
No mora n'elles o sorrir donoso
Que ao rubim dava esmalte. Inda em seus olhos
Reside o azul do socegado oceano;
Mas se no aspecto bonanoso o imito,
Tambm o imito na frieza immovel.
Talhe accuso gentil vestes ligeiras;
Nada lhe vela o seio luminoso;
Soltas d'ebano as tranas, ver no tolhem,
Por entre a chuva dos anneis ondeantes,
Nivea nudez dos torneados braos.
Levanta ao alto a mo antes que falle;
E de tal modo branca e transparente
Se mostrava essa mo, que poderieis
Ver por entre ella rutilar a lua.


XXI.

"O repouso deixei, a fim smente
De vir ao meu amado, e de faz-lo
Feliz commigo, e ser feliz com elle.
Por teu respeito entre inimigas turmas
Eis movo os passos, e transpuz a salvo
Muralhas, portas, sentinellas, tudo.
Uma joven donzella, em todo o brio
Da nativa pureza, ha quem affirme
Que dos proprios lees  respeitada:
E o superno Poder que ao innocente
Escuda contra o despota dos bosques,
Se encarregou tambem de defender-me
Do insulto d'infieis confederados;
E vim:--se vim de balde, oh! v que nunca,
Nunca mais tornaremos a encontrar-nos!
Sei que, abjurando de teus pais a crena,
Es ro de crime hediondo; todavia
Lana por terra esse turbante, e imprime
Sobre a fronte o da Cruz signal divino,
E eu de ti folgue na perpetua posse.
Eia, o negro labo expelle d'alma;
E pois havemos manh de unir-nos,
No queiras para sempre separar-nos."

"E ao tro nupcial onde acharemos
O apetecido espao? pde hav-lo
Entre montes de mortos e expirantes?
Os Christos, seus altares, quanto  d'elles,
Ha de o ferro manh unido  chamma
Tudo, tudo extinguir: nenhum mais deve,
Seno es tu e os teus, ver nova aurora;
Que eu assim o jurei. Mas ser-me-ha doce
A mais donosos sitios transportar-te,
Onde se enlacem mos, se olvidem mgoas,
Onde tu sejas a consorte minha,
Quando abatido de Veneza o orgulho
Eu j tiver; quando este brao, que ella
Quiz sumir na abjeco, deixe aoutados
Com viperino ltego os infames
Que accendeo contra mim o vicio e a inveja."

Ella pousou a mo sobre a mo d'elle:
Foi leve o toque, mas varou-lhe prompto
As medullas dos ossos, e entranhou-lhe
Pelo imo corao glo indizivel,
Que nem d'estremecer lhe deixou posses;
E este frio mortal, de que se arguia,
Remov-lo de si em vo tentava.
Oh! nunca, nunca de to caro objecto
Partra movimento que viesse
Com tamanho terror gelar-lhe o sangue,
Qual n'esta noite o subitaneo toque
D'aquelles alvos dedos alongados.
Morreo-lhe em pallidez a effervescencia,
Ficou-lhe o corao, qual seixo, immovel,
Ao ver aquelle rosto, ai! to mudado
J de si proprio: bello, mas languente--
Sem vestigio nenhum d'incendios d'alma,
Que em cada feio d'elle se espelhavo,
Como um dia de sol se espelha n'agua.
Anhlito nenhum se unia s vozes
Que lhe escapavo dos immotos labios;
Do quieto corao nenhum palpite
Lhe sublevava o seio; nada havia
Que a rigida atteno interrompesse
D'aquelles olhos estacados, fixos.
Taes so os do somnambulo, que, em meio
D'anciados sonhos, deixa o leito e vaga;
Taes, na extenso de apainelados razes,
Baas figuras de minaz aspecto,
Se ao trmulo claro as contemplamos
D'expirante lucerna, desenvolvem
No sei qual mixto de animado e morto,
Com que parecem, aterrando a vista,
Ora avanar do tenebroso fundo,
Ora entranhar-se n'elle, em moto alterno,
Que a seu sabor lhes communica o vento.

"Se por amor de mim tu crs que  muito,
Por amor s do Ceo embora o faze:
Longe arremessa (inda outra vez to digo)
Da fronte criminosa esse turbante,
E me promette de no ser infesto
Aos filhos da insultada patria tua,
Ou es perdido, e despedir-te deves,
No j da Terra--esvaeceo-se a Terra--
Mas do Ceo e de mim, que te fui cara.
Eia, cede a meus rogos: v que abertas
Inda te espero da clemencia as portas;
E bem que contra ti grave sentena
Fosse j proferida, o rigor d'ella
Em grande parte expiar teu crime.
Pondera a fundo; e provocar no queiras
A maldio d'Aquelle que abjuraste.
Ao Ceo inda uma vez levanta os olhos,
V que a ti mesmo para sempre o fechas.
Essa nuvem que esconde agora a lua,
L vai passando, e passar de pressa:
Se, quando rebrilhar o disco inteiro
Desafrontado do vapor sombrio,
No revolveo a contrio teu peito,
Fico de ti vingados Deos e os homens:
Tremendo fim ters, e mais tremenda
Te espera a eternidade dos perversos."

Alp ergue a vista ao Ceo, e reconhece
O indicado signal; porm o orgulho
Entumeceo-lhe o corao, e o rege
Com despotico imperio inabalavel;
E esta paixo fallaz que o predomina,
 torrente caudal que tudo alaga.
Elle implorar perdo! elle render-se
A impertinencias de mesquinha virgem!
Elle, offendido de Veneza ingrata,
Poupar-lhe os filhos, que votou  morte!
No:--embora essa nuvem traga um raio,
Embora um raio o esmague:--e inda no tra?

Sem que a minima voz dos labios solte,
Elle fitava ancioso aquella nuvem:
Attento a v passar; fugio de todo:
Em seu pleno fulgor se mostra a lua.
"Qualquer que seja o meu destino (exclama),
No tenho de mudar: agora  tarde.
No meio da tormenta pde a canna
Dobrar-se e logo erguer-se, os troncos quebro.
Qual Veneza me fez, serei j'gora;
Seu implacavel inimigo em tudo,
Excepto na affeio que eu te consagro.
Tu pois es salva: oh! vem, meus passos segue."
Voltando-se, elle a busca; ella sumio-se:
S o antigo pilar lhe avulta ao lado.
Sorveo-a a terra, ou s'esvao nos ares?
Nada elle vio--nada escutou s sabe
Que alli nenhum vestigio existe d'ella.


XXII.

A noite dissipou-se, e o sol resplende,
Qual se um dia de festa esclarecesse.
Eis d'entre bruscos vos pomposa surge
Arraiada a manh d'aureos fulgores,
E abrasador promette o meio-dia.
Trombetas se ouvem, rufos de tambores,
Hrridos sons de barbara corneta,
Sussurrar de bandeiras fluctuantes,
Relinchar de corseis, tropear de turmas,
E o retinir das armas, e o alarido:
"Ei-los vem! ei-los vem!" Da terra prestes
Descravo-se os pendes equi-caudatos,
Desnudo-se as espadas lampejantes,
E tudo a entrar em frma apercebido,
S depende da voz, e a voz j sa:
= Tartaros, e Spahs, e Turcomanos,
As tendas abatei, ide  vanguarda,
Dai d'espora aos corseis, e na planicie
Seja cortado o passo aos fugitivos,
Quando estes proromperem da cidade:
No escape nem velho nem mancebo,
Que offrecer de Christo qualquer indicio.
Entretanto que em massa prepotente
Vo sustentar os camaradas vossos
A ensanguentada brecha, e entrar por ella. =
J o fogoso corsel remorde o freio,
E arquea o collo, e, sacudindo a crina,
As redeas tinge d'alvejante espuma:
Esto em riste as lanas, e flammejo
Accesos os murres, e em continente
O assestado canho vai despejar-se
Com estampido horrsono, e as muralhas,
Rtas em frente, esboroar de todo.
Na phalange os Janizaros entrro:
Alp os commanda; e a cimitarra nua
No erguido brao nu sustenta e brande.
Kans e Bachs fixro-se em seus postos;
E ei-lo  frente da hoste se apresenta
Em pessoa o Visir.--Tanto que a senha
Troar na disparada colubrina,
Tudo em Corintho ser ruina e morte:
No ficar um sacerdote s aras,
Nem um chefe no centro das familias,
Nem flgo vivo que as manses pove,
Nem sequer uma pedra sobre os muros.
"Deos e o Profeta seu! _Allah-Hu!_"--Sobe
T s estrllas o feroz ullo!
"L tendes, para entrar, aberta a brecha;
E escadas no vos falto: tambem todos
N'essas robustas mos sustentais armas;
E como ha de falhar-vos o triunfo?
D'entre vs o primeiro que se affoute
 arrancar a vermelha Cruz hasteada,
Pde franco pedir quanto apetece
Com mais vehemente ardor: supplique e obtenha."
Tal se exprimio Coumourgi, o Visir bravo.
Foi resposta o brandir d'espadas, lanas,
Com mil acclamaes de raiva alegre.--
Silencio!-- senha estai attentos!--fogo!


XXIII.

Como quando esfaimados ruem lobos
De chofre sobre o bufalo soberbo,
Sem tremerem da trva catadura,
Do mugir fero, do escavar das plantas,
Nem dos minaces cornos assestados;
E elle ou lana por terra ou ergue aos ares
Os primeiros que accessos o acommettem,
Mas que no cego arrjo a morte encontro:
Assim o Musulmano invade os muros,
E no impeto primeiro  repellido.
Alli rtos do bellico granizo,
Dispersos como vidro espedaado,
Quantos de bronze acobertados peitos
Ora juncando a terra, d'onde nunca
Se ho de levantar mais! Esto fileiras
Inda alinhadas, quaes na queda o estavo;
Jaz dos mais destemidos copia grande:
Tal, quando o dia  findo, e o labor cessa,
Vemos jazer sobre aplainados campos
A herva que o segador deixou ceifada.


XXIV.

Bem como, em viva preamar, se observa
D'algosos escarcos batida rocha,
E j minada dos diuturnos stos,
Soltar enormes lascas alvejantes,
Que com fragor horrsono se abatem,
Assemelhando ao torreo de glo
Que Alpinos valles despenhado aterra:
Assim os de Corintho habitadores,
A final quebrantados, exhauridos,
Foro na ruina atroz precipitados
Pelo acintoso impulso recrescente
Das cerradas cohortes Musulmanas.
Elles insistem firmes, e, na queda,
O furor do Infiel os prostra em massa.
Pelejo brao a brao, e planta a planta;
E nada, excepto a morte, alli  mudo:
Impetos, golpes, empuxes, clamores
Ou a pedir quartel, ou de victoria.
Reunidos ao troar increbescente
Dos bellicos troves, e ao temeroso
Estrondo da batalha encarniada.
L vo disseminando susto immenso
Por longinquas cidades, d'igual modo
Que se estivessem sob o golpe infesto,
E j dentro o inimigo as depredasse;
No d'outra sorte que se proprio fra
A excitar sensao ou triste ou leda
Aquelle som que anniquilar s sabe,
E que, varando dos soturnos montes
As entranhas durissimas, se expande
Em pavorosos cos desusados:
L os ouvio Megra e Salamina,
E, se no exaggera a voz do vulgo,
T na enseada do Piro troro.


XXV.

Em rijo e solto embate retinindo,
Sabres, espadas, desde a ponta aos copos,
Gotejo sangue; mas entrados foro
Os muros j, e eis principia o saque,
E apz elle a feroz carnificina.
Rompe dos edificios depredados
Medonha confuso de agudos gritos:
Escuta quo velozes na fugida
Vo ps escorregando em quente sangue,
Que as ruas deixou lbricas: no em tanto
Aqui e alm, onde o terreno offrea
Contra o fero invasor qualquer vantagem,
Onde algum lano de parede ou muro
Lhes proteger as costas, ento elles,
Aos dez, aos doze, em mal parados grupos,
Logo alli fazem alto,--alli renovo
Desesperada briga audazes, firmes,
Ou co'as armas na mo perecem todos.
Eis a p firme um ancio l surge;--
De cs lhe alveja povoada a fronte;
Porm vigor pujante lhe robora
O veterano pulso: no se altera
Seu bisarro dendo, entre o bulicio
Do revlto brigar; tem por trincheira
Semicirculo espsso d'inimigos,
Que hoje uns sobre outros apinhava mortos;
Ferve em dura peleja no ferido,
E sabe retirar-se no cercado.
Sob a loriga refulgente esconde
Dos certames d'outr'ora as cicatrizes
Innumeraveis; que de toda a especie,
E o corpo inteiro lhe crivro golpes.
Em despeito d'aquella ancianidade,
 de to ferreos membros, que difficil
Fra d'igual jaz achar-se um mo:
E os inimigos, que empatados tinha,
Pullulavo-lhe alli mais numerosos
Que as prateadas cs da fronte altiva;
Mas apoucando-os vai a forte dextra.
Muitas mis Othomanas prantero
Filhos que, quando pela vez primeira
Elle a espada tingio em sangue Turco,
Inda no ero nados, e hoje expiro
Antes de perfazerem lustros quatro.
Bem poder elle ser o av de quantos
N'este dia immolou s iras suas:
Vingando um filho que perdra ha muito,
Vai dos contrarios seus matando os filhos:
E desde quando o desvelado joven,
Unica prole varonil que tinha,
Morreo a combater no undoso estreito
Que d'Asia o cho divide do d'Europa,
Logo o pai prometteo sacrificar-lhe
Sanguinosa hecatombe d'inimigos,
Ceifada ao golpear do ferreo brao.
Se o morticinio pacifica as sombras,
Nem mesmo de Patroclo aos manes coube
Jbilo igual ao que sentir devio
Os do joven Minotti. Sepultado
Ficou seu corpo nas oppostas praias,
E ora privados de sepulcro n'estas
C fico mil para milhares d'annos.
Qual d'elles escapou que referisse
Como os outros morrro, e onde jazem?
Lousa nenhuma os cobre, no lhes guarda
Nenhum tumulo as cinzas: entretanto
Vivem e viviro no immortal plectro.


XXVI.

Qual clamoroso _Allah!_--um tero avana
De tropa Musulmana a mais affouta,
E de pulso melhor: vai-lhe na frente,
Nervoso, nu t o hombro, e em moto ondeante
Brandindo o ferro, e sobranceiro a todos,
Do commandante o brao, que expedito
Sabe ferir, e perdoar no sabe.--
Outros embora em mais pomposo traje,
D'espolio ao inimigo a sde ateem;
Sejo embora muitos os que empunho
D'aureo lavor custosas cimitarras,
Que de nenhuma escorre tanto sangue;
Ostentem muitos adornada a fronte
De turbantes mais altos, mais airosos;--
Alp  s conhecido por aquelle
Brao nu, que branqueja levantado.
Ei-lo campea onde mais arde a briga!
No se arvorou pendo sobre estas praias
Que mais destro as fileiras anteceda;
Jmais, durante a Musulmana guerra,
Se despregou bandeira que attrahisse
De to longe os Delhs: sempre o distinguem
A lampejar como cadente estrlla!
Onde quer que este brao prepotente
Uma vez se mostrou, logo os mais bravos
Surdem todos alli, ou tarde chego;
Alli quartel o ignavo em vos clamores
Ao vingativo Tartaro supplica;
Alli o here, no cho deitado e mudo,
Nem quer que quando morre um ai lhe escape,
E inda com tibio golpe derradeiro
Invade o antagonista, que no menos
A par de si prostrou; e bem que expire
To alquebrado das feridas mutuas,
Raivando afferra o ensanguentado slo.


XXVII.

O ancio, persistindo inabalavel,
Oppr consegue momentaneo estrvo
D'Alp  carreira atroz.--"Cede, Minotti:
Salva todos os teus, attende  filha."
--"Nunca o vers, vil renegado, nunca!
Nem tinha eu de annuir inda que fosse
Vida eterna essa vida que me off'reces."
--"E Francina!--e a futura minha noiva!
Queres, assim teimoso resistindo,
Ser tambem causador da morte d'ella?"
--"Ella est mui a salvo."--"Onde? em que sitios?"
--"No Ceo, d'onde banida para sempre
Foi tu'alma aleivosa,--e onde Francina
Vive longe de ti, vive sem mancha."
Alp, a taes vozes, titubante, anciado,
Fica no d'outra sorte que se o peito
Lhe traspassasse truculento golpe;
E de Minotti despontou nos labios
Irnico sorriso de vingana.

"Oh Deos! quando expirou?"--"Inda esta noite;
Mas do espirito seu no choro a ausencia,
Antes flgo de ver que c no deixo
D'esta minha linhagem nobre e pura
Ninguem que haja de ser misero escravo
De Mafamede ou teu. Anda, acommette!"
Baldado desafio! Alp  j morto.
Ao tempo que Minotti lhe vertia
N'aquellas expresses criminadoras
Todo o fel da vingana, e que mais cruas
Que a propria ponta de budo alfange
Ellas varavo Alp, eis va o golpe
D'um templo no distante, defendido
Com incriveis primores de firmeza
Por esse dos Christos ultimo resto,
Que to minguado e d'esperana exhausto,
Inda de l fazia esforos grandes
Para o combate restaurar fallido:
E antes de descobrir d'onde assestada
Lhe foi a lethal bala sibilante,
Alp o cerebro tem varado d'ella,
E voltea, e vacilla, e cahe por terra:
Lampejou-lhe ante os olhos claro debil,
Quando vergou para no mais erguer-se,
Ficando apenas palpitante tronco,
Que ei-lo envolvido jaz na noite eterna.
N'elle indicio no ha que vida inculque,
Salvo o tremor dos membros onde o tiro
Deixou menor estrago. A ponto acodem,
E de costas o estendem: rosto e peito
Lhe esto manchados de poeira e sangue,
E jorra-lhe da boca o vital fluido,
Que as cavernosas veias desampara;
Mas no lateja o pulso, no se escuta
Nos labios murmurar-lhe o arranco extremo;
Nem sequer um suspiro, uma palavra,
Um penoso arquejar, lhe assignalro
O transito fatal da vida  morte.
Antes que o pensamento levantasse
Em spplica contrita, ro nefando,
Se apresenta aos umbraes da eternidade,
Sem que ao perdo celeste aspirar possa,
E na vida e na morte--Renegado.


XXVIII.

Ento d'um lado e d'outro aos ares sobe
Espantoso alarido retumbante:
Aqui, de regozijo; alm, de raiva.
Eis de novo travadas em conflicto
Espadas de Christos e Turcas lanas
Embatem com furor, mutuo golpes,
Estendendo no p guerreiros muitos.
Ousa, de rua em rua e passo a passo,
Minotti disputar aos inimigos
Qualquer poro restante do terreno
Que ao seu bravo commando fra entregue:
Ao lado, a reforar-lhe audacia e pulso,
As sobras tem da guarnio briosa.
Resistencia tenaz off'rece o templo,
D'onde predestinada veio a bala
Que em grande parte despicou Corintho,
Morto Alp, o mais feroz de seus contrarios
Para alli recuando sem desvio,
Deixando diante ensanguentado rasto,
E os inimigos encarando sempre,
E nunca sem matar vibrando um golpe,
O chefe e o seu cortejo, em retirada,
Conseguem reunir-se aos que occupavo
A sacra estancia: no recinto d'ella
Inda lhes cabe respirar um pouco,
Das macias paredes escudados.


XXIX.

Remanso bem mesquinho! Os Musulmanos,
De pujante refro abastecidos,
Borbotando furores e ufania,
To cerrados, to frvidos avano,
Que o nmero lhes tolhe a retirada:
Dest'arte se atravanco no caminho
Que vai ao templo, onde os Christos no sabem
O que  render-se; e os batalhes infestos
Tanto apinho-se  frente, que, inda quando
Lavrasse o susto alli, nenhum podra
Por entre as fortes massas escoar-se:
Ou vencer ou morrer lhes era fra.
Morrem; mas sobre os corpos palpitantes
Lhes surgem de repente os vingadores.
Que, frescos e raivosos pullulando,
As filas, sempre rtas, enchem sempre;
E os Christos affadigo, extenuo,
Violentas amiudando as investidas:
E ei-los agora os Infieis assomo
Junto ao sacro portal. Por longo espao
A ferrea contextura inda resiste,
Inda de cada fresta vo tiros,
Todos bem assestados, mortaes todos;
E de cada janella se desato
Em chuveiro as sulfureas alcanzias.
Mas j fraqueo as nutantes portas--
Vrgo rangendo os quicios, cede o ferro,--
L pendem--l se abatem j cahro:
No mais resistir, morreo Corintho!


XXX.

Soturno, sem que o vejo, s comsigo,
Ao altar arrimado est Minotti.
D'um painel sobranceiro, a Virgem santa
O affavel rosto flgido lhe volve,
Transumpto de celeste colorido,
Onde os olhos so luz, amor o aspecto;
E na ara collocado a fim que possa
Dos humanos fixar o pensamento
Sobre as cousas do Ceo, quando elles oro
Devotos, genuflexos ante a imagem
D'esta Mi admiravel, que em seu gremio
Sustem e affaga o Redemptor-menino,
E com sorrisos acolhendo meigos
Uma por uma as fervorosas preces,
Como que ao Ceo de transferi-las cuida.
Sorrindo sempre, inda sorr agora,
Em despeito da atroz carnificina,
Do sangue em jrros que deturpa as naves.
Eleva ento Minotti os olhos lassos,
E, exhalando um suspiro, se persigna;
Logo alli d'uma tocha que era accesa
Ei-lo se apossa, e permanece firme,
Em quanto os Musulmanos irruindo,
Desenvolvendo  larga ferro e fogo,
Hrridos enchem a manso sagrada.


XXXI.

Sob a lagem que o vasto pavimento
Recompunha em mosaico variada,
Subterraneas abobadas se arqueo.
Jazigo aos mortos das passadas eras:
Em memorandas lpidas incisos
Lio-se os nomes seus, que ler no deixa
Ora o sangue que os cobre: aqui no menos
Vio-se, honrando as cinzas, esculpidos
Timbres, emblemas de lavor prestante,
Marmores luzidos, de vistosas
Multicolores veias serpeados,--
Que, srdidos j hoje, se baralho
Com fragmentos d'espadas, de montantes.
Com morries e arnezes abolados,
Confuso mixto que por cima avulta
D'innumeraveis atades, onde
Enfileirados os defunctos dormem:
Podes v-los em lugubre apparato,
Ao macilento albor que inda os visita
Por fisgas breves de sombrias grades.
Mas nem por isso desistio a Guerra
D'entrar por estas lobregas cavernas,
Com trva profuso disseminando
Das sepulcraes abobadas ao longo
Seus thesouros sulfureos, que se elevo
Empilhados em massas volumosas
Junto dos resequidos esqueletos.
Aqui, durante o crco, havio feito
Seu paiol os Christos: longo rastrilho,
Desde agora entornado, se encaminha
Do templo a estes sitios; e eis o extremo
Recurso inabalavel de Minotti
Contra o poder das irruentes turmas.


XXXII.

O inimigo enche tudo; e poucos tento
Inda arrost-lo, ou mui de balde o arrosto.
Elle,  falta de vivos, vai nos mortos
Saciar da vingana a voraz sde,
Que exacerbou-se agora; elle os invade
Com sacrilegos golpes, e decepa
Cabeas j finadas, e dos nichos
As estatuas despenha baqueantes,
E as aras despe d'oblaes opimas,
E co'as callosas mos profanadoras
O argento empolga dos sagrados vasos.
Chegada apenas a caterva infrene
Ante o altar principal, detem-se e pasma:
Oh qual o adorna resplandor pomposo!
Sobre a pedra lhe surge bem patente
O consagrado Caliz, ouro estrme,
Prsa que enleva os depredantes olhos,
A fulgurar macia e ponderosa:
Hoje conteve o sacrosanto vinho,
Que Christo em sangue seu mudar dignou-se,
E com que, ao romper d'alva, os seus cultores,
Antes de pelejar, fortalecro
As almas ao dever e ao Ceo votadas:
Inda no fundo remanecem gotas;
E tambem, circumdando a sacra mesa,
Em symetria esplendida dispostas,
Ardem lampadas doze d'ouro fino:
Este o mais opulento e ultimo espolio.


XXXIII.

Apinho-se alli todos; e o que estava
Da prsa mais visinho, faz-se avante,
E quasi quasi que a empolgava, quando
O longevo Minotti applica a tocha
Ao rastrilho fatal;--ei-lo se inflamma!
Campanarios, abobadas, altares,
Espolio, vivos, mortos, moribundos,
Christos vencidos, Turcos vencedores,
E o templo esboroado, e quanto ha n'elle,
Se ergue aos ares com hrrido rebombo,
E finda envlto na exploso terrivel!
A cidade abalada--o cho coberto
D'edificios, de muros demolidos--
As ondas que recuo, de assustadas--
Os montes, seno rtos, vacillantes,
Como se os sacudisse um terremoto--
De milhares d'objectos mixto informe
Que os Ceos toldando vai de fogo e fumo.
Ao rebentar da horrtona lufada--
No cesso de apregoar que n'estas praias,
Ha longo tempo, afflictas, terminou-se
Dos combates o mais desesperado.
Como accesa em girandolas festivas,
L roa os astros a confusa mole.
Vares no poucos d'estatura ingente,
D'apparencia gentil, ora abrasados,
Curtos como pigmeos, descem dos ares,
Em torrado carvo juncando a terra.
Grossa chuva de cinzas se despenha:
Muitas recebe o golfo, e, ao receb-las,
Frma em trno escarcos, que se desfazem
N'um progresso de circulos undosos;
Muitas recebe a praia, e vo, por longe
Disseminadas, recobrir todo o isthmo:
So cinzas de Christos ou d'Othomanos?
Suas mis se aproximem, venho v-las,
E digo se as conhecem!--Por ventura
Houve alguma de vs,  desgraadas,
Que quando aos peitos lhe pendia o filho,
Ou no embalado bero o adormentava,
E, sorrindo d'amor, se comprazia
N'aquelle brando repousar donoso,
Ai! houve alguma ento que nem por sombras
Esperasse este dia, ou ver dispersos
Da cara prole os lacerados membros?
Nem sequer, nem sequer as extremosas
Matronas que no ventre os alojro
Estremar sabem os nascidos d'ellas;
Um s momento lhes tirou de todo
Frma e semblante d'homens; resta apenas
Algum disperso pericraneo ou osso.
Barrotes, vigas flammejantes descem,
E em redor se derramo; vem cahindo
Engastadas em barro infindas lagens,
Que o slo opprimem fumegantes, negras.
Todo o vivente a quem troou no ouvido
O abalo estragador, prego de morte,
Ou jazeo ou sumio-se: espavoridas
O vo affasto carniceiras aves;
Bravos ces vo-se arredando em uivos,
Nem se lhes d dos insepultos mortos;
O camelo as prises deixou quebradas;
O touro, ao longe, se desfez do jugo;
O corsel, que o fragor ouvio de perto,
Rompendo a silha, espedaando as redeas,
A galope alongou-se pelo plaino;
As incolas dos charcos lutulentos,
Alando a boca sobremodo aberta,
Clamor soltro importuno em dbro;
Uivro pelas furnas das montanhas
Os lobos, quando alli a trovoada
Em cos retroou; l mui distantes,
As alcatas dos jakaes bramro
Com mixto som, que, lamentoso e agudo,
Ora imitava criancinha em chros,
Ora lebro ganindo fustigado:
Esbaforida accelerando os vos,
A aguia desamparou a rocha alpestre,
Onde aquecia o ninho, e remontou-se
Mais proxima do sol, achando crassas
Em demasia as sotopostas nuvens,
Que vinho, d'atro fumo conglobadas,
Roar-lhe o bico amedrontado, hiante,
Mais e mais excitando-a a sublimar-se,
E o grito a reforar.--Eis de qual modo
Conquistada e perdida foi Corintho.

FIM.




NOTAS ABREVIADAS.


NOTAS ABREVIADAS.


II.--_vers._ 14.

    Dando de mo  grei, o Turcomano
    Prestes unio ao lado a cimitarra.

Domiciliados debaixo de tendas, vivem estes povos uma vida patriarcal.


V.--_vers._ 1.

    Coumourgi--aquelle etc.

Ali Coumourgi, valido de tres sultes, e gro visir de Achmet III,
havendo retomado em uma s campanha o Peloponeso aos Venezianos, foi, no
seguinte anno, mortalmente ferido na batalha de Peterwaradin, quando
forcejava para reunir suas tropas.


XVI.--_vers._ 4.

    Coarctados e sem sto, aquelles mares
    Em moto igual ondeo sempiternos.

 talvez desnecessario recordar ao leitor que o movimento do fluxo no 
visivel no Mediterraneo.


Ibi--_vers._ 42.

    Ei-los que esto da pelle despojando
    Nest'hora um craneo Tartaro, etc.

Este espectaculo, qual o descrevo, foi por mim presenciado sob os muros
do serralho de Constantinopla; e os cadaveres ero talvez os de alguns
Janizaros rebeldes.


Ibi--_vers._ 59.

    E cada pericraneo off'rece a esguia
    Madeixa longa, etc.

Crm os Musulmanos que o seu Mafma, no ponto de transferi-los ao
Paraiso, os tomar por esta madeixa; e, firmados sobre to supersticioso
fundamento, a deixo crescer.


XXI.--_vers._ 94.

    Essa nuvem que esconde agora a lua,
    L vai passando, etc.

Este pensamento no  original, por quanto deparei com elle na verso
ingleza de Vathek.


XXII.--_vers._ 11.

    ---------- Da terra prestes
    Descravo-se os pendes equi-caudatos.

De uma cauda de cavallo, fixa no alto de uma lana, so compostos os
pendes dos Bachs.


XXV.--_vers._ 51.

    Morreo a combater no undoso estreito
    Que d'Asia o cho divide do d'Europa.

Na batalha naval que os Venezianos travaro com os Turcos  entrada dos
Dardanellos.


FIM DAS NOTAS.




      *      *      *      *      *

P. S. _Escrevemos accentuada e sem_ h _a 3. pessoa do singular no
indicativo presente do verbo substantivo ser, e igualmente sem_ h _o
adjectivo numeral um, por nos parecerem terminantes as razes em que 
fundado este uso. Por certo que nem sempre adherimos  opinio de nossos
Grammaticos e Diccionaristas modernos, com quanto sejo alguns de
reconhecida erudio; e em meia duzia de paginas, que talvez
publicaremos, ho de apparecer indicados os pontos e expendidos os
motivos d'esta divergncia. Pelo que toca  exactido typografica do
Poema que apresentamos traduzido, empregou-se ahi mui boa diligencia: 
pois de presumir que ser leve e de facil emenda o defeito que ainda
remanecer._





End of the Project Gutenberg EBook of O Cerco de Corintho, poema de Lord
Byron, traduzido em verso portuguez, by George Gordon Byron

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O CERCO DE CORINTHO, POEMA ***

***** This file should be named 33592-8.txt or 33592-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/3/3/5/9/33592/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
