Project Gutenberg's Paisagens da China e do Japo, by Wenceslau de Moraes

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Title: Paisagens da China e do Japo

Author: Wenceslau de Moraes

Release Date: May 20, 2008 [EBook #25537]

Language: Portuguese

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Maio 2008)




PAISAGENS DA CHINA E DO JAPO




WENCESLAU DE MORAES

Paisagens
da
China e do Japo

LISBOA
LIVRARIA EDITORA
VIUVA TAVARES CARDOSO
_5, Largo de Cames, 6_

1906





LISBOA

Typ. de Francisco Luiz Gonalves
80, Rua do Alecrim, 82

1906




A Camillo Pessanha e Joo Vasco


     _Nos baldes da vida bohemia, na confusa successo dos dias e das
     scenas, acontece que os factos, as coisas, os individuos, invocados
     pela pobre memoria exhausta, vo perdendo pouco a pouco as suas
     qualidades intensivas, as suas cres, os seus contornos, a sua
     feio propria, emancipando-se do real, como uma pagina de
     aguarella desmerece, solta e perdida no espao e voando com as
     brisas; diluindo-se por fim n'uma emoo generica, vaga,
     indifinivel,--a saudade.--A essas duas grandes saudades, Camillo
     Pessanha e Joo Vasco, dedico hoje este livro._

     _Kobe, 10 de Abril de 1901._


                                              Wenceslau de Moraes.





AS BORBOLETAS

                                                 A J. Moreira de S.


A lenda das borboletas.

So to lindas, as borboletas! Quem as v, que no lhes queira? ahi
vagabundando pelo azul dos campos, razando as corollas frescas,
amando-se, beijando-se, libertas da larva abjecta, como almas de amantes
despidas da miseria terreal, a viajarem no infinito... So to lindas,
as borboletas!...

Mas na China so talvez mais lindas do que todas.  um deslumbramento
surprehendel-as na quietao dos bosques, voejando aos pares, que se
tocam, que se abraam, e enfiando pelas sombras mysteriosas dos
bambuaes, com as suas longas azas palpitantes, lancioladas, em matizes
maravilhosos, de negros avelludados, de azues meigos, de amarellos
quentes, como se as loucas vestissem cabaias de setim, de sedas de alto
preo...


Choc-In-Toi, a deliciosa Choc-In-Toi, habitava, ha longos seculos, uma
pacifica aldeia do Yang-tsze-kiang, no longe do logar que hoje se diz
Shanghae. Como fosse muito dada a estudos litterarios e as escolas do
seu sexo no lhe satisfizessem a ambio, conseguiu que seus paes lhe
permittissem o disfarar-se em homem, e assim abalou, a ir frequentar a
mais famosa universidade do imperio. Volveu ao lar apz tres annos;
volveu to pura como fra; da sua innocencia ha provas irrecusaveis.
Para no divagar muito n'estas paginas, basta dizer a quem me queira
ouvir, que um leno de seda branca, que ella enterrara na lama em
presena d'uma sua cunhada predisposta a vaticinar-lhe rudes lances, foi
depois tirado sem uma s mancha e sem um s farpo, branco, puro, como a
alma da donzella; e basta saber que as flres da sua preferencia, que
ella deixra no jardim, rogando aos deuses que as conservassem frescas
como ella, assim se conservaram durante a longa ausencia, embora, como
consta, a cunhada as fosse regando com agua quente tirada da chaleira.


Durante os tres annos de seu estudo, um companheiro, por nome
Leun-San-Pac, intimamente se lhe afeioou. Era o seu camarada
inseparavel, o seu irmo; dormindo juntos, conversando juntos, estudando
juntos, divagando, sonhando; e o lorpa do mocinho nunca se apercebeu que
tinha a seu lado uma mulher.

[Figura]

Quando soou a hora das despedidas, cortava o corao vr o rapaz,
lamentando o futuro isolamento, a perda d'um amigo como aquelle. A moa
consolava-o. A moa poisava-lhe nos hombros as suas mos gentis, e
exhortava-o a que se enchesse de coragem, a que se entregasse ao amor do
estudo, t alcanar um alto grau de sapiencia.--E depois, dizia-lhe
ella entre soluos, e depois, se com saudade te recordares ainda de mim,
abala, vem vr me  minha aldeia.--E dava-lhe indicaes precisas do
logar. Despediram-se, entre choros.

A donzella esperou, esperou, esperou,--quem poder descrever esse
tormento? guardando da familia o seu segredo; e o moo no apparecia.
Segundo os usos do paiz, os paes destinaram-lhe um marido; e ella, a
desolada, escrava da obediencia filial, obediencia cega, indiscutivel,
que  a base da vida inteira moral do povo china, inclinou-se, acceitou,
sem que uma s queixa proferisse.

Tres dias decorridos depois do contracto nupcial, eis que chega  aldeia
o pobre Leun-San-Pac; pobre, porque a desventura se lhe acerca; mas rico
de erudio, de uma alma culta, e occupando um logar proeminente.
Encontra o seu amigo, encontra o seu irmo; mas agora sem disfarces, na
graa plena dos seus enlevos femininos, na gentil elegancia das vestes
que lhe so proprias, e com grinaldas de flores na trana negra. De
comeo, este enigma, pouco a pouco explicado, confunde-o, desnortea-o;
mas tudo se aclara; da amisade ao amor o salto  rapido. Oh! elle ama-a
agora, elle ama-a de todas as foras do seu ser; e no olhar de fogo
transluzem mil mysterios de adoraes e de desejos!...  tarde. A
palavra dada ao feliz noivo no se quebra. Os velhos paes prezam mais do
que tudo, a propria honra.

Elle parte; elle parte para um logar visinho, louco, com a alma embebida
no fel dos desesperos.  ainda ella, a doce pomba obediente, que tenta
consolal-o. Ella escreve-lhe; ella diz-lhe que a vida no  eterna; que
a piedade filial arrasta-a a um consorcio que s lhe vaticina dores e
prantos; mas que as almas so livres, emigram d'uns corpos para outros;
encarnam-se n'outros seres; que elle socegue, aguarde outra existencia,
para a qual ella lhe jura ser a sua companheira, toda fidelidade e toda
amor. Leun-San-Pac l, faz um bolo d'essa carta, onde to demoradamente
poisara a mo da sua bella, e engole-o, e suffoca-se com elle, e exhala
assim na solido o ultimo suspiro. Um pouco alm, sobre a montanha, se
lhe elevou a sepultura.


Soam bategas festivas, estalejam nos ares fogos de gala, de alegria; e
pela longa estrada em ziguezague, bordada aqui e alli de bambus e
bananeiras, doirada pelo sol do meio dia, serpea em rutilantes theorias
o monumental cortejo do noivado, caminho do lar feliz.

O estylo de ha mil annos  o mesmo estylo de hoje. So os grandes
bales, os estandartes, conduzidos por moos vestidos de vermelho. So
os enxovaes primorosos, as cabaias, a colleco dos sapatinhos, tudo
disposto nas liteiras luzentes dos esmaltes. So as colossaes peas de
doaria, castellos de assucar, drages de assucar, coisas espantosas.
So os porcos assados, loiros, deliciosos, espalmados sobre os
taboleiros, com laos de fita nos focinhos. So as orchestras
estridentes, de flautas, de rebecas. So as creanas ataviadas em
setins, em allegorias de scenas de outros tempos, cavalgando alimarias
pachorrentas.  finalmente a liteira da noiva, toda ella oiros, toda
ella esmaltes, fechada como um cofre, furtando  vista dos curiosos o
precioso fardo, Choc-In-Toi.

[Figura]

A noiva solicita do cortejo um curto desvio na sua marcha. A noiva,
antes de entrar no lar e de ser esposa e escrava, quer abeirar-se, alm,
d'aquella sepultura esquecida na montanha, e orar junto dos restos do
que morreu por ella. Quem lhe recusaria tal licena? Eil-a que desce da
liteira, nas suas cabaias deslumbrantes; e eil-a que se prostra, eil-a
que beija a terra...

[Figura]

A terra abre-se ento, carinhosa, me; a terra traga-a, chama-a a si,
chama-a para junto dos ossos do seu querido. A comitiva pasma do
milagre. As mos avanam a detel-a; mas s logram colher um pedao do
vestido, que se rasga, e  tudo... O pedao de seda, de mil matizes,
transforma-se de subito n'uma borboleta de mil cres, que va das mos
rudes, e desapparece no azul, desapparece!...  desde aquella epocha que
ha borboletas n'este mundo, to lindas, to cheias de matizes!...



Eu no lhes estou contando uma mentira, meus amigos. Ainda hoje se v a
sepultura, esboroada pelos seculos, d'aquelles amorosos. E as esposas
desprezadas alem vo em romaria, e d'aquella terra bemdita se suprem s
mos cheias, e d'ella provam, e disfarada com o arroz a ministram aos
maridos. Consta que o estranho tempero, aquella terra, que em alguma
coisa participa da essencia dos amantes que ali jazem para sempre, tem
virtude comsigo, e  sempre efficaz em trazer ao bom caminho os
mariolas, os maridos.




A ALFORRECA

                                              A Henrique Carvalhosa.


Falla a lenda japoneza.

Antigamente--e quem sabe se ainda hoje!--no seio do oceano era o reino
faustuoso dos drages. Por longos annos, o senhor d'este reino, o drago
real, viveu celibatario, n'uma existencia descuidosa; e sabem s os
deuses, e no ns, quantas noites de dissipao, em companhia de
tartarugas e lagostas ligeiras de costumes, que lhe cantavam trovas ao
som do _shamicen_ e lhe iam servindo _sak_ em ricas taas, quantas
noites elle passou em travessas intimidades amorosas!...

Verdores, que passam breve. Um bello dia, resolveu casar-se, o bom
soberano. A noiva escolhida foi uma joven dragasita, dezeseis annos
apenas, adoravel, digna pelos seus mil encantos de ser a consorte feliz
de tal senhor. Explendidas foram as bodas por essa occasio, segundo
consta: sem j fallar na crte intima, toda a bicharia aquatica, peixes,
mariscos, molluscos, todos vieram processionalmente, em cardumes, em
bellos _kimonos_ de sedas encarnadas, offerecer seus respeitos e
presentes; e foram, durante longos dias, estupendos regabofes, em
danas, em musicas, em banquetes...

[Figura]

Mas nem os drages escapam s duras provaes da existencia! Ainda bem
um mez se no passra, quando a augusta soberana caiu doente; e taes
cuidados inspirou desde logo o seu estado, que era uma lastima observar
as trombas compungidas dos fidalgos, commentando baixinho, em
lamentaes do seu officio, o triste caso. Reuniram-se os doutores em
conferencia; fallaram muito, discutiram muito, sem chegarem a accordo,
como sempre succede; consultaram-se abalisados alfarrabios de
therapeutica; as barbatanas incanaveis rabiscaram um milho de receitas
milagrosas, e todas as tisanas se serviram. Baldado intento; a soberana
extinguia-se; e afinal os focinhos dos sabios, n'um tregeito de piedade
e desengano, tiveram de ser francos, de declarar que a sciencia--j
n'aquella epoca se enchia a bocca com _a sciencia_--que a sciencia nada
mais podia fazer, e que um angustioso desfecho era de esperar-se.


Do seu leito de enferma, de entre os _futon_, as fofas colchas de setim,
agita as tremulas patinhas a rainha; chama junto de si o esposo, e
diz-lhe estas palavras ao ouvido:--Uma s coisa me salvar: arranquem o
figado a um macaco vivo, e consintam que o devore; recuperarei a
saude....--O rei no poude reprimir um gesto de surpresa, quasi de
enfado, e todo se lhe erriou o bigode faanhudo:--Um figado de macaco!
ests louca, minha querida!...--Ella promptamente retrucou:--Louca,
porqu? Vossa magestade esquece por ventura, que ns, o grande povo dos
drages, no mar vivemos sempre; emquanto que os macacos, muito longe
d'aqui, vivem na terra, nos bosques, entre as arvores, nutrindo-se de
fructos... No figado do mono alguma coisa vir que participe d'esse
mundo, to diverso, to outro; e essa particula estranha, senhor, me
salvaria!...--E a rainha, a quem as lagrimas acodem, prosegue n'um tom
reprehensivo e lastimoso:--Uma insignificancia, um nada, pedi, e esse
nada vossa magestade me recusa. Julgava merecer-lhe mais affectos.
Dispa-me d'estas pompas de soberana, no as quero; d a cora a outra
esposa, mais digna, mais formosa; consinta que volva ao ninho carinhoso
de meus paes...--A voz suffoca-se em soluos, no pode mais proferir
uma s queixa...

[Figura]

O rei dos drages no queria passar, entre damas por um drago cruel;
por demais conhecia elle os caprichos pueris do sexo fragil, mas
perdoava-os complacentemente, por systema; e sobretudo adorava a esposa,
cujas lagrimas desejaria poupar a todo o transe. Satisfaa-se pois o
capricho da rainha. Mandou chamar a sua escrava mais fiel e dedicada, a
alforreca, e disse-lhe o seguinte:--Vou dar-te uma espinhosa tarefa,
minha velha, mas confio na tua dedicao nunca mentida; preciso que
emprehendas uma longa viagem, que nades at junto da terra, e alli
convenas um macaco a vir comtigo a estes meus reinos; falla-lhe, para o
resolveres, da magica belleza d'estes sitios, to differentes dos seus,
e da gentileza d'estes meus subditos felizes; mas o que eu realmente
quero n'este caso,  que se arranque o figado das entranhas de tal mono,
e se sirva como medicamento  tua joven ama, que, como de certo sabes,
se acha em perigo de vida, a desditosa.

[Figura]

L vae, oceano fra, vento em ppa, a alforreca, emissaria obediente e
ufanosa do encargo. Por aquelles tempos, a alforreca, como qualquer
bicho das aguas, era um animal gracioso, de contornos esbeltos, com
cabecinha, com olhinhos, com mosinhas, e com a competente cauda
titillante; e ficava-lhe to bem o fato de marujo!... L vae, oceano
fra, olhar sereno e cogitador, rompendo a vigorosas braadas a onda
fria. No tarda muito a abeirar-se do paiz onde vivem os macacos; por
felicidade, um alem est, um lindo mono, saltando de ramo em ramo,
dependurando-se das arvores que enraizam nos penedos e se debruam sobre
o mar.--Bons dias, senhor macaco. Eu venho aqui expressamente para
fallar-lhe d'um paiz longinquo, muito mais bello do que o seu;  elle
situado alem das ondas e conhecido pelo reino dos drages; alli, no ha
estaes,  eterna a amenidade do clima; alli, nas copas das arvores
repolhudas, constantemente amanhecem avelludados fructos saborosos, 
colhel-os, no ha outra tarefa; para cumulo do conforto, essas creaturas
malfazejas, homens chamados, no pisam taes paragens. Se lhe agrada vir
commigo, eu serei o seu guia; no tem mais que fazer do que saltar
d'esse tronco para cima do meu lombo... O macaco achou gracioso isso de
ir vr novos paizes. V l mais esta extravagancia  conta da bohemia
simiesca.--Ao largo, amiga!--E l foram os dois; porm, a meia
travessia, pensou tardiamente o mono na temeridade do seu feito,
expondo-se assim ao arbitrio d'um extrangeiro, e abandonando a sua
patria. Decidiu-se emfim a perguntar:--Que pensa voc que vo fazer de
mim na sua terra?--A alforreca deveria agora ser discreta, encapotar as
respostas em evasivas; mas oiam l o que ella deu em troco:--Eu lhe
digo: meu amo, rei dos drages, ordena ao senhor macaco que arranque o
proprio figado, o qual vae ser servido  nossa soberana, hoje enferma, e
salval-a da morte.--Ento o mono, guardando para si os commentarios que
o caso suggeria, disse cortzmente, que era para elle uma alta honra e
um esperado prazer, o assim tornar-se util a sua magestade; acrescentou,
porem, que agora se lembrava de ter deixado o figado dependurado n'um
tronco de arvore, aquelle mesmo castanheiro d'onde saltara para as
costas da alforreca. Continuou discursando em linguagem fluente, de
orador emerito, descendo a explanaes minuciosas; e explicou como o
figado era uma coisa bastante pesada, embaraosa, um quasi alforge de
peregrino, um empecilho que elle costumava pr de parte, durante o dia,
para se entregar mais  vontade aos seus exercicios de acrobata; habitos
de familia, j seu av fazia o mesmo; e concluiu, que o melhor que
tinham a fazer n'este momento, era voltarem para trs, e na arvore
encontrariam o figado em questo.

[Figura]

No pz objeces a nadadora. Voltando  terra, o macaco saltou ao
castanheiro com uma ligeireza nunca vista, nem mesmo entre macacos,
acompanhando o pulo d'uma alegre careta e d'um gesto que traduzia o
jubilo do bestunto, coisa que passou estranha  alforreca. Procurou
entre as folhas o seu figado. No o encontrou. Explicou ento do alto, 
alforreca, que provavelmente algum companheiro o levra para longe, o
que o obrigava a mais demoradas pesquisas pelo bosque; no entretanto que
fsse ella contar o caso ao seu senhor, que devia estar ancioso por
vl-a chegar antes da noite.


Assim procedeu o bicho.

El-rei, que a esperava, e que a escutou, enraivecido por tamanha
ingenuidade--para no lhe chamar coisa mais feia,--mandou logo vir da
maladia um bando dos seus mais soberbos _samurais_, e ordenou-lhes que
malhassem no bicho  pancada, at canarem. O castigo foi cumprido, e
com esse vigor de braos de villes, que miram aos applausos do
monarcha.  esta a razo porque a alforreca, hoje em dia, no tem
pernas, nem cabea, nem cauda, nem barbatanas: tanta pancada levou, que
ficou reduzida a esta miseria, massa informe, um farrapo, um pedao de
gelatina, boiando despresivelmente  merc do turbilho das vagas.

Com respeito  soberana, reconsiderando no disparate do seu capricho,
concluiu que o melhor que tinha a fazer era erguer-se da cama e pr-se
ba; e assim fez, com grande pasmo dos doutores.


A historia da alforreca est contada, na sua simplicidade commovente. 
veridica esta historia, como tudo que o povo relata de memoria; creia
n'ella quem cr. Fica-se j sabendo no entretanto,--e  isto d'um
proveitoso ensinamento,--que os japonezes to prodigamente propensos ao
perdo para tantos pecadilhos de alma e de costumes, castigam os
patetas.

Diga-se francamente: esta desgraa da alforreca, no paiz do sol
nascente, era inevitavel; e o caso presta-se a interessantes
commentarios, que eu vou resumir em poucas linhas. Os japonezes--povo de
artistas--so os grandes amorosos da creao, da forma, da vida; ninguem
como elles conhece os segredos da ave, do insecto, do reptil, do peixe,
dos molluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade
graciosa d'esses seres, estudada com percepes especiaes, que nos
escapam, constitue o thema mil e mil vezes variado, dos seus primores de
arte. Mas esse monstro, essa disformidade, essa alforreca que se
apresenta como unica excepo da lei geral da gentileza da vida, e
parece resumir em si o enfado inteiro d'um dia de mau humor do
Omnipotente, devia ter deixado impresses tristes nos primeiros
japonezes que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicao
condigna do phenomeno, e  a que ficou descripta n'estas linhas.

[Figura]

 ainda interessante recordar de passagem a approximao, pela desdita,
da alforreca japoneza com a medusa mythologica da Grecia, no merecendo
esta melhor tratamento dos deuses olympicos. Curiosa coincidencia!




O ANNO NOVO

                                             A Feliciano do Rozario.


Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, comea o anno novo. Mas no
vo imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a
commemorao; tal commemorao, aqui, no fim do mundo, no seio d'esta
colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroos intimos de
familia, limitada  troca banal--_troca_ sem cedilha e com cedilha--de
algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes _boas-festas_
escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno
lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o
povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do
reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.

       *       *       *       *       *

Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se,
domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido
reflexo da civilisao do Occidente que logrou chegar a este Macau, a
este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira.

Meia noite. Ao meu obscuro albergue, chega, de alem dos bazares, o ruido
da bombardada amotinadora dos foguetes, e das mil e mil embarcaes
fundeadas no porto o clamor ovante das bategas, vibradas pelas mos
rudes das companhas. Que ir l por esses bazares, a estas horas, santo
Deus!... Eu no me arredo do meu canto. Bem sei que a febre das massas
suggestiona, contamina todos. Bem sei que no se dorme hoje; que no ha
chapo de cco de amanuense ou kepi de militar, direi mesmo chapelinho
de pellucia com laarotes de setim e seu competente passaro empalhado,
de menina, que no v correr as viellas, perder-se na onda, confundir-se
com os rabichos, gosar com elles. Mas est tanto frio, e as bagas de
agua zurzem-me to desapiedadamente os vidros das janellas... E, peor do
que isto,  o frio da alma,  a apathia enervante do meu espirito,  o
sorriso amargo que me enruga os labios, provocado por esse mesmo jubilo
do enxame, que aqui me retem e me impedem de tambem ir galhofar.

[Figura]

No, decididamente no serei da festa. Imagino-a d'aqui. Imagino essas
ruas lamacentas, coalhadas de povo sujo, com as cabaias negras ensopadas
dos chuvascos; e imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel,
accendendo nas poas, pelo reflexo... grandes labaredas ephemeras,
ziguezagueando. As lojas esto escancaradas ao publico; fructos, flres,
doces, carnias, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em
prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e  comprar, e
comprar j, porque no tarda em romper o glorioso dia de descano, o
unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilho, todos, cruzam
os braos, no trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um
linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados.
As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda;
e at pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que
pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio no
esperado! O china adora o jogo--era preciso que elle adorasse alguma
coisa!--mas hoje todos jogam, todos so chinas, e  isto um exemplo
interessante da influencia suggestiva das grandes maiorias; a mo mais
circumspecta de funccionario, a mo mais mimosa de dama (de _nhnha_, em
dialecto vulgar d'esta colonia) avanam sem pejo, arriscam  sorte varia
umas pratinhas...

Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram
em piedosas adoraes milhares de cabeas agradecidas, e se queimaram
papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua
um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se ento a onda humana
para o lar, j mercas feitas, j bolsas esvasiadas; e vae surgir um
grande dia votado inteiro ao descano, votado  glorificao dos deuses,
cuja magnanima assistencia se exalta pelas graas concedidas e pelas
graas que vo esperar-se!....

Mesquinha humanidade! como tu me entristeces,  pobre humanidade, 
pobre familia minha, ainda mais nos teus regosijos e nas tuas
esperanas, do que nos teus choros e nos teus desenganos!... Para este
bando chinez com quem me encontro agora, que exploso de benos lhe
estimula a sentimentalidade? que altos beneficios commemora? O bando
abenoa a sua eterna existencia de miseria, a miseria passada, a
presente e a que fatalmente vae seguir-se-lhe. Abenoa a labuta sem
treguas, em busca do punhado de arroz de cada dia; ora exercida no lar
immundo, sem sombra de conforto; ora exercida pelos campos, nas varzeas,
nas collinas, no amanho da terra, sob a oppresso constante dos raios do
sol que escalda, ou dos frios que paralysam; ora exercida nos barcos,
que se cruzam na podrido dos estuarios, ou pairam sobre a onda
adormecida durante as calmas torpidas, ou se desfazem no escarceo,
quando os tufes rugem em furia. O bando abena a fatalidade da sua
condio social, o problema espantoso, paradoxal, do seu feitio de ser,
que em todas as depravaes, em todas as iniquidades imaginaveis, parece
ir buscar as leis unicas por que se rege. O bando abena ainda as
calamidades tremendas, que n'estes ultimos tempos, como uma maldio
divina, teem pairado sobre a immensa patria:--nas provincias do sul, nos
seus centros mais populosos,  a peste, a peste negra, roubando em cada
lar um ou dois filhos, ou o pae, ou a me, ou mesmo todos juntos, e
vestindo de lucto, de tristes roupas alvas, os parentes, e ameaando
estabelecer-se definitivamente, enraizar como uma arvore de peonha,
d'onde emanar a cada instante o veneno subtil, destruidor das turbas;
e, para cumulo de infortunio e de descredito, um visinho, um povo irmo,
o povo japonez, invade, vence e desbarata a China, morde e come pedaos
do seu torro sagrado, envergonha-a, offerece-a ao escarneo do mundo na
miserrima condio da sua plebe e na opulenta infamia dos seus nobres,
desprestigiada emfim, indefeza  cubia das gentes, aos homens loiros da
Europa, que no tardaro em vir espezinhal-a.--Embora! esqueam-se hoje
as miserias, vista-se o povo em gala, chovam benos sobre o anno que
comea. E amanh, decorridas algumas horas de folgana, recomecem,
prosigam,--pouco importa!--os turvos dias de amargura, a fatalidade da
existencia no antro, a dura labuta no campo e no barco, a faina eterna,
a orgia torpe dos maridos, a escravido das esposas, a venda das filhas
a quem mais der, os horrores da prostituio, as vergastadas nas
creadinhas, as extores dos mandarins, as torturas nos carceres, a
morte lenta nos patibulos, a obra de destruio das epidemias e do opio,
as humilhaes perante o vencedor, as exigencias do Occidente, as
arrogancias dos homens loiros...

[Figura]

       *       *       *       *       *

Para o anno novo, tudo se prepara com antecedencia, em prodigiosa
azafama;  para todos uma occupao incessante e desusada, durante as
ultimas semanas do anno que vae findar. Lavam-se os covis, lavam-se as
podres mobilias.  o p d'um anno que se sacode,  a lama d'um anno que
se deita fra,  o piolho e  a pulga d'um anno que se afogam na onda
das barrelas; porque, durante os labores de cada dia, nunca a ida de
limpeza preoccupou os espiritos durante um s instante. Tudo 
providencial neste mundo, ao que parece. Na chafurda typica d'estas
povoaes chinezas, to frequentemente visitadas por todas as
pragas--cholera, peste, lepra,--embebidas no lodo dos canaes, no
ambiente das emanaes dos estrumes pachorrentamente acogulados e dos
despejos que apodrecem pelas ruas, custa a crr como a gentalha pollula,
e como os consorcios fructificam em ninhadas de garotos; e parece 
gente que um sopro qualquer destruidor, de calamidade immensa, ir em
breve prostrar esses enxames, sem que deixe de p um s vivente nos
albergues. Puro engano: as povoaes eternizam-se. No parecer de alguns
investigadores, que taes exotismos interessam, se os miasmas putridos
convidam as epidemias a entrar e a vindimar providencialmente as muitas
vidas que superabundam, estes mesmos miasmas, sobrecarregados de vapores
de ammoniaco, de exhalaes corrosivas de fermentos, se encarregam de
ferir tambem mortalmente os virus morbidos, poupando o resto do povo.
Chegamos ao facecioso paradoxo de ser na China a immundicie o
purificador por excellencia, um como que elixir de longa vida,
indispensavel a todas as familias, feito da mais estupenda alchimia de
dejectos.

[Figura]

Conceda-se pois, por excepo, a este bom povo celestial, o capricho de
lavar uma vez cada anno o antro onde se abriga. Depois,  ver a faina de
collar pelas paredes, pelas portas, pelas janellas, papeis de bella cr
escarlate, com negras inscripes cabalisticas, que so votos de ventura
e de riqueza, que so preces aos deuses. E chega a occasio de se
adornarem os altares, de se irem comprar junquilhos em flor, que se
dispem em vasos gentis com agua e seixos alvos, e assim vo enfeitar os
aposentos, levando o vio e o perfume, por um dia, aos negrumes das
alcovas. No meio do complicado rito das usanas, algumas praticas
enternecedoras, de ingenuidade primitiva, interessam o curioso. Reparem
por exemplo nas enormes celhas expostas pelos mercados, onde enxames de
pequeninos peixes negros, carpas barbudas, estrebucham na gotta de agua
do improvisado captiveiro; o povo compra-as, e vae lanal-as em seguida
nas ribeiras, gosando na aco do resgate, por certo grata aos deuses, e
que redundar em beneficios...




A PRIMAVERA

                                                  A Camillo Pessanha


[Figura]

Ha alguns dias, na cidade de Kobe,--poderia precisar o dia, e quasi a
hora, se tamanho rigorismo me exigissem,--irrompeu a Primavera.
Irrompeu: no ha sombra de exagero no vocabulo. Irrompeu, surgiu d'um
pulo, fez exploso. N'este paiz do Sol Nascente, onde o sol, e com elle
todas as grandes foras naturaes, so ainda uns selvagens--se assim
posso expressar-me--uns selvagens sem freio, sem noo das
conveniencias, incapazes de se apresentarem de visita, de luvas e
casaca, n'uma crte qualquer da nossa Europa; n'este paiz do Sol
Nascente, ia eu dizendo, a creao inteira apostou, parece, em offerecer
em cada dia uma surpresa, toda ella exuberancias inauditas, espalhafatos
unicos, repentismos nervosos, caprichos doidos, como se reunisse em si a
quinta essencia da alma das creanas e a quinta essencia da alma das
mulheres, a gargalhada, a troa, emfim, motejadora de tudo quanto 
ordem, harmonia, contemporisadora lei das transies.

Hontem, foi um inverno duro, gelido, vestido apenas d'uma ampla tunica
de neve. Hoje, d'um salto, o sol rompeu em quenturas amorosas, comearam
de florir as arvores, e evolaram-se os insectos. Amanh, ser o estio
torrido, em brazas, como nem na China, nem na Africa se sente. E assim
corre o tempo, vam as horas; cada instante  um meteoro; e aqui um
tufo arranca os troncos, e alli a chuva torrencial inunda as varzeas, e
alem um rio transborda do seu leito, e uma onda do largo afoga as
aldeias, e uma convulso subterranea abala o solo...

O europeu, o pobre europeu das paizagens serenas, soffre os choques
d'esta natureza, por demais subversiva para o seu espirito triste,
meditativo e attribulado. Offerece-se-lhe um de dois caminhos a seguir:
ou communga na vida japoneza, inicia-se nos seus segredos intimos, ama-a
nas suas modalidades, e assim a existencia se lhe gasta, se consome
rapida, esgazeada em admiraes, doidejando em vertigens; ou se retrae,
se isola, odeia a natureza que no comprehende, odeia o exilio, vive de
saudades da patria, entre as quatro paredes do seu lar, ou dos clubs
cosmopolitas da colonia forasteira. No  preciso mais para justificar o
tique de loucura, facilmente perceptivel, da enorme maioria d'estes
expatriados, homens e mulheres, aps curta residencia no paiz japonez.

       *       *       *       *       *

Ora pois,--dada esta concisa explicao  gente incredula,--ha alguns
dias, na cidade de Kobe, irrompeu a Primavera.

Pela noite velha, fra chegando uma brisa como que amorosa,
acariciadora, perfumada. No silencio das trevas, as carpas acordaram,
n'um charco fronteiro ao meu albergue; e estrabuchavam, e produziam
desusados ruidos, saltando fora d'agua, ardendo em cios, endemoninhadas.
Quando rompeu o dia, e appareceu o sol, no se descreve o enlevo do bafo
morno, embalsamado, genesiaco, que enchia o espao. O ceu tinha azues
novos; cirros de paz pairavam nas alturas. A paizagem esverdera;
esverdera da herva nova, que surgia, e das arvores velhas, que se
coloriam. A nossa observao educa-se n'este meio em especialidades de
minucia, abundando por toda a parte, em campos e jardins, as coniferas,
de todas as frmas, de todas as grandezas; estas arvores nunca se
desfolham, mas no inverno descoloram-se, empallidecem como mulheres
chloroticas, chegam a lembrar enfermos, chegam a lembrar coisas mortas;
depois, a primavera excita-lhes a seiva, um verde intenso assoma-lhes s
folhas, a vida recomea, doida, vo desabrochar flores em fria!...

J as ameixieiras se apresentam em galas de florescencia; os negros
troncos rugosos e lavrados pela lepra dos lichens, sem uma folha sequer,
cobrem-se agora de bastas cabelleiras, alvas ou rosadas, feitas de mil e
mil florinhas presas aos galhos por minusculos penduculos. Vistas de
longe, nos sitios onde abundam, fazem lembrar uma floresta de arvores
seccas, envolvidas pelo fumo e pelas chammas d'uma queimada devoradora.
Em breve sero os pecegueiros a florirem. Depois as cerejeiras. Depois
as pereiras. Todas as arvores. Todas em apotheoses de coloridos. Chalaa
tudo, em todo o caso--estas arvores no do fructos, no do ameixas,
no do pecegos, no do cerejas, no do peras; ou, se os do, no
prestam. Esgotam os ardores da seiva na superabundancia das petalas das
flores enormes, enormes como nunca se viram em outra parte; contribuem,
em meras orgias de cores, para a incrivel hilaridade do scenario, para a
supina gargalhada primaveral; nada mais. Servem de pretexto para os mil
motivos de debandada para os campos, d'estes bons japonezes, cabaa ao
hombro, _musum_ ao lado, alma descuidosa aberta aos esplendores.

[Figura]

So estas florescencias paradoxaes, to caracteristicas do solo
nipponico, que encaminham a cada momento o pincel indigena para
requintes de matizes que a esthetica occidental no comprehende; ellas
que inspiram aos artistas esses to frequentes fundos de paizagem
salpicados de brancos e vermelhos, a reminiscencia do instante em que as
flores se desfolharam e cairam do alto, n'um chuveiro de petalas.

De parceria com as arvores, so as hervas, as plantas, os arbustos, que
se vestem de folhas e se enfeitam de flores. J ao longo dos muros
espreitam, por entre as pedras, as violetas silvestres; e o solo vae
vicejar de musgos, fetos, de relvas, de bambus e de humildes gramineas;
e matizar-se de brancos, de azues, de amarellos, de escarlates, de
roxos, de mil cres, de mil flores sem nome, apenas conhecidas dos
insectos, que so botanicos emeritos e sabem de cr e salteado onde as
corollas lhes offerecem os manjares mais capitosos. J desabrocham os
junquilhos, as camelias. Vo desabrochar a wistaria, as azaleas, os
lirios, os iris, os narcisos, os convolvulos, as peonias, a legio
vegetal.

       *       *       *       *       *

As ameixieiras, por aqui pelas cercanias de Kobe, vo vr-se ao
pittoresco oiteiro de Okamoto, ou a Suma, no dominio d'um templo famoso.
Os pecegueiros vo vr-se a Momoyama, em Osaka, que as florinhas cr de
rosa incendeiam por curtos dias. As cerejeiras, particularmente queridas
dos japonezes, vo vr-se a um ou dois templos em Osaka; ou 
formosissima collina de Arashiyama, em Kioto, marginando a ribeira de
Hozukawa, caudalosa e rumorejante; ou, no mesmo Kioto, ao parque de
Maruiyama, onde uma s arvore, a vetusta _cerejeira da noite de Guion_,
de delicados ramos em pendor, tem merecido os enthusiasmos e as
estrophes de no sei quantas geraes de amorosos e de poetas, que junto
d'ella poisam, dia ou noite, embevecidos no extasis do espectaculo; ou
ainda a Yoshino, o logar por excellencia preferido, sitio montanhoso e
agreste, de difficil accesso, mas por isto mesmo frequentado pelos
grandes fanaticos da natureza em pompas; Yoshino, com a sua sentida
lenda d'um monarcha fugitivo, e com o peregrino enlevo das suas
mil--conta justa, affirmam,--das suas mil cerejeiras, muitas vezes
macrobias, offerecendo aqui, acol, alm, n'um valle, sobre uma ponte, 
borda d'um precipicio, as scenas mais surprehendentes, mais
arrebatadoras, parecendo as arvores em flor, flocos de nuvens brancas a
rasarem a relva da paizagem. A wistaria, o _fugi_, v-se em Nara, a
velha cidade classica; os ramos trepadores enrolando-se em torno dos
troncos das chryptomerias gigantes, e os longos cachos brancos e os
longos cachos roxos pendentes ao capricho das brisas.

[Figura]

Romarias indescriptiveis de graa pag, de vida exuberante, estas
romarias, reunindo se ao quadro bello da natureza, de uma magestade
commovente e estonteadora, a kermesse hilariante do povo em festa.
Barracas embandeiradas expondo mil artigos; poisos improvisados para a
refeio frugal; os homens em bandos a folgarem; as creanas aos saltos,
s gargalhadas, vestidas a primor, de sedas de mil tons; mulheres de
todas as condies, graves mamans deliciosas, meninas recatadas em mimos
de flor de estufa, petulantes cantadeiras das ruas, camponezas em roupas
escarlates, _gueshas_ em requintes de luxo e de encantos, ovantes como
idolos, todas ellas comesticos, todas ellas aromas, todas ellas sedas
rojantes, todas ellas mimicas e requebros, espanto-sas.... Ao recolher
da festa, a onda humana  curiosissima: cada qual empunhando uma haste
florida, cada qual com seu embrulho para o presente de estylo aos amigos
que no foram; as mulheres commentando as scenas em gestos e em
risinhos; as creanas abarrotando de fructas e de bolos, canadas,
somnolentas, rabujando; os homens em galhofa, pouco firmes, com as
frontes e as palpebras encarnadas, que  como se lhes accusa o
peccadilho de terem bebido um pouco mais do que convinha...

N'esta contemplao dos scenarios est a alma do indigena. Eu vou
reproduzir-lhes uma local, que ha dias appareceu n'um jornal da terra, e
que define bem a gentil puerilidade pantheista d'esta gente unica:--em
Himeji j se deu f este anno de duas flores de cerejeira... _duas_, 
sobretudo delicioso!... O homem do Occidente pensa, o japonez v; eis a
enorme distinco que os separa. O prazer dos olhos  a alegre
preocupao de todos; vive-se no presente, para gosar do momento de
hoje, para sorrir s coisas; e pode ser que seja esta a maneira mais
coherente do ser humano prestar culto aos seus deuses, ao Creador, que
lhe impoz na terra uma misso.

       *       *       *       *       *

N'aquella primeira manh primaveral, debandaram dos bosques mais cedo,
em magotes alegres, em serenos vos altos em busca de aventuras,
chocarreando, atirando aos ventos as suas gargalhadas de mofa, os
corvos, nos quaes to bem encaixa, sem eu saber porque, o nome japonez,
de _karuu_. A pardalada papeava amores, e safava-se resolutamente dos
povoados em demanda dos campos. Uma borboleta amarella,--ia apostar que
a primeira da estao,--atravessou n'um vo o meu jardim. Sobre cada
flr poisava um bicho, mosca, ou abelha, ou vespa, ou besoiro, ou
moscardo, vindos no sei como, por feitio, pois havia longos mezes que
ninguem lhes punha a vista em cima; e no tarda que chegue a immensa
corja alada, cigarras, gafanhotos, mariposas, mosquitos, tira-olhos, os
pandigos do ar, todos bulicio, cres e vida!... Pelos corregos, pelas
regueiras, ao longo das ruas e caminhos, surdiam pela vez primeira das
tocas os sapos, rouquejando; e dois a dois, graves... mas no estou
agora para contar-lhes o que faziam nas regueiras e nos corregos, os
sapos, graves, dois a dois...

Nos rostos da gente, suggestionada, embriagada em aromas, pintava-se uma
alegria nova, uma recrudescencia de actividade animal. As raparigas
passavam mais lepidas, em _kimonos_ alegres, claros, descalas sobre os
sccos pela primeira vez depois do inverno, os seus ps muito brancos,
muito mimosos, aps o recatado abrigo durante os mezes frios. Encontrei
alm, n'aquella esquina, uma _musum_, que vendia ovos, e um vendilho
ambulante de cestos e vassouras; haviam poisado no cho a sua industria,
conversavam em segredo, mas com intensa vivacidade de expresso; elle
agarrava-a pelos pulsos, brutalmente; e ella, a rir, a julgar pelo
brilho dos olhos e pelo rostinho alvoroado de desejos... dava-se-lhe,
em promessas.

       *       *       *       *       *

Pois foi n'aquelle dia, que eu, em vez de ir divagar pelos campos, como
os pardaes,--j no digo: (ir vender cestos e vassouras) pelas
ruas...--que eu me engravatei cuidadamente e fui bater  porta d'um
amigo. Tratava-se d'uma festa de creanas, o que  dizer, d'uma estopada
para adultos. Effectivamente, exhibia-se, em frente d'uma duzia de
meninos e de outra duzia de pessoas circumspectas, um graphophone
americano; graphophone, ou coisa parecida; um _phone_ qualquer em todo o
caso; que isto de _phones_, para quem cursou aulas de physica ha perto
de trinta annos,  de uma complicao tal, que nunca a gente chega, por
mais que se applique, a fallar com segurana do assumpto.

Mal lhes posso agora traduzir a dolorosissima impresso, que a festa me
deixou. Ratice minha, sem duvida. Introduzia-se n'uma caixa um cylindro
apropriado para o caso e dava-se corda ao instrumento... mas a quem
estou ensinando o padre-nosso!... Ento, um americano fanhoso,
imbirrante, assim com ares de bebedo e ademanes de exhibidor de
saltimbancos, a ponto de se lhe presumir a casaca no fio e cheia de
nodoas e a gravata branca em uso ha mais de seis semanas, fallava ao
publico, annunciava a casa constructora em Nova York, e o que em seguida
iria ouvir-se. Eram canonetas chulas, solos de flauta, estrondos de
orchestra, devaneios em viola, discursos grotescos; e tudo aquillo, e as
vozes do publico que ria, que vociferava, que dava palmas, que pedia
_bis_, creanas berrando, damas mal suffocando o riso, cavalheiros
atirando chufas, tudo aquillo, distinctamente, saa da caixa enfeitiada
e enchia a sala onde me achava, como se uma multido de patuscos, vindos
da America, vindos do inferno, a tivesse invadido de surpresa.

Mas que tristeza immensa!... Como eu amaldioava, n'aquella hora, estas
invenes da epocha, estes engenhos surprehendentes, monstruosos, que
vem zombar da vida, e assassinar arte, enlevos fugaces que passam,
reminiscencias, saudades, tudo o que  doce ao espirito...
porque,--affirmo-o tanto quanto as palavras me podem traduzir o
pensamento,--porque, no fim de contas, ficou-me uma desconsoladora noo
de desprestigio da existencia, e de troa s leis do mundo,  lei da
successo dos factos no tempo; e vi em pensamento um bando de velhinhos
alchimistas largarem as retortas, por um momento, e virem bradar 
creao, fitando o ceu s gargalhadas:--no tenhas imposturas, sabemos
tanto, fazemos tanto como tu!...--J no bastava a photographia, esta
artimanha irreverente, que vae implicar com os ausentes, com os
defuntos, com o mundo distante, dando-nos em troca da sentida
recordao, que guardavamos, o phantasma, em contornos, do que fugiu dos
nossos olhos. Agora  o graphophone, que eterniza os sons, a voz dos de
longe, a voz dos que morreram. Morte, ausencia, j no tem razo de
existir nos diccionarios. Para o caso a que me refiro, c continua o
americano imbirrante a vomitar os seus discursos, os musicos a tocarem,
os cantores a cantarem, o publico a rir, a chorar, a applaudir, a
chalaar. Passaram-se assim as scenas ha dois annos, ha cinco annos, ha
dez annos. Estar a estas horas o americano morto, coisa de alguma
bebedeira mais forte, que o prostou? a creana, que chorava, dormir
tambem n'um tumulo, coitadita? a dama, que ria, estar doida, n'um
asylo? o homem, que applaudia, n'um carcere, cumprindo uma sentena?
Nada importa. A machina chama-os, reune-os, ressuscita-os, renova-os
para a pandiga d'um momento da existencia; o passado  presente; e a
machina agita-os, empurra-os para o interior das nossas casas, para nos
divertirmos  custa d'elles mesmos...

       *       *       *       *       *

Primavera? ia eu pensando com os meus botes. Primavera? ri a natureza?
florescem as arvores? cantam amores os passaros?  uma realidade? Ah!
talvez no, que hoje, a um phenomeno substitue-se quasi sempre uma
industria; e espectaculos do Pae do Ceu fram j quasi todos
supprimidos, porque iam aborrecendo a humanidade... Cada dia que passa,
regista cem descobertas, tendente cada qual a apagar do nosso espirito a
lenda do mysterio, do incomprehensivel. A vida, o mundo reduzem-se a
machinas, a engenhos mais ou menos complicados. Doce Primavera, que me
enfeitia? Troa. Aqui anda machina, apostra! Quem me assegura, que
isto no foi primavera servida a meus avs ha mais de um seculo, gravada
n'um cylindro, e impingida depois como nova, de quando em quando, aos
patetas, que a applaudem?...

       *       *       *       *       *

E a proposito da Primavera que irrompia, duas palavras sobre outra
Primavera, que morria, ahi pela mesma epocha.

[Figura]

No haver ninguem, imagino, que, tendo passado em Kobe, no conhea
_Nunobiki_, a cascata.  que o sitio, pela sua fama merecida,  o
passeio obrigado de todos os que chegam, embora se demorem duas horas.
No ha conductor de carro, guia de viajeiros, um qualquer alcoviteiro
que ande  cata de gente que desembarca dos paquetes, que se esquea de
indicar, como primeira diverso, a ida  queda de agua. L vo todos. L
fui eu, uma vez, como viajeiro: e muitas vezes, depois, como residente,
residente em ocios, attrahido pelos scenarios apraziveis. L em riba,
muito em riba da montanha, e salpicada de espumas e acalentada em
rumorejos, na penumbra do ermo apertado entre penedos a prumo, cobertos
de ramaria silvestre, era a casa de ch, a _chya_ tradicional,
offerecendo repoiso por alguns minutos e uma bebida ao forasteiro
extasiado, sem fallar nos sorrisos, nas mesuras, que prodigalizavam
largamente as raparigas que alli olhavam pela venda. Ha alguns annos,
disseram-me, eram tres as raparigas, tres irmans,--as tres graas;--mas
eu conheci s duas, tendo casado a outra com um titular europeu,
conforme ouvi. Eu conheci s duas: O-Tane San, a Senhora Semente, e
O-Haru San, a Senhora Primavera. Como se fica presumindo, eram as
japonezas mais populares de Kobe inteiro; das quaes, talvez no erre,
acreditando que os muitos milhares de forasteiros, que n'estes ultimos
seis annos visitaram o Japo, guardam uma reminiscencia, uma saudade...
Duas fadas dos bosques, a enfeitiarem os incautos? No tanto: quando
muito, duas sereias de agua doce, simplesmente meigas, simplesmente
gentis, vendendo graciosamente uma chavena de ch, sem assucar,  moda
japoneza, e dando de graa um sorriso, to doce, que tirava ao ch o
travor proprio, mesmo para o paladar mais exigente. Eu preferia 
Semente, a Primavera. Era mais fresca,--fresca como o seu lindo nome,--e
mais avelludado o olhar negro, e mais esmerada nos _kimonos_ de seda e
na curva em azas de borboleta dos cabellos. Com ella palestrava, com
ella ria, ria sobretudo, que o riso  a linguagem mais em uso n'esta
terra; e, tomando-lhe das mos, perguntava-lhe quem fra o delicado,
inglez, russo, coreano, hottentote, que lhe offerecra aquelle annel com
uma saphira, que enfiava to bem no seu dedo cr de rosa...

Pois muito bem. Sabe-se que em materia de progresso material o Japo
anda a galope. Lembraram-se ha pouco estes senhores de constituir uma
empreza para a distribuio da agua aos domicilios, em Kobe. A idea no
 nova: j Yokohama, Osaka, Nagazaki e certamente outros centros, gosam
de instituies da mesma especie. O que  lastima,--se vale a pena a
gente prender-se em ninharias,-- que assim, alcanado pelo turbilho
reformador, que vae dando cabo de todo o pittoresco d'este povo, tenda a
desapparecer o poo... o poo classico dos velhos tempos, com a borda
circular talhada n'uma s pedra, o alpendre gracioso sustido por dois
madeiros, os baldes suspensos das duas pontas da corda de cairo, que
enfia no tosco gorne central; estabelecido em plena cosinha domestica,
ou a um canto do jardim, ou n'uma vereda accessivel a um bando de
visinhos; e cerca as vasilhas de uso, celhas, escudellas, colheres, da
mais graciosa e original tanoaria, de que as creadas, meias-nuas, se vo
servindo nas lavagens, demorando-as para alongar tagarelices, proprias
do sexo e ainda mais das japonezas; eis o poo, correspondendo a um
quadro muito caracteristico da vida intima; o poo, que os adoraveis
pinceis dos mestres da pintura se compraziam em reproduzir mil vezes,
emaranhando-os na rama das trepadeiras, das _asagao_, cujas bellas
campanulas de cres variadas abrem com o nascer do sol e fenecem logo
aps...

Para o caso de Kobe, dirigiram-se logo desde o inicio as picaretas e as
enxadas para a montanha de _Nunobiki_, onde a agua jorrava em manancial
sem fim; e,  fora de braos e de dynamite, no intuito de encaminhar a
torrente aos reservatorios da empreza, fez-se um desbarato tal, abatendo
as arvores, cortando as rochas, cavando a terra, que todo o enlevo do
sitio desappareceu, a paisagem tornou-se em ruinas. Rigorosamente
fallando, a cascata acabava de existir. A _chya_, tal como a gente a
conhecra no seu rustico pittoresco, forada pelas escavaes a mudar de
poiso, acabava de existir. E as raparigas? logicamente, tinham de
desapparecer tambem. Com effeito, a Semente casou com um japonez e
safou-se... e fao votos para que o seu nome lhe seja de bom agoiro,
dispondo os fados a concederem aos conjuges uma prole feliz e numerosa;
e a Primavera morreu; morreu, por mofina coincidencia, quando a outra
Primavera ia renascer, dar vio e flres s arvores, no s da cascata,
merc da nova empreza. Morreu tisica; a sua cascata, onde nascra, onde
vivra vinte annos, com a sua eterna penumbra crepuscular, com as suas
rochas eternamente gottejantes, com o seu ambiente eternamente humido,
rora-lhe os pulmes...

[Figura]

Pobre Primavera... Mas no morreu talvez, pensem bem n'isto que lhes
digo; embora ninguem mais lograsse vel-a, embora as amigas tivessem
acompanhado ao cemiterio o seu corpinho inerte... O seu retrato j corre
mundo, em photographia, vendido pelas lojas, perpetuando-lhe o rostinho.
E nada mais possivel do que o facto de andar ganhando cobres pelas
feiras, hoje, amanh, d'aqui a quarenta annos, um sujeito qualquer
ajoujado com um graphophone, um _phone_ qualquer americano... Esto
imaginando a patuscada:--Cylindro apropriado; d-se corda... A plebe
ouve pouco mais ou menos o seguinte:--Grande companhia de graphophones
de Nova-York e de Paris! Scena da famosa cascata de _Nunobiki_, no
Japo!--E a plebe continua de ouvir:  agora o murmurio continuo,
soluante, de agua despenhando-se de rocha em rocha; trina um passaro
vagabundo; um francez bate as palmas, pede cerveja; um inglez pede
whisky; um nipponico pede ch; a vz da Senhora Primavera vibra
distincta, fresca, doce; Primavera desfaz-se em desculpas, em risinhos,
diz que j vae, no tarda; mas o inglez tem pressa, renova o seu pedido
com azedume: e o instrumento  ento perfeito--oh, maravilhas da
sciencia!--que se ouve at o ciciar d'um beijo, que  naturalmente do
francez...

                                                               1899.




NILGUYO


_Mukashi_, _mukasi_ (nos velhos tempos, nos velhos tempos, como diriam
estes bons japonezes, e conforme reza a lenda, interpretada pelo Nihon
no _Mukashibanashi_ (Antigas Legendas do Japo), viveu um homem, um
simples, de indole bondosa, de quem se poderia dizer que passra a
mocidade em desejos de matrimonio; mas como desejos e realizao d'elles
so duas coisas mui differentes, attingiu o pobre a meia idade sem ter
levado a effeito essa firma...--_commercial_ no  talvez o termo
proprio,--em todo o caso essa firma a dois parceiros, que partilham
entre si, da vida, alegrias e tristezas.

As alegrias d'elle consistiam principalmente em entregar-se  pesca,
pesca  linha durante os longos ocios; tristezas, sentia-as sobretudo,
mais mordentes, ao recolher  noite a casa, derreado, cambaleando de
somno e de fadiga, sem encontrar uma alma companheira que lhe sorrisse 
porta, e em saudaes o convidasse a entrar, nem mos prestimosas que
lhe tomassem do peixe e o amanhassem, e fossem depois leval-o ao fogo do
brazeiro. Em toda a parte, e especialmente no Japo, estes sentimentos
intimos d'alma,--jubilos de pescador  linha e desalentos de
solteiro,--so bem justificaveis. Com effeito, para um temperamento
vagabundo e impressionavel aos enlevos da paizagem, como se d com todo
o japonez, quantos encantos no vo proporcionando a linha e o anzol,
induzindo-nos sem esforo a longos passeios de bohemio, penedos e praias
fra, contornando margens ziguezagueantes de ribeiras e enseadas, em
face dos scenarios serenos, todos verde, frescuras, espelhos de aguas e
murmurios... e como as horas vam, acocorado o corpo sobre a rocha, a
mo ora affeita, ora prendendo o isco, ora demorando-se em commovente
espectactiva, ora colhendo o peixe a estrebuchar; e o espirito voando,
como as horas, alheio ao officio, deliciando-se em sonhos, viajando no
reino das chimeras... Mas  noite, aps um dia inteiro de labuta,  que
o corpo se doe e falham os joelhos; e deve ento saber to bem chegar a
gente ao lar de esteiras e papel, e vir  entrada ajoelhar-se em
cortezias a figura gentil d'uma esposinha fresca, envolvida em sedas e
perfumes, com as mositas rosadas em posio submissa, as mositas to
habeis em crarem nas brazas as trutas saborosas...

Ora, um bello dia, o nosso homem, de quem a tradio no tomou conta do
nome, achava-se pescando segundo o seu costume, bambu em punho, e
meditando ao mesmo tempo sobre o seu desconsolo e desolada sorte,
quando... zaz! um grande safano na linha lhe fez logo imaginar que
alguma coisa fra do commum viera de colher. Por pouco se lhe no vo,
linha, e anzol, e peixe ao mesmo tempo; ento, com muitas manhas que so
proprias da arte, poz-se a canar a presa, j alongando o brao e
deixando-a debater-se a seu capricho, j aproveitando o repoiso para
traze-la  praia; at que emfim, azado o instante, puxou com fora, e
veio cair-lhe o peixe aos ps.

O peixe? o peixo!... Era uma _Ninguyo_, uma sereia; nem mais nem menos;
face de mulher, d'uma rara formosura, e um enorme corpo ventrudo,
alongado, escamoso, agitando barbatanas e terminando em amplo rabo, que
ento desesperadamente estremecia. Face de mulher de uma rara
formosura,--disse-o eu, e no me engano:--esse contorno doce de oval, de
_urizanegao_, de pevide de melo, to querido em esthetica japoneza; os
bastos cabellos negros fluctuando em coma; a tez de jaspe; os olhinhos
de velludo; a boquinha escarlate. Mas chorava, a sereia, em contraces
de angustia; chorava certamente pela dr, pois lhe rasgava a carne o
traioeiro anzol; e ainda mais talvez pela vergonha de vr-se assim
arrebatada do seu meio habitual, expiando um peccado de lambarice,
indefeza, nua deante d'um estrangeiro!...

       *       *       *       *       *

O pescador porm era d'uma indole bondosa, como ficou notado um pouco
atraz; e vae-se agora ver como o provou. Comprehende-se,  claro, o seu
primeiro espanto: o homem punha as mos sobre a cabea, a esbugalhar os
olhos, e gaguejava no sei que exclamaes... Podera no! Acalmado,
sacou cautelosamente o anzol da bella face em sangue; e tomando nas mos
o estranho ser, poz-se a scismar maduramente sobre o caso. Ora, ia
pensando, se elle fosse correr as feiras todas, as festas dos mil e mil
templos do paiz; e alinhando a sua barraca com as outras, onde se
exhibem salamandras, crocodilos, creanas sem ps e sem mos, ces
sabios e muitas outras coisas, que abundantissima chuva de sapecas lhe
no cahiria em cima, quer dizer, dentro das mangas do
_kimono_!...--"Meus senhores, entrem todos! Quem no tem cabea, no
paga nada! Ora aqui est uma sereia authentica..."--e j ia estudando o
discurso que faria, soberbo, dominador, impondo-se  plebe embasbacada.
Ou ento, outra ideia: se elle comesse a carne da sereia, cosinhadinha,
feita em postas... e sabem todos que a carne da sereia tem virtude de
conservar perpetuas a vida e a juventude a quem d'ella provou... Mas a
sua indole bondosa revoltou-se afinal contra a lembrana de reter n'uma
tina, em exposio, ou peor ainda, de levar  degolla aquelle pobre
bicho, que sobre as suas mos se lamentava e desfazia em prantos, como
se fra uma pessoa; contemplou-o ainda, longamente; e com um nobre gesto
e decidido esforo, atirou a sereia s vagas, d'onde viera, e onde
mergulhou e desappareceu sem mais cerimonias, aps um acenar de rabo,
que poderia ser um adeus, um adeus e um agradecimento.

O nosso pescador voltou  sua faina. Consta que, n'aquelle dia
memoravel, o cabaz se lhe encheu de uma espantosa quantidade de tudo que
o mar d.  tarde, tornando a casa ajoujado com a carga, bailava-lhe nos
labios um sorriso, que provinha da boa pesca que fizera, e tambem da boa
aco que praticara.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Quando pela noite, na cosinha, mangas do _kimono_ arregaadas at acima
dos sovacos, avental sobre as pernas, celha ao lado, se dispunha a
preparar a sua ceia, ouviu que de fra, e junto  porta, uma fallinha
mansa lhe ia dizendo:--"D licena! d licena?"...--Corre o homem a
abrir a corredia, ainda com a faca da cosinha, e um carapau na dextra
adunca; e  luz frouxa d'um luar de quarto minguante, poude distinguir
um vulto de mulher em nada extraordinario, porm doce e cortez, que lhe
confessou ser uma viajante extraviada do caminho, sem casa e sem abrigo,
e lhe pedia poisada s para aquella noite.--Entre depressa, menina,
acode-lhe o sujeito, e venha partilhar do pouco que aqui tenho.--Ento,
dando-lhe entrada, conduzindo-a ao aposento das visitas, fel-a descanar
sobre a esteira, e junto do brazeiro, foi-lhe servido o ch
tradicional.--Muito obrigada.--O homem rogou-lhe seguidamente que
esperasse pela ceia, uma ceia de peixe por signal, que elle ia amanhar
sem perda de um minuto.--Permitte-me que eu ganhe o direito ao meu
quinho, ajudando-o n'essa lida?--Disse que no redondamente, que nunca
consentiria que os seus hospedes trabalhassem na cosinha. Em replicas e
treplicas, a rapariga assegurou-lhe que passara a vida toda, alm, da
banda do oceano (talvez filha de gente embarcadia? pescadora?) e que
ella conhecia as melhores receitas de cosinhar o peixe, no que at
muitas vezes, por passatempo, se occupava; e tanto ella teimou,--sabem
todos o que so teimas de mulheres!--que sempre foi levando a sua
vante.

O que  certo,  que nunca o pobre solteiro se lambera com to
deliciosas petisqueiras. Comeu a sua dose, repetiu, pediu terceira vez;
e dizia, a chuchar ainda as cabeas dos ruivos, que a pena que lhe
ficava, era de no lhe ser servida uma ceia egual, todas as noites. A
companheira observou ento modestamente, a meias fallas, que lhe parecia
no ir alm dos seus poderes, um tal desejo; e instada a explicar melhor
a sua phrase, accrescentou que era solteira, sem parentes, sem lar...
Comprehendida finalmente, o remate de to feliz encontro foi ella
consentir em ser a esposa do sujeito.

Antes, porm, impz as suas condies.--_Danna_, meu dono, eu tenho,
como disse, passado a vida pelo mar, e no posso prescindir do meu banho
de agua salgada ao menos uma vez cada semana; consente-me isto?--Elle
acenou que sim.--E jura-me (agora vo ouvir os pudores da
pequerrucha...) que me deixar banhar em paz, sem seguir-me, e sem
sequer espreitar-me?--Elle jurou que sim; e deu-se por feliz (j se ia
babando pela moa, o magano!) de, por to pouco preo, ver-se possuidor
de tal thesoiro.

Casaram. Bodas de estrondo; e viveram ditosos durante longos mezes. O
peixe, o prato querido dos nipponicos, foi smpre excellentemente
preparado pela esposa, activa, intelligente, a rir-se sempre. O pargo,
em fatias cruas regadas com molhos excitantes, era divino! As enguias
com arroz, uma delicia! O caldinho de ameijoas, superfino! As trutas
assadas sobre o lume, sem egual! E at uma certa caldeirada, assim como
quem diz  moda do Algarve, era de estalo, sem favor! E o marido
tornava-se anafado e luzidio, a testemunhar a toda a gente, pelo volume
e pelas banhas, que alguem olhava por elle com disvelo...

       *       *       *       *       *

Mas o banho? Melhor fra no fallarmos n'elle...

Ai que pandega que era esse tal banho!... Ella passava a manh inteira
preparando-o, afinando o appetite, podia-se dizer; e no banho se quedava
horas esquecidas, pela tarde. Depois, ajoelhada sobre a esteira,
espelhinho em frente, e em torno os cofresinhos mysteriosos, era a
interminavel tarefa de fazer-se bella, ora branqueando as faces, ora
avermelhando os labios, ora compondo o penteado. O esposo chegra mesmo
a esta concluso no muito lisongeira:--que a companheira mais queria 
agua salgada do que a elle;--mas perdoava-lhe,--outros ha que bem menos
innocentes caprichos vo perdoando...--e nunca a sombra sequer d'um
arrependimento viera turvar a paz do seu viver.

Uma bella tarde,--tarde de banho por signal--chegou o homem a casa, e,
como se diz em portuguez... cheio de fome.--Tardar muito para a ceia?
resmungava. Ir o banho em meio ou em principio? A esposa,  claro,
achava-se invisivel, e com a portinha fechada a sete chaves; mas casas
japonezas so casas de papel, e uma fenda, um rasgo, convida-nos a
enfiar os olhos para dentro. O caso  que elle espreitou. Surpresa!
Horror!... No  uma mulher, mas uma sereia, que se banhava, melhor
dizendo--que nadava, em demoradas circumvolues de regalo ao longo da
tina, agitando mansamente o rabo e as barbatanas, e cantarolando
baixinho canes do mar, canes das praias...

Pobre marido!--Ah! canta-me assim, exclamou elle, canta-me assim,
grande mostrengo!... Agora percebo eu as tuas habilidades em lidar com
peixes,--lidas com os teus parentes, grande mostrengo!...--Melhor fra,
sem duvida, que eu nunca te conhecesse em tal estado, em tal nudez; mas,
feito o mal, quer-me parecer que nunca mais poderei tragar com appetite
os teus guisados, intrujona...

A porta, abriu-se ento e appareceu a esposa. Chorava, cahiam-lhe as
lagrimas a punhos; chorava mas digna, resignada, lia-se-lhe no olhar uma
resoluo fatal. Fallou assim, ajoelhando:--_Danna_, meu dono, foi a
sua benevolencia para mim, um dia, extrema, tirando-me das aguas,
podendo fazer da minha vida o que quizesse, e salvando-m'a. Trouxe-me
aqui um dever de gratido: julguei com a minha presena poder amenisar a
sua soledade, servindo-o como escrava. Deu-me o nome de esposa. A minha
gratido ser eterna. No entretanto, acabando de ver-me assim na minha
forma verdadeira, um bicho, um monstro que mette medo a toda a gente,
comprehendo que a misso que tomei chegou ao termo. Estala-me o corao,
mas pouco importa!... _Danna_, meu dono, adeus. Do ceu lhe chovam
benos...--E correu para a praia e desappareceu nas ondas.

Pobre marido!... Por um acto inpensado, perdeu para sempre uma
companheira carinhosa; e, como das nupcias com a sereia lhe resultava o
dom de longa vida, foi longa a sua viuvez, e longo o seu martyrio...

A fabula, segundo observa, e com criterio, o auctor japonez que
consultei a tal respeito, offerece duas lies de alta moral. Uma 
esta: a mulher que pretenda conservar um bom marido, deve captival-o
pela barriga, isto , pelo esmero do seu repasto; parecendo averiguado
que o estomago  o orgo mais sensivel, e porventura o mais grato, do
homem, o rei da creao. A outra lio  a seguinte: o marido que deseje
manter a harmonia do seu lar, nunca interfira na toilette intima da
consorte; porque, isto de damas,--com sua licena,--todas l tem o seu
rabo, ou escama, ou barbatana, coisa emfim que melhor  no seja
conhecida, em proveito dos dois, e em conformidade com o codigo inedito
do amor, capitulo _Illuses_, artigo... esqueceu-me agora o artigo, meus
senhores.

                                                               1899.




O CAVALLO BRANCO DE NANKO

                                                     A Carlos Campos


Isto aconteceu ha cerca de mil annos, em terras japonezas: um cavallo,
que o grande artista Kanaoka desenhra n'um biombo do templo de
Ninnadji, perto de Kioto, era uma to bella creao, cheia de verdade e
palpitante de vida, que todas as noites se escapava do papel para ir
galopar pelos campos em roda, culturas fra, devastando a esmo as
sementeiras; e o caso dava-se, claramente, com magno espanto e raiva dos
camponios, que o perseguiam  pedrada. Estes camponios, impressionados
pelas frmas incomparaveis do animal, persuadiram-se por fim de que elle
no podia ser outro seno o cavallo de Kanaoka; e a persuao
converteu-se um dia em certeza absoluta, quando viram na pintura as
patas do travesso, humidas ainda da lama fresca dos caminhos. Sem mais
cerimonias, arremetteram contra a tela e esfuracaram-lhe os olhos; e
consta que nunca mais houve queixas de estragos nas fazendas.

[Figura]

Ainda outro cavallo de Kanaoka, que era mestre no genero, cavallo
desenhado n'uma parede interior do palacio imperial, tinha o vezo de ir
devorar pelos jardins as flores tenras do aafro; e s cessou a
brincadeira quando alguem se lembrou de retocar a obra, amarrando o
patife  parede com um pedao de corda pintada para o effeito.

       *       *       *       *       *

Ora bem. De muitas maravilhas  sem duvida capaz a mo inspirada d'um
artista!... Esses dois cavallos de Kanaoka, nascidos d'uma gotta de
tinta e de algumas curvas humoristicas de pincel, mas em todo o caso
ungidos do sopro sublime do eximio mestre, animavam-se por momentos,
soltavam-se da tela, e ahi iam elles!... Felizes bohemios eram e felizes
tempos eram. Arte creadora, arte radiosa das epochas passadas, porque
no vaes tu regendo, ainda e sempre, os destinos de todas as coisas
d'este mundo?...

N'estes dias que correm, deslavados e tristes, mesmo no Japo, e no
cessando de divagar no mesmo assumpto de cavallos, confesso francamente
a quem me lr, que nada me mortifica tanto como o espectaculo dos
cavallos sagrados dos templos shintoistas. Ora aqui esto umas
cavalgaduras bem authenticas, bem vivas, bem reaes, de carne e osso; e
que, se fossem lidas em coisas de arte antiga nacional--mas no
so,--por certo muito invejariam as simples creaes no papel da mo de
Kanaoka. N'este paiz japonez, onde parece que os seres, homens e bichos,
nasceram e vivem n'um banho perenne de sorrisos, mais desoladora se
afigura ainda a condio dos pobres brutos, que um dia inspiraram estas
linhas melancholicas que escrevo.

[Figura]

Se pretendo ser de certo modo comprehendido nas divagaes que vo
seguir-se--e  obvio que pretendo,--convem que me detenha um pouco,
fallando de templos shintoistas em geral. O shintoismo, da palavra
_shinto_ (a estrada dos deuses),  a crena primitiva, patriarchal, das
epochas remotas no Japo; e conservada at hoje, a despeito da grande
propaganda de Buddha que se fez e se faz,  ainda a religio nacional, a
religio do Estado. O shintoismo  a adorao pelo sol, pelo Imperador
seu filho, por todas as foras da creao, pelas divindades protectoras,
pelos genios, pelos nobres, pelos heroes e pelos sabios. O templo de
shinto  o recinto consagrado a uma d'essas invocaes. Distingue-se
antes de tudo pelo _torii_, o grande arco de pedra ou de madeira
avisinhando do logar, e como que indicando o caminho ao peregrino.
_Torii_ quer dizer _descano dos passaros_; e assim ficamos j com uma
noo primeira e delicadissima na essencia, aprendendo que no campo
sagrado tudo  paz, tudo  remanso, pois que at aos pardaes, canados
dos vos doidos que fizeram  aventura, se offerece um poleiro protector
onde descancem. Ao _torii_ succedem-se o amplo portal e o vasto espao
murado; e l dentro, symbolos, alfaias d'uma religio toda de amor, so
a paisagem graciosa, os jardins verdes, os bosques frescos, as rochas
musgosas, os lagos quietos; aqui  a cisterna destinada s ablues
preliminares dos crentes; alli so as monumentaes lanternas de granito,
esverdeadas pelos annos; alm o nicho escarlate votado a Inari, raposa,
Deus do arroz, no sei que mais, em todo o caso coisa muito santa;
depois as construces ligeiras, de madeira nua, dispersas, e onde em
dias festivos as donzellas do culto danam ao som de estranhos
ritornellos, ou silenciosos officiantes abenoam as multides, agitando
sobre as cabeas reverentes um penacho de papel branco, emblema de
pureza.

[Figura]

Nos templos mais faustuosos, no faltar outro accessorio: o nicho
garrido, a pequenina estrebaria, onde o cavallo sagrado mastiga
eternamente a insipida palha do seu officio. O deus, ou genio do templo,
tem o seu cavallo de estado;  justo.  geralmente um cavallito albino,
de pello branco e olho azul celeste, talvez porque se ligue uma certa
ida de candura a tal enfermidade. O deus serve-se d'elle como entende;
alguem, a quem pergunto informaes do cargo, diz-me que  o _ tsukae
mono_... assim como quem diz: _o nobre moo de recados_. Admittamos pois
que faz em regra os recados do deus, o que  j muito, e um alto mister,
e por isso  sagrado e tem honras de santo; e em lances difficeis, mais
distinctos sero ainda os seus servios. Ardeu ha mezes um dos mais
famosos templos do Japo, em Yamada; no sei que coisas do culto foram
depois encontradas ao abrigo e longe do sinistro;--foi o cavallo que as
transportou para l.-- voz do povo que em Osaka, em dois templos de
shinto, desappareceram os cavallos quando rebentou a ultima guerra com a
China;--est-se mesmo a perceber que as almas d'esses deuses montaram
nos ginetes para irem aos campos do inimigo, abenoar as tropas de
Nippon.--Taes casos, porm, so raros, so rarissimos, n'esta epocha
positivista, to escassa de milagres; e os cavallos brancos sagrados
vivem e morrem amarrados  mangedoira, passeando uma s vez em cada
anno, no dia da festa do templo, encorporados ento triumphalmente 
procisso, que percorre as ruas da cidade.  o encerro absoluto,  a
constante immobilidade tediosa, sem mesmo as furtivas escapadelas dos
cavallos pintados de Kanaoka. A palha abunda-lhes; acercam-se d'elles as
creanas e as mulheres, que os adoram, e compram  velha, que por alli
est cerca do estabulo, montinhos de feijes cozidos, que offerecem
sobre as palmas das mos rosadas, aos focinhos nostalgicos dos rocins.

       *       *       *       *       *

Eu conheo uns poucos d'esses brutos, mas tenho mais intimas relaes
com o de Nanko, um templo aqui em Kobe, celebre, dedicado  memoria de
Kusunoki Masashige, que foi um nobre guerreiro e patriota.

No amplo santuario do templo estabeleceu-se uma feira permanente, dia e
noite, mas principalmente de noite, atractiva e frequentada por
passeantes e devotos. A vida inteira japoneza passa, perpassa aqui; quem
j folheou os albuns de desenho de Hokusai, e n'elles se interessou,
deve depois votar horas inteiras a esta historia viva e flagrante do
povo de Nippon; e assim completar, quanto possivel, a noo que haja
formado d'este povo, um dos mais interessantes, e o mais sympathico
talvez, do mundo inteiro.

[Figura]

A gente afflue de toda a parte, d'aqui, d'alli, d'alem... Junto ao
portal, condensa-se o formigueiro humano, em centenas, em legies de
cabecinhas; a pouco e pouco, sedas roando sedas, risos correspondendo a
risos, vae-se entrando, ao som d'um continuo ruido de sccos e
sandalias, que se arrastam pelo lagedo resonante. Na escurido da noite,
o recinto define-se a principio como um negrume vago, complicado de
sombras de arvoredo, cheio de gente e de myriades de luzinhas
bruxoleantes. Depois os olhos habituam-se. Vae por ahi fra, direitinha
ao templo, a grande rua principal, bordada de arvores varias, lageada;
pelos lados espraia-se o labyrintho das passagens, por entre os
alinhamentos das barracas, das tendas, das quitandas, armadas de
improviso, estiradas pelo cho; e ,  luz frouxa das lampadas, a
exposio phantastica das cres, chispando em disparates como n'um campo
immenso de kaleidoscopo, correspondendo s mil industrias que se
estendem... Roupas, perfumarias, livrinhos, bocetas, chares,
porcellanas, cachimbos, ferramentas, utensilios domesticos, bolos,
brinquedos, flores, plantas, tudo: a industria inteira do Japo, se
condensa, coalha em museu. Alem algumas _chayas_ vendem refrescos; as
creadinhas convidam a turba a que se acerque. Mais longe, so os
theatros populares, um cobre por entrada:--ces sabios, athletas,
abortos, serpentes, panoramas;--ou a sala do _hanashi_, da palestra,
onde um patusco entretem os freguezes, contando-lhes historias. N'um
espao mais livre, um sujeito com um graphophone, um dentista, um
inventor de remedios milagrosos, discursam, explicam, prophetizam.

[Figura]

O formigueiro humano ondula, alastra se, sem designio,  aventura. As
sociedades occidentaes nada nos offerecem de parecido. Isto, aqui,  a
multido, sem pressas, sem gritos, sem exasperos, tal como nol a
apresentam todas as grandes tribus do Oriente;  o cardume de gente,
retida na praa publica como o sargao em mares tranquillos; aqui,
quadro requintadamente gentil e sorridente, inconfundivel, mas que ainda
nos recorda as agglomeraes da plebe nos templos de Canto ou nos
bazares de Aden, ou do Cairo; e, subindo nos tempos e retrogradando em
espirito vinte seculos, quasi nos desdobra aspectos vividos, embora
fugidios, da Jerusalem biblica, nos seus magotes de homens vestidos de
tunicas rojantes, vagueando, palestrando de manso, alongando os braos
ns em gestos calmos e solemnes.

Querer inventariar os typos, fra insania,-- a massa inteira popular
despreoccupada, risonha, gosando de viver.--Passam familias,--o pae, a
me, um filho preso ao seio e os outros pela mo;--ranchos de soldados e
ranchos de marujos; ranchos de raparigas; moos, alguns indo caminho do
bairro dos prazeres, Fukuwara, que est perto; peregrinos; mendigos;
vadios; larapios; extrangeiros. Os garotos assopram nas trombetas que
compraram, ou mordem em bolos ou em fructos. Aquella _musum_ fresca,
vestida apenas do seu _kimono_ de vero, azul e branco, j vae de volta;
e leva dependurada das mositas uma gaiola em miniatura, cheia de
reluzentes pyrilampos. Uma velha rejubila com o vaso de bellos lirios
que mercou.  aqui em Nanko, no mercado especial das plantas, que se
revela bem o mimo d'esta gente em jardinagem,--delicados arbustos,
havendo merecido longos disvelos de cultura, seleco graciosa de
florescencias;--e  de ver-se o afan na escolha, o brilho dos olhitos
cubiosos, dos grupos em roda da exposio dos pinheirinhos, das
cerejeiras, dos bambus, dos chrysanthemos, dos lirios, da wisteria.--O
espirito simples, o desejo facil de contentar, a puerilidade quasi
infantil, estampa-se em todos esses rostos, e dom gentil da mo
industriosa, resalta de todos os artigos. Quem tiver duas moedas de
cobre na bolsinha--e todos as tero,--pde comprar um objecto de arte;
compra-o sem duvida, e no jubilo da face transparece a alegria plena
d'uma alma satisfeita. D'essa manifesta innocencia de sentimentos,
d'essa psychologia alheia de complicaes e de tormentos, deve em rigor
deprehender-se uma superioridade de raa, uma animalidade esplendida e
exhuberante, muito distanciando-se da vibratilidade morbida das raas
exhaustas do Ocidente; e  isto que vagamente se adivinha na esbelteza
dos vultos que vo passando, na flexibilidade harmonica das curvas, no
jogo pathetico da mimica, na confiana serena com que o p dominador
poisa no cho. Feliz povo! Feliz povo de hontem, de hoje, e
possivelmente de amanh... No  outra a concluso sincera do nosso
exame passageiro.

       *       *       *       *       *

No entretanto, a um canto, no estabulo garrido, boceja o cavallo branco
sagrado de Kusunoki Masashige. Por velha sympathia, procuro-o sempre, e
passo quasi horas inteiras, a vl-o, a namoral-o. Quantos annos ter de
sacerdocio? Dez annos? Quinze annos?... No lhe despertam zanga nem
prazer as minhas visitas repetidas. Cabea baixa, o olho azul mortio,
parece nada querer, nada sentir, nada soffrer e nada desejar.  quasi de
papelo,  fora de insipidez, o garranito. Ao burburinho,  luz, s
cres, s musicas distantes,  insensivel. Ao bello verde do arvoredo 
insensivel; pelos modos, no se recorda j das paizagens por onde
espinoteou... O seu olho azul-celeste, vitreo, provavelmente myope,
relancea com a mesma apathica frieza, as mil scenas do acaso;  gente
que o encara,--ral da praa publica, garotos, cavalheiros, acaso um
general, acaso um conde, acaso um inglez de nobres pergaminhos,--vota a
mesma indifferena irreverente que s moscas importunas que poisam, por
enxames, sem que o commovam, na mucosa descorada da sua pobre
focinheira. S uma vez, presumo, o vi enternecido: relinchava uma egua
algures, longe sem duvida; levemente se lhe agitaram as orelhas, como se
uma vaga reminiscencia, penso eu, pelo bestunto lhe corrra; e
pareceu-me ento vr o seu olho azul-celeste arrazar-se de lagrimas,
pareceu-me... s vezes, avana de bom grado a lingua, a ir lamber as
mos das raparigas; por capricho talvez, e por habito, porque so
aquellas mos que costumam offerecer-lhe, como obulo piedoso, os feijes
cosidos comprados  velhita que por ali anda, proximo do estabulo...

Eis todo o seu romance.

       *       *       *       *       *

E mais nada. Disse tudo. Se alguem, por mais curioso, quizer ainda
arrancar-me o segredo d'esta minha estranha sympathia pelos cavallos
sagrados dos templos de shinto,--tanto mais estranha sympathia, quanto 
certo que no me accusa a consciencia de jmais ter pertencido a
qualquer sociedade protectora de animaes,--aqui lhe offereo, a esse
alguem, a seguinte estupenda confidencia. No Japo, se no erra o meu
juizo, s os cavallos dos templos so tristes. Elles, e eu. Ha entre ns
mysteriosas analogias; no gracejo. Aps longos estudos da propria
carcassa, acabo de concluir--imaginem o qu!...--que tambem sou albino.
No pela anomalia congenita da falta de pigmento corante da pelle, dos
cabellos e dos olhos, concordo; albino psychico porem--no sei se me
fao perceber...--albino na alma dolente, na vibratilidade exangue, na
apathia da vida, aps os mil baldes da sorte, e desfeita no ar a ultima
bola de sabo das minhas illuses. Do meu poiso, que comparo sem grande
esforo ao estabulo de Nanko, assisto ao contorno das scenas e ao
perpassar da turba; mas alheado de tudo, e esquecido at das saudades da
paizagem serena onde vivi os meus primeiros annos. Alvoroos de
affectos? amores? fazem favor de me dizer para onde fugiram essas
chimeras aladas da minha pobre juventude?... Quando muito, como o
cavallo de Nanko, mas ainda mais desinteressado do que elle, porque me
sinto naturalmente excluido do quinhosito de feijes que pode
seduzil-o, quando muito, se deviso essas _musums_, com as suas mositas
muito alvas, muito mimosas, tenho por essas mos, vagas ternuras: aqui,
n'este meio onde me vejo, so-me ellas o emblema dos carinhos do sexo
delicado; e incutem no meu espirito uma noo de paz possivel,--aqui,
algures, no sei onde,--no lar da familia, quando abenoado pelos
fados...

[Figura]

                                                               1899.





A PRIMEIRA FORMIGA

                                                 A Sebastio Garcez.


 parte esta dedicatoria especial,  s formigas e aos sabios--Deus no
permitta que ellas, ou que elles, tomem a mal o parallelo--que eu
offereo as revelaes que vo seguir-se, nas quaes se explica, aps
longos preambulos, como  que a primeira formiga veiu ao mundo.

Quando na China, pela era do imperador Tai-Sun, as terras andavam
divididas pelas mos de muitos monarchas irrequietos, envolvidos em
continuas batalhas e baralhas, deu-se um caso no ceu, digno de
particular ensinamento. Acontecia que uma certa deusa do Olympo--Lei-San
era o seu nome--nunca ia dar o seu (passeio pelas nuvens, imagino) sem
se esmerar em demorados arrebiques, em meticulosas pinturas de cutis,
das sobrancelhas e dos labios. Pieguices do sexo, desculpaveis, e at de
certo modo meritorias; mas o caso motivou, certo dia, um risinho
malicioso da sua serva mais querida, e ainda por cima este commento
pouco respeitoso:--A deusa tem pelos modos algum defeito no seu rosto,
e cuida de escondel-o  fora de cosmeticos...--Vo l chasquear
impunemente dos encantos d'uma dama! e quando ella fr divina...  certo
que to cheia de cholera ficou a divindade, que vestiu a deliquente
d'uma pelle diabo que encontrou a geito, pelle horrivel, cara azul,
ruiva a guedelha, dois dentes curvos surdindo da bocca para fra, e mos
e ps disformes; e assim, n'esse bonito estado, a escorraou do ceu, aos
belisces, e a enviou ao mundo em expiao. Chamava-se Tchong-Mou-In, a
penitente.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Tai-Sun, empenhado em pellejas, e mortificado por innumeras derrotas,
teve uma noite um sonho radioso, difficil de explicar. Consultado sobre
o caso um lettrado favorito, ano por signal e muito feio, mas um poo
de sciencia, elle disse ao soberano, aps magnos processos de magia, que
o sonho revelava que os deuses lhe haviam destinado certa dama por
esposa, forte de genio e habilissima na guerra, a quem mais tarde se
deveria a salvao do estado.

O ano dispunha-se a proseguir, depois de curta pausa; mas no quiz mais
ouvir o imperador; e eil-o cavalgando o ginete dos cortejos, em pompas
de comitiva festival, dirigindo-se para onde vivia a sua bella, conforme
as indicaes do anosinho. Atravessa povoados, galga montanhas, desce
valles; va, no corre, sua magestade; va nas azas da esperana,
pula-lhe o corao em mil anhelos; e assim foi dar com Tchong-Mou-In.

Imagina-se a scena. No ha palavras que descrevam o desapontamento do
monarcha. Tremulo de indignao, rompeu logo em iras e em blasphemias;
pela mente, passaram-lhe de subito processos de torturas a exercer; e
d'um gesto esporeou a alimaria, no intuito de regressar ao seu palacio.
Ah! mas o soberano no contava que a dama, que a principio o recebera
com doces humildades de etiqueta, que a dama, expulsa embora do ceu e do
convivio dos seus deuses, ainda d'elles auferia benevolentes proteces.
A dama, n'um esgar provocante da sua face azul, arreganhando os dentes e
estendendo solemne a mo papuda, conteve d'um aceno suggestivo a furia
do cavallo, e vomitou ao cavalheiro, severos vaticinios. Gritou-lhe que
havia de casar com ella, se no quizesse alli ficar eternamente quedo;
gritou-lhe que havia de recebel-a como imperatriz, e que ao seu brao de
mulher, astuto e vigoroso todavia, teria de confiar altas emprezas.
Emfim, para encurtar razes, e apressar o fim da historia, direi que o
imperador desfez-se em cortezias e desculpas, venceu-lhe o asco e o
medo, e tudo prometteu. No tardou que aquelle monstro feminino lhe
entrasse pela casa, rude e plebeu, endiabrado, dispensando cerimonias,
transportando ella propria s costas o enxoval--dois cabazes, uma
thesoira, um espelho, um pente, uma vassoura, uma bacia de lavar o
rosto,--utensilios que, desde ento at hoje, como que ficaram
consagrados, symbolisando do lar domestico o nucleo indispensavel.

       *       *       *       *       *

Tres mezes, consta, esteve o imperador alheio  convivencia da esposa,
prolongando-lhe por esta forma uma castidade fastidiosa, com que ella
provavelmente, no contava. Paciencia. Por vezes, na fria intimidade dos
sales, procurou desprestigial-a aos olhos dos vassallos. Diz-se que um
dia, reunidas a esposa e a concubina favorita, uma aposta se fez, sobre
qual das duas, em escripta, mais habil se mostrava; e para isto se
combinou contar quantos caracteres eram ellas capazes de escrever no
tempo necessario para arder de um pivete perfumado, que alguem foi
collocar sobre uma urna proxima. Do lado da favorita, cuja cultura
litteraria  primorosa, esto o imperador (o basbaque!) e dois validos;
do lado da soberana, apostam tres lettrados, e um d'elles  o ano.
Eil-a, a amante, interessada vivamente no certamen, toda olhos, toda
atteno, toda adoraveis fernesis dos seus bellos dedinhos cr de leite,
que empunham o fino pincel, e correm febrilmente sobre o papel que lhe
trouxeram. A soberana, o mostrengo (perde-se-me o qualificativo que me
occorre), face azul pousada nas manapulas, dedos disformes enfiando pela
trunfa ruiva, olho impassivel e matreiro, relanceia, aparvalhada e
immovel, a scena, e os espectadores. Sobresaltam-se os lettrados, que
adivinham, n'uma eminente surriada, o desprestigio proprio no conceito
do monarcha.--Senhora, segredam, por piedade, decida-se a
escrever...--A bruta no os escuta. Repetem se, multiplicam-se as
instancias; at que finalmente, attendendo a tantas supplicas, diz
ella:--Vo buscar aos meus aposentos um pincel.--Voam escudeiros,
volvem breve:--No se encontra, Senhora!--Ella indica que est junto
d'um armario. Os vassallos replicam:--Perdo, no est; o que est 
uma vassoura...--Ento berra a soberana:--Pois  isso mesmo, seus
patetas!--E tomando da vassoura, e ensopando-a n'uma mixordia de tinta,
de que mandou encher a bacia que trouxera no enxoval, isto quando o
pivete ia chegando j ao termo, com a vassoura lambusou um enorme papel,
d'um gesto apenas; e por milagre,--que s assim se explica tal
portento--appareceram nitidos, sublimes, mil e mil caracteres da mais
adoravel forma caligraphica.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Na guerra, dirigindo ella mesma, em pessoa, a turba dos guerreiros, foi
colhendo victorias e engrandecendo os seus dominios. Nos ardis, um
primor.

       *       *       *       *       *

Uma vez, convidados, imperatriz e imperador, para um banquete de
monarchas, com os quaes andavam de guerrea porfiosa, um dos nobres
apresentou aos convivas um enorme macaco que possuia, mono astuto nos
seus modos de selvagem, e eximio n'um jogo ento em moda, semelhante ao
gamo dos nossos tempos.--Senhora, ides jogar tres partidas com este
mono; se a ultima ganhardes, so vossas, nossas terras; se a
perderdes... percebeis-me?--Trava-se o jogo em que a imperatriz no era
forte, pouco affeita a prendas de salo, e sendo notorio que nos ceus,
onde passara a juventude, o jogo  prohibido. Coragem!... Primeira
partida: ganha o mono. Segunda partida: ganha o mono. Tchong Mou-In
desfalece em intimas angustias, julga-se perdida, quando ento se lembra
de invocar os deuses. A sua divina ama, que nunca a abandonra, despede
do ceu um aviso visivel s para ella:--Toma este fructo; esconde-o na
manga da cabaia, de modo que apenas o macaco d f d'elle, e joga
resoluta.--Terceira partida: o mono dando vista do acepipe, banana ou
coisa parecida, estremece de desejos; o trazeiro, onde parece residir a
alma dos macacos, pula-lhe em sobresaltos, em anhelos, sobre o assento
da cadeira; e com a dentua arreganhada, o olho em braza, em arco as
espessas sobrancelhas, o bestunto por certo desvairado, balbucia
gritinhos repetidos--eh, eh! eh, eh!--que irritam os convivas. A mosita
felpuda ainda vae mexendo as pedras, por habito, por dever, mas sem
arte, sem intuito; e a razo foge-lhe, abandona-o--to imperativa  a
lambarice n'estes figures da fauna comica!--E perde a partida decisiva!

Um parenthesis na historia. Dizia-me ha dias um companheiro de desterro,
dos raros com quem logro palestrar:--Ora vja voc quantos macacos ha
por este mundo, de gravata, e casaca, e rosa na carcella, quando no 
uma commenda, astutos no gamo e n'outras prendas varias, quasi
attingindo as alturas da audacia e do triumpho; n'um momento fatal, uma
banana qualquer, mostrada a geito, desnortea-os, allucina-os,
aniquilla-os... E que, por mais que faam, so macacos, embora a cauda
se no vja, de certo occulta nas ceroulas, e ninguem ha que possa
purgal-os, expurgal-os, do sangue dos avs...

       *       *       *       *       *

Continuo.

Uma das mais bellas faanhas que illustram a gloriosa mulher, se mulher
, de quem me occupo,  a seguinte. Travava-se ento renhida a lucta
pelas armas, entre varios soberanos, j com enfado de vencedores e de
vencidos. Tai-Sun ia levando a melhor nas investidas. Eis que os reis
desbaratados, unidos em conluio, julgam ir pr termo a to irritante
situao, e muito em seu proveito, propondo ao imperador um curioso
problema.--No nos faaes a guerra. Aqui tendes uma perola, arrancada
d'um annel; notae que tem dois furos esta perola, communicando entre si
interiormente por um labyrintho de nove canaesinhos; se conseguis
apresental-a enfiada n'uma linha, juramos-vos a paz e a entrega por
inteiro de tudo que hoje  nosso.

Irra! Em que apuros se viu o bom soberano em caso to difficil!... Os
conselheiros ficaram-se calados, macambuzios, e nada aconselharam. Foi
ento impingindo esta questo  esposa, elle, que a no beijava, nem lhe
queria, mas que em assumptos escabrosos s n'ella tinha f.
Tchong-Mou-In recolhe-se, implora os deuses. A sua divina ama envia-lhe
ento do ceu uma formiga, a primeira formiga que veiu a este mundo; e
manda a verdade que se diga que essa formiga prehistorica era um nadinha
differente das formigas contemporaneas, menos esbelta nas formas, mais
bojuda. Tchong-Mou-In comprehende o precioso auxilio: ata uma linha a
meio corpo do bichinho, leva-o assim junto da perola, junto d'um dos
seus furos, por onde se v forado a enfiar, no tardando que surda pelo
outro, arrastando a competente linha atraz de si.  a gloria!...

E no reparam hoje na delicadeza da formiga, leve a cintura, como a
cintura d'uma dama espartilhada? D'antes no era assim. Consigna-se o
facto como indicando ainda s geraes presentes uma maravilhosa herana
atavica, a impresso do n com que a linha se prendia e apertava a
primeira formiga, a formiga lendaria, a me de todas as formigas que
hoje passeiam sobre a terra.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Nada mais sobre o insecto. Poucas palavras apenas pelo que respeita 
soberana. Lei-San, a sua divina protectora, perdoou-lhe finalmente o
passado sorriso de motejo, que valia uma injuria; despiu-a da pelle
monstruosa que lhe dera, por expiao do seu peccado, restituiu-lhe a
peregrina belleza que lhe era propria... O imperador, antes que a
consorte volvesse aos seus labores divinos, poude vl-a, e por longos
annos, no completo esplendor dos seus enlevos. O imperador, que j lhe
tributava incondicional venerao, graas aos seus prodigios, que tanta
ventura lhe trouxeram, e prosperidade ao imperio, poude ento tambem
amal-a, amal-a apaixonadamente, embevecido em tanta graa, em tanta
formosura. Imagine quem quizer como quelles amorosos as horas iriam
correndo encantadoras, na serenidade mysteriosa do palacio, cingido por
muralhas de marmore, e rodeado de jardins, e no afan de festejarem
aquella lua de mel, tardia embora, que lhes apparecia no horisonte!...

                                                               1899.




OS DIABOS E OS VELHOS

                                                      A Nuno Queriol


Falla a lenda japoneza.

Era uma vez um velho, que tinha um enorme lobinho sobre a cara, na face
por signal. Certo dia, achava-se elle na montanha, a cortar lenha--era
esta a sua humilde profisso,--quando o surprehendeu uma terrivel
tempestade, chuva a potes, ventania desabalada, o raio faiscando nas
alturas; to terrivel, que se viu obrigado a ficar por aquelles sitios e
a buscar um abrigo para a noite. Abrigo, na floresta, era difficil
problema; um grande tronco de arvore, escavado pelos seculos,
offereceu-lhe a unica guarida.

No seu posto, agachado e sem poder dormir, foi o velho passando tristes
horas. Alta noite, principiou a dar razo d'um estranho vozear, longe a
principio, mas pouco a pouco avisinhando-se-lhe--Ol, resmungou, tanta
gente por aqui, e eu que contava achar-me s?...--E pz-se a espreitar,
curiosamente, sem sombra de receio.

[Figura]

O que o velho ento viu, muito a custo,  luz fugidia dos relampagos,
mal pde imaginar-se. Uma numerosa sociedade approximava-se; mas nunca
ao velho apparecera to estranha sociedade como aquella. Era um bando
immenso de patuscos, de diabos incontestavelmente, medonhos nos
aspectos: uns, encarnados, vestidos de _kimonos_ verdes; outros, negros,
vestidos de _kimonos_ encarnados; a um faltava um olho; a outros o
nariz; alguns no tinham bocca. Pozeram-se a accender uma fogueira
enorme, com palha, com folhas, com cavacos que encontraram; e as chammas
sinistramente os patentearam. Acocorados em torno da fogueira, em duas
filas, bebendo _sak_ em amigavel reinao, pareciam mesmo gente, os
taes demonios. A vasilha ia passando  roda, de garra em garra, entre os
convivas; e tantas voltas deu, e renovada tantas vezes foi, que j no
tinham conto as bebedeiras. Um dos mais jovens assistentes ergueu-se
como poude, e comeou uma cantiga, danando ao mesmo tempo; os outros
imitaram-n'o. Era ento extremamente emocionante a vista da paizagem: a
fogueira, ateada pelas rajadas successivas, alastrava-se e subia,
furiosa, at s nuvens, em turbilhes de fumo e labaredas, e ia
alumiando diabolicamente a scena inteira--ramarias de bambus e de
pinheiros, profundezas de bosques, penedos gottejantes, torrentes
espumosas, e ainda a turba immensa dos diabos esbravejando em mimicas
atrozes--Uns rodopiaram em vertiginosas piruetas; outros iam gravemente
alando a perna e ensaiando minuetes; outros, immoveis, ou antes
querendo assim quedar-se, ondulavam em bordos grotescos de borrachos; e
de colina em colina os echos repetiam os torvos descantes em falsete, de
mistura com as lamentaes das arvores aoitadas pelo vento, e a salva
de artilharia dos troves. Berrava uma vz esganiada: Que grande
reinao! mas bem quizera vr mais alguma novidade!...--

       *       *       *       *       *

Mettido no seu esconderijo, o rachador de lenha passou por todos os
tormentos que o espanto, o susto e o desamparo juntos produzem no animo
d'um velho. Por fim, passadas horas, ia j folgando na festa--ou no
fosse elle japonez!--e tal poder teve sobre elle a bambochata, que lhe
venceu escrupulos e temores, e o levou a esta resoluo
formal.--Matem-me embora estes diabos, se quizerem, mas pretendo tambem
ir pandigar!--Surdindo ento da tca, barrete enfiado at s orelhas,
machadinha suspensa da cintura, ei-lo a reunir-se  malta, a dar as
boas-noites e a ensaiar passos de dana. Foi agora a vez de se
espantarem os demonios; mas to comico era o velho, no seu pobre
corpinho corcovado, avanando em meneios, e recuando aps, e virando-se
para a direita em cortezias, e voltando-se para a esquerda em
reverencias, e traando no ar, com o p descalo, estupendas parabolas
coreographicas, que desataram todos em rista, gritando:--Viva o velho!
muito bem! que bem dana o velho!--E proseguiram depois, n'este
proposito:--Queremos que tomes sempre parte em nossas festas, por seres
mui reinadio; mas, como pde acontecer que no pretendas voltar mais,
vaes deixar-nos um penhor de que aceders a este convite.--

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Consultaram-se entre si, e decidiram da consulta, extrahir-lhe o
lobinho; muita gente do povo,  notorio, considera este achaque como um
valioso talisman para ser-se afortunado. Eil-os pois, olhos attentos,
braos ns, dedos palpando, lancetas e tenazes em aco; e o velho
estendido sobre o solo, um segura-lhe uma perna, um outro a outra, outro
prende-lhe os braos, outro delicadamente ampara-lhe a cabea; e
sairam-se do caso com limpeza, no causando a menor dr ao paciente.
Depois, fram guardar o lobinho n'um estojo.

Quando, sereno j o tempo, rompeu a madrugada, uma bella madrugada cr
de rosa, e os pardaes comearam a papear nas ramarias, desappareceu
ento a malta dos demonios. O velho desceu  sua aldeia. Entrou em casa
muito contente, ainda um tanto estonteado da bebida, sem o lobinho 
claro, com a sua face muito lisa, sem o minimo defeito. O caso
maravilhou com razo a companheira, e a gente conhecida. Ia-se servindo
o ch pela familia e pelos curiosos que accorriam, sobre a esteira,
junto do brazeiro; e era uma chuva de exclamaes e de perguntas, que
obrigaram o velho a explicar, nos seus detalhes surprehendentes, as
peripecias da estranha noite que passra na montanha.

       *       *       *       *       *

Ora, havia entre os visinhos presentes um outro velho, que tinha um
enorme lobinho sobre a cara, na face esquerda por signal. Muito calado,
assim com ares de no prestar ouvidos  palestra, ia em mente, o
finorio, retendo todas as minucias. No partilhando das crendices da
gentalha, pelo contrario, desejoso de vr-se livre do tortulho, ia j
estudando a maneira de entregar-se nas mos de to sabios curandeiros.
Eil-o pois, por uma noite escura, caminho da montanha; seguidamente,
eil-o abrigado sob o mesmo tronco de arvore,  espreita dos diabos. No
faltaram. Comeou a bambochata,--risota, dana, vinho.--Juntou-se ento
aos demonios, a medo, um outro figuro.--Ol, c est de novo o velho!
voltou, e vem danar!--Danou, effectivamente, e sem ser muito rogado;
mas era um desastrado; e to mal desempenhou o seu papel, to falto de
geito e de pilheria, que os demonios, tomando-o sempre pelo conviva
primitivo, zangaram-se e disseram-lhe:--Enganaste-nos, brejeiro! s um
grande desgeitoso; devolvemos-te o penhor que nos deixaste e
aconselhamos-te a que no pises mais este logar.--Um da chusma foi
buscar o lobinho, e zaz! pespegou com elle na face direita do sujeito.
Saira de casa com um, e voltou com dois, um lobinho em cada face. Pode
imaginar-se o desapontamento do sujeito e a hilaridade dos visinhos.
Parece que, na aldeia, durante semanas e semanas, paralysou todo o
trabalho; os velhos, as velhas, as raparigas, os garotos, no faziam
seno rir, rir a bandeiras despregadas,--e o caso no era para menos!--

1899.




PAU-MAN-CHEN

                                        A Antonio Baldaque da Silva.


Scena domestica. L est o meu cosinheiro a _bater cabea_, como se diz
n'este Macau; l est elle rezando aos seus deuses protectores. Que lhe
preste! Acabou de me roubar nas contas, como bom chinez que ,
serenamente aggressivo em tudo ao europeu; e passou a entregar-se a esta
outra occupao no menos meritoria.

Sendo seus os aposentos inferiores,  ali rei, ou pelo menos mandarim;
faz o que quer. Os altares aos deuses anicham-se pelas paredes, aos
cantos do sobrado, sobre as mesas; e at junto ao fogo, onde se guisa o
meu jantar, se presta culto a supinas divindades. Mysteriosos ritos. So
papeis encarnados, contendo cabalisticos dizeres; so figuras de
horriveis monstros, coloridas pelas tintas mais surprehendentes, nas
disposies mais grotescas, despertando quasi o riso, despertando quasi
o medo, a quem no vive em graa em tal Olympo. Alli o cosinheiro, em
humildes genuflexes de crente, vem depr suas offertas, minhas
offertas, pois sou eu que pago a festa,--offertas de laranjas, de doces,
de ch, de porco assado e de outras iguarias.--Alli ardem lumes
mysticos; e frequentemente, pela noite, como agora, se queimam pivetes,
cirios rubros, rezinas e papeis, de tudo emanando um fumo atrz, que
invade em torvelino a casa toda, que chega sem respeito ao sitio onde me
encontro, e me soffoca. Paciencia! _Paciencia_  o unico codigo de
conducta para o aventureiro que escolheu para exilio um canto exotico,
longe, muito longe do torro onde nasceu, e no qual a civilisao
disparatada, a feio propria das gentes com quem lida, ho-de
fatalmente apresentar-se, dominantes.

[Figura]

Os deuses, com quem por assim dizer vivo em contacto, e a cuja sublime
proteco, posto que indirectamente, me confio, so muitos, um enxame. 
todo o Olympo buddhista e o inteiro mytho primitivo, amalgamados em
crendices; legies de espiritos. Naturalmente, ha uns mais preferidos,
que se invocam no lar com mais piedoso amor; n'este numero, segundo
informaes recentes que colhi, deve contar-se Pau-Man-Chen; e  a sua
historia maravilhosa que me proponho narrar, como puder.

       *       *       *       *       *

O deus Pau-Man-Chen, venerado em todo o immenso imperio, tem uma face
branca e tem uma face preta. Na China no ha effectivamente ninguem que
no o adore, que no lhe preste no altar domestico, o culto merecido; a
elle, que tudo sabe e tudo pode, que possue a sciencia do bem e a
sciencia do mal, que com um olho contempla os ceus e as grandes coisas
puras, e com o outro mira a terra profunda at aos antros lobregos dos
demonios, adevinha-lhes os maleficos designos. O deus Pau-Man-Chen tem
uma face branca e tem outra face preta...

       *       *       *       *       *

Ha no sei quantos mil annos, morreu no sei aonde, uma mulher casada. O
marido, no resta duvida, procedeu segundo o ritual do estylo, e mandou
depositar o caixo n'um solitario templo. Mal imaginava elle que a
defunta seguia gravida no esquife; e mal imaginava que o menino, que se
occultava no seu ventre, ia votado a altos destinos...

       *       *       *       *       *

Foi por aquella epocha, n'uma mercearia do sitio, que comeou sendo
notado, com justo sobresalto do dono da quitanda, o caso que vou expr.
Fazia-se sem novidade a venda, dia a dia; mas, quando pela manh se dava
balano s contas e ao dinheiro, encontrava-se sempre, de mistura com o
monte das sapecas, dois d'esses papelitos amarellos, com a competente
mancha prateada, que so nada menos do que a moeda corrente entre as
almas do outro mundo, nas suas transaces... Era prova clarissima de
que andava por alli coisa sobrenatural,--bruxaria, visita de phantasmas,
ou outro mysterio parecido.--Estudou-se o caso attentamente e com bem
justificaveis ancias de terror; observaram-se os freguezes, um por um.
Chegou-se por fim  concluso de que, em tal enigma, andava por certo
envolvido aquelle vulto de mulher de maneiras suspeitosas, trazendo uma
creana no regao, e chegando-se todas as noites ao balco para comprar
um bolo, que offerecia ao pequerrucho. Aos cobres, que largava das mos
lividas, cadavericas, no havia nada que dizer-se; eram excellentes; mas
quem ignora que de noite todos os bruxedos so possiveis, e  a luz
fraca do dia que seguidamente os desmascara?... O patro (os tendeiros
do mundo inteiro, e desde seculos sem conto, so homens de raro
engenho), o patro, certa noite, conseguiu sem ser sentido, atar um
longo fio  ponta da cabaia da fregueza; e quando ella se ausentou,
pz-se a largar o fio,  medida dos seus passos. No dia seguinte,
facilmente o finorio percorreu a linha de trajecto da mysteriosa
caminheira; e foi assim esbarrar, no termo do passeio, com o caixo da
defunta, de que atraz se fez menso. Do caso, sem detenas, correu a dar
parte ao viuvo, de quem era conhecido.

[Figura]

Acercam-se o viuvo e um bando de curiosos, do esquife, e abrem-n'o, ao
pasmo de todos. Scena extranha! Sobre os farrapos descoloridos, humidos,
fetidos, pasto de vermes,--quem j, dos que me lem, poisou os olhos no
espectaculo d'uma tumba escancarada?--l est estendida a esposa, e l
est um menino. Vivo? sim. Viva? viva parece, d'uma existencia
sobrenatural embora; mas como ninguem d'ella cuidasse, alli ficou
jazendo para sempre. As attenes, os carinhos, convergem para o menino;
o pae estende-lhe os braos, arranca-o  desolao d'aquelle leito,
chama-o  vida,  sociedade, ao mundo.

       *       *       *       *       *

[Figura]

A lenda popular completa esta curiosa historia pela maneira que vae
vr-se. A defunta, alli amortalhada, alli estendida sobre as tabuas, foi
me, no sei por que milagre--no se discutem milagres.--O resto
explica-se melhor: o mysterio psychico da maternidade, isso que nas mes
se patenteia como uma fora immensa, sem limites no affecto, sem
barreiras nos zelos, capaz de todos os arrojos, poude aninhar-se
n'aquelle corpo inerte, e imprimir vontade quelle feixe de ossos. Aos
primeiros vagidos da creana, o cadaver pz-se a contemplar os proprios
seios murchos, pendentes, vazios de seiva, rodos pelos bichos. O
cadaver moveu-se ento, galvanisado pelo amor--qualquer cadaver de me,
n'aquellas condies, faria o mesmo;--comeou a dar pontaps no
impossivel; partiu a murros as paredes do seu carcere; e apertando de
encontro aos ossos o filhito, e embrulhando-se discretamente na
mortalha, foi a correr comprar um bolo  venda proxima. A creana assim
foi medrando, passando os dias n'aquelle estranho bero. Foi por isso
que ficou com uma face branca, a que voltava para a luz e para o ceu, e
com uma face preta, a que poisava na sombra, de encontro  terra negra.
De ento lhe veio o duplo condo de conhecer o bem e de conhecer o mal,
de vr com um olho os deuses, e com um olho os demonios. Pelo correr dos
annos, foi mandarim de modestos logarejos, pois lhe sobrava asco pelas
riquezas, pelo fausto e pelos altos cargos. Os nobres senhores, o
proprio imperador que muito o honrava, tremiam do seu juizo. Lia nas
consciencias e lia nos destinos. Distinguia na turba os humildes, os
bons, os opprimidos; e tambem os impostores, os verdugos, os infames.
Premiava as virtudes, azorragava os vicios. Os desmandos da crte, a
rapina dos ministros, os mexericos das concubinas, fram por elle
desmascarados e punidos. Assim viveu por longos tempos este grotesco e
sublime figuro; assim passou por todo o imperio, para gloria da China e
para consolao dos offendidos. O povo punha de parte os labores e vinha
prostrar-se em saudaes  borda das estradas, ao vl-o atravessar
cidades e campinas, galgar os montes e descer os valles, sempre
incansavel, seguindo a largos passos, como se fosse um procurador
atarefado com demandas. Fluctuava-lhe ao vento a longa cabaia
esfarrapada, suja de lama e de poeira dos caminhos; a mo adunca brandia
um baculo nodoso; as pupillas chammejavam iracundas; o corpo ossudo
definia-se, na magestade faanhuda dos gestos arrogantes, nos compridos
bigodes de asiatico, pendentes como franjas, na barba aberta em leque,
chegando-lhe  barriga, e na disformidade do rosto pintado a duas cres,
branca uma face e outra face preta. Um bello dia safou-se d'este mundo;
mas l anda no outro, certamente, espreitando c para baixo, e no
largando de mo o seu fadario.

[Figura]

1899




A CARICATURA NO JAPO

                                    A Camillo Pessanha e Joo Vasco.


Grande coisa, meus senhores,  ter engenho!.. Eu no me gabo muito
d'esta prenda, confesso-o francamente; mas tive ha pouco azo de julgar
pela propria consciencia--merc d'um rasgo excepcional do meu
bestunto--quanto vale uma boa idea; e conclui que a felicidade humana
seria coisa facil, se uma impulso sagaz do espirito fsse guiando
sempre os nossos passos n'este mundo. E assim fica satisfatoriamente
justificada, penso eu, a exclamao com que enceto estas divagaes,
escriptas por uma noite fria de janeiro, no meu gabinete silencioso, na
cidade de Kobe, no Japo.

Vamos ao facto. Ah, pobre espirito enferrujado pelos azedumes da
existencia, gasto pela longa frico das coisas e dos homens, soffrendo
pela dr do passado, pela insipidez do presente e pelas tristes
promessas do futuro! como tu, meu pobre espirito, cahiras na quasi
insania, consciente, e por isso mesmo mais penosa, d'aquelles para quem,
por mal dos seus peccados, a vida se vae tornando toda um immenso
enfado... Morbidez de temperamento? incompetencia ingenita para a lucta?
fadiga, aps os mil baldes da sorte? pouco importa; no vale a pena
agora desenredar esta meada. Passava, e passo ainda, longas horas do dia
junto da minha secretaria;  este o meu officio. Alguem, que entrasse,
via-me grave, correcto, rodeado de livros e papeis, e at,
presumo,--perdem-me a vaidade--talvez me atribuisse uns certos ares de
sabio, em cuja mente magnos problemas se iam sublimando. S, bem s,
entre quatro paredes discretas, desfallecia; o olhar vago fixava-se no
nada, todo o meu ser se inutilizava, perdia-se em abstraces,
desinteressado da realidade, de mim mesmo, morto,--porque ha para alguns
uma morte percursora d'aquella que roe na tumba a febra e pe a n os
ossos brancos do esqueleto.--E vae ento, um bello dia, achando-me
casualmente n'um bazar de Osaka, compro uma figurinha de barro da deusa
O Fuku-san, que colloquei sobre a mesma secretaria referida.

Ora aqui est, no fim de contas, em que consiste o meu rasgo genial; e
vou dizer porqu. O barro  trabalhado por dedos tam amorosos de
artista,--um obscurissimo artista certamente;--a pasta impregnou-se com
tanta obediencia da feio predominante da alma japoneza,--naturalismo
humoristico, caricatural;--que a deusasinha patusca que aqui tenho a meu
lado, uma bugiganga de tres pollegadas de altura, quanto muito,  toda
ella uma gargalhada viva, supina, radiosa!... Acontece que a tristeza,
borboleta negra das trevas, foge espavorida da minha convivencia; poiso
os olhos na deusa, e desato a rir perdidamente; e assim me tornei o
homem mais divertido d'este mundo.

       *       *       *       *       *

Antes de ir mais longe na palestra, justo  que me detenha e diga em
poucas phrases quem  O Fuku-san. Divindade popular, patrona da boa
fortuna e da alegria, representa na genesis japonica um papel de subida
importancia incontestavel. Izagani e Izanami, os deuses iniciaes e
creadores, formaram o Japo e tiveram por filha, Amaterasu, a deusa do
sol, e outros filhos, todos com maravilhosos attributos. Amaterasu
residia no ceu, alumiando a terra; delicioso officio; mas tamanhas
affrontas soffreu de um seu irmo, o deus da lua por signal, que se
amuou e decidiu esconder-se, escolhendo para retiro uma caverna, aonde
se metteu, vedando a entrada com uma enorme pedra; a terra,  obvio,
achou-se s escuras de repente. Os deuses, apavorados,--o caso no era
para menos,--recolheram-se em conselho, e resolveram o seguinte, depois
de larga discusso: fram postar-se todos bem junto da caverna;
Takadjira, o deus de enormes braos, ficou junto da entrada, fazendo
sentinella; O Fuku-san, a mais divertida das patuscas, poz-se a cantar
modinhas; ou, quando no cantava, tocava n'uma gaita de bambu; ou,
quando no tocava, bailava minuetes, acompanhando a dana de mil
tregeitos faceciosos. Tanta pilheria teve a figurona, que a deusa
Amaterasu, no seu antro, comeou a interessar-se na galhofa, a rir s
furtadellas,--ou no fosse ella japoneza!--e arredou um pouco, para o
lado, o pedregulho, alongou um nada a cabecita para fra, e assim se pz
a gozar melhor da brincadeira. Ento Takadjira, n'um
relance--zs!--caiu-lhe em cima, lanou-lhe os longos braos ao pescoo,
puxou-a para si, foi  fora poisal-a no seu throno... e a terra de novo
continuou a ser alumiada pelo sol!

A arte popular veste a deusa O Fuku-san em bellos trajos da crte, dos
velhos tempos, setins rojantes, brancos e escarlates, e molda-a nos
ultra-comicos contornos d'uma japonezita enormemente obesa, toda ella
refolhos de gordura, banhas de pescoo, de collo, de seios, de barriga,
redondezas pasmosas de quadris, e mos e ps papudos. A cara, a immensa
caraa, de lua cheia,  um poema completo de monstruosidade triumphal e
hilariante: faces prodigiosamente bochechudas, caiadas de cosmeticos; um
narizito que mal se v, rombo, abatatado, como que calcado para dentro,
a golpes de martello;  fronte curta e estreita, de imbecil, collam-se
dois bands de cabellos de azeviche; fram rapadas  navalha as
sobrancelhas, segundo o uso classico; os olhinhos piscos, matreiros e
gaiatos, reluzem pelas fendas estreitas das palpebras carnudas; e a
bocca, a boquinha, em forma de cereja, acarminada, sorri em curvas, em
prgas, em covinhas impagaveis... Mas no ha palavras que descrevam, nem
de longe, a expresso de toda a figurinha--porque vae alem da nossa
comprehenso de occidentaes,--no que d'ella irradia de jocosidade
perenne, de beatifico comprazimento, de vagos tiques de inconsciencia
infantil, de imbecilidade, de malicia, de perverso; um indefinivel
conjuncto de no sei que de imminentemente pueril, satanico e grotesco,
todavia gracioso, que  no fim de contas uma das feies mais
caracteristicas e mais emocionantes da arte inteira japoneza.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Ensina-se nos livros que por meados do nosso seculo XII, o pintor
Kakuyu, que era bonzo buddhista, iniciou no Japo a pintura caricatural.
Pois seja assim; concedo ao frade o merito de ter traduzido pelo pincel,
por vez primeira, o humorismo d'esta gente. Mas tal humorismo, como
feio moral, nasceu com o mesmo povo, -lhe um fector do sentimento; e
cada japonez , e foi, e ser, um caricaturista. Quando se estuda a
lenda indigena japoneza, no vasto reportorio das suas fabulas, que eu
penso representarem sempre o mais remoto documento do feitio estetico,
da individualidade psychica, d'uma qualquer grande familia humana,
depara-se na scena com a mais curiosa fauna fallante--macacos,
caranguejos, raposas, alforrecas, ratazanas e outros varios bichos;--no
apologo grego, por exemplo, os brutos so doutores, discursam como
philosophos e como moralistas; no apologo japonez, menos profundo, mas
talvez mais incisivo, a bicharia contenta-se em mascarar-se vestindo
_kimonos_ e enfiando as patas nas sandalias, faz caretas, galhofa, dana
e ri, em desenvolturas caricaturaes da mais desopilante troa a todos os
ridiculos.

Quando as artes se desenvolvem e nacionalisam, e attingem uma feio
independente, inconfundivel, a caricatura, como que traduzindo uma
recordao da lenda, vem desempenhar um papel importantissimo, no s na
pintura, mas nas multiplices affirmaes do engenho--esculptura,
ornamentao da porcellana, da faiana, dos chares, dos bronzes, em
tudo.--Graas ao pincel e graas ao buril, as rs decidem-se a vir tocar
guitarra para a rua; os pardaes offerecem banquetes aos seus intimos,
servidos em porcellanas primorosas; desfila um cortejo de rapozas,
levando a noiva, a rapozinha, ao noivo feliz, que a espera no seu lar;
pelo dorso de Hotei, deus da bondade, vo trepando os garotos, e um mais
atrevido vae poisar-se-lhe em cima da careca; os guerreiros cobrem os
rostos com mascaras de um comico faanhudo indescriptivel. Hokusai, o
grande mestre da escola vulgar em pintura, delicia-se em desenhar
cegonhas d'um s trao repentino, maravilhosos gatafunhos, palpitantes
de observao e de verdade; no seu album dedicado ao Fuji-yama, a
montanha sagrada, contorna-a vista atravez de uma rede, que um pescador
tira do mar; e atravez de uma teia de aranha; e entre o A das pernas
nuas d'um operario tanoeiro, que do alto de uma dorna ajusta  fora de
malho as aduellas; e reflectida no ch da taa que um esfarrapado
mendigo leva  bocca. Hokusai, em 1804, durante certa festividade n'um
templo, manda estender no solo uma folha de papel de cerca de duzentos
metros quadrados de grandeza; vem mais um barril com agua, outro barril
com tinta preta, uns oitenta litros d'ella, e mais duas enormes
vassouras e tres vassouras mais pequenas; entra o mestre, empunha uma
vassoura embebida na tinta, traa sobre o papel curvas gigantes; no fim
de alguns minutos termina a sua obra, que s  comprehendida quando
alguns dos milhares dos assistentes se lembram de galgar ao telhado do
templo: a distancia e do alto, o immenso quadro representa um admiravel
busto de Daruma, o grande apostolo buddhista. Por aquella mesma epocha,
Hokusai pintava sobre um bago de arroz um grupo de aves, encantador, mas
s distincto com a ajuda de uma lupa.

[Figura]

 esta caricatura, melhor ser talvez dizer--este humorismo, que o
japonez exerce com habilidade unica, magistralmente, prodigiosamente; 
por ella,  por elle, pelo segredo dos exaggeros, pelo arrojo da
execuo, que alcana intenes flagrantes no trao, uma alma quasi na
paizagem, um conceito na arvore, no ramo em flr, no simples contorno de
um rochedo... Na pintura japoneza, por exemplo, um pargo, um caranguejo,
uma lagosta, o figuro zoologico mais lorpa que possa imaginar-se, vivem
na tela, isto , accusam uma vontade, uma inteno, um sentimento, como
a fome, como o medo, como o cio. No se diga que  a fiel reproduco do
modelo que d isto,--a photographia d'um caranguejo no palpitaria de
vida;-- pelo contrario o exaggero propositado de certas linhas, o
exercicio de uma arte mysteriosa, que naturalmente se inspira no
perfeito conhecimento estructural e sentimental do bicho, animalizando
de certo modo o artista e humanizando o bruto, e permittindo caprichos
descommunaes que o observador no descrimina, que o levam a exclamar,
no sei por que remotas reminiscencias ancestraes de subito
recordadas:--aquelle linguado acha-se triste... aquelle camaro arde em
ciumes... aquella lombriga est-se a rir...--

       *       *       *       *       *

[Figura]

O humorismo japonez no se limita s artes; divulga-se nos costumes do
povo, nos seus habitos; quando nos intromettemos na intimidade indigena,
ainda o espectaculo de inesperados disparates, de requintadas
extravagancias, vem ferir a nossa pupilla e prolongar-nos o espanto. Eu
no pretendo escrever aqui um tratado dos exotismos d'esta gente, aponto
ao acaso alguns dos que me occorrem.

[Figura]

Pois no so disparatadas, caricaturaes, estas mangas prodigiosamente
amplas dos vestidos, e na propria fazenda a estupenda polychromia dos
matizes? E estas peanhas de madeira,  laia de calado, onde se poisam
os ps ns dos japonezes? E estes penteados enormes das mulheres,
transformando-lhes as cabeas em estupendos monumentos ambulantes? E o
_obi_, a cinta de seda que cinge as ancas da _musum_ em voltas
sobrepostas e rematadas n'um lao colossal? E o costume das casadas,
quando em signal de desapgo s vaidades d'este mundo, se desfeam
rapando as sobrancelhas  navalha, e envernizando de preto a fila dos
dentinhos? A casa de papel, o jardim de Lilliput, a vida passada de
joelhos sobre a esteira, a refeio servida em taasinhas e apprehendida
nas pontas dos pausinhos, a arte domestica da preparao do ch e dos
ramos de flores, a dana, a musica, a cama improvisada a um canto com
duas colchas de seda e uma boceta de charo por travesseiro, as mil
saudaes trocadas entre duas pessoas que se encontram, todos os
aspectos da vida indigena emfim, intimos, sociaes, so surprezas,
extravagancias, excepes unicas, simples pretextos para brincadeira,
como se o japonez tivesse vindo ao mundo para se rir de tudo em que se
occupa, e para se rir de si primeiro do que de tudo... Chega-se sem
muita difficuldade a comprehender porque, nas relaes de convivio de um
para outro, de preferencia  palavra, de preferencia ao gesto, uma
maneira ha mais eloquente de traduzir o pensamento:--a gargalhada!...

       *       *       *       *       *

O proprio japonez  uma caricatura. No se espantem da assero os que
tiverem a pachorra de me ir lendo; eu hei de ainda provar que o proprio
deus dos japonezes, o sublime creador do Dai-Nippon, formou n'um estado
de alma galhofeiro esta terra, sem systema, sem programma estudado e sem
pressas; sem pressas certamente, recreando-se nos comicos caprichos que
a phantasia lhe ditava e a mo omnipotente ia executando, ferramenta do
officio em aco, escopro ou broxa, afeioando, retocando,
caricaturizando, o que do chaos ia surdindo  flr das aguas. Depois,
concluida a obra, devia ter soltado uma gargalhada retumbante!...

[Figura]

Ora desde remotas eras at hoje, pratica-se no Japo um exercicio de
lucta, um _sport_ (como se diz agora) muito em voga, e do especial
agrado d'esta gente;  o espectaculo favorito durante determinadas
epochas do anno. Limita-se no campo um espao com esteiras e bambus, e
ao centro dispe-se uma pequena elevao em forma circular; iam-se
galhardetes e bandeiras, rufa o tambor, e o povo afflue por centenas de
curiosos, compra o seu bilhete e toma poiso; dois homens, quasi ns,
combatem corpo a corpo, como na arena grega, at que um d'elles derruba
o companheiro e  proclamado vencedor. Estes luctadores de profisso so
escolhidos d'entre os gigantes, d'entre os athletas, e  na provincia de
Tosa que especialmente se recrutam. No so homens, so caricaturas de
homens, so monstros, enormes, valendo cada um em peso e em dimenses
por seis japonezitos ordinarios. No se imagina, nem podem descrever-se,
as caras, os cares de taes sujeitos; so mascaras disformes, caraas
imberbes, olhinhos ferinos repuchados para a testa, queixada vigorosa e
dentua arreganhada, orelha polpuda e ampla, trunfa hirta e espessa, e
um risinho estranho, sarcastico, mistura de riso de creana e de riso de
demonio; nem ha palavras que expliquem a amplido dos vultos, a
obesidade das carnes, o brao rolio quasi feminino, os seios erectos, o
enorme ventre impando, lenta a marcha e ondulante, de urso da Siberia em
liberdade. Asseguram estudiosos que estes monstros de Tosa so os
ultimos restos, preciosos modelos vivos, da raa prehistorica
japoneza... Pode assim ser; no japonezito de hoje, embora geralmente
franzino, miudinho, delicado, no repugna acreditar que alguma coisa
haja de commum com os luctadores de Tosa: como que laivos de familia, a
vaga semelhana com um av... a no querermos mais longe ainda ir
procurar-lhe affinidades, n'um remoto parentesco com a deusa O-Fuku-san,
que continua a rir-se para mim, e eu a rir-me para ella...

[Figura]

Relancemos a chusma, nos theatros, nas feiras, nas romarias, nos
bazares? Pode dizer-se, em geral, que o typo do japonez, da sua femea, e
mais accentuadamente ainda nos obesos, ou nos magros, ou nos anes, ou
nos albinos, ou nos cxos, ou nos corcundas, ou nos leprosos, ou nos que
tem um lobinho, ou nos que tem o nariz roido, em todos aquelles em fim
em que um defeito, uma tara, sobresae,  caricatural supinamente, comico
a ponto de nos fazer morrer de rir s gargalhadas!... Ah, maganes!
vocs, quando nos deram as imagens dos seus deuses, dos seus genios do
lar: uns pansudos, como odres; outros esqueleticos, macrabos; uns
pachorrentamente joviaes, outros terriveis, despedindo raios sobre a
terra; vocs retrataram-se a si mesmos, segurando com uma das mos o
pincel e com a outra o espelhinho onde se viam, maganes!...
Especialisando, da multido das ruas, essa figurinha em miniatura que
to irresistivelmente captiva as attenes do estrangeiro, toda ella
matizes, perfumes, frescura, gentileza, a figurinha da _musum_, da
rapariga, podemos ainda definil-a como uma caricatura, a caricatura mais
travessa, a chimera humana mais deliciosa, em que jmais olhos de
viajante se poisaram!...

Profundar o enygma do feitio moral da tribu  impossivel. Apenas
conhecemos vagamente que a vida intima desliza serena e pueril, sem
ralhos, sem exasperos, em culturas de arbustos, em contemplaes dos
astros, em banhos quentes, em esmeros junto do espelho, em brinquedos
com as creanas, em debandadas pelos campos, em libaes de ch, em
jantarinhos de arroz e fatias de nabos em salmoira, em sonecas
tranquillas debaixo do verde mosquiteiro protector... Mas d'esta mesma
gente expludem tambem por vezes os grandes dramas: crudelissimos
assassinios, por cegueira de ciumes; suicidios duplos, por desespero de
amor,--elle e ella cingidos n'um derradeiro abrao;--e essa horrivel
sede de sangue, o homem transformado em fera, trucidando tudo vivo que
encontra, estado de loucura conhecido entre os estrangeiros do Oriente
pela denominao de _amock_, palavra malaia ou javaneza.

       *       *       *       *       *

A tribu parece ter sido feita de encommenda para o paiz exotico que lhe
foi dado em patrimonio. Percorrendo-o, estudando-o nos aspectos, melhor
se comprehende a indole estetica do povo, a alma nacional, com as suas
delicadezas, com as suas graciosidades, com os seus caprichos, com os
seus disparates; manifestaes multiplices de um caracter
particularissimo de origem, mas no qual a influencia muito especial do
meio laborou tambem intensamente.

Comparando os aspectos normaes, comezinhos, que se desdobram por este
mundo fra, com outros aspectos excepcionaes, em contraste flagrante com
a disposio commum das coisas, pergunto eu se o termo--disparate,--se o
termo--caricatura,--so permittidos, julgando a obra da omnipotente
creao? Haver, por exemplo, um ilheo disparatado, um pinheiro
caricatural? Se permittidos so, se ha tal ilheo, se ha tal pinheiro,
ento no se pode imaginar coisa mais disparatada, mais caricatural, do
que este archipelago, j disparatado de nascena, emergindo a pique e
como por encanto, do seio das aguas mais profundas do oceano, tenue,
rendilhado como uma joia em filigrana, convulsionado a todos os momentos
por mysteriosas commoes vulcanicas, zurzido por tremendos cyclones,
invadido por vezes pelas ondas enormes do Pacifico, caprichosa chimera
geologica emfim, que pode manh desapparecer no abysmo, sem que por tal
se espantem muito os sabios!... Tal  o imperio do Japo.

[Figura]

A paisagem extravagante, inverosimil, inacreditavel, das porcellanas e
chares, hoje divulgada em toda a parte,  com effeito a paizagem real
d'este Japo. Collinas, penedias, verdes planices, lagos, cascatas,
torrentes espumantes, ribeiras dormentes, valles profundos, mares
interiores salpicados de ilhas e rochedos, tudo reduzido a miniaturas
graciosissimas, reunido em grupos incongruentes e projectado em fundos
de ceu estupendamente coloridos, eis o que os olhos abrangem n'um
relance.

Demormo-nos nos detalhes. As coniferas (algumas especies enormes)
vestem as encostas, trepam pelas ribanceiras acima, at irem coroar os
ultimos pincaros das serras. Aqui, um bosque de bambus gigantes, cuja
sombra eterna e cuja paz soturna do allucinaes quelle que se
aventura em devassar o seu mysterio. Alli, outro bosque, de bordos, de
_momiji_; em novembro, a sua tenue folhagem digitada passa do verde
claro ao escarlate; o scenario adquire assim deliciosos exotismos
ultra-terrestres, como se a gente se achasse de repente pisando o solo
de Marte ou de Saturno. A semente do acaso caiu sobre uma pedra  flr
das aguas; germinou o pinheiro, a rede das raizes abraa-se ao granito,
e ergue-se desamparado o tronco, torcido, contorcido pelos annos e pelas
intemperies, reflectindo no espelho glauco a sua eterna cabelleira de
verdura; ha arvores, enobrecidas ou pela vetustez ou pela forma
estranha, celebres como heroes, que so visitadas por uma multido de
peregrinos. As ameixieiras, as cerejeiras, abundam; pela primavera,
cobrem-se de florescencias pasmosas, luxuriantes, como nunca se viu em
parte alguma; mas no do fructo, as trapaceiras.

Nos jardins, continua a flora exotica, desconhecida. Trepa, por onde
pode, a _asagao_; e abre  alvorada, por curtas horas, as suas frescas
campanulas, de qualquer cr, porque as variedades no se contam, so
milhares. Desabrocha a peonia, enorme, paradoxal. E enfileiram as
chrysanthemas, a flr nacional, sob tendas que as abrigam do sol,
podendo lembrar cortezs em exposio nos bairros de prazer, pela
extravagancia das cres e dos feitios, que recordam a confuso
polychroma dos vestidos e dos penteados das mulheres; mas que realmente
se assemelham a enormes actineas, monstros dos mares, multiplicando-se
em mil tentaculos contorcidos, brancos, amarellos, rosados ou
sanguineos.

Agora a fauna. Pelo espao, negrejam bandos de corvos, os _karasu_,
escarninhos, voando e rindo s gargalhadas. Enormes borboletas pretas,
nunca vistas, sugam as corollas. De dia, de noite,  incessante o ruido
das cigarras, dos grilos, de outros bichos. Noites ha, pelo estio, junto
s ribeiras, em que uma chuva de fogo, de pyrilampos aos myriades,
motiva festas ruidosas. Nos lagos dos jardins vagueam peixes de oiro,
com os olhos a estoirarem, com as caudas esfarrapadas e rojantes, como
se fssem longos capotes de mendigos. Junto da casa de papel toma o sol,
cantarola o gallo ano, do tamanho d'uma pomba; e  porta assoma o gato
indigena, esqueletico, rabugento, sem rabo... porque todos os gatos no
Japo nascem sem rabo; ou  o co que ladra, o _chin_, verdadeira
caricatura de co, com os olhos esbogalhados a saltarem-lhe das orbitas,
sem nariz, a cauda em pluma, parente degenerado de qualquer monstro de
epochas remotas, hoje extincto.

       *       *       *       *       *

[Figura]

De sorte que todo este Nippon,--arte, povo, paizagem, planta e bicho,--
uma deliciosa mascarada. Como fazer sentir isto a quem o no conhece,
depois de ter escripto o que escrevi, e de concluir que nada escrevi do
que me vae no pensamento? Olhem: fixem um espelho espherico, ou
cylindrico; o aspecto das formas reflectidas  uma interminavel surpreza
hilariante, de caretas supinas, de linhas torturadas; pois tal  o
aspecto do Japo...

       *       *       *       *       *

Todos sabem como a caricatura, pelo desenho e pela escripta, exerce nas
sociedades uma influencia decisiva. A pintura e o livro humoristicos
subjugam a atteno e imperam no espirito com intensidades unicas,
alheias s outras formas de arte. Porque? Fra difficil explical-o aqui.
 certo que a ironia, na obra creada, faz mais do que crear: estigmatiza
um defeito, aponta um ridiculo, sublinha uma virtude. As coisas
triviaes, taes como as conhecemos, passam desapercebidas ou esquecem
brevemente; o exaggero, pelo contrario, fica, grava-se a estylete na
memoria. Viu-se hoje um bom retrato d'um sujeito, de Balzac, de
Bonaparte, se quizermos; amanh nada restar no pensamento; mas, se foi
relanceada a caricatura, fica a summula c dentro, uma reminiscencia
pertinaz do trao phisionomico (e mais do que isso) do individuo. Seja
como fr e por que fr,  hoje indiscutivel que a caricatura representa
um meio altamente poderoso de impressionar os homens; estude-se-lhe os
effeitos, por exemplo, na polemica dos principios, onde ella vale pela
mais possante picareta demolidora das instituies, dos thronos e das
crenas, rasgando a estrada nova por onde investem os partidos
avanados.

Estando isto assente, imaginem agora um paquete, despejando em qualquer
caes japonez um bando de loiros estrangeiros. Elles todos, os lorpas,
tem nos rostos essa feio anodina das cabeas, que  uma das formas de
belleza mais frequentes nas raas europeas; e a julgar pelo olho azul,
de porcellana, sem expresso, sem alma, pde admittir-se que l dentro
da casca no ha seno pevides em guisa de miolos.

[Figura]

Mos rudes, vermelhas, cabelludas, ps enormes;--estigmas de um
temperamento avesso a coisas de arte e a todas as delicadezas do
sentir.--Emparelham pelas manifestaes do gosto: vestidos todos de
alvadio, cco no cocuruto da cabea, sapatos amarellos e ramosinho na
carcela. Como entidades prestantes, embora talvez no prestem para nada,
uns so sabios, outros so navegadores, outros so diplomatas, outros
possuem manhas maravilhosas de balco; mas--coitados!--em todos se
acoberta o microbio desvastador, oriundo dos grandes centros, nascidos
da podrido da descrena, do egoismo, da inveja, da cubia e da
misanthropia; e na face e nos gestos alguma coisa j assoma do mal de
que enfermaram. Alguns do o brao a outros sujeitos sem bigode, com
grandes mos vermelhas igualmente, e enormes ps calando sapatos
amarellos; usam bengala, collarinho alto de bretanha, gravata, tunicas
em forma de campanula, uma alcofa  cabea, cheia de hervas, de aves e
de fitas:--so as damas--.

Os pobres forasteiros vem-se assim de improviso e de surpreza no meio
exotico entre todos, requintadamente artistico, caricatural e
sorridente, que  todo este Japo. Dominados pelos aspectos, allucinados
pela iniciao imposta, riem tambem, e julgam tambem sentir a
graciosidade indigena e a gentileza dos scenarios. Eil-os que cruzam as
estradas e os trilhos das montanhas, seguem em caravanas numerosas a
visitar os logares celebres, encorporam-se nas romarias, entram nos
templos e entram nos theatros, bebem ch japonez, e at, burlescamente
ajoelhados, engolem o arroz cosido e deliciam-se no peixe cru que as
creadinhas vo servindo.

[Figura]

Oh, a paisagem japoneza! Como ella  encantadora e fresca, estranha,
paradisiaca!... e como aqui o pensamento se dilata, n'um longo divagar
sereno e amoroso, to distincto das preocupaes sombrias que alem, na
Europa, azedam a existencia!... Mas no sei qu da alma asiatica,
subtilmente motejador e sarcastico, subtilmente intolerante, paira aqui,
emana da colorao e da forma das coisas, do grito dos animaes, do gesto
e voz da gente; no se define, mas existe, hostilisando em tudo o pobre
intruso.  como que uma exhortao continua e impertinente do Buddha e
dos deuses tutelares, murmurada a todos os instantes:--Vae-te, volta 
terra dos loiros; contempla os teus deuses, visita os teus templos,
recrea-te nos teus sales, bebe o teu whisky e soda; mas deixa em paz
este solo, que no  teu, que te detesta; e onde, para assimilares a
harmonia da creao e o sentimento nacional, precisas de uma fluidez de
espirito e de uma serenidade de consciencia, que te faltam!...--

Cedo ou tarde, manh, em dois mezes, em dois annos, o homem loiro
enfastia-se, compenetra-se da fatalidade dos destinos, que crearam o
Japo para os japonezes. Uns desertam, e fazem n'isso muito bem; outros
ficam. Nos que ficam, o desgosto pela terra do exilio enraiza, alastra
como uma lepra corrosiva.

[Figura]

O desgosto, nas mulheres, crystallisa brevemente em odio, um odio
desesperado, sem treguas; explicavel pela maior vibratilidade dos nervos
no sexo, pela vida ociosa, e tambem, e principalmente, pelo penoso
confronto com a mulher indigena, cujo fresco perfil e requintado tacto
femenil so uma provocao terrivel aos seus meritos. A mascarada eterna
japoneza, a despreocupao, o riso chronico, os traos caricaturaes de
todos e de tudo, os dichotes zombeteiros dos gaiatos,--ijin, ijin!
estrangeiro, estrangeiro!--tudo irrita, bellisca redunda por fim n'um
supplicio insuportavel, que nm respeita o lar, entrando mesmo pelas
janellas dentro como um exame de mosquitos. Triste lar, tantas vezes!...
Junto da familia do sr. Fulano, seja qual for a sua nacionalidade e
situao, contae como provavel um hospede permanente,--o
aborrecimento.--A embriaguez, a dissipao, a quebra fraudulenta, o
roubo, o suicidio, o adulterio, o assassinio, todos os desmandos de uma
sociedade incongruente, succedem-se nas pequenas colonias europeas do
Japo com uma triste frequencia, eloquentissima!...

                                                               1900.




DOIS CEMITERIOS JAPONEZES

                                                  A V. Almeida d'Ea


Pelos fins de dezembro, em vesperas de Natal e de Anno-Bom, encontrei-me
um bello dia, sem bem saber porque, vagabundeando no cemiterio dos
europeus em Kobe, o velho. O velho, porque ha um cemiterio novo que se
estreou ha pouco tempo, e onde at agora se reuniu coisa de meia duzia
de inquilinos; est este situado longe da cidade, n'um declive de
collina, amplo, com bellos horisontes em redor. O velho, de acanhadas
dimenses, enchera-se de moradores em uns trinta annos de exercicio, e
foi por tal razo posto de parte.

O velho cemiterio fica em plena cidade, para as bandas de oeste e cerca
dos edificios da alfandega, quando comea um bairro sujo, de fabricas,
de armazens, que pova uma misera ral de carregadores e de mendigos.
Encerrado entre as altas paredes de tijolo vermelho de enormes depositos
de mercadorias, sem outro horisonte, com pouco ar, com pouca luz, humido
e ermo,  bem triste este canto; at, se no me illudo, os vetustos
pinheiros que o arborisam, testemunham pelo verde escuro e estorcimentos
convulsos das ramadas, alguma coisa da desolao que aqui impera sobre
tudo.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Hoje, que  um domingo, acol, a curtos passos, sobre a relva do parque
publico, a chusma dos caixeiros--inglezes, americanos, allemes,--a
chusma cosmopolita, em mangas de camisa, sem chapeu, berra, corre,
esbraceja, espernea, joga o _tennis_, o _fout-ball_. Mais alem, pelas
ruas de trafego indigena, presumo magna enchente, bazares em festa, povo
em barda, entre japonezes e estrangeiros. D'estes ultimos, so
especialmente as damas que mais se alvoroam com a proximidade do
_christmas day_, e que afanosamente percorrem a cidade, em carruagens,
em _jinrikshas_, a p--a ps... e que ps!...--enfiando pelas lojas,
mercadejando bonecas, quinquilherias, guloseimas, as mil e mil
frivolidades que vo constituir os fructos d'essas estupendas arvores de
Natal, prstes a surgirem nos sales. Pobre natal! N'estes paizes
exoticos, de ganho e de aventura, as festas particulares da familia
europea perdem em regra a sua feio de severidade tocante e amorosa,
para se transformarem n'um simples _sport_, irritante, massador,--fallo
por mim,--mero pretexto para ostentaes, dissipaes e mexericos, a
caterva de todos os symptomas da morbidez do exilio. Para o povo
japonez, o impulso  bem outro: o dia de anno novo  a festa principal
de cada anno, a unica para muitos; religiosa, emocionando a alma
indigena, levando a turba aos templos a dar graas aos deuses pelas
prosperidades realizadas, e a implorar novas fortunas: intima, de
familia, preceituando o doce dever das saudaes aos parentes e aos
amigos; ninguem trabalha, veste-se fato novo, enfeitam-se os altares e a
casa toda; por isto, com louvavel antecipao se compram nos bazares os
pequeninos nadas que vo ornar o lar, e os bolos de arroz, e o crte de
fazenda, e a flr para o cabello, coisas de que no prescinde a mais
modesta familia de lavrador ou de operario, n'aquelle dia abenoado.

       *       *       *       *       *

No sitio onde me encontro a quietao  plena, em contraste com o que
palpita l por fra.  positivo que os mortos no festejam o Natal...
nem eu tam pouco, poderia accrescentar, desde mui largos annos de
bohemia, sem lar e sem familia. Pesa aqui, no cemiterio, mais duramente
por certo do que em outro logar, a aspereza de um triste dia de inverno,
sem sol, sombrio e humido; paira no ar uma poeira levissima de neve, que
mal se v, mas fere o rosto como picadas de alfinetes; de quando em
quando, uma rajada fresca sacode a rama dos pinheiros, corta o silencio
ento um vago murmurio de folhagem,--da folhagem sem duvida, mas que
acaso poderia parecer o palrear dolente dos mortos uns com os outros, de
cova para cova...--

[Figura]

Vou vagueando, com passos e em espirito. Estou s, ou quasi s; ha pouco
dei f, por entre as sepulturas, de uma velha japoneza, guarda do
cemiterio, que ia apanhando do cho alguns cavacos. Vou lendo os
epitaphios, estudando a botanica tumular nos arbustos plantados e nos
musgos espontaneos, lanando um olhar condodo s coras murchas, que
aqui e ali se encostam ao marmore das lapidas, pobres coras queimadas
pelo sol, rasgadas pelo vento, rodas pelos vermes, polluidas pelo p, e
em p se desfazendo... N'este gremio de mortos abundam os padres e os
missionarios de todas as seitas e de todos os paizes; varios pilotos dos
mares do Japo, capites, tripulantes de barcos; gente de negocio; e a
mais uns pobres nomes obscuros de mulheres e de creanas, sem titulos
nem historia. Aqui deparo agora com um nome de portuguez, Felisberto da
Cunha, da Figueira, que morreu com quarenta annos, e a esposa (uma
japoneza) lhe mandou erigir o mausuleo.

       *       *       *       *       *

De trilha em trilha e de tumulo em tumulo, eis-me em frente do monumento
tumular dos marinheiros francezes assassinados em Sakai. Lugubre
historia; e aqui, n'este Japo da grande hospitalidade e da notoria
cortezia, impressiona por estranha e quasi inverosimil. Pois foi bem
verdadeira. Ha mais de trinta annos, por um dia de maro, uma lancha a
vapor da corveta _Dupleix_ aguardava na praia de Sakai a volta de alguns
officiaes, que haviam descido  terra e seguido para Osaka; passa
casualmente um troo de tropas do Mikado, _samurais_ da provincia de
Tosa; e sem provocao, sem um leve pretexto, fazem fogo sobre os
marinheiros, matam onze. So os onze tumulos d'estes martyres, d'estes
miseros camaradas (porque eu sou como elles marinheiro), que agora
contemplo.

Sobre tres degraus de pedra ala-se uma alta cruz; e aos lados, cinco
por banda, e o aspirante  frente, como se estivessem na tolda da
corveta em formatura, esto os onze corpos, esto as onze lages,
aquelles desfeitos em p seguramente, estas ennegrecidas pelo tempo e
pela lepra dos lichens resequidos... pois no se esquea que ha mais de
trinta invernos vae durando a triste formatura. Sobre a cruz leio o
seguinte:--_ la memoire des onze marins de Dupleix, massacrs  Sakai
le 8 mars 1868. Requiescant in pace._--_Massacrs!_ massacrados! Como
isto  destonante n'este solo, no _Dai-Nippon_ das paizagens amorosas e
do sorriso perenne nos rostos dos que passam!...

Vou lendo seguidamente as inscripes dos tumulos:--_Ci git Guillon,
Charles Pierre, aspirant de 1^{re} classe, ag de 22 ans. Priez pour
lui.--Ci git Boulard, Vincent, matelot de 3^{me} classe, ag de 21 ans.
Priez pour lui.--Ci git Nonail, Jean Mathurin, matelot de 3^{eme}
classe, ag de 25 ans. Priez pour lui.--Ci git Condette, Franois
Dsire, matelot de 3^{me} classe, ag de 24 ans. Priez pour lui.--Ci
git Lemeur, Gabriel Jacques Marie, quart.^r m.^{tre} de manoeuv.^{re} de
1^{ere} classe, ag de 29 ans. Priez pour lui.--Ci git Savie, Jacques,
matelot de 3^{eme} classe, ag 23 ans. Priez pour lui.--Ci git Humet,
Arsne Florimont, matelot de 3^{eme} classe, ag de 24 ans. Priez pour
lui.--Ci git Langenais, Auguste Louis, matelot de 3^{eme} classe, ag de
22 ans. Priez pour lui.--Ci git Bobes, Lazare Marie, matelot de 3^{eme}
classe, ag de 22 ans. Priez pour lui.--Ci git Modest, Pierre Marie,
matelot de 2^e classe, ag de 26 ans. Priez pour lui.--Ci git
Grunenberger, Victor, ouvrier chaufeur de 3^{eme} classe, ag de 24 ans.
Priez pour lui._--A ladainha  longa, como vem; e bem commovedora,
quando se attenta nas idades. Onze rapazes; quadra de illuses, de
amores, de esperanas. O mais velho do grupo teria hoje os seus sessenta
e dois annos, se fosse vivo; de sorte que todos estes pobres moos
poderiam muito bem gozar ainda agora da doce alegria de viver, se o
destino lhes fosse menos duro: o aspirante vestiria provavelmente a sua
farda de capito de mar e guerra, chapada de veneras; e os marujos
estariam talvez com a sua baixa, na aldeia patria, em descano, a vrem
o mar por um oculo, rodeados de filhos e de netos... Ah! barbara cafila
de soldados japonezes!...

A gente pde recompr em pensamento a scena da praia de Sakai. Uns
bellos loiros, rosados como pecegos, robustos como jovens Hercules.
Riem, brincam, cantam, pisando a ffa areia.  um bando de irmos, todos
da mesma idade, tratando-se por tu, passando de mo em mo a bolsa de
tabaco, e at de bocca para bocca o cachimbo de gesso fumegante.--Olha,
Jacques! Repara, Gabriel!--E batem palmadas nas costas uns dos outros,
e brilham-lhes as pupillas gaiatas e sagazes, apontando, em grandes
gestos rudes, para os recortes estranhos da paisagem, para os
contorcidos pinheiros que rendilham o horisonte, para as ameixeeiras em
pasmosas florescencias, para as casinhas de madeira e de papel, para as
_musums_ em sedas, seductoras... exoticos, captivantes aspectos de um
paiz maravilhoso, que abre agora as suas portas  curiosidade do mundo
occidental, deslumbrando a imaginao juvenil d'estes pobres francezes,
habituados  monotonia do azul das longas viagens fadigosas. Consta que
os garotitos de Sakai iam affluindo  praia, e quedavam-se em volta dos
marujos, bocca aberta, espantados dos seus modos, do uniforme, das suas
feies de raa branca; e que estes com as creanas partilharam algum
po das suas provises. De repente, surde de algures um bando petulante,
irrequieto, multicr pelas bandeiras desfraldadas e pelas sedas das
cabaias, e reluzente pelas armas que empunha; so _samurais_ do imperio;
o quadro  deveras interessante; os marujitos, surpresos e attentos, so
todos olhos... olhos que em breve se cerram, quando os corpos caem
inertes sobre a areia, aps uma descarga de metralha... Ah! barbara
cafila de soldados japonezes!...

[Figura]

       *       *       *       *       *

No meu espirito vagabundo, depois da ferocissima scena de matana, 
agora a sorte d'estes _samurais_ que relembro, e me commove. Commovem-me
assassinos? Sim; os annos fram correndo sobre os factos e esfriaram os
rancores. Pde hoje memorar-se, sem asco, com sympathia, mesmo nos seus
transes sanguinarios, a breve lucta de resistencia que o velho Nippon
feudal, embevecido na sua lenda prestigiosa, manteve contra aquelles que
vinham despertal-o do seu sonho; e para o bando de Sakai, soldados
todos, pertencendo  nobre casta dos guerreiros, seria realmente
excepo estranha se no fulgurassem no seu animo, remindo-os do
opprobrio, as virtudes da casta--a extrema dedicao aos chefes, o
sacrificio de si proprios pela patria, e o amor por essa patria guindado
 intensidade de paixo, mais alto ainda, aos paroxismos do delirio.--

A historia plenamente nos explica o odio que a massa dos guerreiros ia
nutrindo ento pelos estranhos. O shogun, generalissimo do imperador,
com residencia em Yedo, assignra por conta propria tratados de amisade
e de commercio com a America e com a Europa, e os estrangeiros, em
Yokohama, pisavam j afoitamente o solo japonez. O shogun violava por
este modo o dogma sagrado do imperio, que era o isolamento absoluto, a
excluso do homem do Occidente, o desdenhoso desinteresse pelo mundo, o
goso eterno e sem partilha, deliciosamente egoista, do paiz maravilhoso
que os deuses haviam legado ao povo eleito. Quando a noticia do insolito
desacato chegou at Kioto, a cidade santa, onde vivia a crte, em torno
do Soberano, a mais accesa colera explodiu, e todas as energias se
ligaram para humilhar o shogun e varrer para sempre da patria os
teimosos intrusos.--Morte aos barbaros!--foi o grito do soberano, da
crte, dos senhores feudaes.--Morte aos barbaros!--foi o credo que
incutiram s legies  pressa reunidas, que corriam a expulsar, a
massacrar, a exterminar, os estrangeiros. O shogun, supremo em mando at
ento, estava perdido, debaixo de seus ps tremia a terra, rugia o
vulco politico que em breve ia esmagal-o; mas, pela fatalidade dos
tempos, as energias e as cubias dos intrusos haviam de vencer, de impr
os seus designios; e a rhetorica dos diplomatas, prudentemente
sublinhada pela metralha dos canhes, tinha de ser ouvida. Os dias iam
passando, e o solemne decreto de exterminio no podia ser cumprido;
apenas, de quando em quando, um ou outro _samurai_ lograva decepar
alguma cabea loira de inglez, merecendo dos seus chefes fartos
applausos pelo feito. Cedo, bem cedo, os vultos dirigentes
comprehenderam que a lucta era impossivel, que o mysterio nipponico
findra; e o Japo foi descerrando pouco a pouco as suas portas,
entrando em negociaces com os diplomatas estrangeiros, no j pela
iniciativa incompetente do shogun, mas pela propria iniciativa do
soberano. O shogun, por inutil, foi deposto; como se no conformasse com
a vontade imperial, travou-se dura lucta, foi batido e retirou para
Yedo. Estes acontecimentos succediam-se em tropel; a grande maioria da
nao no podia aprecial-os, e menos presumir das vistas do soberano; a
grande maioria da nao ia odiando o shogun e repetindo o seu
credo--Morte aos barbaros!--sem se aperceber que a situao mudra,
que a crte j tratava com as potencias, e que a aggresso aos europeus,
havia pouco meritoria, era agora condemnada e prejudicava fortemente a
marcha da politica imperial.

       *       *       *       *       *

Foi assim que os soldados de Sakai, massacrando os marinheiros francezes
que encontravam, julgavam ter cumprido um dever grato ao soberano e util
para a patria. Illudiam-se. A resposta s energicas reclamaes das
auctoridades francezas foi a condemnao  morte de todos os culpados,
que eram vinte. Como guerreiros, no bandidos, foi-lhes concedido como
graa o _hara-kiri_, isto , a morte honrosa, devendo cada qual rasgar a
propria carne a punhaladas.

[Figura]

Foi escolhido para a cerimonia Myokokuji, um templo de Sakai, e em 16 de
maro teve logar o supplicio. Passou-se ento um espectaculo tremendo,
no de tristeza, antes uma festa de sangue, de morte, que excede a
comprehenso dos homens europeus. Enchia o recinto do templo a multido
dos officiaes do imperio, das auctoridades francezas, das testemunhas,
dos amigos, dos bonzos, dos curiosos, vistosa em cres, em bellos
uniformes, em garbo e fidalguia; e, um por um, por seu turno, veio
apparecendo cada condemnado, todo vestido de lucto, de alvas vestes,
ajoelhou no solo, curvou-se em reverencias, saudou a multido, recebeu
solemnemente o curto sabre de etiqueta, cravou-o at aos copos nas
entranhas, rasgou as carnes com mo firme, tingiram-se as vestes de
escarlate, jorrou o sangue sob uma urna proxima, a fronte crispou-se
pela dr, a cr fugiu da tez, o corpo pendeu inerte, para a frente...

Minamura Inokichi Minamoto no Motoaki, de vinte e cinco annos, escreveu
no seu ultimo momento de vida uma curta poesia, que era
assim:--Condemnam me; no discuto a minha morte; servir ella de
pretexto  justia do futuro, que decidir se, para honra da patria,
devem ser expulsos os barbaros.--Nishimura Saheji Minamoto no Ujiatsu,
de vinte e quatro annos, escreveu o seguinte:--No me pesa o morrer, a
vida passa como o orvalho desapparece com o vento; uma coisa me
afflige:--o futuro da patria--Ikegami Iasakichi Fujiwara no Mitsunori,
de trinta e oito annos, escreveu o seguinte:-- preciso alumiar o
espirito da nao; para isto abandono o corpo ao meu paiz;--este,
quando as entranhas lhe caram, fez meno de atiral-as  cara dos
francezes. Oishi Jinkichi Fujiwara no Yoshinobu, de trinta e oito annos,
escreveu o seguinte:--Faamos hoje o sacrificio da vida, com o maior
respeito, pois somos todos filhos d'este paiz dos deuses.--Sugimoto
Shirogora Minamoto no Yoshinaga, de trinta e quatro annos, escreveu o
seguinte:--Sinto o corao feliz pela agonia que soffro, ao dar a vida
pela patria; este, por um gesto respeitoso, offereceu as entranhas aos
francezes. Katsugase Saburoku Taira no Ioshihaya, de vinte e oito annos,
escreveu o seguinte:--Ninguem pde abalar no animo d'um _samurai_ o
sentimento que tributa ao seu senhor.--Iamamoto Tetsusuka Minamoto no
Toshiwo, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--Muitos condemnam
a alma do _samurai_; pensaro de outro modo aquelles que bem a
conhecem.--Morishita Mokichi Fujiwara no Shigemasa, de trinta e nove
annos, escreveu o seguinte:--Abramos o caminho aos ignorantes, a fim de
alumiar o mundo.--Kitashiro Kensuke Minamoto no Katayoshi, de trinta e
seis annos, escreveu o seguinte:--Para legar o seu nome  posteridade
ha um meio: o sacrificio da vida.--Inada Kwannoyo Fujiwara no
Norashige, de vinte e oito annos, escreveu o seguinte:--Os japonezes
no temem de perder a vida; tambem a cerejeira, rainha das arvores pelas
suas flres, perde um dia essas flres.--Yanagase Tsuneshichi Fujiwara
no Yoshiyoshi, de vinte e seis annos, escreveu o
seguinte:--Sacrifiquemos aqui as nossas vidas, e mostremos aos
estrangeiros o que vale a nobre coragem japoneza.--Contando bem, so
onze j. Parou aqui a scena, porque o commandante do _Dupleix_, notando
j onze mortos para expiao dos onze crimes, deu-se por satisfeito,
pediu que cessasse aquelle espectaculo assombroso. Dos _samurais_
perdoados, um suicidou-se em breve trecho, dando de barato a graa pela
honra de morrer com os seus; os outros dispersaram-se; vive um ainda
hoje, presumo que em Nagoya, um interessante velhinho, que reconta de
bom grado as peripecias d'aquelle horrivel drama.

Os onze _samurais_ foram alli mesmo enterrados, no cemiterio, junto ao
templo. Ainda ha pouco l estive. O templo  um placido retiro de sombra
e de silencio, tam velho, que ha alguns mezes um rijo vendaval quasi o
desfez em p.

Os peregrinos visitam primeiro um jardim interior, onde uma arvore
sagrada, um enorme sagueiro, occupa o espao todo, lanando em volta as
suas palmas verdes. A lenda d-lhe mui longos annos de existencia, e
reza que ha quasi quatro seculos o shogun Nobunaga tanto se agradou
d'aquella arvore, que mandou arrancal-a e transportar para um dos seus
jardins; mas tanto se mirrava o sagueiro, e tanto se lamentava noite e
dia, que no houve remedio seno trazel-o de novo ao velho poiso.

Do jardim, passa-se ao pequeno cemiterio. As sepulturas, apresentando a
frma de cubos de granito, aconchegam-se, agrupam-se n'uma intimidade
commovente; por entre as pedras, tufam e florescem as azaleas e verdejam
os musgos, e mos piedosas vem depr ramos de flres e de verdura.
Entre estas sepulturas contam-se as dos onze _samurais_. Mais adeante,
as urnas de charo que serviram ao supplicio, alinham-se n'um altar, e
ainda se distinguem manchas negras, do sangue derramado.

       *       *       *       *       *

Como eu dizia ha pouco, os annos passaram sobre os factos e esfriaram os
rancores. N'estes dois cemiterios, de Kobe e de Sakai, nem j existe
sequer o p dos ossos, existem s legendas. Em Kobe, as onze sepulturas
evocam no espirito esse periodo de frenesi da Europa, de curiosidade, de
cubia, em face da morna inercia d'este canto do mundo; e as esquadras
que o devassam, que o visam com os canhes; e os diplomatas que
intrigam, que teimam, conduzindo o finalmente,  fora, ao convivio das
naes; e, como peripecias infimas, quasi olvidadas e no pesando na
marcha progressiva dos negocios, o sacrificio inglorio de alguns
humildes obreiros d'essa empreza... Em Sakai, as onze sepulturas
rememoram a desesperada resistencia d'uma tribu feliz, contra aquelles
que vinham arrancal-a aos seus sonhos amorosos, rasgar-lhe a lenda e a
crena, e bradar-lhe que ser-se assim ditoso, j no  permittido.
Pobres mortos! abrao com um mesmo olhar d'alma, enternecido, as vinte e
duas campas...

1900.

[Figura]




O ESPELHO DE MATSUYAMA

                                          s Filhas de Carlos Campos


Viveu ha muito tempo no Japo um feliz casal de gente rustica, modelo de
virtudes conjugaes; eram elles, os dois, e uma filhinha, o seu encanto.
O povo varreu j da memoria os nomes d'essa gente; no admira, quando se
pense que tantos seculos passaram. Indica-se apenas o logar,
_Matsuyama_, que quer dizer _Montanha dos pinheiros_, na provincia de
Echigo. Esta ligeira indicao basta para que imaginemos o scenario:
serranias, pinheiraes, succedendo-se a serranias, pinheiraes; a terra, a
rocha, ffas de musgos, de fetos, de herva brava; coves, precipicios,
cachoeiras, por onde a agua golfa, espuma e rumoreja; pios de corvos e
hymnos de cigarras; raros caminhos serpeando, calcados pelas sandalias
dos que passam; e aqui, e alem, alguma humilde cabana de aldees, de
barro e colmo, aonde a vida intima, aps as horas de labuta, desliza em
longos repousos sobre a esteira, em simplicidades primitivas, em face da
grande paz da scena agreste, e do azul sem fim dos largos horisontes.
N'uma d'essas cabanas vivia o casal a que alludi.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Ora, aconteceu uma vez que negocios muito graves chamaram o marido 
faustuosa cidade,  capital de todo o imperio. Figure-se o alvoroo e o
rebolio na choupana. Em coisas de viagem, a experiencia da esposa
resumia-se ao trilho que segura raras vezes, em duas horas de caminho,
do seu lar ao logarejo mais visinho. Alanceavam-n'a agora varios sustos,
acudiam-lhe ao espirito no sei que perigos e trabalhos, maleficios dos
genios das florestas, mil revezes a que se ia expr o companheiro... Por
outro lado, envaidava-se com a ida de ser elle o primeiro do logar que
ia vr por seus olhos a manso da crte e do soberano, e contemplar as
grandes maravilhas que l por certo havia. Ella ficava; ella tinha a sua
pequerrucha e o cuidado do lar; e, embora mordida de saudades, devia
resignar-se aos deveres do seu mister, e aos anceios d'aquella dura
ausencia.

E que terna que foi a despedida!... Beijos e abraos no se deram,
porque os japonezes no do nem beijos nem abraos; lagrimas no
correram, porque os japonezes nunca choram; mas fram tantas as mesuras
e tantos os sorrisos, e tam longa a ultima palestra, elle promettendo
voltar breve, ella prodigalisando mil conselhos, que era mesmo um regalo
contemplar casal tam meigo e tam feliz!...

E l foi o marido.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Passaram-se semanas e semanas; para encurtar razes, annuncia-se agora o
regresso do sujeito.  vl-a ento, a cirandeira, ora varrendo, ora
lavando ora arrumando, dispondo a choa em festa para a ditosa hora da
chegada.  a pequenita certamente que mais cuidados lhe merece: o
_kimonosinho_ de crepe de seda preciosa, a faixa da cintura, a flr para
o cabello, tudo novo, tudo fresco, tudo lindo, se pe de parte, se
examina; e os dedos finos da maman, em curvas adoraveis, saltam, vam,
aqui alizam pregas, alli compem laos, com habilidades unicas,
prodigiosas; convem saber que no ha mos mais bonitas e mais destras do
que as mos das japonezas, nem mes mais carinhosas do que estas mamans
do Dai-Nippon. Ella propria, a maman, tambem cuida de si, no se furta
aos adornos, no por arte talvez, por instinto do sexo; e eil-a enfiando
os ps ns em grandes soccos novos, de charo negro e luzente, e
estreando um _kimono_ catita, azul e branco. E l vo ellas, as duas,
certo dia, trilhos fra, tic-tac, tic-tac, ao encontro do homem.

       *       *       *       *       *

Ai, que jubilos, ao toparem com elle so e salvo, todo chibante,
bamboleando-se no seu passo vagaroso, para mais prolongar tam doce
transe!...--Bons dias, senhor marido! Bons dias, senhor meu pae!--e os
corpos agaxam-se em mesuras, e as cabecitas vo quasi tocar o cho do
campo. E como a pequerrucha bate as palmas, e se lhe accendem os
olhitos, quando elle logo alli lhe quer vasar no regao a caixa de
bonecos que comprra, carretas de madeira, raposas de pellucia, uma
viola, minusculos apparelhos de cosinha e muitas outras maravilhas!...
Elle promette entreter dias inteiros, s com a narrao do que seus
olhos viram: theatros regorgitando de _musums_, vestidas como deusas;
principes em comitivas resplendentes, passeando em liteiras de charo, e
o povo prostrado a adoral-os pelas ruas; serenatas nos rios, barcos
vogando a transbordarem de mulheres e enfeitados com bales, gemem as
cordas das violas e estalejam nos ares foguetes de mil cres; templos
gigantes e enormes sinos badalando; palacios cheios de luxo; jardins
cheios de flres; e por toda a parte a immensa multido, de velhos, de
rapazes, de meninos, feliz, risonha, pachorrenta; e a immensa industria
dos bazares, chares, oiros, sedas, porcellanas, adornos sem conta nem
medida, tudo digno de ir adornar manses de fadas, no mundo das
chimeras!...

O marido passou depois s mositas da esposa, tremulas de emoo, um
bello cofre de madeira branca, cuidadosamente fechado, e disse-lhe
isto:--No me esqueci de ti, como ests vendo; trago-te uma coisa muito
linda, que tu de certo no conheces, um espelho, um _kagami_, como lhe
chamam na cidade.--Ella ento, abrindo o cofre, observou a offerta; era
um grande disco de metal, com o seu cabo, tendo uma face prateada, com
relevos de folhagem de bambu e vos de cegonhas, e a outra face limpida
e brilhante como um puro crystal.

 bom saber-se que, sendo a industria do vidro recentissima no Japo, s
ha mui pouco tempo aqui se conheceram os espelhinhos reles da industria
occidental; nos velhos tempos, os espelhos do paiz eram metalicos, de
preciosa liga e artistico trabalho, objectos caros excluidos, do lar dos
aldees; de sorte que  presumivel, dada a simplicidade de alma da pobre
gente rustica de ento, que as bellas ignorassem que eram bellas, por
nem no espelho da agua das ribeiras se mirarem. Mas vamos ns 
historia, excluindo divagaes que pouco interessam.

Dizia o marido  companheira:--Olha bem para a face brilhante d'este
espelho e conta-me o que vs.--Ella era toda olhos, toda surpresas,
toda extasis; e respondeu por fim que via o rosto de uma mulher muito
gentil, com um oval de enfeitiar, com uns olhinhos negros muito doces,
com uma rubra boquinha de cubia. Disse mais que essa mulher no cessava
de fital-a; e se ria, a mulher ria; e se fallava, os labios da mulher
acompanhavam-n'a no gesto; e, para cumulo de estranheza, vestia um
_kimono_ azul e branco, igual ao seu, que ella trazia... O marido
sorria-se, j com uns ares de doutor, que da viagem lhe provinham; e foi
benevolamente convencendo-a de que essa mulher era ella mesma, e que o
espelho, por um mysterio que elle no sabia explicar, apenas reproduzia
a sua imagem, os seus encantos proprios; l na cidade, muitas raparigas
possuiam espelhos como aquelle, e n'elles se viam e reviam, ora compondo
as voltas do cabello, ora pintando os labios de escarlate, ora por mero
passatempo de se acharem bonitas, as garridas. A esposa ficou ento
louquinha com o presente; e... diga-se toda a verdade: cheia de orgulho
de si mesma, por se vr tam catita, tam fresca, apetecivel. Fram
semanas e semanas votadas a esse enlevo, a mirar-se, a namorar-se--quem
no lhe relevar essa vaidade?--at que finalmente convenceu-se de que
um espelho era joia preciosa de mais para servir todos os dias, alli na
choa na, na solido dos bosques; assim se explica o caso de ter elle
ido parar dentro de uma gaveta, esquecido de mistura com as velhas
reliquias da familia.

       *       *       *       *       *

E vo passando os dias, os mezes e os annos. A felicidade bafeja
constantemente aquelle lar. A grande alegria do casal  a filha, que
cresce em mimos, tornando-se a verdadeira imagem da maman, e como ella
submissa, e como ella affectuosa, e como ella activa na labuta. Vaidades
de mulher, que tanto prejudicam no futuro as raparigas, no as tinha; e
deve aqui prestar-se inteiro applauso  previdencia da maman, que em
lembrana dos seus caprichos de outro tempo, passageiros, nunca 
mocinha confiou o espelho, velha joia sem uso, esquecida na gaveta.

       *       *       *       *       *

E vo passando os dias, os mezes e os annos. Muitos annos. A me, uma
velhinha com a alvura da neve por cr dos seus cabellos, jaz prostrada
na cama, sem foras, moribunda; a filha, junto d'ella, multiplica-se em
cuidados, anima a triste enferma.

[Figura]

A custo, diz a velha:--Sinto que morro, vae-me fugindo a luz dos olhos.
Vou deixar-te, e o nosso velho amigo.  isto que me pesa; cheguei a
persuadir-me de que este nosso bem no tinha fim. Por ti, tam s que
ficas, receio muito, filha: o mundo  um grande mar, cheio de escolhos e
de perigos...--E deteve-se e pz-se a meditar por muito tempo, passando
pela fronte os dedos descarnados; ento, um pensamento lhe acudiu, uma
d'essas travessuras de velha que s redundam para o bem, e proseguiu
d'esta maneira:--Olha, tenho uma ida: toma este espelho, este objecto
milagroso que veio de muito longe; e jura-me que uma vez em cada dia e
uma vez em cada noite, o irs vr. Eu te apparecerei ento, no mesmo
espelho; e assim, na minha companhia, ters mais animo na vida, mais
fora nas angustias, mais tento com as indecises da juventude e com os
males que te rodeem.--E a filha jurou isto; e a velha deixou-se morrer
serenamente, resignada, sorrindo  paizagem verde, sorrindo ao sol
festivo, que investia em faixas de ouro pela casa...

       *       *       *       *       *

A _musum_ cumpriu attentamente o juramento. Por esta forma percorreu a
via da existencia, tranquilla, sempre assistida pela me, que nunca
cessou de apparecer-lhe, quando, nas mos piedosas sustinha o espelho
milagroso. No era da moribunda, livida, prostrada em agonia,
desfallecendo pouco a pouco, a doce appario; era a maman gentil, de
outros tempos, cheia de louanias e sorrisos. Achava-se com ella n'um
placido convivio sem reservas, com ella palestrava, a ella confiava os
seus segredos, os seus sobresaltos de donzella; e n'aquella face pura
bebia conforto e recompensas.

O velho algumas vezes surprehendeu a filha com o espelho entre as mos,
sorrindo, murmurando singellas confidencias. Pareceu-lhe estranho o
caso; e ia um bello dia notar-lhe o disparate, quando a moa lhe fez uma
pergunta, por onde avaliou a chimera amorosa com que ella ia embalando o
pensamento.--Repare, senhor meu pae: no v no espelho a minha
me?...--O que o velho via claramente, era a imagem da filha, que alli
tinha junto de si em carne e osso,--e que carne! e que osso!--palpitante
de vida e gentileza... mas julgou mais prudente conserval-a sob o
prestigio da illuso; e, franzindo muito o rosto, de rude pergaminho,
sem que se percebesse se ria ou se chorava, ou se ria e chorava ao mesmo
tempo, fez cro com ella, assegurando que sim, que via a santa me, e
tam bella, e tam fresca, como no dia do noivado...

[Figura]

                                                               1900.




AMRES...

                                              A J. Godinho de Campos


Uma impresso de Macau.

[Figura]

O que faria aquelle bando de leprosos, que a policia da colonia
surprehendeu e agarrou? O que faria aquelle bando de leprosos, alm no
meio do rio, sobre um miseravel barco, pela noite velha, tenebrosa e
fria, ora pairando e deslisando ao grado da corrente, ora remando manso,
de margem para margem, em vigia?...

Elles eram uns ossudos filhos das aldeias, dando-nos de longe uma
impresso de robustez de musculos, de gente affeita  enxada e  vida de
lavoira. Vistos de perto, resaltava horrivelmente o ferrete de peonha
do seu sangue; eram indiscriptiveis seres inuteis, abjectos, quasi sem
mos, quasi sem ps, porque os dedos lhes iam caindo podres aos pedaos;
rostos medonhos lavrados pelo mal, sem narizes, com os beios roidos,
com as faces chagadas; ainda mais sinistros pela infamia estampada nas
feies e nos olhares, denunciando perversidades de alma de infimo
quilate, por certo derivadas da suprema degradao do seu viver. Vestiam
farrapos immundos, sem frma definida e sem cr reconhecivel; e
escondiam as frontes, talvez envergonhadas, sob as abas enormes dos
chapeus de rota, em uso nas aldeias.

Pescavam? por aquellas horas da noite e n'aquelle paradeiro, no era
admissivel esta supposio; nem no misero barco, onde se amontoavam
alguns trapos, se deu f de anzoes ou de outras artes de pescar.

Mendigavam? menos possivel ainda que assim fosse. A taes horas, dormem
todos, incluindo os mendigos. O rio dormia, silencioso, lugubre pelo
aspecto das suas aguas negras, dos cascos alterosos das grandes lrchas
juntas em magotes, desenhando-se vagamente junto s margens os barquitos
em cardumes, presos s varas de bamb encravadas no lodo. Apenas de
espao a espao algum raro _tanka_ atravessava d'um lado para outro,
chape-chape, remos movidos lentamente pelas mos das raparigas
somnarentas, fartas da lida do dia,--coisa de ir levar ao seu albergue
algum retardatario, de volta do jogo ou das orgias.--No era dos
nocturnos viajeiros, e menos dos pobres tankareiras, que o bando de
leprosos lograria um punhado de sapecas, que compensasse o esforo da
vigilia. Nem a sua miseria, realmente, era tal, que os levasse a to
duros extremos.  certo que o leproso se encontra excluido dos povoados.
Em paragens mais rusticas, matam-n'o  pedrada, se o encontram; em
Macau, porm, a brandura dos costumes regeita em regra esta medida,
tenha embora o miseravel de viver pelos esteiros, em barcos podres, ou
sobre os lodos, escondido das gentes como um bicho peonhento. No
entretanto, o esteiro fornece-lhe peixes vis, e caranguejos, e
molluscos, e vermes; os ces vadios encontram de quando em quando, nos
despejos, um punhado de arroz cosido, e o leproso tambem o encontra,
como elles. Na altivez da sua pasmosa abjeco, o leproso no vem
expr-se ao asco, ao opprobrio; sorri ao mundo com desdem, acoita-se no
antro, come immundicies, bebe agua pdre; e os fados so-lhe bastante
complacentes em geral, para matal-os da molestia antes que arrebentem
pela fome...

       *       *       *       *       *

Averiguou-se finalmente o que fazia aquelle bando de leprosos.

Aquelles infimos prias passavam a existencia isoladamente, cioso cada
qual do seu covil, dos seus farrapos, devorando sem partilha o que o
acaso lhe offerecia nos enxurros. Conheciam-se certamente, pela
visinhana dos antros, sobre a mesma vasa que se alastra na margem
fronteira  de Macau, e a fatalidade commum estabelecia de direito
affinidades, allianas tacitas de tribu, entre elles; mas, como no
carecessem uns dos outros para soffrerem, para odiarem a natureza
creadora, para jazerem no ninho da trapagem, para morrerem, no se
procuravam. Na imaginao immersa em trevas de cada um, rustica, pouco
elastica, e cultivada em ascos, em maldies, em misanthropias
rancorosas, nunca por certo passara a phantasia de vir insinuar-se na
turba, partilhar das suas distraces, relancear os festins, percorrer
os bazares, invadir os templos e os theatros. Mas na torva e lenta
elaborao do pensamento, durante os longos dias, os longos mezes, os
longos annos de isolamento e de ocio, um desejo se fra pouco a pouco
avolumando, definindo, convertido finalmente em tortura, amargurando
como uma dr constante e implacavel:--era a mulher, o desejo, a tortura
da mulher.--Prazeres do mundo no se queriam, nem mesmo se lhes
imaginavam os feitios; era-se superior a essa chimera. Mas, no ambiente
acariciador da vida, em presena das arvores fructificando, das flores
perfumadas, dos animaes requestando-se, os hymnos da terra, da creao
em galas, do amor dos sexos, vinham tambem echoar n'aquelles cerebros,
electrisar aquelles nervos; a viso da mulher, durante as mornas
monotonias sem termo, aparecia como um apetite crescente, como uma fome
de carne; e os miseraveis, allucinados pela obsecao de todos os
momentos, estremeciam, erguiam-se de subito do seu leito de trapos,
arquejantes, o sangue a escaldar-lhes as frontes, o olhar em fogo...

[Figura]

Ento, tacitamente, impz-se a cada qual a necessidade de fraternisar
com o seu visinho, de agremiar-se em bando. A unio faz a fora.
Procuraram-se, intenderam-se. Medonhos conciliabulos se passaram, a
coberto das trevas, pelas noites longas, sobre os lodos. Segredava-se,
aventurava-se um plano, discutia-se. Os olhos fuzilavam como raios, a
phrase rouca golfava dos labios, eloquente, persuasiva, os membros
disformes erguiam-se na sombra em gestos tragicos. E assim se escolheu o
barco menos podre, se nomeou a companha, o capito, se esperou por uma
noite mais escura, azada aos seus intentos. Assim tiveram inicio e
proseguiram os estranhos cruzeiros,  aventura. Eil-os, o bando immundo
dos gafados,  capa, pairando ou remando a medo, de manso, de manso,
silenciosamente, e prescrutando as trevas. Se ia passando algum _tanka_,
os ouvidos subtis e os olhos experimentados, estudavam, presumiam,
adivinhavam. Quando era chegado o bom momento, ento,--oh delirio
supremo!--n'um impeto de remadas e desejos, o barco voava, dava a
abordagem, os milhafres caiam sobre as victimas indefesas. Habeis no
ataque, com as mos sem dedos suffocavam os gritos das mulheres, a
murros, ou premindo; n'um relance, pelo faro, distinguiam das velhas as
moas, apartavam dos ossos duros a carne fofa e tenra; e com fome de
hyenas, as boccas pestilentas comiam, devoravam com beijos as pobres
raparigas, que em vo se debatiam na lucta tremenda d'uns instantes...

Aps, o barco dos leprosos seguia serenamente a atracar  margem
chineza, e elles dispersavam, mudos, quasi felizes, indifferentes por
momentos ao prurido das chagas; e semanas depois reuniam-se novamente.
No _tanka_, as moas ficavam-se chorando, arrepelando-se de horror, de
desespero, de vergonha por sua mofina sorte; e tanto mais mofina, que 
assim, por um beijo, segundo a voz do povo, que a lepra se propaga, se
multiplica de corpo para corpo.

                                                               1900.




UM PINTOR DE GATOS

                                            A D. Miguel de Mello.[1]


[Figura]

Era uma vez, em mui remotos tempos, uma familia de boa gente lavradora,
vivendo em certa aldeia do Japo. Marido, mulher e um rancho de filhos;
gente pobre,  claro; e ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o
camponez, para que no faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes
boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoo e do jantar. O mais
velho dos rapazes, j aos quatorze annos, robusto quasi como um homem,
comeava a ajudar o pae, nas varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem
as foras minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam
fazendo tambem o que podiam; at a irman pequena,--uma migalha de gente,
coitadita!--l ia alliviando a atarefada me na lida do casebre.

S o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um
inutil; no que elle fsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em
esperteza qualquer dos irmos ou das irmans; mas era enfezadito, debil
de musculo; e bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braos
tenros no haviam nascido para a enxada.--Faa-se d'elle um
bonzo,--combinaram; e foi n'esta inteno que um bello dia decidiram
leval-o ao templo do logar, e  presena do velho sacerdote, que era
como quem diz--o prior d'aquella freguezia.--O pae fallou e expoz a
questo, em quanto que a me approvava com a cabea; o reverendo, que em
breve trecho descobrira rara sagacidade na creana, consentiu em tomal-a
por pupillo, pensando talvez intimamente que alli o acaso lhe trazia um
digno successor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.

E ficou tudo resolvido.

       *       *       *       *       *

O novio mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e
piedoso; e tambem--valha a verdade--no lhe iam mal a rude tunica
amarella e a cabecita rapada  navalha, de preceito; mas como no ha
formosa sem seno, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos
proverbios se applica  humanidade inteira), tinha um defeito o
rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que  curioso: nas horas de
sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a
parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e to bem os
pintava,--faa-se-lhe justia n'este ponto,--que nenhum pintor at ento
pintou gatos melhor do que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do
convento, as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, os
rochedos,--forte mania de creana!--tudo servia, tudo era tela para
exercer a sua pecha. Por onde elle passava, por onde se quedasse dois
minutos, era logo a successo interminavel de desenhos, eram as curvas
caprichosas dos travessos felinos, de todos os tamanhos, em todas as
posturas, creio que at enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as
duas orelhas espetadas, o ctosito alado e petulante (os gatos
japonezes no tem rabo), a garra atrevida posta em guarda... Est-se a
adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; vezes sem
conto reprehendeu o _artista_ (como por ironia lhe chamava), tentando
dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia estudar com
atteno os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria sciencia
ao seu santo mister. Intento inutil: no por maldade, por instincto,
quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso.
At que finalmente, em certa occasio, o reverendo perdeu de todo a
paciencia e gritou ao moo incorregivel:--Vae-te embora! Foge da minha
vista!... Bom padre, nunca sers seguramente; sers talvez um bom
pintor.--A ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus
poucos haveres, pz a trouxinha s costas, e fez uma mesura ao padre
mestre.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Eil-o na rua, escorraado, em bem angustiosas condies. Que fazer?
Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria
da sua teimosia. Lembrou-se ento que a quatro leguas de distancia havia
uma outra aldeia, com um templo cheio de bonsos, e para l se
encaminhou, disposto a pedir abrigo e proteco aos padres. Era notorio
que o tal templo desde alguns mezes se achava abandonado, por n'elle ter
entrado um demonio, um espirito malfazejo, como tantos que abundavam
ento pelo Japo; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir l
dentro, mas nem um s voltou; porem estas noticias, que iam ja
apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos
do pequeno.

Era j noite escura quando alcanou a aldeia; o povo dormia nas
choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de collina, de
entre a rama das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma luz interior
bruxoleava, luz de esperana para a misera creana. Luz de esperana
parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim
manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de
poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate
terceira, sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta
empurral-o para abril-o; e ento, por um leve impulso dos seus braos,
achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos ps ns as suas
sandalias poeirentas.

Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um bonzo
s, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido
dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O
tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em
devassar o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que
abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as
suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de
limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se
fsse coisa abandonada.  que, provavelmente, aos santos bonzos faltava
o auxilio d'um acolyto, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as
manhs lavar, varrer e sacudir o p, arte exercida no Japo com especial
disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no
proprio interesse da communidade.

Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o
captiva, que  um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces
brancas; passra-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas
faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos,
assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma
subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido.
Cerca encontrou a classica escrivaninha japoneza,--a caixa com os
pinceis, com a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedao de
tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.--Mos  obra. O pincel
voava em curvas humoristicas; a mosinha inspirada corria, pullava de
alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a impresso propria
com habilidades prodigiosas. Assim fram apparecendo, sobre aquella tela
improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos gatos
desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do
passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de
fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; estendeu-se
sobre a esteira, e em breve adormeceu.

       *       *       *       *       *

L pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se
travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creana. Os gritos,
os gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento
visinho onde estivera; tremiam as paredes, o cho, a casa toda; a
pelleja durou at  madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a
esteira, immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para
que a sua presena no fsse presentida...

[Figura]

J com a manh clara e sol bem alto, ergueu-se ento, e animou-se a
espreitar um pouco para fra, por uma fenda da parede. Foi medonho o que
viu. No cho grandes poas de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da
casa, jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,--maior do que uma
vacca!... Mas quem matra o monstro, se ninguem parecia ter entrado?
Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintra tantos gatos; l
os viu, mas com os focinhos lambusados de sangue e as patinhas
igualmente; eram elles que tinham dado cabo do demonio...

       *       *       *       *       *

O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda
hoje se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.

       *       *       *       *       *

O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade,
da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o
permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crr em coisas do diabo,
embora mesmo no Japo, concluo que, se a rata do convento era tam
grande,  que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de
gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras
terras, dos frades portuguezes por exemplo, faz honra  sobridade de
habitos dos maganos, pois no consta que jamais os presuntos e a
marmellada de reserva nutrissem uma rata lambareira at attingir igual
tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores
do meu paiz esto bem longe do trao creador dos pintores do Dai-Nippon.
Por ultimo (e talvez esta final concluso seja a mais util), vejo que s
vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, so
as que mais nos valem n'este mundo.

[Figura]

1901.




IMPRESSES RAPIDAS

                                               A S. Peres Rodrigues.


Era uma noite de luar do mez de abril, esplendida. Eu seguia pelo
caminho de Suwayama, na parte mais elevada da cidade. De um lado
alinham-se as casinhas japonezas, entre ellas as mais famosas _chayas_
de Kobe, _Tokiwa_ e outras, onde os japonezes vem folgar; do outro
lado,  a rampa ingreme, coberta de pinheiros, e sbe a collina inculta,
em corcovas accidentadas, onde assenta um templo notavel.

Nas _chayas_, segundo o costume, havia festa. As corredias de papel
estavam fechadas; mas a luz interior coava-se para fra vivamente,
desenhando alguns vultos dos convivas em sombrinhas deliciosas; eram os
vultos d'elles, dos amigos reunidos, certamente banqueteando-se sobre a
esteira, e eram os vultos d'ellas, das _gueshas_, que lhes iriam vasando
o vinho nas taasinhas de fina porcellana, e cantando balladas ao som do
_shamicen_. Musica, cantigas, gargalhadas, chegavam-me aos ouvidos n'um
vago sussurro de alegria.

Na minha frente iam seguindo uns cinco sujeitos europeus, gente de
distincta sociedade, a julgar pelo esmero do trajo e da linguagem, e
pelo aroma dos soberbos charutos que fumavam. Iam fallando inglez. Dois
discutiam finana:--o Japo atravessava uma crise economica terrivel; os
cofres do governo, segundo as apparencias, exhauriam-se; o trafego em
marasmo; duas grandes fabricas de Osaka, constava, suspendiam o
trabalho...--Os tres outros palestravam de politica:--primeiro foi o
Transvaal, e fez-se a conta de quantos boers haviam j caido sob o
chuveiro das balas inglezas; depois saltou-se ao Extremo-Oriente; a
Russia ameaava o imperio japonez; apparecesse um pretexto, o mais leve,
o mais futil, e era a guerra; discutiam-se as probabilidades da
victoria, presumiam-se os estragos, o numero de victimas no primeiro
embate das esquadras...--Teriam talvez muita razo, todos os cinco; mas
ia-me parecendo aquella gente um bando de mochos agoirentos, folgando
com a ruina, dando-se bem com o fetido dos mortos. Para elles no
nascera, imaginava eu, aquella lua esplendida, que ia alumiando o espao
todo e espargindo sobre a terra uma chuva de prata; nem era para elles
que os pinheiros de Suwayama se enchiam agora de rebentos viosos; nem
para os seus pulmes que o ar vinha oloroso de florescencias
multiplices, distantes. Suppunha-os, coitados, dyspepticos, biliosos,
misanthropos, perseguidos nos fofos leitos por cruciantes pesadelos.

N'aquelle ponto, as _gueshas_ de Suwayama entoavam uma cantiga popular,
que assim comea:--_Haru wa, ureshiki_...--cujas primeiras estrophes
se podem traduzir, pouco bem, por estas duas quadras:


      Na primavera, enlevae-vos
    Nas cerejeiras em flor.
    No v'ro, folgae nas ribeiras,
    Quando se abraza em calor.

      No outono, vde a folhagem,
    Toda escarlate, voando.
    No inverno, espreite-se a neve,
   Bebendo vinho e cantando.

       *       *       *       *       *

Quando eu escrevi a _Primavera_, e a offereci a um delicado amigo,
prometti a mim mesmo, e creio que tambem a elle prometti, completar com
pachorra e vagar, os aspectos das estaes, aos quaes o tempo, o sol, a
cor do ceu, n'este paiz deslumbrante de scenarios, imprimem mais
intensivamente, mais emotivamente do que em outro logar, feies
differentes e imprevistas. Por preguia ou outras causas, no cumpri a
promessa, com o que,--valha a verdade,--nada se perdeu que falta faa;
mas, succedendo agora que tenho de reunir em volume umas impresses
dispersas, que intitulei _Paizagens_, pareceu-me indispensavel, por um
melindre de consciencia litteraria, voltar ao assumpto, concluil-o.
Pede-me pressa um editor bondoso. Tomo o negocio de empreitada; reuno as
ligeiras notas soltas que encontro em esquecidos papeis velhos.

Antes assim. Impresses do acaso, apontamentos rapidos, vo-me parecendo
preferiveis a um longo estudo que intentasse das mutaes de scena que
hoje, amanh, meus olhos relanceam; e no perco o ensejo, por natural
intuito de desculpar-me perante quem me lr, de traduzir aqui uma
deliciosa pagina de um livro francez, tambem sobre o Japo, escripto ha
poucos annos.--As circumstancias concorrem mais para a inspirao, do
que todos os esforos do homem, e a experiencia quotidiana  a grande
instigadora das imaginaes. Vde em litteratura: de ordinario, tanto
mais breve  um trabalho, ou, se  extenso, tanto mais  feito de
pedaos, de fragmentos escriptos primitivamente ao acaso dos tempos,
tanto melhor elle ; um longo livro de historia, um longo romance, um
longo tratado de philosophia ou de moral, jamais valero um conjuncto de
memorias, uma curta novella, um jornal intimo ou um caderno de
pensamentos, e jamais um poeta epico alcanar o vio de vida que d ao
improviso feliz tamanho encanto; porventura, o homem sensato deveria
decidir-se a no publicar seno volumes de paginas destacadas.

Pretendo ser sensato uma vez na minha vida.

       *       *       *       *       *

Vero.

Um calor de fornalha. Na Africa, na China, no  mais suffocante. O
enervamento  enorme. Desfalece-se de preguia, de langor.

No entretanto,  no estio que o Japo alcana a sua genuina feio
typica, pela natureza e pelo povo, descripta pela lenda, pintada pela
arte e como os estranhos a imaginam.

A terra  toda verde. Crescem as mattas, trepa a herva, viceja o mar de
arroz nas varzeas alagadas. Nos jardins, floresce a _asagao_, a
caprichosa trepadeira, cujas flores, as frescas campanulas de todas as
cores imaginaveis, duram o espao de uma madrugada; nas aguas, floresce
o lotus.

O vestuario attinge a maior simplicidade; um unico _kimono_ de algodo
azul e branco, amarrado na cintura,  tudo... e s vezes nem  tanto. O
europeu, quando ainda estranho ao meio, encara ento surpreso este Japo
nu ou quasi nu, passeando sem cerimonia as suas pernas, os seus braos,
os seus collos, os seus seios e ainda mais,--exposio paradoxal de
grotescos e de encantos...

A casa, durante o dia, tambem se despe; despe-se das suas paredes de
papel, ficam o telhado e quatro ripas; patenteam-se aos olhos de toda a
gente, o lar, a vida intima.

 a epocha das peregrinaes, das excurses aos templos, aos logares
frescos, onde ha brisas, onde ha sombras, onde ha aguas. Trepa-se ao
Fujiyama, a montanha sagrada. Busca-se o abrigo de um pinheiro, para
petiscar, para folgar em companhia; e os corpos estendem-se na relva,
como repetis. As _musums_ vo molhar os psitos nas areias das praias,
para colherem algas e mariscos. As ribeiras convidam: n'umas, entre
juncos,  a caa nocturna aos pyrilampos; n'outras,--o Sunsidagawa em
Tokio, o Iodogawa em Osaka,--em noites calmas,  a flotilha immensa dos
barcos de prazer, todos elles sanefas multicores, lanternas, bales,
galhardetes, harmonias de instrumentos, festins, rapazes, raparigas,
amores...

[Figura]

       *       *       *       *       *

Outono.

Em novembro floresce a chrysanthema, a flor heraldica. Estupenda coisa.
No me parece flor; antes um monstro, com a sua enorme cabelleira de mil
petalas, contorcidas como tentaculos de um polypo, em coloraes
indefiniveis. Alinhadas nos jardins, sob tendas de abrigo, as
chrysanthemas lembram mulheres, lembram-me cortezs de Ioshiwara, quando
ellas vestem os ricos mantos polychromos, quando ellas enfeitam os
cabellos com diademas de espavento, e vem postar-se em filas, princezas
pompejantes do vicio, encantadoras e perversas...

No outono, a folhagem do arvoredo perde naturalmente o verde, e cobre-se
das cores mais vivas e mais estranhas, o amarello, o vermelho, o roxo,
em cambiantes varios. A paizagem offerece ento um luxo de tintas
innarravel; momentaneo, porque as brisas vem breve despir os troncos, e
juncar de folhas mortas os campos e os caminhos. A delicada arvore que
aqui chamam _momiji_, de graciosas folhas digitadas, torna-se toda em
purpura, como em fogo; ao abrigo da sua rama ardente acolhe-se o povo,
em magotes, que vem rir, que vem beber, que vem folgar, arrebatado pela
scena, que  sem rival em maravilhas.

       *       *       *       *       *

O inverno.

[Figura]

Mas ha inverno no Japo? Julgo que sim, pois gela a agua nos charcos e
ribeiros, cae profusa a neve, alvejam no horisonte as serras, como
embrulhadas em lenoes. No entretanto, ainda ao sol de dezembro
desabrocha a chrysanthema, e j em janeiro as ameixeeiras, nuas de
folhas, comeam a florir. Seja pois um inverno de flores.  certo que
essa grande desolao das longas invernias dos climas temperados 
desconhecida em solo japonez. A paizagem  sempre alegre; o ceu  sempre
azul; os pinheiros, que so as arvores que mais abundam, sempre verdes.
Se ento se prolongam mais as palestras em roda do brazeiro, chegando os
deditos ao calor, tomando ch, o povo no cessa de affluir aos theatros,
aos bazares, aos templos, aos jardins; apenas, por cuidado ou
garridismo, as _Musums_ cobrem com um manto de delicada cor as
cabecinhas petulantes, deixando vr do rosto apenas uma nesga da fronte
e os olhos negros, humidos de amor e de mysterio... deve ser antes
garridismo, pois ficam d'este modo mais seductoras do que nunca.

[Figura]

A neve, que constitue uma calamidade em tantas regies, entra aqui no
rol das coisas deleitosas. Tanto  assim, que as mulheres, cujos nomes
so sempre mimosos como ellas, lembrando flores ou outras gentilezas, se
apropriam do termo com frequencia:--_Yuki-San_, a Senhora Neve, ou com
mais cortezia, _ Yuki-San_, a Nobre Senhora Neve,  nome muito em uso.
A nevada, sem que prejudique o povo na vida e no conforto, vem branquear
as serranias, os campos e as estradas, esplendida apothose de alvuras e
purezas; rendilha as arvores de crystalinos ornamentos, ostentando-se
como uma florescencia immensa, uniforme, que brotasse dos restolhos, da
herva, dos bambus, dos cedros, dos pinheiros; sobre os telhados das
casas e dos templos, sobre os dorsos das grandes raposas de granito que
d'estes se avisinham, sobre as lanternas de pedra dos jardins, demora-se
em fofos floccos, que do s coisas proximas, realces seductores; por
onde a agua corre e se despenha, o frio congela as gottas, adormece-as,
transforma-as em recortadas estalactites, que um raio de sol mais quente
vir em breve desfazer.

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No vocabulario japonez, tam amorosamente naturalista, ha um termo de que
agora me recordo, que no tem, como muitos, synonimo em linguas
europeas;  _yukimi_. _Yukimi_ quer dizer:--excurso ou banquete
preparado para ir vr cair a neve.--Nas _chayas_, em certos sitios
pittorescos, exemplo--as collinas de Kioto,--combinam-se reunies; vem
os rapazes, vem as _gueshas_ com as guitarras, comea a festa ruidosa,
interrompida a espaos pela contemplao muda do espectaculo que se
offerece; no entretanto, a neve vae caindo n'uma chuva continua de
folhepos, ligeiramente sussurante, de um ruge-ruge de sedas que
arrastassem, vestindo o solo, as arvores, o colmo das choupanas,
poisando mesmo nos vestidos e nas mos brancas como a neve das moas
irriquietas...

       *       *       *       *       *

Outro assumpto: a historia da arte.

No Japo, no ha nem houve nunca, sabios;  medida, penso eu, de hygiene
nacional, consequencia de antigos habitos de limpeza das creadas, que os
sacodem do solo como sacodem as teias de aranha das paredes. No
respeitante a historia,  evidente que o officio de historiador, com a
secura e a frieza que lhe suppomos inherentes, no existe. A historia
japoneza  feita pelo povo, incluindo a collaborao preciosa das
velhas, das raparigas, dos garotos; emana das tradies, da lenda e da
intuio sentimental das massas. Recorda por este facto os evangelhos
biblicos, escriptos pelos rudes discipulos de Christo, pobres e simples
pescadores alheios ao convivio dos classicos, sem sciencia e sem arte,
mas abrazados em poesia, em crenas, em amor. Na historia japoneza,
palpita, como nas paginas da Biblia, a alma da tribu, propensa, pela
tendencia geral da gente rustica, ao milagre,  maravilha, ao
inverosimil; convindo apenas no esquecer que o japonez, menos idealista
do que o hebreu, no vae mui alto no mundo das chimeras, voeja terra a
terra, aprazendo-se em entretecer de graciosas fabulaes as aventuras
dos seus homens illustres. A historia da arte, para este povo feito todo
de artistas, sempre sob o arrebatamento das bellezas naturaes do seu
paiz,  um dos capitulos preferidos, por onde mais rodopia sem freio a
phantasia; e  d'este capitulo da arte que eu destaco algumas graciosas
lendas que se seguem.

       *       *       *       *       *

O bonzo Chyo Densu, que viveu pela primeira metade do nosso seculo XV,
foi um grande pintor em coisas religiosas.

Sendo novio n'um templo da Kioto, Tofukuji, conta-se que j se dava 
pintura com paixo, incorrendo por esta frma no desagrado do superior
Daid, que o ia asperamente reprehendendo. Certo dia, acabava elle de
pintar um retrato de Buddha, quando sente passos de Daid, que se
approxima do seu poiso; rapidamente, esconde o desenho entre os joelhos;
o vulto entra na cella, esbrugando as suas contas, resmungando; do
resplandor do deus subito irradiam chammas de apothose, que innundam de
luz a casa toda; a falta do novio estava assim conhecida; mas tambem
perdoada, pois Daid humilhou-se a este avizo do co, e nunca mais
atormentou o seu discipulo.

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J no fim da existencia, dignou-se uma vez o Shogun recompensal-o dos
seus muitos servios, dizendo-lhe que pedisse o que quizesse.--De nada
careo n'este mundo, retorquiu Chyo Densu, tendo em cada dia um _kimono_
lavado para vestir e uma tijela com arroz; s vos supplico, senhor, que
por vossa ordem terminante sejam cortadas cerces todas as cerejeiras do
jardim d'este templo, para que de futuro se no torne um logar de folia
e desacato.--Foi-lhe o desejo satisfeito; e em Tofukuji, ainda at
hoje, nem um s p de cerejeira floresce.

       *       *       *       *       *

Tadahira, do nosso seculo X, pintou certo dia um cuco sobre o panno de
um leque. Tam perfeito era o cuco, tam inspirado de verdade foi o pincel
que o desenhou, que em todas as vezes que alguem abria o leque, o cuco,
assim exposto  luz do dia e  paizagem, acordava, soltava o pio
habitual dos cucos. Maravilha!...

       *       *       *       *       *

Maruyama Okio, nome moderno, pois  do seculo XVIII, foi pintor muito
celebre, a ultima gloria talvez da escola classica, convencional, mas
cheio de amoroso realismo nas suas concepes. Um seu cliente fizera-lhe
encommenda de desenhar um urso bravo. O consciencioso Okio pede a certo
aldeo do seu conhecimento que o avise de quando algum apparea pela
serra; o aviso vem ligeiro, pois abundam taes bichos no Japo, e eil o
que parte, com a tinta, com os pinceis e com o mais de que carece.
Levado pelos campos, depara com o animal dormindo junto a uma arvore.
Mos  obra, e em curto espao conclue o seu trabalho e se retira; mas
dentro em pouco rasgava a tela, desgostoso, depois de a ter mostrado a
um caador de officio, em ursos entendido, o qual lhe observou que
achava bello o quadro, mas falho de verdade aps um exame attento, pois
no traduzia a imagem a vaga ondulao que  propria ao arfar do corpo
que respira. O melhor da passagem foi ter, annos corridos, contado o
aldeo ao bom Okio que o tal urso da serra se quedava dias e dias junto
 arvore; at que se deu f, entre curiosos, que o bicho no dormia, mas
se achava alli caido morto...

[Figura]

       *       *       *       *       *

Sonhou um dia o Shogun, Generalissimo do imperio, que um padre lhe
apparecia e lhe dizia estas palavras:--Eu sou o defunto superior do
templo de Kurama; e rogo-vos, senhor, que ordeneis a Kano Motonoba de
pintar o meu retrato, para ser collocado no templo onde passei meus
longos dias de existencia.--Acordando, mandou chamar o grande artista,
fez-lhe a encommenda, e soube ento que elle tivera igual viso durante
a mesma noite.

O peor  que Kano no conhecera o reverendo, nem lhe constava que
existisse um s retrato para modelo. A tarefa era ingrata. O pintor
passou ento dias sem conto, tendo na frente a tela nua, pincel em punho
e tinta preparada, immovel, perplexo, desesperado de jamais poder
realisar o seu intento. Foi em um d'aquelles dias que uma aranha desceu
do alto do tecto lentamente at poisar na tela, onde teceu a sua teia,
que era nada menos que o esboo do frade a traos rapidos; Kano
limitou-se a completar a obra em seus faceis detalhes.

Outra difficuldade se levanta: Kano desenhra um retrato gigante, em uma
grande tela, no reflectindo a principio que nunca poderia conseguir que
passasse pela porta do seu modesto albergue. Quando concluido e como o
problema se apresentasse irresoluvel, eis sopra de repente uma rajada em
furia, que deita a terra uma parede do albergue, e leva em triumpho,
pelos ares, o primoroso quadro at ao templo de Kurama, onde at hoje
est, e os visitantes o admiram.

       *       *       *       *       *

[Figura]

Sesshiu, um nome glorioso entre a pleiade dos pintores do Dai-Nippon,
entrra como novio aos treze annos no templo de Hofukuji. Sabe-se que,
durante a sua aprendizagem, mais se applicava  arte do que s praticas
devotas. Uma vez, por uma offensa d'este genero, foi posto em penitencia
junto a uma columna do templo, durante longas horas, com as mos atraz
das costas, fortemente amarradas. Quando o superior vinha
soltal-o,--imagine-se o espanto do sujeito!--eis que surde de junto dos
ps do pobre moo um bando de ratinhos, que se escapam espavoridos pela
casa. Qual era a explicao de tam estupendo caso? Eu lhes conto: o
penitente, choroso e inactivo, fra entretendo o tempo a pintar sobre o
sobrado poeirento aquelles galantes animaes, servindo-se das proprias
lagrimas como tinta, e do dedo grande do p nu, como pincel;
logicamente, os ratos salvavam das iras do velhote as preciosas vidas
com que o artista acabava de dotal-os.

       *       *       *       *       *

Esta  uma velha lenda classica da religio de Shinto.

O templo shintoista de Shimo-Gamo, em Kioto,  dedicado  deusa
Tamayeri-hime. Esta menina, antes de dar pretexto aos fieis para ser
adorada, achava-se uma vez dedilhando sentidas melodias na guitarra, 
beira do rio Seminogarva, quando avistou boiando  tona de agua uma
feicha vermelha, encimada de lindas pennas de certa ave das selvas.
Colheu-a e levou-a para casa, collocando-a junto do seu leito. Acto
continuo, succedeu a maravilha de dar  luz um filho. Seus paes,
descrentes de artes milagrosas, e a despeito dos mil protestos de
innocencia que ella lhes fez, singelamente, no acreditaram no milagre,
accusando-a da falta que mais pde envergonhar uma mulher honesta.

Passados annos, Taketsumi-no-Mikoto, o pae da desolada, resolveu aclarar
este mysterio. Em tal designio, offereceu um banquete a todos os
visinhos; e quando estavam todos reunidos, dirigindo-se ao neto, e
entregando-lhe uma taa cheia de _sak_, que  o vinho do paiz,
disse-lhe isto.--Leva-a a teu pae--A creana, obedecendo, saiu para a
rua e poz-se a contemplar o co, e ia murmurando uma orao; de subito,
transforma-se n'um raio, que corisca, subindo s regies celestes,
acompanhado pela me, para a qual comeou assim a glorificao.

       *       *       *       *       *

Encontrei-me, em pleno dia, n'um luxuoso bairro indigena, que me
disseram chamar-se a _Cidade-Nocturna_, pois s com a noite acorda, e s
na noite vive, deslumbrante de galas, de lumes, de harmonias, de povo
alegre que transita, para cair em repouso ao alvorecer da madrugada.

quella hora, a estranha cidade, esbrazeando a um sol de intensidades
tropicaes, do mez de Agosto, modorrava; torpida quietao; raros vultos
se viam,--mendigos, vadios, prias da vida,--cosidos com as nesgas de
sombra dos edificios e das arvores que ajardinam ao centro as avenidas.

[Figura]

Fixei casualmente a atteno n'um edificio mais pomposo, de vastas
dimenses, todo de madeira nova, alto de quatro ou cinco andares,
rodeado de varandas, d'onde pendiam a arejar ricas colchas de seda e
mantos de matiz; no sei que caravanar de mysteriosos habitos,
aquelle, silencioso tambem quella hora, mas dando de si a ida de
conter nos seus arcanos uma legio do moradores.

Ao centro d'este edificio erguia-se em triumpho um amplo portal, de
madeiras lustrosas; seguia-se-lhe um vestibulo; depois alguns degraus de
escada, acharoados; e ao fundo, muito ao fundo, havia passadias
cobertas de esteiras muito limpas, corredias entreabertas patenteando,
n'uma meia penumbra, confusos verdes de jardim.

Junto ao portal, dois moos de servio, quasi nus, dormiam sobre um
banco, como dois ces de guarda canados da vigilia. Notei que vultos de
mulher, de quando em quando, passavam, perpassavam, longe, no ultimo
plano; languidas, vagarosas, com os penteados desfeitos, arrastando
amplas tunicas de seda estampadas de entrelaamentos de flres. Uma
d'ellas, por desenfado, avanou t ao portal, ergueu os braos alto,
enfiou os alvos dedos de ociosa pela juba negra dos cabellos; e assim,
n'aquella posio, poz-se a fitar o azul do co que uma ave cruzava em
vo rapido. Gentilissima, esplendida no vestido, miudas frmas
graciosas, da cr do jaspe os ps descalos em habito de humildade, e um
olhar de dezoito annos quando muito, pueril, coando a expresso intima
de um ser affeito  passibilidade e inconsciente das coisas d'este
mundo. De dentro, uma voz de velha, azeda e imperativa, chamou-a pelo
nome:--_Mitsu-Riyo!_--E eu fui seguindo o meu caminho, acordando de
subito para um enternecimento doloroso, que me  peculiar em presena de
certos relances da existencia, um pequenino nada s vezes, confuso e
passageiro... _Mitsu-Riyo_ quer dizer, litteralmente:--_Mel que se
offerece_--a quem?  turba, a toda a gente.

       *       *       *       *       *

No Japo, uma vez em cada anno  a festa das meninas, e uma outra vez em
cada anno  a festa dos rapazes.

[Figura]

Na primeira, como de justia, e em atteno ao sexo, tudo se passa entre
a familia, de paredes a dentro; e o profano nada logra devassar dos
jubilos d'aquellas presumidas, vestidinhas com mil esmeros e attenes,
em extasis em frente do altar que se arma em casa em honra d'ellas,
aonde se dispe, alm de coisas santas, a colleco de bonecas e
brinquedos, a serie em miniatura do espelho, da caixa de costura, do
brazeiro, das chavenas, da chaleira, de tudo mais onde mais tarde os
seus dedos mimosos poisaro, no placido exercicio dos seus deveres de
esposa e me por sua vez.

A festa dos rapazes  publica, ostensiva.  certo que no lar se agrupam
os trophos de armas e allegorias de guerreiros, e brinquedos
condizentes com a turbulencia innata nos garotos; mas no que mais se
empenha o cuidado da familia  n'um curioso emblema que enfeita a cidade
inteira, offerecendo aos passeantes um estranho quadro de festa e
alegria. Cada qual que tem filhos--e quem ha que os no tenha?--espeta a
prumo ao p da sua casa uma vara de bambu de grande comprimento, tendo
amarrado na ponta um enorme peixe de papel, soberbamente pintado de
negro ou de vermelho, escamudo, com ampla cauda e esbogalhados olhos;
cada qual amarra um peixe, ou dois, ou tres, ou quatro, conforme o
numero de filhos; e ha casaes tam abenoados dos deuses e tam
cumpridores do seu dever, que amarram sete peixes, oito peixes, um
cardume!...

Qualquer curioso em coisas de estatistica poderia, sobre uma eminencia
da cidade, registar pelo numero dos peixes o numero de filhos vares
n'aquelle sitio; mais ainda: os ventres benemeritos que mais soldados
do ao exercito imperial.

Ha uma lenda adoravel n'esta usana. Os peixes figuram carpas, no Japo
abundantissimas; a carpa, sabe-se, vive nos rios, e apraz-se teimando a
nadar contra a corrente, subindo da fz t s origens; aquelles peixes
de papel, enfunados pelas brisas fuscas que reinam em geral n'aquella
epocha, que  em maio, perfilando-se contra o vento, do uma perfeita
imagem do phenomeno. Assim o homem, no curso da existencia, deve
adquirir a rude teimosia de resistir, de passar para alm da corrente
dos revezes, dos desalentos, das intrigas, t alcanar o lago bonanoso
da paz da consciencia e da abastana ganhas com o seu trabalho
intelligente. A festa  ao mesmo tempo um aviso aos tenros nipponicos de
agora, ranhosos, rabujentos, dependurados da teta maternal, ou, mais
crescidos, caando as cigarras poisadas sobre as arvores, lambendo
doarias e soletrando o _i-ro-ha_ pelas escolas, mas que amanh
constituiro a massa activa e dirigente d'esta tribu inchada de orgulhos
patrioticos, e abrazada em ambio.

       *       *       *       *       *

Se um dia me sobrarem ocios e pachorra juntamente, hei-de ainda escrever
um longo capitulo inspirado na mulher japoneza, tal como eu a
comprehendo, ou antes, tal como a no comprehendo. No agora. Agora
intento apenas fallar d'ella em breves phrases, ao capricho das rapidas
idas que me occorrem.

Qual  o seu destino? O enlevo do lar. Seria pois, como quem diz, um
canario cantador, gentil e inutil, saltitante, papeando ao sol e
enchendo a casa toda de alegria, se no se devesse incluir em tal
enlevo, dois meritos ainda: o delicado instincto da ordem, da limpeza, e
um fundo de carinho maternal, tam amoroso, que talvez no tenha egual no
mundo inteiro. De sorte que, sem misso activa propriamente, parece vir
ao mundo destinada a uma doce passibilidade feita de cuidados e
sorrisos, para tornar feliz o esposo, e preparar para a vida um outro
homem, o seu filho. Sem iniciativa propria no ramerro da existencia
quotidiana, simples nos habitos, nas occupaes e nos desejos, a sua
condio mantem-lhe, e mesmo lhe exaggera, os attributos peculiares do
sexo,--delicadezas phisicas fixadas no requinte, e um discorrer ingenuo
de creana.

 uma escrava do homem?  difficil dizel-o, n'este mundo, que  todo
escravido. Sim, ser talvez; e recorda-se este velho preceito de moral,
ainda no esquecido:--Obedece a teu pae, mais tarde a teu marido, mais
tarde a teu filho primogenito.--No entretanto, bem chimericas algumas
devem ser as que supportam... pois para que lhes servem a ellas, as
_musums_, o sorriso perenne dos labios, o mimo dos gestos, das feies,
do garridismo do seu trajo, a alma de graas que tem nas pontas dos
dedinhos, que tudo aformoseam onde tocam, seno para trazerem submisso
ao jugo dos seus desejos e caprichos o bruto seu senhor (porque os
homens so brutos em todo o planeta) e folgarem como princezinhas
voluntarias?... Que se julgam felizes, ellas, esta Senhora Ameixeeira,
esta Senhora Crysanthemo, esta Senhora Primavera, no ha duvida,
concluindo por este mesmo sorriso dos labios frescos durante todo o
dia--e possivelmente toda a noite--pela alegria fervilhante dos olhitos,
pela serena ondulao da mimica, j surprehendendo-as nos mil misteres
caseiros, j pela rua, caminho dos bazares, dos templos, dos theatros,
dos campos floridos...

 certo todavia que uma grande dissemilhana afasta a mulher japoneza,
da mulher occidental, pelo menos d'aquella que a importao despeja dos
paquetes e vem pisar a terra de Nippon; a ponto, persuado-me, que um
sabio zoologo qualquer, que descesse do planeta Marte a estas paragens,
jamais ousaria classifical-as como exemplares da mesma fauna.

[Figura]

Vede esta femeasita minuscula, toda ella pieguices de roupas e maneiras,
fragil, sem musculos, com mos e pulsos de creana, impropria para o
esforo e para a lucta; passa a vida de joelhos, sobre macias almofadas,
brincando com bonecas como se fssem filhos seus, ou brincando com seus
filhos como se fssem as bonecas; se sae de casa, vae arrastando os
psitos em passos indecisos, preguiosos, borboleta bohemia, sem rumo e
sem intento; sabe cuidar dos seus cabellos, pintar a bocca de escarlate,
dedilhar no _shamicen_, compr ramos de flres, servir o ch nipponico,
lr historias de raposas fabulosas e de macacos legendarios...

Agora comparae esta chimera humana com as rudes viageiras que o mar aqui
arroja, bravos exemplares do feminismo em moda, fontes de musculos, de
animo atrevido, usando monoculo, bengala e collarinho; deixam s amas os
filhos, se  que os tem, para correrem as cidades a passos de gigante,
ou, mais velozes ainda, manejando com mo firme a bicycleta; umas so
jornalistas, outras so missionarias, outras so medicas, outras so
sabias, outras so coisa nenhuma. No ha comparao possivel entre as
duas. A europea offusca a japoneza pelos seus meritos triumphantes. A
esta, humilde e timida, s restaria acaso uma desforra:--era entreabrir
o _kimono_ de seda na parte junto ao peito, patentear lhe o par de
maminhas brancas e rolias, com os bicos cr de rosa macerados pelos
dentinhos do garoto que lhe brinca no collo, nu em plo...

       *       *       *       *       *

Uma amavel senhora, cujas cartas vem de quando em quando amenizar a
solido do meu viver, dizia-me ainda ha pouco coisa parecida com o
seguinte, a proposito de dois livros que escrevi (que ella leu, a
bondosa), e da subsequente prolongada preguia litteraria em que
fiquei:--Voc deu ao publico as suas illuses; o publico espera agora
as suas desilluses.--No sei ao certo o que ento lhe retorqui; mas
eis o que me occorre responder-lhe, ao escrever a ultima pagina d'este
livro:

V de barato que a gente publique as suas illuses; melhor fra
calar-se, todavia. Mas para as desilluses no ha, supponho eu,
publicidade ademissivel; soffrem-se no silencio intimo, e manda o
orgulho proprio, alm de outros motivos, que a gente as no divulgue. No
entretanto, para o paiz japonez, com o qual ia especialmente contender a
gentil observao que referi,--um nadinha maliciosa, querendo aparentar
estimulo apenas s minhas actividades em lethargo,--para o paiz japonez,
devo confessar que me encontro ainda no periodo do enlevo e dos
feitios. No ha terra, que eu conhea,--e tantas tenho conhecido!--mais
deslumbrante do que esta nos aspectos; no ha povo mais interessante do
que este, pelo feitio moral, pelos costumes, pela alma artistica; no ha
mulheres mais mimosas do que estas _musums_; e no ha no mundo inteiro
gente mais feliz do que esta gente japoneza;  dizer tudo. O que o tempo
e a experiencia me tem dado a conhecer,  a convico profunda da
incompatibilidade absoluta entre tudo isto e o europeu; o Japo  dos
japonezes e s dos japonezes, o europeu, como um pingo de azeite dentro
de agua; conserva-se aqui sempre isolado, no se assimilla ao meio.
Porqu? por dissemelhanas irreconciliaveis do sentir, da educao, dos
habitos, por essa invencivel barreira que se define em tres palavras,
a--differena de raas.

Minha senhora: para poder assim synthetisar-se um sentimento como eu
acabo de fazer, para adivinhar o encanto no que nos  vedado, para dizer
que  grato o aroma de um ramalhete de flres que nos mostrassem dentro
de uma redoma de crystal, no  fcil tarefa; tem de elevar-se a alma a
um extremo altruismo estetico, paradoxal at, no por virtude nem
sciencia, mas derivado de condies tristes da vida, e quando se  j
tam pobre em esperanas e desejos, que o individuo rasteja como um pria
moral, alheio a tudo.

[Figura]

Tal pria, n'um ponto, n'um s ponto,  grande como um Deus: v o mundo
do alto, parecem-lhe os homens formigueiros, segue com a vista as
formigas nas batalhas, nas labutas, nos cuidados e nos prazeres; em tal
estado de desinteresse e independencia, custa pouco ento apontar com o
dedo para a tribu que mais bem dotada parece na partilha das graas,
dizer-- esta, o Dai-Nippon.

Deixe-me pois guardar, para guardar alguma coisa, as illuses d'este
paiz... e a sua estima, e esta no  uma illuso.

1901




ISSUMBOSHI[2]

(CONTO JAPONEZ)

                                         A A. A. Ferreira d'Almeida.


Ha mui remotas eras, dois velhos esposos residiam na provincia de
Settsu, em Naniwa, como ento se chamava a cidade de Osaka. Eram os dois
ssinhos; nunca tiveram filhos, posto que ardentemente os desejassem.
Ora, a prole  a grande preoccupao da familia japoneza; considera-se
mesmo incompleta e quasi ignominiosa a existencia d'aquelle que a no
teve, e assim se v privado de legar o seu nome, e os encargos do culto
devido aos ascendentes, ao natural herdeiro de taes honras, restando-lhe
apenas o triste expediente da adopo de um filho estranho, que, com a
herana do appellido de familia, assuma os encargos da supposta
primogenitude.

[Figura]

--Um filho... um filho ao menos, fsse elle embora um aleijado, um
monstro, uma migalha de gente, com o tamanho de um dedo por estatura...
mas um filho!...--tal o thema constante, durante longos annos, das mais
gratas esperanas do casal a que me referi. Quando, pelas rugas nos
rostos e pela alvura dos cabellos, os bons velhos concluiram que no
mais lhes era dado confiar na iniciativa propria, elevaram ento o
pensamento aos deuses, como dispensadores que so de todos os milagres;
encaminhando de preferencia a sua devoo para o glorioso Myojin, que 
a divindade venerada no celebre templo de Sumyoshi, a curta distancia de
Naniwa. Quasi todas as manhs elles se dirigiam em piedosa romaria,
juntos, cada qual arrimado ao seu bordo, pois j as pernas lhes
vergavam ao peso dos invernos; e era ento um espectaculo deveras
commovente, e supinamente grotesco ao mesmo tempo, que fazia correr
lagrimas e estalejar risadas  gente que passava, o d'aquelles dois
decrepitos, cheios de unco e abrazados em f, erguendo ao co as
pobres mos escarnadas, e implorando o deus para que lhes desse um
filho, fsse elle como fsse, fsse elle uma migalha de gente, do
tamanho de um dedo por estatura!...

       *       *       *       *       *

Ora, succedeu que tendo assim decorrido varios annos, o deus de Sumyoshi
se apiedou por fim de tantas supplicas dos velhos, e lhes appareceu um
dia para lhes proferir estas palavras:--Fao-vos a vontade, bons
caturras, haveis de ter um filho.--Os dois pularam de contentes, como
se pde imaginar; galhofando, batendo palmadas amigaveis nas costas um
do outro, voltaram para o albergue. No tardou muito que a velha
sentisse com alvoroo os primeiros remoques que prenunciam gravidez; e
finalizados nove mezes dava  luz uma creana, um menino...

Caspit!... Mas reparem agora no ponto mais surprehendente da aventura:
o menino, lindo como os amores, tinha a estatura de um boneco, como
esses de porcellana que se usa collocar nos jardins liliputianos,
contidos n'um vaso ou n'uma caixa, muito do agrado da gente japoneza. O
espanto dos paes foi grande, e a decepo tambem; mas em verdade no
havia motivo de queixa contra o deus, que concedra o que se lhe
rogra,--um filho, com o tamanho de um dedo por estatura.--Era assim.

[Figura]

_Issumboshi_ foi o nome que deram ao menino, isto , traduzindo
litteralmente em portuguez: o _Cavalheiro Pollegada_. As chronicas no
rezam se foi amamentado a _biberon_, ou se o mirrado seio maternal
entumeceu de subito e se offereceu solicito aos labios do garoto. O que
 facto  que Issumboshi foi medrando em graas e em esperteza; no
porm em tamanho; e quando tinha os seus dez annos era tal como viera a
este mundo. Esta gentil disformidade trouxe o enfado ao lar e at um
certo azedume mal contido contra as suppostas bondades do deus de
Sumyoshi. O escarneo era espontaneo nas boccas dos visinhos; os gaiatos
do sitio apraziam-se em zombarias d'esta ordem:--L est o _ano_
comendo arroz! l vae a _ervilha_ passear!--Emfim, para encurtar
razes, direi apenas que chegou um momento em que Issumboshi se tornou
insupportavel a seus paes, vergonha viva do casal, sem prestimo
presente, e sem que se lhe suppozesse utilidade possivel no futuro.

       *       *       *       *       *

Certo dia decidiram os velhos, embora lhes pezasse, pl-o fra de casa,
abandonal-o ao acaso da fortuna. Foi chamado o menino  presena do pae,
que lhe expz os motivos da sua resoluo, e lhe apontou de um gesto o
caminho da rua.--Sim, pap, partirei sem demora, retorquiu, resignado e
submisso; mas faa-me favor de dar-me antes uma agulha d'aquellas de que
a maman se serve para coser os seus _kimonos_.--Perguntou o pae para
que? e foi-lhe respondido que era para usar d'ella como um sabre, muito
proporcionado ao seu tamanho. Depois pediu  me uma tigela de madeira,
d'aquellas que se empregam em servir o caldo s refeies, e mais um
d'esses pausinhos que se chammam _hashi_, com o comprimento de um palmo,
substituindo na mesa japoneza o garfo e a colher. Perguntou a me para
que? e foi-lhe respondido que, para a longa viagem que ia emprehender, a
tigela seria o barco, o _hashi_ seria o remo, tudo proporcionado ao seu
tamanho.

Em posse dos utensilios que alcanra da munificencia de seus paes,
Issumboshi fez-lhe uma rasgada reverencia e desappareceu de casa.

       *       *       *       *       *

Eil-o s, o pobre abandonado, entregue ao seu arbitrio, dispondo como
haveres de uma tigela, de um palito e de uma agulha, collocando esta 
cinta,  laia de catana, com uma palhinha por bainha!... Que fazer? Para
onde ir?... Corria cerca o Iodogawa, o extenso rio lodoso e calmo que
tem suas origens no famoso lago Biwa, desce a Kyoto, atravessa Naniwa, e
vae perder-se no oceano. Que fazer? Para onde ir?--Ir a Kyoto, pensou
comsigo o anosinho,  capital do Imperio (ento no era Tokyo a
capital),  residencia do Soberano, aonde muitas coisas curiosas deve
haver, dignas de vr-se...--E abalou.

Seria impossivel relatar as peripecias da viagem, os mil perigos
affrontados por to exiguo barco, que uma simples casca de laranja,
boiando  tona de agua, j punha em risco de naufragio. Issumboshi ia
perguntando aos pescadores o caminho para Kyoto; se refrescava o vento,
abrigava-se junto da estacaria das pontesinhas que galgavam de uma
margem do rio para a outra margem; pelas noites escuras, ou quando a
fadiga o affligia, encalhava o seu barco junto  terra, por entre a
maranha dos limos e das plantas aquaticas; e foi assim, com mais de
trinta dias de derrota, que abordou uma manh  famosa capital do paiz
do Sol Nascente.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Eil-o em terra, bamboleando-se, folgando com o cho firme, com as
palestras da turba, com o cheiro das tabernas, como effectivamente
succede aos marinheiros aps longos dias de cruzeiro, enfadados de
balano, de isolamento, de carne salgada e de bolacha. Issumboshi, pouco
maior que um escaravelho, passava despercebido por entre os muitos
passeantes; assim poude furtar-se a commentarios zombeteiros e percorrer
tranquillamente as ruas da cidade, embasbacando-se em face dos aspectos
grandiosos que aos seus olhitos sagazes se iam offerecendo. Por fim,
eil-o acercando-se da mais sumptuosa residencia em que os mesmos olhitos
jamais tinham poisado; era alli que vivia um grande personagem, o
principe Sanjo-no-Saish, primeiro ministro na crte do soberano. Entra
Issumboshi resolutamente no amplo pateo da entrada, e informa os
serviaes de que pretende fallar ao senhor de tal dominio. Deu-se ento
o comico incidente de estar sua alteza muito cerca e de acudir,  porta,
attrahido pela maviosa voz do visitante; como ninguem visse porm, ia de
novo recolher-se, resmungando que teria jurado achar-se alli um estranho
em conversas com a gente de servio; mas um derradeiro olhar pesquisador
revelou-lhe, quasi occulto por detraz dos seus tamancos, que estavam
junto  entrada conforme o uso do paiz, o curioso figuro que
conhecemos.--Oh! exclamou, eras tu, minusculo vivente que ainda ha
pouco proferias o meu nome?--O rapaz, polidamente, assegurou que sim,
que era elle proprio.--E que me queres ento?--Issumboshi expz a sua
procedencia, os seus titulos e as tristes condies em que se via; e
concluiu rogando que lhe desse agasalho, e o admittisse ao seu
servio.--Pois sim, fica comnosco, respondeu sua alteza, aps ligeira
reflexo; tu s sem duvida, continuou, o homem mais pequeno que tem
apparecido n'este mundo, e a tua historia uma das mais commovedoras que
conheo; no quero perder o lo de possuir tamanha galanteria,
praticando ao mesmo tempo um acto meritorio, protegendo-te.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Embora tam infimo em grandeza, o _Cavalheiro Pollegada_ soube mostrar-se
utilisavel em tudo em que o occuparam. Dentro em pouco, tornou-se
querido da familia, o brinquedo, o passatempo predilecto para matar
enfados, dos quaes ninguem se livra, e menos ainda os ricos, sempre
ociosos em seus palacios de regalo. Ko-Haru, a filha do fidalgo, a mais
gentil donzella de Kyoto (que  a terra das mulheres mais gentis de todo
o Imperio), especialmente lhe votou as suas sympathias, impondo-lhe o
dever--dulcissimo dever!--de acompanhal-a por toda a parte onde ella
fsse, qual rato sabio que seguisse a dona em seus passeios...

[Figura]

Entre os dois, a formosa _musum_ e a migalha de gente, passaram-se
ento graciosas scenas, as mais tocantes que pde imaginar-se, se
imaginaveis so... Era um enlevo vl-o, sempre vestidinho de guerreiro,
a primor, com roupas de setim que ella pelos proprios dedos habilidosos
lhe bordava, e lhe cosia, privando de carinhos as suas bonecas
favoritas; e Issumboshi, muito compenetrado do seu papel de pagem, nunca
largando o sabre da cintura, arrogava-se uns taes ares marciaes, to
petulantes, que a gente morria de rir, ao avistal-o!... Se chovia, ou se
a excurso se prolongava, Ka-Haru tomava nas mos alvas de neve o seu
pequeno companheiro, aconchegando-o ao collo, ou aquecendo-o ao seio.
Issumboshi,  bem de crr, possuia, como todo o ser humano possue, um
corao, embora reduzido s propores de uma cabea de alfinete, mas
pulsando de gratido e de ternura. Aquella convivencia escravisou-lhe a
alma. Uma dedicao immensa, uns zelos infinitos, um desejo constante de
agradar  sua nobre ama, taes fram os sentimentos dominantes no animo
do pygmeu. A sua disformidade permittia-lhe delicadezas, que aos outros
mortaes eram vedadas... (oh, mysterio psychologico de todos os namorados
d'este mundo! quantos de vs, que ldes estas linhas, invejareis a sorte
de Issumboshi!...) Quando, pelas noites calidas de agosto, Ko-Haru se
aprazia em estender-se sobre a relva dos jardins, Issumboshi, vencido
tambem pela fadiga, poisava e adormecia sobre um dos ps nus de sua ama,
como em leito de marmore de alvuras resplendentes. Uma vez, caiu dos
labios frescos da donzella uma petala de magnolia, em que por distraco
os dentinhos se entretinham mordicando: Issumboshi comeu-a; e durante um
dia inteiro no se serviu de outro alimento, assegurando com verdade que
aquelle lhe bastava...

       *       *       *       *       *

Aconteceu um dia dirigir-se Ko-Haru ao templo de Kiyomizu-no-Kwannon
(Kwannon  a deusa buddhista da piedade), a fim de praticar as suas
devoes; como sempre, o ano acompanhava-a. Ora, de volta, quando ambos
desciam o ultimo degrau da ampla escadaria que d accesso ao templo,
dois demonios surdiram de improviso das proximas balseiras, horriveis de
figura, herculeos, colossaes, cuidando sem detenas de raptar a linda
peregrina. Ko-Haru desfaz-se em pranto e quasi desfallece. Issumboshi
retira a espada da bainha (a agulha que a me lhe dera n'outros tempos),
perfila-se em frente dos demonios e brada-lhes assim:--Vis temerarios,
que commetteis a magna offensa de perturbar em seus passeios piedosos a
princeza Sanj! sabei que se um de vs, com um s dedo lhe tocar,
commigo se ha de haver! e, to certo como ser eu Issumboshi, assim este
meu sabre lhe rasgar a entranha!...--Consta que os diabretes se
pozeram a rir, arreganhando os dentes; e um dos dois, mais fallador,
dignou-se responder com uma vz de trovo que fez afugentar das arvores
os pardaes, em cinco leguas ao redor:--Acalma a tua furia, infimo
insecto; no percebes acaso que a lucta contra ns -te defeza? para
encurtar razes e no seres importuno, vaes vr o que te
fao...--Levantou-o do solo, mui delicadamente, com as pontas dos
dedos, e enguliu-o...

[Figura]

Pareceu a Ko-Haru fugir-lhe a ultima esperana de salvar-se. Illudia-se.
Em plenas trevas, escorregando pela guela babujenta do monstro, e
penetrando na enorme rotunda da barriga, o anosinho empunhou o sabre a
duas mos e foi espicaando ao acaso, para a frente, para a direita,
para a esquerda, o ventre, a fressura, os intestinos; o diabo sentiu-se
de repente incommodado, soffreu ancias atrozes, vomitou o jantar e
Issumboshi de novo appareceu  luz do dia. O outro monstro tentou em
seguida igual ardil, devorando o pygmeu; d'esta vez Issumboshi subiu-lhe
para o nariz, em cujas fossas sanguineas e felpudas recomeou
esgrimindo, a ponto de produzir tal comicho, que o diabo espirrou,
salvando-se o inimigo pelos ares. Foi ento que os demonios se encheram
de pavor, convencidos de que tinham em frente de si um ente
extraordinario, posto que de to desprezivel apparencia; e deitaram a
fugir...

Muito bem. Agora o heroe cuida de acalmar a desolada dama, convence-a da
ausencia do perigo e faz-lhe vr que so horas de seguir para palacio,
onde de certo o pae a espera com anciedade. Ko-Haru vae partir; antes
porm testemunha ao pagem a sua muita gratido, promettendo contar 
familia o succedido, para que chovam justas recompensas sobre o seu
donodado salvador.

       *       *       *       *       *

Partiram com effeito. Eis que, a curta distancia, Ko-Haru encontra no
caminho um utensilio alli abandonado, o pequenino martello milagroso de
que os demonios e os deuses se utilisam, certamente esquecido pelos
monstros na ancia de safarem-se. Tomou-o pressurosa. Perguntou o
companheiro o que era aquillo; e, como ella lhe exposesse que bastava
brandil-o para a gente realisar os seus desejos, e que elle proprio, se
algum desejo tinha, lh'o dissesse, que logo lhe seria satisfeito,
Issumboshi berrou, no auge da commoo e da esperana:--Altura! Altura!
Altura--Ko-Haru no percebeu o que elle queria. Elle ento, mais
prolixo, explicou que queria a altura de si proprio, crescer em tamanho,
tornar-se um homem como todos os homens d'este mundo. O milagre, a um
gesto da _musum_, realisou-se. Issumboshi attingiu n'um momento as
regulares propores de um guapo moceto; ao lado da princeza, quem se
pozesse a vr aquelle par, diria-os feitos um para o outro, de
encommenda...

[Figura]

       *       *       *       *       *

Chegaram ao palacio. A admirao foi grande; mas no sei o que mais
commentarios mereceu, se as peripecias da princeza, rematadas com to
feliz epilogo, se o milagre do martello na pessoa de Issumboshi. Logo
alli se lhe mudou o nome, para outro nome apropriado; recebeu do seu
nobre protector mil recompensas, mais tarde do soberano mui fartas
honrarias, subindo aos mais altos cargos publicos; mas a mais doce
recompensa que aqui se lhe pde assignalar foi tornar-se o esposo
querido de Ko-Haru, que elle amava, do fundo da alma, desde o primeiro
dia que lhe foi dado contemplal-a...

Kobe, maro de 1902.




O PESCADOR URASHIMA

                                                     A Joaquim Costa


Viveu em remotos tempos, n'um logarejo da costa do Japo, Urashima, um
moo pescador. D'este simples, pouco ia tagarelando a visinhana:--que
tinha um corao propenso ao bem, e que em destreza ninguem o igualava,
tratando-se de artes de linhas e de anzoes;--nada mais, mas j no era
pequeno o elogio.

Ora, um bello dia, saiu elle a pescar, ssinho no seu barco. E que
pescou Urashima d'essa feita? Oh! a sorte sorria-lhe em tal hora...
pescou uma enorme tartaruga, com a casca espessa e dura, a cabecita
rugosa, denunciando assim a grande vetustez;  notorio que as tartarugas
vivem muito; vivem mil annos, no Japo.

Era um opiparo jantar que o acaso offerecia ao pobre pescador, pouco
mimoso de acepipes; jantar, ceia e almoo, e mais ainda, fra os lucros
que a casca lhe trouxesse; mas o moo poz-se a scismar na crueldade que
ia commetter, roubando assim talvez longos seculos de vida quelle
bruto, fadado pela sorte ao goso da existencia, durante geraes e
geraes da tribu humana; e lembrou-se da me, da santa velha que tantas
vezes lhe ensinava a ser caritativo com os brutos indefezos...  certo
que as mos abandonaram a presa, n'um largo gesto de bondade; e a
tartaruga, volvendo  agua sem se fazer rogada, lepida mergulhou no azul
e se safou das vistas.

[Figura]

       *       *       *       *       *

Fazia ento tanto calor!... Era um d'esses dias abrazadores de agosto,
embebidos de paz, de luz, de torpidos affluvios. Alm, a aldeia
quedava-se na ssta, amodorrava, jazia em aniquilamento absoluto;
apenas, sobre as arvores, cantavam as cigarras, doidas de cio,
estonteadas... Interrompera-se nos campos a faina da lavoira; nas choas
escancaradas, patenteavam-se os corpos ns, estendidos em repoiso,
adormecidos, banhados em suor. E Urashima, no seu barco, vencido tambem
pelos ardores d'aquella hora, largou das mos os remos e as linhas,
encostou-se  bancada e adormeceu.

No entretanto, eis que surge das aguas um vulto feminino, encantador. O
episodio, que a tradio do povo foi retendo at aos nossos dias, pde
agora reconstituir-se em pensamento. Sobre o convez do esquife, poisa
esse vulto, essa fada adoravel de feitios, envolta em roupas carmezins,
solto o cabello s brisas e corada a fronte com o diadema de oiro, que
 apanagio das princezas; estende o brao de neve para o adormecido,
toca-lhe na fronte com as pontas dos dedos delicados, e diz-lhe de manso
estas palavras:--Acorda, Urashima, escuta-me; eu vou contar-te quem eu
sou; sou a filha do deus do oceano immenso, habito com meu pae o palacio
do drago, no seio das ondas; a tartaruga, que ainda ha pouco colheste e
restituiste  liberdade, era eu propria; meu pae impoz-me um tal
disfarce, para que assim podesse estudar-te bem os sentimentos; por sua
ordem e meu aprazimento pessoal, serei a tua esposa, se me queres; mil
annos viveremos sempre juntos, sempre jovens, sempre felizes, no palacio
do drago, sob o azul das aguas...

       *       *       *       *       *

L seguem os dois pelo mar fra. Urashima empunha a esparrela da ppa,
maneja-a com denodo, d-lhe--podera no!--foras herculeas a ancia de
chegar; a princeza poisa no outro remo as mos franzinas, e vae sorrindo
ao companheiro. E vo remando, e vo remando, sem que a fadiga os
aquebrante, at que finalmente o barco alcana o porto desejado, e j de
longe o palacio se desenha, em arcarias, em grimpas, em mirantes
recortados.

Que encanto! que prodigio! nem mesmo a phantasia ousra imaginar tantos
primores!... As paredes do palacio so de renda de coral; as arvores do
jardim tem por folhas, esmeraldas, e fructificam em perolas e rubis; as
escamas dos peixes so de prata, os olhos de diamantes, as caudas dos
drages, de oiro lavrado...

Ento, toda a bicharia do oceano acode  praia, vestindo _kimonos_ de
cerimonia, e vem saudar os noivos viajantes. Aps os cumprimentos e os
discursos laudatorios que prescreve a etiqueta em casos taes, a
princeza, seguida do cortejo, entra em palacio; gorazes e toninhas
seguram-lhe a cauda do vestido; poisa nas fofas esteiras, de uma
meticulosa limpeza indescriptivel, as plantas alvas dos seus psinhos
deliciosos; descana n'um salo que mais lhe apraz, pela delicia dos
adornos e pela paizagem que se avista, e a seu lado offerece um logar ao
companheiro. As tartarugas, os peixes, as lagostas, os drages, a turba
em fim dos escravos jubilosos, corre a prostrar-se em frente da
princeza; e de joelhos, barbatanas erguidas em offertorio, comea
servindo em taas preciosas o branco arroz cosido, os licres, os
fructos, os manjares.

Urashima extasia-se diante do que  seu, bem seu, pois que  de sua
esposa. Durante tres annos assim vivem, sempre juntos, sempre felizes,
sem enfados, sem nuvens de tristeza no co dos seus amores; ora na paz
da esteira, no enlevo das mos que se entrelaam, dos olhos humidos que
se fitam, das palavras em segredo que se trocam, das almas enamoradas
que se do; ora perscrutando os mysterios do oceano, em excurses
pachorrentas pelas florestas das algas viajantes, por onde a vida
aquatica, de plantas, de animaes, se multiplica em maravilhas que a
ninguem  dado conhecer; ora em longos passeios pelos jardins, onde as
arvores no cessam de vestir-se de ramos de esmeraldas, vergando ao
pendor das perolas e rubis.

       *       *       *       *       *

Tres annos decorridos. Um dia porm Urashima acerca-se da esposa e
diz-lhe pouco mais ou menos o seguinte:--que a adora e se sente ditoso,
mas cresce-lhe o desejo de ir vr a sua aldeia, o velho pae, a doce me,
os irmos, os antigos companheiros de trabalho; e promette voltar aps
curta visita.--Ento, pela primeira vez sem duvida, uma ligeira nuvem de
tristeza, um vago presentimento angustioso, turvaram o olhar sereno da
princeza.--Vae, diz-lhe; vae, Urashima, porque assim o desejas, embora
bem me pese, pois imagino que vaes expr-te a grandes riscos; leva
comtigo este pequeno cofre, que alguma coisa contm que te pertence;
sirva-te elle de lembrana de quem muito te quer; mas nunca o abrirs,
pois se o fizesses, estarias perdido, e nunca mais voltarias a esta
manso do nosso amor...

E partiu, e abordou o solo patrio...

       *       *       *       *       *

[Figura]

O que quer que era de bem estranho se passra durante a ausencia de
Urashima. Aonde estava a sua aldeia? aonde se erguia a cabana de seus
paes? A mesma praia loira, os mesmos penedos carcomidos, os mesmos
cerros sobrepondo-se, alli lhe appareciam, bem taes como os deixra, na
fria impassibilidade das coisas immutaveis; mas os povoados offereciam
outro aspecto, os campos outro amanho; mas as arvores, que lhe haviam
dado abrigo e sombra, e de que to bem se recordava, erguiam apenas
troncos seccos, algumas, porque outras j nem mesmo existiam, e outras
arvores medravam n'outros sitios, projectando outras sombras,
fructificando em outros fructos. Aonde fra a sua aldeia, surgia agora
um pinheiral. Reconheceu o mesmo arroio, que serpeava junto ao lar; e
ainda agora a agua crystalina ia correndo, e sussurrante, como dantes;
mas agora deserto, faltando o grupo galhofeiro das _musums_ que tinham
por costume ir alli lavar a roupa, entre ellas as suas tres irmans,
_kimonos_ arregaados, pernas nas, braos ns, lidando, palestrando e
rindo umas com as outras.

Ao longo do areal iam ento seguindo dois sujeitos. Urashima alcana-os
e interpella-os:--Bons dias; fazem favor de me dizer onde  agora a
casa da familia de Urashima?--Pensaram, consultaram-se, coaram a
cabea, buscando recordar-se.--Urashima, Urashima... Urashima, o
pescador? tem graa tal pergunta: ha j quatrocentos annos pelo menos,
como contam, se afogou elle quando pescava no seu barco, pois nunca mais
appareceu; o seu pae, a sua me, os seus irmos, os filhos dos seus
irmos, dormem todos alm no cemiterio, ha muito tempo; a cabana que
procura, apodreceu antes de nossos avs serem nascidos, nem o p d'ella
sequer existe por aqui...

Ento, como um relampago que acode subitamente pela noite, a illuminar a
estrada, uma ida acudiu de subito ao pensamento de Urashima, a
allumiar-lhe o espirito. Elle alli estava, volvido  patria, poisando os
ps descalos no areal da sua querida aldeia, relanceando as curvas da
paizagem em que por tantos annos a vista se poisara, e a recordao lhe
gravra para sempre na memoria. O palacio do deus do mar, no abysmo das
ondas, com as suas paredes de renda de coral, com os seus pomares de
folhas de esmeraldas e fructos de perolas e rubis, e os seus peixes de
escamas prateadas e olhos de brilhantes, e os seus drages de caudas de
oiro fino, no pertencia  terra, era do mundo dos prodigios, regia-se
pelas leis do encantamento; um dia, dos seus dias, valia por muitos
annos, dos nossos annos; e assim, sem que Urashima o suppozesse, seculos
sobre seculos haviam passado sobre a terra, matando, destruindo,
transformando, arrastando as coisas e os individuos  fatalidade dos
destinos, ao aniquilamento, ao p, ao nada, surgindo das ruinas outros
aspectos e outros seres...

       *       *       *       *       *

O antigo pescador sentiu o calafrio da sua soledade; e o disparate
anachronico da situao em que se via, incutiu-lhe no animo no sei que
horrivel oppresso de angustia e de pavor. Patria? sim, a mesma areia
inerte e os mesmos monstros de granito; mais nada. Aldeia, amigos,
aspectos familiares da sua mocidade, nada havia; outras aldeias, outros
aspectos, outra gente, e para esta o nome de Urashima entrava j na
lenda. Em nada o captivava aquella terra. O anceio de fugir, de volver
ao esplendor do seu palacio, acudiu-lhe ento, dominador; e a imagem das
mil graas da princeza multiplicava-lhe o desejo de abandonar para
sempre o solo onde nascera. Lanou um olhar de adeus ao cemiterio, esse
no mesmo poiso ainda, mas mais vasto e mais povoado de freguezes; e ia
partir, deixar em paz a aldeia morta...

Antes porm lembrou-se de abrir o cofre que recebera da princeza.
Porque? Talvez leviandade, talvez mofino sstro, que tantas vezes guia o
homem a seguir pelo caminho prohibido... Do cofre aberto, que continha
nada menos do que a essencia dos longos annos corridos, e ao mesmo tempo
descontados na existencia de Urashima, escapou-se e pairou no espao uma
ligeira nuvem esbranquiada. Chamado  razo, ao sentimento da
desobediencia em que incorrera, e ao medo de um desastre, Urashima
correu sobre essa nuvem, desvairado, e bradou-lhe que parasse. Era
tarde. De prompto, as proprias foras lhe faltaram, e a voz se lhe
extinguiu; a nuvem envolvia-o; a nuvem transportava-o ao seu justo logar
nas paginas do tempo, fazia-o galgar de um pulo a grande barreira que o
afastava dos seus contemporaneos; as leis da terra tinham pressa em
corrigir erro tamanho... Repentinamente, os cabellos, a barba,
branquejaram como linho, sulcou-se o rosto em rugas, estalou a pelle do
corpo, os ossos romperam para fra, as costas dobraram-se n'um arco,
viu-se como um macrobio no sei quantas vezes secular, como um esqueleto
em frias, fugido do sepulcro, faltou-lhe o ar, faltou-lhe a luz,
morreu, caiu, desfez-se em p, desfez-se em nada...

1900.




INDICE


As Borboletas, 1

A Alforreca, 9

O Anno novo, 20

A Primavera, 30

Nilguyo, 50

O Cavallo Branco de Nanko, 62

A primeira formiga, 78

Os Diabos e os velhos, 90

Pan-Man-Chen, 98

A Caricatura no Japo, 107

Dois Cemiterios Japonezes, 134

O Espelho de Matsuyama, 153

Amres, 164

Um pintor de gatos, 171

Impresses rapidas, 181

Issumboshi, 213

O Pescador Urashima, 229





Livraria Editora VIUVA TAVARES CARDOSO
5, Largo de Cames, 6--Lisboa


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*Notas:*

[1] Official da marinha morto em 25 de outubro de 1902. Vivia, quando o
auctor lhe consagrava este capitulo.

[2] Os desenhos que illustram este conto so originaes do proprio W. de
Moraes.




*Lista de erros corrigidos*


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+------------------------+-------------------------+
  |          |        Original        |        Correco        |
  +----------+------------------------+-------------------------+
  |#pg.   25| n'estas                | n'estes                 |
  |#pg.   49| whisyk                 | whisky                  |
  |#pg.   68| difflceis              | difficeis               |
  |#pg.   69| focinho snostalgicos   | focinhos nostalgicos    |
  |#pg.   76| offereco               | offereo                |
  |#pg.   79| tempelos               | tem pelos               |
  |#pg.   81| entrasae               | entrasse                |
  |#pg.   92| diabolidamente         | diabolicamente          |
  |#pg.  111| niconsciencia          | inconsciencia           |
  |#pg.  130| vermelha s             | vermelhas               |
  |#pg.  150| _sumarais_             | _samurais_              |
  |#pg.  174| At  que                | At que                 |
  |#pg.  208| fabulosa               | fabulosas               |
  |#pg.  209| ?ontes                 | fontes                  |
  |#pg.  219| encahlava              | encalhava               |
  |#pg.  223| queaquelle             | que aquelle             |
  |#pg.  227| a palacio              | ao palacio              |
  |#pg.  235| rante                  | durante                 |
  +----------+------------------------+-------------------------+

As figuras podem no estar no stio original. Algumas foram movidas para
que os pargrafos no fossem cortados.





End of the Project Gutenberg EBook of Paisagens da China e do Japo, by 
Wenceslau de Moraes

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK PAISAGENS DA CHINA E DO JAPO ***

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