The Project Gutenberg EBook of Entre o caff e o cognac, by Alberto Pimentel

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Entre o caff e o cognac

Author: Alberto Pimentel

Release Date: July 16, 2010 [EBook #33182]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE O CAFF E O COGNAC ***




Produced by Pedro Saborano





                            ALBERTO PIMENTEL

                        ENTRE O CAFF E O COGNAC




                                 PORTO
                          IMPRENSA PORTUGUEZA
                         Rua do Bomjardim, 151
                                 1873


                     *      *      *      *      *


                        ENTRE O CAFF E O COGNAC


                     *      *      *      *      *


                            ALBERTO PIMENTEL

                        ENTRE O CAFF E O COGNAC




                                 PORTO
                          IMPRENSA PORTUGUEZA
                         Rua do Bomjardim, 151
                                 1873


                     *      *      *      *      *




                          Ao seu presado amigo

                          Manuel Lopes Martins

                                Offerece


                                      O author.




                     *      *      *      *      *


Obrigado a dar folhetim original aos domingos no _Primeiro de Janeiro_,
era s sextas feiras, entre o caff e o cognac, que eu, reclinado no
espaldar da poltrona, procurava assumpto.

Este livro, em que se grupa a maior parte dos folhetins de sete mezes,
foi pois meditado entre o caff e o cognac.

Fica explicado o titulo.

                     *      *      *      *      *




O GABINETE DE CAMILLO


Eu j citei algures estas palavras de Alexandre Dumas pae: Ha sempre
nos moveis que vos cercam alguma cousa de vs mesmos.[1]

To profunda verdade, se carecesse de demonstrao, encontral-a-ia no
gabinete de Camillo Castello Branco.

 aquelle um templo consagrado unicamente  Arte. Alli tem altar a
pintura, a archeologia, a historia natural, e a litteratura. Presente-se
que se est no gabinete d'um grande romancista porque se adivinha a
historia de cada quadro, a novella de cada movel, a epopa do tinteiro
de metal amarello d'onde ha pouco mais de vinte annos tem nascido para
gloria das letras portuguezas cerca de cem livros. Tudo alli falla.
Ha idillios de saudade suavissima a murmurar ao de cima dos silenciosos
companheiros da mocidade; ha marcos milliarios que rememoram successivas
phases da vida do escriptor. Os verdadeiros amigos de Camillo so
aquelles. S elles guardam o segredo de intimas commoes, que parecem
vibrar ainda em novellas escriptas ha doze annos, e que primeiro lhe
arrancaram lagrimas a elle do que a ns. O talento de Camillo  nosso:
estamos ha longo tempo familiarisados com elle; tanto o estimamos, que o
vamos procurar mal que se annuncia um livro novo. Ns lemos o livro j
enroupado em galas de estremada linguagem; mas o seu gabinete l o
esboo da novella tal como lhe sahiu do corao. Ns vemos a estatua; o
seu gabinete v Pigmalio. Quando as lagrimas nos chegam a ns j as
sentimos dulcificadas pela amenidade da phrase. No as vemos;
conhecemos-lhes apenas os vestigios. Mas o seu gabinete viu-as. O mesmo
 pelo que respeita a personagens. Ns conhecemos o retrato; o gabinete
conheceu o modelo. Camillo tem feito a historia de muito homem; s o seu
gabinete poderia fazer a historia de Camillo. Ns temos o romancista; o
gabinete tem o homem. Ainda mais. Se os moveis quizessem fallar,
revelariam o romance de muito escriptor portuguez, que elles tm
conhecido e ouvido em intimas praticas, ora contando os seus desalentos,
as suas maguas, os seus queixumes, ora arroubando-se em enganosos
sonhos, em esperanas quasi sempre mentidas, em aspiraes poucas vezes
realisadas...

Todavia o leitor denuncia-se impaciente de entrar ao gabinete de Camillo.

Entremos pois.

Corrido um reposteiro, estamos n'uma alegre e clara sala
_-rez-de-chausse_. Logo nos fascina o pittoresco do _ensemble_. No 
o gabinete de Lucullo;  o escriptorio d'Horacio. No ha iriados
reflexos de crystaes e marmores. Encontramos apenas o _atelier_ do artista.

Dizem para a rua duas largas janellas; transparentes amarellos modificam
a claridade exterior.

No desvo da janella da direita casa-se com o angulo da parede uma
pequena mesa triangular coberta de panno amarello; o desvo da janella
da esquerda  occupado por uma gaiola, priso d'um _viuva_, ave cujo
nome procede de se vestir de negro duas vezes ao anno.

 a _viuva_ o primeiro cuidado de Camillo quando entra ao seu
escriptorio; vae vel-a, fallar-lhe, examinar se lhe faltam as regalias
indispensaveis para tornar suave a carceragem.

 parede interposta s duas janellas fica encostado o fogo sempre
chammejante de intenso brasido; sobranceiras ao fogo pendem uma gravura
representando Lacordaire, e um quadro com o retrato de Vieira de Castro.
Visinha do fogo est a priguiceira de palha, onde o romancista, ora com
os ps no _fender_, ora resguardados no _couvre-pied_ de feltro, procura
repousar-se para o trabalho, intercortado de pequenas pausas, lendo os
jornaes do dia e atiando o fogo.

Entre a janella da direita e a porta, encimada por um quadro a oleo
que representa as armas da casa de Cadaval, ha uma banca com tinteiro de
prata e uma cesta de palha cogullada de cartes de visita, que a meu vr
so o verdadeiro bosquejo historico da litteratura portugueza. O
erudicto padre Cardoso, se tivesse conhecimento d'esta cesta, poderia
augmentar consideravelmente a sua synopse com os nomes de notabilissimos
escriptores portuguezes desde Garrett a esta parte.

Este lano de parede est adornado com os retratos da familia de Camillo
e com um quadro a oleo reputado de Murillo por pessoas sobremodo
competentes em assumptos de pintura.

Na continuao d'esta parede encontramos uma _etagre_ de pau preto com
romances francezes e inglezes; sobrepostos  _etagre_ os retratos da
familia Ouguella, uma paisagem ingleza a oleo, o collar da academia real
das sciencias que pertencera a Vieira de Castro, e uma valiosa placa de
prata que apresenta em relevo a imagem de Santo Antonio.

Segue-se uma mesa sustentando uma estantesinha entre cujos livros
notaremos as obras de Filinto Elysio; sobre a estantesinha ha um
relogio; superior um quadro anonymo a oleo, figurando o _Eden_; aos
lados duas gravuras francezas, uma assignada por Desjardins--_L'aprs
dine_--, outra assignada por Paul Girardin--_La Benediction
paternelle_, e a photographia de Jos Barbosa e Silva, deputado que foi
da nao, e auctor do romance _Viver para soffrer_.

Avultam no angulo duas _etagres_ com livros e bustos.

Cobrem a parede do fundo duas estantes envidraadas, sobranceadas por
quadros a oleo, bustos de escriptores estrangeiros, rumas de livros, e
pela caixa que guarda o chapo do uniforme de socio da academia
pertencente a Vieira de Castro.

Encostada  parede fronteira  porta d'entrada ha uma estante, e
pendentes varias gravuras, retratos, e pinturas.

Uma das gravuras assignada por Granville representa o lance do _Medecin
malgr lui_ em que Sganarelle diz a Gronte: _Voil justement ce qui
fait que votre fille est muette_; ha ainda duas gravuras, copias de
Horacio Vernet, denominadas _Le dernier morceau de pain_ e _Le dernier
ami_, que o romancista possue desde os vinte annos.

Resaltam tambem d'este panno dois quadros a oleo, um relogio de parede,
uma copia da Virgem da Cadeira, o espadim de Vieira de Castro, e os
retratos de Thomaz Ribeiro, Vieira de Castro, Jos Julio d'Oliveira
Pinto, Francisco Martins, e morgado de Pereira, actualmente em Africa,
senhor da honra e solar de Esmeriz, antigo solar dos Pereira Forjazes,
de Riba d'Ave.

Por estes sinceros amigos d'outros tempos, Vieira de Castro, Jos
Barbosa e Silva, Jos Julio d'Oliveira Pinto, hoje cadaveres, sente
ainda o corao de Camillo pungentissima saudade. No ha ahi encontrar
memoria mais tenaz em recordar desgraas alheias, e alma mais
devotada a carpir as angustias d'esses notaveis homens que pereceram
deixando immoredouro nome  historia portugueza mais deslembrada do que
elles valiam do que o amigo que os prantea ainda no remano meditativo
do seu gabinete.

Em seguida  estante deparamos uma jardineira com candeeiro, albuns, e
uma urna de prata offerecida pelos portuguezes de Hongkong, como consta
da inscripo gravada na mesma urna:


                          AO ILL.mo E EX.mo SNR.
                         CAMILLO CASTELLO BRANCO
                                   O.
                              OS SOCIOS DA
                          BIBLIOTHECA PORTUGUEZA
                              DE HONGKONG
                                  1869.


Immediatamente  jardineira ficam o soph e as poltronas d'estofo
vermelho com ramagens cinzentas. As demais cadeiras so de pau preto com
molduras douradas.

Entre o soph e a janella da esquerda est collocado um contador sobre o
qual assentam rumas de livros e outro candeeiro.

Resta-nos fallar d'uma estante de musica, que serve de banca a Camillo,
quando por incommodo de saude no pde lr sentado, para chegarmos 
mesa onde habitualmente escreve, posta  esquerda da porta d'entrada.

So unicos adornos da sua banca um tinteiro circular de metal amarello,
um cinzeiro de loia, uma cabea de metal onde archiva as cartas
recentemente recebidas, livros depositados a um e outro lado, e tiras de
papel que Camillo Castello Branco infatigavelmente enche todos os dias.

Da banca para o fogo facilmente se deslisa ao longo do tapete que cobre
todo o pavimento.

Sigamos este breve trajecto para nos repotrearmos na priguiceira de
palha em que provavelmente se reclinou o imperador do Brasil, que
Camillo Castello Branco presenteou com um quadro dos reis de Portugal
at D. Joo IV.

Relanceemos ainda um olhar a este mudo conjuncto de coisas inanimadas
que o romancista estima como partes integrantes de sua familia.
Parece-nos porm ouvir passos no corredor.  decerto Camillo que vem
retomar o seu posto de todos os dias. Soou a hora de trabalhar. Antes de
sentar-se, festejar a ave da gaiola, aquecer ao fogo as mos
enregeladas, e abancar depois para escrever um dos ultimos capitulos do
romance _Herana de Londres_ ou para traduzir primorosamente algumas
paginas do _Diccionario de educao_, de Campagne.

Antes que o artista entre ao seu _atelier_ e retome a penna que descana
sobre o tinteiro desde o alvorecer da manh, saiamos ns, os que no
temos direito a surprehender o escriptor na doce quietao da sua vida
intima.

Entre o romancista que est escrevendo a novella cujo entrecho ser
amanh conhecido das classes menos abastadas da sociedade portugueza e
das mais remotas provincias, interpe-se hoje o reposteiro que separa o
escriptor do homem.

      *      *      *      *      *




O PRIMEIRO DE JANEIRO


O _Primeiro de Janeiro_  como os viajantes que teem de partir ao romper
da manh: passa a noite a fazer a mala.

Quem vae de jornada prepara-se para todas as eventualidades: mette ao
sacco seis lenos supranumerarios para uma constipao; a casaca para
uma _soire_ inesperada; um frasco d'agua sedativa para uma nevralgia;
dois livros para uma hora d'aborrecimento; os sapatos de borracha para
um dia de chuva. Ainda como o _touriste_, o _Primeiro de Janeiro_
dispe-se a poder satisfazer todas as reclamaes que o assaltem no
caminho: para os impacientes leva na mala os telegrammas, para os
negociantes as cotaes, para os politicos o artigo, para os ociosos o
folhetim, para os alviareiros as noticias, para os interessados os
annuncios, e para as senhoras as modas.

Os passageiros vo sentados no vehiculo; elle vae a correr pelo caminho.
Quando o comboyo parte, apparece-lhes nas Devesas; quando chega a
Aveiro, encontram-no na estao; quando passa em Coimbra, o _Primeiro de
Janeiro_ salta aos vages e diz aos viajantes engalfinhando-se na
portinhola: _Aqui estou!_

Que prodigio de ubiquidade  este? Como  que o jornal chega primeiro
que o homem! Ah!  porque o homem  o barro, e pesa, e o jornal o
pensamento, e va. Nasceu da faisca electrica e do vapor;  irmo gemeo
da locomotiva. O comboyo leva o homem; o jornal o pensamento. O motor
d'um  a machina; o do outro o espirito humano. So os passaros da
civilisao, as aguias do progresso. Por isso Arsenio Houssaye disse: O
jornal  a ave errante que atravessa o mundo: prendei-lhe a vossa ideia
 asa, e a vossa ideia florir nos mais remotos desertos.

Nada ha menos complicado que o jornal e mais complexo que elle:  a
sociedade, a raa, a civilisao e o seculo.  o thermometro que mostra
o grau da vitalidade popular, a lente que reproduz a lucta das geraes,
o melhor historiador e a melhor historia.

Poderemos chamar ao _Genesis_ o jornal da creao do mundo, o que nos
leva a crr que esta manifestao do pensamento publico no data
unicamente dos tempos de Guttemberg, mas vae pelas idades a dentro
procurar origem no _fiat_ creador que deu frma e movimento ao nada. 
medida que a intelligencia do homem ia profundando a sonda n'este mar de
bellezas infinitas que o verbo creador espraiou entre as balisas do
universo, e se foram arando os mares, e desbravando as florestas, e
povoando cidades e consolidando imperios, a vida das naes tomou um
incremento que se no poderia registar em longas chronicas, como os
commettimentos da antiguidade, seno que dia a dia, hora a hora, momento
a momento. A personalidade moral do homem dilatou-se e, na
impossibilidade material de estar em toda a parte, diffundiu o seu
pensamento em particulas que voaram aos grandes centros attrahidas pela
gravitao que regula a harmonia das sociedades. Ento o jornal renasceu
de si mesmo, multiplicou-se, e comeou a collaborao universal dos
povos  beira da prensa d'onde todos os dias parte o mensageiro alado a
sacudir da plumagem as ideias que o homem lhe prendeu.  o correio do
mundo, o postilho dos seculos; anda sempre e no cana. Cada gerao
tem o seu temperamento collectivo, as suas paixes, as suas luctas, os
seus revezes e os seus triumphos. O jornal, que  tudo isso, ir
resuscitando amanh do tumulo que se fechou hontem, e acompanhar o
movimento febril das geraes que se succedem. O que viajar mais
depressa, ser sempre o mais querido. Espera-o a officina e o albergue
com a impaciencia de quem sabe a hora a que deve chegar um mensageiro. A
velocidade  indispensavel, mas ainda no  tudo.  preciso que o jornal
no seja egoista, no roube ao operario o po do corpo para lhe dar o
po do espirito, que no esbulhe as creanas do patrimonio que o salario
do pae vae dilatando cada dia. Urge pois que o jornal tenha azas
para chegar depressa, e que reuna  velocidade a modicidade para
sustentar equilibrio entre a receita intellectual, que o jornal
representa, e a receita economica, que o trabalho produz.

O _Primeiro de Janeiro_ reune estas duas condies maximas, que se
completam pela sanidade da doutrina, e mais d'uma vez tem nas primeiras
horas do dia entrado ao albergue e  fabrica firmado pelos primeiros
escriptores do paiz. Realisa o _desideratum_ que em 1848 intensamente
preoccupava o espirito de Alphonse Karr: Eu publicava ento em
Paris--diz o author das _Tresentas paginas_--um jornal a 10 reis, no
qual collaboravam os nomes mais celebres e mais festejados. Queriamos
vr se as classes populares preferiam--como pensam alguns--o vinho tinto
das barreiras ao Chteau-Laffitte e ao Rheno;--queriamos fazer a
experiencia e dar-lhes o Chteau-Laffitte e o vinho do Rheno pelo preo
do vinho d'Argenteuil. Por dez reis--o preo das mais grotescas e das
mais odiosas especulaes--fazer vender um jornal bem impresso, em bom
papel, com artigos dos mestres da litteratura.

O _Primeiro de Janeiro_ entrou abroquellado no certamen. Quiz vr se o
povo preferia o vinho da Bairrada ao vinho do Porto, e conheceu que era
essa uma calumnia de pessimistas aristocratas. O povo lia a _Formosa
Mangalona_ e o _Vicente marujo_ porque lhe no facultavam um jornal que
simultaneamente lhe ensinasse as evolues do mundo physico e do mundo
moral, no porque o jornal tivesse a preteno de resumir em si a
sciencia universal, mas porque da natureza mesma dos assumptos do dia
derivavam os conhecimentos que o jornal espalhava. Trabalhou para lhe
dar o vinho do Porto pelo vinho da Bairrada, e provou que a inanidade
das classes baixas provinha do abuso da zorrapa com que dessedentavam o
espirito diante da litteratura de cordel e cego andante. Luctou,
batalhou, e conseguiu dar ao povo, por dez reis, um almoo de politica e
litteratura,--o romance das naes e o romance dos homens.

Alphonse Karr, quando estava empenhado em to santa crusada, devotou-se
inteiramente a ella; no visitava o seu jardim de Sainte Adresse;
esqueceu as flores e o mar. O _Primeiro de Janeiro_ vive igualmente para
o povo. Emquanto o povo dorme, vae o prelo imprimindo a ideia que pela
manh ha de saltar na rua.

Enxameiam  porta os _gavroches_ como soldadesca impaciente de dar
batalha. Esperam o almejado momento de transpr o limiar. E no phrenesi
do desespero saracoteam e gritam:

--Abram!

--So horas!

--J  tarde!

Sentem ranger os gonzos. Apinha-se a multido em vaga encapellada, e
entra de tropel. Os empregados da machina dobram os jornaes. O
distribuidor est de p.

    C'o a mo no junco, irado e no facundo,
    Ameaando a terra, o mar e o mundo.

--Que leva hoje?

--A novidade?

--Diga, diga!

 o cro dos _gavroches_ que pedem anciosamente o prego. O distribuidor
tem lido previamente o jornal. Faz signal de silencio e vota falla:

--Foi o raio que matou um homem.

Calam-se, _conticuere omnes_, a fixar na memoria o prego. O receio de
se esquecerem faz com que realmente se esqueam. L pergunta um:

-- o homem que matou o raio?

--Toleiro! Foi o raio que matou o homem.

So-lhes distribuidos os jornaes; os _gavroches_ rugem de impaciencia.
Para que no haja rivalidades, saem todos ao mesmo tempo.  um furaco
que passa.

Que sejam mancos ou no, pouco importa. N'aquelle momento todos teem
azas... nos ps, como Mercurio. Estala a multido na rua similhante a
bombarda.  a noticia, o telegramma, o romance, a politica que sapatea
no solo. Comea a vida no exterior. Sau o sol. E o operario antes de
trabalhar para o patro trabalha para si,--vae lr.

O que  feito do _Moienes_, do _Morte-scaloia_, do _Pintasilgo_, do
_Pau-preto_, do _Cacarac_? Desappareceram. Demoram-se apenas um segundo
para entregar o jornal e receber o dinheiro. Resta unicamente o _Jos
Custodio_, o melhor typo da colleco, sentado no passeio, repousando a
perna manca, a lr o jornal atravez da sua famosa luneta.  um grande
egoista o _Jos Custodio_. Antes de dar aos outros, quer para si. E
depois fia-se no seu talento comico, e sabe, dando ouvidos ao orgulho,
que os outros no vo mais depressa por ir primeiro. Basta-lhe apregoar
para vender. Esto agrupados os pedreiros a almoar. O _Jos Custodio_
vae mancando e gritando:

--Licena que veio do governo para os cdeas usar bigode!

O sapateiro, quando elle passa gritando, berra de dentro. O _Jos
Custodio_ esbofa-se a apregoar:

-- a morte d'um sapateiro que morreu entalado com um pino!

O _Jos Custodio_  o epigramma, a satyra, a mordacidade vibrante. Por
onde elle passa, incendeia o rastilho da curiosidade. At certo ponto,
encontrou um rival no _Jeronymo_, que tinha d'engenhoso quanto o _Jos
Custodio_ tem de mordaz. Eram os pimpes do rancho; _reinadios_ como
nenhum! O _Jeronymo_ affeioou-se a um co, ou o co se lhe affeioou a
elle. Comprou um carro de pau, que o fiel mollosso tirava, e onde levava
o jornal; a ideia do vehiculo suscitou-lhe a tentao de negociar em
larga escala. Comeou a vender por sua conta folhetos e repertorios. Era
um andar que luzia! Um dia aborreceu-se de ser feliz e desertou: o co
desertou com elle. Mas que imaginoso homem o _Jeronymo_! No tempo da
guerra franco-allem arranjou tres canas com encaixes de folha. A ultima
tinha no topo uma campainha, um gancho e um saquitel que se moviam por
correia. Sahia de noite o supplemento. Batia com a cana na vidraa,
a campainha tocava, no gancho ia o supplemento, o freguez abria a
janella, e o _Jeronymo_ descia o saquitel que trazia dentro dez reis.

Vejam que talento este!  prodigio!

Um cego muito conhecido, que ainda no encontrou co fiel e precisa de
ganhar a vida, assalariou um rapasinho que o conduz. O cego apregoa, e o
rapasinho recebe o dinheiro para vr se  falso.

E  assim que o jornal, que espalha a ideia, ampara a cegueira d'uns, a
vida d'outros, e a pobresa de todos.

Ol! So elles, os _gavroches_, que pedem o jornal d'hoje. Espera-se
unicamente pelo folhetim. Pois bem, o folhetim ahi vae.

      *      *      *      *      *




A AGUIA D'OURO

O QUE FOI E O QUE 


O dia 12 d'outubro de 1833 era de festa para todo o Porto, cidade que
vae sempre na vanguarda das iniciativas patrioticas.

Celebrava-se o anniversario natalicio de sua magestade imperial o senhor
D. Pedro de Alcantara, duque de Bragana, e regente do reino.

Ao amanhecer, ao meio dia e  noite salvaram as baterias das linhas de
defeza ao norte e ao sul do Douro. O general Stubbs, commandante do
exercito do norte, passou revista s tropas estacionadas em seus
acantonamentos nas linhas. Estiveram embandeiradas algumas ruas da
cidade e estoirou durante o dia muito fogo do ar.

Tanto que foi noite, houve illuminao geral, e abriram-se de par em par
as portas do theatro de S. Joo onde a _sociedade dos actores
nacionaes_, em commemorao de to faustoso dia, representara um elogio
dramatico denominado _Gloria de Lisia_, terminado o qual elogio o
governador das Armas da Provincia levantou vivas  familia real.

A _Chronica constitucional do Porto_, unico jornal que a esse tempo era
lido de portuenses, escrevendo do espectaculo diz que _diversas obras
Poeticas, e Hymnos encheram os intervallos do Drama que foi  scena_.

O snr. Joo Nogueira Gandra, proprietario da typographia onde se
imprimia a _Chronica_, publicou ao depois em opusculo todos os sonetos
que se recitaram n'essa noite e na seguinte, em que o espectaculo se
repetiu.

N'aquelles tempos com tal impetuosidade repuxava o patriotismo poetico
do imo peito, que no bastavam as breves horas d'uma noite a dar-lhe
vaso. Os vates incendidos em amor da patria ficavam com o metro
reservado para a noite seguinte, como hoje os nossos parlamentares ficam
com a palavra reservada para a sesso immediata.

Deixemos porm as bellesas de 1833 estadeando seus dotes naturaes nos
camarotes do theatro de S. Joo, enviesando olhares mais amorosos que
patrioticos aos cysnes que punham fra da balaustrada o pescoo, cujos
musculos se avolumavam apopleticamente quando a onda do estro refervia
nos gorgomilos enfartados.

Onde iremos ns levar a nossa mysanthropia, fugindo o congresso do que
mais selecto havia em ambos os sexos na sociedade portuense? Mais
selecto no podemos dizer, porque faltavam muitas pessoas da melhor
roda contemporanea, entre as quaes bardos que hoje se diriam satanicos,
e que antepunham o contacto das garrafas  contemplao de mulheres
formosas.

Esses taes leram na vespera o seguinte annuncio inserto na _Chronica
constitucional do Porto_:

Amanh sabbado 12 do corrente, se abre o novo Caff do Commercio na rua
nova dos Inglezes aonde se encontraro diversidades de Vinhos e Licores
engarrafados, Nacionaes e Estrangeiros.

A novidade do acontecimento e a perspectiva de lauto beberete devia de
attrahir numerosa concorrencia ao _Caff do Commercio_, que pela
primeira vez se abria n'essa noite na casa onde actualmente est o
escriptorio da companhia de seguros _Garantia_.

Em conformidade com a opulencia botiquineira d'esse tempo, o novo _Caff
do Commercio_ tinha cortinas de chita e mostrava sobre o balco uma
longa fila de copos, voltado para cima o fundo, que servia de base a um
limo.

Como ainda ento no estivessem arruinados pela dyspepsia os estomagos
nacionaes, e houvesse portuguezes que bebiam um quartilho de geropiga
com o simples condimento d'uma azeitona, eram minguadas as docerias nos
botiquins e ordinariamente limitavam-se a _melindres_ e _bichinhas_.
Quando porm os negociantes da baixa se sentiam enfraquecidos  hora do
_lunch_ ou da merenda, no se repletavam com assucarices de nenhuma
substancia. O petisco mais em voga eram ostras que vinham de Lisboa j
cosinhadas no unico vapor de carreira que ento havia, e que se
comiam no novo _Caff do Commercio_, a 60 rs. cada uma.

Calcule-se do consumo dos liquidos n'aquelle estabelecimento to
prosperamente aberto, depois de saber-se que os mais appetecidos e
procurados comestiveis eram ostras, mollusco sobremodo irritante para o
systema nervoso, e talvez causa primaria da depreciao da gerao actual.

Mas voltemos  abertura do novo _Caff_ solemnisada na rua dos Inglezes
com vistosa illuminao que sobrelevava as demais.

Apollo presidiu em espirito  bacchica tunantada.

Os vates empunharam as lyras e, por muito costumados  dedilhao, at
das bambas cordas tiraram muito correctos sonetos, mais lisongeiros ao
duque de Bragana que agradecidos ao proprietario do botiquim, no
obstante sentirem enervado o brao pela aco cada vez mais intensa dos
liquidos.

Parece que deposta a oitava-rima, por inopia de pojantes Cames, a frma
de metro mais patriotica n'aquelles tempos era o soneto, que, por muito
familiar que fosse a festa, havia forosamente de ser allusivo aos
acontecimentos politicos da epocha.

Um dos cysnes levantou o pescoo e modulou este soneto, que logo foi
distribuido pelos circumstantes:

    Se brama pelos Ceos da Liberdade
    O espantoso trovo da Tyrannia;
    Se cobrem trvas a Lusa Monarquia,
    Fulge o claro da antiga Heroicidade.

    Quanto cresce a despotica maldade,
    Assim dos povos o valor porfia,
    Com o _Chefe de Bragana_ por seu guia
    Enchem d'assombro a vindoura idade.

    Dias felizes, dias venturosos,
    Augura-nos o Ceo, em dons fecundo!
    _Maria_ e _Pedro_ nos faro ditosos.

    Daremos nobre exemplo  Europa, ao Mundo:
    Que os Povos de ser livres sequiosos,
    Calcam do despotismo o rosto immundo.

O segundo soneto afina pelo mesmo tom emphatico;

    Thronos ha tido o Mundo, que producto
    Foram to s de Leis, e sangue herdado,
    Quaes desde longo tempo celebrado
    Os gosa Portugal indissoluto.

    Outros no foram mais que excelso fructo
    Da Justia, e do Merito elevado;
    Qual Viriato, e qual Sertorio honrado,
    Reis ou Chefes por solido atributo.

    Taes houve, e ainda os ha, a quem Cobia,
    Ou Acazo erigio, contra seu Dono
    Fervendo a Execrao que a Raiva atia!

    A Segunda MARIA em seu abono,
    Em mais bases que as Leis e que a Justia
    Tem sobre coraes firmado o Throno.

O terceiro soneto troa assim:

    Se em nossa idade,  Jupiter, quizeste
    Com terrivel aspecto olhar a terra,
    Se os males todos da sanguinea Guerra
    Surgir do negro Barathro fizeste:

    A PEDRO tu doaste um dom celeste,
    Que ao fero Usurpador confunde e aterra:
    Monstro dos monstros, que no peito encerra
    Tartareas serpes que vomitam peste!

    PEDRO, d'altas virtudes coroado,
    Olha nos Luzos inconcusso abono
    De elevar sua Filha ao Solio herdado.

    Nunca Lisia hade ter intruzo Dono;
    Seu Rei  como os Numes adorado,
    E tem nos coraes firmado o throno.

Falta o quarto soneto;

    Nos faustos Ceos de Lisia triunfante,
    A Liberdade o grito levantando,
    Ferros ao Despotismo vai lanando
    De tmpera mais dura que o diamante.

    Do Throno o esplendor salva constante
    D'um principe brioso ao nobre mando:
    O Solio, quasi em terra, sustentando,
    Esmaga a Hydra de aspecto vacilante.

    Oh Principe ditoso, exulta, e vive,
    Para que esta Nao por Jove eleita
    Dos teus Decretos os seus bens derive.

    Da Patria, como Pai a olhar-te affeita,
    De Lisia, que na gloria hoje revive.
    Do salvo Povo, os coraes acceita.

No obstante o fallar-se de _coraes_ nas composies precedentes,
parece que a viscera mais attendida na bambochata era o estomago, e a
illuminao por igual abundante dentro e fra.

O dono da casa no tinha sobejos motivos para ficar lisonjeado da
amabilidade dos convivas que no fallaram d'elle nem do botiquim.

O certo  que n'aquella epocha em que no havia editores, os vates
lucraram duplamente com o brodio, porque ao depois se imprimiram os
sonetos na typographia Gandra, sendo cada soneto precedido d'estes dizeres;


                PUBLICADO E DISTRIBUIDO A 12 DE OUTUBRO
                              DE 1833:
                      POR OCCASIO DA ILLUMINAO,
             QUE NA RUA NOVA DOS INGLESES DA CIDADE DO PORTO
                  SE PATENTEOU N'ESSE DIA DE ABERTURA
                     DA CASA DE CAFF DO COMMERCIO


Custava o folheto, de quatro paginas, um vintem.

Se bem que os versos em 1833 estivessem mais baratos do que as ostras,
os poetas, attento o pequeno dispendio da impresso, deviam enfardelar
no mesmo sacco, a despeito do anexim, honra e proveito.

Ora este _Caff do Commercio_, que recebeu ao nascer o baptismo da
politica, veio depois a mudar-se para a Praa da Batalha com o nome de
_Aguia d'Ouro_, sem todavia desmentir, apesar da mudana, as tradies
que lhe embalaram o bero.

Venus do botiquim, sahiu da onda da revoluo e mantem-se
revolucionario, posto que decorado ao gosto moderno, com espelhos, mesas
de marmore, e apainelado o tecto com manchas multiformes de humidade e
immundicie.

No obstante o desgracioso do tecto, alli se travam ainda os grandes
acontecimentos portuenses, as pateadas, os _meetings_, as eleies, e
alli se discutem as magnas questes do estado.

Verdade  que ha outro botiquim onde se conversa de politica,--o _Suisso_.

Todavia este caff usa entreter-se na tranquilla politica municipal, ao
passo que os mais animados debates da _Aguia_ versam sobre politica
governamental.

Da _Aguia_ tem sahido acontecimentos para a historia; do _Suisso_, que
nos conste, apenas uma ou outra occasio sae uma embriaguez para a
pharmacia.

Sem embargo muitas discusses da _Aguia_ acabam por diluir-se em amoniaco.

J disse pois o que foi a _Aguia d'Ouro_ e o que .

Quanto a mim, a _Aguia d'Ouro_ ... o que foi.

      *      *      *      *      *




PHYSIOLOGIA DO THEATRO DE S. JOO

(NO DOMINGO GORDO DE 1873)


Elle  grande e triste. No obstante hade esta noite encher-se de
sociedade sedenta de recrear-se. As senhoras esto nos camarotes como
livros de marroquim em estantes de mogno. Lem-se as etiquetas e
passa-se adeante.

Os bailes de mascaras permittem em toda a parte que se atire uma flr,
um rebuado, uns versos. Alli no. O mais que se atira  um... olhar. O
mais que se faz  um cumprimento. Bonitos livros mas em sanskrito. Tudo
luxuoso e frio.

 que elle, o theatro de S. Joo,  grande e triste.

No Palacio de Crystal um baile de mascaras  uma batalha; os galopes so
cargas de bayoneta. No theatro de S. Joo valsa-se para passeiar  roda
com outra mascara. No palacio bebe-se Xerez ou Porto; em S. Joo parece
que todas as pessoas esto costumadas a tomar vinho em... pilulas.
Gostam de comer delicadamente um cacho d'uvas, e sentem-se horrorisadas
deante d'uma garrafa. Para ir a S. Joo basta haver ceiado; para ir ao
Palacio  preciso ter comido uma ceia. S. Joo  uma sala; o Palacio 
uma avenida. Em S. Joo  uma visita; no Palacio  uma escaramua; a S.
Joo vae o mascara; ao Palacio vo as mascaras.

Depois que d meia noite parece estremecer a grande nave do Palacio na
vertigem do galope.  um assalto  quaresma que est perto, uma lucta,
um combate;  preciso vencel-a e danar ainda em quarta feira de cinza.
 uma invaso das hostes do carnaval pelos reinos das endoenas. Ah! tu
ests ahi,  roxa penitencia, a dois passos de distancia, palida dos
teus jejuns, angustiada pelos teus cilicios, arrependida dos teus erros!
Pois bem. Ns somos o vendaval da alegria, que saccode as tranas loiras
da Magdalena peccadora. Tu queres impor-nos o arrependimento, e ns
queremos vencer-te para que nos deixes valsar algumas horas mais.

E rompem de esfusiada pelo salo fra os pares, parecendo correr todos a
aggredir um ponto invisivel, um inimigo mysterioso.

No theatro de S. Joo o baile de mascaras no  uma refrega mas um
acampamento. Parece descanar-se em vez de combater-se. As armas esto
ensarilhadas, porque  a noite em que mais se dispensa o binoculo.
Espera-se que sejam duas horas da manh para retirar. Quando comea o
_sopro do Euro_, o _vil quebranto_ a agitar as arvores da Batalha,
principiam a rodar as carruagens.  que tambem as palidas bellezas
parecem sopitadas pelo _vil quebranto_. Esta phrase  d'um grande poeta
contemporaneo, o snr. Raymundo Felgueiras, no final d'uma formosa quadra
que eu li algures:

    Cahiste, como a rosa desfolhada,
    Que no via murcho o purpurino encanto,
    No aos beijos da brisa perfumada,
    Mas ao sopro do Euro, ao vil quebranto.

s duas horas _murcha o purpurino encanto_. Os candelabros bruxoleam. Os
porteiros--aquelles homens mysteriosos que ninguem ainda pde vr de dia
na rua--dormem pelos corredores dentro dos seus amplos casaces.

Sae-se pois s duas horas, fugindo ao tempo, emquanto nos outros
theatros se corre ainda atraz do tempo para detel-o.

O Cames do tecto tem j fechado o unico olho que lhe resta. Joo
Baptista Gomes resona. Almeida Garrett est aborrecido por no vr damas
a quem esteja galanteando. Gil Vicente, o falso Gil Vicente do theatro
de S. Joo, pensa em escrever um novo romance satyrico modelado pelo seu
_Gargantua et Pantagruel_. Que mistiforio  este! Gil Vicente a escrever
romances satyricos... em francez! Perdo,  que o Gil Vicente do theatro
de S. Joo no  Gil Vicente mas Rabelais.

Eu lhes conto.

Quando se tractou de pintar o tecto do theatro, os administradores da
casa a esse tempo perguntaram ao meu erudicto amigo o snr. Jos Gomes
Monteiro se conhecia os retratos de Joo Baptista Gomes e Gil Vicente.
Sua ex. indicou o paradeiro do retrato de Joo Baptista, e pelo que
tocava ao de Gil Vicente certificou os administradores do theatro de que
no havia deixado retrato. Esta circumstancia pareceu contrarial-os
vivamente.

--Mas, volveu o consultissimo bibliophilo, podem facilmente fazel-o
substituir por outro escriptor.

--Isso prejudica um pouco o nosso plano.

--Sim; ns optamos pelo Gil Vicente, acrescentou outro administrador,
e... queremos o Gil Vicente.

--Mas se no deixou retrato!

--Emfim, se a gente advinhasse como era Gil Vicente!

--Ah! isso pde muito bem ser.

--Pode ser?

--Muito bem...

--Como?

--Fazendo substituir Gil Vicente por outro escriptor da epocha.

--ptima lembrana!...

--Qual ha de ser?

--Vejamos...

--Vamos a vr se lembra.

--Lembro-me d'um! apostrophou o snr. Jos Gomes Monteiro.

--Qual?

--Um escriptor da mesma epocha e cuja individualidade litteraria no
deixa de ter seus pontos de contacto com Gil Vicente...

--Chama-se?

--Rabelais.

--Muito bem!

Procurou-se o retrato de Rabelais, e pintou-se Gil Vicente, aquelle Gil
Vicente que o leitor pde vr esta noite n'um dos quatro medalhes do
tecto do theatro de S. Joo, e que a mim mesmo, que sei esta anecdota,
me fez algumas vezes desconfiar de que no seja Rabelais, porque o meu
binoculo me permitte vr em grandes caracteres o nome de Gil Vicente
sotoposto ao medalho...

O caso  que Rabelais,  hora que os camarotes se despovoam, parece
preparar na mente, a julgar pela contraco sarcastica das faces, um
novo romance satyrico em que moteje da composta austeridade da sociedade
portuense n'um theatro onde, ha cincoenta annos, se queimou fogo
artificial no palco, executado por Joo Semelhes, e um palhao divertiu
os espectadores com a graciosa _Macaquinha_, e se danou o _Fandango_, e
se fez a exhibio da _Corda Bamba_.

Para os leitores que duvidarem da fidelidade d'estas asseres vou
copiar alguns periodos de dois annuncios d'espectaculo n'aquelle
theatro, no tempo em que alli trabalhou uma companhia de funambulos, o
que devia d'acontecer ahi por 1824. Os avisos trazem apenas indicado
o dia; no me foi possivel precisar a epocha.

No primeiro _aviso_, correspondente a 24 de julho, lem-se estes periodos:

O _Palhao_ divertir os Senhores Espectadores com novas, e diversas
habilidades, entre as quaes executar a Scena do Bebado, dando fim a
esta primeira parte a graciosa _Macaquinha_.

Mais abaixo:

Madama _Joannita_, e o _Diabrete_ danaro os Boleros, dando fim o
divertimento com duas peas de Fogo Artificial de composio Italiana,
executadas por _Joo Semelhes_, cujas consto de hum brilhante sol com
variedades de cres, entre as quaes apparecer o raro fogo azul, e outra
que figura uma Rosa Italiana transparente, donde apparecer por tres
vezes um distico aluzivo a _Sua Magestade_ fidelissima (D. Joo VI)
formando-se no fim em uma brilhantissima Gloria, rodeada de lindissimas
estrellas.

Do segundo _aviso_, correspondente a 3 de fevereiro, basta citar estas
linhas:

... danar depois _Madama Joannina_ o _Slo Inglez_, a que ho-de
seguir-se os vistosos _equilibrios_ do _Menino_, depois dos quaes se
danar o _Fandango_, terminando-se todo o devertimento com a _Corda
Bamba_, onde o insigne _Diabrete_ far admiraveis difficuldades.

A sociedade d'aquelle tempo riu e applaudiu com sincero enthusiasmo
todas as facecias e evolues da companhia de funambulos.

Agora, por maior que seja a festa e o artista, parece que ninguem traz
gratas sensaes do theatro de S. Joo mrmente d'um baile de mascaras.
Faz-se um silencio sepulchral nos intervallos. s vezes apenas se escuta
um levissimo rumor:  uma fita que se agitou ou uma petala que se
despegou d'um toucado. Em epochas mais turbulentas atiram-se estalos 
plateia. Os artistas italianos, quando l fra lhes perguntam pelo clima
de Portugal, j vo respondendo:

-- bom; o peior que tem  o estalo.

O estalo no Porto  como a _febre amarella_ na America e a _carneirada_
na Africa.

Tirante o accidente do estalo, o clima do theatro de S. Joo no
prejudica ninguem. Sae a gente como entrou: quente se entrou quente,
fria se entrou fria. Antigamente, quando se ceiava nos camarotes da
quarta ordem, podia a gente sahir de l com uma indigesto, ou, quando
se exhibia a graciosa _Macaquinha_, rebentar um suspensorio, ou
finalmente chamuscar o casaco quando o Semelhes queimava fogo artificial
no palco.

Qualquer d'estas contrariedades podia ser perigosa, mas sendo a vida uma
serie de perigos, viver era aquillo.

Agora,  Catalani,  Milanez,  madama Joannita,  phosphorecente
Semelhes, eu lembro-me tristemente de vs, e desejo-vos; principalmente
se ha estalo, invejo-te, Semelhes!

      *      *      *      *      *




PHYSIOLOGIA DO THEATRO BAQUET


Ha theatros que procuram a gente, em vez de ser a gente que os procura a
elles.

Para ir ao Palacio de Crystal, por exemplo,  preciso ir l procural-o
s ribas outr'ora solitarias que se aprumam sobre o Douro. Quando vamos
ao theatro de S. Joo, sahimos de casa no proposito de ir ao
espectaculo, como quando vamos almoar  Foz ou jantar  Ponte da Pedra.
 uma caminhada que se faz simplesmente por distraco. Todavia com o
theatro Baquet no acontece o mesmo;-- o theatro que nos procura, 
elle que nos d na vista, que nos chama, que nos tenta.

Sahimos de casa para comprar um par de luvas, um chapo, um casaco, umas
botas, uma _badine_, um relogio, um frasco com conserva, uma caixa de
charutos, um obo, para tomar um banho, para mandar tingir um
collete, para reconhecer um attestado, e at para comprar tortas, por
divertimento, porque eu j conheci um comilo de _tortas_ s direitas,
que as trazia no bolso, e que de instante a instante se mettia n'um
portal, como quem accende um charuto, para comer uma torta. No theatro
guardava uma proviso de tortas na copa do chapo, e ia-as comendo de
intervallo a intervallo, fazendo no botiquim unicamente a despeza de um
copo de agua. Mas voltando ao Baquet,--sahimos de casa para comprar
qualquer coisa, e damos comnosco na rua de Santo Antonio. Fazemos a
transaco, paramos  porta do theatro a lr o cartaz, e vemos a
passeiar no atrio o snr. Antonio Moutinho de Sousa, floreando a sua
_badine_ na posse da mais tranquilla felicidade, de modo a dar  gente
tentaes de ser empregado no theatro para vr se tambem engorda.

Entra-se ao portal. Depois de entrar,  vergonhoso retroceder. N'este
momento chega um actor cantarolando, e emquanto o bilheteiro faz o troco
entra uma paviola com um soph de velludilho encarnado e quatro cadeiras
d'espaldares doirados. Por Deus! como aquelle actor ha-de cantar bem 
noite, se at pela rua se anda ensaiando! como as cadeiras ho-de
relampejar reflexos deslumbrantes  luz da rampa! Sae a gente e passa
pelos cartazes com o reservado orgulho de quem sabe mais do que lhe
dizem. O cartaz annuncia simplesmente o espectaculo, mas o comprador do
bilhete sabe o que no diz o cartaz,--que entram no drama cadeiras com
espaldares doirados.

 noite enxameia  porta do theatro o bando dos agiotas.

--Quer geral?

--Quer cadeira?

E a gente rompe por entre elles com a sobranceira indifferena de quem
tem desde pela manh, no bolso do collete, o divertimento que elles nos
offerecem, esbofando-se.

No theatro Baquet ha sussurro nos corredores.

No theatro lyrico entram as senhoras, cobertas d'arminhos, friamente
silenciosas, e assomam aos camarotes com a estudada compostura de quem
vae ser retratado.

Muda o caso no Baquet; as senhoras charlam pelos corredores, e os homens
descem rapidamente as escadas, cumprimentando e saltando.

Bem!  um theatro popular, onde os espectadores fallam alternadamente
com os actores, e onde a gente pde espirrar  vontade sem que lhe digam
do lado--_sciu_!

Os frequentadores habituaes do theatro Baquet--os das platas,
entenda-se--dividem-se, a meu vr, em trez classes distinctas:
espectadores fluctuantes, espectadores fixos, e espectadores moderados.

Os espectadores fluctuantes so os que occupam as primeiras filas da
superior, e os logares das coxias na geral. Alguns,--especialmente os da
superior,--trazem camelia ao peito e luva cr de canario. Mal desce o
panno, saiem para o botiquim, para os camarins, e para os
corredores. Que teem elles que fazer em todos os intervallos? Que vo
dizer? Nada. Saiem porque so fluctuantes. Entram  plateia quando
comea a symphonia. Encostam-se  varanda da orchestra, com requebrada
negligencia, olhando uns para os camarotes atravez do binoculo e outros
cantarolando se esto em scena os _Apostolos do Mal_:

    As moas da nossa aldeia
    D'aldeia de S. Luiz,
    Fallam sempre de maridos
    E n'um enlace feliz;

ou se se representam as _Mulheres de marmore_:

    Amas tu. Marco gentil,
    Os sales cheios de flores,
    Com uma alegria infantil
    As danas, risos, amores?

Espectadores fixos so uns sujeitos pesados, que no se mexem na
cadeira, e que conversam nos intervallos com os visinhos da direita e
com os visinhos da esquerda, incommodando-se com os espectadores
fluctuantes que os obrigam a levantarem-se ao sahir e ao entrar.

Espectadores moderados so, a meu vr, os que saiem em dois intervallos,
quando a pea tem cinco actos, e os que s incommodam o porteiro no fim
do drama se depois do drama vae comedia. So methodicos. Da ultima vez
que saiem no  por variedade mas unicamente por methodo. Vo buscar o
guarda-chuva ou a bengala para evitarem os apertos da confuso no
fim do espectaculo.

Passemos s galerias. A galeria  um mundo dentro d'um theatro. De
hemispherio a hemispherio medeia o oceano-plata. As ondulaes, as
correntes, e as tempestades esto na plata, mas nas galerias ha a
variedade do atlas:--alli  que esto as castas, os systemas, as luctas,
a verdadeira liberdade do homem e a verdadeira emancipao da mulher.

Pouca gente leva uma creana para um camarote, mas o povo leva os seus
filhos para a galeria.  que reside alli a soberania popular. Os mil
episodios, que por via de regra accidentam a vida das naes,
reproduzem-se nas galerias.

Ha em todos os espectaculos do Baquet--digam se no  verdade--uma
creana que chora: um visinho da esquerda que se oppe  expanso vocal
da creana, e um visinho da direita que proclama alto e bom som a
liberdade da larynge.

Estas luctas so eterno apanagio do povo.

Ha sempre um velho, ou bonacheiro, rosado, inxundioso, que diz
graolas, e  o divertimento dos visinhos durante os intervallos, ou um
velho zarolho, de cabello em ss e chapo quinhentista, silencioso, que
se no levanta toda a noite, e que faz a critica do drama e da plata
pela unica janella que a Providencia lhe deixou aberta para vr a
humanidade.

O velho gordo, se v que uma _lorette_ pe a cabea fra da galeria,
para ser vista, acode logo a dizer:

--Estenda a cabea, estenda, que lhe caiem os pingos das vlas!

O velho sco olha com o seu luzio para a _toilette_, e volta logo a cara
para o outro lado, porque de si para si fez austeramente a seguinte
reflexo:

--Bem te entendo!

Ha sempre nas galerias um _cicerone_.  ordinariamente um cocheiro, de
jaqueta e chapo redondo; explica todas as situaes da pea ainda que
seja nova.

--Ella agora vae pegar n'aquella flr!

s vezes, mrmente se o drama  novo, o cocheiro engana-se, e a actriz
em vez de pegar na flr bebe um copo d'agua.

O _cicerone_ no se acobarda. Continua a explicar;--explica tudo.

Isto facilmente se comprehende. O cocheiro precisa de presumir-se sabio.
Pergunta-se-lhe:

--Sabes onde mora F.?

--Sei, meu amo.

No sabe. Vai andando  espera que lhe batam na janella da carruagem.

--Pra;  aqui.

-- aqui; eu bem sabia.

O cocheiro precisa realmente de dizer que sabe.

Vamos agora ao botiquim. O botiquim do _Baquet_ offerece curioso estudo.
 preciso ser-se philosopho para se exercer o logar de botiquineiro
alli. De contrario, ao cabo do primeiro intervallo, o botiquineiro
estaria doido com toda a certeza. O snr. Magalhes, botiquineiro, 
pois um philosopho.

--Uma sangria!

--Gelatina!

--Uma limonada!

--Uma orchata.

--Um grog!

N'uma palavra,  nem mais nem menos que todos os espectadores
fluctuantes a dizerem ao snr. Magalhes:

--Retalhe n'um momento o seu botiquim e d a cada um de ns um fragmento.

Qualquer homem menos philosopho responderia:

-- senhores! no os posso servir a todos ao mesmo tempo! Sem este
senhor beber a limonada, no dou ao senhor o grog.

Isto era o mesmo que perder a freguezia.

O snr. Magalhes descubriu um optimo systema para viver com todos. Como
seja grande a concorrencia, alguns espectadores, em raso da sua mesma
natureza fluctuante, j esto no corredor no momento em que deviam
pagar. O snr. Magalhes bem percebe que  logrado, mas no se afflige.
Tem a paciencia de esperar para o dia seguinte. D'esta maneira tudo vae
bem.

Conta-se de Mazarino dizer: Cantam! Deixal-os cantar; elles o pagaro.
Toda a philosophia do snr. Magalhes tem por eixo esta anecdota de
Mazarino: Escapam-se! Elles o pagaro.

Saiamos do botiquim para fallarmos ainda d'uma classe supplementar de
frequentadores, que j iam esquecendo. So os espectadores-meteoros. No
compram bilhete pela simples raso de no terem tempo de o comprar.
Entram  plata e dizem ao porteiro:

--Eu saio j.

Est o panno em cima. (Elles entram sempre quando o panno est em cima).
Encostam-se  varanda da orchestra. Passam em revista os camarotes,
medem a plateia com um s olhar, e saem. Vae a gente a procural-os, e j
no os v. So meteoros; desappareceram. Quando a gente os procura, j
esto em outro theatro. Tambem por sua vez so philosophos; toda a
philosophia d'elles est no adverbio _j_.

--Eu saio _j_.

E vem tudo.

Ora eu, se fosse actor e fizesse beneficio, havia de perguntar ao porteiro:

--Voc quantos _js_ conhece?

A esses  que eu passaria bilhetes para vr o que respondiam.

Agora me lembro! Salvavam-se ainda com o mesmo adverbio:

--_J_ tenho.

Depois de conhecida a nau e a tripulao, justo  fallar do piloto, que
vai tranquillamente encostado  cana do leme, sereno em meio da azafama
geral, saboreando-se nos mil accidentes de bordo, como homem que
morreria nostalgico se porfiasse a sorte em arrancal-o ao mar.

O Palinuro do _Baquet_  o snr. Antonio Moutinho de Sousa, actual
empresario.

Nasceu para o theatro como o piloto nasceu para as vagas.

 alli que elle vive feliz.

Derivaram os primeiros annos de sua vida na eschola e na ourivesaria de
seu pae, mas chegado a idade em que no espirito comeam a desabrochar as
tendencias, boas ou ms, ao sabor das quaes havemos de fazer a
peregrinao terrena, o snr. Moutinho, contados 24 annos, embarcou para
o Rio de Janeiro, e foi escripturar-se no theatro do Gymnasio.

Os jornaes brasileiros de 1858 festivamente commemoram a brilhante
appario do snr. Moutinho no Gymnasio. Ha um periodo notavel do
_Correio Mercantil_ que diz assim: O primeiro passo da sua vida
artistica como os dos antigos guerreiros da sua patria nas areas
d'Africa a derrubarem nos campos da lucta os obstaculos que lhes
impediam a victoria, foi grandioso e decisivo! Percorreu em um s dia o
escabroso e longo estadio que conduz o talento ao perystilio do
sanctuario das artes. O ser actor revelou-lhe que tambem podia ser
litterato,--dramatisou, folhetinisou e versejou agradavelmente, mas
todos os lances solemnes da sua vida ao theatro os deveu.

Casou em primeiras nupcias com a actriz D. Ludovina Devecchy, e em
segundas com a actriz D. Amelia Simes.

Parece que todo o seu fito foi escolher esposa que comprehendesse as
tradies gloriosas do theatro e houvesse sacrificado no altar do bello.

Se o snr. Moutinho tivesse casado com certa dama que uma vez dissera ter
ouvido _uma pea em cinco dramas_, o snr. Moutinho requereria
immediatamente divorcio.

Como empresario tem o seu camarim. Podia ter simplesmente um
escriptorio, mas o snr. Moutinho quer ter camarim para se enganar a si
proprio. Passa as noites d'espectaculo a tomar caf.  um velho habito
theatral. Quer excitar os nervos para as luctas da scena, como se
houvesse de representar.

Encontram-se n'elle todos os requisitos d'um empresario, e at, se
attendermos unicamente ao homem, conheceremos que o snr. Moutinho est
entre a gordura do empresario Palha e a gordura do empresario Price.
Todavia affigura-se-nos que o snr. Moutinho poder fazer um d'aquelles
admiraveis prodigios que s se conseguem no theatro, e vem a
ser--representar um papel de galan tendo propores de empresario.

 preciso acabar, e sahirmos do Baquet.

Toda a gente sabe como se sae do Baquet: hombro com hombro, brao com
brao. Tanto se aproximam os espectadores  sahida, que  talvez essa a
raso de se conhecerem todos uns aos outros. Um sujeito conhecemos ns
que ao sahir uma noite do Baquet metteu a mo no bolo do _bournous_
para tirar a charuteira, e encontrou com grande surpresa uma caixa de
prata. S ento reconheceu haver introdusido a mo no bolso do
espectador que vinha a par. Passou angustias para se salvar com
dignidade do equivoco... Ora so justamente estas peripecias, todas as
circumstancias que ahi ficam amontoadas, que do ao theatro Baquet uma
individualidade caracteristica.

      *      *      *      *      *




TELHUDOS HISTORICOS


A _telha_  muito antiga.

Nos tempos heroicos vae o escalpello do historiador encontrar conspicuos
_telhudos_ como Orestes, Athamas, e Alcmeon, posto se dissesse
simplesmente que _viviam atormentados pelas Eumenides_. Nos tempos
historicos tornam-se notaveis pela _telha_ Pythagoras, Socrates, Mahomet
e Luthero. Em tempos menos remotos apparecem na historia uns celebrados
_telhudos_ que se chamam Swedenborg, Pascal e Voltaire.

 uma consolao...

Encosta-se a gente com a sua _telha_ a estas cabeas-firmamentos da
historia, que ora tinham relampagos de genio, ora negruras de sandice, e
vae vivendo. No se falla por ahi na historia a cada passo? Para se
dizer que um sujeito  velho no se lhe chama Mathusalem? Nero para
dizer que  mau? Job para dizer que  paciente? Pois muito bem.
Desculpemo-nos da nossa _telha_ com a historia na mo, e vamos
vivendo com o nosso mal, porque para mim  ponto de f que, sendo
_telhudos_ os maiores genios, cuja memoria assombra o mundo, no ha por
ahi sujeito que no tenha a sua _telha_. Os que so mais robustamente
organisados sabem que a teem e procuram modifical-a, como se combate uma
enfermidade; os que nasceram peior acabados vo vivendo sem se lembrar
um unico dia de que nasceram com _telha_ e com lombrigas.

A uns e outros desculpa a historia.

Pouco importa conhecer ou no conhecer a _telha_,--o caso  tel-a.
Hyppocrates veio a dizer na sua que a _telha_ estava na cabea; Lacaze e
Bordeu que estava no diaphragma, e Bichat no corao. Esteja ella onde
estiver; o certo  que est dentro de ns e da historia. Isto mesmo de
querer dizer onde a _telha_ est, j  _telha_. O que estou vendo  que
os sabios da velha antiguidade eram muito mais perspicazes que os sabios
dos tempos modernos.

Nos tempos heroicos, se um sujeito tinha a _telha_ de rinchar de
cavallo, dizia-se logo que entrara n'elle o espirito de Neptuno; se a
_telha_ lhe dava para comear a cantar de passaro, era por alta vontade
de Apollo. Agora a sciencia trata de enxotar a ideia do _espirito ruim_
o apregoa que se o sujeito tem _telha_  porque nasceu tolo. Isto assim
no vae bem. Em remotissimos tempos pagos desculpava-se a _telha_ de
pythonissas e sibyllas com influio divina; agora vem a sciencia e diz
que a _telha_ procede de imperfeio do systema nervoso,
chamando-lhe _monomania_. Ser _monomaniaco_  no poder um homem
andar e proceder por sua conta e risco. Tanto vale como matal-o. 
preciso pois que faamos crusada e nos defendamos com a historia.

Os homens do passado constituem a historia que hoje lmos, assim como
ns constituiremos a historia de amanh.

Pois folheemos a chronica do passado e ponhamos a nossa _telha_ ao
abrigo de censuras, escondendo-nos agachados contra o pedestal de
preclaros homens que o mundo festeja, e deixemos assim aberta uma
valvula de segurana para respirar a _telha_ de nossos netos.

Comecemos.


O marquez Arouet de Voltaire...

Marmontel conta que fra um dia, acompanhado pelo seu amigo Gaulard,
visitar Voltaire. Encontrou-o na cama, recostado em travesseiras, de
barrete de l na cabea.

--Encontram-me a morrer, disse com voz debil o philosopho. Venham
receber o meu ultimo suspiro.

Mr. Gaulard commoveu-se, mas Marmontel, que j conhecia a _telha_,
tregeitou a Gaulard para calmal-o.

Voltaire entrou de conversar e de animar-se progressivamente.

--Meu caro Marmontel, disse elle, folgo de vl-o em occasio em que lhe
posso apresentar um estimavel artista, mr. Ecluse! Como elle canta a
cano de _Remouleur_.

E Voltaire comeou a imitar Ecluse cantarolando;

    Je ne sais o la mettre
         Ma jeune fillette,
    Je ne sais o la mettre
         Car on me la che...

Os hospedes riam estrepitosamente.

--Imito-o mal, bem sei, objectou Voltaire,  preciso ouvil-o a elle, ao
proprio Ecluse. Oh! que voz aquella!

_Telhudo!_


La Fontaine, o meigo educador das creanas, pertence ao rol. Casou com
Maria Hericard, uma formosa e intelligente mulher. Passados tempos,
abalou para Paris esquecido de haver casado. Aconselharam-n'o porm
alguns amigos a reconciliar-se com sua esposa. Partiu com esse intuito
e, procurando madame La Fontaine em Chauteau-Thierry, disseram-lhe que
estava na igreja. Recolheu-se a casa de um amigo, onde comeu e dormiu
durante dois dias,--ao cabo dos quaes regressou a Paris.

--Ento, reconcilias-te com tua mulher?

--No a pude vr: estava na igreja.

Certo militar convidou La Fontaine para banquete opiparo com o simples
intento de o ouvir discretear  mesa. La Fontaine comeu, bebeu e apenas
disse levantando-se:

--Tenho d'ir  Academia.

-- ainda muito cedo...

--No importa. Irei por onde fr mais longe.

_Telhudo!_


D'Alembert...

Elle, o grande geometra, o chefe da seita encyclopedica, chegou a ser um
escravo amoroso de mademoiselle Espinasse.

Sahia todas as manhs para lhe fazer servios, a comprar alfinetes ou
ganchos, e, quando o seu rival Mora partiu de Frana, ia ainda como de
noite esperar o correio  estrada para levar as cartas a mademoiselle
Espinasse.

_Telhudo!_


Saint-Foix, author do _Essais sur Paris_, e varias obras...

Estava uma vez no caff _Procopio_, a lr o _Mercurio_. Era  noite.
Entrou um sujeito e pediu capil. Saint-Foix disse da sua mesa:

--O capil  uma triste ceia!

O sujeito olhou e ficou-se. Torna Saint-Foix:

--O capil  uma triste ceia!

O sujeito carregou o sobr'olho. Torna Saint-Foix:

--O capil  uma triste ceia!

--Isso  commigo, senhor?

--Pois com quem? O capil  uma triste ceia!

Foi immediatamente reptado, bateu-se no Luxemburgo, e recebeu uma
cutilada. J em terra, banhado em sangue, apostrophou:

--Isto no prova nada. O capil  uma triste ceia.

_Telhudo!_


Pugnani, compositor de musica e celebre violinista piamontez...

Estando uma noite tocando violino em meio de numerosa sociedade, parou
subitamente e disse:

--Senhoras e senhores, rezem cinco _Padre-Nossos_ pelo pobre Pugnani.

E ajoelhando comeou elle proprio a rezar o _Padre Nosso_.

_Telhudo!_


Sua exc. o baro de Dangu...

Tinha a _telha_ de querer ser almirante, e, como houvesse passado no mar
os primeiros annos de sua vida, sabia um avultado numero de termos
nauticos de que diariamente usava. O palacio em que morava tinha a
configurao interior d'um immenso navio. Os criados vestiam de
marinheiro e tractavam-n'o por almirante. O baro fazia _quarto_ no
terrao que chamava _convez_. Pela manh dizia-lhe um dos criados:

--O mar foi muito esta noite!

Quando elle queria sahir, outro criado berrava pelo porta-voz:

--A chalupa do almirante ao mar!

Isto queria dizer que pozessem as cavallos  carruagem.

Momentos depois, o baro subia ao _convez_, d'onde com o auxilio de
cordas, descia  carruagem, que se abria pelo tecto.

_Telhudo!_


Mr. Berluguer, author de tres enormes volumes--_Les farfadets_. Ora os
_farfadets_ eram demonios que elle dizia vr pendurados das arvores do
jardim, do espaldar do catre e s cabriolas sobre a mesa do jantar.
Pensava que a melhor maneira de se vr livre dos _farfadets_ era
mettel-os em garrafas ou atravessar-lhes o corpo com alfinetes. Tirante
esta notabilissima _pancada_, era um homem alegre e amavel, que sabia
conversar com senhoras. Basta porm lr os _farfadets_ para conhecer que
era...

_Telhudo!_


O historiador Mezerai, membro da Academia Franceza...

Escrevia  luz da candeia, ainda que fosse meio dia, e pleno estio.
Quando alguem o visitava, acompanhava-o ao corredor, de candeia na mo,
e algumas vezes chegava  porta da rua:

--Olhe l, no caia, dizia elle.

_Telhudo!_


Sua magestade catholica, Filippe V, rei d'Hespanha...

Este soberano passava na cama seis mezes inteiros, sem cortar o cabello
e as unhas, sem mudar de camisa. Umas vezes queria que o capello do
pao fosse  camara real dizer missa s cinco horas da manh, outras ao
meio dia e outras s oito horas da noite. No inverno mandava abrir de
par em par as janellas; durante os ardores caniculares dormia com tres
cobertores de papa. Muitas vezes, emquanto dormia, arranhava-se e,
quando acordava, comeava a gritar que o haviam mordido os vermes.
Julgava-se ento morto, mordia em si, em seus filhos e na rainha.
Perguntavam-lhe o que tinha. Respondia:

--No tenho nada!

E desatava a cantar.

_Telhudo!_


Sua ex. o marquez de Brunoy...

Quando morreu o marquez pae, mandou despejar em todos os tanques do
palacio almudes de tinta d'escrever para que as aguas tomassem lucto; e
cobriu de crepes todas as arvores do parque. Era o sachristo da igreja
de Brunoy. D'uma occasio, em Conflans, pegou no cadaversinho d'uma
criana debaixo do brao, e foi elle proprio sepultal-o. Ahi por 1775
projectava ir de sandalias e esclavina  Terra Santa, fazendo-se
acompanhar por sessenta romeiros. A familia pde estorvar-lhe o plano e
sua ex. o marquez desistiu de ser peregrino para continuar a ser...

_Telhudo!_


Esta  a grande lio da historia.

Quando alguem nos atacar, leitores, facilmente nos poderemos defender
apontando para o enorme epitaphio da historia, que diz:

Aqui jaz a _telha_ de muitas geraes.

Jaz e ha de jazer. Culpa  dos ministros portuguezes que fazem reformas
na instruco e no supprimem o estudo da historia. Mandam-nos estudar
historia; estudemos. Admiremos os _telhudos_ e sejamos tambem _telhudos_
por nossa vez. L diz o conhecido verso:

    Un sot trouve toujours um plus sot qui l'admire.

 fado. Iremos caminhando de _telha_ em _telha_. O numero dos tolos 
infinito, diz o livro santo, e  assim. Acho prudente o conselho de no
sei quem que disse: quem os no quizer conhecer, no saia de casa e
quebre o espelho...

      *      *      *      *      *




OS DOMINGOS


No _Parocho_, romance religioso de Roselly de Lorgues, ha um periodo que
diz: Newton, extasiado perante as maravilhas da creao, observou que
de todos os dias do anno  o domingo aquelle em que os vapores da
atmosphera nos encobrem menos o astro brilhante.

Assim devia ser.

O domingo  o dia do repouso, da tranquillidade, do lar. Ha sueto
geral--diz ainda Roselly de Lorgue;--est suspensa a lei do trabalho.

 portanto este o dia em que se l, em que o povo procura o jornal, em
vez do jornal ir procurar o povo, como acontece durante a semana. O
jantar do artista tem ao domingo mais um prato e mais um copo. Urge pois
que o homem de trabalho procure tornar-se digno da modesta opulencia da
sua mesa. D'aqui procede a ancia de se nobilitar, de se illustrar;
de lr ao domingo. Viveu na fabrica toda a semana; vive ao domingo no lar.

Ora a leitura  um lao que prende  familia, um prazer sereno que
requer silencio. O operario senta-se a uma restea de sol, com o seu
jornal debaixo do brao, com o seu cigarro na mo. O tabaco--embora o
neguem pessimistas--torna a percepo mais clara. Fuma e l. Quer
encontrar o seu jornal variado, alegre, leve e crystallino. Entende. Um
cerebro inculto  como um estomago fraco. Demanda alimento ao mesmo
passo substancial e de facil digesto.

Pelo jornal se identifica o artista com a sociedade. Sabe o que se passa
nas altas regies de que elle vive esquecido toda a semana.

 ento que trava conhecimento com os actos do governo. s vezes
deprehende da leitura que tem de pagar mais. Fica triste. Tem filhos, e
recebe pequeno salario. Mas desce com a vista ao folhetim, e o folhetim
serena-o por isso mesmo que lhe no falla de impostos.

L com curiosidade, s vezes sorri, e levanta-se para ir comer o seu
guisado e beber o seu copito, supplementos domingueiros do jantar, mais
lembrado do folhetim que do imposto.

Senta-se  meza, e como  fora que o folhetim d'um jornal popular seja
candido na ideia e singelo na frma, o artista facilmente reproduz o
folhetim  mulher que no sabe lr.

No adquiriu sciencia, nem elle estava intellectualmente preparado para
recebel-a; o que adquiriu, e j no  pouco, foi amor  leitura,--
leitura, este elemento de moralidade, quando prudentemente adoptado,
porque preservera da orgia e affasta da ruina.

Estas foram as rases que me levaram a escolher o domingo para o
folhetim semanal,--conversao facil, que eu procurarei guiar sempre por
caminho desatravancado d'espinhaes, sejam quaes forem os cataclismos da
sociedade, e por mais brutalmente que escouceiem os onagros nas selvas
visinhas.

 justo dar ao povo o que nasceu do povo,--o folhetim.

Preciso porm dizer-lhes que eu fao distinco entre o antigo folhetim
e o moderno folhetim. Um  aristocrata; o outro democrata. O primeiro
saiu dos palacios d'Athenas; o segundo dos theatros, dos botiquins de
Paris.

O primeiro rojou-se aos ps de Aspasia e Lais quando os gregos as
mandavam entrar ao _dessert_ na sala do banquete, justamente ao
contrario dos inglezes, que  ao _dessert_ que expulsam as mulheres. O
segundo saiu da caixa de rap do abbade Geoffroy, uma noite, na Opera,
quando elle a abria para offerecer uma pitada a mr. Bertin, que o tinha
acompanhado. O primeiro recebeu ao nascer o baptismo dos vinhos de
Corintho, de Samos, e de Chios. O segundo mergulhou na onda nacarada do
Bordeus ou do Champagne.

No seu _Grande diccionario de cosinha_, recentemente publicado, escreveu
Dumas pae: Foi n'estes elegantes jantares (de Athenas) que se formou a
conversao grega, conversao ao depois copiada por todos os povos,
e da qual a nossa era, asseguro-o, antes da introduco do cigarro, uma
das mais vividas e mais rapidas copias. D'aqui a expresso _sal attico_.

Assim foi que nasceu o folhetim aristocrata, passando de bocca em bocca,
borboleteando entre os convidados, que eram ordinariamente sete, em
honra de Pallas, rematado provavelmente com um beijo de Phryn ou com um
sorriso d'Aspasia. Depois passou da Grecia para Roma. Os banquetes
d'Augusto, conversados por Virgilio, Horacio e Pollion, deviam de ser
folhetins delicadamente cinzelados como os cyathos imperiaes. Todavia o
grande espirito de Augusto amava a publicidade, e permittia que
circulassem em Roma as anecdotas dos seus opiparos folhetins. Conta-se,
por exemplo, que certo dia, em que jantava com Virgilio e Horacio, se
desculpara d'umas sombras de tristeza dizendo que estava entre os
_suspiros_ e as _lagrimas_, porque um d'estes escriptores soffria dos
pulmes e o outro tinha uma fistula lacrimal.

No tempo d'Augusto j o povo romano conhecia a publicidade. Julio Cesar
foi o verdadeiro creador do jornal. Nos primeiros tempos de Roma os
pontifices escreviam dia a dia os acontecimentos do co e da terra.
Julio Cesar arrancou o privilegio aos pontifices fazendo redigir e
publicar os actos quotidianos do senado e do povo. O que, segundo uma
bonita phrase de Julio Janin, foi passar duas vezes o Rubicon,
desvelando d'uma vez para sempre os tenebrosos mysterios do senado
romano.

To inveterado estava porm entre os patricios o habito do folhetim 
mesa, tanto o banquete era mais uma recreao para o espirito que um
prazer para o estomago, que Heliogabalo reunia  mesa anes, zarolhos e
corcundas para os vr da galeria e os ouvir conversar durante o jantar.
Era um folhetim burlesco, como s vezes por ahi apparecem alguns, o que
Heliogabalo queria.

Fallemos agora do folhetim democrata, nado e creado em Pariz, teudo e
manteudo pelo abbade Geoffroy. Nominalmente o folhetim data de 1789, do
nascimento do jornal politico em Frana. Chamava-se assim o espao em
que o jornalista escrevia, na parte inferior da pagina, a resenha dos
trabalhos que a Assembla deixra indicados para o dia seguinte. Mas o
folhetim s comeou a existir de facto no fim do seculo XVIII. Um homem
de letras havia a esse tempo, ao mesmo passo escriptor e clerigo, o
abbade Geoffroy, que, entediado das noitadas do _caff Procope_,
voluntariamente se desterrou de Pariz. Um certo dia, porm, mr. Bertin,
que comprara aos irmos Baudonim a propriedade do _Journal des Debats_,
lembrou-se de ir procurar o espirituoso abbade ao seu remoto escondrijo.
Foi e arrastou-o.

--Que quer de mim, Bertin? perguntou-lhe o abbade.

--Que venha jantar commigo a Pariz, que v  noite commigo  Opera, e
que manh me escreva um artigo para o primeiro numero do _Journal des
Debats_.

O abbade lembrou-se dos seus tempos, e foi.

As palmas, os bravos, as acclamaes espiritaram-n'o. Ao outro dia
fez a critica da opera na parte interior de duas columnas, e a terceira
encheu-a Bertin com anunncios de theatro.

O artigo, occupando o logar do _folhetim_, chamou-se _folhetim_. O povo
leu e gostou. Correu a comprar o jornal, chegou a disputal-o, o successo
foi ruidoso, e Geoffroy no s fez a sua celebridade seno que tambem
tornou celebre o _Journal des Debats_.

Geoffroy d'alli em deante applaudia, acclamava, pateava e assobiava no
folhetim. O povo seguia-o, acompanhava-o, o povo pensava com Geoffroy e
Geoffroy pensava pelo povo. Foi o povo que lhe deu nome, a elle e ao
folhetim, e era para o povo que Geoffroy escrevia. No havia trova
popular, caricatura, retrato e lanterna magica--at lanterna
magica!--que no reproduzisse o abbade folhetinista. Quando elle morreu,
annunciou-se nos collegios a sua morte depois do _Benedicite_. Geoffroy
festejado! Geoffroy applaudido! Geoffroy... cantado!

O successor de Geoffroy no folhetim foi Charles Nodier. No o excedeu
mas no o deshonrou.

Depois de Nodier vieram Etienne Bquet, Duvicquet, e outros, sempre
acclamados e sempre attendidos pelo povo, at que chegmos  revoluo
litteraria de 1830. Ento appareceram Sainte-Beuve, Dumas, Janin e
Gautier. O dia que o movimento litterario do romantismo designou ao
folhetim foi a segunda feira. D'ahi o chamar-se ao folhetim _causerie du
lundi_, e aos folhetinistas _les rois du lundi_. _Os reis da
segunda-feira!_ Reis, porque? Porque empunhavam elles o sceptro da
opinio? Porque eram os soberanos absolutos da critica?

Nada d'isto. Porque cada folhetinista da segunda-feira tinha sua crte
d'admiradores, seus salamaleques, e seus subditos. Alexandre Dumas chama
a Sainte-Beuve um poeta; a Janin um phantasista, e a Gautier um
esmaltador. Sainte-Beuve,--continua a escrever Dumas pae,--no se quer
indispor com ninguem. Janin  um escravo do seu estylo. Gautier o
Benvenuto Cellini do periodo.

Era-lhes o folhetim _vitrine_ onde estadeavam as pompas da sua linguagem
finamente rendilhada. Os aulicos da sua crte eram as mulheres da Opera,
os academicos e os _virtuoses_. Janin pertence actualmente ao numero dos
quarenta da academia franceza. Como havia o povo de entender um
escriptor que traduzia Horacio e dispunha de recursos para chegar a ser
academico?

O folhetim, aristocratisado, era para os erudictos, para as salas, e
para os gabinetes. Vestia casaca, leno branco, e trazia flr na
_boutonnire_. O povo, que comprehendia Geoffroy, no entendia Janin.

Mas como o jornal depende essencialmente do povo, comeou o jornalismo a
folhetinisar o noticiario, a fazer espirito, a contar anecdotas, de
sorte que o povo comprava o jornal, no por causa do folhetim, como no
tempo de Geoffroy, mas por causa do noticiario.

Isto foi, e isto  ainda em Frana.

Ora eu que no posso ser academico, que no cinzelo a phrase, que no
disponho de recursos para ser Janin e Gautier, escreverei n'um
jornal do povo unicamente para o povo. O folhetim veiu do povo; 
preciso portanto que elle v para o povo, quando o povo o pde
receber,--ao domingo. Que v, que lhe falle de assumptos que elle
conhece, que no seja nubloso na phrase, impuro na ideia, que no tenha
subtilezas, mas que se faa lr, que se faa applaudir se poder, e que
uma vez por outra nobilite a caixa de rap do abbade Geoffroy.

      *      *      *      *      *




AS ITALIANAS


A esta hora fogem as que estiveram entre ns. Deixem-me porm fazer uma
observao.

As italianas de que vou fallar no so as mulheres de Italia,--so as
mulheres da Opera. No nasceram para viver,--nasceram para cantar. Por
isso andam cantando de paiz em paiz, e chegam no inverno, quando a
natureza emudece, partindo na primavera, quando as andorinhas
regressam... So ricas, opulentas, e todavia o mais que guardam na sua
mala so os seus anneis de cabello, as suas fitas e as suas rendas,
coisas to leves que o vento pde agital-as. O thesouro d'ellas est na
garganta; l  que guardam as _notas_, que trocam em qualquer paiz, sem
desconto, antes com o premio das palmas e dos applausos. Cantando
atravessam o mundo, as tempestades sociaes, os cataclismos da
humanidade. Cabe-lhes perfeitamente a anecdota que se conta do
guitarrista Phillis, pae da celebre cantora do mesmo nome. Uma vez,
durante o Terror, um magistrado chamou-o e perguntou-lhe:

--Como se chama?

--Phillis.

--Que faz?

--Toco guitarra.

--Que fazia no tempo do tyranno?

--Tocava guitarra.

--Que vae fazer pela republica?

--Tocar guitarra.

Ellas tambem atravessam todos os regimens, a republica, a monarchia, a
propria tyrannia, cantando, sempre cantando, sem que o imperador
Guilherme recuse ouvil-as por haverem cantado na presena de Grant ou de
Thiers. Constituem ellas mesmas a unica realeza perduravel, porque l
est a Sass em Madrid sendo rainha, victoriada, festejada, acclamada, e
todavia a Hespanha acaba de emergir a fronte do baptismo republicano. O
certo  que a nobreza lhes  instinctiva, que se habituam a reinar, a
viver baloiadas nos seus briskas, deslisando sobre tapetes, roagando
sedas, colhendo flores e joias, revendo-se em espelhos, e admirando-se
tanto de receber o _bouquet_ d'um burguez como um bracelete que lhes
envia um monarcha. Uma rainha parece haver alienado a delicada
sensibilidade dos seus nervos quando atravessa as multides que se
precipitam sobre o coche saudando-a doidamente; a cantora domina com um
sorriso a tempestade dos applausos, sem chorar de commoo, sem
tremer d'alegria, sem se desvairar d'orgulho. Raso de sobra tinha
madame de Pompadour quando disse depois de ouvir cantar Sophia Arnauld:

--D'aqui havia com que fazer-se uma princeza.

Parece que  de todas ellas a legenda das pastoras que ao depois foram
czarinas. Nascera da obscuridade, o destino atira-as aos braos da
gloria,-- por via de regra um empresario que as ouve cantar uma
tonadilha e as aggremia logo  sua _troupe_--chegam a ser muito ricas,
como se houvessem encontrado thesouros encantados, e j fiam tanto da
sorte, que esperam encontrar collares e braceletes por toda a parte sem
se darem o incommodo de procural-os.

Ainda outro dia, na Russia, na noite em que a Nilson se despedia
cantando o _Fausto_, lhe fizeram a surpreza de encher de preciosos
brindes o cofre que devia abrir ao cantar a _aria das joias_, e ella,
sem se admirar, sem se agitar de commoo, foi examinando-as e cantando,
cantando sempre, at chegar a repetir toda a _aria_, porque uma cantora
de verdadeiro talento bem sabe que a sua voz  a vara de condo que faz
surgir os thesouros. No quarto acto, depois da scena da igreja,
deram-lhe um annel todo liso, do qual pendia uma grossa _lagrima_,
formada d'um s diamante. Felizes mulheres, para as quaes a saudade do
publico se desentranha em lagrimas de... diamantes! Quando acabou o
espectaculo, tiraram-n'a nos braos para a carruagem, que rodou
vagarosamente, escoltada por gentis cavalleiros,  luz de fachos,
cujos reflexos vivissimos permittiam vr a diva. s vezes, como as
pastoras da legenda, chegam a ser esposadas por titulares, como a Patti,
hoje marqueza, e ainda algumas vezes chegam a enamorar os principes.
Frederico II quiz a todo o custo reter na Prussia a Mara, e, quando ella
tentou fugir das algemas da admirao real, expediu emissarios para lhe
tomarem o passo e reconduzil-a  capital.

A poesia desde muito tempo que reconhece a realeza das italianas. Depois
que no Porto se introduziu o costume de espalhar versos no theatro
lyrico, em todos elles encontro eu, revolvendo as colleces, alguma
coisa que denuncia vassallagem. Ha quarenta e oito annos dizia um poeta
anonymo  Varesi:

    Harmonia,  Deidade encantadora,
    Da naturesa magico thesouro,
    Legisla aos coraes teu sceptro d'ouro,
    Incenso universal teu throno escora.

Ha vinte e nove annos outro poeta anonymo cantava  Rossi Caccia:

    Rainha das canes!  nobre filha
    Do portentoso Lacio, onde inda ovante,
    Em mil padres de fabrica pujante,
    A gloria dos Heroes avulta e brilha.

Cento e onze annos vo decorridos desde que o governador general Joo
d'Almada e Mello inaugurou o theatro lyrico do Corpo da Guarda fazendo
ouvir aos seus governados a primeira italiana, a Giuntini, na opera
_Trascurato_. Desde ento para c quasi todas ellas tm atravessado o
theatro do Porto calcando tapetes de flores, rompendo florestas de
applausos, colhendo nos loureiraes da scena as coras que para ellas
pendem, e sentindo esvoaar sobre a fronte o bando alado dos versos,
muitas vezes com azas de setim, como aconteceu  Laura Geordano e 
Luisa Ponti.

Depois, porque ellas so como as aves migrantes--deixam aps si o rastro
brilhante do seu talento, e vo levar a Italia aos gelos da Russia, aos
nevoeiros da Inglaterra ou aos lagos da Suissa. Vo, algumas vezes
desprotegidas, ss com a sua Italia, com a recordao dos explendidos
horisontes da patria, das gondolas do seu Adriatico, da sua lingua
pittoresca e harmoniosa, que no podem fallar em todo o longo caminho.
Vo passando de festa em festa, de theatro em theatro, e s vezes,
depois do espectaculo, algumas d'ellas se sentiro tristes na sua
pavorosa solido, ainda ao p das flores que lhes atiraram, e das joias
que lhes offereceram.  por isso talvez que muitas casam com artistas,
para terem um corao que as defenda e um brao que as proteja. Procuram
talvez mais um corao que as defenda do que um brao que as proteja. A
Schmoehling casou com o violoncellista Mara, cujas faces eram hediondas
de variola, perdeu o appellido de seu pae para acceitar o appellido
d'este homem, ella, a formosa captiva de Frederico II, s porque o Mara
era musico e podia entender-lhe as tristezas sem causa, os
desconfortos do triumpho...

Uma noite, ao entrar no camarim para poisar os seus _bouquets_ e as suas
coras, recebe uma d'ellas um telegramma de Napoles, porque os talentos
mais doces so talvez os de Napoles. At j um escriptor notou que em
Italia parece haver um dialecto para cada classe de gente. O de Veneza
convm  sensualidade das cortezs, o de Florena  elegante nobreza dos
grandes senhores, o da Sicilia s graas simples e rusticas dos pastores
de Teocrito, o de Roma  _bonhomia_ maliciosa dos burguezes, mas o
dialecto de Napoles  o dos artistas, do povo-poeta, da populao que
nasce a cantar e que vive a cantar sem saber lr nem escrever. O que era
o pae da italiana? Por ventura um pescador ou ento um _canta-storie_,
um canta-historias, a quem os _lazzaroni_ faziam circulo, sempre que
elle apparecia na praa.

A _diva_ tem ainda de cantar o final da opera, mas deseja mais partir
para Napoles, porque o telegramma lhe diz que o pae est moribundo, do
que subir ao proscenio. No ha transigir com o dever. Vae cantar, a sua
voz tem lagrimas,  admiravel,  sublime, e s o empresario sabe talvez
que ella est cantando e sentindo dilacerar-se o corao fibra a fibra.
E que se est lembrando de que na vspera da festa da Piedigrotta,
reunidos na gruta de Pausilippe, o pae cantara para o povo a _Finestra
bassa_, no seu pittoresco dialecto:

    Finestra bassa e padrona crudele,
    Quanti sospiri m'hai falto gettare,

e de que ella mesma cantra com a sua voz infantil e vibrante aquella
formosa aria napolitana _Te voglio ben'assage_, e de que os _guaglioni_
a applaudiram, os _guaglioni_ que em Paris, com o nome de _gamins_, lhe
venderam algumas vezes jornaes  sahida do theatro.

Quem lhe dera a ella encontrar ainda vivo o pae, vel-o com a sua jaqueta
azul e o seu collete vermelho, como na noite da Piedigrota, mas o
publico chama-a, e acclama-a, e ella sente deslisar-lhe nas faces a
chuva das petalas, algumas das quaes rolam humedecidas com uma lagrima!
Finalmente a ovao extinguiu-se,  livre, e sae do theatro sosinha,
cantando e suspirando ao mesmo tempo:

    Finestra bassa e...

Quer chegar a tempo de receber a beno paterna, e vae chorando,
chorando, porque se lembra de que se o pae a chamou para lhe assistir ao
passamento, ella no ter por quem chamar no leito da morte...

Pois a gloria? Oh! a gloria  s para a vida,  a illuso, a embriaguez,
o delirio, e a morte  a realidade, a pedra do sepulchro, o silencio do
cemiterio, e o mysterio da eternidade...

A gloria deixou-a ella com as flores que ficaram no camarim, sobre as
coras de louros que dentro em pouco estaro ressequidas...

E todavia,  hora em que ella vae chorando sosinha pelo caminho, correm
o mundo as italianas, e toda a gente diz--Chegaram!--Viu-as?--Eil-as! e
ella vae j muito perto de Napoles, e s com vr o co da sua terra teve
coragem para enxugar as lagrimas e soluar:

    Finestra bassa e padrona...

      *      *      *      *      *




EMILIO CASTELAR


Sabeis o que  ir correndo mundo, com os olhos fitos n'uma esperana,
vencendo todos os obstaculos, dormindo  sombra d'uma arvore  espera da
aurora, que  o pharol dos que navegam no mar da vida, deixando-se bater
dos temporaes que passam mugindo e alastrando a estrada de folhas e
flores? Os viandantes apenas relanceiam um olhar de surpreza ou desdem
ao peregrino que vae absorto no seu pensar, e logo desviam a vista a
procurar horisonte, sem se importarem mais com a sombra que se afastou,
d'olhos baixos, porque o horisonte que procura ainda est longe, porque
o co coberto de nuvens sinistras no ca ainda os fulgores iriados do
sol...

A sombra que perpassou por vs,  caminheiros da vida, levava uma ideia
comsigo, um proposito, um desejo, uma esperana.

Vs ides com a vossa ideia; elle vae com a sua. Vs procuraes um
horisonte; elle procura outro. Vs quereis aproveitar o dia; elle quer
esperar a alvorada. Ris-vos! Pois se o sol desencadea das alturas
torrentes de luz, dizeis vs, se tudo  azul e oiro no co, elaborao e
abundancia na terra, como  que o peregrino vae a procurar a aurora que
se illumina apenas de palidos diluculos, e no aquece o mundo, e no
fecunda a gleba, e no doira as aguas? Toda a gente vos dar raso,
porque a humanidade costuma legislar para as circumstancias normaes da
vida, para as temperas vulgares que seguem a rotina do vicio ou da
virtude, para as abelhas que volitam em inalteravel rotao em derredor
da grande colmea do mundo, e no vos obrigam a suppr o caso
extraordinario de desertar uma do enxame e ir procurar em jardins
remotos os sucos com que ha-de encher de mel o seu favo. Ah! no riaes.
 que o espirito d'elle no foi vasado nos moldes communs do vosso; 
que a sua alma no se pde medir pela bitola que pe limites ao vulgar
dos homens;  que o peregrino que passou tem o seu ideial n'umas alturas
que s a aguia com a sua vista audaz e penetrante lograr devassar. Ride
pois.

Chamae-lhe devaneador, utopista, poeta, visionario... Notae porm que
nobreza a sua! Vs no vos contentaes com o vosso riso banal, e chegaes
ao insulto; elle vae com a sua ideia e com o seu silencio,  procura do
seu sol. Vs transigis com todos os accidentes da jornada para vos
dardes repouso e conforto; elle no entra s pousadas, porque l
dentro ha rumor de vozes, e cada um dos convivas ha de ter uma opinio
que pde no ser a sua. Senta-se pois  sombra de uma arvore, por entre
cujas frondes descem as fitas do luar ou as ondulaes do sol, porque a
arvore pde dar sombra a todos, e porque sobranceiro  arvore fica o co
que  o abrigo universal... Alli tem as suas vises, as suas luctas,
alli se retemperam as suas esperanas, e ainda o horisonte to vasto e
to limpido, sem um contorno que denuncie a architectura dos castellos
sonhados na phantasia!

No importa. Bastar uma hora de descano physico para reanimal-o.
Depois, l ir pela estrada deserta, rompendo as trevas, expondo a
fronte ao aoite dos vendavaes,  procura da sua luz.  o peregrinar
continuo do sonhador que no encontra, dizeis vs, a realidade, porque o
seu ideal no ter realidade. Ah! vs sabeis lr no futuro, escrutar os
segredos do amanh, sondar o destino que  intangivel? E elle, o
peregrino, tambem se podia rir de vs, porque elle bem sabe que muitas
vezes na nuvem rosada do occaso referve latente a tempestade da noite.

No se ri, no vos insulta: caminha. Mas sabei, porm, que o sonhador
que vs chasqueaes  o audaz Colombo que vae  procura d'um mundo novo;
o velho No que anda recolhendo madeiras para construir a arca em que se
ha de salvar no diluvio sonhado; o inquebrantavel Demosthenes que erra
de montanha em montanha para afinar pela orchestra das tempestades a
revolta eloquencia com que ha de oppr uma enorme barreira s hostes
conquistadoras de Philippe. Todos tres pareciam devaneadores, e todavia
a viso de Colombo abrange um hemispherio, e a arca de No depe nas
faldas do Arar a familia que ha de ser humanidade, e Demosthenes com um
s decreto lucta contra os exercitos de Philippe.

Se o visseis, tambem vos ririeis do louco que andava acordando os echos
dos fragoedos para _domar as rebeldias da palavra_, que devia de ser a
primeira espada hellenica. E todavia o devaneador solitario das
montanhas mereceu aos athenienses seus irmos este epitaphio: 
Demosthenes, se a tua fora fosse igual  tua eloquencia, jmais o Marte
da Macedonia haveria submettido a Grecia!

Demosthenes dos tempos modernos, Emilio Castelar, o sonhador da
republica hespanhola, errava desde os primeiros annos na indefessa
peregrinao do seu ideial. Quando mais brilhavam de clares festivos os
paos de Castella, e o throno de S. Fernando se recamava de custosos
brocados, ia elle mundo alem, de capital em capital, ouvindo os homens e
estudando os acontecimentos para tirar horoscopos com a credulidade do
sonhador que s vive do seu phantasiar.

Quem no caminho o encontrava, ficava-se dizendo aos companheiros:
Visionario! E os companheiros repetiam: Visionario!

E elle caminhava, caminhava, medindo-se com a voz da tempestade, como
Demosthenes, e expondo a ampla fronte ao turbilho que arrastava na
passagem o sceptro de Napoleo III, a cora d'Izabel, o manto de
Maximiliano, folhas soltas da arvore da realeza...

Corria o mundo, visitava Paris, estudava Roma, e a peregrinao no
tinha ainda acabado, e havia tantos annos que partira! D'onde partira
elle, o visionario? Da praia do seu pensamento, das regies da
liberdade, da _sancta sanctorum_ onde guardava este evangelho da sua
religio politica:

A liberdade, a igualdade, prgadas no Golgotha, selladas com o sangue
de Christo, verdades religiosas no Evangelho, vieram a ser na austera
Suissa, n'esses Estados Unidos que se sacrificam pelo escravo, grandes
verdades sociaes. O mundo moderno, a civilisao moderna, no faro mais
que estender essas verdades e applical-as  vida. So como a lei
definitiva da historia. Passaro s geraes arrastadas pela corrente
dos seculos, e no daro de si ideal superior ao ideal da liberdade.[2]

Para onde ia elle, o sonhador das Hespanhas? Ia para o futuro que devia
chegar fatalmente, para a realisao do seu ideal, para as paragens
sonhadas que o seu espirito procurava. Acabava de vibrar o seu grito de
liberdade no Atheneu de Madrid e ia para a Republica de Hespanha. E, nem
por affrontado do caminho, levava o corao cheio d'odio contra os reis.
Amava os principes, quando fossem magnanimos; o que elle no queria
era a cora, o throno e o sceptro, porque a cora averga a fronte,
porque o throno eleva o homem e o homem  uno, e porque o sceptro fatiga
o brao que o sustenta. Queria liberdade, e at para os principes a
queria. Por isso, quando a generosa alma do filho de Victor Manoel,
espavorida dos horrores da grandeza, quiz sacudir de si os arminhos da
magestade, e aspirou  liberdade do seu principado, do seu lar, da sua
patria, Emilio Castelar, redigindo a resposta  mensagem d'el-rei
Amadeu, generosa como a renuncia do monarcha, fez votos porque a
liberdade, que o principe deixra nos seus jardins de Italia, voltasse a
sorrir-lhe de novo, deposta a cora que comprime a fronte...

Quando elle viu descer do throno o ultimo rei d'Hespanha, no parou para
dizer--Emfim!--mas antes o ficou abenoando, porque comprehendeu a alma
do principe, que no tivera uma palavra d'azedume para os que o elegeram
e o desampararam, e porque o julgava to feliz como elle proprio, porque
para ambos havia terminado a trabalhosa peregrinao, a de um pelas
regies do poder, a do outro pelos dominios da phantasia.

E a viso convertera-se em realidade, e a Hespanha, o paiz das tradies
monarchicas, patria de reis que chegariam para occupar muitos solios, a
Hespanha, dizia eu, deixava vazio o unico throno que tinha, e sem dar
tempo a que resfolegasse a ambio dos pretendentes  realeza, arvorava
a bandeira da republica sem havr derramado uma gota de sangue nos
despojos da magestade...

E os que tinham gritado: Visionario! ficaram olhando estupefactos para o
horisonte que no co da peninsula apparecia refulgente dos clares
matinaes da ideia nova.

E o peregrino despia a esclavina do caminho e lanava ao povo hespanhol,
da tribuna do poder, construida pelo povo, as primeiras palavras do
crdo republicano, porque, como disse Fenelon d'um periodo analogo da
historia grega, tudo dependia do povo e o povo dependia da palavra.

Se a eloquencia  chamada a representar um papel activo nos destinos
d'um paiz, se ella tem necessidade de ser uma instituio do estado e um
meio de governo,  de certo quando se desencadeam todas as foras vivas
d'uma raa que readquire a consciencia da sua individualidade e do seu
poder. Ento  torrente infrene da vontade popular, da seiva que rebenta
em caches do corao do povo,  preciso oppr a torrente da eloquencia
reflectida, a luz d'um grande espirito, que desempenhe a misso do sol,
e aquea a seiva, para que possa fructificar e revigorar todas as
sinuosidades do organismo nacional.

A Grecia, no periodo fecundo que seguiu o grande movimento das guerras
mdicas, quando a alma popular respirava desopprimida do jugo de
Pisistrato, teve Pericles que appareceu ao mundo como a mais completa
encarnao da fora nova, dirigindo com a palavra, durante vinte annos,
os destinos do paiz. Pericles, fallando, diz um historiador francez,
tinha a fora e a serenidade do Jupiter homerico, tal como o cinzel
de Phidias acabava de creal-o. O que dominava no orador era um
sentimento profundo da gloria de Athenas e do papel que ella lhe havia
confiado.

A Hespanha d'este que pde ser periodo fecundo,  similhana da Grecia,
tem tambem o seu Pericles, digno como elle do cognome de Olympiano, cuja
palavra alternadamente poder servir de barreira e de leme, de sol e de
tufo, de correco e de guia.

O mundo antigo costumava vencer com a espada; o mundo moderno deve
convencer com a palavra. Convencer  vencer duas vezes: vencer-se a si e
vencer aos outros.

Esta dupla misso pertence ao nosso seculo; seja pois a palavra que
derrube, a palavra que construa, a palavra que persuada, que arraste,
que conquiste. E a Hespanha, no por emquanto breve periodo da sua frma
republicana, j por mais d'uma vez tem carecido da fora e da serenidade
do Jupiter homerico, j comprimindo a impaciencia popular n'este dilemma
pungente: _Ou rei ou dictador_, j serenando as facciosas tempestades
parlamentares, como na sesso do dia 14 de maro, com o seu verbo
incisivo, pensado e ardente.

Elle tem, como Pericles, o sentimento profundo da gloria d'Hespanha, e 
sobre as aguas da democracia que pretende estender a sua vara de Moyss
apontando a liberdade nascente.

Trabalhar, fallar, persuadir. O que elle pede  a liberdade
collectiva, a felicidade da sua patria, mas se o destino lhe fr
adverso, contentar-se-ha com a liberdade individual, volver  modesta
posio de escriptor, aos seus jornaes americanos,  sua velha
propaganda at que resurja de novo a aurora, porque Emilio Castelar
morrer republicano, sorrindo  liberdade.

      *      *      *      *      *




ANIMAES E VEGETAES


Outro dia ia eu passeando ao longo d'aquella extensa avenida do Prado do
Repouso, quasi ao anoitecer,  hora em que os visitantes saem e o
coveiro entra.

Fui andando, andando, com os vagos pensamentos que d o estar entre
tumulos, e mais d'uma vez me pareceu ouvir murmurar as grandes arvores
que ladeiam a avenida pendidas aos sarcophagos.

E insensivelmente me occorreram os versos de Lamartine:

    Tout parle. Et maintenant, homme, sais tu pourquoi
    Tout parle? Ecoute bien. C'est que vents, ondes, flammes,
    Arbres, roseaux, rochers, tout vit! Tout est plein d'ames.

E entrei de contemplar pensativamente as arvores a vr se lhes
encontrava coisa que fosse vestigio d'alma. Murmurar, murmuravam
ellas; ora se a gente falla porque pensa, claro est que os vegetaes
teem sensibilidade e intelligencia.

Depois fui-me lembrando de que Lamartine havia descoberto outrosim que
tudo n'este mundo tinha, alem de voz e alma, modo de vida:

    ... l'abime est un prtre et l'ombre est un pote

e completei os meus pensamentos pela ideia de que,--assim como os
vegetaes possuiam alguma coisa de gente humana, bem podia a gente humana
ter alguma coisa de vegetal.

E fortifiquei-me na philosophia de Lamartine tentando averiguar que
casta de planta ou arvore seriam algumas pessoas, das que a phantasia me
ia configurando alli mesmo.

Ah! bem sei, disse-me eu, tu, uma rapariguinha corada, muito aceiadinha,
com dois signaes pretos nas duas faces, tu, que podes ser mestra de
meninas ou _femme de comptoir_ nos bazares do Palacio, que nasceste mais
para andar em cima d'um prato do que em cima dos taces, tu, haverias
nascido morango, sim, morango, d'aquelles de que se comem duas duzias,
pela manh, antes d'almoo.

E tu,  rapariga que vendes os morangos, que nasceste na Magdalena,
que tens a robustez das organisaes retemperadas pelo mar e pelo acre
salutar dos pinheiros, tu, que tens perna de varina, que vens  cidade
por baixo d'um sol abrasador, de modo que chegas  Ribeira cheirando a
saude e a sol, tu serias fatalmente, irremessivelmente,--ma camoeza.

E tu,  morena de faces tostadas e pennugentas, de boas cores
carregadas, cheia, refeita, tu, que no nasceste  beira do mar, mas
nasceste  beira da serra, tu nascerias, se teus paes fossem vegetaes,
tu nascerias pcego.

E tu,  camponeza quarentona, com as tuas enormes argolas a cahirem nos
refegos do pescoo, tu, que vens  cidade em dias de romaria com os teus
pesados grilhes d'ouro e as tuas grandes soletas de verniz e setim, tu,
que s talvez me de dez ou doze raparigas-pcegos, tu serias uma
rotunda bolina, no das que os lavradores vendem, mas das que do de
presente ao administrador ou ao juiz de direito.

E tu-- contraste!--tu, menina esverdeada, que tens escrophulas ou
soffres do figado, tu que pareces sahir d'um banho de verdete e que tens
uma mam com o mau gosto de te dar vestido verde, e brincos de
esmeralda, tu, pendida do teu camarote, para melhor ouvires o Santos ou
a Emilia Adelaide, tu, n'essa mesma inclinao em que te vejo, tu
haverias nascido,  desventurosa menina--como isto  triste!--tu
haverias nascido--vagem.

E tu,  borracho encartado, que tens o unico modo de vida de passar os
dias nos armazens, que trazes a cara colorida dum vermelho-roxo que d o
abuso do vinho, tu, que s to inutil para o mundo como o  a amora
para o lavrador, tu apparecerias n'este mundo, se teu pae se chamasse
_Silva_,--feito amora.

E tu, que nasceste fadado para seres caixeiro de teu pae, que poderias
chegar a aperfeioar o artefacto com que elle se enriqueceu se no
desses a escrever versos e a lr poetas allemes, a pintar olheiras, a
fazer-te triste, a andar com a cabea pendida, a escrever o teu
artigosinho para o jornal, tu, que andas curvado a procurar pelas ruas
os pensamentos que os outros deixaram, tu, se no fosses o que s, meio
litterato e meio negociante, tu serias o que devias ser--choro.

E tu, que s alto, magro, escuro, que trazes bengalo e no bates em
ninguem, que serves quando muito para fazer inflammar a gente, tu
nascerias pinheiro, e darias pinhas, que so boas para atear o fogo.

E tu,  calumniador insupportavel, que appareces entre os homens para
aborrecel-os e para incommodal-os, tu, de quem todos fogem e que s
serves para incommodar e aborrecer, tu, se nascesses n'um jardim, serias
com toda a certeza--arruda.

E tu,  feia de boas qualidades, mal feita de corpo e bem feita da alma,
tu, que no tens graa propria e soccorres a desgraa alheia, tu
nascerias marmello, fructo pouco sympathico, de que se faz a marmellada,
que  realmente muito peitoral para os que soffrem.

E tu,  parasita, que andas sempre encostado aos outros, que te vaes
mettendo  viva fora por entre os que teem um vintem de seu, que nos
vaes perseguindo  medida que te vamos enxotando, tu bem sabes o que
serias,  parietaria social, tu serias--hera.

E tu, que s anguloso, que trazes sempre o casaco a danar nas
protuberancias osseas e os joanetes a luctar com as botas, tu, que s
uma pessima figura e talvez uma boa alma,--tu nascerias pra de sete
cotovellos.

E tu,  languido Romeu, que ests sempre doente, que no pensas em
ganhar a vida porque teu pae tem bom emprego, que precisas de muito
resguardo, segundo diz a mam, e que passas quasi todo o anno mettido no
mar, a conselho do medico, tu s para a sociedade o que a alface  para
a mesa,--uma coisa molle e transparente, que no fortalece o estomago e
que se come por luxo--portanto tu serias--alface.

E tu,  aborrecido grosseiro, que nos deixas sempre indigestos da tua
presena, que s s supportavel quando ests ao p de tua irm, que so
uns bons trinta annos, e de tua filha, que so uns bons vinte contos, tu
serias pepino, sim, tu serias pepino, fructo que s se pde tolerar, em
salada, com azeite e vinagre  mistura.

E tu,  pequenina graciosa, que pareces contar eternamente vinte annos,
que ds  gente vontade de te passear ao collo em vez de te passear pelo
brao, que tens no obstante a elegancia da tua pequenez, tu serias
forosamente, pequenina e gentil como s,--tu serias--avell.

E tu,  conductor de mala-posta, queimado e musculoso como um athleta,
tu, que atravessas serras e serras ao pino do meio dia, e ests
sempre apto para o servio, tu s a uva da humanidade, porque a uva
tambem vive entre fragas, e recebe cr do sol que apanha, e tem o
prestimo que tu lhe costumas utilisar muitas vezes ao dia,--e por isso,
 conductor de mala-posta, tu, a seres vegetal, serias--uva!

E tu,  menino que cursaste sete annos o lyceu, e incommodaste os
professores com grandes empenhos e teus paes com grandes despezas, para
ao cabo de sete annos de luctas e dispendios alcanares unicamente
certido de exame de francez, tu,  inutilsinho,  pedantesinho, que te
ds a importancia da tua ignorancia, sabes como se chamaria teu pae, se
fosse arvore, e como te chamarias tu, a seres filho de teu pae? Pois
bem, eu t'o digo, para que o fiques sabendo, d'uma vez para sempre,
entende bem,--d'uma vez para sempre,--elle chamar-se-ia _Carvalho_ e tu
serias--bugalho.

E tu,  eterno pretendente, que vives aos ps dos ministros, que te ds
bem na humidade das secretarias, que encaras como modo de vida o ser
pretendente, que no serves seno para seres o que s,--que te parece
que serias se a philosophia de Lamartine no fosse apenas um devaneio
poetico? Tu serias tortulho.

E tu,  agiota,  fraca figura que tens a fora do dinheiro, que s
preciso para tudo, que tens o que d luz ao homem e sabor  vida, que
tens na tua algibeira o azeite com que se tempra e allumia a
existencia, tu nascerias--azeitona.

E tu,  irascivel,  atrevido,  petulante, que pareces arder e
fazes arder a gente, que te ds a conhecer em toda a parte pela rudeza
agreste de teus gestos e palavras, tu, a no seres o petulante, o
atrevido, o irascivel que s,--tu serias malagueta.

E tu,  espirito lucido e malicioso, que tens graa, que tens alegria,
que ds colorido e relevo s mais relamborias semsaborias, tu que s a
animao e a vida, que desembotas o paladar e abres o apetite, tu
nascerias--pimento.

E tu,  alma angelica,  pallida enfermeira do filho moribundo,  nobre
corao que enthesouras todas as riquezas n'esse cofre em que se torna o
corao da mulher quando chega a ser me,  santa,  me, tu serias o
que de mais delicado pde haver entre as flores,--tu serias--lyrio.

E tu,  irm carinhosa, formosa e boa, terna e gentil, mixto de
innocencia e formosura,  pura amiga,  doce amparo, que te escondes do
mundo se ns soffremos, e que lhe sorris se o sol da felicidade nos
doira a vida, tu serias, porque o s,--sensitiva.

 insipida menina, que dizes _no meu senhor, sim meu senhor_, que no
sabes sorrir, que no sabes fallar, que no sabes viver--tu serias--lima.

Mas teu primo, aquelle azougado rapaz, que  a alegria da tua casa, que
est sempre a metter-te  bulha, e que parece ter sido dado  luz por
tua tia para compensar o disparate que tua me fez gerando-te, teu
primo, que deve ter um appellido similhante ao teu, teu primo
seria--limo.

E tu,  filha do burguez, que no vaes ao theatro, porque teu pae s
gostava da _Degolao dos innocentes_, e acha estes dramas modernos
_pataratas_, tu, que no s gentil, mas que pezas cincoenta contos de
reis, tu, que tens muito que comer em... dinheiro, tu,  invejavel
burgueza!--tu serias melancia.

      *      *      *      *      *




 ACADEMIA DE COIMBRA


Se no organismo das naes, como no organismo do homem,  indispensavel
um corao que alimente a vida publica, deve o sangue portuguez jogar em
systole e diastole, ahi, onde vs estaes, nos paos da Universidade.

Coimbra  o corao de Portugal.

Para ahi confluem as veias cavas cujo sangue negro da mocidade inculta
ahi vae ser purificado no pulmo da eloquencia, e d'ahi  que nasce a
aorta que revigora os vasos capillares d'este grande homem collectivo
chamado Portugal.

E digo _grande_, porque sois vs que fazeis mover as valvulas do corao
portuguez, vs, a intelligencia de quatrocentos homens, garantia de
existencia futura, vs o futuro mesmo.

Ahi aprendeis a deletrear o passado da vossa patria nos traos
architectonicos do pao das Alcaovas, na contemplao dos retratos dos
illustres vares que revestem as paredes da sala dos _actos grandes_, e
d'alli aprendeis a amar o futuro embalados nas santas aspiraes que
mutuaes no desenfadado conversar da _via latina_ ou no suave bordejar do
vosso Mondego.

Sois, vs todos os que passaes por esse grande chrysol, duas vezes
portuguezes: portuguezes pelo passado, portuguezes pelo futuro.

E para ser nobre, e generoso, e digno, basta haver nascido portuguez.

Mas vs quereis mais, deixaes os vossos lares, a vossa familia e a vossa
aldeia para vos irdes juramentar no exercito do futuro, cuja cazerna se
levanta como reducto venerando a dominar a vossa Coimbra, a praa do
militarismo intellectual, onde a intelligencia faz sentinella, e se
aprende a manejar armas nos combates incruentos do espirito.

Tinheis a serenidade lareira das vossas arvores, e ides procurar a
sombra menos consoladora dos claustros do vosso annoso baluarte. Tinheis
a aldeia e os seus remanos, e quereis a lucta e os seus alvoroos.
Tinheis a familia que  o ocio, e procuraes a patria que  a grande
batalha, onde todos combatem.

Vs sois os defensores e a causa, os soldados e a bandeira.

Defensores, porque ahi estaes retemperando as armas do combate; a causa,
porque sois a gerao nova, e a gerao nova  o _amanh_, e a
patria depende do _amanh_.

Soldados, porque tendes a vossa bandeira; bandeira, porque combateis por
vs mesmos.

Hoje sois a academia; amanh sereis a sociedade.

Hoje vestis a batina; amanh cingireis a toga do magistrado, os talares
do sacerdote, a opa do tribuno, a banda do militar, os arminhos do
ministro.

Hoje sois a nau do futuro; amanh sereis o leme.

Hoje ides na tolda cantando ao luar os poemas das vossas navegaes
amorosas; amanh estudareis  luz da bitacola os contornos coloridos do
atlas.

Hoje sois a almenara do acampamento; amanh sereis o pharol da sociedade.

Hoje ouve-vos o Mondego; amanh ouvir-vos-ha o mundo.

D'ahi sahireis apostolos e soldados: apostolos da religio do bello e do
bem; soldados das tradies gloriosas da patria.

A vossa palavra fecundar o solo portuguez, e vossos filhos recolhero
no celleiro nunca exhaurido das memorias gloriosas a colheita que vs
lhes preparardes em cinco annos de suado e ininterrompido agricultar nos
campos do pensamento.

A charrua  o instrumento da fecundao, e vs conduzireis a charrua,
que  a me da abundancia universal.

De vs, que sois o futuro, proviro os destinos do futuro, e assim
vos perpetuareis nas idades porvindoiras da patria.

Vs sois a madrugada do vosso dia; e se a aurora repontar rosada e
loira, o vosso dia ser ameno e tranquillo.

Se agricultardes a terra, a terra fructificar.

 preciso portanto que derrubeis os velhos preconceitos, as antigas
usanas da vossa vida academica, nocivas a vs e  patria.

O agricultor, que, ao alvorejar da manh, sae do tugurio, d'enxada ao
hombro, primeiro derruba as parietarias que lhe comem o pomar do que
desbrava os matagaes que lhe ensombram a sementeira.

Sde como o agricultor, e primeiro extirpae as tradies anachronicas da
academia do que as tradies anachronicas da sociedade.

A _troa_  um velho habito da vida escholastica da Universidade.

Vs, que vos estaes preparando para defrontar os mais nublosos problemas
do futuro, retrocedeis ao passado pelas chacotas truanescas da _troa_.

_Troar_  ridicularisar.

Fundi a estatua da humanidade, no traceis a caricatura do homem.

No _caloiro_ ha o embryo que pde ser flr, a chrysalida que se volver
borboleta.

 uma recruta que vem procurar o vosso regimento.

Recebei-o, no o amedronteis.

Aquella alma no est to vasia que no tenha uma aspirao.

No  to cega, que no procure a vossa luz.

No  to inerte, que no queira lidar comvosco.

Dentro dos muros da vossa praa d'armas todos devem de ser soldados; a
divisa  una, e uno o exercito; una a bandeira, e uno o triumpho.

Hoje sois irmos; amanh sereis homens.

Hoje viveis na communidade da vossa aspirao; amanh vos apartareis
para os vossos destinos.

A vossa Universidade  o tabernaculo onde desde o reinado d'el-rei Diniz
se archiva a taboa da lei.

Ahi aprendeis vs a respeitar o direito, a observar o dever.

A _troa_  uma offensa ao direito primittivo; por tanto, vs, almas
generosas e nobilissimas, extinguireis a velha tradio academica.

Conheceis, melhor que eu, o artigo 2383 do _Codigo_.

Breve sereis chamados a pedir nos tribunaes justa punio  violao dos
direitos adquiridos. Breve tereis de sahir a propugnar pelos interesses
materiaes externos dos vossos clientes.

Comeae pois por defender os direitos primitivos de vs mesmos; por
impr respeito  personalidade physica e moral da vossa numerosa familia
universitaria.

A _troa_ abriu recentemente, no seio da academia, a sepultura de
Antonio de Barros Coelho de Campos.

No caveis sepulturas entre vs.

A morte  a saudade, e vs sois a esperana.

A morte  o occaso e vs sois a aurora.

A morte  o passado e vs sois o porvir.

A morte  a quietao e o silencio; vs sois o movimento e a vida.

Sobre o vosso arraial no deve pairar a morte, porque as vossas lides
so incruentas.

A ampulheta, que regula a vossa vida, deve medir o tempo; no deve
descanar na eternidade.

Uma sepultura  uma coisa inutil entre vs.

Amaes os salgueiraes do Mondego, porque n'elles remurmura o ecco dos
vossos cantares.

Amaes a onda limpida do vosso Pactolo, porque ella deslisa sobre a areia
doirada do lveo.

A sepultura  muda a todas as interrogaes.

O unico movimento que a sepultura permitte  o ondular das hervagens que
a cobrem.

Onde havia uma intelligencia e um corao, ha agora um comoro e uma cruz.

A morte no admitte exforos:  o irreparavel.

Luctar com a morte  esgrimir com o silencio e com o p.

A vossa raso  lucidissima, para que queiraes luctar com o impossivel;
o vosso animo valorosissimo para que tenteis bater-vos com phantasmas.

Vs deveis estar n'um polo, e a morte no outro.

Que a cinza esteja no cemiterio, e o fogo na Universidade.

Que o choro abrigue a urna, e o loureiro ensombre o livro.

Que descance o _nada_, e que o germen elabore.

Tudo  festa em derredor de vs, e a saudade  inimiga da festa.

O lucto  triste: reservae-o para a velhice.

E todavia vs estaes de lucto.

Ha um cadaver e no houve assassinio.

Ha victima e no houve algoz.

Houve apenas uma grande fatalidade.

Correu sangue, e no raivou odio.

Eram tudo irmos, e morreu Abel sem haver Caim.

A logica dos acontecimentos  terrivel.

Foi ella, e s ella, que comprimiu a academia nos rostros d'este
dilemma: Carcere e Sepultura.

Foi ella, e s ella, que abriu o carcere, a sepultura da vida, e lhe
atirou para dentro um corpo vigoroso e uma alma innocente; que descerrou
a sepultura, o carcere da eternidade e deixou cahir no fosso um corpo
inanimado, viuvo d'uma alma sonhadora.

D'um lado o cemiterio; do outro a priso.

Ambos frios, calados, tenebrosos, vastos, medonhos.

N'um o repouso dos vivos, n'outro o repouso dos mortos: em nenhum a
liberdade.

E, sepultos na frialdade, no silencio e nas trevas,--dois corpos.

Sob a abobada um corpo que desejara a morte; sob a terra um corpo que
tinha direito  vida.

Quem os matou a ambos?

Foi a _troa_.

A troa  homicida.

Dispensae a interveno da policia academica.

Onde ha intelligencia,  a intelligencia que _governa_.

Pouco importa abolir de direito a _troa_; vs a abolireis de facto.

Fazei dos vossos peitos muralha para oppr  logica terrivel dos
acontecimentos.

A vossa poderosa vontade esmigalhar para sempre o fatal dilemma; no 
preciso intervir a alabarda do archeiro.

Eu quizera vr abolida a _troa_ no pela Universidade mas pela Academia.

E assim ha-de ser.

Sabereis vingar com a vossa provada grandeza o irmo que est no carcere
e o irmo que est na sepultura.

A abolio da _troa_ ficar para sempre vinculada  memoria por igual
pungente e sublime da catastrophe de 3 de maio.

Triste, porque foi uma dupla desgraa.

Sublime, porque se as lagrimas da academia inteira nobilitaram a memoria
do morto, o perdo do pae inconsolavel, antecipando-se  deciso piedosa
da justia, nobilitou a desgraa do vivo.

Quando o corao de pae no achou culpa, Themis no achar peso na balana.

O corao de pae, ferido por to excruciante dr,  o verdadeiro ideal
da justia.

E a justia do pae perdoou.

A justia do tribunal perdoar tambem, esperemol-o.

Porque, vs o sabeis melhor que eu, a justia  para a sociedade o que o
pae  para a familia: o poder supremo.

A vara, que representa a auctoridade,  cajado e ltego: o mesmo na
familia que na sociedade.

E sendo esta dupla auctoridade uma personalidade moral, que pde
symbolisar-se em Jano, o deus bifronte, no esperemos vr umas faces
illuminadas pela luz evangelica do perdo e outras avincadas pelas rugas
sinistras da severidade.

E esta grandissima catastrophe ficar para sempre archivada na tradio
de Coimbra, com justos applausos da historia, porque ella por a
descoberto a grandeza de muitas almas: da victima que morreu sem odio;
do encarcerado que chora o arrependimento de culpa que no teve: do pae
que perdoou; e de vs todos, que no consentireis mais que dentre vs
saiam desgraados para o carcere e cadaveres para o cemiterio.

      *      *      *      *      *




OS ANNUNCIOS


O annuncio  o seculo.

Saber annunciar  saber viver. Quem melhor annuncia mais ganha. Dize-me
se sabes annunciar, dir-te-hei quem tu s. Ha por ahi algumas raras
pessoas a quem repugna a vaidade de se dizer no annuncio o que se no
devia dizer, e mais do que se devia dizer. So os retrogrados, os que
ficaram parados no caes quando o progresso partiu a explorar mundos
desconhecidos, os pagos da antiguidade que s conheciam como meio de
publicidade a trombeta da fama, so finalmente os que vivem no seculo e
no comprehendem o seculo. Suspiram ainda pelas epistolas do _Braz
Tizana_, acendem a vla com lumes de pau, e preferem o mysterio do
logogripho ao prego do annuncio. Detestam todas as modernas
manifestaes do pensamento--o annuncio, a _reclame_, a abundancia de
jornaes e a alluvio de lumes promptos de phosphoro. De lumes promptos
de phosphoro! Sim, senhores.

L disse Moleschott que sem phosphoro no ha pensamento; Couerbe que a
ausencia de phosphoro no encephalo, reduz o homem ao estado de bruto, e
Paulo Janet que o phosphoro se tornou o grande agente da intelligencia,
o estimulante universal, a propria alma. O annuncio progrediu com o
jornal, como o lume-prompto progrediu com o phosphoro. Jornal e
phosphoro so irmos: o jornal  a ideia; o phosphoro  a luz.

As tribus selvagens, que no conhecem o phosphoro, desconhecem o jornal.
 descoberta da imprensa andam ligados dois nomes: Guttemberg e Fust; 
descoberta do phosphoro outros dois: Brandt e Kunckel.

Estes quatro homens, irmos pelo genio, descobriram a luz que a todos
nos alumia e aquece.

Uma caixa de phosphoros  um pequeno jornal illustrado: as caixas do
snr. Melchior Sola fazem circular os retratos de Bismark, de Castelar e
D. Amadeu; os phosphoros inglezes, conhecidos pela designao de
_flamns_, espalham os retratos de Gladstone, do marquez de Lorne e do
doutor Livingstone. Os mesmos vendilhes que pregoam de manh os jornaes
populares vendem de tarde caixas de phosphoros.

O annuncio desenvolveu-se com o jornal, e o lume-prompto completou-se
pelo phosphoro. O annuncio comeou por ser laconico, serio, conciso.
Tinha a principio uma pollegada de capacidade. Depois dilatou-se e
desenvolveu-se. Hoje o annuncio pde ter um palmo de largura e -lhe
permittido alargar-se at occupar uma pagina inteira do jornal. Traz
vinhetas, medalhas, tarjas, e muitas vezes--versos. O antigo
lume-prompto era uma esquirola de pau com as extremidades empapadas em
enxofre derretido. Para inflammal-o urgia pl-o em contacto com um corpo
j em ignio.

O annuncio teve um periodo similhante, quando precisava de que o
espalhassem; hoje espalha-se elle per si mesmo. Vieram depois os
lumes-promptos chamados _chimicos_ que appareceram em 1809. Para
acendel-os era preciso mergulhal-os em acido sulfurico. Havia tanta
demora em annunciar como em fazer luz.

Em 1832 foram substituidos os lumes oxygenados pelos lumes de frico.
S um anno mais tarde se completou o lume prompto juntando-se-lhe o
phosphoro.

Comeou ento o pensamento a invadir o mundo; o annuncio a espalhar as
invenes modernas; o phosphoro a derramar a luz e a divulgar os
retratos dos grandes homens; o jornal a contar dia a dia os passos e as
proezas dos homens cujo retrato nos havia custado dez ris. Por toda a
parte nos persegue o annuncio, o phosphoro e o jornal.

Em Madrid, no Prado, andam enxames de rapazes,  hora do passeio, a
espalhar tudo isso: atiram os annuncios para dentro das carruagens,
mettem-os no bolso do _paletot_ de quem vae andando, e em vez de
gritarem como antigamente--_La candla, seoritas_, esbofam-se a
apregoar--_Cirillos, seoritas._

 a febre da publicidade.

Est a gente no theatro a assistir a um espectaculo; de repente
sente um papel nas mos:  j o annuncio d'outro espectaculo.

Vae a gente pela rua e parece cahir das nuvens sobre o chapo o annuncio
d'um perfumista, d'um luveiro ou de um domador de fras. Annuncios de
todas as cres, de todos os feitios, de todas as frmas geometricas.
Deixem negar Paulo Janet que o pensamento seja um movimento. Que elle
pergunte se j se viu um pensamento em spiral, um pensamento circular ou
um pensamento rectilineo. A ns compete respondermos que j temos visto
pensamentos circulares nas etiquetas das garrafas, e que a quarta pagina
do nosso jornal nos traz todos os dias pensamentos rectos, pensamentos
curvos, e pensamentos quebrados. O annuncio espalha a litteratura, a
gravura e a geometria. O annuncio  uma philosophia, e a synthese do
annuncio est no _Almanach da Agencia Primitiva_. Do alto d'aquelle
livro v-se o mundo todo. O snr. Braun Peixoto  o Atlante dos tempos
modernos. Sustenta sobre os hombros a machina gigantesca dos homens e
das coisas.

Eu acho to indispensavel o snr. Braun Peixoto como mr. Du Barry; to
indispensavel o annuncio como a Revalescire. Ella restitue a saude do
corpo, elle restitue a saude do espirito. Ou illustra ou diverte. Uma
pessoa est triste, e no se pde alegrar com _champagne_, porque tem
mau estomago. Procura no jornal um annuncio tolo, e consegue rir-se. Ahi
vo trez _specimens_ d'annuncios, que fazem cocegas:


RUA TAL, NUMERO TANTOS

_Continua a ir pentear senhoras, assim como pentea caracoes._

      *      *      *      *      *

_Vende-se um piano de manivella por pouco dinheiro. O motivo da venda 
o proprietario no entender da materia._


PROGRAMMA

_1. Symphonia._

_2. Jogos Icarios por mr. Bergonsini e sua familia._

_3. Variados trabalhos por outros ces intelligentes._

      *      *      *      *      *


VENDE-SE

_Uma cabra e um violo, e algumas missas n'esta redaco._


Este annuncio mereceu as honras de segunda edio, e sahiu de novo com
as seguintes correces e emendas:


ATTENO

_Diz-se n'esta redaco quem vende uma cabra, algumas missas, e um
violo._


Ou finalmente este:


_Quem nas immediaes de Lamego perdesse um albardo pela romagem dos
Remedios de 1867, etc., etc._


Annuncios ha, porm, que se impem pela extenso, pela gravidade, pela
elegancia, e at pela pureza do dizer, acrescendo a tudo isto, que j
no  pouco, serem verdadeiros. Haja vista o annuncio da frasqueira dos
snrs. Castro & Leo, publicado n'este jornal e em outros.

Por traz d'aquelle annuncio enxergam-se dois rapazes elegantes, que
principiam a negociar em vinhos tambem elegantemente, e que para
redigirem o annuncio calaram luvas do Sertori. Escrevem para o publico
como escreveriam para um amigo, por exemplo: No se especialisam mais
vinhos como branco do Porto, Carcavellos, Chably, Mansanilha, Madeira e
muitos outros para no tornar a lista mais longa, e por isso talvez
fastidiosa. Isto  delicado. Annunciantes ha que fatigam o publico,
porque entendem que o publico s afflue quando se v impertinentemente
rodeado d'annuncios e _reclames_.

Tudo quanto se diz alli,  verdade. Vae a gente em bacchica peregrinao
 frasqueira da rua do Rosario e encontra abundancia, riqueza, bom gosto
e, digamol-o, bom tom. Plantas, crystaes, candelabros e porcelanas. O
_Baron Latour_ sorri amavelmente; o _Chateau d'Yquem_ cumprimenta; o
_Sparkling_ atira-nos um beijo d'espuma iriada e,  tentao, venha
a taa, Evoh! e em derredor o _Bourgogne_, o _Hochheimer_, o
_Forestier_, o _Venoge_ e o _Medoc_ comeam a bailar nas prateleiras e a
entoar ruidosamente um dythirambo.

Quem nos levou l? Foi o annuncio. O annuncio falla, o annuncio chama, o
annuncio fascina. Rases tinha o meu querido Julio Machado para dizer:
Annunciae, annunciae! Sempre d'ahi se tira alguma coisa! Annunciar 
armar o barco para sahir  pescaria. Convm que seja bonito o batel, e
que v alegre o pescador, cantando uma barcarola, para que o fundo do
mar o oia e de terra o vejam.

Eu conheo annunciantes tristes, que fazem annuncios tristes, com
dizeres tristes, e que muitas vezes vendem objectos tristes. O resultado
 que as pessoas de temperamento nervoso, e hoje  o predominante, no
lem segunda vez o annuncio, nem vo  loja, nem compram os objectos. E
o annunciante, se annuncia tristemente, tristemente vive e tristemente
morre. Um homem pde vender sapatos de defunto com tanto que se saiba
annunciar. Se elle disser:


Fulano tem grande sortimento de sapatos de defunto para cadaveres de
todas as idades


diz mal, e a gente no lhe quer passar pela porta com receio de que lhe
cheire a cemiterio. Mas caso annuncie:


Quem esperar que eu lhe d o que costumo vender, toda a vida andar
descalo


diz bem,  mysterioso, tem novidade, e faz espirito com a coisa mais
triste d'este mundo, perdo, com as duas coisas mais tristes, porque o
annunciante no vender um sapato s.

Quando se no poder ser elegante no annuncio, seja-se ao menos
mysterioso. E fazer como aquelle cavalheiro d'industria que chegou a uma
feira, armou barraca, e pregou  porta este distico:

    Quem quizer vr a ardina,
    Deite dez reis e corra a cortina.

_Ardina_  um provincianismo; tanto vale como ardil. Deitavam-se os dez
reis  caixa, corria-se a cortina, e que se via? Um burro velho preso 
mangedoura pela cauda. Era o ardil. Ninguem se queixava do annunciante
porque elle tinha prevenido no annuncio. E depois ninguem queria dizer o
que tinha visto para no confessar que fra enganado. Ia toda a gente
vr a _ardina_; sahia a rir, e no dizia nada.

Quando acabou a feira, o cavalheiro d'industria tinha os seus vintens. E
a quem os deveu? A elle proprio, que soube ser mysterioso.

Supponhamos que o snr. Costa Braga, fundador da chapelaria a vapor,
fornecedor da casa imperial do Brazil e da casa real de Portugal,
precisava de annunciar os seus excellentes chapos. Se dissesse
simplesmente que vendia chapos finos, lustruosos como setim, ninguem
recordaria que o snr. Costa Braga gastara cem contos de reis para montar
a sua fabrica. Se, porm, annunciasse:


Delicadas estufas de feltro para os pensamentos, redomas de sda e
carto para perseverar das intemperies as mais mimosas ideias


o snr. Costa Braga teria de fechar as suas portas por no ter tempo de
vender a todos os compradores chapos altos e chapos baixos,
artisticamente annunciados.

      *      *      *      *      *




INDUSTRIA DAS RUAS


Industria das ruas  a arqueta do belfurinheiro, o urso que maneja um
pau, o macaco que toca pratos, o garrano que conta as horas, a harpa, o
realejo, a gaita de foles, o sabonete que tira as nodoas, o cosmorama, a
loteria, o arranca-dentes, o arlequim, o compe-loua, o _pick-pocket_,
e mais ainda.

Todos os homens so como os passaros: teem seu ninho. Voar voam s
vezes, e para longe, mas  no seu ninho que descanam,  no seu ninho
que dormem. Os negociantes da rua, que constituem para assim dizer uma
humanidade  parte, so como as borboletas; voar, sempre voar! E assim
como os naturalistas atravessam com um alfinete o corpo das borboletas
para as fixarem n'um carto, usam alguns escriptores fazer da penna
alfinete para apresentarem  humanidade das salas, em livros e jornaes,
a humanidade das ruas.

Em Frana os typos populares teem tido por photographos habilissimos
talentos. Bastar citar dois ou tres livros, porque so numerosos os que
tractam do assumpto. Eu conheo o _Ce qu'on voit dans les rues de Paris_
e _Les espectacles populaires et les artistes des rues_ por Victor
Fournel; _Enigmes des rues de Paris_ por Eduardo Fournier e _Clbrits
de la rue_ de Charles Yriarte. Em Portugal apenas um ou outro escriptor
se tem occupado em artigos de jornal--lembro-me agora do snr. Alexandre
Herculano e de Julio Cesar Machado--dos typos populares. E todavia esse
immenso mundo das ruas tem, como todos os mundos, seus mysterios, suas
lagrimas, seus sorrisos, seus romances,--o que lhe dava direito a ter
tambem a sua litteratura. Estude-o porm quem se julgar com foras para
o fazer; eu limitar-me-hei hoje a pregar n'este carto volante duas ou
tres borboletas, das que se andam espanejando nas ruas,  luz do sol de
Deus, e que podem constituir, quando muito, outras tantas paginas da
epopa do povo.

O leitor perfeitamente conhece os meus typos, de os vr todos os dias,
de manh, em frente da igreja dos Congregados,--um com o seu cosmorama,
o outro com os seus canarios. O do cosmorama estava fazendo fortuna,
mrmente em dias de feira, mas vae seno quando apparece-lhe um rival
temivel na feira de S. Lazaro, com um cosmorama muito mais variado,
porque tem vistas sacras e profanas, e com o que  mais, com um
voseiro capaz de suffocar a voz de todos os expositores de cosmoramas.

Occupemo-nos em primeiro logar do _parvenu_ da feira de S. Lazaro, e do
seu cosmorama mixto. Typo de cigano, olhar e linhas de invencivel
velhacaria;--jaqueta, chapo de lavrador e calas d'almocreve. A mulher,
um pouco gibosa, e zombeteira como todos os gibosos, est sentada,
emquanto o homem falla, n'uma das travessas do X de pau, que sustenta o
cosmorama,--sempre a rir um risinho... Eu no pude averiguar se ella se
ri da velhacaria do homem, se da credulidade dos espectadores. O certo 
que ri sempre. O homem ronca de p, com a precipitao d'um jorro
d'agua, dando ao pescoo o geito d'um cysne que levanta a cabea. Comea
a funco, e a mulher a rir, alapada entre o cosmorama e o cho, como um
satyro feminino n'uma gruta...

Comea o espectaculo e o discurso:


Vamos, senhores, cheguem-se para vr as grandes guerras da Frana e
Prussia. Isto  baratinho, custa apenas 10 reis, ainda temos dois
vidros. (_Para um espectador_: D c 10 reis.)

Passamos a vr a primeira vista. Ahi tendes, senhores, a grande cidade
do Rio de Janeiro, aquella grandiosissima cidade com a sua barra por
onde entram e saem embarcaes e grandes naus: olhae, senhores, para o
vosso lado direito, e vereis o grande palacio do imperador de quatro
andares. Olhae ao centro e vereis a grande ilha das Cobras; 
esquerda l se avista a grande torre da Candelaria onde o imperador vae
 missa.

(O orador enxota com a vergasta um gatuno que tenta espreitar por cima
do hombro d'um espectador.)

Passamos agora, senhores, a vr o grande exercito prussiano a bater o
exercito francez: olhae ao centro que l vereis j 12:000 francezes
prisioneiros;  esquerda l se vem sahir os prussianos debaixo d'umas
arvores. Pela direita...

(Um espectador, desorientado, volta subitamente os olhos para a
esquerda, e, reconsiderando, vira logo o pescoo para a direita. O orador:)

Pela direita l chegam os carros dos feridos francezes; mais adiante l
se v Napoleo III na batalha de Sedan com o seu brao esquerdo no
cachao do cavallo, dando o seu brao direito  Prussia.

L vem Bismark a toda a brida; l rebentam as metralhadoras, l se v
ao centro a grande exploso de polvora.

Passamos a vr agora Paris. Olhae, senhores,  vossa esquerda e l se
vero as balas ardentes a sahir das boccas dos canhes; mais ao centro
l se v o balo a fugir para fra dos muros da cidade. Triste desgraa
 esta, senhores!

Agora vae apparecer o inferno. L esto as alminhas penando, l est
uma a levantar a cabea, e o diabo a mergulhar-lhe a cabea na lavareda.

Vereis agora, senhores, o purgatorio: o lugar onde esto as almas
antes de subir para o co. L est o padre santo e seus companheiros, e
todos os bispos e alcebispos.

Passamos agora, senhores, a vr a ultima vista, que  o inferno, onde
os maus so castigados pelos crimes que fizeram c n'este mundo.

A velhacaria d'este homem attrae, mais talvez que o seu voseiro. Faz
dinheiro, junta muita gente, mas ainda assim o seu rival dos
Congregados, que tambem foi  feira, tem suas sympathias e sua
clientella certa. Representa os seus quarenta annos; traz calas
antigas, casaco velho e _bonnet_ decrepito; chama-se Joaquim de Almeida,
e  natural de Villa Nova de Gaya.

Anda emparceirado com o homem dos canarios, que veste pelo mesmo theor,
e que poderia ter a mesma cara, se no fosse trazer a barba crescida.
Chama-se Jos Maria Alves, e  natural de Valena. O cosmorama est
sempre collocado a par da gaiola, se bem que os espectaculos poucas
vezes sejam simultaneos, porque o homem dos canarios toma a peito fazer
a policia do recinto emquanto o cosmorama funcciona. Joaquim de Almeida
falla em cima de uma cadeira. Esto as lentes todas occupadas:  uma
enchente. Principia a explicao:

Vamos a vr, senhores, a paixo e morte de N. S. Jesus Christo.

A primeira estao representa Jesus preso deante de Pilatos para ser
sentenciado  morte. Pilatos, no encontrando crime nem delicto em
Jesus, mandou que sentenciasse Caifaz, e elle lavava as mos do bem
e do mal. Como Jesus caminha de casa de Pilatos para casa de Caifaz. A
sentena que le deu Caifaz  que Jesus caminhasse com toda a brevidade
ao monte Calvario com a cruz s costas para n'ella ser crucificado. E a
primeira cahida que deu Jesus. Jesus caminhando para o monte Calvario
eram tantos os golpes que le davam os judeus, que Jesus cahiu rendido
por terra com o peso da Cruz. Agora vamos a vr o encontro que teve
Jesus com sua me Maria Santissima pelas ruas da amargura. Sahiu Sua Me
Maria Santissima ao encontro para se despedir de seu amado filho, mais
Jesus no se podendo despedir de Sua Divina Me le disse: Me, no
choreis, pois por minha morte vos glorificarei. Ahi se v como fica a
Virgem triste chorando atraz de seu amado filho. Jesus caminha arrastado
pelos algozes sem se poder despedir de Sua Divina Me. Agora vamos a vr
como Jesus foi ajudado do Cyreneu. Jesus caminhando para o monte
Calvario, sem foras e sem alentos, pediu a Simo Cyreneu que le
ajudasse a levar a cruz ao monte Calvario. Tambem se v ao lado direito
como est Simo Cyreneu ajudando a levantar a cruz ao Senhor, e ao lado
esquerdo se v como caminha o menino Isaac com a cesta dos pregos e com
a escada deante de Jesus, mostrando o caminho do monte Calvario aonde
Jesus ia a padecer e a ser crucificado. Agora o santo sudario. Jesus
caminhando para o monte Calvario em agonias e suor de morte sahiu Santa
Varonica ao encontro. Ao lado direito l se v como est a Santa
Varonica com o leno branco estendido e o santo sudario do Senhor
escripto.

Este discurso  expectorado com verdadeira rapidez de manivella,
erguendo o orador o rosto para os espaos, e interrompendo-se, a cada
vista nova, o tempo preciso para acompanhar com os olhos o movimento que
a mo tem de executar para a mutao de scena, operao que se resume em
puxar por um cordo.

Agora a segunda cahida que deu Jesus caminhando para o monte Calvario.
Eram tantos os golpes que le davam os judeus, que cahiu Jesus segunda
vez por terra com o peso da cruz dizendo: Os maus cargam meus hombros e
meu corpo cae rendido de afflices. Jesus caminhando para o monte
Calvario com o peso da cruz, sahiram as filhas de Jerusalem ao encontro
com palmas e ramos para recebel-o, mas Jesus olhando para ellas le
disse: Filhas, no choreis sobre a minha morte; chorae sobre vs mesmas
e sobre vossos filhos. Agora  a terceira e ultima cahida. Jesus
caminhando para o monte Calvario, eram tantos os golpes e a pressa que
le davam os judeus, que Jesus cahiu desfallecido a terceira e ultima vez
por terra. Caifaz vendo que Jesus no tinha foras nem alentos, se
apresenta a cavallo dirigindo  guarda que apromptamente apressasse com
Jesus para vir a ser crucificado.


Ns paramos aqui;--o orador no pra, vae repetindo o seu discurso at 
ultima scena. Annunciado o fim, os espectadores debandam,
ordinariamente calados, rompendo a multido com a sobranceria de quem
acaba de vr o que a muitas  defeso.

O homem dos canarios tem quatro, que se chamam: _Isabel_, _Dolores_,
_Branca Flor_ e _Garibaldi_. Tres femeas e um macho, o que equivale a
dizer que tem menos musica do que podia ter se fossem tres machos e uma
femea.

Como se sabe, por excepo aos costumes do sexo feminino, as femeas dos
canarios cantam menos que o macho. Foi por isso que j um poeta francez
extranhou  natureza o

    _... priver les meres des serins
    Du caquet si commum aux femmes des humains!_

Todavia elle no quer que lhe dem musica,--quer que lhe dem po. Ha
cinco annos que os possue. No lhes dar commodidades, porque trabalham
todo o dia, no lhes dar mesmo limpeza, porque, ou velhice ou falta
d'esmero, a plumagem no est setinosa, mas com a sua rao d'agua e
paino no lhes falta. Ainda assim, apesar do seu fadario, so alegres,
teem nos olhos a vivacidade que os caracterisa e a delicadeza e graa de
frmas propria dos canarios, admiravelmente intelligentes.

Chega uma pessoa que quer tirar sorte. Aproximada da gaiola a caixa dos
bilhetinhos coloridos, o homem dos canarios abre a porta d'arame, e
chama por um:

--Vem c, _Isabel_!

O canario d duas voltas na gaiola antes de sahir.

--Tira uma sorte a este cavalheiro.

O canario tira com o bico um papelinho.

--D-lhe quatro voltas.

O canario obedece. Esta operao  para que o vaticinio leve toda a
virtude. s vezes, como se o papelinho, permittam-me a expresso, no
estivesse ainda bem impregnado de futuro, diz o homem:

--_Izabel_, d-lhe mais duas voltas. Uma por este cavalheiro...

O canario executa.

--Outra pela sua familia.

Obedece ainda.

Ento  que o homem entrega o papelinho, e que a gente vae saber o seu
destino por um vaticinio como este, influenciado pelo signo de _piscis_,
que no papel apparece mudado em _pricis_:

_Ests tranquillo por o temor de no sahirem bem de tuas emprezas._
Tranquillisa-te; os teus desejos se cumpriro dentro em pouco tempo,
ters muito breve noticias que te daro alegria. A educao de teus
filhos ser a tua mais doce occupao. Alguns annos depois do teu
casamento, encontrars um thesouro e comprars muitos terrenos, tens de
fazer favores e a paga  a m recompensa; a ideia de cumprires tem de
privar-te d'alguns prazeres; ters uma herana que te proporcionar
um bem estar.

Depois affastam-se as pessoas que tiraram a sorte, algumas rindo do
disparate, outras pensando--as mais sonhadoras--que ho de achar algum
dia um thesouro, ainda que no seja seno o _Thesouro de... meninos_.

      *      *      *      *      *




A GIGANTA

(CARTA A JULIO CESAR MACHADO)


MEU JULIO:

D'esta vez o assumpto ... grande.

E, quem como o Julio sabe o que  ter de dar um folhetim em determinado
dia, comprehende que  muito mais raro encontrar um assumpto grande do
que uma mulher grande. D'esta vez apparecem simultaneamente os dois
phenomenos,--uma mulher que  um assumpto, e um assumpto que  uma
mulher, ambos grandes. Ora este folhetim  nada mais e nada menos que a
_Giganta_;--ella  a que ha-de encher estas seis columnas, talvez com os
bicos dos ps ainda de fra por no caber perfeitamente n'ellas. Esta
notavel mademoiselle Rose tem passado de paiz em paiz, e de folhetim em
folhetim. O Julio escreveu d'ella o brilhante folhetim que n'este jornal
reproduzi quarta-feira; hoje escrevo eu, no com pretenes a desbancar
o Julio, mas a desbancar a _Giganta_. Eu lhe explico. Sendo certo que
ns todos devemos professar o mais profundo respeito pela tradio
biblica, e ensinando ella que o pequeno David recebera o collossal
Gollias com uma simples funda, eu quero tambem, segundo a santa lio,
receber ao estylo apocalyptico esta illustre representante da familia
gigantea: atirando-lhe com um folhetim.

Fui vel-a. Era  noite,  hora dos namorados, como o Julio disse. Desde
que entrei a porta senti chilriar em francez, e eu mesmo, antes de
procurar o dinheiro na algibeira, procurei no meu espirito recordaes
da grammatica do Albano e do diccionario do Fonseca. Comecei por ser
francez, dando um franco pela entrada. Ainda quiz vr se, como
geralmente succede no commercio, me fariam o franco a 180. N'essa noite
porm a sala estava cheia, sentia-se dentro a alegria franceza  mistura
com umas ligeiras modulaes no piano, e o cambio estava alto.
Resignei-me a dar pela entrada o que at agora se dava por uma edio de
Michel Levy. Em todo o caso sempre era um livro que eu ia lr. Antes de
correr a cortina vermelha, a tradicional cortina vermelha que empana
todas as celebridades, disse para dentro, com voz que sobrelevou o
murmurio, a _madame_ que recebia as entradas:

--_Il y a du monde._

Esta phrase, que visivelmente se referia a mim, fez-me estremecer
d'orgulho. Est a gente, n'estas agrestes lides da imprensa, to
costumada a vr-se depreciada em jornaes e opusculos, que j teria por
grande elogio chamarem-lhe microcosmo. Vae a _madame_ da porta e
chama-me _mundo_, como quem diz: Entra o snr. Cosmos. Estava eu quasi a
deixar cahir a cortina, para deitar uma falla  _madame_ encarecendo-lhe
a grandiosidade da sua lingua patria, quando me lembrei, por interveno
do Jos da Fonseca, que ella simplesmente quizera avisar para dentro de
que entrava gente.

Era tarde para retroceder,--entrei.

Ao fundo da sala, erguidas sobre estrado, e ambas sentadas,
deslumbraram-me duas mulheres. Ao nivel do estrado ondulavam as cabeas
dos admiradores. O fumo dos charutos, que caprichosamente se derramava
no ar, fez-me lembrar a vaporao d'uma pyra. Insensivelmente tirei o
chapo. Das mulheres, a mais alta, mandou-me cobrir em francez. Eu
cobri-me em portuguez. A mais gorda mandou-me sentar, e, a esse tempo,
j eu estava to enleiado, que no sei bem se me mandou sentar em
francez, se em portuguez. Eu sentei-me universalmente,--como todos.

Sempre lhe quero dizer, meu querido Julio, a razo do meu enleio. O
Julio fallava apenas da _Giganta_, e eu fui encontrar, na saleta da rua
de Santo Antonio, duas mulheres: a _Giganta_ e a _outra_.

Foi uma agradavel surpreza o poder lr dois livros pelo preo d'um s.
Achei ento que o Michel Levy estava sendo caro, vendendo o volume a
duzentos e cincoenta. Esta litteratura viva, muito mais agradavel 
vista, pareceu-me economica. Depois d'estas ponderaes entrei de
examinar as mulheres. Ergui o meu olhar  altura de dois metros e
quinze centimetros, e encontrei a cabea da _Giganta_--mademoiselle
Rose. Depois desci com a vista at encontrar as quatorze arrobas da
outra,--mademoiselle Claire. Estive hesitando entre as arrobas e os
metros, e decidi-me pelo systema decimal. Eu s acredito que uma mulher
 franceza, sendo alegre. Ora mademoiselle Rose estava cantarolando com
_coquetterie_ o _Orpheu nos infernos_; e mademoiselle Claire desfolhava
tristemente uma flr. Esta circumstancia levou-me a perguntar-lhe se era
franceza. Respondeu-me mademoiselle Rose que era sua irm, e do mais que
me disse deprehendi que eram ambas francezas, que tinham quinze irmos,
o mais novo dos quaes estava sentado ao piano.

Pedi logo para vr os outros quatorze. Mademoiselle Rose sorriu do meu
equivoco, e respondeu-me que eu teria de navegar o Atlantico para os ir
vr a Frana. Consultando o programma, que me deram  entrada, e o
folhetim do Julio, vi que era verdade ser mademoiselle Rose uma mulher
d'espirito. Depois, como mademoiselle Claire se zangasse com um
admirador que lhe estava bulindo no p, vi que o programma era tambem
verdadeiro na parte que lhe dizia respeito: _tem bellas maneiras e todas
as qualidades proprias do bello sexo_.

N'isto erguem-se ambas ao mesmo tempo, e annunciam explicao. Os
espectadores da geral arregalaram os olhos. Mademoiselle Rose tomou a
mo para fallar, e um espectador da superior atalhou do lado:

--_Parlez en franais._

Ella sorriu, e disse em francez:

Mrs. e M.mes, nous sommes franaises, nes  Paris; ma soeur (Claire)
est age de dixhuit ans et moi (Rose) de vingt ans.

S'il y a parmi l'honorable societ une persone qui desire connaitre la
diffrence de taille, elle peut s'approcher. Vous pouvez voir que nous
avons la main et le pied petits por tre ma soeur aussi grosse, moi
aussi grande, et le molet proportionn.

(Reproduzo fielmente o francez... d'ellas.)

Mademoiselle Claire limitou-se a mostrar a mo, o p e a perna, porque,
realmente, aquella linguagem plastica era eloquente de sobra.

No obstante, eu continuei a optar pelo systema decimal.

Como porem o publico da geral dsse mostras de no ter entendido nada,
tornaram a levantar-se e a fazer uma explicao em portuguez. Quando
mademoiselle Rose chegou ao ponto de dizer: _e a barrica da perna
regular_, eu tive tentaes de observar:

--_C'est vrai: barrica._

Calei-me, porque ella estava fallando.

N'este comenos um lavrador da geral comeou a rir e a apontar para a
_Giganta_, que lhe perguntou o que elle queria.

O lavrador, com o mesmo sorriso alvar, tartamudeou:

-- que eu queria perguntar se o paisinho da menina era do mesmo
tamanho.

--Muito grande! muito grande! respondeu a _Giganta_ abrindo as mos e
sorrindo em francez para os que entendiam aquella lingua.

A mulher do lavrador benzeu-se, e disse para o homem:

--Olha que ainda  maior do que o castanheiro de Quintes!

Comeou ento a sahir o publico da geral, e a _madame_ da porta, que 
cunhada da _Giganta_, a dizer de cada vez:

--_Il y a du monde._

D'uma vez olhei, e vi entrar um ano. Que _mundo_ to pequeno! Reconheci
que no me devera ter orgulhado da phrase, e entrei de admirar a coragem
do ano que, voluntariamente, se expunha a ser vencido por uma mulher. E
eu, interposto quellas antitheses, lembrei-me de que a humanidade era a
rethorica da creao, e de que da variedade das _figuras_ procedia o que
no poema da vida ha de recreativo.

Em todo o caso achei muito melhor ser gigante, porque sempre se vae
vivendo  custa dos... pequenos. E depois, aquelle estrado em frma de
solio dava a ideia de realeza. Realeza d'estatura,  certo;--com prs e
contras, como todas.

Ella alli est, pensei eu, admirada, festejada, galanteada, recebendo
flores e rebuados, to feliz, to feliz, que tem sempre vinte annos!
Mas tambem, horror! nascer uma mulher gentil, elegante, _coquette_, e
viver sentada, entre os seus pannos vermelhos, sem poder
espanejar-se ao sol no vero, sem poder molhar os ps no inverno!
Molhar os ps, digo eu, porque isso mesmo, que  para ns um desastre,
seria para mademoiselle Rose uma deliciosa surpreza! Tem corrido a
Europa sentada, e dizem-me que tenciona ir agora sentar-se  America. O
mundo  para ella uma cadeira. Se algum dia quizer fazer exercicio, a
conselho dos medicos, e subir ao pico do Himalaya, para admirar o mundo,
ella, que tem sido admirada pelo mundo, e vir ao sop da montanha uma
tribu do Indosto ou uns pastorsitos de Thibet, dir logo voltando-se
para o irmo:

--_La chaise, mon frre, il y a du monde._

As mulheres vo ao theatro, passeiam, danam, e ella, tendo talento,
como realmente tem, vive sentada, a repetir sempre a mesma coisa,
victima da sua propria realeza! Como no pde passear ella mesma, vae
passeando em photographia, e espalhando o seu retrato.

Um dia bem pde ser que se sinta incommodada a ponto de ter inveja da
sua photographia, que tenha um ataque nervoso por querer sahir, e que o
medico declare que precisa d'andar durante vinte e quatro horas. N'esse
dia estar perdida na terra onde estiver, porque todos a vero de graa,
que  justamente a maneira porque ella no quer ser vista. A sua cadeira
perder todo o prestigio, e desde ento a cadeira da _Giganta_ ficar
valendo to pouco como a _Giganta_. Uma e outra perdero todo o
mysterio. Mysterio, digo eu, porque seguramente a _Giganta_ o tem.

Quando  que ella chegou? Quem a viu descer das Devezas, atravessar a
ponte, passar na rua de S. Joo, das Flores, subir finalmente a rua de
Santo Antonio? Como  que ella entrou por aquella porta to
pequena,--to pequena, que muita gente cuido eu que dar de vontade os
dois tostes, no tanto para vr a _Giganta_, como para averiguar o modo
porque ella entraria? Quando partir? Quem a ver? No se sabe. Ella
tambem pouco sabe do mundo, a no ser que no mundo ha dois tostes, e
que o mundo gosta das photographias, e dos originaes tambem.

Recebe dinheiro e nunca viu um Banco. Recebe flores, e nunca viu os
jardins.

No obstante, a realeza de estatura tem suas vantagens para uma mulher.
Quanto o marido lastima, se  casado, ter de vestil-a, folga ella com a
certeza de no poder queimar as suas tranas. Eu vou, meu caro Julio,
fazer-me perceber melhor. Sabe o Julio, sabe toda a gente, como as
mulheres estimam as suas tranas, pretas ou loiras, avelludadas como a
noite ou radiosas como o sol; com que f no lhes prendem uma flr, que
sempre lhes fica bem, porque emfim as flores tanto so do dia como da
noite. Pois bem, supponha o Julio que uma mulher est lendo o seu poeta
favorito,  luz de stearina, muito curvada, to curvada sobre o livro,
que chega a crestar os cabellos! Sendo o cabello a fora, a mulher
perdeu muito da sua individualidade.  um cataclismo. Mas a _Giganta_,
com os seus dois metros e quinze centimetros, por mais febril que seja a
leitura, to superior hade ficar sempre  luz, que pde viver
inteiramente tranquilla cerca da inviolabilidade das suas tranas.
Quando muito, poder acontecer-lhe apagar a luz com a respirao, e
ficar s escuras.

Todavia bastar uma caixa de phosphoros para proseguir na sua recreao;
e, para ella, os phosphoros so to baratos, que qualquer pessoasinha,
por mais pequena que seja, valendo dois tostes, vale vinte caixas de
phosphoros.

E ns, meu caro Julio,--olhe que differena!--valemos to pouco, que
sahindo de casa com a nossa caixa de phosphoros, levamos apenas comnosco
a vigesima parte d'uma _Giganta_.

      *      *      *      *      *




O ALBUM DO GYMNASIO

(POR OCCASIO DA ESTADA DA COMPANHIA DO THEATRO DO GYMNASIO, DE LISBOA,
NO PORTO)


Oio dizer que vamos ter muita coisa: as campanas dos _nios_ que esto
actualmente na Corunha, o violoncello do snr. Casella, o reportorio do
Santos, as tragedias da Ristori, e as guitarras dos fadistas.

Seria opportunidade de me dispender em pontos d'admirao, n'este
conjuncto de surprezas que medeiam entre a campainha e a guitarra, entre
o campanologo de poucos annos e o fadista de muitos, mas reservo esse
luxo ortographico para depois que vir e ouvir os artistas cuja chegada
se annuncia para breve.

E isto por duas rases: por que me ser mais facil copiar do cartaz, e
porque no quero servir gratuitamente as empresas fazendo os cartazes...
eu mesmo.

Portanto, na espectativa do que vir, volto-me para o que
providencialmente j temos, e digo providencialmente, porque no...
tinhamos.

Quero fallar-lhes do Gymnasio, perdo, quero fallar-lhes unicamente
do album do Gymnasio, que tenho presente n'este momento, e cujas
photographias estou passando entre os dedos, suppondo que a minha
cadeira de braos  um camarote, e que a minha jardineira  o palco.

Estou vendo-os, a elles e a ellas, sem a interposio do binoculo, que 
muitas vezes mentiroso, e que realmente tem um terrivel e perigoso rival
na photographia.

Elle  a illuso, o cosmetico, a cabelleira; ella  o nariz defeituoso,
a bocca desgraciosa, as rugas da velhice.

Elle tem o prestigio da mentira; ella a eloquencia da verdade.

Quando um admirador se apresenta a uma actriz por este modo:

--Minha senhora, eu j tive hontem a felicidade de a conhecer por
intermedio do meu binoculo,


ella, que est para entrar em scena, segreda  sua alma:


--Bem; ento no me viu.

Quando porm lhe diz:

--Minha senhora, eu j tinha a felicidade de a conhecer em photographia,


a actriz fica desgostosa e menos _coquette_, porque seria inutil
simular.

Ora sendo a photographia a verdade, optemos por ella.

Bem. Aqui temos o album: folheemos e conversemos.

Na primeira pagina... Taborda.

A gente tem vontade de gritar logo, como se encontrasse em Paris uma
gravura representando a proeza da padeira d'Aljubarrota:

--Bem sei:  uma lenda da minha patria,--a lenda do Homem-Gargalhada.

D'uma valentona que em vez de espancar o homem pretende espancar a
humanidade, costuma dizer-se: Que Brites d'Almeida! D'um sujeito que 
a alegria em pessoa, que faz rir todos os grupos, no quero j n'uma
visita de pesames, que  justamente onde tudo d vontade de rir, mas
n'um casamento, que  a coisa mais seria que eu conheo, costuma
dizer-se: Que Taborda!

Este  conhecido e est definido:  a legenda do Homem-Gargalhada.

Na segunda pagina... Izidoro.

Parece um commerciante que vae  praa com o seu bengalorio e com a sua
gordura,--a gordura passou a ser to desejada que  prudente defendel-a
com um bengalorio--e  um actor distinctissimo, que s negoceia  noite
com as palmas e com os bravos.

To conhecido , que j Julio Cesar Machado, o primeiro photographo
portuguez do folhetim, o retratou na sua pequena galeria dos grandes
actores nacionaes.

Portanto  procurar a photographia na casa Mor. No tem que saber:
_atelier_ de Julio Cesar Machado, Lisboa, retrato do actor Izidoro, com
biographia: preo 200 reis.

Terceira pagina... Maria das Dores.

Ah! um gentil talento, creado no theatro desde os quatro annos! To
pequenina era quando appareceu em D. Maria na _Condessa de Sennecey_,
que adormeceu em scena, e foi preciso acordal-a para completar o seu
papelinho. Depois, estreiou-se a valer no mesmo theatro, no _Anjo da
reconciliao_, no tempo em que a esplendida aurora do talento de
Manuela Rey deslumbrava o publico lisbonense. Era sobremodo difficil
fazer-se notar n'aquella epocha, pela simples raso de que a intensidade
da luz chega a cegar. E Manuela foi realmente um meteoro que s
appareceu no co do theatro portuguez para se amortalhar nos seus
proprios esplendores, e deixar saudades. Maria das Dores estudou,
luctou, fez magistralmente o _Gaiato de Lisboa_, substituiu Manoela Rey
no papel de Bertha da _Mulher que deita cartas_, o que podia
considerar-se uma incontestavel victoria, e hoje  essa grande actriz
que todos temos admirado,--a Silvana da _Filha unica_, a _Valentina_, e
a viscondessa do _Como se enganam mulheres_!

Quarta pagina... Rosa Junior.

Quando este rapaz nasceu (1844) j o pae estava farto de saber para o
que elle nascia. Para pintor, dizia na sua boa f o velho Rosa. N'esse
proposito, foi o rapaz iniciar-se no curso de bellas-artes, e quando
terminava o curso declarava ao pae que no queria ser pintor.  que
realmente a gente nasce com a sua estrella, e, muitas vezes os paes to
cegos esto da sua amorosa ufania de serem pilotos da barca do nosso
destino, que chegam a imaginar possivel a navegao sem olharem para o
co onde esto as estrellas...

Ha ainda alguns desenhos de Rosa Junior, ha, mas elle suppz--e suppz
bem--por interveno da sua estrella, que o maior _atelier_ do mundo,
sem ser o mundo, era o theatro, e voltou-se para o desenho dos
caracteres moraes, a que s um verdadeiro talento pde dar colorido.

Estreiou-se no Porto, em 1862, nas _Joias de familia_ e appareceu em
Lisboa, um anno depois, no theatro de S. Carlos, no _Ricardo III_.

N'esse mesmo anno foi escripturado por Francisco Palha para D. Maria II,
onde se estreiou na _Sophia Mopin_, verso de Rebello da Silva. Foi
contando os triumphos pelos papeis: na _Nobreza_, nos _Fidalgos de Bois
Dor_, nos _Nobres e plebeus_, na _Patria_ e na _Lucrecia Borgia_.

Se o publico se no se encarregasse de lhe dizer que a sua estrella
tinha raso, bastaria a corar a sua resoluo o silencio do pae que
nunca se atreveu a dizer-lhe:

--Diabo! porque no foste tu pintor!

O seu maior elogio  o silencio do pae.

Quinta pagina... Cesar Polla.

Eu no sei realmente como elle chegou a ser actor! Foi empregado
publico, e, o que  mais esterilisador ainda, metteu-se em
politica. A burocracia teve-o nas garras at 1864, e deixou-o escapar!
Chegou a saber o processo de fazer e desfazer deputados. Sondou as
profundezas revoltas da urna eleitoral. E, caso raro! pde salvar-se a
si e  sua intelligencia, fugir  comedia dos homens, enganar o cerbro
da politica para que o deixasse passar e, quando muito, fazer deputados
 bocca da scena, o que  mais glorioso do que fazel-os  bocca da urna.

Estreiou-se em 1865, em D. Maria, nos _Diffamadores_, na noite do
beneficio do Tasso. Esteve em D. Maria at 1870, e durante esses cinco
annos revelou-se o grande artista que hoje , mrmente quando, incumbido
do papel de baro de Lambech, no _Anjo da meia noite_, ao tempo que Jos
Carlos dos Santos o estava fazendo na rua dos Condes, logrou confirmar o
enthusiasmo das primeiras saudaes. O publico lisbonense festejou-o
delirantemente no Pomerol da _Fernanda_, no Bevalan da _Vida d'um rapaz
pobre_, no Mirabeau da _Maria Antonietta_, no Gil Paes de Lima da _Crte
n'aldeia_, no medico do _Juiz_...

Verdade  que se perdeu um burocrata! O oramento no lucrou com isso,
mas quem com certeza lucrou foi o theatro portuguez.

Sexta pagina... Emilia dos Anjos.

 uma discipula do Conservatorio, de faces morenas e olhar vivo,
expedita e intelligente, j conhecida do publico portuense, que em mais
d'uma poca a tem festejado na comedia. Representou no Porto, com
Pinto de Campos, a _Familia Benoiton_, e o nosso publico ficou
estimando-a.

Voltemos folha: Pinto de Campos.

Filho d'uma familia de lavradores de Villa Franca, comeou por ser
typographo. Certo dia lembrou-se porm de que no conhecia ainda todos
os typos--os do drama e da comedia--e fez-se actor. Estreiou-se no
Gymnasio em 1855 e passou depois a D. Maria. Com estas andadas
esqueceu-se da typographia, mas em compensao ficou conhecendo
optimamente a topographia... do theatro.

Fez admiravelmente o Krig da _Cora_, o piloto dos _Homens do mar_ e, no
Porto, os galans com Emilia das Neves.

Artista consciencioso e boa alma. Ouro sobre azul.

Temos na setima pagina... Maria Adelaide.

No theatro e na sociedade  uma _coquette_. Alguem, vendo-a no _Afilhado
de Pompignac_, disse que ella tinha nascido para amazona. Diz com graa,
e tem s vezes a travessura d'um rapaz.

Ora, pela _coquetterie_,  bom passar a gente depressa.

Folheemos as paginas restantes.

Bayard, se no se pde considerar um artista de primeira ordem, 
todavia um actor apreciavel, em que os outros podem ter confiana,
porque no desmancha, como se diz em linguagem de theatro.

Luiza Candida tem uma especialidade--os typos populares,--em que vae
muito bem, o que no quer dizer por modo algum que no tenha
intelligencia para outras creaes.

Jesuina  uma _soubrette_ engraada e distincta.

Ora tambem no  bom demorar-se a gente onde ha graa e distinco...

Carlos d'Almeida  um actor comico, que se adivinha pelo seu casaco azul
de botes amarellos, pela sua _badine_, e pelo seu chapo.

No _Afilhado de Pompignac_ est constrangido, mas ainda outro dia,
n'aquella bagatella _Entre casados_, fez rir a bom rir.

Na ultima pagina do album est Leopoldo, discipulo do Conservatorio, e
ensaiador da companhia. Apparece pouco, mas em compensao todas as
noites apresenta a sua obra.

 tempo de fecharmos o album do Gymnasio, e, como n'esta vida anda
sempre a illuso a par da realidade, bom ser que o publico, que viu a
photographia, veja  noite pelo binoculo... a companhia.

      *      *      *      *      *




ESBOO DE COMEDIA


O pessoal d'esta comediasinha  inferior ao de todas as secretarias,
mas, ao contrario do que acontece nas secretarias, todo o pessoal faz
alguma coisa. Declaro, para evitar pedidos d'empresarios, que ha de ser
posta em scena por curiosos, evitando-se outrosim as tolices dos
actores, e que se nomear no cartaz:


HISTORIA D'UM COLLAR


PERSONAGENS

*Raymundo Savedra*--leo.

*Dolores*--leoa.

*Baroneza de Faies*--ex-leoa.

Principia s 9 horas para haver tempo de preparar a jaula.


Scena I

_Boudoir_ de Dolores.--Tapetes de Susa, espelhos de Veneza, e uma bilha
d'Extremoz. Raymundo e Dolores.

RAYMUNDO--Amo-a!

DOLORES (_despeitada_)--O senhor ama todas as mulheres!

R.--No confunda os fogos-fatuos d'uma noite canicular, estiva,
apopletica com a chamma do sol, intensa, continua, deslumbrante,
esplendida.

D. (_bocejando_)--Que estylo!

R.--No fao estylo. Eu fallo assim.

D.--Oh! ento o nosso amor  impossivel, atroz. O senhor, se alguma
coisa ama, ... os adjectivos.

R. (_carinhoso_)--Perdo, Dolores, a minha eloquencia  filha do meu
amor. O rouxinol da balseira s descanta quando a primavera enflora os
prados. O carneirinho...

D.--No sabe que embirro tanto com os carneirinhos como com os
bachareis! Que est o senhor a bacharelar!

R.--Perdo. Entre bacharelar e ser bacharel medeia a distancia da
reprovao. Eu no tenho cartas.

D.--Com que ento no joga! Virtuoso moo!

R.-- implacavel, Dolores!

D.--N'esse caso pea treguas.

R.--Pedirei.

D.--Com a condio de me satisfazer um capricho, uma velleidade. Preciso
dum collar. Estou doidamente namorada d'um que vi esta manh em
casa do meu ourives. V comprar-m'o.

R. (_pegando no chapo_)--Voltarei em breve. O collar ser seu, e a
felicidade ser minha. (_Sae._)


Scena II

DOLORES (_cahindo no soph_)--Puff! Que xarope de morphina o estylo
d'este homem! Como elle me aborrece, me adormenta! Me adormenta, 
phrase d'elle! E no se lembrar este doido de que  casado, de que tem
filhos...

UM CRIADO, que podia ser de papelo, se alguem fallasse por elle entre
scenas:--A snr. baroneza de Faies.


Scena III

BARONEZA--Minha senhora!

D. (_erguendo-se_)--Senhora baroneza!

B. (_sentando-se a convite de Dolores_)--Eu espero que a justia da
minha causa me absolver da ousadia da visita.

D. (_para a frisa do lado direito_)--Que querer ella? No sei que me
adivinha o corao!

B.--Ha realmente assumptos to melindrosos, que eu no sei se deva...

D.--Minha senhora!

B.--Peo toda a sua benevolencia para a justa defensa dos direitos de
minha cunhada...

D.--Mas...

B.--Sim, eu sei que ama delirantemente meu irmo, que o verdadeiro amor
 cego para todas as conveniencias sociaes, mas  ao corao doente que
eu venho trazer o cauterio da piedade. Lembre-se, Dolores, de que meu
irmo  casado com uma senhora nova e extremosa, e pae de cinco filhos.

D.--Mas... eu queria dizer a v. ex. que no amo seu irmo.

B. (_admirada_)--Como!

D.--Que o no amo.

B.--Pois ser possivel! Meu irmo suppe-n'o, acredita-o, jural-o-ia.

D.--Eu creio que o snr. Raymundo Savedra  facil em acreditar tudo: o
espirito simples , por via de regra, credulo. Agora lhe pedi eu um
collar de preo fabuloso para vr se conseguia que o sacrificio lhe
fosse lio.

B. (_parte_)--Piedosa lio! Esta mulher! (_para Dolores_)--Muito bem!
Est, pois, concluida a minha misso. Saio d'aqui com a felicidade na
alma, e creia que jmais me esquecerei da nobre franqueza que encontrei
nas suas palavras (_comprimentando_).

D. (_correspondendo_)--Senhora baroneza!


Scena IV

RAYMUNDO (_entrando aodado_)--Que veio aqui fazer minha irm? Ouvi-a
fallar n'esta sala, e escondi-me no corredor. Que disse ella?

DOLORES (_com indifferena_)--Perdo! E o meu collar?

R.--Oh! O seu ourives s sabe propr negocios leoninos! Pede uma quantia
fabulosa!

D. (_no mesmo tom_)--Quanto?

R.--Um conto de reis!

D.--Ah! Acha muito!

R.-- que realmente eu tenho dispendido comsigo, Dolores, loucamente, e
receio que um dia a pobreza v encontrar meus filhos amaldioando o
tumulo do seu pae.

D. (_tocando a campainha_)--Que entranhas paternaes as suas! (_Ao
criado_) Diga a este senhor que estou incommodada. (_Sae._)

R. (_fulo de colera_)--Eu me vingarei, infame! Ficar sem collar! (_Sae._)


Scena V

DOLORES (_entrando pela mesma porta porque saira_)--No ficarei sem
collar, no. Eu serei infame, mas tu s... parvo. (_Escrevendo_) Duas
linhas ao meu ourives: Snr.: Queira aceitar a offerta, qualquer que
seja, feita pelo snr. Raymundo Savedra. Eu completarei o preo da compra
do collar. Exijo absoluto segredo. (_Tocando a campainha; ao criado_)
Leve esta carta ao meu ourives. (_Erguendo-se_)  preciso que elle fique
inteiramente derrotado.  uma fonte de receita que se vae eliminar do
meu oramento, e convm no prescindir da ultima verba. Tu
recebers a correco devida a todos os parvos.


Scena VI

Raymundo entra timidamente. DOLORES (_sentindo-lhe os passos_)--Que amor
o d'aquelle homem, que recua deante d'uma velleidade! Vo l fiar-se no
amor! (RAYMUNDO _avanando_)--No faa esse conceito de mim, Dolores,
bem sabe se a amo, doidamente, perdidamente, mas  que...

D.-- que talvez nem mesmo agora saiba ser cavalheiro. O meu ourives
acaba de avisar-me de que resolvera acceder  offerta do senhor.

R.--N'esse caso...

D.--Quanto offereceu o senhor?

R.--Quinhentos mil reis.

D.--(_ parte_)  muito! Tenho de dar outros quinhentos. (_Alto_) No
lhe convm ainda? Acha cara a felicidade que lhe custa quinhentos mil
reis! Que largueza d'animo a sua!

R. (_apaixonado_)--No, vou j, Dolores.  noite fulgir o collar no seu
seio, e as estrellas desmaiaro no co. No ser mais formosa a huri
quando as exhalaes calidas da noite...

D. (_com aborrecimento_)--Quer que lhe faculte o _adresse_ do meu
ourives?  de suppr que a imaginao lhe anniquille a memoria.

R.--At j, Dolores. Vou buscar as estrellas para completar o meu co de
felicidade. (_Sae._).


Scena VII

DOLORES (_olhando para a porta_)--Bonita figura... a do homem! O amor d
azas. Voar. Dentro em pouco estar aqui. O collar ser meu.
Deital-o-hei ao pescoo. Mirar-me-hei ao espelho, e intimarei o snr.
Raymundo Savedra a que saia para nunca mais voltar. E depois um collar
d'um conto de reis no  caro por metade do preo. (_Chegando 
janella_) J desappareceu. No tardar. O caso  que estou impaciente
pelo desfecho d'esta pequena comedia. (_Tocando a campainha; ao criado_)
J vieste ha muito? Ficou entregue? (_O criado bole affirmativamente a
cabea_) Est bem; vae-te. Mal persintas o snr. Raymundo Savedra,
avisa-me. No sei o que hei-de fazer! Ah! o meu piano! (_Senta-se
arpejando e monologando_) E dizerem que a felicidade  isto! Quantas
vezes m'o no teem dito! Se soubessem como estou aborrecida agora! E as
minhas canes! Vamos, Marc, desafia-te a ti mesma; vence o teu proprio
fastio. Pde ser que venhas a amar um dia; enta o teu cantico
d'esperana! No, no posso! Que demora!


Scena VIII

O CRIADO (_com uma carta_)--Da snr. baroneza de Faies.

DOLORES (_impaciente, levantando-se do piano_)--Vejamos. Que ter a
baroneza ainda que dizer-me! Snr. Acabo de escrever a meu irmo
desenganando-o. Antecipei-me, porque lhe seria menos doloroso o golpe
vibrado por mim. (_O criado_: Chega o snr. Raymundo Savedra) DOLORES:
Ah! (_escondendo a carta_).


Scena IX

RAYMUNDO (_entrando de chapo na cabea, com uma caixa na mo esquerda e
uma carta na mo direita. Ameaador, tetrico_)--Sei tudo. Minha irm
teve a feliz ideia de me deixar esta carta em casa do seu ourives, minha
senhora. Esteja tranquilla. No ser preciso que o sacrificio me seja
lio. Esta carta desvendou-me; chamou-me  realidade. O sorriso da
amante no vale o corao da esposa.

D.--O que?

R.--Oh! socegue! As pedras falsas inventou-as o homem para as falsas
mulheres. Mas estas, as que so realmente preciosas, creou-as a natureza
para as mulheres honestas. Adeus. Vou offerecer este collar a minha
mulher. (_Sae._)

D. (_cahindo fulminada no soph_)--E os meus quinhentos mil reis! 
castigo! (_Cae o panno._)

      *      *      *      *      *




AS COLHEITAS


Eia, ceifeiros! Comeam a arroxear os pampanos e a loirejar as messes...

V de limpar a eira, e preparar a adega; de varrer o lagar e ventilar o
celeiro.

Ri no campo a conta amarella do milho, na vide o bago roxo da uva.

Foi Deus que da primavera ao outomno os preparou no mysterioso
laboratorio da terra.

A ambos deu cr, e frma, e prestimo: no interior d'uma pz o cereal que
ha-de ser po; no interior do outro a gota que ha-de ser vinho.

E d'estas pequenas coisas vae sair a fartura, a abundancia, a alegria, a
festa, a riqueza!

To contingente  a felicidade do homem, que um sopro de vento pde
prostrar os milheiraes, e um insecto, to pequeno como a uva, inutilisar
o cacho...

Mas se Deus vos protegeu o campo e o vinhedo, se loirejam n'um os
cabellos de Daphne, e no outro vergam os sarmentos com os psos cr da
amethista, v de azafamar para a colheita, de afinar a viola do
descante, de phantasiar as alegrias da esfolhada, de escolher corpo
gentil onde caia o abrao do _milho-rei_.

Quem no conhece agora a aldeia, quando

    Abre a rom, mostrando a rubicunda
    Cr com que tu, rubi, teu preo perdes;

quando

    Entre os braos do ulmeiro est a jucunda
    Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;

quando mais se amacia o velludo do

    ...pomo, que da patria Persa veio,
    Melhor tornado no terreno alheio

e

    Mil arvores esto ao co subindo
    Com pomos odoriferos e bellos

e

    ... a tapearia bella e fina
    Com que se cobre o rustico terreno,
    Faz ser a de Achemnia menos dina,
    Mas o sombrio valle mais ameno!

 agora que desce dos montes o prego de festa, e que fogem da cidade
para as sombras do bosque, como aves a procurar abrigo, as almas
entediadas da vida ruidosa das cidades.

Borboletas, cuja vida ir queimar-se na chamma fatal, querem povoar os
campos, cujos fulgores illuminam mas no matam, porque descem do
co, e ou so do sol ou do luar.

 tarde, desencalmado o ar, vo os ranchos festivos ribeira abaixo, pela
relvosa alea ladeada de arvores que vergam ao pezo dos pomos.

Vo charlando os moos, rindos os velhos, doidejando as crianas.

Haver por ventura no enxame quem leve seu livro para meditao?

Qual ser elle?

Livro puro e so, como as aguas, como o ar, como tudo alli.

Manon Lescaut e Margarida Gauthier no entram ao santuario d'aquellas
sombras, porque as flores silvestres dos vallados lhes diriam:

--Aqui no ha camelias, peccadoras. Os vossos ramos banharam-se no
champagne das ceias, e crestaram-se; ns florimos banhadas no orvalho da
manh, e perpetuamo-nos. Somos pequenas e singelas. Enchemos apenas o
nosso canteirinho rustico; vs encheis o mundo com a cauda roagante dos
vossos ricos vestidos. Olhae bem e procurae camelias... No as ha. Eu
sou a madre-silva, aquella  a violeta branca, aquell'outra  o
malmequer. Riquezas para a pastora, que vive para colher a laranjeira! 
a sua ultima flor. No lh'a venhaes empestar com as vossas camelias, que
trazem veneno como os vossos labios.

Werther tambem l no entra, porque lhe diz o camponez ancio,
sentado  porta da cabana com o neto nos joelhos:

--El, poltro! Os nossos lares so tranquillos e sagrados,--no se
invadem. Eu sei que esta criana  filha de meu filho, e por isso a amo.
No conhecemos c o desespero do amor illicito que leva  morte. Aqui
vive cada um o tempo das arvores que plantou. Por isso eu tenho estes
cabellos brancos, e  porque me no aborrece a vida, que os vs, ainda
confundidos com os cabellos loiros d'esta criana.

O santo reitor, que serviu porventura de modelo ao evangelico personagem
do primeiro livro de Julio Diniz, encontra no caminho a sombra de
Voltaire, e entre sereno e austero lhe falla:

--No ha quem te comprehenda aqui; vae-te, sabio peior que o rustico.
So tudo camponezes. Nem a minha palavra rude e clara elles entendem,
porque no precisam entendel-a. Deus conhecem-n'o de o vr n'estes
campos que ora fructificam, e que na primavera riem. Esto estas
serranias to habituadas ao silencio, que no encontrarias pelas
quebradas echos para as tuas tempestades. Vae-te em paz, e adeus.

 preciso que os livros, na aldeia, tenham alguma coisa do chilriar dos
passarinhos: que sejam candidos e bons.

Servem os _Contos do tio Joaquim_, porque na alma de Thomaz, o
philosopho amoroso da estrella phantastica, no modilhavam s os
passarinhos, a que do corao queria,--chilreava uma primavera
perpetua.

Servem os _Seres da provincia_, que se diriam outras tantas flores
perfumadas pela alma de Julio Diniz. No teem mau feitio os novellos da
tia Philomena, nem os versos do doutor Jacob queimam como as estrophes
de Byron...

Esses livros cabem  solido, porque  no despovoado que se rememora, e
ambos elles valem hoje duas saudades redivivas.

Do rancho urbano uns lem, outros fallam, e nenhum est triste.

Vae descendo o sol.

Passam no caminho as ceifeiras, contentes do lidar d'um dia inteiro. Na
voz d'algumas canta-lhes a alma; nas faces de todas alvoreja, quella
hora do entardecer, a alegria do descanco. Metade da noite, a seroam:
outra metade, dormem-n'a.

Sol nado, toca a encastelar os cestos da ceifa e da vindima, e partem
cantando. No palacete de gradarias de ferro acorda ao matinal concerto
uma das formosas do rancho que na vespera estava lendo _A flr d'entre o
gelo_. E, lembrada de ter lido n'um poeta portuense esta quadra, sorri
ao primeiro raio de sol que lhe brinca nas rendas do leito, e abenoa:

    Ide ceifar! Deus vos encha
    Os aafates d'espigas.
    Deus vos d boa colheita,
    Rapazes e raparigas.

E o sero!

As rumas de milho no meio da eira; raparigas d'um lado, rapazes do
outro; a requinta a distancia. Ao longe, presentidos j pela turba, os
mascarados.

Emquanto no chegam, o desafio:

    --No penses em ser esquiva,
    Que se eu estender os braos,
    Tu vaes ficar prisioneira
    N'uma cadeia d'abraos.

    --Que se me d de cadeias!
    Sempre um lo  menos forte...
    Cadeias que se no quebram
    So as do amor e da morte.

Chegam os mascarados.

Irrompe a vozeria:

-- elle!

-- ella!

--No  elle nem ella:  outro!

Sempre me ha de lembrar o caso da menina do Pedregal, que tinha amores
contrariados.

Na noite da esfolhada obteve licena para ir danar na festa vestida de
camponeza.

Foi, e disse falseando a voz:

--O primeiro abrao  meu!

Respondeu um camponez:

--Pertence-me!

Era senha. E depois? Depois a menina do Pedregal no voltou a casa, e o
capito-mr, apesar de vr a filha radiosa da felicidade do casamento,
nunca mais deixou andar mascarados nas esfolhadas.

      *      *      *      *      *




S. BARTHOLOMEU


_Per signum crucis..._

Sempre  bom acautelar n'este dia!

Vamos l para a Foz, com toda a gente, depois de persignados.

Encontramo-nos uns com os outros pela rua de Ferreira Borges abaixo:

--Para a Foz?

--Pois!

--Almoar?

--E jantar!

--Mais um copito por minha conta!

--Mais dous por minha!

--A D. Rosalia no vem?

--Foi de vespera; dormiu l!

--Que soffreguido!

--A D. Rosalia no quer perder uma festa!

--Ento  como as esposas ciumentas...

--Magano!

No caminho de ferro americano. Dous gordos:

--Esta romaria mette muita gente!

--O poder do mundo!

--Voc passa o dia?

--Eu vou almoar a casa do cunhado.

--Mas voc vae de palito na bocca?

--Isto foi para experimentar os dentes.

Duas magras, que valem por seis tagarellas:

--De ponto em branco!

--Sim... a _polonaise_  nova...

--Catita d'uma vez!

--O mesmo posso dizer de ti!

--Ah sim... o chapo.

--Est muito fresquinho! Eu gosto dos chapos arranjados com pouca coisa...

--No disse isso a Ravoux, que me pediu oito mil e quinhentos...

--Ellas pedem sempre muito.

--Tu l sabes quanto te pediram pela _polonaise_...

Um sujeito, pondo a cabea fra da carruagem, para outro que desce a rua
de Ferreira Borges:

-- Bernardo!  Bernardo! Anda p'r'aqui!

O outro agitando os braos:

--Ol! Ahi vou!

Uma velha rabugenta:

--Que gordura d'homem! Vamos aqui morrer de calor! Por isso  que eu
gostava dos carroes...

O gordo, atravancando a portinhola, e produzindo um breve eclypse no
interior da carruagem:

--Vamos l a esse _S. Barthalameu_!

O que o chamava:

--Ora o Bernardo! O Bernardo!

Um _petit-crev_ para um _crev-petit_, atravez do fumo do charuto:

--Palpita-me que vamos ter _bernardices_.

Uma creana esmagada pelo Bernardo, que se sentou:

--Ai!

O Bernardo, cuja sensibilidade est embotada pelo habito de trilhar
pessoas:

--No  nada!... Ora coitadinha! Isto fez-me lembrar a anecdota da
melancia e da avell...

Abala o trem.

A velha, estremecendo:

--Nos carroes no havia isto!

L vae aquella fluctuante colonia de romeiros povoar a Foz durante vinte
e quatro horas. Vo  romaria! disseram elles. Pois que vo. Chegaro
l, percorrero todas as cangostas, todas as ruas, iro ao adro, 
praia, a Carreiros, procurando, sempre procurando, e no encontraro
a... romaria.

O que elles encontraro ser:

_Na igreja_--Duas cortinas vermelhas e seis velas acesas, no altar de S.
Bartholomeu. Um homem sentado a uma mesa, a vender registos e a receber
esmolas. Algumas mulheres, que se ajoelham deante da mesa para
beijar a imagem e beijam o diabo, que a imagem tem aos ps...

_No adro_--Quatro mesas com bonecada. Um grupo d'homens de guarda-soes
abertos.

_Na praia_--Muita gente sentada e muita gente de p.

_Em Carreiros_--Algumas pessoas que vo  procura dos lavradores, os
quaes lavradores no apparecem.

_Pelas ruas_--Muita gente que vae e que vem.

_N'uma encrusilhada_--Um sujeito da provincia perguntando a uma pequenita:

--Onde  a romagem, menina?

A rapariga com cara de lorpa conscienciosa:

--C no ha essa rua.

_Nas casas particulares_--Algumas meninas sentadas na sala das visitas.
Ao centro, quatro velhos a jogar a bisca sueca. Tudo  espera do... jantar.

_Na cosinha_--A dona da casa a apressar a cosinheira. A cosinheira a
dizer ao criado que se apertarem muito com ella deixa o jantar por fazer
e vae-se embora.

_Nos hoteis_--A mesa redonda cheia. A mesa quadrada, idem. A mesa
triangular, idem. Mais quatro familias a perguntar se no ha mais mesas.

_ porta do castello_--Dois veteranos a comer melancia, e outro a dormir
com o leno vermelho estendido sobre a cara.

_Nos bilhares_--Dois caixeiros que jogam o bilhar toda a tarde, porque
elles foram  Foz, no procurar a romaria, mas divertir-se.

_No pharol da Luz_--Um pae a explicar ao filho a espheroicidade da
terra pela curva que vae descrevendo um vapor. O menino:  pap, mas se
o mundo fosse redondo, aquelle vapor cahia agora! O pae: Cala-te,
cala-te, tu no sabes o que dizes!

E a romaria?

Procuraram-n'a, rebuscaram, vascolejaram tudo, e no poderam encontral-a...

E os lavradores a tomar banho?

Os lavradores tomam banhos todos os dias, menos hoje. Teimavam em
farpeal-os; elles teimam em no dar sorte.

Diz-se que costumavam tomar sete banhos na manh de S. Bartholomeu.

Eu acho que tomaro sete, em qualquer dia, se tiverem muita pressa d'ir
para a terra. Dois tomam elles todos os dias: um de madrugada outro de
tarde. Acontece por l a cada passo demorar-se um camponez quinze dias e
retirar-se com trinta banhos. J houve um, meu conhecido, de Castello de
Paiva, que esteve quinze dias na Foz e tomou trinta e quatro banhos.
Perguntou-me se eu queria alguma coisa para os seus sitios.

--Ento j vaes?

--Esta noite.

--Quantos dias estiveste?

--Quinze.

--Quantos banhos tomaste?

--Trinta e quatro.

--Como fizeste isso?

-- que aos domingos tomava quatro.

Um anno por outro acontece que alguns d'elles tanta pressa teem de
_acabar com o remedio_, que tomam um unico banho. Isto , morrem depois
do jantar, no mar, com uma apoplexia.

O pretexto d'ir vr os lavradores  um mau pretexto, porque, ainda que
elles se banhassem, como dizem que se banhavam antigamente, n'este
dia,--no prestava aquillo para nada, de certo.

Eu vou explicar como os lavradores tomam banho na Foz.

Vo para as praias da Luz com a sua trouxa sobraada, aos ranchos, por
que um lenol chega para quatro. Elles entendem por um acertado
instincto suino, que quanto mais salgados ficarem, melhor. Mettem-se
entre os fragoedos. Homens e mulheres vo de branco, ligeiramente
vestidos; a cr da roupa faz com que deixem no banho o _ligeiramente_ e
saiam sem adverbio e sem decencia.

Esperam a onda, de bruos na areia, com a cabea virada para a terra, e
a parte opposta para o mar. Isto poderia offender os peixes, se os
peixes tivessem brios. Mergulham sete vezes, porque, para elles, de sete
em sete ondas, vem uma que traz grande virtude curativa.

Depois vo a correr para entre as fragas, cheios d'areia e d'agua, e
limpam-se ao lenol a que j se limparam tres.

Isto  invariavel.

E o diabo, que anda s soltas n'este dia?

A respeito d'este bicho eu sou exactamente da opinio do padre Antonio
Vieira:

O diabo j no tenta no povoado, nem  necessario, porque os homens lhe
tomaram o officio, e o fazem muito melhor que elle.

Ora  este mais um motivo, vista a substituio, para eu acabar como
principiei:

--_Per signum crucis..._

      *      *      *      *      *




O NATAL


Os chefes de familia, que logram contar vinte annos de praa conjugal,
devem hoje chamar seus filhos  sala do jantar e dizer-lhes, indicando a
meza:

--O Natal foi alli.

Que ss. ss.as os moos pennujentos oiam reverentemente a voz de seus
paes, e desam olhos de commovido respeito s mudas tabuas onde o Natal
vaporou as mais succolentas iguarias, e caldeou a mais serena embriaguez
do genero humano nas garrafas scintillantes de vinho e luz.

O Natal foi alli.

Tudo quanto de indigestamente pesado pde haver para o mais vigoroso
estomago, aqueceu as loias que se deixaram cahir de maguadas das mos
dos criados, quando souberam que certo dia o menino mais velho tivera
uma gastrite por haver comido uma gemma d'ovo depois da meia noite. E
tiveram raso. A espada de D. Pedro IV prefere a inactividade do Museu
de S. Lazaro a lampejar ao reflexo do sol em dia de solemne
patuscada militar no Campo de Santo Ovidio.

Viram o throno deserto dos cortezos do seu tempo e no quizeram
sobreviver  ruina do estomago portuguez. Os homens contemporaneos
d'aquellas loias comiam uma gallinha em dia de natal, e um per em dia
d'anno novo. Os filhos, que simplesmente herdaram o nome paterno,
sentem-se affrontados com a digesto d'um ovo, e esto adoptando  meza
os legumes porque a teia de aranha onde caiem os alimentos no consente
mais que uma folha d'alface, e uma vagem de conserva.

Por isso se suicidaram as amplas terrinas de ha vinte annos, e no resta
da primeira festa portugueza mais que este epitaphio na bocca dos velhos:

--O Natal foi alli.

Era alli. A mesa deslumbrava de candelabros e garrafas. Em derredor
estavam as largas cadeiras de couro tauxiado. N'aquelles alterosos
espaldares podia recostar-se uma cabea impassivel  fermentao dos
liquidos. Sabia-se que nenhum dos convivas cabecearia a ponto de
fracturar o craneo na pregaria amarella. Aproveitava-se o encosto
unicamente para se estar aprumado, de modo a facilitar a descida dos
alimentos ao longo do esophago. Os criados entravam e sahiam para pr os
pratos; hoje o principal cuidado dos criados  dispol-os. N'aquelle
tempo no havia symetria; a symetria foi creada e  observada
exclusivamente por ns, que somos a gerao mais artificial que tem
vindo ao mundo.

A abundancia era a condio unica a attender. Ha vinte annos
dizia-se de uma mesa: Estava cheia; hoje diz-se apenas: Estava bonita.
Dispensavam-se as flores. Para recrear os olhos bastava a variedade dos
pratos; para deliciar o olfato era sufficiente o perfume dos cosinhados.
Baralhavam-se as terrinas, as travessas e as taas. A luz passava d'umas
s outras como o reflexo de luar que atravessa as ondas. Era um mar
agitado, amplo e alegre. De espao a espao, como ilha deleitosa,
erguia-se a garrafa; j se sabia que se tinha de parar alli para fazer
aguada. A prudencia do marinheiro est em no se demorar nos portos onde
toca, de modo a atrazar a viagem. Assim observavam nossos paes  mesa.
Faziam escala por todos os archipelagos de crystal, por ser vergonhoso a
um maritimo no conhecer a mais insignificante ilhota. Saudavam na
passagem o promontorio da gallinha, a bahia do arroz, a cordilheira dos
paios, o isthmo do pernil, o cabo dos mexidos, os escolhos das
rabanadas, e a frescura oleosa dos verdejantes oasis de grlos que
ensombravam os pequenos desertos das travessas.

Iam conhecendo o mappa palmo a palmo, vendo o mundo retalho a retalho,
n'aquella noite. Corria a ceia na doce intimidade de bordo. Ria-se
serenamente; fallavam todos e ouvia-se cada um.  cabeceira da mesa
estava o pae com os seus cabellos nevados, radeante d'alegria. Parecia o
piloto  cana do leme. Dilatava-se n'aquelle suavissimo conchego a alma
dos convivas como se dilata a alma dos passageiros na contemplao do
infinito. Quando a tripulao saltava em terra, quer dizer, quando
pouco antes da meia noite se levantavam da mesa, iam em rancho  missa
do gallo, com aquella religiosa solicitude de muitos marinheiros que vo
orar  Senhora da Boa Viagem mal que descem a escada de portal. Era uma
festa! N'aquelle tempo o vinho no embriagava nem as comidas
affrontavam. O estomago dilatava-se tanto como o corao... O somno
fugia amedrontado da alegre voz do gallo. Estava-se bem toda a noite e
ninguem pedia amoniaco nem soda Watter. O livro da felicissima
gastronomia d'aquelle tempo era digno do prologo, e levava quinze dias a
lr-se. S no dia de Reis se virava a ultima folha. E no dia 7 de
janeiro ninguem se queixava de dyspepsia!

Hoje tudo  differente.

Os convivas introduziram os vinhos francezes porque so espuma que desce
ao estomago, e que d uma falsa alegria de momento. Todavia querem
mostrar que so valentes, e arremettem contra uma garrafa de champagne,
que durante meia hora os descompe, a ponto de se supporem a ceiar com
_cocottes_. Esquecem-se de que esto  mesa com suas irms e com sua
me. At para ellas precisam de pedir emprestada a alegria s bebidas! 
meia noite ninguem os encontra em casa; esto no botiquim a tomar caff,
porque se sentem incommodados do estomago.  ceia o unico que est
sinceramente risonho  o pae, porque se alegra das suas recordaes. Os
filhos comeam a fallar depois que salta a primeira rolha de champagne.
No distinguem aquella ceia das ceias ordinarias: no se lembram do
irmo que est no Brazil ou do irmo que est no cemiterio.
Antigamente, se estava ausente uma pessoa da familia, punha-se-lhe o
retrato na mesa.

Era para que no faltasse ninguem  ceia. Hoje no se colloca o quadro
para no desmanchar a symetria. Mettemos a arte em tudo; at nos
lembramos de a metter entre os pratos! Para tudo ha preceitos, tudo se
faz por medida. Os criados andam collocando a loia com a _Arte de
servir  mesa_, do snr. Joo Matta, no bolo. Como se pe a mesa? O snr.
Matta dil-o:

A toalha convm que seja adamascada. Quando se estende, deve ficar bem
posta, repartida com egualdade para todos os lados e sem rugas. A pea
principal, para ornato ou servio, colloca-se ao centro. Em torno
d'ella, pem-se serpentinas com vellas; vasos de flores; grupos de
figuras; pratos de doce de copa: pratos montados de porcelana, crystal,
ou prata, com pastilhas, amendoas torradas, doces de ovos e de cco,
foguetes e algumas flores artificiaes para embelezamento d'esses pratos.
Se houver _plateaus_ com grandes vazos de bronze dourado, devem
collocar-se symetricamente na mesa, tendo cada vaso sua garrafa de vinho
de Champagne rodeada de gelo, para contentamento da vista e ostentao
da grandeza do dono da casa.

Antigamente os criados no tinham compendio. O que se punha na mesa no
era para se vr mas para se comer. Em dezembro o que se queria na mesa
_para contentamento da vista e ostentao da grandeza do dono da casa_
era o vinho. O glo, por ser frio, deixavam-n'o  vontade no topo
do Maro e da Estrella. Hoje, para aquecer os convivas e os vinhos,
pe-se gelo na mesa. Se uns e outros no ho-de estar frios! Ha vinte
annos o que _ostentava a grandeza do dono da casa_ era o diametro da
vazilha. O vinho mais desejado era o _quente_; hoje querem o champagne
bem nevado, _frapp_, como dizem os francezes.  tudo como os francezes
dizem. O caso  que se lhes obedece, e que j se deixa passar a noite de
Natal _ franceza_. No sei como se chama em francez s _rabanadas_ e
aos _mexidos_, que se fazem ainda em atteno  velhice de nossos paes.
Ho-de ter um nome exquisito, para no parecerem portuguezes. Tudo nos
tem levado a Frana,--at o feijo branco! (J no  feijo branco:
diz-se _flageolets_.) Deu-nos a arte, e podemos dizer que nos levou o
Natal. Pois apezar de estar casquilha a mesa, cheia de insignificancias
bonitas, de pastilhas, de amendoas torradas e de rosetas de glo, podeis
dizer a vossos filhos, indicando a mesa,  celeberrimos valentes da
guarda velha:

--O Natal foi alli.

      *      *      *      *      *




OS BOHEMIOS


O fallatorio  este:

--Quando chegam?

--Quantos so?

--Devem vir muito moidos!

--Rijas pernas!

As donas de casa:

--No sei como podem dispensar a loia!

Os paes de familia:

--Prescindirem do soph para dormir a sesta!

As meninas umas s outras:

--Eu se fosse namoro d'algum no consentia!

--Nem eu!

--Porque?

--Porque no queria um marido com habitos de recoveiro...

Os leitores do _Primeiro de Janeiro_:

--Elles... quem so?

--De quem est fallando?

--A quem se refere?

N'uma palavra,--todas as explicaes. Estamos fallando dos cinco
intrepidos cavalheiros lisbonenses, que se propozeram fazer a p, em
verdadeiras condies de bohemios, uma insignificante jornada de Lisboa
a Braga,--resoluo que importa o sacrificio de dar apenas alguns passos
como quem vae da Praa Nova ao Palacio de Crystal para aproveitar a
companhia de dois amigos que lembraram um duello a cerveja.

Mas, sendo um pouco mais profundo,--porque o folhetinista tem obrigao
de fazer a anatomia das intenes--vejamos se no haver porventura
n'este caso, que denota  primeira vista bons pulmes, bom sangue e boas
pernas, algum proposito recondito, algum plano philosophico, que revele,
em segunda leitura, que os cavalheiros de Lisboa so to intrepidos de
espirito como de corpo.

Leriam ha pouco tempo o _Roman comique_ de Scarron, o _Diable  Paris_
de Eduardo Ourliac, _L'Angleterre et la vie anglaise_ de Affonso
Esquiros, o _Grand homme de province  Paris_, de Balzac, e
enthusiasmar-se-iam com as comicas aventuras dos actores ambulantes e
dos musicos das ruas?

No  de suppr que rapazes que se encostam s _vitrines_ do Chiado, que
frequentam o Gremio, que vo a S. Carlos, que no faltam  espera dos
touros, que costumam passar o vero em Cintra, que calam bota de
polimento, que se frisam no Baron, que se vestem no Keil, se aguentem,
por mero capricho, n'uma caminhada de sul a norte, que os obriga a
viver entre montes, durante dois mezes, n'uma barraquinha de campanha,
onde mal se pde lr a _Correspondencia de Portugal_ e onde seria
impossivel desdobrar o _Times_.

E tanto isto no  provavel, que dois dos peregrinos do rancho
desanimaram a meio da jornada com saudades do _robe-de-chambre_ e do
Martinho.

Se o intento fosse um simples devaneio d'espiritos moos, uma
extravagancia dos vinte annos, haveriam retrocedido todos, e affogariam
o seu desalento n'um copo de champagne, que  como os rapazes costumam
enterrar ruidosamente qualquer ideia que lhes morre...

Mas tres d'elles, os snrs. A. C. da Silva Castro, Estevo Ribeiro da
Silva e Pedro de Campos Menezes, avanaram sempre, chegaram s Caldas da
Rainha, demoraram-se em Coimbra, acampando no rocio de Santa Clara, e
devem ter j partido do Bussaco.

Segue-os uma carroa, puxada por um macho. Na carroa vae o _chalet_
ambulante, dobrado em frma de biombo, e sentado em cima da lombada do
_chalet_ o cosinheiro, que, precisando de trabalhar com os braos, se
dispensa de trabalhar com as pernas.  o Sancho Pana da aventura, que
se presume a assistir quelle acto da _Cora_ em que vae passando em
frente do espectador o panorama do Mississipi, porque vae vendo
regaladamente as margens do caminho mettido dentro da sua mitra
d'algodo branco, do seu avental de linho e dos seus oculos de metal
amarello.

Elle  o unico do rancho que se sente despreoccupado, porque apenas
tem uma ideia: a cosinha. Os patres vem andando e pensando, porque esta
viajata representa para elles uma lucta entre as velhas tradies e as
ideias modernas, entre as foras do homem e as foras da machina, entre
os artelhos e os _rails_, entre a vontade que manda mover e a locomotora
que faz andar.

O empenho d'estes cavalheiros  naturalmente mostrar que o homem  mais
completo do que o suppem; que o progresso  uma simples mistificao de
preguiosos que querem viver na indolencia, e viajar sentados; que os
caminhos de ferro so uma patarata engendrada para negocio d'uma
companhia, e finalmente, que a raa latina tem ainda sangue rico, alma
arrojada, altura de pensamentos, colorido nas creaes, valentia nas
empresas.

Querem pois supplantar as invenes modernas, dispensando-as, e tanto o
conseguiram, que de Lisboa at Coimbra entretiveram-se a ensinar a andar
o caminho de ferro.

Por um esforo pouco vulgar chegaram a dominar a propria curiosidade: ha
um mez que no recebem cartas nem jornaes. No sabem nada do que se
passa no seu paiz, porque a direco do correio  to pouco intelligente
que os no manda procurar onde esto. Mais um triumpho para elles! Ento
o correio foi feito para entregar as cartas a quem lh'as pede ou para as
ir entregar a quem as deve receber? Nada sabem do que ha trinta dias
acontece em Lisboa, nem siquer teem tido noticias da cotao dos
fundos hespanhoes. E fallar-se sempre da rapida transmisso do
pensamento, de telegraphos electricos, de cabos submarinos, de paquetes
a vapor! Ha um mez que inteiramente ignoram o que se pensa no Chiado, e,
visto que j os incendios comeavam quando partiram, no sabem ao certo
se Lisboa ardeu, e se j se encommendou algum marquez de Pombal para
reedifical-a.

Diz-se que o progresso tem levado commodidades a toda a parte,
desbravando florestas, povoando desertos. No Cartaxo desejaram sorvetes
e no os obtiveram; em Cho de Mas pediram toicinho do co e
alcanaram a certeza de que o co em Cho de Mas era mahometano.

Apregoa-se a diffuso da instruco publica, a creao de cadeiras
primarias, e na Pampilhosa, querendo sentar-se a tomar a fresca,
offereceram-lhes uma cadeira em to mau estado, que de nenhum modo se
podia considerar primaria. Em Alfarellos quizeram passar a noite a lr,
e estando Alfarellos a dois passos de Coimbra, e sendo Coimbra, segundo
o pensamento de Heitor Pinto, a cidade d'onde irradiam as virtudes e as
lettras para todo o reino, como do centro da esphera sahem as linhas
para a circumferencia, apenas conseguiram haver em Alfarellos um
reportorio de 1872.

Pois ento, n'este seculo de extrema e assombrosa mobilidade, ha no
mappa de Portugal uma terra que em agosto de 1873 se governava pela
chronologia de 1872, dormindo um anno inteiro!

Um dos nossos guapos viajantes sentiu-se no caminho um pouco embaraado
com um calo no dedo minimo do p direito. Ento ainda ha calos! E os
jornaes a assoalharem que a pomada Galopeau  o verdadeiro pedicuro
descoberto at hoje! Um pouco crestados pelo sol, desejaram refrigerar a
pelle. Onde estava esse famoso Charles Fay, inventor do p de arroz
preparado com bismutho? Banharam as faces n'uma fonte, que serpejava por
entre rochas, e saudaram enthusiasticamente mais uma vez o passado,
porque a agua  to antiga, que j o diluvio foi... d'agua! A frescura
do liquido constipou-lhes os dentes. Reclamaram a presena do snr. de
Vitry, _chirurgien dentiste de leurs majests trs fideles_, e o snr. de
Vitry no os ouviu chamar na sua casa da rua do Ouro em Lisboa! Pois se
o pensamento se transmitte com a apregoada rapidez parecia que... Em
Souzellas viram  porta de uma tenda, invadida por dous meirinhos, o
pobre do logista que se lamentava da desgraa a que o ia redusir a penhora.

Perguntaram:

--O que tem aquelle homem?

--Quebrou.

E os jornaes de Lisboa a dizerem que o snr. Carvalho Junior inventou um
efficaz emplastro para soldar as pessoas quebradas!

 suprema irriso!  verdadeiro triumpho ganho pelo passado sobre o
presente! indubitavel victoria do homem sobre a machina! E vs,
illustres bohemios d'uma crusada santa, que ides dilatando a f e o
imperio, dizei-me, sinceramente, intimamente, se este no  o
verdadeiro fim da vossa rude jornada! Podeis, ao longo do caminho, ir
cantando a velha cano dos actores ambulantes:

    Veut-on savoir d'ou nous venons,
        La chose est trs-facile;
    Mais, pour savoir o nous irons,
        Il faudrait tre habile.
    Sans nous inquiter, enfin,
    Usons, ma foi, jusqu' la fin
          De la bont cleste!
    Il est certain que nous mourrons;
    Mais il est sur que nous vivons:
          Rions, buvons!
    Et moquons--nous du reste!

e eu guardarei ufano o diploma de--_tre habile_--porque descortinei a
vossa inteno recondita.

At  vista, e felicidade!

      *      *      *      *      *




O RELOGIO...


 o meu relogio que me d assumpto para este folhetim...

Aqui est o meu pobre amigo, to esquecido por mim em horas de
felicidade, e to esquecido por todos os homens. No tenho mais leal
conselheiro, companheiro mais dedicado.  uma especie de consciencia que
metti no bolo. Quando ella falla,  preciso attendel-a. E todavia, se
uma nuvem de desgosto me enoitece o horisonte da vida, se um cuidado me
preoccupa, se um sobresalto me traz perplexo, esqueo-te, pobre amigo,
no chego a lembrar-me de que te trago conchegado a mim, e de que,
obrigando-te ao silencio para que tu no foste feito, sou cruel para ti,
porque te condemno a ouvir as palpitaes vertiginosas do meu corao
inquieto!

No te dou movimento, porque inteiramente te esqueo. Condemno-te 
ociosidade, e, privando-te de trabalho, no reparo que  sobremodo
doloroso estar a gente triste e calada! Que queres?  o egoismo dos
homens; somos todos assim!

Temos de partir para uma viagem. Nossa me est doente, e chamou-nos
pelo telegrapho, porque no quer morrer sem nos abenoar e beijar.
Estamos ss, n'um quarto d'hospedaria. Os criados, que no comprehendem
o que  a ancia de receber o ultimo beijo materno, deitaram-se,
extenuados de trabalho, e nem siquer esto sonhando que teem ordem para
nos chamar ao alvorejar da manh. Ns estamos deitados sobre a coberta,
j com o nosso fato de jornada, fumando, fumando, inquietos, rememorando
os dias saudosos da infancia, em que nossa me, quella mesma hora, nos
ensinava a resar ao anjo da guarda, ou as noites em que acordavamos
sobresaltados, e acudia ella a limpar-nos o suor da fronte, e a
conchegar-nos a roupa aos hombros. Sobre a commoda arde tristemente a
vela que ha j duas horas precisava de ser espevitada. A um canto est a
nossa mala, com o chapo de chuva em cima. Reina um silencio funebre no
quarto. Nem ao menos se sente o palpitar do relogio no bolo. Todavia
trabalha, mas parece que intencionalmente se reprime para nos no
perturbar. N'aquella casa de gente desconhecida, o nosso unico amigo  o
relogio. Est vigiando, trabalhando para ns. Consultamol-o. Ainda 
cedo... Parece dizer-nos que estejamos tranquillos porque elle no
adormecer. Continuamos pensando. Agora nos lembra a pallidez orvalhada
de lagrimas com que nossa me se despediu ao partirmos. E ella,
estamol-a vendo na heroica resignao das mulheres que sabem sacrificar
o corao ao dever;  ella, que do topo das escadas de pedra, anciada,
fazendo um esforo supremo, nos diz ainda:

--Parte, filho,  preciso!

Depois recolheu-se de golpe, porque j lhe faltou a coragem de nos
advertir de que eram horas, muito horas...

No seu corao de me, relogio que s a morte pde emmudecer, havia
soado a hora fatal da despedida. E ns partimos, ssinhos, guiados pelo
rustico almocreve, ssinhos--com o nosso relogio. No havia sol. No
poderiamos conhecer as horas pelas sombras das arvores. O almocreve, que
se no podia orientar do curso do tempo, porque o co estava escuro como
o nosso corao, ia-nos perguntando de legua em legua que horas eram.
Consultavamos ento o relogio.  meio dia: Pois olhe, volvia o
almocreve, quando  meio dia, e o ar est claro, bate o sol n'aquelle
cabeo.

Meio dia! A hora em que nossa me se levantava da sua costura para resar
comnosco emquanto se no extinguia o echo da ultima badalada no
campanario da aldeia! Quem nos disse isto tudo? Foi a memoria? No foi.
Ns iamos entorpecidos pela dr, no ouviamos horas que nos evocassem
recordaes, a solido era immensa, ao longe serras, ainda mais ao longe
serras... Foi o relogio, o pequenino corao que ia sentindo por ns. Se
at o almocreve, que vive sempre s, no medonho deserto das
estradas, faz do cabeo das montanhas relogio, para que o caminho lhe v
fallando e dizendo: Ante-hontem passaste aqui mais cedo! D'uma vez, 
mesma hora, encontraste aqui aquella pegureira, espavorida com medo dos
lobos!

At elle, aquella alma rude, precisa da companhia do relogio! Por isso o
vae pendurando de serra em serra, fazendo do granito mostrador, e dos
raios do sol ponteiros...

Mas emfim nossa me est agora doente, moribunda talvez. Que funda
melancolia nos est dando a saudade! Facto inexplicavel! A ancia de
partir foi vencida pela ancia de recordar. Iamo-nos esquecendo pelo
muito que nos estavamos lembrando... Dormem todos no predio; melhor
diriamos dorme tudo, porque os mesmos moveis parece conhecerem a
noite... Engano! No dorme tudo. Vela o relogio. Abrimol-o. So horas
de partir! clama elle. Acreditamol-o como ao melhor amigo. Saltamos do
leito. Gritamos pelos criados. Os criados dormiam. S o relogio velava,
 pois certo, porque ns mesmos estvamos atordoados pela somnolencia da
saudade...

Mais um momento, e no chegariamos a tempo d'alcanar a diligencia. E
manh seria j tarde, talvez. Nossa me haveria morrido, quer dizer, a
nossa falta havel-a-hia assassinado, mais cruel que... a doena.

Quando todos dormiam, foi o relogio que nos avisou...

 portanto elle que nos recorda os nossos deveres, que nos diz
quando havemos de entrar para o nosso escriptorio, que sustenta em
grande parte a nossa harmonia domestica, advertindo o criado de que 
chegado o momento de ter lustrosas as botas, e a criada de que j vo
sendo horas de jantar...

S elle nos falla verdade n'esta epoca essencialmente insidiosa.
Insidiosa,  o termo. Pois no est recebendo o principe de Bismark,
todos os dias, cartas perfumadas de almiscar e outras essencias
irritantes para o systema nervoso? Pois em Palermo, onde canta
actualmente uma _prima-dona_ formosissima, no lhe arremessou outro dia
aos ps certo admirador despeitado um _bouquet_ que, ao chofrar no
palco, rebentou como metralhadora? Querem maior insidia? Chegaram a
envenenar as duas coisas mais graciosas da creao, as flores e os
aromas; no exijam portanto lealdade na mulher.

N'este cataclismo ainda se no afundou o relogio:  a unica tabua que
resta aos naufragos da sociedade. O relogio, a despeito da corrupo
geral, representa e representar o dever.  por isso que no _Memorial de
familia_, de Emilio Souvestre, o av lega ao neto o seu relogio,
escrevendo no testamento esta clausula: Deixo a Leo o meu relogio
d'ouro que nunca se desconcertou durante vinte annos. Quando elle
attentar nos ponteiros, que, sempre obedientes ao impulso da machina,
marcam _fielmente_ as horas, recordar que a submisso e a observancia
so a primeira condio do dever.

O relogio  filho do egoismo do homem, e victima do mesmo egoismo que
lhe deu vida. Nos tempos primitivos bastava o _quadrante solar_
para medir o tempo. Paulo e Virginia nem do gnomon se serviam. So
horas de jantar, dizia ella, porque as sombras das bananeiras j lhes
do pelo p ou ento  noite; os tamarindos fecham as folhas.

As ampulhetas ou relogios d'areia remontam-se  mais nubelosa
antiguidade egypcia. Na Grecia usavam-se os clepsydros, relogios d'agua.
Vs disputaes a minha agua dizia Demosthenes, phrase que d a entender
que a durao dos seus discursos era marcada por um clepsydro.

Meado o terceiro seculo antes de Christo, Estsibius, d'Alexandria,
construiu um clepsydro notavel por ser mais complicado que os
primitivos, que se limitavam a um vaso com um orificio na parte
inferior, por onde se coava a agua gotta a gotta. Depois o homem entrou
de profundar os segredos da natureza, e de se querer apropriar de quanto
n'ella havia de grandioso.

A ideia do relogio era innata  creao. Linneu comprehendeu-o
organisando o relogio botanico pelas horas em que certas flores abriam e
fechavam. Mas tanto isto  verdade, que os primeiros relogios eram
construidos com os primitivos elementos da terra: com o sol, os gnomons;
com a agua, os clepsydros; com a areia, as ampulhetas. Onde quer que
faltassem recursos artisticos, ahi se podia medir o tempo: no mais alto
da serra, com um raio de sol; nas solides do deserto, com um punhado
d'areia, e no deserto do mar com uma gotta d'agua.

O espirito humano progredia. Chegou a vez do homem dizer  terra: At
agora creaste tu; agora quero eu crear; E trabalhou, e empenhou-se em
dispensar o sol, a agua, e a areia; inventou o _pendulo_, conseguindo
que a fora motora fosse constante. Galileu ou Huyghens, a historia
designa-os a ambos, deu este grande passo.

Mas ainda no estava completamente resolvido o problema. Era preciso
inventar mais.

Em viagem, quem, por obra do homem, havia de indicar ao homem o curso do
dia ou da noite? O sol ou as estrellas. Todavia nem o sol nem as
estrellas as fez elle. Pensou, luctou de novo, e descobriu a molla em
spiral, que substitue o peso motor pela elasticidade que tem. Ficaram
portanto descobertos os relogios d'algibeira. Podes partir, peregrino;
j conseguirs saber nas solides do teu caminho se a noite vae adiantada!

E s tu que o dizes a ti proprio...

Realisaste, finalmente, o teu sonho. Conseguiste roubar ao relogio a
individualidade que a natureza lhe deu, e reflectir n'elle a tua propria
individualidade.

No  verdade que a estructura do corao  uma, e que no ha
sentimentos, por mais similhantes que se affigurem, que sejam
completamente irmos? Tambem o relogio tem o seu corao, o seu
machinismo, igual em todos, e abri quatro relogios ao mesmo tempo, que
difficilmente combinaro na indicao dos minutos. Cada um tem a
sua maneira de trabalhar; como cada homem tem a sua maneira d'escrever.

E o _estylo_;  a differente maneira de ser. Ahi temos a individualidade
homem e a individualidade relogio fundidas n'uma s.  o relogio-homem,
e o homem-relogio. O relogio mede as horas; o homem os annos. Eu tenho
doze annos, diz a creana;  meia noite, diz o relogio. Um nasceu d'um
pedao de barro; outro d'uma gotta d'agua. A alma  o _pendulo_ do
homem-relogio; o _pendulo_  a alma do relogio-homem. O relogio  o
corao que _sente_ o tempo; o corao  por sua vez o relogio que marca
as horas solemnes da vida, como diz a trova:

    A uma hora nasci,
    s duas fui baptisado;
    s tres andava d'amores,
    s quatro estava casado.

Pois apesar de tudo isto--do homem a tal ponto haver conseguido
identificar-se com o relogio, sendo preciso mergulhar na onda escura da
antiguidade para lhe ir buscar a origem, porque elle nada conserva da
sua frma primitiva, apesar d'esta camaradagem leal, que o relogio
mantm como dedicado amigo, estamos habituados a tractal-o como escravo,
exigindo-lhe a maxima fidelidade quando carecemos do seu auxilio, e
despresando-o, obrigando-o ao silencio e  quietao, esquecendo-nos de
lhe dar corda como nos esquecemos de calar as luvas.

Por isso  que elle s vezes, despeitado, adoece, sendo preciso mandal-o
ao relojoeiro, porque emfim, como tambem diz a trova:

    ... amar sem ser amado
    Faz perder a paciencia.

      *      *      *      *      *




S SETE HORAS DA MANH


Um d'estes dias aconteceu-me como  rainha Christina da _Joanna do
Arco_: tive saudades da Aurora.

Levantei-me alvoroado e resolvi ir procural-a, no aos reportorios, em
que eu j vou perdendo muito a f, mas nas ruas, onde uma pessoa j no
pde perder a f, porque, quando sae, a deixa em casa.

E sahi a procurar a aurora, s sete horas da manh.

Infelizmente no a encontrei seno nos cartazes que annunciavam a
_Joanna do Arco_ e diziam:

_Aurora, filha do rei Faz-Tudo e da rainha Christina Amina--snr. Amelia
Menezes._

Ora as auroras dos cartazes so como tudo o que  do theatro: s se vem
 noite.

E, como d'ahi at poder vr amanhecer no palco do theatro Baquet
medeavam muitas horas, decidi aproveitar o meu tempo o melhor
possivel, vendo tudo quanto apparecia, ouvindo o que se dizia.

Vi e ouvi.

Na loja da primeira esquina poisava um gallego o seu copo d'aguardente
sobre o balco, com attitude de quem se despedia.

Mas, ao contrario dos olhos de quem se despede, que esto quasi sempre
humidos, o copo estava enxuto.

Tambem podera!  que a aguardente  um combustivel para o carrejo. Quer
armar-se pela manh, porque o seu combate comea quasi logo com o dia.

Aquella  a sua polvora;--com ella far fogo. Depois de abastecido o
paiol, no receiar succumbir; e se s vezes, durante o dia, houver
suada refrega, ir beber tantos copinhos quantos cartuxos requisitaria
um soldado em lance identico.

O que reconheci  que todos pela manh, quando saiem  rua, o mais que
procuram --a fora.

Ora hoje a fora j no est, como nos tempos pagos, nos cabellos de
Sanso.

Hoje a fora  a aguardente, a revalescire, o oleo de figados de
bacalhau, o bife, e, apesar de se chamar frango a uma pessoa fraca, a
fora tambem est no frango.

Eu digo isto porque encontrei uma velhinha, to curvada, que parecia ir
procurando j a sepultura, a embrulhar no seu capote um frango que
provavelmente fra comprar ao mercado.

Elle, o franguito, ia muito quieto, como se conhecesse que era
cobardia luctar com a velhice. Para que podia servir-lhe, sem mais nada,
porque ella no levava realmente mais compra alguma?

Para deitar  panella, com uma pouca d'agua e sobre uma pouca de lenha,
e para depois o comer, ella, que precisa de fora para esperar pela
morte, ou para o dar a um neto, que est provavelmente com variola, e
precisa de fora para resistir  morte.

Em todo o caso eu desconfio que fosse para o neto, pela pressa que a
velhinha se dava.

No olhava para ninguem, e ia encostada s casas como se quizesse evitar
encontros e demoras.

Provavelmente levava na algibeira a chave da casa, e a criana havia
ficado fechada, em quanto ella fra comprar ao mercado o franguito com
uns restos de dinheiro abenoado que lhe esmolra o anonymo Y.

E ia com seu receio de que o neto precisasse d'alguma coisa, e desse
pela sua falta, sem se lembrar de que, quando acabar de velhice, ninguem
certamente dar pela falta d'ella.

Isso no lhe importa.

Morrer, morre ella se lhe faltar o neto.  um peso, , mas a vida, que 
tambem um relogio, precisa d'um peso para regular, como os relogios.

O peso de mais uma bocca  para ella uma consolao.

Naturalmente o rapasinho j ganhava o seu vintem a vender jornaes. No
era tanto pelo dinheiro, que a av gostava do modo de vida, como
pelas novidades, que o neto contava  noite...

Tudo isso estava provavelmente em risco d'acabar,--as novidades,
a vida do neto e a alegria da av. Por isso ella ia to
afadigada--coitadinha!--com a sua velhice e com a sua compra...

Agora comeo eu a encontrar o rancho dos criados, com as amplas cestas
enfiadas no brao.

De todas as cestas, a que mais me deu na vista foi uma que ia
completamente cheia de alfaces.

--Familia de grilos! pensei eu.

E depois ratifiquei, porque o criado, referindo-se decerto a algum dos
patres, ia dizendo para o companheiro:

--E elle est-me sempre a _cantar_!

Uma criada dialogava com outra:

--Hoje prego-lh'a...

--Bem me fio eu n'isso!

--Ora tu vers.

--Ento que fazes?

--No me ha-de tornar a deixar fechada: hoje perco a chave da porta da rua.

Eu disse para os meus botes:

--Trabalho escusado, o de te fechar a porta! As criadas, como aves de
rapina que so, em poucas gaiolas cabem, de modo que tem sempre a
cabea de fra...

 porta do Anjo cantavam dois cegos o _Noivado do sepulchro_; o povo
fazia circulo:

    Vai alta a lumha na manso di a morte,
    J meia noite com bagar zoou.

No fui philosophando sobre a deturpao dos formosos versos do poeta
portuense. Pensei mais nos cegos que no poeta, Deus me perde! Como so
cegos, no podem vr distinctamente a prosodia e a ortographia; isso j
se sabe. No que eu pensei foi n'este continuo andar divertindo os
outros, sem siquer terem tempo de se lembrar de que so cegos. L vo
chorando na viola as suas maguas, mas to disfaradamente, que  gente
parece-lhe que esto cantando, e elles esto talvez chorando. Passam no
mundo sem vr o mundo, e isso pouco lhes importa; o que lhes custa mais
decerto  no verem o dinheiro...

N'uma barraca do mercado, um soldado da guarda municipal offerecia
morangos a uma criada de servir.

Que delicado amor aquelle, que elles iam mettendo na massa do sangue! O
morango  a fructa mais innocente, mais saborosa, talvez a mais
agradavel, e este facto, que eu presenciei, depe realmente muito a
favor da educao do nosso exercito. Podiam amar-se com peixe frito, e
amar-se-iam assim ha vinte annos; agora o exercito ama comendo morango,
fructa que parece haver nascido para se comer de luvas, to pequenina e
rosada !

Quando recolhia, vinham adeante de mim dois pequenitos, com os seus
livros sobraados.

Pelo que diziam, deprehendi que entravam n'aquelle dia o exame
d'instruco primaria.

--Levas medo? perguntava um.

--Eu no. E tu?

--Eu! nenhum!

E, coitadinhos, iam tremulos como passarinhos quando a gente pga n'elles.

--Infelizes! pensei eu, l vos espera o visco.

Sabeis a _origem da palavra districto_? Sabeis _qual a frma geometrica
do reino de Portugal_?

No sabeis? Pobresinhos de vs, que l ficareis a esvoaar infructifera
e desastradamente no visco da reprovao! Pois ento ides fazer exame
d'instruco primaria,  pequenos scelerados, e no sabeis tudo!

Estive capaz de dizer que retrocedessem.

Todavia deixei-os ir, entregues ao seu destino, e s oraes das mes,
que em sua extrema bondade pensam que ho de vencer todas as
difficuldades com padre-nossos.

Santas creaturas--as mes!

Coitaditos! os pequenos l foram andando...

Subo finalmente, com a cruz da minha ociosidade, a ladeira da rua de
Santo Antonio. Ociosidade digo, se bem que o meu animo no ande nunca
to despreoccupado, que no chegue a lembrar-se de que o domingo  o dia
do folhetim. Por conseguinte, eu, jornaleiro do jornalismo, descano do
labor quotidiano procurando... assumpto. E sabendo eu que ha pessoas to
felizes que s vezes encontram dinheiro pelas ruas, reputo-me to
infeliz que, sem achar dinheiro, poucas vezes encontro assumpto.

Todavia d'esta vez at na rua de Santo Antonio o encontrei! J agora
quero ser verdadeiro at ao fim, e fallar-lhes d'um quadro que estava em
exposio na loja dos snrs. Martins & Peres, e que havia sido comprado
por um cavalheiro de Villa Nova de Gaya.

Imaginem o mais formoso idyllio d'este mundo, o verdadeiro consorcio da
poesia com a pintura, e tero o quadro que se intitulava a Morte d'um
passarinho, copia de Eugene Lejeune.

 n'aldeia, e suppe-se provavelmente que n'um largosito, onde s
crianas costumam brincar.

Qualquer d'ellas havia engaiolado, no tempo, um ninho de melros, de que
s escapara um. Vivia  principesca o melro, tractado pelos pequenos,
que muitas vezes se esqueciam do velho co, para encherem os comedouros
 ave. Mas, pois que at os principes morrem, o melro morreu. Era
preciso fazer um enterro condigno, e tractou-se d'isso. Emquanto uma
criana abre a cova e outra sustenta uma cruz de pau, formam as
restantes o funebre cortejo do passarinho.

O feretro vae deposto n'um carrosito de pau, o melhor que se pde
arranjar. Umas pequenitas tiram pelo carro, em direco  cova, que se
est abrindo. Apoz o feretro vae um rapasinho lacrimoso, suspendendo a
gaiola vasia, e a par do rapasinho o co, to triste como qualquer das
crianas.

O quadro  isto,--e o mais que se no pde dizer e constitue a alma da
pintura.--Ainda no vi assumpto to ligeiro mais habilmente tractado,
d'onde se infere que, se Eugene Lejeune tivesse visto os meus dois
rapasinhos, que iam fazer exame, com os seus livros, o seu medo e a sua
esperana tambem, haveria desenhado um quadro digno de figurar a par da
_Morte d'um passarinho_.

      *      *      *      *      *




 MEZA DO CH

(POR OCCASIO DA VISITA DO SHAH DA PERSIA  EUROPA)


--Estou summamente aborrecida, primo!

--Confesse, o que no  nada lisonjeiro para mim!

--O primo no me julga divindade para me fazer o sacrificio das suas
palavras... d'oiro!

--Perdo,  que eu estava provando o ch.

--Cuidado. Ento no escalde a eloquencia. Ainda se no pde tomar.

--N'esse caso...

--N'esse caso?

--Esperemos que o ch arrefea.

--Agora  impossivel!

--Impossivel?

--Sim, porque o shah j no est na Russia.

--Bravo! A prima faz espirito! Repta-me; atira-me a sua delicada
luva _gris-perle_. Est aceite. Conversemos.

--Pois conversemos.

--Dizia eu...

--O que dizia o primo?

--Nada. Eu ia dizer que esta chavena  do tamanho da Europa.

--Que disparate, primo!

--Perdo,  que tem dentro o shah...

                                     *

As mes dos primos, exportando maledicencia e importando fatias pela bocca:

--L estavam hontem no theatro!

--Estavam. Elle e Ella.  gente da primeira sociedade...

--Ora o que tu quizeres, Gertrudes! Fidalguia que sahiu da quinquilheria
e do fundo d'um chapo. Elle tolo: ella filha de criada!

--Mas fazem figura...

O filho mais novo, que estuda geometria no lyceu:

--Figura de... cylindro.

As mes:

--Cala-te, Luizinho!

--Deixa fallar o rapaz. Eu no entendi o que elle disse, mas pde ser
que tivesse graa...

--Pois eu estou pelo meu dito. Parecem da primeira sociedade.

--Parecem, comeando pelo fim.

                                     *

Um dos pequenos:

-- mam, ento sempre vamos para a Foz?

--O pap vae amanh alugar casa.

O pequeno sahindo da sala a correr:

-- Juc! o pap vae amanh alugar casa!

As mes:

--No ha remedio, Leocadia, eu tenho uma filha.  preciso vr se
tractamos de casal-a.

--Que pressa!

--Tenho c uma raso; no digo bem, temos c uma raso.

--Aquillo em Hespanha est mau...

--Que tem a Hespanha com tua filha?

-- que meu marido anda com a mania de comprar fundos hespanhoes, e, se
a Hespanha fizer bancarota...

--Percebo. O marido que se aguente, e fique com a mulher sem dote...

--Tal e qual. Ns c... pensamos assim.

                                     *

O pae da menina lendo o _Jornal do Commercio_, e interrompendo-se para
chamar o sobrinho;

-- Arthur?

--Meu tio!

--Tu j leste esta biographia do shah da Persia?

--Eu no, meu tio.

--Pois olha que tem sua graa! Lendo pausadamente: Mal subiu ao throno
reformou o shah os costumes do palacio, redusindo as despesas do
serralho a limites mais equitativos. Seu tio, a quem succedeu, como j
indicamos, tinha nada menos de quinhentas mulheres, das quaes houve
cento e um filhos e cento e sessenta filhas, o que constitue regular prole.

O monarcha actual tem unicamente quinze esposas e  pae s d'uma duzia
de filhos. Na sua viagem levou algumas d'aquellas at S. Petersburgo;
faziam parte da criadagem e costumavam alojar-se com os cavallos e os
palafreneiros; na capital da Russia, o shah mandou-as embora,
obrigando-as a voltar para Thran.

As mes poisam as chavenas e do atteno.

O pae poisando o jornal:

--Pois, senhores, sempre  um shah muito forte!

As mes:

--Ah! ah!

A menina:

-- primo, vamos fazer _paciencias_ depois do ch?

--Como a prima quizer.

O pae:

--Deixem a paciencia para o shah: com quinze mulheres!

                                     *

O primo, levantando-se da mesa, abre a carteira e comea a escrever para
evitar que a prima o force a ir fazer paciencias.

A me do primo:

--L est o rapaz a tombos com os versos!

--Aquillo no lhe faz mal nenhum!

--Sim, mas  que j tem impresso tres volumes  minha custa e esto para
l as aguas-furtadas cheias de livros.

A prima levantando-se surrateiramente:

--So para mim. No d o brao a torcer, mas ama-me com toda a certeza.

O primo fechando a carteira e erguendo-se:

--Com toda a metrificao.

--Que dizia, primo?

--Que fiz um milagre. Ha um mez que no fao versos, e escrevi tres
quadras com toda a metrificao recommendada nas poeticas!

--Pde saber-se qual foi a inspirao?

--Oh! uma loucura, prima, uma extravagancia minha.

A menina,  parte:

--So a mim. No se atreve a dizer-m'o!

Em voz alta:

--Diga sempre...

--Olhe que no valem nada...

--Mas porque no l? So...

--A mr. Du Barry.

--A quem? O primo est-me enganando!

--Acredite. So a mr. Du Barry, author da _Revalescire_.

A prima ainda desconfiada de ser a inspirao;

--Ora leia!

--Ahi vo:

    Meu Deus! eu vi suar os bons pedreiros
    A encastelar as pedras calcinadas
    Com que armaram alfim uns pardieiros,
    Pendurados de rochas empinadas.

    Certo dia nefando a tempestade
    Rugiu, rolou, desceu em turbilhes,
    Lascando a rocha, arremeando a herdade
    Do vendaval aos rbidos baldes.

    Ento,  Du Barry, obreiro ingente,
    Que reconstrues as raas com farinha,
    Pensei em ti, que vs morto o doente
    Quando a _R'valescir_' salvado o tinha!

A prima:

--Ora!

O primo:

--Du Barry  um grande homem!

A prima agastada:

--E o primo um grande ingrato!

                                     *

A me do primo;

-- mano, que diz a folha do que vae por Hespanha?

--A folha diz que os internacionalistas descubriram agora uma nova
especie de banhos.

--Uma nova especie de banhos?!

--J havia os do mar, que esto desacreditados desde que muitas meninas
vem de l solteiras. Havia os de chuva, que j no faziam effeito a
ninguem. Havia os russos, e ha-os agora de petroleo...

--De petroleo!

--Mana e senhora--de petroleo, diz a folha.

A me do primo:

--Aquelle meu rapaz metteu por fora a cabea em algum banho de petroleo!

                                     *

A prima:

--Ento vamos fazer _paciencias_?

Elle:

-- prima, eu estava com vontade de fazer mais versos. Ainda tinha
teno de cantar esta noite o dr. Paterson, author das pastilhas
americanas, e o Melchior Sola, fabricante de lumes promptos. Dois
grandes homens, prima! Um d a saude; o outro a luz. A pastilha  o
colorido das suas faces; o phosphoro  a alma do meu charuto. A prima
come uma pastilha e sente-se forte; eu acendo um charuto e sinto-me poeta.

Procurando o chapo:

-- Paterson!  Sola!  pastilha!  phosphoro!...

A prima:

--Ento vae-se embora?

O primo, j do patamar:

--Vou ao theatro ainda.

A me do primo:

-- o que eu digo, : o rapaz toma banhos de petroleo!

      *      *      *      *      *




S. JOO

(NO DIA 21 DE JUNHO DE 1873)


S. Joo  o Anacreonte do christianismo.

Eterna mocidade, inextinguivel alegria, olhar brilhante, faces rosadas,
cabellos revoltos, sorriso nos labios...

 o das canes, dos bailaricos, dos amores, dos mysterios.

Na sua noite de tal modo sabe distribuir pelas alamedas os
claros-escuros do luar, que parece haver uma sombra para cada segredo,
um reflexo para cada alegria.

A festa  da mocidade.

Suspira a guitarra debaixo do arvoredo e a musica d'aquella noite to
docemente estonteia as raparigas, que chegam a perder o seu annel de
noivado entre as folhas do serpo...

Andam no ar derramados uns effluvios que parece darem  gente uma
indolencia voluptuosa.

 sentar-se na relva, ouvir a guitarra, cantar, rir, e a noite l se vae
esquivando por entre os troncos das alamedas...

As trovas tambem contam que elle, o precursor, vivia no desleixo da
felicidade.

De subito o colhia o somno, quando a aurora vinha descendo  terra, para
reanimar as flores pendidas durante a noite...

    S. Joo adormeceu
    Nas escadas do collegio.

Depois, quando acordava, corria a procurar a sua felicidade ainda
absorto nas vises do sonho...

    O S. Joo, d'onde vindes
    Pela calma, sem chapo?

Outras vezes, porque o somno era mais breve ou o sonho era maior,
despertava pouco depois de ter adormecido, e as moas, que ao entreluzir
da manh abriam as janellas do casal, iam-lhe perguntando de casa a casa:

    O S. Joo, d'onde vindes,
    Que tanto estaes orvalhado?

Viveu rodeado de mocidade, das alegrias da primavera e das maguas dos
vinte annos,--maguas que so fecundantes como os chuveiros d'abril.

Ora as moas lhe chilriavam em torno as alegrias dos seus desejos:

    S. Joo, as moas hoje
    Vos pedem que as caseis;

ora o procuravam para que lhes dsse aquellas flores mysteriosas que
trazem allivio a penas d'amor:

    No altar de S. Joo
    Ha um vaso d'aucenas,
    Aonde vo os namorados
    Dar allivio s suas penas.

Perseguido pelas feias, que noite e dia lhe pediam noivo:

    S. Joo, todas as feias
    Vos pedem um casamento,

corria a esconder-se nos rosaes:

    O Baptista no deserto
    Entre as flores escondido,

certo de que ellas no ousariam, ellas,--as feias!--defrontar-se com as
flores para encontral-o.

Poucas vezes, sim, mas l vinha uma tristeza ao corao, quando alguma
voz ia cantando na estrada:

    Por causa de pretenes
    Mulheres que no faro?

e ento-- horror!--receioso da colera das desilludidas, e do
resentimento das feias, procurava encantal-as a todas, e fazia brotar a
agua da sua fonte de prata, para que umas e outras viessem narcisar-se
ao espelho...

    S. Joo por vr as moas
    Fez uma fonte de prata.

Todavia umas e outras, astutas por serem bonitas, astutas por serem
feias, fugiam ao logro, e no levavam a sua bilha  fonte, para que todo
se matasse de aborrecimento o santo...

    As moas no vo a ella,
    S. Joo todo se mata.

Estava porm escripto no livro dos destinos que lhe viesse a queimar a
vida o fogo com que elle brincava...

Uma noite havia festa nos paos sumptuosos d'Herodes-Antipas.

Em derredor da aurea mesa estava reclinada Herodiades, a libertina que
se rendera ao amor do irmo de seu marido, e Salom, sua filha, e os
cortezos que libavam vinhos deliciosos em taas reluzentes de pedraria.

No longe, no carcere, estava Joo Baptista, sepulto na silenciosa
solido das cadeias, porque elle havia levantado a sua voz contra a
incestuosa unio do tetrarcha e da barreg illustre, sua cunhada.

Depois do festim, Salom tomou a harpa e cantou e bailou na presena de
seu tio.

Quiz elle galardoal-a e perguntou-lhe o que lhe aprazia.

Ento Herodiades inclinou-se ao ouvido da filha e a moa respondeu:

--A cabea do preso.

E continuou a tanger na harpa dos seus cantares.

Momentos corridos pendiam d'um taboleiro de prata, na sala do festim, os
negros cabellos da inanimada cabea.

E Salom bailava, e Herodiades sorria, e os cortezos applaudiam.

No pao tudo era alegria; na rua iam cantando melancolicamente as
raparigas:

    Por causa de pretenes
    Mulheres que no faro?
    Fizeram cahir S. Pedro,
    Degolaram S. Joo.

Mas,  prodigio! os olhos, apesar de mortos, tinham brilho, e nas faces
inertes havia um raio de sol!

Era o brilho da eterna mocidade, o reflexo da alegria eterna...

E nunca ninguem mais chorara o precursor, porque o cutello do algoz no
lhe roubou a grande alma que enche de luz e felicidade a noite d'hontem
e o dia de hoje.

      *      *      *      *      *




JUDAS NO PLURAL

(PASCHOA DE 1873)


Foram-se alguns mas ainda ficaram muitos. Ha-os de todas as idades, de
todos os feitios e de todos os sexos. A vida seria um perpetuo sabbado
d'alleluia se cada homem e cada mulher tivesse a consciencia do que .
Mas o grande erro do nosso barro  o querermos enganar-nos a ns mesmos.
D'este erro nascem todos ou quasi todos os maus sentimentos,--a vaidade,
o orgulho, a perfidia...

Na perfidia  que bate o ponto,--da perfidia  que hoje se tracta.
Queimou-se hontem pelas ruas a figura do apostolo traidor, e a maioria
das pessoas que eu encontrei tinha as faces radiosas d'alegria e no
denotava arder na fogueira interior em que muitas vezes nos
queimamos,--o remorso. Tudo por no nos querermos conhecer, tudo por no
descermos s profundezas de ns mesmos a tactear aquella costella de
Judas que herdamos de nossa me Eva, quando no paraiso terreal
seduzia o esposo com blandicias conjugaes para tental-o a comer do
fructo prohibido. No pomo da tentao foi toda a perfida maldade da
fingida esposa. Ado comeu-o, digeriu-o, entrou-lhe muito da substancia
na massa do sangue. Depois o sangue do primeiro homem correu para os
grandes vasos da humanidade e levou comsigo alguma coisa da fatal ma,
alguma coisa de Judas. Succedeu porm que no corpo do discipulo traidor
entrou maior dose do veneno; isto significa simplesmente que elle era
mais traidor do que ns e no que, por elle o ser, no o sejamos tambem.
Somos! Se somos! O que ns temos a nosso favor  a civilisao do nosso
tempo e a suavidade dos nossos costumes. Judas fez uma aco m por
maneira peior do que a aco. Ns fazemos o que elle fez,--mas sabemos
fazel-o. Elle, com toda a rudeza dos seus babitos de pescador, envenenou
com a sua traio a mais doce formula de exprimir a amisade,--o beijo.

O beijo ficou envenenado, e tanto assim , que desconfiamos sempre do
beijo, excepto quando elle desabrocha em labios de me.

 que o corao materno, profundo como o mar,  inviolavel como elle:
rejeita qualquer corpo extranho  pureza dos seus sentimentos. Feita
esta excepo, a primeira e unica,--o beijo continua a estar envenenado.
O beijo tem sempre um fim, o beijo  simplesmente um instrumento. Parece
impossivel que uma coisa que dura to pouco possa fazer tanto mal, mas
faz. Ah!  de noite, n'um quintalsinho de roseiras? L ao longe ha
montes, recortados por pinheiraes, e pinheiraes illuminados pela lua cheia?

Julieta est entre as suas roseiras, com os cabellos revoltos, o seio
offegante? Um fremito! Foi uma folha que cahiu? Ah! no foi,--foi um
beijo que poisou. Ests bem servido, desgraado! Romeu piegas! esse
beijo coou-te ao sangue a febre do casamento.  desgraado!...

 uma noite d'inverno. A chuva  torrencial. A ventania abala as
janellas. Tu ests sentado ao fogo, com o teu _robe-de-chambre_ e o teu
capote, com os ps no _fender_ e a cabea mettida dentro do barrete de
velludo preto. Leste o teu jornal, e ficaste somnolento, ou fosse que o
jornal te adormecesse ou que o calor te enervasse. Chegaste a um d'esses
estados de espirito em que j se no pensa em nada; e se se pensasse em
alguma coisa, era decerto em dormir. N'isto ouves entrar na sala tua
mulher.

Abriste os olhos, conheceste-lhe o andar e deixaste cahir as palpebras.
Ella vem, p-ante-p, debruar-se do espaldar, bater-te uma palmada no
hombro, e dizer-te maviosamente:

--J so horas de me vestir, filho?

Estremeces, como se te rebentasse aos ps uma bomba Orsini.

--Vestir?

--So nove horas. Eu mandei vir a carruagem s onze.

-- filha, mas eu estou constipado, no posso comigo, tem
paciencia, filha, mas com esta noite, no vamos, no podemos ir!...
Atchi, atchi... olha como eu estou constipado!

--Ahi ests tu com as tuas phantasias, com a tua negregada imaginao!
Dir-me-has manh se peioraste com o baile. Imagina que desces as
escadas muito embrulhado no teu capote, que te mettes na carruagem, que
te deixas enterrar nas almofadas, que chegamos finalmente, que entras
nas salas onde as luzes conservam uma temperatura confortavel, que o
conselheiro e o doutor esperam por ti, que fazem a sua partida de
voltarete, que ds seis codilhos e um geral, que vaes tres vezes  casca...

--Tudo isso  verdade, filha, mas hoje no pde ser. Estou indisposto,
estou bruto, deixa-me dizer assim, estou bruto. Hoje, se jogasse o
voltarete, no ia  casca, dava  casca com toda a certeza.

Ella, que n'esta esgrima conjugal tem guardado para o fim o bote
decisivo, continua um pouco mysteriosamente, cada vez mais debruada na
cadeira:

--Pois sim, tu no queres ir... no vamos... por mim pouco me importa.
Mas lembra-te que no jantaste ainda ha duas horas, que n'esta sala faz
um calor excessivo, que o medico...

O marido, aprumando-se e esgazeando o olhar:

--Que o medico?

Ella perplexa:

--Deixemos isso. Vamos ao baile, filho, anda vestir-te...

Elle:

-- Nini, mas que disse o medico? No me enganes... Este fogo... este
maldito fogo... eu bem sinto que isto  calor de mais.

--Mais uma raso para o evitares.

-- filha,  Nini, mas passar agora para o frio!

--No passes j: arrefece primeiro. Em todo o caso livra-te do fogo,
homem, livra-te d'este fogo, que hade dar cabo de ti... Bem o disse...

--O medico?

--Sim, o medico.

--Que disse elle, Nini?

--Que fizesse por arrancar-te ao fogo, porque este calor, depois de
jantar, bem sabes que o teu temperamento...

--Ah! J sei! A apoplexia!

E n'isto cae dos labios da esposa  face sanguinea do marido um beijo
muito mais venenoso do que um frasco d'acido prussico. E que a esposa
vende a tranquillidade do marido pelos trinta dinheiros do baile.

E as creanas, quando so inquietas como borboletas, e tem cabellos
loiros como o sol, e olhos azues como o co, que graciosos Judas que
ellas so! Prohibe-lhes a gente que bulam no _bouquet_ que poisamos em
cima da mesa. E ellas a estenderem sorrateiramente a mo...

--Menina!

--Menino!

--No bula ahi.

--Deixe estar isso.

E d'ahi a segundos l torna a creana a mexer com a mosita, como um
beija-flr que estivesse abrindo uma aza para ir oscular uma rosa.

--Tu apanhas!

--Espera ahi!

E a creana, em vez de saltar ao _bouquet_, salta ao nosso collo, e
afaga-nos, e pede-nos meigamente que lhe deixemos vr o _bouquet_, que
ella s o quer vr, que s o quer cheirar. Beija-nos! O almasita de
Judas em corpo de cherubim! Tu no sabes que o beijo foi a arma de
Judas, mas o que tu j advinhaste  que o beijo  um veneno com que a
gente facilmente mata uma opposio qualquer.

Os governos ainda se no lembraram d'este grande expediente, mas estou
certo de que mais tarde ou mais cedo ser incluido na longa lista das
tricas parlamentares.

Supponhamos que um ministerio no tinha maioria. Um dos ministros
entrava na camara, e estava fallando vehementemente um dos maiores
oradores do parlamento. As accusaes eram energicas, o ministro
sentia-se abalado no pedestal do governo, via cavar-se-lhe aos ps o
abysmo do _nunca mais_. Era preciso uma ideia salvadora, um pensamento
luminoso. Pois bem. S. ex. o ministro levantava-se doidamente
apaixonado, e corria a beijar freneticamente o orador da opposio. E s.
ex. o deputado, affrontado d'aquella ancia de beijar, cahia na cadeira
amavelmente asphyxiado, e afastava com um gesto carinhoso s. ex. o
ministro.

J se tentou rehabilitar o beijo, mudando-lhe o nome. Comeou-se a dizer
osculo, no por ser mais elegante a dico, mas por ser menos conhecida.
Logo porm que se veio a saber o que era o osculo, entrou-se a
desconfiar tanto do osculo como do beijo.

Diziam os namorados:

--Acreditas o juramento?

--No acredito.

--E se o sellar com um osculo?

--Oh! no acredito. No pde haver amor exdruxulo.

Ns no rompemos por entre a multido, asperamente, apartando os grupos,
para ir vender com um beijo; vendemos e compramos com um beijo,
negociando com elle serenamente. A grande culpa de Judas foi falsificar
a moeda e lanal-a falsificada na circulao. Ns no falsificamos, 
verdade, mas negociamos com dinheiro falso.

Por isso hontem, quando a alleluia passava festivamente de torre em
torre, e estralejava nas ruas, e os Judas de palha iam arder estoirando
com grande applauso do rapazio, eu ouvi soar a meus ouvidos a grande voz
da Raso, d'esta Raso que se escreve com letra maiuscula por ser da
escola do Infinito, e dizer:

--Se s os que no fossem Judas devessem acender o rastilho, estes monos
de palha, que tu ahi vs, no arderiam jmais.

      *      *      *      *      *




HISTORIA VELHA


Sou muito novo para no ter esperanas e muito velho para deixar de
sentir o suave doer da saudade. Espero no futuro, na baixa das
inscripes, nas bancarotas, nas dictaduras, espero em tudo o que ns
podemos ter de bom em Portugal, e no posso deixar de lembrar-me saudoso
do passado, das suas crenas, das suas obras, uma das quaes somos ns,
das suas tolices tambem.

Se ponho olhos no futuro, refujo de medroso para o passado e apraz-me
ento conversar com os homens que foram, os quaes me contam coisas
maravilhosas e graves. Ora succede tambem que muitas vezes me fico
pasmado diante do estendal das relamborias semsaborias das sociedades
extinctas, mas nem por isso deixo ainda de querer ao passado, que no
nos deu os bares, nem os penicheiros, nem as companhias de
caminhos de ferro, innovaes mil vezes mais causticantes que as
supraditas semsaborias. Revivam pois as sinceras crenas e as ingenuas
tradies de nossos avs, e conversemos d'elles e d'ellas emquanto a
sociedade moderna applaude o espectaculo de si mesma.

O primeiro varo respeitavel que temos a conversar chama-se Antonio
Cerqueira Pinto, _cidado da cidade do Porto e academico supranumerario
da academia real da historia portugueza_, o qual escreveu e estampou a
_Historia da prodigiosa imagem de Christo crucificado que com o titulo
de Bom Jesus de Bouas se venera no lugar de Mathozinhos, na Lusitania_.

Posto isto como apresentao indispensavel, vamos direito ao assumpto e
oiamos o Cerqueira n'uma das paginas do seu livro:

Consiste pois o principal d'este admiravel successo, em que voltando S.
Thiago de Hespanha a Jerusalem, com os sete discipulos, que na provincia
interamnense da Lusitania convertera, e havendo triunfado em martyrio
n'aquella mesma cidade, em que Christo remira o mundo, emprehenderam os
mesmos discipulos, tanto por anterior recommendao do santo, como por
divino impulso, reconduzir o seu sagrado cadaver a esta parte, para ter
o jazigo, na em que fra missionario apostolico.

Embarcados com elle em Jope, porto maritimo da Palestina, e navegado em
breves dias para o Occidente, o Mediterraneo, costeando pelo oceano a
Lusitania, com rumo direito a Galiza, parou como em calmaria a
embarcao,  vista do venturoso logar de Mathosinhos, no por
faltar-lhe o vento, pois vinha celestialmente equipada, e tanto de
divinas auras favorecida, que lhe levou brevissimos dias a derrota sendo
d'extenso bem dilatada; mas por permittir o co, que n'esta escala
tivesse S. Thiago por refresco uma salva real, como teve na converso do
copioso gentilismo, que n'aquella praia se achava ento celebrando os
regios desposorios referidos (uns que se celebravam n'esse dia em
Mathosinhos) em justas, torneios, lanas, e outros applausos ao
antiquado uso, que n'estas partes haviam introduzido os primeiros
adventicios dominantes gregos.

E sendo n'este festejo um dos jogos celebrados, o a que chama o _Flos
sanctorum_ antigo de Alcobaa, _andar bafordando_[3] porque os
cavalleiros na praia em concertados meneios entravam pelas candidas
espumas, que ao mar costumam servir de crespo bordado ao ceruleo adorno,
com que gallea; succedeu por alto mysterio, que do noivo o cavallo
desperando do domante freio os regulados preceitos, se arrojou s ondas,
intrepido, com tanto fogo, que julgavam magoados os circumstantes ao
cavalleiro desgraadamente perdido; porm elle prodigiosamente venturoso
chegou sem perigo a abordar  nau, em que com os seus discipulos estava
o corpo de S. Thiago, e lhe serviu de segura tabua a salvar-se, e a todo
o logar do naufragio gentilico, por ir Deus assim dispondo aquelle
especioso terreno para soberano deposito da veneravel imagem de
Christo Crucificado.

Junto da nau, entre os confusos assombros de vr-se na fluida
inconstancia das anfuas, como em terra firme, seguro, notou e advertiu o
cavalleiro, que no s chegava de maritimas conchas matisado: mas que no
mesmo perigo achava quem o livrasse do susto na milagrosa exposio do
Mysterio e instruido nos da F, recebido o sagrado baptismo por um dos
santos discipulos administrado, impresso bem tudo no seu conceito com
prazer inexplicavel convertido, e por aquelle sacramento illustrado;
advertido finalmente do mysterioso final, que as conchas haviam de ficar
representando feito missionario apostolico, triumphante da culpa, e dos
mares para elle j todos de graa, voltou em airosa carreira pela
liquida torrente ao mesmo sitio, d'onde tinha sahido naufragante.

No cuidemos de saber como Sam Thiago _se refrescava com uma salva
real_, nem commentemos os pasmos do cavalleiro ao vr-se _matisado de
maritimas conchas_. Esmiuncemos que _regios desposorios_ eram esses que
se celebravam na praia da villa de Mathosinhos.

Parece que a palavra _regios_ se no quer referir unicamente ao fausto
das bodas, que foram sobremodo lusidas como inculca o citado _Flos
sanctorum antigo de Alcobaa_, cujo texto vem citado no _Catalogo dos
bispos do Porto_[4] , de D. Rodrigo da Cunha, a pag. 20, part. 1.
... e a Cavalaria, e as Donas, e a gente moita, e cada um fazia o que
sabia, que pertencia  boda: e os huns lanabo ao tavoado, e os outros
bafordabom, mas entre estes que bafordabom, bafordava hi o noivo. Hoje
no se ostentam nas bodas proezas de cavallaria: os convidados esgrimem
contra os taboleiros, e os noivos esperam que os convidados devastem os
podins para se verem livres dos importunos parasitas de luva branca.

Mas, tornando ao conto, escreve ainda D. Rodrigo da Cunha: No  s o
_Flos sanctorum_ de Alcobaa o que faz meno d'este milagre, que deu
occasio a se converterem tantas almas n'este nosso Bispado, e em
lugares to visinhos ao Porto. No Breviario antigo da S de Oviedo, se
acha um hymno, que se costumava a resar na festa de Sanct'Iago aos 25 de
julho, em que claramente se faz alluso a elle. Dizem os versos do hymno:

    Cunctis mar cernentibus:
    Sed  profundo ducitur;
    Natus Regis submergitur;
    Totus plenas conchilibus.

Chama ao cavalleiro, que se recebia filho d'El-Rei, porque sem duvida o
seria d'algum regulo, a quem os Romanos soffriam estes nomes de
dignidades, em quanto lhe no impedia a subjeio a seu imperio.

Como d'aqui se deprehende, conjectura-se nas passagens citadas a
fidalguia do noivo, _natus regis_, e por isso adjectivaram de _regias_
as bodas.

No obstante divergem as opinies sobre a qualidade e nome dos nubentes.
No os nomeia o _Flos sanctorum_ do mosteiro de Alcobaa, copiado por D.
Rodrigo da Cunha e outros doutos vares, com quanto circumstanciadamente
conte do milagre. D'esta lacuna procede todo o embarao, porque o padre
frei Luiz dos Anjos os nomeia Cayo Carpo, natural da Maya, e Claudia
Loba, do Porto; e D. Pedro Seguino, bispo d'Orense, escreveu que o
cavalleiro se chamava Rivano e a dama Valeria.

Ao noivo uns o do como _liberto_ de Augusto Cesar, e outros como filho
d'algum poderoso regulo das Hespanhas. Ora a nobreza da mulher, suppe
Cerqueira Pinto,--que persiste em chamar a elle Cayo Carpo e a ella
Claudia Loba,--que era das primeiras e melhores: no conselho da Maya,
que he, e foy sempre contiguo  mesma Cidade, (do Porto) e onde est
situado o lugar de Matosinhos, havia cavalheiro capaz de casar com
mulher daquella nobre familia... Pelo que se v, a villa de Mathosinhos
era alfobre de preclara nobreza em que floreciam varias fidalguissimas
Claudias. Hoje, se Claudias ha em Mathosinhos, trazem saia pelo joelho e
seguram vigorosamente contra a ressaca as esgrouviadas banhistas que vo
molhar no mar os nervos doentes.

 decadencia das Claudias, e outras!

No vae o nosso amor pela antiguidade at averiguarmos cabalmente o
verdadeiro chamadoiro e nascimento dos noivos de Mathosinhos, e at,
para conciliarmos os consultissimos historiadores, no temos duvida
em matrimoniar Valeria com Cayo Carpo e Rivano com Claudia Loba. D'esta
maneira, ficariam por igual comprazidos os chronistas que divergem sobre
o nome do cavalleiro que sahiu ao mar, e da noiva que ficou em terra.

Do prodigio resultou a total converso do logar de Mathosinhos  f
catholica, e, segundo diz Cerqueira Pinto, de toda a nobreza do Porto e
da Maya, que estava presente. Tambem lembra o historiador que o nome de
Lea, dado ao rio, poderia derivar da alegria devida  aproximao da
nau que conduzia S. Thiago ou  plenaria converso d'aquellas gentes.

 pois certo que o logar de Mathosinhos, onde o leitor descuidosamente
passeia o seu aborrecimento em mezes de banhos,  por mais d'um respeito
celebre, porquanto no 1. de abril do anno de 44 se operou o prodigio
que vimos historiando, e d'ahi a oitenta annos aportou quella praia a
imagem cuja historia Cerqueira Pinto particularmente escreveu no livro
de que havemos extrahido estes apontamentos.

A par da tradio religiosa, que deriva das bodas de Cayo Carpo com
Claudia Loba, corre a tradio nobiliaria, como se os homens, ciumentos
das glorias da Igreja, quizessem sequestrar-lh'as em grande parte para
satisfazer sua vaidade.

Conhecel-o-ha o leitor, se me quizer acompanhar a Benavente, districto
de Evora, onde encontraremos n'uma das torres da matriz as armas dos
condes d'aquelle titulo, as quaes armas representam cinco conchas
em escudo liso.

Este  o ponto em que a tradio religiosa prende com a tradio
nobiliaria.

Do cavalleiro de Mathosinhos, predestinado para tamanhos prodigios, qual
foi o de galopar por sobre as ondas muito melhor do que ns pelas nossas
estradas, procede a familia dos Pimenteis, de Traz-os-Montes, aos quaes
Pimenteis appellida de nobres um chronista. No sei se todos os ramos de
Pimenteis teem iguaes fros de nobreza e motivos de prosapia. Os
Pimenteis de que eu descendo foram homens honrados e obscuros, que nem
com titulos litterarios se podem abonar, o que prova que os meus
antepassados tiveram mais juizo que eu.

Do fidalgo _matisado de maritimas conchas_ procedeu Joo Affonso
Pimentel, senhor de Bragana e primeiro conde de Benavente, o qual as
tomou por braso assim como pudera adoptar o corcel miraculosamente
subjeito s rebeldias do oceano.

Consta tambem que as mesmas armas esto gravadas na torre do castello de
Bragana, mas se o leitor no as vir l, nem na torre da parochia de
Benavente, fique sabendo que eu fui muito menos feliz n'estes vagalhes
de grossa erudico do que o cavalleiro da chronica nos mares
aparcellados da praia de Lessa.

      *      *      *      *      *




THIERS


Mac-Mahon veio substituir Thiers na presidencia da republica franceza.
Alguem disse: Acabou a dictadura da palavra; comea a dictadura da espada.

E porque?

Porque Mac-Mahon  um general francez, e Thiers  um estadista e um
historiador.

Porque um deu os primeiros passos da vida na Escola militar de
Saint-Cyr, e o outro na Academia d'Aix.

Porque um saiu da escola para o campo de batalha, e o outro saiu da
Academia para a lucta politica.

Porque um comeou a militar no cerco d'Anvers s ordens do general
Achard, e o outro estudou o plano das primeiras campanhas no gabinete do
velho Talleyrand.

Dictadura da palavra e dictadura da espada!

Vejamos.

O estadista e o historiador foi chamado a governar a nova republica
franceza depois da sangrenta guerra franco-allem.

 sempre difficil dirigir uma creana, mrmente uma creana, cujo bero
fluctua sobre sangue nas ruinas d'um paiz inteiro.

O sangue era francez: as ruinas eram as da Frana.

O vencedor era a Allemanha.

Pela eterna rivalidade que reina entre as duas naes, a Frana
julgava-se duas vezes vencida por succumbir s mos da Allemanha.

Thiers foi o medico chamado  cabeceira da Frana no momento em que as
feridas do corpo nacional sangravam dolorosamente sobre as ultimas
purpuras encontradas nas Tulherias.

Comprehende-se o que seria governar assim.

Vde bem que exforo titanico no requer subir ao Vesuvio, quando elle
muge em convulses precursoras d'erupo, debruar-se  cratera,
despreoccupado da escurido sinistra que fecha a montanha, escutar o
surdo ruido das entranhas de pedra agitadas pelo fogo, sentir affluir ao
enorme local d'aquella pyra enorme o turbilho vertiginoso das lavas, e
suster com um dedo a massa candente que irrompe de dentro, e reprimir
com uma palavra a torrente impetuosa d'um niagra de chammas.

Assim estava a Frana: isto fez Thiers.

Foi elle, o dictador da palavra, que provou ao mundo que para os
cadaveres das naes como para os cadaveres dos homens tinha a physica
descoberto o galvanismo.

Foi elle que estendeu o seu brao obstando a que a plebe desenfreada
sepultasse no grande tumulo das naes que foram o cadaver da Frana,
amortalhado nos fragamentos das suas esphaceladas bandeiras.

Apagados os fogos sinistros da batalha, ergueram-se vorazes os fogos da
Communa.

Depois da derrota,--o incendio; depois da guerra extrangeira, a guerra
civil.

Era preciso combater a Frana para salvar a Frana, porque o peior
inimigo da Frana era a Frana.

A derrota tinha alastrado de cadaveres o cho.

Eram as cinzas dos heroes, que se bateram com o eterno denodo francez.

Cumpria veneral-as no mais sagrado culto devido aos que perecem pela
patria.

Mas o facho da Communa tentava queimar em Paris os corpos dos heroes nas
fogueiras que no Industo espalham no ar as cinzas das viuvas brahmines.

Era uma profanao immensa.

Cumpria respeitar a desgraa da patria, salvar ao menos a quilha da nau
desarvorada, que desde tempos immemoriaes estava costumada a despejar as
suas hostes conquistadoras nas praias da Europa inteira.

Pois bem, Thiers estava ao leme, e queria morrer abraado  ossada do
seu navio, quando desesperasse de salval-o.

N'estes momentos de suprema agonia todos os olhos e todas as esperanas
esto concentrados no capito.

Se elle desanima, desanima a equipagem.

E cada vez mais referviam em derredor as ondas populares d'aquelle
immenso mar de fogo que dava s aguas do Sena uma ardentia sinistra.

Thiers salvou a Frana, suffocando a Communa, e fazendo cahir o brao
fratricida armado para a guerra civil.

Isto ainda o no conseguiu a Hespanha, que manda as legies de Madrid
combater as guerrilhas da Navarra.

A Communa era o incendio, o saque, o fusilamento, e, para vencer todas
estas calamidades, claro est que era preciso oppor-lhes pelo menos
outra: a morte.

Era preciso fazer justia: correu sangue.[5]

Dado porm que na presidencia da republica franceza estivesse a essa
hora no o dictador da palavra, mas o dictador da espada, um intrepido
militar costumado a oppr a fora  fora, lembrado de haver pelejado em
Africa no assalto de Constantina, de haver tomado em Sebastopol as
fortificaes de Malakoff, e de ganhar na Italia a victoria de Magenta,
esse militar, dizemos, impellido pela sua destemida coragem, haveria
atulhado de francezes os carceres e os cemiterios para salvar a
patria que a sua espada to gloriosamente por mais d'uma vez nobilitara.

Dictadura da palavra!

Dictadura da palavra foi o governo de Thiers.

Luctas, se as houve, foram parlamentares unicamente, e a assembla de
Versalhes o campo de batalha.

Assim requeria ser tratado um enfermo illustre, que tinha ainda nos
labios um timido sorriso de esperana.

E esse enfermo era a Frana, o paiz das tradies gloriosas, e a
medicina foi a palavra, a discusso, o parlamento.

 impossivel rehabilitar-se um paiz com maior dignidade.

 ruina da guerra com o extrangeiro succede um governo republicano
d'ordem, que, logo aos primeiros passos, tem de supplantar a Communa
armada em ambas as mos com o ferro de Caim e o facho d'Omar.

O inimigo da familia depois do inimigo da Frana!

Ameaado o lar depois de retalhada a patria!

Era preciso salvar o bero em que fluctuavam os Moyss do futuro, e o
cemiterio onde dormia toda a immensa familia de Clovis.

Isto conseguiu Thiers, e mais ainda.

Reorganisou o exercito.

Satisfez a imperiosa avidez do erario allemo deixando-o cogulado do
muito oiro da contribuio de guerra que pesa ainda menos do que o
sangue das victimas de Metz, Borny, Mars-la-Tour, Gravelotte e Sedan.

Levantou dois emprestimos que provam que o credito da Frana bastaria a
encher todos os thesoiros da Allemanha.

E reergueu os edificios derrubados pelo inimigo ou pela Communa e, o que
 mais, reergueu a patria, sustentando um difficilimo equilibrio
politico nas frequentes e perigosas oscillaes d'um governo provisorio.

Isto fez Thiers: isto fez a dictadura da palavra.

Vejamos agora como se pagou ao velho No que depz, s e salva, nas
faldas do Ararat, a nau desconjunctada pelo imperio francez.

A eleio de Buffet para presidente da assembla franceza, por uma
maioria de 70 votos, contra Martel, candidato do governo, recomposto nas
fileiras do centro esquerdo, era um mau prenuncio de imminente
tempestade parlamentar.

E, de feito, a tempestade rebentou.

Na sesso do dia 19 de maio deu-se o signal de rebate, que no pde ter
outro nome a apresentao da interpellao firmada por quasi todos os
membros do centro direito e da direita.

Venha o documento. Precisamos de vr claramente como Thiers, o dictador
da palavra, succumbiu dignamente s unicas armas cujo combate
aceitava,--a palavra.

Os abaixo assignados, convencidos de que a gravidade da situao exige
 frente dos negocios um gabinete cuja firmeza tranquilise os espiritos
em todo o paiz, pedem para interpellar o ministerio a respeito das
ultimas modificaes que acabam de fazer-se n'elle, cerca da
necessidade de que prevalea no governo uma politica resolutamente
conservadora, e propem que se destine a proxima sexta feira para se
realisar a interpellao.

O governo, pela bocca do ministro Dufaure, pediu um praso de vinte e
quatro horas para se entender com o presidente da republica.

Era esse o dia em que deviam ser apresentados os projectos da lei
constitutiva dos poderes publicos.

A esquerda da assembla pediu que fossem lidos.

A direita oppz-se violentamente.

Era a primeira refrega, depois do signal de combate.

Estava patente a impossibilidade d'acordo entre o presidente da
republica e a direita, unida ao centro direito da assembla.

A politica de partido levantava-se para combater a politica nacional;
comeava a referver a escumalha da paixo nas aguas que deveram
anilar-se na doura d'uma discusso serena.

A direita foi intransigente, violenta, aggressiva.

Thiers, o dictador da palavra, cujos actos e discursos procuraram sempre
alliar todas as vontades por meio d'um espirito liberal e conservador,
prudentemente sustentado em todas as luctas, quiz ainda responder 
direita com o seu verbo fluente, sereno e limpido:

No solicitei o poder, offereceram-m'o e exerci-o no meio de
muitos desgostos e difficuldades: as vossas censuras no as dirijaes aos
leaes ministros aqui presentes: dirigi-as a mim, que para mim as tomarei.

O momento  solemne; imperiosas as circumstancias: vs ides decidir os
destinos do paiz.

Mas era preciso dizer a verdade toda:

Entre os republicanos ha alguns que querem ir mais longe e que instigam
os outros a seguil-os: so os que querem a republica para os republicanos.

N'esta situao, precisa-se de um governo inexoravel para com a
desordem, e que, depois de assegurar a tranquilidade, inicie uma
politica de pacificao; tal  a nossa politica.

Todavia a direita, como dizia a interpellao, queria uma politica
_resolutamente conservadora_, e Thiers desceu da cadeira da presidencia,
certamente deslembrado das ostentaes do poder, se bem que naturalmente
desalentado como todos os grandes obreiros que so chamados a receber a
fria da ingratido...

Finalmente, Mac-Mahon substituiu Thiers.

A historia registrou o passado, e a espectativa europea nada alcana
pelas trevas do futuro a dentro.

Ir inaugurar-se uma dictadura verdadeiramente militar?

So tudo perguntas.

Governar a direita?

Restaurar-se-ha a monarchia?

Continuar a situao provisoria?

No se sabe.

Todavia, j vol-o disse, alguem profundamente sabido em coisas dos
homens e da politica, sentenciou: Acabou a dictadura da palavra; comea
a dictadura da espada.

Tambem sabeis que Thiers  o author da _Historia do consulado e do
imperio_, e da _Historia da revoluo franceza_, e Mac-Mahon o vencedor
de Constantina, de Malakoff e de Magenta.

Em todo o caso a Frana  governada por uma espada.

Ora uma espada, depois d'uma guerra fatal, e quando se sonha em outra
guerra diversamente fatal, a _revanche_, lembra o sangue que correu e o
sangue que pde correr...

A espada vence, e a palavra convence.

E a Frana precisava convencer-se de que deve, primeiro que tudo, coroar
a trabalhosa obra da sua rehabilitao.

      *      *      *      *      *




 HESPANHA

(AGOSTO DE 1873)


Tu eras o menestrel da peninsula, o trovador de capa traada, que
dedilhavas o bandolim dos teus cantares sob a janella illuminada pelo
formoso luar das serenatas.

Tu eras a madrilena, de mantilha de rendas, olhos de fogo, que passeava
 tarde no Prado, agitando a ventarola, os olhos e o mundo...

Tu eras o _torero_, de jaqueta azul constellada d'estrellas d'ouro e
prata, que te erguias no meio da arena, de p como os triumphadores,
victoriado pela multido.

Tu eras o amor ardente que descanta ao luar, o _salero_ que justifica a
_serenata_, a fora que vence os obstaculos.

Eras um paiz que mantinhas o esplendor da tua individualidade sem
fechares a porta  invaso dos progressos moraes e materiaes do seculo.

Tinhas o teu idioma, as tuas danas, os teus cantares, os teus
espectaculos.

Tinhas reis como S. Fernando, poetas como Campoamor, pintores como
Murillo, campeadores como o Cid, oradores como Castelar...

Um dia, porm, uma d'estas grandes fatalidades, que pesam sobre todas as
naes, avergou a tua nobre cerviz, e um rei estrangeiro, no podendo
conter a impaciencia das ambies, desceu do throno a que fra chamado,
depondo nas tuas mos a cora que de ti havia recebido.

E como so sempre os clares nascentes da aurora que succedem aos
clares moribundos do occaso, como  sempre a flr que succede ao cahir
das folhas mortas, tu quizeste levantar sobre as ruinas da monarchia a
bandeira vermelha da ideia nova.

Havia n'essa tua aspirao,  Hespanha, um tributo nobilissimo  memoria
do teu ultimo rei.

Elle descera do throno com a magnanimidade com que Codro se expozera 
morte, e a Hespanha, como Athenas, queria deixar para sempre devoluto o
solio por no haver rei mais nobre que viesse occupal-o um dia.

No rolaste pelas ruas da capital, cuspindo-lhe as injurias da canalha,
a cora da monarchia.

No, archivaste-a na _sancta-sanctorum_ das tuas gloriosas tradies,
porque essa cora a cingira D. Amadeu, e D. Amadeu fra o _omega_ da
realeza hespanhola.

No a consideravas escarneo; veneraval-a como reliquia.

Ento,  Hespanha, os teus poetas, os teus pintores, os teus
dramaturgos, os teus campeadores, os teus heroes ficaram supplantados
por um homerico vulto cuja eloquencia jorrava em catadupas scintillantes
pela _bocca d'oiro_ do teu Joo Chrisostomo.

A voz do teu grande orador apostolisava o evangelho d'uma nova religio
politica. No era o inimigo dos reis que se levantava a insultar-lhes as
cinzas depositadas nos tumulos soberbos do Escurial. Elle queria vencer
sem sangue, combater sem ferir, semear sem revolver a terra!

Impossivel!

Santa aspirao que no pde traduzir-se em facto, sonho de fraternidade
angelica sem realidade entre os homens, onda crystalina que no chega a
banhar todos os coraes porque encontra no caminho obstaculos e barreiras.

As auroras da terra no esplendem apenas como as do co. So chamma.
Cospem centelhas, e muitas vezes a centelha  o pollen luminoso que gera
o incendio.

A luz tornou-se labareda.

Acordaram, sacudindo as tranas enleiadas de viboras, as Meduzas da
ambio, as Furias do socialismo, os Omares dos fachos incendiarios.

Mobilisaram-se tropas, rodaram carretas, soaram clarins.

Caim armou-se para derrubar Abel.

Jacob vestiu no brao a pelle do anho para enganar a cegueira de Izaac.

A insurreio vendeu o Messias da nova ideia pelos trinta dinheiros de
Judas.

O luar da Hespanha, o doce confidente das serenatas, volveu-se
sanguineo, como o reflexo d'uma forja.

O templo, onde porventura existia uma Virgem de Murillo, ficou devoluto,
abertas as portas, e as aves de rapina entraram para os saquear depois
que o pastor espiritual saiu para combater.

O bandolim do menestrel emmudeceu sob a _ventana_; os echos do Prado no
repetiram mais o chalrar das morenas da mantilha.

A bandeira hespanhola nunca mais foi reverenciada na solido das aguas
com o culto que se deve s cres nacionaes d'um paiz livre.

Que importa que fosse aquella bandeira a mesma que acompanhou Christovo
Colombo s regies ignoradas do mundo novo?

Os descobridores morreram; ficaram apenas os piratas.

O descobridor era saudado pela artilheria; o pirata  aprisionado por ella.

Ruinas d'uma nacionalidade, petalas d'uma grinalda desfolhada,
recordaes horriveis d'um sonho vago...

E ainda de p o vulto gigantesco, que sobrevive  sua propria ideia, o
sonhador que subsiste  sua aspirao, o jardineiro que no estremece ao
perpassar do tufo que lhe arrebata o jardim do seu ideal!...

A sua voz sobranceia os rumores da tempestade;  ainda o verbo da paz no
meio da lucta, ouve-se na Europa inteira a palavra do Lazaro
immortal que desperta nas profundezas do tumulo:

Ns, os republicanos, temos muito de prophetas, pouco de politicos.
Sabemos muito do ideal, pouco da experiencia; abrangemos todo o co do
pensamento, e caimos no primeiro fosso que ha no nosso caminho. Assim
succede e tem succedido sempre na historia, que os inimigos dos partidos
progressivos fundam as ideias progressivas, como o judeu S. Paulo fundou
o christianismo: como o monarchico Washington fundou a republica do
Norte da America; como Rivadavia, outro monarchico, fundou a
confederao das republicas do sul da America; que nem o Baptista na
egreja, nem Rosseau na revoluo, nem nenhum dos prophetas consolidou a
propria reforma por elles annunciada e trazida; do mesmo modo que Moyss
guiou para a terra promettida, e no chegou a entrar na terra
promettida; do mesmo modo que Colombo descobriu a America sem saber que
a tivesse descoberto para que uns guerreiros andaluzes e extremenhos a
conquistassem e uns obscuros pilotos italianos a baptizassem; porque os
que concebem e presentem as grandes ideias, no as realisam nem
consolidam em nenhuma poca da historia.[6]

E no obstante referver ainda o cahos  hora em que o Moyss da Hespanha
se preparava para escrever o genesis da nova creao, e atiarem-se
as labaredas do incendio geral, e despirem-se os altares; no obstante
fugir a Hespanha da Hespanha espavorida de sua propria crueza, e
demandar o tecto hospitaleiro dos Euryalos estrangeiros, e a bandeira da
patria despertar contra si a aggresso dos paizes extranhos,--elle, o
gigante ferido no corao pela funda de David, quer morrer ou renascer
abraado aos escombros do seu bero:

Eu quero ser hespanhol e s hespanhol; quero fallar o idioma de
Cervantes, quero recitar os versos de Calderon; quero colorir a minha
phantasia com os matizes que tiravam das suas palhetas Murillo e
Velasquez; considerar como pergaminhos meus de nobreza nacional a
historia de Viriato e de Cid; quero ter no escudo de minha patria as
naves dos catales que conquistaram o oriente e as naves dos andaluzes
que descobriram o occidente; quero ser de toda esta terra, que ainda me
parece estreita, sim, de toda esta terra que se estende dos Pyreneos s
ondas do gaditano mar; de toda esta terra ungida e santificada pelas
lagrimas que custara a minha me a minha existencia; de toda esta terra
redimida, resgatada do estrangeiro pelo heroismo e pelo martyrio de
nossos immortaes avs.

 que s elle  maior que a Hespanha toda.


FIM.




    [1] _Do portal  claraboia._

    [2] No prologo da _Civilizacion en los cinco primeros siglos del
    Cristianismo_, por Emilio Castelar.

    [3] _Bafordar_ era, no jogo d'armas, brincar com ellas, fingir
        combate militar.

    [4] Annotado pelo mesmo Antonio Cerqueira Pinto.

    [5] Em outro livro (_Nervosos, lymphathicos e sanguineos_) lamentamos
    que corresse o sangue de Rossel, por exemplo, o que no quer dizer
    que censurassemos a represso da Communa. Convinha s vezes que a
    justia no fosse cega para estremar os homens e os delictos.

    [6] Fragmentos do discurso de Emilio Castelar recitado na assembla
    constituinte hespanhola em 30 de julho.




INDICE

                                                    Pag.
    Advertencia                                     VII
    O Gabinete de Camillo                             9
    O Primeiro de Janeiro                            17
    A Aguia d'Ouro                                   25
    Physiologia do Theatro de S. Joo                33
    Physiologia do Theatro Baquet                    41
    Telhudos historicos                              53
    Os Domingos                                      63
    As Italianas                                     71
    Emilio Castelar                                  79
    Animaes e vegetaes                               89
     Academia de Coimbra                            97
    Os annuncios                                    107
    A industria das ruas                            117
    A Giganta (carta a Julio Cesar Machado)         127
    O Album do Gymnasio                             137
    Esboo de comedia                               145
    As colheitas                                    153
    S. Bartholomeu                                  159
    O Natal                                         167
    Os Bohemios                                     173
    O Relogio...                                    181
    s sete horas da manh                          191
     mesa do ch                                   199
    S. Joo                                         207
    Judas no plural                                 213
    Historia velha                                  221
    Thiers                                          229
    A Hespanha                                      239






End of Project Gutenberg's Entre o caff e o cognac, by Alberto Pimentel

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE O CAFF E O COGNAC ***

***** This file should be named 33182-8.txt or 33182-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/3/3/1/8/33182/

Produced by Pedro Saborano

Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
