The Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by 
Joo Baptista da Silva Leito de Almeida Garrett

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Title: Viagens na Minha Terra
       (Completo)

Author: Joo Baptista da Silva Leito de Almeida Garrett

Release Date: January 22, 2008 [EBook #24401]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final do primeiro e segundo volumes deste livro
     encontrar listas de erros corrigidos.

     Rita Farinha (Jan. 2008)




OBRAS

DE

J. B. DE A. GARRETT.

VIII.

(PRIMEIRO DAS VIAGENS)




VIAGENS NA MINHA TERRA


POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.


I


LISBOA
NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
1846.




Os editores d'esta obra, vendo a popularidade extraordinaria que ella
tinha publicada em fragmentos na _Revista_, intenderam fazer um servio
s lettras e  gloria do seu paiz, imprimindo-a agora reunida em um
livro, para melhor se podr avaliar a variedade, a riqueza e a
originalidade de seu stylo inimitavel, da philosophia profunda que
incerra, e sbre tudo o grande e transcendente pensamento moral a que
sempre tende, ja quando folga e ri com as mais graves coisas da vida, ja
quando seriamente discute por suas leviandades e pequenezas.

As _Viagens na minha terra_, so um d'aquelles livros raros que so
podiam ser escriptos por quem, como o auctor de _Cames_ e de _Cato_,
de _D. Branca_ e do _Portugal na Balana da Europa_, do _Auto de
Gil-Vicente_ e do _Tractado de Educao_, do _Alfageme_ e de _Fr. Luiz
de Souza_, do _Arco de Sanct'Anna_ e da _Historia Litteraria de
Portugal_, de _Adozinda_ e das _Leituras Historicas_ e de tantas
produces de tam variado genero, possue todos os stylos e, dominando
uma lingua de immenso podr, a costumou a servir-lhe e
obedecer-lhe;--por quem com a mesma facilidade sobe a orar na tribuna,
entra no gabinete nas graves discusses e demonstraes da sciencia--voa
s mais altas regies da lyrica, da epopeia e da tragedia, lida com as
fortes paixes do drama, e baixa s no menos difficeis trivialidades da
comedia;--por quem ao mesmo tempo, e como que mudando de natureza, pde
dar-se todo s mais aridas e materiaes ponderaes da administrao e da
politica, e redigir com admiravel preciso, com uma exaco ideologica
que talvez ninguem mais tenha entre ns, uma lei administrativa ou de
instruco pblica, uma constituio politica, ou um tractado de
commercio.

Orador e poeta, historiador e philosopho, crtico e artista,
jurisconsulto e administrador, erudito e homem d'Estado, religioso
cultor da sua lingua e falando correctamente as extranhas--educado na
pureza classica da antiguidade, e versado depois em todas as outras
litteraturas--da meia-edade, da renascena e contemporanea--o auctor das
Viagens Na Minha Terra  egualmente familiar com Homero e com o Dante,
com Plato e com Rousseau, com Thucidides e com Thiers, com Guizot e com
Xenophonte, com Horacio e com Lamartine, com Machiavel e com
Chateaubriand, com Shakspeare e Euripedes, com Cames e Calderon, com
Goethe e Virgilio, Schiller e S-de-Miranda, Sterne e Cervantes, Fenelon
e Vieira, Rabelais e Gil-Vicente, Addison e Bayle, Kant e Voltaire,
Herder e Smith, Bentham e Cormenin, com os Encyclopedistas e com os
Sanctos-Padres, com a Biblia e com as tradices sanscritas, com tudo o
que a arte e a sciencia antiga, com tudo o que a arte emfim e a sciencia
moderna teem produzido. Ve-se isto dos seus escriptos, e especialmente
se ve d'este que agora publicmos apezar de composto bem claramente ao
correr da penna.

Mas ainda assim, e com isto somente, elle no faria o que faz se no
junctasse a tudo isso o profundo conhecimento dos homens e das coisas,
do corao humano e da razo humana; se no fosse, alm de tudo o mais,
um verdadeiro homem do mundo, que tem vivido nas crtes com os
principes, no campo com os homens de guerra, no gabinete com os
diplomaticos e homens d'Estado, no parlamento, nos tribunaes, nas
academias, com todas as notabilidades de muitos paizes--e nos sales
emfim com as mulheres e com os frivolos do mundo, com as elegancias e
com as falsidades do seculo.

De tantas obras de tam variado genero com que, em sua vida ainda tam
curta, este fecundo escriptor tem inriquecido a nossa lingua,  sta
talvez, tornmos a dizer, a que elle mais descuidadamente escreveu: mas
 tambem a que, em nossa opinio, mais mostra os seus immensos podres
intellectuaes, a sua erudio vastssima, a sua flexibilidade de stylo
espantosa, uma philosophia transcendente, e por fim de tudo, o natural
indulgente e bom de um corao recto, puro, amigo da justia, adorador
da verdade, e inimigo declarado de todo o sophisma.

Tem sido accusado de sceptico:  a accusao mais absurda e que so
denuncia, em quem a faz, ou grande ignorancia ou grande m fe. Quando o
nosso auctor lana mo da cortante e destruidora arma do sarcasmo, que
elle maneja com tanta fra e dexteridade, e que talvez por isso mesmo,
conscio de seu podr, elle rara vez toma nas mos--veja-se que  sempre
contra a hypocrisia, contra os sophismas, e contra os hypocritas e
shopistas de _todas as cres_, que elle o faz. Crenas, opinies,
sentimentos, respeita-os sempre. As mesmas suas ironias que tanto ferem,
no as dirige nunca sbre individuos; ve-se que despreza a facil
vingana que, com tam poderosas armas, podia tomar de inimigos que o no
poupam, de invejosos que o calumniam, e a quem, por cada dicterio
insulso e ephemero com que o teem pretendido injuriar, elle podia
condemnar ao eterno opprbrio de um pelourinho immortal como as suas
obras. Ainda bem que o no faz! mais immortaes so as suas obras, e
quanto a ns, mais punidas ficam os seus emulos com esse desprzo do
homem superior que se no appercebe de sua malignidade insulsa e
insignificante.

Voltando  accusao de septicismo, ainda dizemos que no pde ser
septico o espirito que concebeu, e em si achou cres com que pintar tam
vivos, characteres de crenas tam fortes como o de Cato, de Cames, de
Fr. Luiz de Sousa,--e aqui n'esta nossa obra, os de Fr. Diniz, de
Joanninha, da Irman Francisca.

No analysmos agora as Viagens Na Minha Terra: a obra no est ainda
completa e no podia completar-se portanto o juizo; dizemos somente o
que todos dizem e o que todos podem julgar ja.

A nosso rgo, e por fazer mais digna da sua reputao sta segunda
publicao da obra, o auctor prestou-se a dirigi-la elle mesmo,
corrigiu-a, additou-a, alterou-a em muitas partes, e a illustrou com as
notas mais indispensaveis para a geral intelligencia do texto: de modo
que sahir muito melhorada agora do que primeiro se imprimiu.




VIAGENS NA MINHA TERRA.


     Qu' il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrire, et de paraitre
     tout--coup dans le monde savant un livre de dcouvertes  la main,
     comme une comte inattendue tincelle dans l'espace!

     X. DE MAISTRE.




CAPITULO I.


     De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua
     terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
     immortalizar-se escrevendo stas suas viagens. Parte para Santarem.
     Chega ao Terreiro-do-Pao, imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que
     ahi lhe succede. A Deduco-Chronologica e a Baixa de Lisboa. Lord
     Byron e um bom charuto. Travam-se de razes os Ilhavos e os
     Bordas-d'agua: os da cala larga levam a melhor.


Que viage  roda do seu quarto quem est  beira dos Alpes, de hynverno,
em Turim, que  quasi tam frio como San'Petersburgo--intende-se. Mas com
este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na
horta, e o mato  de murta, o proprio _Xavier de Maistre_, que aqui
escrevesse, ao menos ia at o quintal.

Eu muitas vezes, n'estas suffocadas noites d'estio, viajo at  minha
janella para ver uma nesguita de Tejo que est no fim da rua, e me
inganar com uns verdes de rvores que alli vegetam sua laboriosa
infancia nos intulhos do Caes-do-Sodr. E nunca escrevi stas minhas
viagens nem as suas impresses: pois tinham muito que ver! Foi sempre
ambiciosa a minha penna: pobre e suberba, quer assumpto mais largo. Pois
hei de dar-lh'o. Vou nada menos que a Santarem: e protesto que de quanto
vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se hade fazer chronica.

Era uma idea vaga, mais desejo que teno, que eu tinha ha muito de ir
conhecer as riccas varzeas d'esse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a
mais historica e monumental das nossas villas. Aballam-me as instancias
de um amigo, decidem-se as tonterias de um jornal, que por mexeriquice
quiz incabear em designio politico determinado a minha visita.

Pois por isso mesmo vou:--_pronunciei-me_.

So 17 d'este mez de julho, anno de graa de 1843, uma segunda-feira,
dia sem nota e de boa estrea. Seis horas da manham a dar em San'Paulo, e
eu a caminhar para o Terreiro-do-Pao. Chego muito a horas, invergonhei
os meus madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se
prezam de mais matutinos homens que eu. Ja vou quasi no fim da praa,
quando oio o rodar grave mas pressuroso de uma carroa _d'ancien
rgime_:  o nosso chefe e commandante, o capito da impreza, o Sr. C.
da T. que chega em estado.

Tambem so chegados os outros companheiros: o sino d o ltimo rebate.
Partimos.

N'uma _regata_ de vapores o nosso barco no ganhava decerto o premio. E
se, no andar do progresso, se chegarem a instituir alguns isthmicos ou
olympicos para este genero de carreiras--e se para ellas houver algum
Pindaro ancioso de correr, em strophes e antistrophes, atraz do vencedor
que vai coroar de seus hymnos immortaes--no cabe nem um triste minguado
epodo a este canado corredor de Villa-nova.  um barco serio e sizudo
que se no mette n'essas andanas.

Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e
pittoresco amphitheatro de Lisboa oriental, que , vista de fra, a mais
bella e grandiosa parte da cidade, a mais characteristica, e onde, aqui
e alli, algumas raras feies se percebem, ou mais exactamente se
adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das chronicas. Da Fundio para
baixo tudo  prosaico e burguez, chato, vulgar e semsabor como um
periodo da _Deduco Chronologica_, aqui e alli assoprado n'uma
tentativa ao grandioso do mau gsto, como alguma oitava menos rasteira
do _Oriente_.

Assim o povo, que tem sempre melhor gsto e mais puro do que essa escuma
descrada que anda ao decima das populaes, e que se chama a si mesma
por excellencia a _Sociedade_, os seus passeios favoritos so a
Madre-de-Deus e o Beato e Xabregas e Marvilla e as hortas de Chellas. A
um lado a immensa majestade do Tejo em sua maior extenso e podr, que
alli mais parece um pequeno mar mediterraneo; do outro a frescura das
hortas e a sombra das rvores, palacios, mosteiros, sitios consagrados
todos a recordaes grandes ou queridas. Que outra sahida tem Lisboa que
se compare em belleza com sta? Tirado Bellem, nenhuma. E ainda assim,
Bellem  mais arido.

J saudmos Alhandra, a toireira; Villa-franca, a que foi de Xira, e
depois da Restaurao, e depois outra vez de Xira, quando a tal
restaurao cahiu, como a todas as restauraes sempre succede e hade
succeder, em odio e execrao tal que nem uma pobre villa a quiz para
sobrenome.

--'A questo no era de restaurar nem de no restaurar, mas de se livrar
a gente de um govrno de patuscos, que  o mais odioso e ingulhoso dos
governos possiveis.'

 a reflexo com que um dos nossos companheiros de viajem accudiu ao
princpio de ponderao que eu ia involuntariamente fazendo a respeito
de Villa-franca.

Mas eu no tenho odio nenhum a Villa-franca, nem a esse famoso cirio que
l foi fazer  velha monarchia. Era uma coisa que estava na ordem das
coisas, e que por fra havia de succeder. Este necessario e inevitavel
reviramento por que vai passando o mundo, hade levar muito tempo, hade
ser contrastado por muita reaco antes de completar-se...

No entretanto vamos accender os nossos charutos, e deixemos os precintos
aristocraticos da r:  proa, que  paiz de cigarro livre!

No me lembra que lord Byron celebrasse nunca o prazer de fummar a
brdo.  notavel esquecimento no poeta mais imbarcadio, mais marujo que
ainda houve, e que at cantou o injo, a mais prosaica e nauseante das
miserias da vida! Pois n'um dia d'estes, sentir na face e nos cabellos a
brisa refrigerante que passou por cima da agua, em quanto se aspiram
mollemente as narcoticas exhalaes de um bom cigarro da Havana,  uma
das poucas coisas sinceramente boas que ha n'este mundo.

Fummemos!

Aqui est um campino fummando gravemente o seu cigarro de papel, que me
vai imprestar lume.

'Dou-lh'o eu, senhor...' accode cortezmente outra figura mui diversa,
cujas feies, trajo e modos singularmente contrastam com os do
_musarabe_ ribatejano.

Accenderam-se os charutos, e attentmos mais de vagar na companhia em
que estavamos.

Era com effeito notavel e interessante o grupo a que nos tinhamos
chegado, e destacava pittorescamente do resto dos passageiros, mistura
hybrida de trajos e feies descharacterizadas e vulgares--que abunda
nos arredores de uma grande cidade maritima e commercial.--No assim
este grupo mais separado com que fomos topar. Constava elle de uns dze
homens; cinco eram d'esses famosos athletas da Alhandra que vo todos os
domingos colher o _pulverem olympicum_ da praa de Sanct'Anna, e que, 
voz soberana e irresistivel de: _ unha,  unha,  cernelha!_.... correm
a arcar com mais generosos, no mais possantes, animaes que elles, ao
som das immensas palmas, e a trco dos raros pintos por que se manifesta
o sempre clamoroso e sempre vazio enthusiasmo das multides. Voltavam 
sua terra os meus cinco luctadores ainda em trajo de praa, ainda
esmurrados e cheios de glria da contenda da vespera. Mas aop d'estes
cinco e de altercao com elles--ja direi porqu--estavam seis ou sette
homens que em tudo pareciam os seus antipodas.

Emvez do calo amarello e da jaqueta de ramagem que caracterizam o
homem do forcado, estes vestiam o amplo saiote grego dos varinos, e o
tabardo arrequifado siciliano de panno de varas. O campino, assim como o
saloio, tem o cunho da raa africana; estes so da familia pelasga:
feies regulares e moveis, a frma agil.

Ora os homens do norte estavam disputando com os homens do sul: a
questo fra interrompida com a nossa chegada  proa do barco. Mas um
dos Ilhavos--bella e poetica figura de homem--voltando-se para ns,
disse n'aquelle seu tom accentuado:--'Ora aqui est quem hade decidir:
vejam-n'os senhores. Elles, por agarrar um toiro, cuidam que so mais
que ninguem, que no ha quem lhes chegue. E os senhores, a serem ca de
Lisboa, hode dizer que sim. Mas ns...'

--Nenhum de ns  de Lisboa: so este senhor que aqui vem agora.

Era o C. da T. que chegava.

--'Este conheo eu; este  dos nossos (bradou um homem de forcado, assim
que o viu). Isto  um fidalgo como se quer. Nunca o vi n'uma ferra, isso
 verdade; mas aqui de Vallada a Almeirim ninguem corre mais do que elle
por sol e por chuva, e hade saber o que  um boi de lei, e o que  lidar
com gado.'

--'Pois oiamos l a questo.'

--'No  questo'--tornou o Ilhavo: 'mas se este senhor fidalgo anda por
Almeirim, para Almeirim vamos ns, que era uma charneca o outro dia, e
hoje  um jardim, benza-o Deus!--mas no foram os campinos que o
fizeram, foi a nossa gente que o sachou e plantou, e o fez o que , e
fez terra das areas da charneca.'

--'L isso  verdade'.

--'No, no ! Que est forte habilidade fazer dar trigo aqui aos
nateiros do Tejo, que  como quem semeia em manteiga.  uma lavoira que
a faz Deus por sua mo, regar e adubar e tudo: e o que Deus no faz, no
fazem elles, que nem sabem ter mo n'esses monches c'o plantio das
arvores: so l por cima  que algumas teem mettido, e  bem pouco para o
rio que , e as riccas terras que lhes levam as inchentes.--Mas ns, pe
no barco pe na terra, tam depressa estamos a sachar o milho na charneca,
como vimos por ahi abaixo com a vara no peito, e o saveiro a pegar
n'area por no haver agua... mas sempre labutando pela vida'.

--'A fra  que se falla'--tornou o campino para estabelecer a questo
em terreno que lhe convinha.--'A fra  que se falla: um homem do campo
que se deita alli  cernelha de um toiro que uma companha inteira de
varinos lhe no pegava, com perdo dos senhores pelo rabo!..'

E reforou o argumento com uma gargalhada triumphante, que achou echo
nos interessados circumstantes que ja se tinham apinhado a ouvir os
debates.

Os Ilhavos ficaram um tanto abatidos; sem perderem a consciencia da sua
superioridade, mas acanhados pela algazarra.

Parecia a esquerda de um parlamento quando ve sumir-se, no borburinho
acintoso das turbas ministeriaes, as melhores phrases e as mais fortes
razes dos seus oradores.

Mas o orador ilhavo no era homem de se dar assim por derrotado. Olhou
para os seus, como quem os consultava e animava, com um gesto
expressivo, e voltando-se a ns, com a direita estendida aos seus
antagonistas:

--'Ento agora como  de fra, quero eu saber, e estes senhores que
digam, qual  que tem mais fra, se  um toiro ou se  o mar'.

--'Essa agora!..'

--'Queriamos saber'.

--' o mar'.

--'Pois ns que brigmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma
tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro,
qual  que tem mais fra?'

Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por sta
vez a opposio, e o Vouga triumphou do Tejo.




CAPITULO II.


     Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas stas viagens. Faz o A.
     modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilizao; e
     mostra-se como ella  dirigida pelo cavalleiro da Mancha D.
     Quixote, e por seu escudeiro Sancho Pana.--Chegada a
     Villa-Nova-da-Rainha, Supplicio de Tantalo.--A virtude galardo de
     si mesma; e sophisma de Jeremias Bentham.--Azambuja.


stas minhas interessantes viagens hode ser uma obra prima, erudita,
brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do seculo. Preciso de o
dizer ao leitor, paraque elle esteja previnido; no cuide que so
quaesquer d'essas rabiscaduras da moda que, com o titulo de _Impresses
de Viagem_, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum
proveito da sciencia e do adiantamento da especie.

Primeiro que tudo, a minha obra  um symbolo...  um mytho, palavra
grega, e de moda germanica, que se mette hoje em tudo e com que se
explica tudo... quanto se no sabe explicar.

 um mytho porque--porque... Ja agora rasgo o veo, e declaro abertamente
ao benevolo leitor a profunda idea que est occulta debaixo d'esta
ligeira apparencia de uma viagemzita que parece feita a brincar, e no
fim de contas  uma coisa sria, grave, pensada com um livro novo da
feira de Leipsick, no das taes brochurinhas dos _boulevards_ de Paris.

Houve aqui ha annos um profundo e cavo philosopho d'alm Rheno, que
escreveu uma obra sbre a marcha da civilizao, do intellecto--o que
diriamos, para nos intenderem todos melhor, _o Progresso_. Descobriu
elle que ha dois principios no mundo: o _espiritualista_, que marcha sem
attender  parte material e terrena d'esta vida, com os olhos fittos em
suas grandes e abstractas theorias, hirto, scco, duro, inflexivel, e
que pde bem personalizar-se, symbolizar-se pelo famoso mytho do
cavalleiro da Mancha, D. Quixote;--o _materialista_, que, sem fazer caso
nem cabedal d'essas theorias, em que no cr, e cujas impossiveis
applicaes declara todas utopias, pde bem representar-se pela rotunda
e anafada presena do nosso amigo velho, Sancho Pana.

Mas, como na historia do malicioso Cervantes, estes dois principios tam
avessos, tam desincontrados, andam comtudo junctos sempre; ora um mais
atraz, ora outro mais adiante, impecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se
poucas, mas _progredindo_ sempre.

E aqui est o que  possivel ao progresso humano.

E eisaqui a chronica do passado, a historia do presente, o programma do
futuro.

Hoje o mundo  uma vasta Barataria, em que domina elrei Sancho.

Depois hade vir D. Quixote.

O senso commum vir para o millenio: reinado dos filhos de Deus! Est
promettido nas divinas promessas... como elrei de Prussia prometteu uma
constituio; e no faltou ainda, porque--porque o contracto no tem
dia; prometteu mas no disse para quando.

Ora n'esta minha viagem Tejo-a-riba est symbolizada a marcha do nosso
progresso social: espero que o leitor intendesse agora. Tomarei cuidado
de lh'o lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esquea.

Somos chegados ao triste desimbarcadoiro de Villa-Nova-da-Rainha, que 
o mais feio pedao de terra alluvial em que ainda poisei os meus ps. O
sol arde como ainda no ardeu este anno.

Um immenso arraial de caleas, de machinhos, de burros e arrieiros, nos
espera n'aquelle descampado africano.  foroso optar entre os dois
martyrios da calea ou do macho. Do mal o menos... seja este.

E acol--oh supplcio de Tantalo!--vejo duas possantes e nedeas mulas
castelhanas jungidas a um vehiculo que, n'estas paragens e ao p
d'aquell'outros, me parece mais esplendido do que um landaw de
Hyde-Park, mais elegante que um caleche de Long-champs, mais commodo e
elastico do que o mais acrio briska da princeza Hellena. E com tudo--oh
magico podr das situaes!--elle no  seno, uma substancial e bem
apessoada traquitana de cortinas.

Togados manes dos antigos desimbargadores, venerandas cabelleiras de
anneis e castanhola, que direis,  respeitadas sombras, se d'esse limbo
onde estais esperando pela resurreio do Pgas... e do livro
quinto--vdes este degenerado e espurio successor vosso, em calas
largas, frak verde, chapeu branco, gravata de cr, chicotinho de
caoutchouc na mo, prompto a cavalgar em mulinha de Palito-Metrico como
um garraio estudantinho do segundo anno, e deitando olhos invejosos para
esse natural, proprio e adscripticio modo de conduco desimbargatoria?
Oh que direis vs! Com que justo desprzo no olhareis para tanta
degradao e derogao!

Eu commungava silenciosamente commigo n'estas graves meditaes, e
revolvia incertamente no nimo a ponderosa dvida:--se o administrar
justia direita aos povos valia a pena de andar um desimbargador a
p!... Luctava no meu ser o Sancho Pana da carne com o D. Quixote do
espirito--quando a Providencia, que nos maiores apertos e tentaes nos
no abandona nunca, me trouxe a generosa offerta de um amigo e
companheiro do vapor, o Sr. L. S.: era sua a invejada carroa, e n'ella
me deu logar at  Azambuja.

A virtude  o galardo de si mesma, disse um philosopho antigo; e eu no
creio no famoso ditto de Bentham, que sabedoria antiga seja um sophisma.
O mais moderno  o mais velho, no ha dvida; mas o antigo que dura
ainda,  porque tem achado na experiencia a confirmao que o moderno
no tem. Jeremias Bentham tambem fazia o seu sophisma como qualquer
outro.

Vamos percorrendo lentamente aquelle mal-composto maracho que poucos
palmos se eleva do nivel baixo e salgadio do solo: de hynverno no se
passar sem perigo; ainda agora se no anda sem incmmodo e receio.
Estamos em Villa-Nova e s portas do nojento caravanseray, unico asylo
do viajante n'esta, hoje, a mais frequentada das estradas do reino.

Parece-me estar mais deserto e sujo, mais abandonado e em ruinas este
asqueroso logarejo, desde que alli aop tem a estao dos vapres, que
so a commodidade, a vida, a alma do Ribatjo. Imagino que uma aldeia de
Alarves nas faldas do Atlas deve ser mais limpa e commoda.

Oh! Sancho, Sancho, nem siquer tu reinars entre ns! Cahiu o carunchoso
throno de teu predecessor, antagonista e s vezes amo; aoitaram-te
essas nadegas para desincantar a formosa _del Toboso_, proclamaram-te
depois rei em _Barataria_, e n'esta tua provincia lusitana nem o
paternal govrno de teu estupido materialismo pde estabelecer-se para
commodo e salvao do corpo; ja que a alma... oh! a alma...

Fallemos n'outra coisa.

Fujamos depressa d'este monturo.-- montona, arida e sem frescura de
rvores a estrada: apenas alguma rara oliveira mal-medrada, a longos e
desiguaes espaos, mostra o seu tronco rachitico e braos contorcidos,
ornados de ramusculos doentes, em que o natural verde-alvo das folhas 
mais alvacento e desbotado que o costume. O solo porm, com raras
excepes,  optimo, e a trco de pouco trabalho e insignificante
despeza, daria uma estrada tam boa como as melhores da Europa.

Dizia um secretario d'Estado meu amigo que para se repartir com
egualdade o melhoramento das ruas por toda Lisboa, deviam ser obrigados
os ministros a mudar de rua e bairro todos os tres mezes. Quando se
fizer a lei de responsabilidade ministerial, para as kalendas gregas, eu
heide propor que cada ministro seja obrigado a viajar por este seu reino
de Portugal ao menos uma vez cada anno, como a desobriga.

Ahi est a Azambuja, pequena mas no triste povoao, com visiveis
signaes de vida, aceadas e com ar de confrto as suas casas.  a
primeira povoao que d indicio de estarmos nas ferteis margens do Nilo
portuguez.

Corrmos a apear-nos no elegante estabelecimento que ao mesmo tempo
cumulla as tres distinctas funces, de _hotel, de restaurant e de caf_
da terra.

Sancto Deus! que bruxa que est  porta! que antro l dentro!... Cai-me
a penna da mo.




CAPITULO III.


     Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A.
     d'estas viagens. O que devia ser uma estalagem nas nossas eras de
     litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questo
     para tractar, em prosa e verso, um mui difficil ponto de
     economia-politica e de moral social.--Quantas almas  preciso dar
     ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para
     fazer um ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a
     sciencia d'este seculo era uma grandessissima tola.--Rei de facto,
     e rei de direito.--Belleza e mentira no cabem n'um sacco.--Pe-se
     o A. a caminho para o pinhal da Azambuja.


Vou _desappontar_ decerto o leitor benevolo; vou perder, pela minha
fatal sinceridade, quanto em seu conceito tinha adquirido nos dois
primeiros capitulos d'esta interessante viagem.

Pois que esperava elle de mim agora, de mim que ousei declarar-me
escriptor n'estas eras de romantismo, seculo das fortes sensaes, das
descripes a traos largos e _incisivos_ que se intalham n'alma e
entram com sangue no corao?

No fim do capitulo precedente parmos  porta de uma estalagem: que
estalagem deve ser sta, hoje no anno de 1843, s barbas de Victor Hugo,
com o Doutor Fausto a trotar na cabea da gente, com os _Mysterios de
Paris_ nas mos de todo o mundo?

Ha paladar que supporte hoje a classica _posada_ do Cervantes com o seu
_mesonero_ gordo e grave, as pulhas dos seus arrieiros, e o mantear de
algum pobre lorpa de algum Sancho! Sancho, o invisivel rei do seculo,
aquelle _por quem hoje os reis reinam e os fazedores de leis decretam e
afferem o justo!_ Sancho manteado por vis muleteiros! No  da epocha.

    Eu coroarei de trevo a minha espada,
    De cenoiras, luzerna e betarrava,
    Para cantar Harmdios e Aristgilons,
    Que do tyranno jugo vos livraram
    Da sciencia velha, inutil carunchosa,
    Que elevava da terra, erguia, alava
    O que no homem ha de Ser divino,
    E para os grandes feitos e virtudes
    Lhe despegava o espirito da carne...

No: plantae batatas,  gerao de vapor e de p de pedra, macadamisae
estradas, fazei caminhos de ferro, constru passarolas de Icaro, para
andar a qual mais depressa, stas horas contadas de uma vida toda
material, massuda e grossa como tendes feito sta que Deus nos deu tam
differente do que a hoje vivemos. Andae, ganha-pes, andae; reduzi tudo
a cifras, todas as consideraes d'este mundo a equaes de intersse
corporal, comprae, vendei, agiotae.--No fim de tudo isto, o que lucrou a
especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens riccos. E eu
pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se ja calcularam o
nmero de individuos que  foroso condemnar  miseria, ao trabalho
desproporcionado,  desmoralizao,  infamia,  ignorancia crapulosa, 
desgraa invencivel,  penuria absoluta, para produzir um ricco?--Que
lh'o digam no Parlamento inglez, onde, depois de tantas commisses de
inqurito, ja deve de andar orado o nmero de almas que  preciso
vender ao diabo, o nmero de corpos que se tem de intregar antes do
tempo ao cemiterio para fazer um tecelo ricco e fidalgo como Sir Robert
Peel, um mineiro, um banqueiro, um grangeeiro--seja o que for: cada
homem ricco, abastado, custa centos de infelizes, de miseraveis.

Logo a nao mais feliz no  a mais ricca. Logo o princpio utilitario
 a _mamona_ da injustia e da reprovao. Logo...

    There are more things in heaven and earth, Horatio,
    Than are dreamt of in your philosophy.

A sciencia d'este seculo  uma grandessissima tola.

E como tal, presumposa e cheia do orgulho dos nescios.

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Vamos  descripo da estalagem. No pde ser classica; assoviam-me
todos esses rapazes de pera, bigode e charuto, que fazem litteratura
cava e funda desde a porta do Marrare at ao caf de Moscow...

Mas aqui  que me apparece uma incoherencia inexplicavel. A sociedade 
materialista; e a litteratura, que  a expresso da sociedade,  toda
excessivamente e absurdamente e despropositadamente espiritualista!
Sancho rei de facto, Quixote rei de direito!

Pois  assim; e explica-se.-- a litteratura que  uma hypocrita: tem
religio nos versos, charidade nos romances, f nos artigos de
jornal--como os que do esmolas para pr no _Diario_, que amparam
orphans na _Gazeta_, e sustentam viuvas nos cartazes dos theatros.

E fallam no Evangelho! Deve ser por escarneo. Se o leem, hode ver l
que nem a esquerda deve saber o que faz a direita...

Vamos  descripo da estalagem; e acabemos com tanta digresso.

No pde ser classica, est visto, a tal descripo.--Seja
romantica.--Tambem no pde ser. Porque no?  pr-lhe l um
_Chourineur_ a amolar um faco de palmo e meio para espatifar rez e
homem, quanto incontrar,--uma _Fleur-de-Marie_ para dizer e fazer
pieguices com uma rozeirinha pequenina, bonitinha, que morreu,
coitadinha!--e um principe allemo incoberto, forte no scco britannico,
immenso em libras sterlinas, profundo em gyria de cegos e ladres... e
ahi fica a Azambuja com uma estalagem que no tem que invejar  mais
pintada e da moda n'este seculo elegante, delicado, verdadeiro, natural!

 como eu devia fazer a descripo: bem o sei. Mas ha um impedimento
fatal, invencivel--egual ao d'aquella famosa salva que se no deu... 
que nada d'isso l havia.

E eu no quero calumniar a boa gente da Azambuja. Que me no leam os
taes, porque eu heide viver e morrer na f de Boileau:

    Rien n'est beau que le vrai.

Ja se diz ha muito anno que honra e proveito no cabem n'um sacco; eu
digo que belleza e mentira tambem l no cabem: e  a mais portugueza
traduco que creio que se possa fazer d'aquelle mmortal e evangelico
hemystichio. A maior parte das bellezas da litteratura actual fazem-me
lembrar aquellas formosuras que tentavam os sanctos eremitas na
Thebaida. O pobre de Sancto Anto ou de S. Pacomio (Pacomio  melhor
aqui) ficavam imbasbacados ao princpio; mas dava-lhe o corao uma
pancada, olhavam-lhe para os ps...--Cruzes maldicto! Os ps no podia
elle incobrir. E ao primeiro _abrenuntio_ do sancto, dissipava-se a
belleza em muito fummo de inxofre, e ficava o diabo negro feio e cabrum
como quem , e sempre foi o pae da mentira.

Nada, nada, verdade e mais verdade. Na estalagem da Azambuja o que havia
era uma pobre velha a quem eu chamei bruxa, porque emfim que havia de eu
chamar  velha suja e maltrapida que estava  porta d'aquella asquerosa
casa?

Havia l sta velha, com a sua ma mais ma mas no menos nojenta de
ver que ella, e um velho meio paralytico meio demente que alli estava
para um canto com todo o geito e traa de quem vem folgar agora na
taberna porque ja bebeu o que havia de beber n'ella.

Matava-nos a sde; mas a agua alli  beber quartans. O vinho era atroz.
Limonada? No ha limes nem assucar.--Mandou-se um proprio  tenda no
fim da villa. Vieram tres limes que me pareceram de uns que pendiam,
quando eu vinha a frias,  porta do famoso botequim de Leiria.

O assucar podia servir na ltima scena de M. de Pourceaugnac muito
melhor que n'uma limonada. Mas misturou-se tudo com a agua das sezes,
bebmos, pozemo-nos em marcha, e at agora no nos fez mal, com ser a
mais abominavel, antipathica e suja beberagem que se pde imaginar.

Caminhmos na mesma ordem at chegar ao famoso pinhal da Azambuja.




CAPITULO IV.


     De como o A. foi pensando e divagando, e em que pensava e divagava
     elle, no caminho da villa da Azambuja at o famoso pinhal do mesmo
     nome.--Do poeta grego e philosopho Dmades, e do poeta e philosopho
     inglez Addison, da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
     outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar a sua
     profunda erudio.--Discute-se a materia gravissima se  necessario
     que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis
     reflexes de zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
     amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo
     este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e
     passe ao seguinte.


Eu darei sempre o primeiro logar  modestia entre todas as bellas
qualidades.--Ainda sbre a innocencia?--Ainda sim. A innocencia basta
uma falta para a perder, da modestia so culpas graves, so crimes
verdadeiros podem privar. Um accidente, um acaso podem destruir aquella,
a sta so uma aco propria, determinada e voluntaria.

Bem me lembram ainda os dois versos do poeta Dmades que so forte
argumento de auctoridade contra a minha theoria; cuidei que tinha mais
infeliz memoria. Heide p-los aqui para que no falte a sta grande obra
das minhas viagens o merito da erudio, e lhe no chamem livrinho da
moda: estou resolvido a fazer a minha reputao com este livro.

    Aid s te kalle ka arets polis,
    Prto sgathis hamartia deuteron de ais chun.

    Da belleza e virtude  a cidadella
    A innocencia primeiro--e depois ella.

Mas a auctoridade responde-se com auctoridade, e a texto com texto. E eu
trago aqui na algibeira o meu Addison--um dos poucos livros que no
largo nunca--e atiro com o philosopho inglez ao philosopho grego e fico
triumphante: porque Addison no pe nada acima da modestia; e Addison,
apezar da sua casaca de penneiros,  muito maior philosopho do que foi
Dmades com a sua tunica e o seu palio atheniense.

O erudito e amavel leitor escapar d'sta vez a mais citaes: compre um
_Spectator_, que  livro sem que se no pde estar, e veja _passim_.

Eu gsto, bem se ve, de ir ao incntro das objeces que me podem fazer;
lembro-as eu mesmo paraque depois me no digam:--'Ah, ah! vinha a ver se
pegava!'--No senhor, no  o meu genero esse.

Francamente pois... eis-ahi o que podero dizer:--'Addison foi
secretario d'Estado, e ento...'--Ento o qu? No concebem um
secretario d'Estado philosopho, um ministro poeta, escriptor elegante,
cheio de graa e de talento? No, bem vejo que no: teem a idea fixa de
que um ministro d'Estado hade ser por fra algum semsaboro, malcriado
e petulante. Mas isto  nos paizes adiantados em que ja  indifferente
para a coisa-pblica, em que povo nem principe lhes no importa ja, em
que mos se intregam, a que cabeas se confiam. Em Inglaterra no 
assim, nem era assim no tempo de Addison. Fossem l  rainha Anna que
deixasse entrar no seu gabinete quatro calas de coiro sem criao nem
instruco, e no mais seno so porque este saba jogar nos fundos,
aquelle tinha boas tretas para o _canvassing_ de umas eleies, o outro
era figura importante no _Freemasson's-hall_!

Ja se ve que em nada d'isto ha a minima alluso ao feliz systema que nos
rege: estou fallando de modestia, e ns vivemos em Portugal.

A modestia comtudo quando  excessiva e se aproxima do acanhamento, do
que no mundo se chama _falta de uso_--pde ser n'um homem quasi defeito
inteiro. Na mulher  sempre virtude, realce de belleza s formosas,
disfarce de fealdade s que o no so.

Por mim, no conheo objecto mais lindo em toda a natureza, mais
feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espirito e inflammar o corao do
que  uma joven donzella quando a modestia lhe faz subir o rubor s
faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas palpebras... Pouco lume que
tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que
seja a figura, parecer-vos-ha n'esse momento um anjo. E anjo  a virgem
modesta, que traz no rosto debuxado sempre um ceo de virtudes...--De
alguma belleza sei eu cujos olhos _cr da noite_ ou de _saphyra_
(_dialec. poet. vet._), cujas faces de _leite e rosas_, dentes de
_prolas_, collo de _marfim_, transas de _ebano_ (a alluso  surtida,
ha onde escolher) davam larga materia a boas grozas de sonetos--no
antigo regimen dos sonetos, e hoje inspirariam myriadas de canes
descabelladas e vaporosas, choradas na harpa ou gemidas no alahude.
Comtanto que no seja lyra, que  classico, todo o instrumento,
inclusivamente a bandurra,  egual deante da lei romantica.

Ora pois, mas a tal belleza, por certo ar ala-moda, certo no-sei-qu de
atrevido nos olhos, de deslavado na cara, e de descomposto nos ademanes,
perde toda a graa e quasi a propria formosura de que a dotra a
natureza...

Vde-me aquelles labios de carmim. Ha maio florido que tam lindo boto
de rosa apresente ao alvorecer da madrugada?... Mas olhae agora como o
riso da malicia lh'o desfolha tam feiamente n'uma desconcertada
risada...

Desvaneceu-se o prestigio.

No havia moo nem velho, homem do mundo ou sabio de gabinete que no
dsse metade dos seus prazeres, dos seus livros, da sua vida por um so
beijo d'aquella bcca... Agora talvez nem repetidos _avances_ lhe faam
obter um namorante de profisso e officio... E hade pag-lo adeantado, e
porque preo!...

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Mas o que ter tudo isto com a jornada da Azambuja ao Cartaxo? A mais
ntima e verdadeira relao que  possivel.  que a pensar ou a sonhar
n'estas coisas fui eu todo o caminho, at me achar no meio do pinhal da
Azambuja.

Ahi parmos, e acordei eu.

Sou sujeito a stas distraces, a este sonhar acordado. Que lhe heide
eu fazer? Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e fallo, sonho e
escrevo. Francamente me confesso de somnambulo, de somniloquo, de...
No, fica melhor com seu ar de grego (tenho hoje a bossa hellenica n'um
estado de tumescencia pasmosa!); digamos somnilogo, somnigrapho...

A minha opinio sincera e _conscienciosa_  que o leitor deve saltar
stas folhas, e passar ao capitulo seguinte, que  outra casta de
capitulo.




CAPITULO V.


     Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e no o acha. Trabalha-se por
     explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
     romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
     trabalho.--Transio classica: Orpheu e o bosque do Mnalo.--Desce
     o A. d'estas grandes e sublimes consideraes para as realidades
     materiaes da vida:  desamparado pela hospitaleira traquitana e tem
     de cavalgar na triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do
     animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito.


Este  que  o pinhal da Azambuja?

No pde ser.

sta, aquella antiga selva, temida quasi religiosamente como um bosque
druidico! E eu que, em pequeno, nunca ouvia contar historia de Pedro de
Mallas-artes, que logo, em imaginao, lhe no pozesse a scena aqui
perto!... Eu que esperava topar a cada passo com a cova do capito
Roldo e da dama Leonarda!... Oh! que ainda me faltava perder mais sta
illuso...

Por quantas maldices e infernos adornam o stylo d'um verdadeiro
escriptor romantico, digam-me, digam-me: onde esto os arvoredos
fechados, os sitios medonhos d'esta espessura. Pois isto  possivel,
pois o pinhal da Azambuja  isto?... Eu que os trazia _promptos e
recortados_ para os collocar aqui todos os amaveis salteadores de
Schiller, e os elegantes facinorosos do _Auberge-des-Adrets_, eu heide
perder os meus chefes-d'obra! Que  perd-los isto--no ter onde os
pr!..

Sim, leitor benevolo, e por sta occasio te vou explicar como ns hoje
em dia fazemos a nossa litteratura. Ja me no importa guardar segredo,
depois d'esta desgraa no me importa ja nada. Sabers pois,  leitor,
como ns outros fazemos o que te fazemos ler.

Tracta-se de um romance, de um drama--cuidas que vamos estudar a
historia, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulchros, os
edificios, as memorias da epocha? No seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que ns o somos. Desenhar characteres e situaes do _vivo_ da
natureza, collori-los das cres verdadeiras da historia... isso 
trabalho difficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e
sbretudo um tacto!... No senhor: a coisa faz-se muito mais facilmente.
Eu lhe explico.

Todo o drama e todo o romance precisa de:

Uma ou duas damas,

Um pae,

Dois ou tres filhos, de dezanove a trinta annos,

Um criado velho,

Um monstro, incarregado de fazer as maldades,

Varios tractantes, e algumas pessoas capazes para intermedios.

Ora bem; vai-se aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de
Victor-Hugo, e _recorta_ a gente, de cadaum d'elles, as figuras que
precisa, gruda-as sbre uma folha de papel da cr da moda, verde, pardo,
azul--como fazem as raparigas inglezas aos seus albums e scrapbooks;
frma com ellas os grupos e situaes que lhe parece; no importa que
sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se s chronicas, tiram-se
uns poucos de nomes e de palavres velhos; com os nomes chrismam-se os
figures, com os palavres _illuminam-se_... (stylo de pintor
pinta-monos).--E aqui est como ns fazemos a nossa litteratura
original.

E aqui est o precioso trabalho que eu agora perdi!

Isto no pde ser! Uns poucos de pinheiros raros e infezados atravez dos
quaes se esto quasi vendo as vinhas e olivedos circumstantes!..  o
desapontamento mais chapado e solemne que nunca tive na minha vida--uma
verdadeira lograo em boa e antiga phrase portugueza.

E comtudo aqui  que devia ser, aqui  que , geographica e
topographicamente fallando, o bem conhecido e confrontado sitio do
pinhal da Azambuja...

Passaria por aqui algum Orpheu que, pelos magicos podres da sua lyra,
levasse atraz de si as rvores d'este antigo e classico Menalo dos
salteadores lusitanos?

Eu no sou muito difficil em admittir prodigios quando no sei explicar
os phenomenos por outro modo. O pinhal da Azambuja mudou-se. Qual, de
entre tantos Orpheus que a gente por ahi ve e ouve, foi o que obrou a
maravilha, isso  mais difficil de dizer. Elles so tantos, e cantam
todos to bem! Quem sabe? Juntar-se-hiam, fariam uma companhia por
aces, e negociariam um emprestimo harmonico com que facilmente se
obraria ento o milagre.  como hoje se faz tudo;  como se passou o
thesoiro para o banco, o banco para as companhias de confiana... porque
se no faria o mesmo com o pinhal da Azambuja?

Mas aonde est elle ento? faz favor de me dizer...

Sim senhor, digo: _est consolidado_. E se no sabe o que isto quer
dizer, leia os oramentos, veja a lista dos tributos, passe pelos olhos
os votos de confiana; e se depois d'isto, no souber aonde e como _se
consolidou_ o pinhal d'Azambuja, abandone a geographia que visivelmente
no  a sua especialidade, e deite-se a finana, que tem
_bossa_;--fazemo-lo eleger ahi por Arcozello ou pela cidade eterna-- o
mesmo--vai para a commisso de fazenda--depois lord do thesoiro,
ministro:  _escalla_, no offendia nem a rabujenta constituio de 38,
quanto mais a carta........................................................
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O peior  que no meio d'estes campos onde Troia fra, no meio d'estas
areias onde se acoitavam d'antes os pallidos medos do pinhal da
Azambuja, a minha querida e bemfazeja traquitana abandonou-me; fiquei
como o bom _Xavier de Maistre_ quando, a meia jornada do seu quarto, lhe
perdeu a cadeira o equilibrio, e elle cahiu--ou ia caindo, ja me no
lembro bem--estatellado no cho.

Ao cho estive eu para me atirar, como criana amuada, quando vi voltar
para a Azambuja o nosso commodo vehiculo, e deante de mim a infezada
mulinha asneira que--ai triste!--tinha de ser o meu transporte d'alli
at Santarem.

Emfim o que hade ser, hade ser, e tem muita fra. Consolado com este
tam verdadeiro quanto _elegante_ proverbio, levantei o nimo  altura da
situao e resolvi fazer prva de homem forte e supportador de
trabalhos. Bifurquei-me resignadamente sbre o cilicio do esfarrapado
albardo, tomei na esquerda as impermeaveis redeas de coiro cru, e
lancei o animalejo ao seu mais largo trote, que era um confortavel e
amenissimo choito, digno de fazer as delicias do meu respeitavel e
excentrico amigo, o marquez do F.

Tinha a bossa, a paixo, a mania, a furia de choitar aquelle notavel
fidalgo--o ltimo fidalgo homem de lettras que deu sta terra. Mas
adorava o choito o nobre marquez. Conheci-o em Pars nos ultimos tempos
da sua vida, ja octogenario ou perto d'isso: deixava a sua carruagem
ingleza toda mollas e confortos para ir passear n'um certo cabriolet de
praa que elle tinha marcado pelo scco e duro movimento vertical com
que sacudia a gente. Obrigou-me um dia a experimenta-lo: era admiravel.
Communicava-se da velha horsa normanda aos varaes, e dos varaes  concha
do carro, tam inteiro e tam sem diminuio, o choito do execravel
Babica! Nunca vi coisa assim. O marquez achava-lhe propriedades
toni-purgativos, eu classifiquei-o de violentissimo drastico.

Foi um dos homens mais extraordinarios e o portuguez mais notavel que
tenho conhecido, aquelle fidalgo.

Era feio como o peccado, elegante como um bugio, e as mulheres
adoravam-n'o. Filho segundo, vivia de seus ordenados nas misses por que
sempre andou, tractava-se grandiosamente, e legou valores consideraveis
por sua morte. Imprimia uma obra sua, mandava tirar um unico exemplar,
guardava-o e desmanchava as frmas....--No acabo se como a contar
historias do marquez do F.

Piquemos para o Cartaxo, que so horas.




CAPITULO VI.


     Prva-se como o velho Cames no teve outro remedio seno misturar
     o maravilhoso da mythologia com o do christianismo.--Da-se razo, e
     tira-se depois, ao padre Jos Agostinho.--No meio d'estas
     disceptaes academico-litterarias vem o A. a descobrir que para
     tudo  preciso ter f n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque,
     quanto ao outro ja era sabido.--Os Lusadas, Fausto e a
     Divina-Comedia.--Desgraa do Cames em ter nascido antes do
     romantismo.--Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre so melhores
     sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o A. em procura do
     marquez de Pombal, e d com elle nas ilhas Beatas do poeta
     Alceu.--Partida de Whist entre os illustres finados.--Compaixo do
     marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
     d'elle e da sua luneta s perguntas peralvilhas do A.--Chegada a
     este mundo e ao Cartaxo.


O mais notavel, e no sei se diga, se continuarei aomenos a dizer, o
mais indesculpavel defeito que at aqui esgravataram criticos e zoilos
na Iliada dos povos modernos, os immortaes _Lusiadas_,  sem-dvida a
heterogenea e heterodoxa mistura da theologia com a mythologia, do
maravilhoso allegorico do paganismo, com os graves symbolos do
christianismo. A fallar a verdade, e por mais figas que a gente queira
fazer ao padre Jos Agustinho--ainda assim! ver o padre Baccho revestido
_in pontificalibus_ deante de um retabulo, no me lembra de que sancto,
dizendo o seu _dominus vobiscum_ provavelmente a algum acholyto
bacchante ou corybante, que lhe responde o _et cum spiritu tuo!_.. no
se pde;  uma que realmente... E ento aquelle famoso conceito com que
elle acaba, digno da Phenix-Renascida:

    O falso deus adora o verdadeiro!

Desde que me intendo, que leio, que admiro os Lusiadas; interneo-me,
chro, insuberbeo-me com a maior obra de ingenho que ainda appareceu no
mundo, desde a _Divina-Comedia_ at ao _Fausto_...

O italiano tinha f em Deus, o allemo no scepticismo, o portuguez na
sua patria.  preciso crer em alguma coisa para ser grande--no so
poeta--grande seja no que for. Uma Brizida velha que eu tive, quando era
pequeno, era famosa chronista de historias da carochinha, porque
sinceramente cria em bruxas. Napoleo cria na sua estrella, Lafayette
creu na republica-rei de Luiz-Philippe; e, para que ousemos tambem
_celebrare domestica facta_, todos os nossos grandes homens ainda hoje
creem, um na juncta do crdito, outro nas classes inactivas, outro no
mestre Adoniro, outro finalmente na belleza e realidade do systema
constitucional que felizmente nos rege.

Mas essas crenas so para os que se fizeram grandes com ellas. A um
pobre homem o que lhe fica para crer? Eu, apezar dos criticos, ainda
creio no nosso Cames: sempre cri.

E comtudo, desde a edade da innocencia em que tanto me divertiam
aquellas batalhas, aquellas aventuras, aquellas historias d'amores,
aquellas scenas todas, tam naturaes, tam bem pintadas--at sta fatal
edade da experiencia, edade prosaica em que as mais bellas creaes do
espirito parecem macaquices deante das realidades do mundo, e os nobres
movimentos do corao chymeras de enthusiastas--at sta edade de
saudades do passado e esperanas no futuro, mas sem gosos no
presente--em que o amor da patria (tambem isto ser phantasmagoria?), e
o sentimento intimo do _bello_ me do na leitura dos Lusiadas outro
deleite diverso, mas no inferior ao que n'outro tempo me deram--eu
senti sempre aquelle grande defeito do nosso grande poema: e nunca pude,
por mais que buscasse, achar-lhe, justificao no digo--nem siquer
desculpa.

Mas at morrer aprender, diz o adagio: e assim . E tambem  aphorismo
de moral, applicavel outrosim a coisas litterarias: que para a gente
achar a desculpa aos defeitos alheios,  considerar-- pr-se uma pessoa
nas mesmas circumstancias, ver-se involvido nas mesmas difficuldades.

Aqui estou eu agora dando toda a desculpa ao pobre Cames, com vontade
de o justificar, e prompto (assim so as charidades d'este mundo) a
sahir a campo de lana em reste e a quebr-la com todo o antagonista que
por aquelle fraco o atacar.--E porque ser isto? Porque chegou a minha
hora; e--_si parva licet componnere magnis_ (a bossa proeminente hoje 
a latina), aqui me acho eu com este meu capitulo nas mesmas
difficuldades em que o nosso bardo se viu com o seu poema.

Ja preveni as observaes com o texto acima: bem sei quem era Cames, e
quem sou eu; mas tracta-se da _intalao_, que  a mesma apezar da
differena dos intalados. O auctor dos Lusiadas viu-se intalado entre a
crena do seu paiz e as brilhantes tradies da poesia classica que
tinha por mestra e modlo.

No havia ainda ento romanticos nem romantismo, o seculo estava muito
atrazado. As odes de Victor-Hugo no tinham ainda desbancado as de
Horacio; achavam-se mais lyricos e mais poeticos os esconjurios de
Canidia, do que os pesadelos de um inforcado no oratorio; chorava-se com
os _Tristes_ de Ovidio, porque se no lagrimejava com as meditaes de
Lamartine. Andromacha despedindo-se de Heitor s portas de Troia, Priamo
supplicante aos ps do matador do seu filho, Helena luctando entre o
remorso do seu crime e o amor de Pris, no tinham ainda sido eclipsados
pelas declamaes da me Eva s grades do paraizo terreal. O combate de
Achilles e Heitor, das hostes argivas com as troianas, no tinha sido
mettido n'um chinello pelas batalhas campaes dos anjos bons e dos anjos
maus  metralhada por essas nuvens. Dido chorando por Eneas no tinha
sido reduzida a donzella choramigas d'Alfama carpindo pelo seu _Manel_
que vae para a India...

Realmente o seculo estava muito atrazado: Milton no se tinha ainda
sentado no logar de Homero, Shakspeare no de Euripedes, e lord Byron
acima de todos: emfim no estava ainda anglizado o mundo, portanto _a
marcha do intellecto_ no mesmo terreno,  tudo uma miseria.

Ora pois, o nosso Cames, creador da epopea, e--depois do Dante--da
poesia moderna, viu-se atrapalhado; misturou a sua crena religiosa com
o seu credo poetico e fez, _tranchons le mot_, uma semsaboria.

E aqui direi eu com o vate Elmano:

    Cames, grande Cames, quam similhante
    Acho teu fado ao meu quando os cotejo!

Vou fazer outra semsaboria eu, n'este bello capitulo da minha
obra-prima. Que remedio! Preciso fallar com um illustre finado, preciso
de evocar a sombra de um grande genio que hoje habita com os mortos. E
onde irei eu? Ao inferno? Espero que a divina justia se apiedasse
d'elle na hora dos ultimos arrependimentos. Ao purgatorio, ao empyreo?
Apezar do exemplo da _Divina Comedia_, no me atrevo a fazer comedias
com taes logares de scena,--e no sei, no gsto de brincar com essas
coisas.

No lhe vejo remedio seno recorrer ao bem parado dos Elysios, da Styge,
do Cocyto e seu termo: so terrenos neutros em que se pde parlamentar
com os mortos sem compromettimento serio, e....

Eis-me ahi no rro de Cames--e nas unhas dos criticos; e as zagunchadas
a ferver em cima de mim, que fiz, que aconteci....

Mas, senhores, ponderem, venham ca: o que hade um homem fazer? O Dante
no sei que gyria teve que baptisou Publio Virgilio Maro para lhe
servir de cicerone nas regies do inferno, do paraizo e do purgatorio
christo, e teve tam boa fortuna que nem o queimou a Inquisio nem o
descompoz a Crusca, nem siquer o mutilaram os censores, nem o
perseguiram delegados por abuso de liberdade de imprensa, nem o mandaram
para os dignos pares... No se tinham ainda descoberto as mangaes
liberaes que se usam hoje: e as cartas que o povo tinha era a liberdade
ganha e sustentada  ponta da espada, com muito corao e poucas
palavras, muito patriotismo, poucas leis... e menos relatorios. No
havia em Florena nem gazeta para louvar as tolices dos ministros, nem
ministros para pagar as tolices da gazeta.

O Dante foi proscripto e exilado, mas no se ficou a escrever, deu
catanada que se regallou nos inimigos da liberdade da sua patria.

Quem dera ca um batalho de poetas como aquelle!

Que fosse porm um triste vate de hoje escrever no seculo das luzes o
que escrevia o Dante no seculo das trevas! Os proprios philosophos
gritavam: Que escandalo! Atheus professos clamavam contra a
irreverencia; gentes que no teem religio, nem a de Mafoma, bradavam
pela religio: entravam a pr carapuas nas cabeas uns dos outros,
cahiam depois todos sbre o poeta, e--se o no podessem inforcar, pelo
menos declaravam-n'o republicano, que dizem elles que  uma injria
muito grande.

Nada! viva o nosso Cames e o seu maravilhoso mistiforio;  a mais
commoda inveno d'este mundo: vou-me com ella, e ralhe a crtica quanto
quizer.

Quero procurar no reino das sombras no menor pessoa que o marquez de
Pombal: tenho que lhe fazer uma pergunta sria antes de chegar ao
Cartaxo. E ns ja vamos por entre as riccas vinhas que o circundam com
uma zona de verdura e alegria. Depressa o ramo de oiro que me abra ao
pensamento as portas fataes--depressa a unctuosa sopetarra com que heide
atirar s tres gargantas do canzarro. Vamos...

Mas em que districto d'aquellas regies acharei eu o primeiro ministro
d'elrei D. Jos? Por onde est Ixion e Tantalo, por onde demora Sysipho
e outros maganes que taes? No; esse  um bairro muito triste, e
arrisca-se a ter por administrador algum escandecido que me atice as
orelhas.

Nos Elysios com o pae Anchises e outros barbaas classicos do mesmo
jaez? Eu sei? tambem isso no. Hade ser n'aquellas ilhas bemaventuradas
de que falla o poeta Alceu e onde elle poz a passear, por eternas
verduras, as almas tyrannicidas de Harmdio e Aristgiton...

Oh! sta agora!... Sebastio Jos de Carvalho e Mello, conde de Oeiras,
marquez de Pombal, de companhia com os seus inimigos politicos!... Ahi 
que se ingnam; no ha amigos nem inimigos politicos em se largando o
mando e as pretenes a elle. Ora, passados os umbraes da eternidade, 
de f que se no pensa mais n'isso. C. J. X., que morreu a assignar uma
portaria, ja tinha largado a penna quando chegou alli pelos _Prazeres_;
quanto mais!...

O homem hade estar nas ilhas _beatas_. Vamos l...

E ei-lo alli: l est o bom do marquez a jogar o whist com o baro de
Bidefeld, com o imperador Leopoldo e com o poeta Diniz. A partida deve
de ser interessante, talvez aposta essa gente toda--esses manes todos
que esto  roda. Que cara que fez o marquez a um finadinho que lhe foi
metter o nariz nas cartas! Quem havia de ser! O intromettido de M. de
Talleyrand. Estava-lhe cahindo. Mas no viu nada: o nobre marquez sempre
soube esconder o seu jgo.

A mim  que elle ja me viu. 'Que diz? Ah!.. Sim senhor, sou portuguez; e
venho fazer uma pergunta a V. Exa., esclarecer-me sbre um ponto
importante.'

Deitou-me a tremenda luneta.

--'Para que mandou V. Exa. arrancar as vinhas do Ribatejo?'

Apertou a luneta no sobrlho e sorriu-se.

--'Ellas ahi esto centuplicadas, que at ja invadiram o pinhal de
Azambuja. Fez V. Exa. um despotismo inutil; e agora...'

'Agora quem bebe por l todo esse vinho?'

No saba o que lhe havia de responder. Elle sacudiu a cabelleira de
anneis, virou-me as costas, deu o brao a Colbert, passou por-p de
Ricardo Smith e de J. Baptista Say, que estavam a disputar, incolheu os
hombros em ar de compaixo, e foi-se por uma alameda muito viosa que ia
por aquelles deliciosos jardins dentro, e sumiu-se da nossa vista.

Eu surdi ca n'este mundo, e achei-me emcima da azemola, aop do grande
caf do Cartaxo.




CAPITULO VII.


     Reflexes importantes sbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de
     mollas, Tortoni, e o caf do Cartaxo.--Dos cafs em geral, e de
     como so o characteristico da civilizao de um paiz.--O
     Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
     Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran'-Bretanha deveu sempre toda a
     sua fra e toda a sua glria a Portugal.--Shakspeare e Laffitte,
     Milton e Chateaumargot, Nelson e o principe de Joinville.--Prva-se
     evidentemente que M. Guizot  a ruina de Albion e do Cartaxo.


Voltar  meia-noite do _Bois-de-Boulogne_--o bosque por excellencia,
descer, entre nuvens de poeira, o longo stadio dos Campos-Elysios,
entrever, na rapida carreira, o obelisco de Luxor, as rvores das
Tulherias, a columna da praa Vandomma, a magnificencia heteroclyta da
'Magdalena', e emfim sentir parar, de uma soffreada magistral, os dois
possantes inglezes que nos trouxeram quasi de um folego at ao
'boulevard de Gand'; ahi entreabrir mollemente os olhos, levantando meio
corpo dos regallados cochins de seda, e dizer: 'Ah! estamos em
Tortoni... que delicia um sorvete com este calor!'-- seguramente,  dos
prazeres maiores d'este mundo, sente-se a gente viver;  meia hora de
existencia que vale dez annos de ser rei em qualquer outra parte do
mundo.

Pois acredite-me o leitor amigo, que sei alguma coisa dos sabores e
dissabores d'este mundo, fie-se na minha palavra, que  de homem
experimentado: o prazer de chegar por aquelle modo a Tortoni, o apear da
elegante caleche balanada nas mais suaves mollas que fabricasse arte
ingleza do puro ao de Suecia, no alcana, no se compara ao prazer e
consolao de alma e corpo que eu senti ao apear-me de minha choiteira
mula  porta do grande caf do Cartaxo.

Fazem idea do que  o caf do Cartaxo? No fazem. Se no viajam, se no
sahem, se no vem mundo sta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre
o Chiado, a rua do Oiro e o theatro de San'Carlos, como hode alargar a
esphera de seus conhecimentos, desinvolver o espirito, chegar  altura
do seculo?

Coroae-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos  dama
nova, ide, que no prestais para mais nada, meus queridos Lisboetas; ou
discuti os deslavados horrores de algum mellodrama velho que fugiu
assoviado da 'Porte-Saint Martin' e veio esconder-se na Rua-dos-Condes.
Tambem podeis ir aos Toiros--esto imbolados, no ha perigo...

Viajar?.. qual viajar! at  Cova-da-Piedade, quando muito, em dia que
l haja cavallinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que
todas as praas d'este mundo so como a do Terreiro-do-Pao, todas as
ruas como a rua Augusta, todos os cafs como o do Marrare.

Pois no so, no: e o do Cartaxo menos que nenhum.

O caf  uma das feies mais characteristicas de uma terra. O viajante
experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no caf, observa-o,
examina-o, estuda-o, e tem conhecido o paiz em que est, o seu govrno,
as suas leis, os seus costumes, a sua religio.

Levem-me de olhos tapados onde quizerem, no me desvendem seno no caf;
e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou
se for paiz sublunar.

Ns entrmos no caf do Cartaxo, o grande caf do Cartaxo; e nunca se
incruzou turco em divan de seda do mais splendido harem de
Constantinopla com tanto gso de alma e satisfaco de corpo, como ns
nos sentmos nas duras e asperas tbuas das esguias banquetas mal
sarapintadas que ornam o magnfico estabelecimento bordalengo.

Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade classica: ser um
parallelogrammo pouco maior que a minha alcova;  esquerda duas mezas de
pinho,  direita o mostrador invidraado onde campeam as garrafas
obrigadas de liquor de amendoa, de canella, de cravo. Pendem do tecto,
laboriosamente arrendados por no vulgar tesoira, os pingentes de papel,
convidando a lascivo repouso a inquieta raa das moscas. Reina uma
frescura admiravel n'aquelle recinto.

Sentmo-nos, respirmos largo, e entrmos em conversa com o dono da
casa, homem de trinta a quarenta annos, de physionomia experta e
sympathica, e sem nada do repugnante villo-ruim que  tam usual de
incontrar por similhantes logares da nossa terra.

--'Ento que novidades ha por ca pelo Cartaxo, patro?'

--'Novidades! Por aqui no temos seno o que vem de Lisboa.--Ahi est a
'Revoluo' de hontem...'

--'Jornaes, meu caro amigo! Vimos fartos d'isso. Diga-nos alguma coisa
da terra. Que faz por ca o...'

--'O mestre J. P., o 'Alfageme?''

--'Como assim o Alfageme?'

--'Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois ento! Uns senhores de
Lisboa que ahi estiveram em casa do Sr. D. poseram-lhe esse nome, que a
gente bem sabe o que ; e ficou-lhe, que agora ja ninguem lhe chama
seno o Alfageme. Mas quanto a mim, ou elle no  Alfageme, ou no o
hade ser muito tempo. No  aquelle, no. Eu bem me intendo.'

A conversao tornava-se interessante, especialmente para mim: quizemos
profundar o caso.

--'Muito me conta, Sr. patro! Com que isto de ser Alfageme, parece-lhe
que  coisa de?..

--'Parece-me o que , e o que hade parecer a todo o mundo. E alguma
coisa sabemos, ca no Cartaxo, do que vai por elle. O verdadeiro Alfageme
diz que era um espadeiro ou armeiro, cutileiro ou coisa que o valha, na
Ribeira de Santarem; e que foi um homem capaz, e que tinha pelo povo, e
que no queria saber de partidos, e que dizia elle: 'Rei que nos
inforque, e papa que nos excommungue, nunca hade faltar. Assim, deixar
os outros brigar, trabalhemos ns e ganhemos a nossa vida.' Mas que
extrangeiros que no queria, que sta terra que era nossa e co'a nossa
gente se devia de governar. E mais coisas assim: e que porfim o deram
por traidor e lhe tiraram quanto tinha.--Mas que lhe valeu o Condestavel
e o no deixou arrazar, por que era homem de bem e fidalgo s direitas.
Pois no  assim que foi?'

--', sim, meu amigo. Mas ento d'ahi?'

--'Ento d'ahi o que se tira,  que quando havia fidalgos como o sancto
Condestavel tambem havia Alfagemes como o de Santarem. E mais nada.'

--'Perfeitamente. Mas porque chamaram ao mestre P. o Alfageme do
Cartaxo?'

--'Eu lhe digo aos senhores: o homem nem era assim nem era assado.
Fallava bem, tinha sua labia com o povo. D'ahi fez-se juiz, ps por ahi
suas coisas a direito--Deus sabe as que elle intortou tambem!.. ganhou
nome no povo, e agora faz d'elle o que quer. Se lhe der sempre para bem,
bom ser.--Os senhores no tomam nada?'

O bom do homem visivelmente no queria fallar mais: e no deviamos
importun-lo. Fizemos o sacrificio de bom nmero de limes que
expremmos em profundas taas--vulgo, copos de canada--e com agua e
assucar, offerecemos as devidas libaes ao genio do logar.

Infelizmente o sacrificio no foi detodo incruento. Muitas hecatombes de
myrmides cahiram no holocausto, e lhe deram um cheiro e sabor que no
sei se agradou  divindade, mas que injoou terrivelmente aos sacerdotes.

Sahimos a visitar o nosso bom amigo, o velho D., a honra e a alegria do
Ribatejo. Ja elle saba da nossa chegada, e vinha no caminho para nos
abraar.

Fomos dar, junctos, uma volta pela terra.

 das povoaes mais bonitas de Portugal, o Cartaxo, aceada, alegre;
parece o bairro suburbano de uma cidade.

No ha aqui monumentos, no ha historia antiga: a terra  nova, e a sua
prosperidade e crescimento datam de trinta ou quarenta annos, desde que
o seu vinho comeou a ter fama. Ja descahida do que foi, pela estagnao
d'aquelle commercio, ainda  comtudo a melhor coisa da Borda-d'agua.

No tem historia antiga, disse; mas tem-n'a moderna e importantissima.

Que memorias aqui no ficaram da guerra peninsular! Que espantosas
borracheiras aqui no tomaram os mais famosos generaes, os mais
distinctos militares da nossa _antiga e fiel_ alliada, que ainda ento,
ao menos, nos bebia o vinho!

Hoje nem isso!.. hoje bebe a jacobina zurrapa de Bordeos, e as acerbas
limonadas de Borgonha. Quem tal diria da conservativa Albion! Como pde
uma leal goella britannica, rascada pelos acidos anarchicos d'aquellas
vinagretas francezas, intoar devidamente o God-save-the-King em um
_toast_ nacional! Como, sem Porto ou Madeira, sem Lisboa, sem Cartaxo,
ousa um subdito britannico erguer a voz, n'aquella harmoniosa
desafinao insular que lhe  propria e que faz parte de seu respeitavel
character nacional--faz; no se riam: o inglez no canta seno quando
bebe... alias quando est BEBIDO. _Nisi potus ad arma ruisse._ Inverta:
_Nisi potus in cantum prorumpisse_... E pois, como hade elle assim
_bebido_ erguer a voz n'aquelle sublime e tremendo hymno popular
Rulle-Britannia!

Bebei, bebei bem zurrapa franceza, meus amigos inglezes; bebei, bebei a
pso de oiro, essas limonadas dos burgraves e margraves de Allemanha;
chamae-lhe, para vos illudir, chamae-lhe _hoc_, chamae-lhe _hic_,
chamae-lhe o _hic haec hoc_ todo, se vos d gsto... que em poucos annos
veremos o estado de _acetato_ a que hade ficar reduzido o vosso
character nacional.

Oh gente cega a quem Deus quer perder! pois no vdes que no sois nada
sem ns, que sem o nosso alchool, d'onde vos vinha espirito, sciencia,
valor, ides cahir infallivelmente na antiga e priguiosa rudeza saxonia!

D'essas traidoras praias da Frana donde vos vai hoje o veneno corrosivo
da vossa indole e da vossa fra, no tardar que tambem vos chegue
outro Guilherme bastardo que vos conquiste e vos castigue, que vos faa
arrepender, mas tarde, do criminoso rro que hoje commetteis, 
insulares sem fe, em abandonar a nossa alliana. A nossa alliana sim, a
nossa poderosa alliana, sem a qual no sois nada.

O que  um inglez sem Porto ou Madeira... sem Carcavellos ou Cartaxo?

Que se inspirasse Shakspeare com Lafitte, Milton com Chateaumargot--o
chanceller Bacon que se dilluisse no melhor Borgonha... e veriamos os
acidulos versinhos, os destemperados raciocininhos que faziam.

Com todas as suas dietas, Newton nunca se lembrou de beber Johannisberg;
Byron antes beberia _gin_, antes agua do Thamisa, ou do Pamiso, do que
essas escorreduras das areias de Bordeos.

Tirae-lhe o Porto aos vossos almirantes, e ninguem mais teme que torneis
a ter outro Nelson. Entra nos planos do principe de Joinville fazer-vos
beber da sua zurrapa: so tantos pontos de partido que lhe dais no seu
jgo.

 M. Guizot quem perde a Inglaterra com a sua alliana; e tambem perde o
Cartaxo. Por isso eu ja no quero nada com os doutrinarios.

...........................................................................

Ha dze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de
Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da ltima guerra de
_successo_, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de
Saldanha.

Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canes
bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos
hymnos constitucionaes.

Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleies, no  grande coisa
para a indstria vinhateira, dizem. Eu no o creio porm; e tenho minhas
boas razes, que ficam para outra vez.




CAPITULO VIII.


     Sahida do Cartaxo--A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha
     de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do imperador D.
     Pedro ao exrcito liberal.--Batalha de
     Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que no 
     philosopho e chega  ponte da Asseca.


Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montmos a cavallo, e
cortmos por entre os viosos pampanos que so a glria e a e tomado
nimo; breve, nos achmos em plena charneca.

Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se
desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem
que exhalam stas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que
resistem verdes e viosas a um sol portugez de julho!

A doura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do
Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa
temperada da primavera,--a amenidade bucolica de um campo minhoto de
milho,  hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os
caules com a agua que lhe anda por p, e  roda as carvalheiras
classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos--so ambos
esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a
dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio,
nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.

A majestade sombria o solemne de um bosque antigo e copado, o silencio e
escurido de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas
clareiras, tudo  grandioso, sublime, inspirador de elevados
pensamentos. Medita-se alli por fra; isola-se a alma dos sentidos pelo
suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade--as
primitivas e innatas ideas do homem--ficam unicas no seu pensamento...

 assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pr do sol na gandra erma
e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da
bcca do gado--diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro
espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso
n'aquelle quadro que no tem nenhum outro.

No  o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do
valle. No ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir
positivamente. Ha a solido que  uma idea negativa...

Eu amo a charneca.

E no sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser--ao menos, o que
na algaravia de hoje se intende por essa palavra.

Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, quella hora que a passmos,
comeava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.

Sentia-me disposto a fazer versos... a qu? No sei.

Felizmente que no estava so; e escapei de mais essa caturrice.

Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo,
porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distraco, de
mudez--cessou-me a vida toda de _relao_, e no me sentia existir seno
por dentro.

Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:--'Foi aqui!... aqui
 que foi, no ha dvida'.

--'Foi aqui o qu?'

--'A ltima revista do imperador'.

--'A ltima revista! Como assim a ltima revista! Quando? Pois?...'

Ento cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e
desconsolao, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada sta
gerao, Deus sabe para qu--Deus sabe se para expiar as faltas de
nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...

O certo  que alli comeffeito passra o imperador D. Pedro a sua ltima
revista ao exrcito liberal. Foi depois da batalha d'Almoster, uma das
mais lidadas e das mais insanguentadas d'aquella triste guerra.

Toda a guerra civil  triste.

E  difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o
vencido.

Ponham de parte questes individuaes, e examinem de boa f: vero que,
na totalidade de cada faco em que a nao se dividiu, os ganhos, se os
houve para quem venceu, no balanam os padecimentos, os sacrificios do
passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...

Eu no sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a
guerra extrangeira, tudo so guerras que elle condemna--e no mais uma
do que a outra... a no ser Hobbes o ditto philosopho, o que  coisa
muito differente.

Mas no sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aop
do Leo de bronze sbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de
tantos mil, vi--e eram passados vinte annos--vi luzir ainda pela campina
os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a no sei qu... Os
povos disseram que  liberdade, os reis que  realeza... Nenhuma d'ellas
ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...

Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o corao com essas
recordaes, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli
se obraram.

Porque ser que aqui no sinto seno tristeza?

Porque luctas fratricidas no podem inspirar outro sentimento e
porque...

Eu moa comigo so stas amargas reflexes, e toda a belleza da charneca
desappareceu deante de mim.

N'esta desagradavel disposio de nimo chegmos  ponte d'Asseca.




CAPITULO IX.


     Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam,
     apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsiderao do
     capitulo antecedente.--Livros que no deviam ter titulo, e titulos
     que no deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo. Bonaparte,
     Rotchild e Silvio-Pllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexes e 
     ponte da Asseca.--Traduco portugueza de um grande poeta.--Origem
     de um dictado.--Junot na ponte da Asseca.--De como o A. d'este
     livro foi jacobino desde pequeno.--Inguio que lhe deram.--A
     duqueza de Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.


Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra
de Portugal, um figuro exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o
instincto de descobrir assumptos dramaticos nacionaes--ainda, s vezes,
a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, no sem mrito, as
figuras: mas ao p-las em aco, ao collori-las, ao faz-las fallar...
boas noites! era semsaboria irremediavel.

Deixou uma colleco immensa de peas de theatro que ninguem conhece, ou
quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representao; mas rara
 a que no poderia ser arranjada e appropriada  scena.

Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que
bellas e portuguezas coisas se no podem extrahir dos treze volumes--so
treze volumes e grandes!--do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo!
Algumas d'essas peas, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo,
um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.

Esto-me a lembrar stas:

'O Casamento da Cadea'--ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto 
este; comedia cujos characteres so habilmente esboados, funda-se
n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da priso os que assim se
suppunha podrem reparar certos damnos de reputao feminina.

'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo
nosso.

'As duas educaes', bello quadro de costumes: so dois rapazes, ambos
extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. 
eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz  moda,
'palpitante de actualidade.'

'O cioso', comedia ja remoada da antiga comedia de Ferreira e que em si
tem os germens todos da mais ricca e original composio.

'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e inveno de quem
tal assumpto concebeu: assumpto ainda no tractado por nenhum de tantos
escriptores dramaticos de nao alguma, e que  todavia um vulgar
ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.

So muitas mais, no fica n'estas, as composies do fertilissimo
escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gsto, e animadas sbretudo
no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir  mingua dos nossos
theatros.

Uma das mais semsabores porm, a que vulgarmente se haver talvez pela
mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e
sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho,  a que tem
por titulo 'Poeta em annos de prosa'.

E foi por sta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na
digresso dramatico-litteraria do princpio d'este capitulo; pegou-se-me
 penna porque se me tinha pregado na cabea; e ou o capitulo no sabia,
ou ella havia de sahir primeiro.

Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem no
foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si  um volume! Ha
livros, e conheo muitos, que no deviam ter titulo, nem o titulo  nada
n'elles.

Faz favor de me dizer o de que serve, o que significa o 'Judeu errante'
psto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi
anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu
prototypo?

E ha titulos tambem que no deviam ter livro, porque nenhum livro 
possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.

'Poeta em annos de prosa'  um d'esses.

Eu no leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem
verdadeiramente bellas, isto , simples, verdadeiras, e por consequencia
sublimes, que no exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em
annos de prosa!'

Pois este  seculo para poetas? ou temos ns poetas para este seculo?..

Temos sim, eu conheo tres: Bonaparte, Silvio-Pllico e o baro de
Rotchild.

O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o
ltimo com o dinheiro.

So os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.

Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter
paciencia com Silvio-Pllico.

Todo o que fizer d'outra poesia--e d'outra prosa tambem-- tolo...

Vieram-me stas mui judiciosas reflexes a proposito do capitulo
antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instruco e
edificao do leitor benevolo.

Acabei com ellas quando chegmos  ponte da Asseca.

Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um est
traduzido em portuguez--o Rotchild: no  litteral a traduco,
agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como no ha
outra...

Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver
sitio, logar ou coisa que o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o
admiravel rifo portuguez que ainda no foi bem examinado como devia
ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva:
'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'--Os taes
olivaes ficam logo adiante.  uma ethymologia como qualquer outra.

A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul
de hynverno: ainda agora est a desangrar-se em agua por toda a parte.

 notavel na historia moderna este stio. Aqui n'um recontro com os
nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara. _'Il ne sera plus
beau garon'_ disse o parlamentario francez que veio, depois da aco,
tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas
inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem
depois d'isso.

Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1] as duas primeiras
notabilidades que ouvi aclamar como taes e cujos nomes conhec...
Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem
que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que
nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para
excitar tantos odios e malquerenas, era necessario que fosse um bem
grande homem.

Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro.
Levei bons puches de orelhas de meu pae por comprar na feira de
San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos,
ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... no imaginam o
qu... um retrato de Bonaparte.

Foi 'inguio'--diria uma senhora do meu conhecimento que accredita
n'elles: foi inguio que anda se no desfez e que toda a vida me tem
perseguido.

Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha
infancia, por esse primeiro tractamento duro, e--perdoe-me a respeitada
memoria de meu sancto pae!--injustissimo, que me trouxe o mero instincto
das ideas liberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por
ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa
mesma Frana,  patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha
natureza sympathysava sem saber porqu, buscar asylo e guarida?

No vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejra conhecer; as ruinas
do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos,
desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librs do
vencedor...

De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e
tractei foi uma senhora, typo de graa, de amabilidade e de talento.
Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me
formar no espirito um modllo de valor e merecimento feminino que me
veio a fazer muito mal.

Custa depois a encher aquella altura que se marcou...

Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.

Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso,
cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que
tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante
que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo,
ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoo intallado
na inflexivel gravata, os ps pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao
limiar da porta--no que lh'os prendessem saudades, seno que lh'os
paralysava a cakexia incipiente--mas o espirito joven a reagir e a
teimar.

--'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero
apresent-lo a madame de Abrantes. Est tam velha! Isto de mulheres no
so como ns, passam muito depressa.'

E o desgraado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.

Tommos uma 'citadine', e fomos comeffeito  nova e elegante rua chamada
no impropriamente a rua de Londres, onde achmos rodeada de todo o
esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.

No quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem ma,
nem airosa de faser impresso era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora
de conversao, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graas, tanto
natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da
mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente
se dizia a gente no seu corao: 'Como se est bem aqui!'

Fallmos de Portugal, de Lisboa, do imperio--da restaurao, da
revoluo de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de
Luiz-Philippe, de Chateaubriand--o seu grande amigo d'ella--do
_Sacr-Coeur_ e das suas elegantes devotas--fallmos artes, poesia,
politica... e eu no tinha nimo para acabar de conversar...

Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda  consciencia,
um resto de consciencia: acabemos com stas digresses e perennaes
divagaes minhas. Bem vejo que te deixei parado  minha espera no meio
da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dmos d'espora s mulinhas, e
vamos que so horas.

Ca estmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de
Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas
e de loureiros viosos. D'isto  que no tem Pars, nem Frana nem terra
alguma do occidente seno a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas
coisas que nos faltam.




CAPITULO X.


     Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por entre
     umas rvores.--Conjecturas vrias a respeito da ditta
     janella.--Similhana do poeta com a mulher namorada, e
     inquestionavel inferioridade do homem que no  poeta.--Os
     rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas
     saudades.--De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos
     um vestido branco e uns olhos pretos.--Sahem verdes os olhos com
     grande admirao e pasmo seu.--Verificam-se as conjecturas sbre a
     mysteriosa janella.--A menina dos rouxinoes.--Censura das damas
     muito para temer, crtica dos elegantes muito para rir.--Comea o
     primeiro episodio d'esta Odyssea.


O valle de Santarem  um d'estes logares privilegiados pela natureza,
sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situao, tudo
est n'uma harmonia suavissima e perfeita: no ha alli nada grandioso
nem sublime, mas ha uma como symetria de cres, de sons, de disposio
em tudo quanto se ve e se sente, que no parece seno que a paz, a
saude, o socgo do espirito e o repouso do corao devem viver alli,
reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixes ms, os
pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida no podem seno
fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem
habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu corao.

 esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta
quasi a pique, est um masisso de verdura do mais bello vio e
variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaam os ramos amigos; a
madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festes;
a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o
cho.

Para mais realar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das
rvores a janella meia aberta de uma habitao antiga mas no
dilapidada--com certo ar de confrto grosseiro, e carregada na cr pelo
tempo e pelos vendavais do sul a que est exposta. A janella  larga e
baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio
que todavia mal se ve...

Interessou-me aquella janella.

Quem ter o bom gsto e a fortuna de morar alli?

Parei e puz-me a namorar a janella.

Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitio.

Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz...
Imaginaro decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.

Como hade ser bello ver pr o sol d'aquella janella!..

E ouvir cantar os rouxinoes!..

E ver raiar uma alvorada de maio!..

Se haver alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e
saiba gosar todo o prazer tranquillo, todos os sanctos gosos de alma que
parece que lhe andam esvoaando em trno?

Se fr homem  poeta; se  mulher est namorada.

So os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher
namorada: vem, sentem, pensam, fallam como a outra gente no ve, no
sente, no pensa nem falla.

Na maior paixo, no mais acrysolado affecto do homem que no  poeta,
entra sempre o seu tanto da vil prosa humana:  liga sem que se no
lavra o mais fino de seu oiro. A mulher no; a mulher apaixonada devras
sublima-se, idealiza-se logo, toda ella  poesia; e no ha dor physica,
intersse material, nem deleites sensuaes que a faam descer ao positivo
da existencia prosaica.

Estava eu n'estas meditaes, comeou um rouxinol a mais linda e
desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.

Era aope da ditta janella!

E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um
desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam
accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance,
esqueci-me de tudo o mais.

Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua
de canado.

O arvoredo, a janella, os rouxinoes... quella hora, o fim da tarde...
que faltava para completar o romance?

Um vulto feminino que viesse sentar-se quele balco--vestido de
branco--oh! branco por fra... a frente descahida sbre a mo esquerda,
o brao direito pendente, os olhos alados ao ceo... De que cr os
olhos? No sei, que importa!  amiudar muito demais a pintura, que deve
ser a grandes e largos traos para ser romantica, vaporosa, desenhar-se
no vago da idealidade poetica...

--'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu
extasi, 'os olhos... pretos.'

--'Pois eram verdes!'

--'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'

--'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem
preo.'

--'Qu! pois realmente?..  gracejo isso, ou realmente ha alli uma
mulher, bonita, e?..'

--'Alli no ha ninguem--ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh!
houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'

<tb>

--'Bem dizia eu que aquella janella...'

--' a janella dos rouxinoes.'

--'Que l esto a cantar.'

--'Esto, esses l esto ainda como ha dez annos--os mesmos ou outros,
mas a _menina dos rouxinoes_ foi-se e no voltou.'

--'A menina dos rouxinoes! que historia  essa? Pois devras tem uma
historia aquella janella?'

--' um romance todo inteiro, _todo feito_ como dizem os francezes e
conta-se em duas palavras.'

--'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve
ser interessantissimo. Vamos  historia ja.'

--'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'

Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos
companheiros de viagem.

Apemo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia da _menina
dos rouxinoes_ como ella se contou.

 o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle
porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez no
 bom para isto, que em francez que ha outro no-sei-qu...

Eu creio que as damas que esto mal informadas, e sei que os elegantes
que so uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim,
d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as
mulheres no gostem,  porque no presta.

Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou
contar no  um romance, no tem aventuras inredadas, peripecias,
situaes e incidentes raros;  uma historia simples e singella,
sinceramente contada e sem preteno.

Acabemos aqui o capitulo em frma de prologo, e a materia do meu conto
para o seguinte.




CAPITULO XI.


     Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos
     quizeram tirar, mas no lhes foi concedido; aos romancistas
     sim.--Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.--O A., tendo declarado
     no capitulo nono d'esta obra que no era philosopho, agora
     confessa, quasi solemnemente, que  poeta, e pretende manter-se,
     como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha
     menos juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella
     o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia
     transcendente do corao. Por uma deduco appertada e cerrada da
     mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi
     concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre
     namorados.--Applicam-se todas stas grandes theorias  posio
     actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
     capitulo antecedente.--Modestia e reserva delicada o obrigam a
     duvidar da sua qualificao para o desimpenho: pede votos s
     amaveis leitoras. Decide-se que a votao no seja nominal, e
     porqu.--Dido e a mana Annica.--Entra-se emfim na prometida
     historia.--De como a velha estava  porta a dobar, e
     imbaraando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.


Este  o unico privilegio dos poetas: que at morrer podem estar
namorados. Tambem no lhes conheo outro. A mais gente tem as suas
epochas na vida, fra das quaes lhes no  permittido apaixonarem-se.
Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas no lhes
foi consentido pela rainha Opinio, que  soberana absoluta e juiz
supremo de que se no appella nem aggrava ninguem.

Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e no se
extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu
ltimo namro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.

Ora eu philosopho, seguramente no sou, ja o disse; de poeta tenho o meu
pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques asss agudos d'essa
molestia, e bem podra desculpar-me com elles de certas fragilidades de
corao... Mas no senhor, no quero desculpar-me como quem tem culpa
seno defender-me como quem tem razo e justia por si.

Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de
Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam
elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado
apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir,
espero, at morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma
aco baixa, mesquinha, nunca hade ser seno no intervallo de uma paixo
 outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o corao, esfria-me o
sentimento, no acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo s
carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo
generosidade e benevolencia outra vez.'

Yorick tem raso, tinha muito mais razo e juizo que seu augusto amo,
elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica
indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O corao humano
 como o estomago humano, no pode estar vazio, preciza de alimento
sempre: so e generoso so as affeies lh'o podem dar; o odio, a inveja
e toda a outra paixo m  estmulo que so irrita mas no sustenta. Se a
razo e a moral nos mandam abster d'estas paixes, se as chymeras
philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao
corao, que hade elle fazer? Gastar-se sbre si mesmo, consummir-se...
Altera-se a vida, appressa-se a dissoluo moral da existencia, a saude
d'alma  impossivel.

O que pde viver assim, vive para fazer mal ou para no fazer nada.

Ora o que no ama, que no ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua
me se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem  o tal,
e Deus me livre d'elle.

Sbretudo que no escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja
este o motivo da indefinida permisso que  dada aos poetas de andarem
namorados sempre.

O romancista gosa do mesmo fro e tem as mesmas obrigaes.  como o
privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser
desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!

Como heide eu ento, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens
tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que
ainda foi contado ou cantado, como heide eu faz-lo, eu que ja no tenho
que amar n'este mundo seno uma saudade e uma esperana--um filho no
bero e uma mulher na cova?..

Ser isto bastante? Dizei-o vs,  benevolas leitoras, pde com isto so
alimentar-se a vida do corao?

--Pde sim.

--No pde, no.

--Esto divididos os suffragios: peo votao.

--Nominal?

--No, no.

--Porqu?

--Porque ha muita coisa que a gente pensa, e cr e diz assim a
conversar, mas que no ousa confessar publicamente, professar aberta e
nomeadamente no mundo...

Ah! sim... elle  isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos
sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias
extraordinarias. No  assim?

Pois o mesmo farei eu.

E psto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre
assignalado na minha vida, me apparecesse uma viso, uma viso celeste
que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual no
podia dizer decerto como a rainha Dido  mana Annica:

    Reconheo o queimar da chamma antiga,
    Agnosco veteris vestigia flammae;

psto que a viso passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a
certeza de que... Psto que seja assim tudo isto, a confidencia no
passar d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou
sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha
historia  sta.

Era no anno de 1832, uma tarde de vero como hoje calmosa, scca, mas o
ceo puro e desabafado.  porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca
sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o no mostrava.
Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo
cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mos
longas, descarnadas, mas no ossudas como usam de ser mos de velhas;
toucava-se com um leno da mais escrupulosa brancura, e psto de um
geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma
brancura, que tinha no peito e que affectava, no menos, a frma de um
escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava
sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente
parecia a que serviu de modllo a Raphael para o seu bello quadro da
_Madonna della Sedia_.

Como nota historica e illustrao artistica, seja-me permittido juntar
aqui em parenthesis que, no ha muito, vi em casa de um sapateiro
remendo, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados
pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.

Tornemos  velhinha.

Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma
dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha
ter s mos a inrollar-se no ja crescido novello.

Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso,
velha, cadeira, dobadoira, tudo pareceria uma graciosa sculptura de
Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de
Setubal.

O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e responda ao
movimento quasi imperceptivel das mos da velha. Era regular o
movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous,
tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias
se ia alternando como o pulso de um que treme seses.

Mas o velha no tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar
do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez
em quando, de intensidade, e lhe suspendia todo o movimento externo. Mas
a suspenso era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira
tornava a andar.

Os olhos da velha  que tinham uma expresso singular: voltada para o
poente, no os tirou d'essa direco nem os inclinava de modo algum para
a dobadoira que lhe ficava um pouco mais  esquerda. No pestanejavam, e
o azul de suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das
saphyras, parecia desbotado e sem lume.

O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou
tranquillamente as mos e o novello no regao, e chamou para dentro da
casa:

--'Joanninha?'

Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez,
que retinem dentro d'alma e que no esquecem nunca mais, respondeu de
dentro:

--'Senhora? Eu vou, minha av, eu vou.'

--'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando
podres.  a meada que se me imbaraou.'

A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a
providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os
que n'este mundo destinou  dura provana de tam desconsolado martyrio.




CAPITULO XII.


     De como Joanninha desimbaraou a meada da av, e do mais que
     aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha.--D o A. insigne
     prva de ingenuidade e boa fe confessando um grave seno do seu
     Ideal. Insiste porm que  um adoravel deffeito.--Em que se parece
     uma mulher desannellada com um Sanso tosquiado.--Pasmosas
     monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos
     peralvilhos.--Os olhos verdes de Joanninha.--Religio dos olhos
     pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha 
     vista de uns olhos verdes.--De como estando a av e a neta a
     conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a
     conversao.--Quem era Frei Diniz.


--'Aqui estou, minha av:  a sua meada?.. eu lh'a indireito:'--disse
Joanninha sahindo de dentro, e com os braos abertos para a velha.
Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-a muitas vezes, e
tomando-lhe o novello das mos n'um instante desimbaraou o fio e lh'o
tornou a intregar.

A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos
gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de
velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'

sta ltima phrase, sta benam de um corao agradecido, que spira
suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado,
sta ltima phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:

--'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta!
E Elle te abenoe tambem, filha!'

--'Sabe que mais, minha av? Basta de trabalhar hoje, so horas de
merendar'.

--'Pois merendemos'.

Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a
com uma toalha alvissima, ps em cima fructa, po, queijo, vinho,
chegou-a para aop da velha, tirou-lhe o novello da mo, e arredou a
dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe
escolheu e ps nas mos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e
quieta, mas ja sem a mesma expresso de felicidade e contentamento
socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.

As animadas feies de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma
alterao.

Joanninha no era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e
expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza,
o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis
annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de propores
toda a elegancia nobre, todo o desimbarao modesto, toda a flexibilidade
graciosa que a arte, o uso e a conversao da crte e da mais escolhida
companhia vem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.

Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educao nada
ou quasi nada.

Poucas mulheres so muito mais baixas, e ella parecia alta: tam
delicada, tam _elance_ era a frma airosa de seu corpo.

E no era o garbo teso e aprumado da perpendicular _miss_ ingleza que
parece fundida de uma so pea; no, mas flexivel e ondulante como a
hstea joven da rvore que  direita mas dobradia, forte da vida de
toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.

Era branca, mas no d'esse branco importuno das loiras, nem do branco
terso, duro, marmoreo das ruivas--sim d'aquella modesta alvura da cera
que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.

E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de
um sangue que passa livre pelo corao e corre  sua vontade por
artrias em que os nervos no dominam, d'essas no as havia n'aquelle
rosto: rosto sereno como  sereno o mar em dia de calma, porque dorme o
vento... Alli dormiam as paixes.

Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para
increspar a superficie espelhada do mar.

Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das
paixes, e vero como se sobresaltam os musculos agora tam quietos
d'aquella face tranquilla.

O nariz ligeiramente aquilino: a bcca pequena e delgada no cortejava
nem desdenhava o surriso, mas a sua expresso natural e habitual era uma
gravidade singela que no tinha a menor aspereza nem doutorice.

Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que
so a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte
fazer s suas creaturas femeas.

Em perfeita harmonia de cr, de frma e de tom com a fina gentileza
d'estas feies, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em
preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e
mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindo
para a extremidade, at lhe tocarem no collo quasi lisos.

Em stylo de arte--no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes,
a _toilete_--este  um defeito; bem sei.

Que votos, que novenas se no fazem a San'Barometro nas vsperas de um
baile para lhe pedir uma atmosphera scca e benigna que deixe conservar,
at  quarta contradana ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro
quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos
sustos e cuidados custou!

Bem sei pois que  defeito, , ser... mas que adoravel defeito! Que
deliciosas imagens que excita de abandno--passe o gallicismo--de
confiana, de absoluta e generosa renncia a todo o caprixo, de perfeita
e completa abdicao de toda a vontade propria!

Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma f que tinha
Sanso: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes
vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu no estou longe de o crer:
canudo inflexivel, mulher inflexivel.

Os peralvilhos negam a existencia do tal canudo _in rerum natura_, dizem
que  como a ave phenix que nasceu de nossos avs no saberem grego. Eu
no digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas
monstruosidades.

Emfim suspendmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e
interessante questo. Fica addiada para um capitulo _ad hoc_, e voltemos
 minha Joanninha.

Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos
anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intranar-se, e
inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabea pequena,
estreita e do mais perfeito modlo.

As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de
extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura
da face.

Os olhos porm--singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta
harmonia quiz lanar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e
ousado _maestro_ que, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da
sua composio, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem
espera e que parece lanar a anarchia no meio do rythmo musical... os
dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos
ouvidos lhes levam ao corao a musica, e no  cabea, esses estremecem
de admirao e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... no
d'aquelle verde descorado e traidor da raa felina, no d'aquelle verde
mau e destingido que no  seno azul imperfeito, no; eram
verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido
quilate.

So os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.

Eu, que professo a religio dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella
espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a
heretica pravidade do lho azul, soffri o que  muito bem feito que
soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca,
nos meus principios, sinceramente persuadido que fra d'elles no ha
salvao, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes
olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu
catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha
f vacillante na contemplao das eternas verdades, que so e unicamente
se incontram aonde est toda a f e toda a crena... n'uns olhos sincera
e lealmente pretos.

Joanninha porm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feio
n'aquella physionomia  primeira vista tam discordante--era em verdade
pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensao
inexplicavel e indecisa que doa e dava prazer ao mesmo tempo: porfim
pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam
carregada, tam incapaz de soluo-de-continuidade, que toda a lembrana
de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade
eram absorvidas.

Resta so accrescentar--e fica o retrato completo, um simples vestido
azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas
traadas em cothurno. O p breve e estreito; o que se adivinhava da
perna admiravel.

Tal era a ideal e espiritualissima figura que em p, incostada  banca
onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto
macerado e apagado, a indicivel expresso de tristeza que elle pouco a
pouco a tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da
contempladora.

A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfro para se
distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as
mos o novllo da sua meada:

--'O meu novllo, filha: no posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'

--'Conversemos, av.'

--'Pois conversemos; mas d-me o meu novllo. No sei o que , mas
quando no trabalho eu, trabalha no sei o que em mim que me cansa ainda
mais. Bem dizem que a ociosidade  o peior lavor.'

Joanninha deu-lhe o novllo e ps-lhe a dobadoira a geito.

A velha sentiu o que quer que fosse na mo, levou-a  bcca e pareceu
beija-la, depois disse:

--'Bem vi, Joanninha!'

--'O qu, minha av? que viu?'

--'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para
sempre--louvado seja Elle por tudo!--vi, sentindo, sta lagryma tua que
me cahiu na mo, e que ja ca est no peito por que a bebi, Joanna. Oh
filha, ja!  muito cedo para comear, deixa isso para mim que estou
costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgsto!'

--'Nenhum, av! E estamos sosinhas ns duas n'este mundo, minha av
n'esse estado, eu n'esta edade, e...'

--'E Deus no ceu para tomar conta em ns... Mas que ? olha, Joanna: eu
sinto passos na estrada v o que .'

--'No vejo ninguem.'

--'Mas oio eu... Espera...  Fr. Diniz; conheo-lhe os passos.'

Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas
oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura
scca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado
em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe
na cabea o seu chapeo alvadio, vinha em direco para ellas.

Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardio de San'Francisco de
Santarem.




CAPITULO XIII.


     Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado, socialmente e
     artisticamente.--Prva-se que  muito mais poetico o frade do que o
     baro.--Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.--Do que seja o baro,
     sua classificao e descripo linneana.--Historia do castello do
     Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os
     jesuitas no so a cholera-morbus, e que  preciso refazer o 'Judeu
     errante'--De como o frade no intendeu o nosso seculo nem o nosso
     seculo ao frade.--De como o baro ficou em logar do frade, e do
     muito que n'isso perdmos.--Unica voz que se ouve no actual deserto
     da sociedade: os bares a gritar contos de reis.--Como se contam e
     como se pagam os taes contos.--Predileco artistica do A. pelo
     frade: confessa-se e explica-se sta predileco.


Frades... frades... Eu no gsto de frades. Como ns os vimos ainda os
d'este seculo, como ns os intendmos hoje, no gsto d'elles, no os
quero para nada, moral e socialmente fallando.

No ponto de vista artistico porm o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquellas figuras graves e srias com os seus habitos
tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as
multides de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de
alcatruz que distinguem a peralvilha raa europea--cortavam a monotonia
do ridiculo e davam physionomia  populao.

Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a
payzagem, poetisavam a situao mais prosaica de monte ou de valle; e
tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros,
que sem ellas o painel no  ja o mesmo.

Alm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no rmo animavam,
amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as rvores,
sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.

O que no sabem nem podem fazer os agiotas bares que os substituiram.

 muito mais poetico o frade que o baro.

O frade era, at certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.

O baro , em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.

Menos na graa...

Porque o baro  o mais desgracioso e estupido animal da creao.

Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam
distinctas como o Ruo do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de
Orleans e outros.

O baro (_onagros-baronius_ de Linn., _l'nne-baron_ de Buf.)  uma
variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte
essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com
o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e
sordidamente revolucionaria de seu character.

O baro  pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente
usurario.

Por isso  _zebrado_ de riscas monarchico-democraticas por todo o pllo.

Este  o baro verdadeiro e puro-sangue: o que no tem estes characteres
 especie differente, de que aqui se no tracta.

Ora, sem sahir dos bares e tornando aos frades, eu digo: que nem elles
comprehenderam o nosso seculo nem ns os comprehendmos a elles..

Por isso brigmos muito tempo, a final vencmos ns, e mandmos os
bares a expuls-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se
fez outra. O baro mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a ns
depois.

Com que havemos ns agora de matar o baro?

Porque este mundo e a sua historia  a historia do 'castello do
Chucherumello'. Aqui est o co que mordeu no gato, que matou o rato,
que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.

Mas o frade no nos comprehendeu a ns, por isso morreu, e ns no
comprehendemos o frade, por isso fizemos os bares de que havemos de
morrer.

So a molestia d'este seculo; so elles, no os jesuitas, a
cholera-morbus da sociedade actual, os bares. O nosso amigo Eugenio Sue
errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.

Ora o frade foi quem errou primeiro em nos no comprehender, a ns, ao
nosso seculo, s nossas inspiraes e aspiraes: com o que falsificou a
sua posio, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade,
uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era
sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o
no amava seno relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe no servia
nem o servia.

Ns tambem errmos em no intender o desculpavel rro do frade, em lhe
no dar outra direco social; e evitar assim os bares, que  muito
mais damninho bicho e mais roedor.

Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais
bellas theorias que se faam, por mais perfeitas constituies com que
se comece, o _status in statu_ forma-se logo: ou com frades ou com
bares ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma
influencia distincta, quando no contraria, s influencias manifestas e
apparentes do grande corpo social. Esta  a opposio natural do
Progresso, o qual tem a sua opposio como todas as coisas sublunares e
superlunares; sta corrige saudavelmente, s vezes, e modera sua
velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim  uma
necessidade.

Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposio dos
frades que a dos bares. O caso estava em a saber conter e approveitar.

O Progresso e a liberdade perdeu, no ganhou.

Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os
egressos a pedir esmola e os bares de berlinda, tenho saudades dos
frades--no dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.

E sei que me no inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica
inflexivel contra as illuses poeticas em se tractando de coisas graves.

E sei que me no namro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de
contradico desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca esto
contentes com o que .

No, senhor: o frade, que  patriota e liberal na Irlanda, na Polonia,
no Brazil, podia e devia s-lo entre ns; e ns ficavamos muito melhor
do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer
missa; e com duas grozas de bares, no para a tal opposio salutar,
mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da
sociedade--porque no ha de outra ca.

E se no digam-me: onde esto as universidades, e o que faz essa que ha
seno dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? O que
escreve ella, o que discute, que prncipios tem, que doutrinas professa,
quem sabe ou ouve d'ella seno algum echo timido e acanhado do que
n'outra parte se faz ou diz?

Onde esto as academias?

Que palavra poderosa retine nos pulpitos?

Onde est a fra da tribuna?

Que poeta canta tam alto que o oiam as pedras brutas e os robres duros
d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?

Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da
policia, no se ouve no vasto silencio d'este ermo seno a voz dos
bares gritando contos de ris.

Dez contos de ris por um eleitor!

Mais duzentos contos pelo tabaco!

Trs mil contos para a converso de um amphigouri!

Cinco mil contos para as estradas dos areonautas!

Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!

No tardam o contar por centenas de milhares.

Contar a elles no lhes custa nada.

A quem custa  a quem paga para todos esses bales de papel--a terra e a
indstria..................................................................
...........................................................................
...........................................................................

Este captulo deve ser considerado como introduco ao captulo
seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardio do San' Francisco
de Santarem.

Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que no podia fazer conto,
drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.

O 'Cames' tem um frade, Frei Jos Indio;

A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil--faz
quatro;

A 'Adozinda' tem um ermito, especie de frade--cinco;

'Gil-Vicente' tem outro--isto , verdadeiramente no tem seno meio
frade, que  Andr de Rezende, demais a mais, pessoa muda--cinco e meio;

O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilo-Dias, chibato da ordem de
Malta--seis frades e um quarto;

Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo so frades: vale bem n'esta computao, os
seus tres, quatro, meia duzia de frades--so j dze e quarto:

Alguns, no eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em
que ha bem dous frades e um leigo:

E aqui tenho eu s costas nada menos de quinze frades e quarto.

Com este Frei Diniz  um convento inteiro.

Pois, senhores, no sei que lhes faa: a culpa no  minha. Desde mil
cento e tantos que comeou Portugal, at mil oitocentos trinta e tantos
que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, no sei
que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pblica ou
particular, em que frade no entrasse.

Para evitar isto no ha seno usar da receita que vem formulada no
capitulo V[3] d'esta obra.

Faa-o quem gostar; eu no, que no quero nem sei.




CAPITULO XIV.


     Emendado emfim de suas distraces e divagaes, prosegue o A.
     direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
     manga a beijar  av e  neta, e do mais que entre elles se
     passou.--Ralha o frade com a velha, e comea a descobrir-se onde a
     historia vai ter.


Este capitulo no tem divagaes, nem reflexes, nem consideraes de
nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia
adeante.

Fr. Diniz chegava aop das duas mulheres e disse:

--'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'

Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle
accrescentou:

--'A beno de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'

--'Benedicite, padre guardio:' disse a velha inclinando-se meia
levantada da cadeira.

--'Em nome do Senhor! amen'.--respondeu o frade aproximando-se, e
chegando o brao a alcance de lh'o ella beijar:

--'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por c?
Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no
Senhor?'

--'Ja os no tenho seno para elle, padre.'

--'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!
Tenho-a reprehendido tanta vez e no se emenda.'

--'Eu no me queixei, meu padre. Deus sabe que me no queixo... ao menos
por mim.'

--'Pois por quem?'

--'Oh padre!'

--'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu no conheo as
affeies da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou
frade, minha irman, sou um que ja no  do nmero dos vivos, que vestiu
sta mortalha para no ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a
mofa e o desprzo so o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a
deriso, o insulto--o peior e o mais cruel de todos os martyrios--so a
nossa unica esperana. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo
tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, j velho e experimentado
no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera--a mim e 
profisso que abraei. Que quer de um homem que assim se resolveu a
cortar por quanto prende a humanidade a sta miseravel vida da terra,
para no viver seno das esperanas da outra? Eu vesti este hbito para
isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu?  um divertimento,  um
capricho,  uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas
do mundo, no apperte com a paciencia divina, trajando por fra o sacco
da penitencia e trazendo o corao pordentro desappertado de todo o
cilicio e mortificao.'

A velha com as mos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o
ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que no
cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente
se fra approximando da av, e a tinha como amparada portraz com um de
seus braos, firmava a outra mo nas costas da cadeira e cravava fita no
frade a vista penetrante e cheia de luz. A expresso do seu rosto era
indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto
inextricavel de enthusiasmo e desanimao, de f e de incredulidade, de
sympathia e de averso.

Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal crado estava
o typo e o symbolo das vascillaes do seculo.

--'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:--'se
o mereci, castigae-me. Deus, que me v e me ouve, bem sabe que o digo em
toda a verdade do meu corao, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e
mulher.'

--'Pois aos fracos no  que Elle disse: _Toma a tua cruz e segue-me_.
Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'

--' verdade, padre,  verdade: bem sei o que prometti, que me votei a
Deus d'alma e corpo, que me no perteno, que nem das minhas affeies
posso dispor, mas...'

--'Mas o qu? Irman Francisca, a Deus no se ingana. Os seus votos no
foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das
solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fro da consciencia,
na presena de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.
Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fra humana a constrange.
Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu no torno aqui.'

--'Oh, por compaixo, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta
so, uma so, e eu prometto no pensar, no fallar mais em... Onde est
elle?'

--'Joanna, retire-se.'

Joanninha appertou a av com ambos os braos; e sem dizer uma palavra,
sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para
dentro de casa.

--'E sta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta  primeira
pergunta que com tanta ancia fizera--'e sta, tambem d'ella me heide
separar, tambem heide renunciar a ella?'

--'Esta  uma innocente, e emquanto o for'...

--'Em quanto o for! A minha Joanna  um anjo.'

--'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a no castigue por ella. Joanna 
boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mo. O
outro...'

--'Que  feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'

--'No prometta seno o que pde cumprir. Seu neto est com esses
desgraados que vieram das ilhas,  dos que desimbarcaram no Porto...'

--'Oh filho da minha alma! que no trno a abraar-te...'

--'No decerto; vencedores ou vencidos, toda a communho, toda a
possibilidade de unio acabou entre ns e estes homens. Ns temos
obrigao de os destruir, elles o seu unico desejo  exterminar-nos.'

--'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja no ha
misericordia no ceo nem na terra!'

--'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra no sei onde est nem
onde esteve nunca. Os fracos do sacrilegamente esse nome  sua
relaxao.'

--'Pois  relaxao desejar a paz, querer a unio, supplicar a
indulgencia? No nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os
nossos inimigos?'

--'Os nossos sim, os d'Elle no.'

--'Tende compaixo de mim, Senhor!'

--'Se as suas afflices so as da carne e do sangue, se so pensamentos
da terra como desgraadamente vejo que so, mulher fraca e de pouco
nimo, console-se, que para mim  claro e seguro que estes homens hode
vencer.'

--'Quaes homens?'

--'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas
speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, esto em
todo o vigor das suas illuses. E ns, ns carregmos com o desingano de
muitos seculos, com os peccados de trinta geraes que passaram, e com a
inaudita corrupo da presente... ns havemos de succumbir. Os templos
hode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus
blasphemado  vontade n'esta terra malditta.'

--'Pois tam perdidos, tam abandonados da mo de Deus so elles todos...
todos?'

--'Todos. E que cuida, irman? que so melhores os nossos, esses que se
dizem nossos? que ha mais f na sua crena, mais verdade em sua
religio? Oh sancto Deus!'

--'Faz-me tremer, padre!'

--'E para tremer . A impiedade e a cubia entraram em todos os
coraes. _Duvidar_  o unico princpio, _inriquecer_ o unico objecto de
toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem f: os liberaes ainda
teem esperana; no lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e vero.'

--'E hode vencer elles?'

--'Decerto.'

--'Ninguem mais diz isso.'

--'Digo-o eu.'

--'Tantos mil soldados que o govrno tem por si!'

--'E tantos milhes de peccados contra. No pde ser, no pde ser: a
misericordia divina est exhausta, e o dia desejado dos impios vem a
chegar. A sua misso  facil e prompta; no sabem, no podem seno
destruir. Edificar no  para elles, no teem com qu, no creem em
nada. O symbolo christo no  so uma verdade religiosa  um princpio
eterno e universal. _Fe, esperana e charidade_. Sem crer, sem
esperar...'

--'E sem amar!'

--'Mulher, mulher! o amor  a ltima virtude...'

--'Mas por ella, por ella se chega s outras.'

--'No, mulher fraca, no. E de uma vez para sempre, irman Francisca,
desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, no ha
transaco com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto no sei o que
. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e no tremo deante d'ella.
Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'

--'Padre eu no temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a
tribulao e desgraa heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da
minha f. Mas... mas o meu neto  o meu sangue, a minha vida,  o filho
querido da minha unica e tam amada filha, elle no conheceu outra me
seno a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandon-lo no posso, tirar
d'elle o pensamento no sei. A vontade de Deus...'

--'A vontade de Deus  que o justo se aparte do impio,  que os
cordeiros da beno vo para um lado, e os cabritos da maldico para
outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu no sou de pedra, no, no sou,
e tambem o corao se me parte de o dizer... mas esse rapaz  malditto,
e entre ns e elle est o abysmo todo do inferno.'

--'Misericordia, meu Deus!'

Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre
aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fra, as suas
ltimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos,
recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordo
tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao
culpado a terrivel imprecao que lhe sahia dos labios.

--'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato,
corao derrancado e perverso!'

--'Meu Deus, no o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no cho
e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, no confirmeis aquellas
palavras tremendas. No o ouais, Senhor, e valha o sangue precioso de
vosso filho, as dores bemdittas de sua me, oh meu Deus! para arredar da
cabea do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade,
sem amor!..'

A velha queria dizer mais; as angstias que se tinham estado juntando
n'aquella alma, que porfim no podia mais e transbordava, queriam sahir
todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluos na presena do seu
Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que no podia
acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganas
que lhe annunciava o frade. Mas a carne no pde com o espirito, as
fras do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e...
suspendeu-se-lhe a vida.

Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu
commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que no
vibravam a nenhuma suave percusso: deu dous passos para a porta da
casa, bateu com o bordo e disse com voz firme e segura:

--'Joanna, acuda a sua av que no est boa.'

D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabea, caminhou
pressado; breve se escondeu para l das oliveiras da estrada.




CAPITULO XV.


     Retratto de um frade franciscano que no foi para o depsito da
     Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
     Bellas-artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se no parecia nada
     com a de Condillac.--Suas opinies sbre o liberalismo e os
     liberaes.--Que o podr vem de Deus, mas como e paraqu.--Que os
     liberaes no intendem o que  liberdade e egualdade; e o para que
     eram os frades, se fossem.--Prva-se, pelo texto, que o homem no
     vive so de po, e pergunta-se o de que vivia ento Fr. Diniz.


Quem era Frei Diniz?

Disse-o elle:--um homem que se fizera frade, ja velho e canado do
mundo, que vestra o hbito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o
desprzo seguiam aquella profisso; que o saba, que o conhecia e que
por isso mesmo o affrontra.

D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das
grandes instituies para que nenhuma perea sem protesto, paraque de
nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe
faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoo nobre,
gloriosa e digna do alto espirito do homem:--que o homem  uma grande e
sublime creatura por mais que digam philosophos.

Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenas rigidas, e
de uma logica inflexivel e teimosa: logica porm que regeitava toda a
anlyse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que
fixra o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pso de uma
synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destrua
todo o raciocinio que se lhe punha de deante.

Condillac chamou  synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de
Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.

O despotismo, detestava-o como nenhum liberal  capaz de o abhorrecer;
mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas,
regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento
justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado,
para a sociedade em qualquer frma no havia mais leis que as do
decalogo, nem se precisavam mais constituies que o Evangelho: dizia
elle. Refor-las  superfluo, melhor-las impossivel, desviar d'ellas
monstruoso. Desde o mais alto da perfeio evangelica, que  o estado
monastico, ha regras para todos alli; e no falta seno observ-las.

No sei se sta doutrina no tem o quer que seja de um certo sabor
independente e livre, se no cheira o seu tanto  confiana heretica dos
reformistas evangelicos. O que sei  que Fr. Diniz a professava de
boaf, que era catholico sincero, e frade no corao.

Segundo os seus principios, podr de homem sbre homem, era usurpao
sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podr estava em
Deus--que o delegava ao pae sbre o filho, d'ahi ao chefe da familia
sbre a familia, d'ahi a um d'esses sbre todo o Estado; mas para o
reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos
primitivos principios christos.

Assim fra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra--sem o qu, no
eram reis.

Tudo o mais, anarchia, usurpao, tyrannia, peccado--absurdo
insustentavel e impossivel.

E sbre isto tambem no disputava, que no concebia como: era dogma.

Nas applicaes sim questionava, ou antes, argua, com sua logica de
ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, no os
poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubia e a suberba
dos grandes, a corrupo e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve
tribuno popular que as aoitasse mais sem d nem caridade.

O princpio porm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por
verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.

Quanto s doutrinas constitucionaes, no as intendia, e protestava que
os seus mais zelosos apostolos as no intendiam tam pouco: no tinham
senso-commum, eram abstraces d'eschola.

Agora, do frade  que me eu queria rir... mas no sei como.

O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas
cousas, _duvidar e destruir_ por principio, _adquirir e inriquecer_ por
fim:  uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve;
tem muita fra para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, no o
pde fazer. Curar com uma revoluo liberal um paiz estragado, como so
todos os da Europa,  sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as
ancias do pulmo por algum tempo, mas as fras vo-se, e a morte  mais
certa.'

Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em
elles os practicando devras, os liberaes, fao-me eu liberal tambem.
Mas no ha perigo: se os no intendem! Para intender a liberdade 
preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade  preciso ter o
Evangelho no corao.'

As instituies monasticas eram, no seu intender e no seu systema,
condico essencial de existencia para a sociedade civil--para uma
sociedade normal. No paliava os abusos dos conventos, no cubria os
defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua
relaxao; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeio
evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se
destrua, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio,
precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos
os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava
e estreitava o individualismo egoista--ltima phase da civilizao
exaggerada que vai tocar no outro extrmo da vida selvagem.

Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma
erudio immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que
tinha vivido at a edade de cinquenta annos.

Como e porque deixra elle o mundo? Como e porqu, um espirito tam
activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardio do
seu convento--cargo que acceitra por obediencia--e quasi que limitava
as suas relaes fra do claustro quella casa do valle onde no havia
seno aquella velha e aquella criana?

Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a
este mundo? Aquelle corao macerado do cilicio dos pensamentos austeros
e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gso,
detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma
fibra que vibrasse com recordaes, com saudades, com remorsos do
passado?

No seu convento elle no tinha seno uma cella nua com um cruxifixo por
todo adrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que
conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com
quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi
que se no sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em
coisa mais nenhuma d'este mundo no tinha parte. De que vivia pois este
homem--homem que certo no era d'aquelles que vivem so de po?

E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema
predilecto dos raros sermes que prgava: _Non in solo pane vivit homo_,
Nem so de po vive o homem.

Vivia ento de alguma outra coisa este homem; e a meditao e a orao
no lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e no ia prgar nem
rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle  mesma hora,
do mesmo modo...

Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se no
desprendra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltava
_castrar_ ainda por amor do ceo.

 que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que no morre
assim. E talvez  uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva,
que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a
viver.

Saibamos alguma coisa d'essa vida.




CAPITULO XVI.


     Saibmos da vida do frade.--Era franciscano porqu?--Dos antigos e
     dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
     depois de ser frade.--Emigrao.--Explicao incompleta.--De como a
     velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
     aziago.


Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a
do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.

Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das
armas primeiro, depois a das lettras. Com distinco, e quasi com
paixo, tomra parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas
desgostoso do servio ou despreoccupado da glria militar, entrou na
magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de
corregedor do Ribatejo, em que ja fra reconduzido, devia passar  casa
do Porto.

Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mo a elrei, e d'ahi tomou
um dia o caminho de Santarem, chegou quella villa, deixou criados e
cavallos na estalagem, e foi tocar  campa da portaria de San'Francisco.

Os criados esperaram em vo muitos dias: elle no voltou.

Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu
Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prgador mais eloquente
d'aquelle tempo. Raro prgava, e so de doutrina; mas era uma torrente de
vehemencia, uma unco, uma fra!..

Dos institutos monasticos, ja ento bem decahidos todos de esplendor e
reputao, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descra no
conceito pblico. Quanto mais austera  a regra, tanto mais se nota
qualquer relaxao nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se
feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam
conversantes com todas as classes; familiarizra-se por tal modo o povo
com o aspecto d'aquellas mortalhas negras--aspecto ja no severo, e
apenas deixou de o ser... ridculo--e ellas appareciam em taes logares,
a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a
considerao se lhe perdera. Escriptores, ja os no tinham, prgadores
poucos e sem reputao, era em todo o sentido a religio mais humilhada
na geral decadencia das ordens.

Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade
desprezado e apupado do seculo dezenove.

Em certos animos  preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar
este martyrio, do que fra nos antigos tempos para ir ao incntro das
nobres perseguies do sangue e do fogo.

Luctava-se com honra ento, cahia-se com glria, vencia-se muitas vezos
morrendo...

Agora  soffrer so.

O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com
intersse, com admirao, com espanto quelles combates gigantescos. E o
tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe no cahia aos ps
vencido, convertido e penitente...

Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja
no sabe que tem martyres.

'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se
regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'

Eis aqui porque Diniz d'Atahide no quiz ser bento, nem jeronymo, nem
cartucho, e se foi metter frade franciscano.

De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica
somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua
entrada no convento. Do resto fez doao inteira a D. Francisca
Joanna--a velha hoje cega e decrepita que no princpio d'esta historia
incontrmos dobando  sua porta na casa do valle.

A velha no tinha mais familia que um neto e uma neta.

A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varo, e ja orphan
de pae e de me.

O neto, orpham tambem, nascra posthumo, e custra a vida a sua me,
filha querida e predilecta da velha.

Antes da splendida doao de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e
honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam
remediadamente. Mas a velha no quiz nunca sahir do modesto estado em
que atlli vivra. Tinham fartura de po, azeite e vinho de suas lavras;
corria-lhe com ellas um criado velho de confiana; trajavam e
tractavam-se como gente mean, mas independente.

Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr.
Diniz, ento Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentra
bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos
pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em
occasio de grande cheia, elle nunca mais l tornra.

At que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardio
do seu convento.

Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.

E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em
San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que
nunca mais largou.

Mas um dia, chegou Fr. Diniz  porta da casa do valle e disse:

--'Deus seja n'esta casa!'

A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianas que
brincavam aop d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia
inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e
conversaram nunca se soube.

O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e
chorou toda a noite.

Isto fra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras
de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.

No era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por
tudo, menos no que respeitava a Joanninha.

Havia no frade uma affectao visivel, um systema premeditado e
inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir,
por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criana.

Joanninha no lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era
misturado de uma averso instinctiva, que, por contradico inaudita e
inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e
professava: doutrinas, opinies, sentimentos, tudo lhe agradava no
frade, menos a pessoa.

No assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa
Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no ltimo
anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz comeou
de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.

Sbre esse a inspeco do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os
livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraava, as
inclinaes para que pendia--de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe
dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a av tinha
longas conferencias a esse respeito.

Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava
tomar.

--' temente a Deus, no tem o nimo cubioso nem servil, no 
hypocrita, o mania do liberalismo no o mordeu ainda... hade ser um
homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira
satisfaco e intersse.

Passra porm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se
formra no princpio d'aquelle vero, tinha ficado por Coimbra e por
Lisboa, e so por fins d'agosto voltra para a sua familia. E veio
triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fra,
porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.

O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao
valle.

Passaram as primeiras saudaes e abraos, ficaram sos os dous, e:

--'No gsto de te ver:' disse o frade.

--'Pois qu? que tenho eu?'

--'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'

--'Outro venho,  verdade; mas no se infadem de me ver, que o infado
hade durar pouco.'

--'Que queres tu dizer?'

--'Que estou resolvido a emigrar.'

--'A emigrar, tu!... Porqu, paraqu? Que loucura  essa?'

--'Nunca estive tanto em meu juizo.'

--'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que
ms companhias andaste tu, que maus livros lste, tu que eras um
rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'

--'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'

--'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se ests canado das
pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caa, monta
a cavallo, faze o que quizeres, mas no penses. Ca estou eu para pensar
por ti.'

--'Porqu? eu heide ser sempre criana? a minha vida hade ser sta?
Horacio! tenho bom nimo para ler Horacio agora... e a bella occupao
para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'

--'Pois le na tua biblia, que  poesia medida n'alma e que repasce o
espirito e o corao.'

--'Eu no quero ser frade: sabe?'

--'Nem te eu quero para frade.'

--'Graas a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'

--'O seculo em que estamos  o da presumpo e o da immoralidade: e eu
quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua av sabe as minhas
tenes a teu respeito, approva-as...'

--'Minha av... approva muita coisa que eu reprovo.'

--'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'

--'Isto mesmo, senhor;--e que manhan que vou para Lisboa, imbarcar para
Inglaterra.'

--'Carlos!'

--' uma resoluo meditada e inalteravel. No quero nada com sta terra
nem com sta...'

--'Com sta o qu, Carlos?..'

--'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com sta casa.'

O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:

--'Dir-me-has porqu?..'

--'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui...
porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'

--'Sabes o qu?'

--'Sei, padre Fr. Diniz, mas no me pergunte o que eu sei.'

Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os
olhos e faiscavam l de dentro como duas brazas; fez um esfro sbre si
mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de
sepulchro:

--'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'

--'Padre, no jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e
serenidade 'as suas intenes sero boas talvez... creio que so boas,
filhas de um remorso salutar...'

--'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'

As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o
som da spplica, ja no tremia de ra mas de anciedade; Carlos, pelo
contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que est forte na
sua razo e que  generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo
eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava ado-las na
inflexo, que lhes dava.

--'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe 
isto. Minha av consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu no posso
nem devo consentir. O que ha n'sta casa no ... no  meu; o po que
aqui se come...  comprado por um preo... Padre! ja ve que no podmos
fallar mais n'este assumpto. Eu parto manhan para Lisboa.--Minha av!'
acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha av!'

A velha acudiu, elle disse-lhe a sua teno, motivou-a em opinies
politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa
liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha
pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que s uma prompta fuga o
podia salvar...'

A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vo.

Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.

E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.

No outro dia de manhan muito cedo, abraado com a av e com a priminha
que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o ltimo adeus quella
querida casa, quelle amado valle em que fra criado... N'essa noite
estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns
meses na ilha Terceira.

Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e
teve larga conferencia com a av.

Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar...
no fim do terceiro dia estava cega.

Joanninha era uma criana a esse tempo, parecia no intender nada do que
se passava. Mas quem a observasse com atteno, veria que ella dobrou de
carinho e de amor para com a av, e que se no tornou a rir para o
frade...

Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos,
que era a feio dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e
mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o
tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendes enrijaram-lhe,
os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos
cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como
que se lh'a torrassem n'uma grelha.

Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porm era o
dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja no vinha seno no fim da tarde e
demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e
tremia-se d'ella. As notcias que consolavam, e os terrores que matavam,
o frade  que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a
esperar.

E assim se tinham passado dous annos at  sexta-feira em que primeiro
vimos junctas  porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou
at d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontr-los.




CAPITULO XVII.


     De como, chegando outra sexta-feira e estando a av e a neta 
     espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda
     de Lisboa.--Porque razo muitas vezes a mais animada conversao 
     a que mais facilmente pra e quebra derepente.--Nova demonstrao
     de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hbito
     no faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as
     verdades.--No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do
     veo que cobre os mysterios da nossa historia.


Passaram-se aquelles oito dias no valle, no ja como se tinham passado
tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolao e
desconfrto, mas em positiva anciedade e aguda afflico pela certeza
que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do
pequeno exrcito do D. Pedro.

Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes
e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado
at s pacificas solides do valle com as notcias de combates
sanguinarios, de commoes violentas, de desacatos sacrilegos, de
vinganas e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribudas
pelos que se defendiam.

Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre
temido, foram contadas minuto a minuto--a qual mais longo, a qual mais
pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.

O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!

No seu poiso ordinario aop da porta da casa, Joanninha com os olhos
extendidos, a velha com os ouvidos lerta, devoravam o espao na
direco de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante
ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do
frade.

E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que no deram
fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto , da banda de Lisboa,
para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.

Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porm mais
cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a frmula de saudao
costumada:

--'Deus seja n'esta casa!'

--'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeo
involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a
voz.

--'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de
d'onde vem tam tarde?'

--'Chego de Lisboa.'

--'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'

--'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda
visitao do Senhor  condemnada terra de Portugal...'

--'E ento, diga'...

--'Boas novas, boas novas trago!'

--'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'

--'No  tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'

--'Pois que succedeu, padre? No me tenha n'esta horrivel suspenso.
Diga: onde est elle? Alguma desgraa grande lhe aconteceu, oh meu
Deus!..

--'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um
de tantos perdidos? Encher a sua medida, ir aps dos outros... caminha
nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'

A stas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom
de indifferena e desprzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido,
aquella pausa de toda a conversao grave e ntima em que os pensamentos
so tantos que se atropellam e no acham sahida na voz.

Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expresses mentia ao seu
corao--no mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica 
epiderme para deslocar a inflammao interior, elle roava o peito com
as asperides de sua doutrina e de seus principios rigidos para
amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.

O frade estava por fra, o homem por dentro.

O observador vulgar no via seno o burel e a corda que amortalhavam e
cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas
inflexes d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes
que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegao;
mas o teu sacrificio  como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu
no tens fra para o cumprir.'

No o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam
tremer, e que para toda a affeio, para todo o sentimento humano
julgava morto o corao do cenobita.

Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perptua
escurido de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava
debalde para desprender das affeies do mundo, aquelle seu pobre
corao que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e
admirao as sobrehumanas fras que imaginava no frade; e desanimada de
o podr seguir n'essas alturas da perfeio evangelica, recahia, mais
desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher
e de me.

Oh! no sabe o que  tormento, o que  inferno n'este mundo, o que no
soffreu destas angstias!

Mas permitte Deus que as padea quem no tem grandes culpas, grandes e
irreparaveis erros que expiar n'este mundo?

Eu creio firmemente que no.

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Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a
razo com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chro
exclamou:

--'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu
podr, por aquella preciosa cruz sbre a qual se derramaram as ltimas
lagrymas da minha desgraada filha, Diniz!...'

--'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que
fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! no conjure o
demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que  fra de penitencias
mal pude domar ainda... que so a morte poder talvez expellir. Mulher,
mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que
ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruio... este
cadaver tem um unico ponto vivo no corao... e o dedo do teu egoismo
ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que ests sempre contra mim! Justia
eterna de Deus quando sers satisfeita?'

Rompra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e
medonho ao fazer sta ltima imprecao mysteriosa. As derradeiras
syllabas quasi que lhe morreram nos beios convulsos, e ao balbuci-las
deixou-se cahir, exhausto e como quem mais no podia, na cadeira que
Joanninha lhe chegra.

A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito
immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu
proprio podr.

Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.

O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e,
como quem emerge, por grande esfro, de um pso enorme d'aguas que o
submergiam, sacudiu a cabea, sorveu um longo trago de ar, e disse na
sua voz ordinario, so mais debil:

--'Carlos, senhora... minha irman, Carlos est vivo; e exaqui, vinda
pelo consul de Frana, uma carta d'elle.'

Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.




CAPITULO XVIII.


     Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a
     velha.--Piedosa fraude de Joanninha.--Lucta entre o hbito e o
     monge.


O frade intregou a carta a Joanninha, que, lanando os olhos ao
sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme
de saber alguma coisa. Elle com voz trmula e sobresaltada accrescentou:

--'Adeus, que so horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me diro...'

--'Poisqu' disse timidamente a velha 'no quer ouvir o que elle nos
escreve?'

--'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a
pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei
chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu
para Carlos... morri.'

--'Diniz!' exclamou a velha fra de si 'Diniz!..'

O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O
qu, minha irman?'

--'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois
no hade ouvir ler a carta d'elle?'

Fr. Diniz no respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabea sbre
o peito, e abraando-se com o bordo, no deu mais signal de si.

A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido
agudissimo--penetrante vista dos cegos--percebeu sem dvida o que se
passava, e com mais confrto e serenidade na voz disse:

--'Abre, Joanna, l, minha filha.'

Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que
ella incerrava.

--'No les?' acudiu a av com impaciencia: 'L, l alto, Joanna.'

--' para mim so a carta' disse ella friamente.

--'Para ti so, como?' tornou a outra.

--' para mim so sta carta... no diz nada que...'

--'No diz nada!' replicou a av 'Pois!... L, l alto; seja como for,
l, e oiamos.'

Joanninha parecia hesitar ainda; lanou os olhos ao frade, achou-o na
mesma attitude impassivel; voltou-se para a av, viu-a anciada e
anxiosa... leu.

A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, no continha
seno as ingenuas expresses de um amor fraterno nunca esquecido, longas
saudades do passado, poucas esperanas no futuro, quasi nenhumas de se
tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porm era com a prima: para a
desconsolada av, para ninguem mais... nem uma palavra.

Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns
abraos, umas saudosas lembranas, e no sei que phrase incompleta e mal
articulada em que se pedia a benam da av.

A velha abanou a cabea tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja
Deus!'

Joanninha crou at o branco dos olhos... Inda bem que a no podia ver a
av! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mo trmula e os olhos arrazados
d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvao e
agradecimento. Joanninha crou outra vez, e logo se fez pallida como a
morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austro Fr. Diniz
approv-la!

O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.

Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluos suffocados... Seriam d'elle?

A av e a neta abraaram-se e choraram.

Nenhuma d'ellas disse palavra sbre a carta: a velha tinha percebido a
piedosa fraude de Joanninha...

Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e
essas duas crianas! E a maior parte da gente que  _gente_, vive
assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appgo! Oh
que enigma  o homem!

Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado,
e levou a resposta da carta--resposta que Joanninha so escreveu e so
viu--e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicra.

Soube-se que fra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses
passaram de anno... e outra carta no veio.

No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas
peripecias, o grande drama da Restaurao chegava rapidamente ao fim.
Eram meiados do anno de 33, a operao do Algarve succedra
milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fra tomada,
Lisboa estava em podr d'elles. Os tardios e inuteis esforos dos
realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do vero. Ja
outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas comeavam a
impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pr do sol, Fr. Diniz
apparecia no valle mais curvado e mais trmulo que nunca. Vinha do
exrcito realista que ento cercava Lisboa.

Joanninha no era alli, a velha estava so.

--'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?
Tem escapado a stas desgraas, a esses combates mortaes?'

--'No sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se no pde
obter a menor informao. As linhas esto fechadas e guarnecidas como
nunca: tudo indca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'

--'Deus seja com!..'

--'Com quem, minha irman?'

--'Com quem tiver justia.'

--'Nenhum a tem. De um lado e de outro est a ambio e a cubia, de um
lado e de outro a immoralidade, a perdio e o desprzo da palavra de
Deus. Por isso, vena quem vencer, nenhum hade triumphar.'

--'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'

--'Isso, irman Francisca, isso! Pea a Deus que d a victoria a seu
neto, e  impiedade por que elle combate. Pea a Deus que venam os
inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os
profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande no hade ser
esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, s baionetadas, do
pobre convento de San'Francisco, o velho guardio--que lhe no hade
fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado
deante do altar inclinar a cabea como os antigos martyres para cahir
na presena do seu Deus s mos do seu...'

--'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da
sua bcca!.. Meu neto, o meu Carlos no  capaz... oh meu Deus!..'

--'Seu neto detesta-me... e tem... tem razo.'

--'No sabe a verdade elle... Carlos est inganado, cuida... no sabe
seno meia verdade: e eu, eu heide--custe o que me custar--eu heide...'

--'Hade o qu?'

--'Heide desingan-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me
na sua presena, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide
arrastar na poeira de seus ps stas cans e stas rugas... morrerei de
vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a
verdade.'

Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia stas mysteriosas
e tremendas palavras da bcca da velha, que Fr. Diniz no ousou
cont-la; ouviu at ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e
erguendo ento a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom
friamente decisivo que tanto impe aos animos apaixonados:

--'Se tal fizesse, mulher, a minha maldico, a maldico eterna de Deus
sbre a sua cabea para sempre!... Oh mulher, pois no lhe basta que
elle me abhorrea--no lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor...
quer... quer tambem que nos despreze?'

A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia,
levou as mos aos olhos como se os tapasse para no ver. Ento disse com
desconsoladas lagrymas na voz:

--'A vontade de Deus seja feita!'




CAPITULO XIX.


     Guerra de postos avanados. Joanninha no bivac--De como os
     rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
     retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram
     este nome.--A sentinella perdida e achada.


A velha disse aquellas ltimas palavras com uma expresso de dor tam
resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido,
e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.

N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na
direco de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:

--'Av, av!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e
mulheres... tanta gente!'

Era a retirada de 11 de outubro.

--'Deus tenha compaixo de ns!' disse a velha: 'O que ser padre?'

--'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se
verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'

Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que
fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em
guerra civil...

Alguns feridos, que no podiam mais, ficaram na casa do valle intregues
 piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr.
Diniz e os acompanhou a Santarem.

As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a
poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel
fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o ltimo posto militar
occupado pelo seu exrcito.

No tardou muito que a fra toda, todo o intersse da guerra se no
concentrasse n'aquelle, ja tam pacfico e ameno, agora tam desolado e
turbulento valle.

Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar d pelo
homem--dar triste e lugubre decorao de scena ao sanguento drama de
destruio e de miseria que alli se a concluir. As ltimas folhas das
rvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sbre a terra apaulada
torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas
cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado
e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as
oliveiras seculares...

Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolao e morte emtrno da
casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.

E que era feito, no meio d'sta desordem, que era feito da nossa pobre
velha, da nossa interessante Joanninha?

Apenas se estabeleceu a posio dos dous exercitos, Fr. Diniz queria
lev-las para Santarem; mas no foi possivel. Instancias, rogos, ordem
positiva, tudo foi em vo. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher
tmida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.

--'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa
como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem
passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer seno aqui? sta
casa sei-a de cr, stas rvores conhecem-me, estes sitios so os
ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega,
ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'

--'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o
frade.

--'Joanninha' tornava ella 'Joanninha  uma criana, e tem mais juizo,
mais energia d'alma, mais saude e mais fra do que--mulheres no
fallemos--do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre,
ficaremos aqui melhor do que em Santarem podmos estar. Deus nos
defender...'

Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperana que animava a
velha, e que a prendia tam fortemente alli, no era extranha ao corao
do frade. Ella no ousava nem alludir de longe a essa esperana, mas
sentia-se que l a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma...
Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter  casa em
que nascra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A
velha, repitto, nem alludia a tal esperana, mas sentia-se que a tinha:
percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou no se atrevesse a
contrariar razes que lhe no davam, cedeu e callou-se.

O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares;
mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praa de guerra
como Santarem era agora?

Brevemente se viu que a av tinha accertado. A franca e ingenua
dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da
velha impozeram tal respeito aos soldados, que--graas tambem 
cooperao efficaz do commandante do psto, um bom e honrado cavalheiro
transmontano--ellas viviam tam seguras e quietas na pequena poro da
casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel
viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e
nenhum outro hbito de suas vidas se interrompeu.

E pouco a pouco, os combates, as escaramuas, o som e a vista do fogo, o
aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos
mortos--a guerra emfim em todas as suas frmas, com todo o seu
palpitante intersse, com todos os terrores, com todas as esperanas que
a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...

A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e no ha vida, por
mais extranha, que o tempo e a repettio dos actos lhe no faa
natural.

Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!

Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as
amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperana, ja uma
depois de outra, am renascendo as plantas, am abrolhando as rvores;
logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente
era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.

A guerra parecia canada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de
intentadas transaces gyravam por toda a parte.

No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a
ver-se todos os dias, comeavam a ver-se sem odio: principiaram por se
dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi
amigavelmente. Muta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer
sbre as altas questes d'Estado que dividiam o reino e o traziam
revlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus
gabinetes!

Joanninha que, pouco a pouco, se habitura quelle viver de perigos e
incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o nimo, aguerrindo-se.
Tudo se affazia quelle estado: at os rouxinoes tinham voltado aos
loureiros d'aop da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques
d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e
vibrante.

A essas horas Joanninha era certa em sua janella--n'aquella antiga e
elegante janella _renascena_ de que primeiro nos namormos, leitor
amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos
os exercitos, alli se acostumaram a v-la com o nascer e o pr do sol:
alli, muda e quda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos
seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...

E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era
conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a
saudavam os soldados de ambas as bandeiras!

E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns
e outros por tacita conveno parecia stipulado que aquella suave e
angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas,
como a pomba domstica e valida a que nenhum caador se lembra de mirar.

Os costumes de guerra so menos soltos do que se cuida; no nimo do
soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas frmas ha menos rudeza
do que se pensa. A farda  sim vaidosa e presumida, cr muito nos seus
podres de seduco, mas no  brutal seno no primeiro impeto.

Joanninha penava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de
consolao para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora,
tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos
muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.

Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fra extendendo, de
dia a dia, as suas excurses pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo
fim da tarde, at um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais
para o sul e perto do logar donde,  noite, se collocavam as derradeiras
vedetas dos constitucionaes.

Um dia, ja quasi psto o sol, a tarde quente e serena,--ou fosse que
adormeceu ou que suas meditaes a distrahiram--o certo  que os
rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha no
voltava.

Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as
disposies costumadas para a noite.

O official dos constitucionaes que andava collocando as suas
sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refro de
tropa. Ps-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares
convenientes, e chegava emfim aop d'aquelle grupo de rvores:

--'Silencio!' disse elle 'Alto! alli est um vulto.'

--'No  ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no psto:
'ninguem que importe;  a menina dos rouxines. Estou vendo que
adormeceu no seu poiso costumado.'

--'A menina dos rouxines! Que cantiga  essa que me cantas tu l?'

O soldado deu a explicao popular do seu ditto, mostrou a casa do
valle, e continuava incarecendo sbre os meritos e virtudes de
Joanninha...

O official no o deixou acabar:

--'Para a rettaguarda, e silencio!'

Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas
que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'rvores.

Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a
somno slto.




CAPITULO XX.


     Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
     Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina
     do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto
     esquissado  pressa para satisfazer s amaveis
     leitoras.--Pondera-se o triste e pessimo gsto dos nossos
     governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais
     nacional uniforme do exrcito portuguez.--Em que se parece o auctor
     da presente obra com um pintor da edade-mdia.--De como os abraos,
     por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis
     que paream, sempre teem de acabar porfim.


Sbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeado de grammas e de
macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia
profundamente.

A luz baa do crepusculo, coada ainda pelos ramos das rvores,
illuminava tibiamente as expressivas feies da donzella; e as frmas
graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo
vaporoso e vago das exhalaes da terra, com uma incerteza e indeciso
de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia  imaginao
exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graas femininas.

Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo,
lh'o preparra a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa
recendente dos prados.

Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos
livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e
fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeio--Joanninha no
estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espsso da ramagem,
que fazia sobreceo quelle leito de verdura, sahia uma torrente de
melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e
admiraveis de irregularidade e inveno, como as barbaras endeixas de um
poeta selvagem das montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos
rouxinoes do valle que alli ficra de vela e companhia  sua protectora,
 menina do seu nome.

Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim
do ltimo capitulo se referiu, cessra por alguns momentos o delicioso
canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a
distancia, voltou p ante p e entrou cautellosamente para debaixo das
rvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e no o suspendeu
outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de
sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados,
tam sentidos, que no disseras seno que preludiava  mais terna e
maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.

O official...--Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem
trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traos do
novo actor que lhes vou appresentar em scena.

Teem razo as amaveis leitoras,  um dever de romancista a que se no
pde faltar.

O official era mo, talvez no tinha trinta annos; psto que o tratto
das armas, o rigor das estaes, e o sllo visivel dos cuidados que
trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feies
de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte
como precisa um corao de homem para pulsar livre; seu porte gentil e
decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e
largo sobretudo militar--especie de great-coat inglez que a imitao das
modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o
desabotoado e descahido para traz, porque a noite no era fria; e viu-se
por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caadores,
realada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de
incarnado...

Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordaes--que
essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado
n'esta terra, proscreveram do exrcito... por muito portuguez demais
talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o
em uniforme da bicha!

No pude resistir a esta reflexo: as amaveis leitoras me perdoem por
interromper com ella o meu retratto.

Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras,
sou como aquelles pintores da edade-mdia que interlaavam, nos seus
paineis, distichos de sentenas; fittas lavradas de moralidades e
conceitos... talvez porque no sabiam dar aos gestos e attitudes
expresso bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia
a penna de supplemento e illustrao ao pincel... Talvez: e talvez pelo
mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...

Ser; mas em mim  irremediavel, no sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retratto.

Os olhos pardos e no muito grandes, mas de uma luz e viveza mmensa,
denunciavam o talento, a mobilidade do espirito--talvez a irreflexo...
mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso,
facil na ra, facil no perdo, incapaz de se offender de leve, mas
impossivel de esquecer uma injria verdadeira.

A bcca, pequena e desdenhosa, no indicava comtudo suberba, e muito
menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade
inquestionavel e no disputada.

O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e
longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa
alta e desaffogada.

Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais
piquena animao, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira,
porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character
pouco vulgar e difficilmente bem intendido.

D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte
antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem
d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexes d'expresso
que lhe dsse.

N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas
rvores, animava-o uma viva e inquieta expresso de intersse--quebrado
comtudo, sustido, e, para assim dizer, _soffreado_ de um temor occulto,
de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na
face, como a antiga e desbotada cr de um estfo que se tingiu de
novo--que  outro agora mas que no deixou de ser inteiramente o que
era...

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e
inesperado que lhe rompeu a cerrao n'um canto do ceo...

Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que no direi
mancebo porque o no parecia--o homem singular a quem o nome, a historia
e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impresso.

--'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu  luz ainda bastante do
crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da
exclamao: ' ella sem dvida. Mas que differente!... quem tal diria!
Que graa, que gentileza! Ser possvel que a criana que ha dois
annos?..'

Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mo
adormecida e a levou aos labios.

Joanninha estremeceu e acordou.

--'Carlos, Carlos!'--balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados,
Carlos, meu primo... meu irmo! era falso, dize: era falso? Foi um
sonho, no foi, meu Carlos?..'

E progressivamente abria os olhos mais e mais at se lhe espantarem e os
cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.

--'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu
no morreste... Falla  tua irman,  tua Joanna; dize-lhe que ests
vivo, que no es a sombra d'elle... No es, no, que eu sinto a tua mo
quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha... Carlos,
meu Carlos! dize, falla-me: tu ests vivo e so? E es... es o meu
Carlos? Tu proprio, no  ja o sonho, es tu?...'

--'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'

--'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou
acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'

--'Joanna!... prima... minha irman!'

E cahiu nos braos d'ella; e abraaram-se n'um longo, longo abrao--com
um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um
primeiro beijo d'amantes...

O abrao desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo
na terra so limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que
a habitam.

Seno... invejariam os anjos a vida da terra.

Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os
olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mos o
rosto, o peito, os braos do primo, palpava-se depois a si mesma como
quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e
sem nexo:

--' Carlos... Carlos: foi falso.  meu primo... Minha av tambem sonhou
o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz no  o que disse, nem ninguem:
eu e a av  que o sonhmos. Mas elle aqui est, vivo... vivo! e nosso,
nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu
aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a sta hora! No deve ser isto...
Valha-me Deus! E que diro? E Jesus!--L isso no me importa; deix-los
dizer: mas no deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a
av!... Que n'isto no ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem
eu fui criada!.. Mas quem no souber, pde dizer... Vamos, Carlos.--Oh!
minha av morre de alegria, coitada!..  verdade: vou adeante
preveni-la, prepar-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco...
Segue-me tu, Carlos, e vamos.--Mas, oh meu Deus! no  preciso: paraqu?
Ella  cega, coitadinha, no sabes?'

--'Cega, que dizes? minha av est cega?'

--'Pois no sabas? Ai!  verdade, no sabas. Tantas coisas que tu no
sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando...
Mas no fallemos agora n'essas tristezas que ja la vo. Em ella te
sentindo aop de si,  o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella
ditto muitas vezes, e eu bem sei que  assim. Mas ouve: um dia havemos
de fallar--ns dois sos-- vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu
sabes... Agora vamos, Carlos.'

E fallando assim, tomou-o pela mo e sahiu para o valle aberto,
froixamente acclarado ja de myradas de estrellas scintillantes no ceo
azul.




CAPITULO XXI.


     Quem vem l?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa o
     terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situao _ordeira_,
     a mais perigosa e falsa das situaes.


As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da
primavera suspirava brandamente; na larga solido e no vasto silencio do
valle distinctamente se ouvia o doce murmrio da voz de Joanninha,
claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella
levava pelo mo e que machinalmente a seguia como sem vontade propria,
obedecendo ao podr de um magnetismo superior e irresistivel.

Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas
de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o
voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem l?'

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de
allarma que os chamava  esquecida realidade do stio, da hora, das
circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os
transportra ao den querido de sua infancia, accordaram
sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada
flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os
expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...

Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, 
luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros,
aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia
brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem no eram dos verdadeiros e
mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no
meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios
em que se estorce continuamente o que os homens chamaram _sociedade_!

Joanninha abraou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mo
ao punho da espada.

--'Quem vem l?' tornaram a bradar as sentinellas.

--'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes
brados?'  o grito da guerra que nos manda separar;  o clamor cioso e
vigilante dos partidos que no tolera a nossa intimidade, que separa o
irmo da irman, o pae do filho!..'

--'Quem vem l?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se
aquelle stridor bao e breve que tam froixo  e tam forte impresso faz
nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas
espingardas.

O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam
ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos
contendores.

Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegao, cuidam podr
passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que so,
por isso mesmo, objecto de todas as desconfianas, alvo de todos os
tiros--assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa
posio que tem as revolues.

Joanninha conheceu o perigo que os ameaava; e com aquella rapidez de
resoluo que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasies,
disse para Carlos:

--'Falla aos teus, faze-te conhecer e pe-te a salvo. manhan nos
tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'

--'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'

--'No tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.

Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:

--'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'

Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no cho, e o riso
contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de
Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'

--'Ves, Carlos?.. Adeus! at manhan.' disse ella baixo.

--'At amanhan se...'

--'Se!.. Pois tu?..'

--'Ouve: no digas a tua av que me viste, que estou aqui:  foroso, 
indispensavel, exijo-o de ti...'

--'E manhan me dirs?..'

--'Sim.'

--'Prometto: no direi nada... Mas, oh! Carlos...'

--'Adeus!'

Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para
o lado opposto. Mas elle parou e no tirou os olhos d'aquella frma
gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, at que
desappareceu de todo.

E elle immovel ainda!

Fascaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonaes
que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham deps ellas... Eram
as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sbre o seu commandante
que no conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.

Uma das ballas ainda o feriu levemente no brao esquerdo.

--'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e
erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem!
Fizeram a sua obrigao. Um de vocs que me aperte aqui o brao com este
leno.'

--'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo
espao 'Carlos! falla-me, responde: no te succedeu nada?'

--'Nada, nada! Socega.'

E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel
n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.

Um mais doutor disse para os outros:

--'O nosso capito no se descuida: ainda hoje chegou, e j ns l
vamos, hem?'

--'O nosso capito  d'aqui: no sabes?'

--'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home'  capaz!'

--'Silencio! Eu te direi logo a historia toda:  uma prima.'

--'Ah! prima. Ento no ha nada que dizer.'

--' a que elles chamam aqui...'

--'A menina dos rouxinoes? Essa  maluca.'

--'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o .'

--'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'

--'Maluca.'

--'E a Lady ingleza que?..'

--'Maluquissima essa! No me hade admirar se a vir cahir do ar um dia
por ahi como bomba. E no hade dar mau estallo!'

--'Podra! E incontrando-se com a prima ento!..'

--'Mas elle  prima ou  irman?'

--' uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!..
dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja
se sabe...'

--'Oh! elle ha frade no caso?'

--'Ha, e que frade! Um apostolico s direitas! Tam feio, to magro!
apparece por ahi s vezes. Eu j o lombriguei um dia: e que famoso tiro
que era! Quasi que me arrependo de no ter...'

--'Isso! hoje iamos matando o nosso capito por instantes. Olha agora se
lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que ...'

--'Um frade!'

--'Um frade no  gente?'

--'No senhor.'

--'Est bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece  que ns
temos cedo muita pancada rija.'

--'Venha ella, que isto ja abhorrece.'

Accenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo socgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a
guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos
os sentimentos da natureza.




CAPITULO XXII.


     Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
     velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
     botes.--A Joanninha que elle deixra e a Joanninha que
     achou.--Obrigaes d'amor, triste palavra.--A mulher que elle
     amava, e se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos
     leitores. Declara que com os hypocritas no falla.--Quem hade
     levantar a primeira pedra?--Dous modos differentes de accudir uma
     coisa ao pensamento.


No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer
communicaes importantes para o commandante do psto avanado, foi
conduzido  presena de Carlos e lhe intregou uma carta: era de
Joanninha.

Fiel  sua promessa, ella no tinha ditto nada do incntro da vspera:
dizia a carta. E que a av estava doente e afflicta; que para a animar e
consolar, lhe dera notcias do primo, como vindas por pessoa que o vra
e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que
aquelle estado de anciedade no podia prolongar-se. Que a saude da pobre
velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era mat-la no
lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e
aprazava por fim o mesmo stio da vspera para se tornarem a ver, e para
concertarem o que havia de fazer. Todas as precaues estavam tomadas, e
o consentimento dado pelo commandante do psto contrrio para haver toda
a segurana n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitao extraordinaria lhe
amotinra o sangue, lhe desaffinra os nervos. Bem tinha desejado vir
para aquelle psto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber
de mais perto da sua familia, v-los talvez, mais dia menos dia,
incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e
graciosa criana com quem vivra como irmo desde os seus primeiros
annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criana era a que elle tinha deixado, uma criana a brincar, a
colhr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criana
que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o no tinha deixado nunca
em sua longa peregrinao, cuja saudade o accompanhra sempre, de quem
se no esquecra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais
occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...

Mas era uma criana!.. era a imagem d'uma criana.

 certo, sim: e nas batalhas, em presena da morte... no longo crco do
Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva
esperana, no descorooamento dos mais tristes dias, a doce imagem de
Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que
levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no
vero, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braos
para passar no hynverno os alagadios do valle,--essa querida imagem no
o abandonra nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glrias--mais
esquecidias ainda!--pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o
sentimento de seu corao.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no
mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que
lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a
allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mo do anjo que ajoelha
em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio
d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde
sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solido, entre
aquellas rvores,  tibia e seductora claridade do crepusculo... a quem,
sancto Deus! No ja a mesma Joanninha de ha tres annos, no a mesma
imagem que elle trazia, como a levra, no corao; mas uma gentil e
airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdra,
comtudo, da graa, do incanto, do suave e delicioso perfume da
innocencia infantil em que a deixra!

No esperava, no estava preparado para a impresso que recebeu, foi uma
surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e
sentimentos.

Qual fosse porm a precisa e verdadeira impresso que recebeu, nem elle
a si proprio o podra explicar: era de um genero novo, unico na historia
de suas sensaes: no a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo
de a analysar.

Sera annncio d'amor?

Mas elle tinha amado, amado muito e devras... e cuidava amar ainda, e
devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do corao, era
obrigado a amar ainda.

Oh obrigaes d'amor, obrigaes d'amor! se vs no sois, se vs ja no
sois seno obrigaes!..

No o pensava Carlos, no o cria elle assim: leal e sincero tinha
intregue o seu corao  mulher que o amava, que tantas prvas lhe dera
d'amor e devoo; que descanava em sua f, que no existia seno para
elle: mulher ma, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um
espirito, de uma educao superior, que atravessra, desprezando-as,
turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer at elle,
para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o
qual se tinha por tam seguro para no ver na graciosa prima seno?..

Seno o qu?

A innocente criana que alli deixra?

Mas no  verdade isso: outra era a impresso que Joanninha lhe fizera,
fosse ella qual fosse.

O que era ento?

E sbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?

E amava-a elle ainda?

Amava.

E Joanninha?

Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava
sendo n'aquelle momento.

O que lhe ella fra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo:
o que lhe ella ser... Pdes tu, leitor candido e sincero,--aos
hypocritas no fallo eu--pdes tu dizer-me o que hade ser manhan no teu
corao a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou
interessante?

Pdes responder-me da parte que tomar manhan na tua existencia a
imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e
lhe ests notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza
das linhas, a expresso verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de manhan, responder-me-has
tambem da parte que ficar tendo em tua alma ess'outra imagem que l
estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai
impallidecendo, descrando... ja lhe no vejo seno os lineamentos
vagos... ja  uma sombra do que foi... Ai! o que ser ella manhan?

Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, no accuses, no
julgues  pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o
Filho da Deus mandou levantar  primeira mo que se achasse innocente...
A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois  verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher
a quem promettra, a quem estava resolvido a guardar f. E essa mulher
era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posio no mundo...
e tudo lhe sacrificra a elle exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que
os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de
gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste,
que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se
Georgina; e  tudo quanto por agora pde dizer-vos,  curiosas leitoras,
o discreto historiador d'este mui veridico successo: no lhe pergunteis
mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas
perfeies, que o seu amor sem limites, que a sua confiana sem reserva,
no podiam ter rival, nem a haviam de ter.

Mas aquelle beijo, aquelle abrao de Joanninha... oh! que lhe tinha elle
feito? Como o sentra elle? Como lhe guardra o seu talisman o corao e
a alma?..

No, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de
quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fra em
claro.

A imagem de Joanninha l apparecia, de vez em quando, como um raio de
luz transiente e magica, no meio d'ess'outras vises do passado que a
reflexo lhe acordava. Ai! essas era a reflexo que as acordava...
aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...

Ha sua notavel differena n'estes dois modos de accudir ao pensamento.

A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada,
sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem
sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a
tarde.




CAPITULO XXIII.


     Contina a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de
     Carlos.--Dana de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau da
     familia.--Veremos,  a grande resoluo nas grandes
     difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes.--Desafio a
     todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.


No ha nada como tomar uma resoluo.

Mas hade tomar-se e executar-se: alis, se o caso  difficil e
complicado, pouco a pouco as dvidas solvidas comeam a inliar-se outra
vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces
ainda no vistas da questo... em fim, se o intervallo  largo, quando a
resoluo tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja no 
por fra de razo e convico que se faz, mas por capricho, ponto
d'honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era
longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderaes da noite lhe recorreram
ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se
avivaram, se animaram, e lhe comearam a danar n'alma aquella dana de
fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores
acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chama
_nervosos_; em stylo de romance _sensiveis_, na phrase popular
_malucos_.

Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?

Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma
agora... talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da av que
tanto amra, em cujo maternal corao elle bem saba que tinha a
primeira, a maior parte... da av que tam carinhosa me lhe tinha sido!
Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque
cegaria ella?

Havia ahi mysterio que Joanninha indicra, mas que no explicou.

Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e
desgraas, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabea
aos ps de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau
d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um
grande crime... um ser de mysterio e de terror.

Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava
detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e
ntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim ser tudo, mas tu no pdes
abhorrecer esse homem.'

Sim, mas sbre Fr. Diniz pesava uma accusao tremenda, que o fizera, a
elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusao horrivel que
tambem comprehendia a pobre velha, aquella av que o adorava, e que
elle, ainda criminosa como a suppunha, no podia deixar de amar...

E d'estes medonhos segredos saba Joanninha alguma coisa?

Esperava em Deus que no.

Desconfiaria alguma coisa?... O qu?

E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os
labios da innocente criana com o esclarecimento de taes horrores?

Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo
porque fugira da casa paterna?

Havia de?..

No.--Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se
ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E no havia de ir ver a av, no havia de entrar na casa dos seus a
consolar a infeliz que s vivia d'uma esperana, a de ver o filho de sua
filha?

No, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado,
infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o
passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e  sua honra
de o no tornar a cruzar mais.

Mas que diria ento elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um
proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?

Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de
desculpa, depois o tempo daria conselho.

_Veremos_!-- a grande resoluo que se toma nas grandes difficuldades
da vida, sempre que  possivel espa-las.

Carlos disse: '_Veremos!_'

Tomou todas as disposies para podr estar seguro e socegado no stio
onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente,
occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descanar o
espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril  immenso, interminavel. E as ltimas horas pareciam
as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja no tinha que
inventar para fazer: pz-se a pensar.

Que remedio!

Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia.
A imaginao, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria
 redea slta pelo espao...

Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de
cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas
incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim...
todas stas feies, confusas e indistinctas mas de estremada belleza
todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiavam. O
desgraado...--Porque no heide eu dizer a verdade?--o desgraado era
poeta.

Inda assim! no me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; no 
que fizesse versos: n'essa no cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino
sentimento d'arte, aquelle sexto sentido do _bello_, do _ideal_ que so
teem certas organizaes privilegiadas de que se fazem os poetas e os
artistas.

Eis aqui um fragmento de suas aspiraes poeticas. Vejam as amaveis
leitoras que no teem metro, nem rhyma--nem razo... Mas emfim versos
no so.


'Olhos verdes!..

'Joanninha tem os olhos verdes...

'No se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.

'Nem o fogo--e o fummo das paixes, como nos pretos.

'Mas o vio do prado, a frescura e animao do bosque, a fluctuao e a
transparencia do mar...

'Tudo est n'aquelles olhos verdes.

'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?

'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz
tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar,
quanto tinha que dar.

'Os olhos azues de Georgina no dizem seno uma so phrase d'amor, sempre
a mesma e sempre bella: _Amo-te, sou tua!_

'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que stas
palavras: _Ama-me, que es meu!_

'Os olhos de Joanninha so um livro immenso, escripto em characteres
moveis, cujas combinaes infinitas excedem a minha comprehenso.

'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?

'Que lingua fallam eles?

'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?

'A assucena e o jasmim so brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...

'Roxa  a violeta, e o junquilho cr de ouro.

'Mas todas as cres da natureza vem de uma so, o verde.

'No verde est a origem e o primeiro typo de toda a belleza.

'As outras cres so parte d'ella; no verde est o todo, a unidade da
formosura creada.

'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.

'O ceo  azul...

'A noite  negra...

'A terra e o mar so verdes...

'A noite  negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e
bellos como a noite.

'Nas trevas da noite luzem as estrellas que so tam lindas... mas no fim
de uma longa noite quem no suspira pelo dia?

'E que se vo... oh! que se vo emfim as estrellas!..

'Vem o dia... o ceo  azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar
para elle.

'Oh! o ceo  azul como os teus olhos, Georgina...

'Mas a terra  verde: e a vista repousa-se n'ella, e no se cana na
variedade infinita de seus matizes tam suaves.

'O mar  verde e fluctuante... Mas oh! esse  triste como a terra 
alegre.

'A vida compe-se de alegrias e tristezas...

'O verde  triste e alegre como as felicidades da vida.

'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'


Ja se v que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamou _maluco_
ao pensador de taes extravagancias, tinha razo e saba o que dizia.

Infelizmente no se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos
tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas
se pde obter o fragmento que deixo transcripto.

Que honra e glria para a eschola romantica se podessemos ter a
colleco completa!

Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante, _britante_....

Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:--Echos
surdos do corao--ou--Reflexos d'alma--ou--Hymnos
invisiveis--ou--Pesadellos poeticos--ou qualquer outro d'este genero,
que se no soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.

E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador
renascena de collete  Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de
romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!

Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,--(com menos
grammatica, sim) e com mais triumphante desprzo das absurdas e
escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que no
produziu nunca seno Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Cames e o
Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de
outros nomes tam obscuros como estes?




CAPITULO XXIV.


     Novo Gnesis.--O Adam social muito differente do Adam
     natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro
     por suas ms reflexes.--De como Joanninha recebeu o primo com os
     braos abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor,
     meia prazer.


Formou Deus o homem, e o ps n'um paraizo de delicias; tornou a form-lo
a sociedade, e o ps n'um inferno de tolices.

O homem--no o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem
contrafeito, appertando e forando em seus moldes de ferro aquella pasta
de limo que no paraizo terreal se affeiora a imagem da divindade--o
homem, assim aleijado como ns o conhecmos,  o animal mais absurdo, o
mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e
proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo
ainda e suberbo com as recordaes do passado, baixo vil e miseravel
pela desgraa do presente.

D'estas duas tam oppostas actuaes constantes, que ja per si sos o
tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema
chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais
desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado
este perfeito modlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o
homem, desfigurou-o, contorceu-o, f-lo o tal ente absurdo e
disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden
phantastico de sua creao,--verdadeiro inferno de tolices--e disse-lhe,
invertendo com blasphmo arremdo as palavras de Deus Creador:

'De nenhuma rvore da horta comendo comers;

'Porm da rvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comers se
quizeres viver.'

Indigesto de sciencia que no commutou seu mau estomago, presumpo e
vaidade que d'ella se originaram--tal foi o resultado d'aquele preceito
a que o homem no desobedeceu como ao outro: tal  o seu estado
habitual.

E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de
sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspirao de voltar  natureza e
a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sbre elle, e o
prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo
doloroso de suas frmas.

Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijo.

...........................................................................
...........................................................................

Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra
patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que
sahra das mos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado
apprto das constrices sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da
natureza, como era o nosso Carlos.

Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade,  ainda
fraco, falso e acanhado.

Demais, cada tentativa nobre, cada aspirao elevada de sua alma lhe
tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnaes d'esse
grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.

Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no
primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexo descia-o 
vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.

Dos melhores era, mas era homem.

Os seus pensamentos, as suas consideraes em toda aquella noite, em
todo o dia que a segura, na hora mesma em que ia incontrar-se com o
objecto que mais lhe prendia agora o esprito, seno  que tambem o
corao, todas participavam d'aquella fluctuao inquieta e doentia de
seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas
relampejava por acaso.

Dvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella
organizao d'aquella alma.

Assim chegou aop de Joanninha que o esperava de braos abertos, que o
appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa
modestia, e com o riso da alegria no corao e na bcca lhe disse:

--'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aop um do outro e
conversemos, que temos muito que fallar. D ca a tua mo. Aqui na
minha... Est fria a tua mo hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh!
agora vai aquecendo... tanto tanto...  demais! Ters tu febre?'

--'No tenho.'

--'No tens, no: a cara  de saude. E como tu ests forte, grande, um
homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via
nos meus sonhos!.. Que  extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo,
no te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como
vens agora, forte, so, alegre. Mas tu no ests alegre hoje, como
hontem; no ests... Que tens tu?'

--'Nada, querida Joanninha, no tenho nada. Pensava...'

--'Em que pensas tu? dize-me.'

--'Pensava na differena dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava
comtigo.'

--'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'

--'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena,
desinquieta, travssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas,
trepando a essas rvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao
collo, que trazia s cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam
criana como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre,
cantando...'

--'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei
desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram
depois! No houve nunca mais um so dia de alegria n'sta casa. Oh!..
deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que no gsto d'elle?'

--'No gostas?'

--'Nada: tenho-lhe averso. E Deus me perdoe! parece-me que  injusta a
minha antipathia.'

--'Porqu?'

--'Porque elle  teu amigo devras. Um pae, Carlos, um pae no tem maior
ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'

--'Deus lhe perdoe!'

--'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'

--'No, mas...'

--'Bem sei o que queres dizer: e tens razo.'

--'Tenho razo!'

--'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe  um grande
peccado.'

--'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'

--'Sei, sei tudo.'

--'Tu!'

--'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha av... a nossa boa, a nossa
sancta av, Carlos!.. quem a cegou  fra de lagrymas que lhe fez
chorar quelles pobres olhos que, de puro canados, se apagaram para
sempre... Minha ricca av!--E porqu, meus Deus, porqu!'

--'Porqu?'

--'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabea de tu seres
mau christo, inimigo de Deus, que te no podias salvar... tu meu
Carlos! V que cegueira a do triste frade.'

--'Bem triste!'

--'Mas olha que o diz de boa-f e pelo muito amor que te tem... que  um
amor que eu no intendo: e o mesmo  com minha av, que treme deante
d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e
por ns todos... por mim no tanto, mas por ti e por ella, dava decerto.
Mas o seu amor  dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em
dizer que matam.'

--'Matam, matam!'

--'Nossa av  elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos,
sempre escrupulos! O seu Deus d'elle  um Deus de terrores, de
vinganas, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para
elle tudo  peccado, maldade... No o posso ver.'

Carlos respirava como desopprimido de um grande pso, ouvindo as
explicaes da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita
ignorancia dos fataes segredos da familia.

--'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,
Joanninha, como se avm elle, como te tracta?'

--'Commigo no se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse
que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha
av! Inda bem que hoje no  sexta-feira, seno no vinha eu ca.'

--'Porqu? Ainda vem todas as sexta-feiras?'

--'Sempre o mesmo. manhan ca o temos por peccado, que  sexta-feira.'

--'No te vejo ento manhan aqui?'

--'No decerto, aqui. Mas vamos, que a isso  que eu venho ca hoje, para
te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o
meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade
ser. Quando has-de tu ir ver a av?.. a nossa me; que ella  nossa me,
Carlos, no conhecmos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu
dizer que ests aqui? A pobre velhinha est tam doente! Ha quinze dias
que se no levanta da cama.'

--'Coitada da minha pobre me!.. Oh! se no fosse!.. Deixa estar,
Joanninha; um dia ser. Por agora, no pde ser: bem vs. Como heide eu
atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um psto inimigo?--A minha
vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por
todos os modos a perdia, e talvez...'

--'No senhor, Sr. Carlos, essa desculpa no basta. Vai n'um anno que
aqui temos a guerra  porta de casa, e ja sabemos como isso  e como as
coisas se fazem. O commandante do nosso psto  um homem de bem, um
cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens...
elle sabe o estado da minha av, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto
licena para tu vires em toda a segurana. Pensas que elle no sabe que
estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; s lhe no expliquei quem tu
eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notcias de
outros, e que precisava fallar-te. No ps dificuldade alguma:  uma
pessoa excellente, bom, bom devras.'

--' mo o teu commandante?'

--'Mo elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros
tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as
sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi
isso, Carlos?'

--'Nada, criana, foi uma pergunta  toa.'

--'Pois ser; mas no me franzas nunca mais a testa assim, que te
pareces todo...  que nunca vi tal parecena...'

--'Com quem?'

--'Com Fr. Diniz.'

--'Eu com elle!'

--'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi ests tu na mesma.
Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos
dizem que nos parecemos tanto.'

--'Querida innocente!'

E beijou-lhe a mo que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas
vezes com um sentimento de ternura misturado de no sei que vaga
compaixo, vindo de l de dentro d'alma com no sei que dor, meia dor
meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.




CAPITULO XXV.


     O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.--Pasmosa
     contradico da nossa natureza.--De como os olhos verdes de
     Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o corao da
     mulher que ama, sempre adivinha certo.


Carlos tinha a mo de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de
lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e
diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.

Dizer tudo o que elle sentia  impossivel: tam incontrados lhe andavam
os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os
sentidos.

Por muito tempo no proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram
assim longos discursos.

Emfim, Joanninha voltou  sua primeira insistencia e disse para o primo:

--'Olha, Carlos, manhan  sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz:
quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle no lhe recusa
nada...'

--'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa av,
nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei
eu no tornar a ver. E se minha av...'

--'Basta: no lhe direi nada. Mas  nossa av quando lh'o heide dizer, e
quando hasde tu ir ve-la?'

--'Porora no: preciso licena de Lisboa, ou do quartel-general quando
menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que
nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda  mais defesa. E
sem isso--tu bem sabes que as minhas resolues no se mudam--sem isso
no o fao. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'

--'E quanto tempo, quantos dias se hode passar?'

--'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'

--'E a minha pobre av, coitadinha! a morrer de saudades...'

--'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou
bom, que me no falta nada, que tenho esperanas de vos ver muito cedo.'

--'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: no, Carlos?'

--'manhan  sexta-feira...'

--'manhan  o dia negro... nem eu queria: manhan no pde ser, bem
sei. Mas, tirado manhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'

--'Sim, querido anjo, sim.'

--'Promettes?'

--'Juro-t'o.'

--'Succeda o que succeder?'

--'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa no... no 
possivel.'

--'O que , Carlos? que pde haver, que pde succeder que te impea
de?..'

Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a
verdade e no ousou...

Porqu?.. E que verdade era essa? No a direi eu, ja que elle a no
disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrio do meu heroe.

Pois era discrio a d'elle?

No... em verdade, era outra coisa.

Era um pensamento reservado?

No.

Era teno m, ingano premeditado, era?..

No, tambem no.

O que era pois?

Era a dvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e
obrigada, a necessaria falsidade do homem social.

Carlos mentiu e disse:

--'S se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'

Mas no era isso o que elle receiava; no era esse aquelle motivo unico
e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces
relaes de convivencia a que tam prestes se habitura, que ja lhe
pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. No era, no; e
Carlos tinha mentido...

Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se
pallida... d'ahi corou tambem.

--'Carlos, tu no es capaz de mentir...'

--'Joanninha!'

--'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'

--'Sou... oh! sou. E amo-te...'

--'Como d'antes?'

--'Mais.'

--'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem
seno a ti.'

--'Joanna!'

--'Carlos!'

Iam a cahir nos braos um do outro... A singela confisso da innocencia
ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro,
aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar  mulher menos
arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo corao, ditta mil
vezes com os olhos, nenhum homem descana nem se tem por feliz, por
certo de sua felicidade, em quanto a no ouve proferir pelos
labios--essa palavra celeste que explica o passado, que responde do
futuro, que  a ltima e irrevocavel sentena de um longo pleito de
anciedades, de incertezas e de sustos--essa final e fatal palavra
_amo-te_, Joanninha a pronuncira tam naturalmente, tam sincera, tam sem
difficuldades nem hesitaes, como se aquelle fosse--e era decerto--como
se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e
habitual de sua vida.

O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes,
Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento
depois--oh pasmosa contradico de nossa dupplice natureza! um momento
depois dera a vida pela no ter ouvido. No primeiro instante ia
lanar-se nos braos da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do
mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua
felicidade.

--'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereo...
sabes tu se deves?..'

--'Sei. Desde que me intendo, no pensei n'outra coisa; desde que d'aqui
foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha av, e
ella...'

--'E ella?..'

--'Ella abenoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraou-me,
beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de
alegria que ha muitos annos tinha tido.'

Carlos no respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel
expresso de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que
resplandeciam n'aquelle semblante--agora bello de toda a belleza com que
um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feies--os raios
d'essa alegria comearam a amortecer, a apagar-se. A lucida
transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da
agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles;
tinham o lustro bao e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas
pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de
suas esttuas.

--'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.

--'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.

--'At depois de manhan, Joanna.'

--'Pois sim.'

--'Depois de manhan te direi...'

--'No digas.'

--'Porqu?'

--'Porque  excusado: ja sei tudo.'

--'Sabes!'

--'Sei.'

--'O qu?'

--'O que tu no tens nimo para me dizer, Carlos; mas que o meu corao
adivinhou. Tu no me amas, Carlos.'

--'No te amo! eu!.. Sancto Deus! eu no a amo...'

--'No. Tu amas outra mulher.'

--'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'

--'Sei tudo.'

--'No sabes.'

--'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu no pdes,
que tu no deves abandonar, e que eu...'

--'Tu?'

--'Eu sei que  bella, prendada, cheia de graas e de incantos,
porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor no era para se dar
por menos.'

--'Joanna, Joanninha!'

--'No digas nada, no me digas nada hoje... hoje sobretudo, no me
digas nada. manhan...'

--'manhan  sexta-feira.'

--'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de
tornar a ver-te. Adeus Carlos!'

--'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'

--'No; estou certa que no.'

--'At manhan... at depois de manhan.'

--'Adeus!'

Abraaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido
e recatado... os beios de ambos estavam frios, as mos trmulas; e o
corao comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.

Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na
vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio,
a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram
outros... outros, tam outros e differentes do que foram!

Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem
nenhum accidente, ao seu destino.




NOTAS




NOTAS

AO LIVRO PRIMEIRO.


*Nota A.*


     Que viage  roda do seu quarto, quem est a beira dos Alpes

                                                            pag. 1.


 visivel alluso ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,
_Voyage autour de ma chambre_, que decerto foi principiado a escrever em
Turim, e que muitos suppoem que fsse concluido em San'Petersburgo.


*Nota B.*


     Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)

                                                            pag. 2.


 puramente historico isto; e tambem  verdade que em grande parte
d'aqui se originou a persiguio brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos
meses.


*Nota C.*


     N'uma _regata_ de vapores

                                                            pag. 3.


_Regata_ chamavam, e no sei se chamam ainda, em Veneza s carreiras de
barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em
Inglaterra, onde  moda e popularissima.


*Nota D.*


     Eu coroarei de trevo a minha espada

                                                            pag. 24.


Estes versos so uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu
de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. Nas
_Flores sem fructo_, pag. 56 a traduco d'aquelle bello fragmento.


*Nota E.*


     Depois de tantas commisses de inquerito, deve de andar orado o
     nmero de almas

                                                            pag. 25.


Os protocollos das commisses de inquerito de ha oito para dez annos a
sta parte, sbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em
Inglaterra,  a prva real dos grandes calculos da economia politica,
sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.


*Nota F.*


     There are more things etc.

                                                            pag. 26.


A traduco chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare :

    Ha mais coisas no ceo, ha mais na terra
    Do que sonha a tua van philosophia.


*Nota G.*


     Um _Chourineur_... uma _Fleur-de-Marie_

                                                            pag. 28.


Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.
Sue, _Os Mysterios de Pars_.


*Nota H.*


     Fossem l  rainha Anna

                                                            pag. 34.


Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do
clebre gabinete chamado de _All-wits_.


*Nota J.*


     Quando chegou alli pelos Prazeres

                                                            pag. 56.


Um dos dois cemiterios de Lisboa--seja ditto para intelligencia do
leitor provinciano--chama-se _Dos Prazeres_, por uma ermida de N. S.^a
que alli existia com sta invocao desde antes do terreno ter o
presente destino.  notavel a coincidencia do nome.


*Nota K.*


     O verdadeiro alfageme... tinha pelo povo e no queria saber de
     partidos

                                                            pag. 64.


 facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso
personagem da historia do Condestavel, no pelas chronicas mas pelo
drama que tem o seu nome.


*Nota L.*


     Do _Sacr-Coeur_ e das suas elegantes devotas

                                                            pag. 89.


O convento que tem este nome em Pars,  casa de educao de meninas
nobres, e recolhimento de senhoras tambem.


*Nota M.*


     Graciosa sculptura de Antonio Ferreira

                                                            pag. 106.


Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princpio d'este,
modelava em barro com a mesma graa e naturalidade flamenga, com que
pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas so tam
estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de
Saxonia antiga.


*Nota N.*


     Ave phenix que nasceu de nossos avs no saberem grego

                                                            pag. 115.


A fbula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa
quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam da _phenix_,
palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avs por ditto de uma
passarolla com que os outros nunca sonharam.




INDICE.


Prologo dos editores.      pag. v

Capitulo I.--De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar
na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu
immortalizar-se escrevendo stas suas viagens. Parte para Santarem.
Chega ao Terreiro do Pao; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi
lhe succede. A Deduco-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e
um bom charuto. Travam-se de razes os ilhavos e os bordas-d'agua, e os
da cala larga levam a melhor.      1

Capitulo II.--Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas stas viagens.
Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilizao; e
mostra-se como ella  dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e
por seu escudeiro, Sancho Pana.--Chegada a Villa-Nova-da-Rainha.
Supplicio de Tantalo.--A virtude galardo de si mesma; e sophisma de
Jeremias-Bentham.--Azambuja.      13

Capitulo III.--Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade
do A. d'estas viagens.--O que devia ser uma estalagem n'estas nossas
eras de litteratura romantica?--Suspende-se o exame d'esta grave questo
para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de
economia-politica e de moral social.--Quantas almas  preciso dar ao
diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um
ricco n'este mundo.--Como se veio a descobrir que a sciencia d'este
seculo era uma grandecissima tola.--Rei de facto, e rei de
direito.--Belleza e mentira no cabem n'um sacco.--Pe-se o A. a caminho
para o pinhal da Azambuja.      23

Capitulo IV.--De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e
divagava elle, no caminho da villa da Azambuja at o famoso pinhal do
mesmo nome.--Do poeta grego e philosopho Dmades e do poeta e philosopho
ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de
outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda
erudio.--Discute-se a materia gravissima se  necessario que um
ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.--Admiraveis reflexes de
zigzag em que se tracta de _re politica_ e de _re
amatoria_.--Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este
capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao
seguinte.      31

Capitulo V.--Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e no o acha. Trabalha-se
por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo
romantico.--Receita para fazer litteratura original com pouco
trabalho.--Transio classica;--Orpheu e o bosque do Mnalo. Desce o A.
d'estas grandes e sublimes consideraes para as realidades materiaes da
vida:  desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na
triste mula de arrieiro.--Admiravel choito do animal. Memorias do
marquez do F. que adorava o choito.      39

Capitulo VI.--Prva-se como o velho Cames no teve outro remedio seno
misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.--Da-se
razo, e tira-se depois ao padre Jos Agostinho.--No meio d'estas
disceptaes academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo 
preciso ter f n'este mundo. Diz-se _n'este mundo_, porque, quanto ao
outro ja era sabido.--Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.--Desgraa
de Cames em ter nascido antes do romantismo.--Mostra-se como a Styge e
o Cocyto sempre so melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.--Vai o
A. em procura do marquez de Pombal, e d com elle nas ilhas Beatas do
poeta Alceu.--Partida de Wist entre os illustres finados.--Compaixo do
marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.--Resposta
d'elle e da sua luneta s perguntas peralvilhas do A.--Chegada a este
mundo e ao Cartaxo.      47

Capitulo VII.--Reflexes importantes sbre o Bois-de-Boulogne, as
carruagens de mollas, Tortoni, e o caf do Cartaxo.--Dos cafs em geral,
e de como so o characteristico da civilizao de um paiz.--O
Alfageme.--Hecatombe involuntaria immolada pelo A.--Historia do
Cartaxo.--Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua
fra e toda a sua glria a Portugal.--Shakspeare e Laffitte, Milton e
Chateaumargot.--Nelson e o principe de Joinville.--Prva-se
evidentemente que M. Guizot  a ruina de Albion e do Cartaxo.      59

Capitulo VIII.--Sahida do Cartaxo.--A charneca.--Perigo imminente em que
o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.--Ultima revista do
imperador D. Pedro ao exrcito liberal. Batalha de
Almoster.--Waterloo.--Declara o A. solemnemente que no  philosopho e
chega  ponte de Asseca.      71

Capitulo IX.--Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente
levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsiderao do
capitulo antecedente.--Livros que no deviam ter titulo, e titulos que
no deviam ter livro.--Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e
Silvio-Pllico.--Chega-se ao fim d'estas reflexes e  Ponte da
Assecca.--Traduco portugueza de um grande poeta.--Origem de um
dictado.--Junot na ponte da Assecca.--De como o A. d'este livro foi
jacobino desde piqueno.--Inguio que lhe deram.--A duqueza de
Abrantes.--Chega-se emfim ao val de Santarem.      79

Capitulo X.--Valle de Santarem--Namora-se o A. de uma janella que ve por
entre umas rvores.--Conjecturas vrias a respeito da ditta
janella.--Similhana do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel
inferioridade do homem que no  poeta.--Os rouxinoes. Reminiscencia de
Bernardim Ribeiro e das suas saudades.--De como o A. tinha quasi
completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos
pretos.--Sahem verdes os olhos com grande admirao e pasmo
seu.--Verificam-se as conjecturas sbre a mysteriosa janella.--A menina
dos rouxinoes.--Censura das damas muito para temer, crtica dos
elegantes muito para rir.--Comea o primeiro episodio d'esta Odyssea.      91

Capitulo XI.--Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os
philosophos quizeram tirar, mas no lhes foi concedido; aos romancistas
sim.--Applicao d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.--O A.,
tendo declarado no captulo nono d'esta obra que no era philosopho,
agora confessa, quasi solemnemente. que  poeta, e pretende manter-se
como tal, em seu direito.--De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos
juizo do que Yorick, seu bobo.--Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo
admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do corao.
Por uma deduco appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a
dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido
de andarem sempre namorados.--Applicam-se todas stas grandes theorias 
posio actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no
captulo antecedente.--Uma modestia e reserva delicada o obrigam a
duvidar da sua qualificao para o desimpenhar: pede votos s amaveis
leitoras. Decide-se que a votao no seja nominal, e porqu.--Dido e a
mana Annica.--Entra-se emfim na promettida historia.--De como a velha
estava  porta a dobar, e imbaraando-se-lhe a meada, chamou por
Joanninha, sua neta.      99

Capitulo XII.--De como Joanninha desimbaraou a meada da av, e do mais
que aconteceu.--Que casta de rapariga era Joanninha. D o A. insigne
prva de ingenuidade e boa f confessando um grave seno do seu Ideal.
Insiste porm que  um adoravel deffeito.--Em que se parece uma mulher
desannellada com um Sanso tosquiado.--Pasmosas monstruosidades da
natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.--Os olhos verdes
de Joanninha.--Religio dos olhos pretos strenuamente professada pelo A.
Perigo em que ella se acha  vista de uns olhos verdes.--De como estando
a av e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se
interrompe a conversao.--Quem era Frei Diniz.      109

Capitulo XIII.--Dos frades em geral.--O frade moralmente considerado,
socialmente e artisticamente.--Prva-se que  muito mais poetico o frade
do que o baro.--Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.--Do que seja o
baro, sua clasificao e descripo linneana.--Historia do castello do
Chucherumello.--Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas
no so a cholera-morbus, e que  preciso refazer o 'Judeu errante'--De
como o frade no intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao
frade.--De como o baro ficou em logar do frade, e do muito que n'isso
perdmos.--Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os
bares a gritar contos de ris.--Como se contam e como se pagam os taes
contos.--Predileco artistica do A. pelo frade: confessa-se e
explica-se sta predileco.      121

Capitulo XIV.--Emendado emfim de suas distraces e divagaes, prosegue
o A. direitamente com a historia promettida.--De como Fr. Diniz deu a
manga a beijar a av e  neta, e do mais que entre elles se
passou.--Ralha o frade com a velha, e comea a descubrir-se onde a
historia vai ter.      133

Capitulo XV.--Retrato de um frade franciscano que no foi para o
depsito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das
Bellas-Artes.--Ve-se que a logica de Fr. Diniz se no parecia nada com a
de Condillac.--Suas opinies sbre o liberalismo e os liberaes.--Que o
podr vem de Deus, mas como e paraqu.--Que os liberaes no intendem o
que  liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se
fossem.--Prva-se, pelo texto, que o homem no vive so de po, e
pergunta-se o de que vivia ento Fr. Diniz.      147

Capitulo XVI.--Saibamos da vida do frade.--Era franciscano porqu?--Dos
antigos e dos novos martyres.--Alguns particulares de Fr. Diniz antes e
depois de ser frade.--Emigrao.--Explicao incompleta.--De como a
velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.--Sexta feira dia
aziago.      155

Capitulo XVII.--De como, chegando outra sexta-feira e estando a av e a
neta  espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da
banda de Lisboa.--Por que razo muitas vezes a mais animada conversao
 a que mais facilmente pra e quebra de repente.--Nova demonstrao de
dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hbito no faz o
monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.--No ralhar
da velha com o frade, levanta-se uma ponta do vo que cobre os mysterios
da nossa historia.      171

Capitulo XVIII.--Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre
o frade e a velha--Piedosa fraude de Joanninha.---Lucta entre o hbito e
o monge.      181

Capitulo XIX.--Guerra de postos avanados, Joanninha no bivac.--De como
os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a
retreta.--Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este
nome.--A sentinella perdida e achada.      191

Capitulo XX.--Joanninha adormecida--O demi-jour da coquette.--Poesia do
Flos-sanctorum.--De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do
seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.--Retratto esquissado
 pressa para satisfazer s amaveis leitoras.--Pondera-se o triste e
pessimo gsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao
mais elegante e mais nacional uniforme do exrcito portuguez.--Em que se
parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-mdia.--De como
os abraos, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais
interminaveis que paream, sempre teem de acabar por fim.      203

Capitulo XXI.--Quem vem l?--Como entre dous litigantes nem sempre gosa
o terceiro.--Carlos e Joanninha n'uma especie de situao _ordeira_, a
mais perigosa e falsa das situaes.      215

Capitulo XXII.--Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da
velha.--Noite mal dormida.--Da conversa que teve Carlos com os seus
botes.--A Joanninha que elle deixra e a Joanninha que
achou.--Obrigaes d'amor, triste palavra.--A mulher que elle amava, e
se elle a amava ainda.--Quesitos do A. aos seus benevolos leitores.
Declara que com os hypocritas no falla.--Quem hade levantar a primeira
pedra?--Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento.      225.

Capitulo XXIII.--Contina a accudir muita coisa vaga e incontrada ao
pensamento de Carlos.--Dana de fadas e duendes.--Fr. Diniz o fado-mau
da familia.--Veremos,  a grande resoluo nas grandes
difficuldades.--Carlos poeta romantico.--Olhos verdes--Desafio a todos
os poetas moyen-ages do nosso tempo.      235.

Capitulo XXIV.--Novo Gnesis.--O Adam social muito differente do Adam
natural.--Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por
suas ms reflexes.--De como Joanninha recebeu o primo com os braos
abertos, e do mais que entre elles se passou.--Dor meia dor, meia
prazer.      247.

Capitulo XXV.--O excesso da felicidade que aterra e confunde
tambem.--Pasmosa contradico da nossa natureza.--De como os olhos
verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.--Que o
corao da mulher que ama, sempre advinha certo.      261.

Notas.      275.




Notas:

[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem
faltava um brao.

[2] Clebre urso do Jardim das Plantas em Pars.

[3] Pag. 40, 41, 42.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+--------------------+--------------------+
  |          |     Original       |     Correco      |
  +----------+--------------------+--------------------+
  |#pg.    3| venceder           | vencedor*          |
  |#pg.   15| Cervantos          | Cervantes          |
  |#pg.   18| moracho           | maracho*          |
  |#pg.   40| esperavava         | esperava           |
  |#pg.   41| maldadades         | maldades           |
  |#pg.   62| caf               | harem*             |
  |#pg.   89| tinha-nimo        | tinha nimo        |
  |#pg.   95| esquerlo           | esquerda           |
  |#pg.   97| um historia        | uma historia       |
  |#pg.  106| toda o movimento   | todo o movimento   |
  |#pg.  118| trababalho         | trabalho           |
  |#pg.  126| conte              | conter*            |
  |#pg.  129| aeronantas         | aeronautas*        |
  |#pg.  134| paasos             | passos             |
  |#pg.  163| memoraval          | memoravel          |
  |#pg.  203| demij-our          | demi-jour*         |
  |#pg.  223| didireitas         | direitas           |
  |#pg.  228| as alagadios      | os alagadios      |
  |#pg.  240| infeitavam         | infeitiavam*      |
  |#pg.  276| viagem             | visita             |
  |#pg.  286| em em logar frade  | em logar do frade  |
  |#pg.  288| d'ad'mor           | d'amor             |
  +----------+--------------------+--------------------+


* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild
respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de
acordo com o original.

Foram adicionados travesses onde a sua falta foi notada.

As indicaes dos nmeros de pginas que se mencionaram na seco de
"Notas do Primeiro Livro" e "ndice", foram corrigidas para corresponder
ao local correcto.




OBRAS

DE

J. B. DE A. GARRETT.

IX.

(_SEGUNDO DAS VIAGENS._)




VIAGENS NA MINHA TERRA


POR J. B. DE ALMEIDA-GARRETT.


II.


LISBOA
NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS.
1846.




VIAGENS NA MINHA TERRA.




CAPITULO XXVI.


     Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.--Horacio na
     sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.--A policia
     e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema que nos
     rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo de
     _old-sack_ sbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
     Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sbre
     San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Prva-se a vinda d'este
     ltimo a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
     Abeillard no Pere-la-Chaise.--Bentham e Cames.--Chega o _auctor_ 
     sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas
     dos Lusiadas.--De como emfim proseguem stas viagens para Santarem,
     e que feito ser de Joanninha.


Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu
Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu palet de viagem. Alli,
sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua
histria, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com
os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros
presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella
civilizao pasmosa.

E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!..
Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fra aquella deliciosa
satyra, creio que a nona do L. I.,

    Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,
    Nescio quid meditans nugarum...

Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o p ao papa.
Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma...

E no  preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a
que Duarte Nunes menos estragou...

O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas
antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas
venerandas e deliciosas _sagas_ portuguezas... Em ponto historico pouco
mais eram do que _sagas_, verdade seja, mas como taes, lindas. E o
Duarte Nunes, que era um pobre grammatico sem gsto nem graa, foi-se
s filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles
monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traos historicos que eram
muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma
histria, tendo apenas destruido um poema. Ficmos sem Nibelungen,
podendo-o ter, e no obtivemos histria porque se no podia obter assim.

Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedea
 lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glria da
benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor
que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em
que, alm da porcaria e mau-cheiro, no ha perigo nenhum seno o de
rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em
qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que
imaginar conspiraes, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar
para as Lamas  sua vontade. Mas emfim ca no ha d'outros nem haver tam
cedo, graas ao muito que agora, diz que, se cuida nos intersses
materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu
passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica:
ver se no  outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas
reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas esto por tantos e tam
successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de
todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz
systema que nos rege, ainda assim mesmo no ve erguer-se deante de seus
olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se no ouve fallar as
pedras, bradar as inscripes, levantar-se as esttuas dos tumulos; e
reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas
edades maravilhosas!

Tenho-o experimentado muitas vezes:  infallivel. Nunca tinha intendido
Shakspeare em quanto o no li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um
carvalho secular,  luz d'aquelle sol bao e branco do nublado ceo
d'Albion... ou  noite com os ps no _fender_, a chaleira a ferver no
fogo, e sbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a
luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores do _old
sack_; em quanto o fogo e os ponderosos castiaes de cobre brunido
projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de
carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de
que as velhas fazem vises e almas-do-outro-mundo, de que os
poetas--poetas como Shakspeare--fazem sombras de _Banco_, bruxas de
_Mackbeth_, e at a rotunda pansa e o arrastante espadago do meu
particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legtimas
consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras,
dos poltres pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os
atura em tendo as costas quentes.

Oh Falstaff, Falstaff! eu no sei se tu es maior homem que Sancho Pana.
Creio que no. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens.
Quando nossos avs renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e
invocaram a San' Jorge, tu vieste,  Falstaff, em sua comitiva de
Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha
d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.

Este importante ponto da nossa histria, da demisso de San'Thiago e da
vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seu
_homem-de-ferro_--sta grande descoberta archeologica que tanta coisa
moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli
os antigos exemplares: que  a minha doutrina.

Em tudo, para tudo  assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez
legtimo e _cru_, virgem de toda a corrupo continental; cala de
ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na
cova-do-ladro. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao
Pre-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da
algibeira, ps-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido
muito menos excentricas cabeas que a do meu inglez puro-sangue. No 
nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido,
bradando por um conego da s que lhe acudisse, que se queria identificar
com o seu modlo, purificar a sua paixo, ser emfim um completo--ou um
incompleto Abeillard.

Eu no sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sbretudo desde que dei
a minha demisso de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me
succedeu o outro dia. Tinha estado s voltas com o meu Bentham, que  um
grande homem por fim de contas o tal quaker, e so grandes livros os que
elle escreveu: canou-me a cabea, peguei no Cames e fui para a
janella. As minhas janellas agora so as primeiras janellas de Lisboa,
do em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans
d'hynverno, como as no ha seno em Lisboa. Abri os Lusiadas  ventura,
deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias

    E ja no porto da inclita Ulyssea...

Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da
fronte... as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com
elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi est em monumento-caricatura da
nossa glria naval... E eu no vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira
portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a trre de Belem ao
longe... e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez
Portugal.

Tal fra deu o prestigio da scena s imagens que aquelles versos
evocavam!

Seno quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam... Era o
ministro da marinha que ia a brdo.

Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas
camelias.

Andei tres dias com odio  lettra-redonda.

Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas
viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos
capitulos nos temos demorado?

Vem e vem muito: vem para mostrar que a histria, lida ou contada nos
proprios sitios em que se passou, tem outra graa e outra fra; vem
para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me
fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a
escrever para teu aproveitamento, a interessante histria da menina dos
rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.

Sim, aqui tenho estado extendido no cho, as mulinhas pastando na relva,
os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as ltimas horas de
uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem
percursora da noite.

Mas basta de valle, que  tarde. Oh l! venham as mulinhas e montemos.
Picar para Santarem, que no inclyto alcaar d'elrei D. Affonso-Henriques
nos espera um bom jantar d'amigo--e no  so a _vacca e riso_ de Fr.
Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos
austero e muito mais risonho.

--'Porqu? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez
a amavel leitora.

--'No, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta:
'no, minha senhora, a historia no acabou, quasi se pde dizer que
ainda ella agora comea; mas houve mutao de scena. Vamos a Santarem,
que l se passa o segundo acto.'




CAPITULO XXVII.


     Chegada a Santarem.--Olivaes de Santarem.--Fra-de-Villa.--Symetria
     que no  para os olhos.--Modo de medir os versos da
     biblia.--Architectura pedante do seculo XVII.--Entrada na Alcova.


Eram as ltimas horas do dia quando chegmos ao princpio da calada que
leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e
pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as
vizinhanas de uma grande povoao descahida e desamparada. O mais bello
comtudo de seus ornatos e glrias suburbanas, ainda o possue a nobre
villa, no lh'o destruiram de todo; so os seus olivaes. Os olivaes de
Santarem cuja riqueza e formosura proverbial  uma das nossas crenas
populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem l esto
ainda. Reconheceu-os o meu corao e alegrou-se de os ver; saudei
n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles
troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas
incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no
murmurio das folhas que o vento agitava a espaos, ouvir o triste
suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degenerao dos netos...

Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem 
ainda um monumento.

Os povos do meio-dia, infelizmente, no professam com o mesmo respeito e
austeridade aquella religio dos bosques, tam sagrada para as naes do
norte. Os olivaes de Santarem so excepo: ha muito pouco entre ns o
culto das rvores.

Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira--eu alvoraado e
impaciente por me achar face a face com aquella profuso de monumentos e
de ruinas que a imaginao me tinha figurado e que ora temia, ora
desejava comparar com a realidade.

Chegmos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa est deante
de mim. No me inganou a imaginao... grandiosa e magnfica scena!

_Fra-de-villa_  um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema
romantico; ao primeiro aspecto, quella hora tarda e de pouca luz,  de
um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam
gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem
aos lados d'aquella immensa praa, em que a vista dos olhos no acha
symetria alguma; mas sente-se n'alma.  como o rhytmo e medio dos
grandes versos biblicos que se no cadenceiam por ps nem por sylabas,
mas cahem certos no espirito e na _audio interior_ com uma
regularidade admiravel.

E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande
metropole de um povo extincto, de uma nao que foi poderosa e celebrada
mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas
construces gigantescas.

 esquerda o immenso convento do Stio ou de Jesus, logo o das Donas,
depois o de San'Domingos, clebre pelo jazigo do nosso Fausto
portuguez--seja ditto sem irreverencia  memoria de San'Frei Gil que, 
verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande
bruxo.--Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aop as baixas
arcadas gothicas de San'Francisco... de cujo ltimo guardio, o austero
Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho
ainda para te contar!  direita o grandioso edificio philippino,
perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do
seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto
o seu genero pde ser, das construces jesuiticas...

No ha alma, no ha genio, no ha espirito n'aquellas massas pesadas,
sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impe, uma
solidez travada, uma symetria de calculo, umas propores frias, mas bem
assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do
seculo e do instituto que tanto o characterizou.

No so as fortes crenas da meia-edade que se elevam no arco agudo da
ogiva; no  a relaxao florda do seculo quinze e desesseis que ja
vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do
christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que
acorda; no, aqui a _renascena_ triumphou, e depois de triumphar,
degenerou.  a inquisio, so os Jesuitas, so os Philippes,  a
reaco catholica edificando templos _para que_ se creia e se ore, no
_porque_ se cr e se ora.

At aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a
expresso da idea popular, agora so a frmula do pensamento
governativo.

Alli esto--olhae para elles--defronte uns dos outros, os monumentos das
duas religies, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que
os livros, que os escriptos, que as tradies, o pensamento das edades
que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.

Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra  o resto
ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unho.

Rodemos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos
dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnfica  a entrada, tam
mesquinho  agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem
serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor
vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.

As egrejas quasi todas porm, as muralhas e os basties, algumas das
portas, e poucas habitaes particulares, conservam bastante da
physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.

Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que
ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca
est a curiosa trre das Cabaas, a velha egreja de San'Joo do Alporo.
manhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos  Alcaova!

Entrmos a porta da antiga cidadella.--Que espantosa e desgraciosa
confuso de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! No ha
ruas, no ha caminhos,  um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso
destino, a casa do nosso amigo  aop mesmo da famosa e historica egreja
de Sancta Maria da Alcaova.--Hade custar a achar em tanta confuso.




CAPITULO XXVIII.


     Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de
     Sancta-Maria d'Alcaova.--Stylo da architectura nacional
     perdido.--O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do
     Passeio-publico de Lisboa.--O chefe do partido progressista
     portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos
     arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaova, de
     manhan.-- tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas
     como um sonho.--Introduco do Fausto.--Difficuldade de traduzir os
     versos germanicos nos nossos dialectos romanos.


Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achmo-la emfim a
egreja de Sancta Maria d'Alcaova. Achmos, no  exacto: ao menos eu,
por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fsse ella quando m'a
mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da
primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais
historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de
capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma
architectura, sem nenhum gsto! risco, execuo e trabalho de um mestre
pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz!  impossivel.

Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaova
foi passando por successivos reparos e transformaes, at que chegou a
sta miseria.

Perverteu-se por tal arte o gsto entre ns desde o meio do seculo
passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal
modo o fio de todas as tradies da architectura nacional, que na
Europa, no mundo todo talvez se no ache um paiz onde, a par de tam
bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam
ridiculas e absurdas construces pblicas como essas quasi todas que ha
um seculo se fazem em Portugal.

Nos reparos e reconstruces dos templos antigos  que este pessimo
stylo, sta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e
escandaliza.

Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo
renascena da Conceio-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geo com
que esto mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa
s.

No se pde cahir mais baixo em architectura do que ns cahimos quando,
depois que o marquez de Pombal nos _traduziu_, em vulgar e arrastada
prosa, os _rococs_ de Luiz XV, que no original, pelo menos, eram
flordos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse
stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando
presumpes de classico, chegou nos nossos dias at ao chafariz do
passeio-pblico!

Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaova tambem; entremos nos
palacios de D. Affonso Henriques.

Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hode ser. Por onde se
entra?

Por sta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos
annos, no que parece muro de um quintal ou de um pteo.

 comeffeito aqui; apeemo'-nos.

Recebeu-nos com os braos abertos o nosso bom e sincero amigo, actual
possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.

Notavel combinao do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido
progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convices
democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e
adheso s frmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do bero da
dynastia e da nao, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do
nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais
insignes d'aquella era de prodigios!

Entrmos na pequena horta em frma de claustro que une a antiga casa dos
reis com a sua capella. Assim foi sem dvida n'outro tempo: a parede
oriental da egreja  o muro do quintal de um lado, mas as communicaes
foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou
assim perpetuamente do templo.

Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e
parreiras, aquella pequena crca, apezar dos muitos canteiros e
alegretes de alvenaria com que est moirescamente intulhada,  amena e
graciosa  vista.

Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e
grave; beijmos seus lindos filhos, e fomos fazer as ablues
indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar  mesa.

O palacio de Affonso Henriques est como a sua capella: nem o mais leve,
nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que  alli pela
bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais
nada...

E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as
demolies, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome
exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!

Vamos a jantar.

Commos, conversmos, tommos ch, tornmos a conversar e tornmos a
comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura,
fallou-se de Santarem sbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza
antiga, da sua desgraa presente. Emfim, fomo'-nos deitar.

Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao
repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaova. Saltei da cama,
fui  janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo
tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.

No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, est o socegado leito do
Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto s
margens, d'onde se debruam verdes e frescos ainda os salgueiros que as
ornam e defendem. D'alm do rio, com os ps no pinque nateiro d'aquellas
terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiara e Almeirim; depois a
villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa
planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de
grupos de rvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em
cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as
suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e
as memorias romanescas do seu alfageme.

Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a
imaginao tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regies ideaes.
Recordaes de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam
ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais
discordantes e disparatadas se succedem umas s outras.

Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperana!..

Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis
versos da introduco do Fausto:

    Resurgis outra vez, vagas figuras,
    Vacillantes imagens que  turbada
    Vista accudieis d'antes. E heide agora
    Retter-vos firme? Sinto eu ainda
    O corao propenso a illuses d'essas?
    E appertais tanto!... Pois embora! seja:
    Dominae, ja que em nevoa e vapor leve
    Emtrno a mim surgis. Sinto o meu seio
    Juvenilmente trpido agitar-se
    Co'a maga exhalao que vos circunda.
    Trazeis-me a imagem de ditosos dias,
    E d'ahi se ergue muita sombra amada:
    Como um velho cantar meio-esquecido,
    Vem os primeiros simplices amores
    E a amizade com elles. Reverdece
    A mgoa, lamentando o errado curso
    Dos labyrintos da perdida vida;
    E me est nomeando os que trahidos
    Em horas bellas por fallaz ventura
    Antes de mim na estrada se sumiram.
    ..................................
    ..................................

No me atrevo a pr aqui o resto da minha infeliz traduco: fiel 
ella, mas no tem outro merito. Quem pde traduzir taes versos, quem de
uma lingua tam vasta e livre hade pass-los para os nossos appertados e
severos dialectos romanos?[1]




CAPITULO XXIX.


     Douras da vida.--Imaginao e sentimento.--Poetas que morreram
     moos e poetas que morreram velhos.--Como so escriptas stas
     viagens.--Livro de pedra. Criana que brinca com elle.--Ruinas e
     reparaes.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e
     litterarias.--Sancta Iria ou Irene, e Santarem.--Romance de Sancta
     Iria.--Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?


Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes
spectaculos da natureza,  dos prazeres grandes que Deus concedeu s
almas de certa tmpera. Doce  gosar assim... mas em que douras da vida
no predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a
insipidez; deixae-lh'o, ulcra porfim os orgams: o gso  mais vivo
porque a aco do stmulo  mais sentida... mas a ulcerao cresce, o
corao est em carne-viva... agora o prazer  martyrio.

Infeliz do que chegou a esse estado!

Bemaventurado o que pde graduar, como Goethe, a dze d'amphio que quer
tomar, que poupa as sensaes e a vida, e economiza as potencias de sua
alma! N'esses porm  a imaginao que domina, no o sentimento. Byron,
Schiller, Cames, o Tasso morreram moos; matou-os o corao. Homero e
Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a
imaginao, que no despende vida porque no gasta sensibilidade.

Imaginar  sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir  viver
activamente, cansa-a e consomme-a.

Isto  o que eu pensava--porque no pensava em nada, divagava--em quanto
aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista
do Tejo e das suas margens deante dos olhos.

Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que
d'outro modo no sei escrever.

Muito me pza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas
Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse
titulo, mas que eu no fiz decerto. Querias talvez que te contasse,
marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e
larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua
fundao? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..

Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade,
ahi o achars em amplo folio e gorda lettra: eu no sei compor d'esses
livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.

So tenho pena de uma coisa,  de ser tam desestrado com o lapis na mo;
porque em dois traos d'elle te dizia muito mais e melhor do que em
tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.

Santarem  um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica
parte das nossas chronicas est escripta. Ricco de illuminuras, de
recortados, de flores, de imagens, de arabescos e arrendados
primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal.
Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras,
fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o
magnfico livro devia durar sempre em quanto a mo do Creador se no
extendesse para apagar as memorias da creatura.

Mas sta Ninive no foi destruida, sta Pompeia no foi submergida por
nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja histria ella  o livro,
ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para
brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez
papagaios e bonecas, fez carapuos com ellas.

No se descreve por outro modo o que sta gente chamada govrno, chamada
administrao, est fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em
Santarem.

As runas do tempo so tristes mas bellas, as que as revolues trazem,
ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas
degradaes e as mais brutas reparaes da ignorancia, os mesquinhos
concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.

Tal  a geral impresso que me faz sta terra. Almocemos, que ja oio
chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.

Ao almo a conversao veio naturalmente a cahir no seu objecto mais
bvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o
Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a
rainha D. Leonor, Cames desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui
nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras
da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a
madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de
romanos e celtas.

Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de
arte e litterarias da nossa peninsula so as xacaras e romances
populares. Ha um de Sancta Iria.

Porque  a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria
das legendas monasticas?

A trova  sta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collao de
muitas e vrias verses provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que
em geral  a que mais se deve seguir.[2]

    Stando eu  janella co'a minha almofada,
    Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;

    Passa um cavalleiro, pedia pousada;
    Meu pae lh'a negou: quanto me custava!

    --'Ja vem vindo a noite,  tam so a estrada...
    Senhor pae, no digam tal da nossa casa,

    Que a um cavalleiro que pede pousada
    Se fecha sta porta  noite cerrada.'

    Roguei e pedi--muito lhe pezava!
    Mas eu tanto fiz que porfim deixava.

    Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;
    Ao lar o levei, logo se assentava.

    s mos lhe dei agua, elle se lavava;
    Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.

    Poucas as pallavras, que mal me fallava,
    Mas eu bem sentia que elle me mirava.

    Fui a erguer os olhos, mal os levantava,
    Os seus lindos olhos na terra os pregava.

    Fui-lhe pr a cea, muito bem ceava;
    A cama lhe fiz, n'ella se deitava.

    Dei-lhe as boas noites, no me replicava:
    Tam m cortezia nunca a vi usada!

    L por meia noite que me eu suffocava,
    Sinto que me levam co'a bcca tapada...

    Levam-me a cavallo, levam-me abraada,
    Correndo, correndo sempre  desfilada.

    Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;
    Callei-me e chorei--elle no fallava.

    D'alli muito longe que me perguntava
    Eu na minha terra como me chamava.

    --'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;
    Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]

    Andando, andando, toda a noite andava;
    L por madrugada que me attentava...

    Horas esquecidas commigo luctava;
    Nem fra nem rogos, tudo lhe mancava.

    Tirou do alfange... alli me matava,
    Abriu uma cova onde me interrava.


    No fim de sette annos passa o cavalleiro,
    Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.

    --'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,
    Se me perdoares, serei teu romeiro.'

    --'Perdoar no te heide, ladro carniceiro,
    Que me degollaste que nem um cordeiro.'


Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas
deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio--o de que
no tenho a menor idea--ou nos escriptos dos frades ha muita fbula de
sua unica inveno d'elles que o povo no quiz acreditar: alias 
inexplicavel a singeleza d'esta tradio oral.

Tam simples, tam natural  a narrao poetica do romance popular, quanto
 complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordaes
ecclesiasticas.

O caso  grave, fique para novo capitulo.




CAPITULO XXX.


     Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance
     popular.


A milagrosa Sancta Iria--Sancta Irene--que deu o seu nome a Santarem,
donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento
dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu
pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven
Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas
terras, e no podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infrmo de
molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.

 sabido que a mais sancta lhe no pza de que estejam a morrer por
ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.

Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais no podia
por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixo e o
convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento--que no guardavam
ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura--e foi-se a casa do
namorado Britaldo.

Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na
cabea as lindas e bemdittas mos, n'um instante o sarou de todo achaque
do corpo; e se lhe no curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o
adormentou, que parecia acabado.

Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que no
sai d'elle seno para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo
deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em no menor
personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella
Iria.

Arde o frade em concupiscencia, e no obtendo nada com rogos e lamentos,
jurou vingar-se. Disfarou porm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando
ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparao, que apenas a
sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer
todos os signaes da mais apparente maternidade.

Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injrias e os
insultos dos que mais a tinham respeitado at ento. E Britaldo, que se
julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez
de a esquecer com desprzo--sente reviver-lhe, seno tam pura, muito
mais ardente, toda a antiga paixo.

Tam mysterioso  o corao do homem!--tam vil! diro os asceticos--tam
inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.

Novas tentativas, promessas, ameaas do furioso amante... A sancta
resiste a tudo, forte na sua virtude.

Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que
jazia no fim da crca e juncto ao rio Nabo, para alli estar mais so com
Deus, e desabafar com Elle  sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a
occasio e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda
nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.

Banam!  um verdadeiro nome de mellodrama.

Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hbito e lanou o corpo ao rio,
que depressa a levou s arrebatadas correntes do Zezere em que desagua;
e logo este ao Tejo--que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu
sepultura em suas louras areas, para maior glria da sancta e perptua
honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.

Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do
convento, uma revelao que lhe descobriu a verdade e os milagres do
caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com
todos de cruz alada, e foi por esses campos da Golegan fra, at chegar
 Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, stas se retiraram
cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado 
maravilha pelas mos dos anjos.

Chegaram aop do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta,
mas no o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se
que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da
tunica, voltaram todos para a sua terra.

As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se
abriram seno d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta
Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas oraes fez aop do rio
pedindo  sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o
mar Vermelho  voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o
benditto sepulchro.

Entrou a rainha a p inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espso
e de toda a sua crte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem
os outros com todas as fras humanas, no poderam abrir o tumulo;
quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de
que um podr sobrehumano no permittia que elle se abrisse, mandou a
toda a pressa levantar um padro muito alto sbre o mesmo tumulo, e tam
alto que o rio na maior inchente o no podesse cubrir.

O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando
viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos,
tornaram a junctar-se as aguas e o padro ficou sobresahindo por cima
d'ellas.

Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de
Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal
que no era seno de alvenaria, e pr-lhe em cima a imagem da sancta.

Ainda l est, asss mal cuidado com tudo; l o vi com estes olhos
peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem
oraes, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu
leito, e o padro estava perfeitamente em scco, e em scco est todo o
anno at comearem as cheias.

Tal , em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.

A das cantigas , como ja disse, muito outra e muito mais simples,
conta-se em duas palavras. A sancta est em casa de seus paes; um
cavalleiro desconhecido, a quem do pousada uma noite, levanta-se por
horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o
correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe,
pretende fazer-lhe violencia... A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a
annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada
no proprio stio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta ,
dizem-lhe que  de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdo 
sancta, que lhe lana em rosto o seu peccado e o amaldioa.

E acabou a historia.

Sera o povo que se esqueceu nas suas tradies, ou os frades que
augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica  realmente
bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo no costuma
desprezar.

 difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para
qualquer observador no vulgar, que n'estas crenas do commum, n'estas
antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer
estudar os homens e as naes e as edades onde elles mais sinceramente
se mostram e se deixam conhecer.

A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle,
d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente
sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e
com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que
sta seja das mais antigas composies no so da nossa lingua, mas de
toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este  um d'aquelles
poemas quasi aborigines que a tradio tem vindo intregando, e ao mesmo
tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem no 
porcerto dos que desceram do palacio s choupanas e fugiram da cidade
para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente
nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por l tem vivido at
agora.

A frma metrica da composio  a que a phrase didatica das Hispanhas
chamou _romance em endechas_. Eu, adoptando para elle, mais que para a
frma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo
allemo, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio
que estes so verdadeiros versos de dze syllabas, e que as coplas no
constam seno de dous versos cada uma, segundo a bvia significao da
palavra. O povo cantando no separa os hemistychios d'estes versos como
fazem os que os escrevem: e ao contrrio nos romances da medida mais
commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito
syllabas sbre si.

No sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas ltimas, em que
muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito  cantiga
original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes,
em toda a parte.




CAPITULO XXXI.


     Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em verso e
     Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
     architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As
     salgadeiras de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de
     Santarem.--Voltemos  historia de Fr. Diniz e da menina dos olhos
     verdes.


Eram mais de dez horas da manhan quando sahimos a comear a longa
viasacra de reliquias, templos e monumentos que so hoje toda Santarem.

A vida palpitante e actual acabou aqui inteiramente: hoje  um livro que
so recorda o que foi. Entre a historia maravilhosa do passado que todas
stas pedras memoram, e as prophecias tremendas do futuro que parecem
gravadas n'ellas em characteres mysteriosos, no ha mais nada: o
presente no , ou  como se no fosse: tam pequeno, tam mesquinho, tam
insignificante, tam desproporcionado parece a tudo isto.

D vontade de intoar com o poeta inspirado de Jerusalem: 'Quommodo sedet
sola civitas!' Portugal , foi sempre uma nao de milagre, de poesia.
Desfizeram o prestigio; veremos como elle vive em _prosa_. Morrer, no
morre a terra, nem a familia, nem as raas: mas as naes deixam de
existir.--Pois embora, ja que assim o querem. A mim no me fica
escrupulo.

Passmos a egreja da Alcaova, que achmos ja fechada; e tomando sempre
sbre a esquerda, fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de entre
quintas, mas que visivelmente foi n'outras eras a rua mais _fashionavel_
d'esta villa cortezan. Aqui esto quasi aop da egreja umas portas e
janellas do mais fino lavor e gsto mosarabe que me lembra de ter visto.

E a proposito, porque se no hade adoptar na nossa peninsula sta
designao de _mosarabe_ para characterizar e classificar o genero
architectonico especial nosso, em que o severo pensamento christo da
architectura da meia edade se sente relaxar pelo contacto e exemplo dos
habitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e redundante elegancia?

De que palacio incantado foram stas portas tam primorosamente lavradas?
Que bellezas se debruaram d'essas arrendadas janellas para ver passar o
cavalleiro escolhido do seu corao? So tam lindas, tam elegantes ainda
stas pedras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro insosso e
grosseiro que as facea, que naturalmente despertam a mais adormecida
imaginao a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia fez nascer dos
mysterios da edade-mdia.

Pouco mais adeante est, em um mau nicho escalavrado e feio, um
pretendido busto de D. Affonso Henriques, a que attribuem grande
antiguidade. No me fez esse effeito a mim.

Chegmos  porta do _Sol_; sentamo'-nos alli a gosar da majestosa vista.
 majestosa mas triste. A ribanceira que d'alli corta abaixo, at ao
rio,  arida e quasi calva: cobrem-n'a apenas, como a mal povoada nuca
de um velho, alguns tufos de verdura cinzenta e grisalha de um arbusto
rasteiro, meio _frutex_ meio herbaceo que aqui chamam 'Salgadeira' e que
a tradico diz ter vindo de Affrica para segurar a terra n'estes
taludes e precipicios. O aspecto e hbito da planta  realmente
affricano e oriental, no tem nada de europeu. Mas sta derradeira e
occidental parte da nossa Hespanha , geologicamente fallando, ja tam
affrica, tam pouco europa, que no sera necessaria a transplantao
talvez; e porventura ficou sta memoria entre o povo do uso que os
moiros faziam da planta para esse fim.

sta porta do sol dizem que  onde se faziam as execues em tempos
antigos. Foi bem escolhido o stio; no o ha mais triste e melancholico.
Aop est um torreo quadrado da muralha que ahi frma canto para seguir
depois na direco de sul a norte. D'este lado as fortificaes e lanos
de muro esto todas pouco estragadas; e do mirante a que subimos,
pde-se formar perfeita idea do que era uma antiga cidade murada.

Sera aqui, dizia eu commigo, que o nosso Fr. Diniz de quem ja tenho
saudades--o velho guardio de San'Francisco veio chorar o seu ultimo
threno sbre as ruinas da antiga monarchia? Sera aqui n'este logar de
desolao e melancholia que correram as suas derradeiras lagrymas! Elle
que ja no chorava, acharia aqui quem desse aos seus olhos as fontes de
agua que o corao lhe pedia para se desaffogar dos pezares que o
rallavam na aridez e seccura de sua desconsolada velhice?

Passavam-me stas ideas pelo pensamento quando o historiador que tantos
capitulos nos retteve no vale, contando-nos os successos de Joanninha e
da sua familia, nos disse:

'Sentemo-nos aqui na sombra que faz sta muralha e acabemos a historia
da menina dos rouxinoes. De tarde vamos  Ribeira saudar a memoria do
Alfageme. manhan de manhan est detalhado que iremos ver a Graa, o
Sancto milagre, San' Domingos e San' Francisco. Concluamos hoje sta
historia.'

'Seja' respondemos ns.

Entraremos portanto em novo capitulo, leitor amigo; e agora no tenhas
medo das minhas digresses fataes, nem das interrupes a que sou
sujeito. Ir direita e corrente a historia da nossa Joanninha at que a
terminemos... em bem ou em mal? D'antes um romance, um drama em que no
morria ninguem era havido por semsabor; hoje ha um certo horror ao
tragico, ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo das commodidades
materiaes em que vivemos.

Pois, amigo e benevolo leitor, eu nem em principios nem em fins tenho
eschola a que esteja sujeito, e heide contar o caso como elle foi.

Escuta.




CAPITULO XXXII.


     Tornmos  historia de Joanninha.--Preparativos de guerra.--A
     morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
     infermeiro.--Georgina.


'Escuta!' disse eu ao leitor benevolo no fim do ltimo captulo. Mas no
basta que escute,  preciso que tenha a bondade de se recordar do que
ouviu no capitulo XXV e da situao em que ahi deixmos os dous primos,
Carlos e Joanninha.

N'este despropositado e inclassificavel livro das minhas Viagens, no 
que se quebre, mas inreda-se o fio das historias e das observaes por
tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com muita paciencia se pde
deslindar e seguir em tam imbaraada meada.

Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei por ser breve e ir direito
quanto eu podr.

Lembra-te como n'uma noite pura, serena e estrellada, aquelles dous se
despediram um do outro no meio do valle, como se despediram tristes,
duvidosos, infelizes, e ja outros, tam outros do que d'antes foram.

N'essa mesma noite, a ordenada confuso de um grande movimento de guerra
reinava nos postos dos constitucionaes.  longa apathia de tantos mezes
succedia uma inesperada actividade. Preparavam-se os sanguinolentos
combates de Pernes e de Almoster, que no foram decisivos logo, mas que
tanto appressaram o termo da contenda.

Carlos achou ordem de se appresentar no quartel-general, partiu
immediatamente. O pensamento absorvido por ideas tam differentes, tam
confuso, tam alheado de si mesmo, seguiu machinalmente o corpo. Foi,
chegou, recebeu as instruces que lhe deram, e voltou mais satisfeito,
mais tranquillo.

Tractava-se de morrer. No sabe o que  verdadeira angstia d'alma o que
ainda no abenoou a morte que viu deante de si, o que a no invocou
ainda como unico remedio de seu mal, ou, o que  mais desesperado, como
unica sahida de suas fataes perplexidades.

Estes momentos so raros na vida,  certo; mas quando occorrem, no ha
exaggerao nenhuma em dizer que antes, muito antes a morte do que
elles.

Oh! e se a morte que se contempla  de honra e glria, se o enthusiasmo,
tirando fortemente a corda dos nervos, os faz vibrar n'aquelles tons
secretos e mysteriosos que arrebatam, e elevam o corao do homem 
sublime abnegao de si, e de tudo o que  piqueno, baixo e vil na sua
natureza--oh ento a morte parece um triumpho, uma bemaventurana
porcerto!

Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua espada que affiou com
escrupuloso cuidado, e das suas boas e seguras pistolas inglezas que
limpou minuciosamente, carregou e escorvou com um verdadeiro amor de
artista que se compraz no ltimo acabamento de um trabalho predilecto.

O pouco da noite que lhe restava passou-se n'isto, a marcha comeou
antes do dia. E os primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzilar
das espingardas, e pelo trovejar dos canhes.

Combateu-se larga e incarniadamente--como entre irmos que se odeiam de
todo o odio que ja foi amor--o mais cruel odio que tem a natureza!

O dia declinava ja quando n'um hospital em Santarem entravam muitas
maccas de feridos, e entre elles, um todo crivado de ballas e cuberto de
sangue que, assim pelos restos do uniforme como por certo ar bem
conhecido--e charecteristica ento, se via claramente ser do exrcito
constitucional.

Eram muitas e perigosas as feridas d'esse homem; estenderam-n'o n'uma
especie de tarimba sbre que havia alguma palha, e quando lhe chegou a
sua vez foi examinado e penado como os outros. No dava signal de
padecer, tinha os olhos fechados, o pulso forte mas no agitado de
febre; no proferia uma syllaba, no soltava um ai, e prestava-se a tudo
o que lhe diziam e faziam, menos a soltar da mo esquerda que apertava
contra o peito o que quer que fosse que alli tinha seguro e que lhe
pendia ao pescosso de uma estreita fitta preta.

Assim o deixaram largo tempo: elle adormeceu. No sera largo, mas foi
profundo o seu dormir. Quando acordou ja se no viu no vasto
caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas n'um pequeno quarto
arejado, limpo, e quasi confortavel que em tudo parecia cella de
convento, menos na boa cama em que jazia o doente, e na extremada
elegancia do infermeiro que o velava.

O quarto era comeffeito uma cella do convento de San'Francisco em
Santarem, o doente o nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, uma
bella mulher de estatura no acima de ordinaria mas nem uma linha menos,
involvida nas amplissimas pregas de um longo roupo de seda d'aquella
acertada cr que, em dialecto da rua Vivienne, se diz _scabieuse_; a
cabea toucada de finissima Bruxellas, com uns laos de preto e cr de
granada que realavam a transparencia das rendas, a infinita graa dos
longos e ondados aneis louros do cabello, e a pureza symetrica de um
rosto oval, classico, perfeito, sem grande mobilidade de expresso mas
bello, bello, quanto pde ser bello um rosto em que pouco d'alma se
reflecte, e em que a serena languidez de uns olhos azues entiba e
modera a energia do sentimento que no  menos profundo talvez, mas
certamente se expande menos.

De joelhos juncto ao leito de Carlos, com a mo direita d'elle nas suas,
os olhos seccos mas fixos nas descahidas palpebras do soldado, aquella
mulher estava alli como a esttua da dor e da anxiedade. A uma porta
interior e que abria para uma especie de alcova obscura, em p, os
braos cruzados e mettidos nas mangas, o capuz na cabea, estava um
frade velho, alto mas curvado do pso dos annos ou dos soffrimentos.

O frade contemplava o infrmo e a infermeira, mas visivelmente no
queria ser visto n'essa occupao, porque ao menor estremecimento do
doente recuava apressado e como assustado para o interior da sua alcova.

Uma so vela de cera allumiava este quadro, accidentando-o de fortes
sombras, e dando-lhe um tom de solemnidade verdadeiramente magico e
sublime.

Carlos segurava ainda na esquerda com o mesmo affrro o relicario ou
talisman, o que quer que era que no queria desprender de seu corao. A
bella infermeira beijava de vez em quando aquella mo tenaz que
estremecia a cada beijo, por mais suave e mimoso que fosse o leve
contacto d'esses labios delicados.

A outra mo estava nas mos d'ella, mas era insensivel a tudo, essa.

O silencio era o do sepulchro: so se ouvia o respirar incerto e
descompassado do infrmo.

Derepente Carlos entreabriu as palpebras e exclamou em inglez: '_Oh
Georgina, Georgina, I love you still._'--(Georgina, Georgina, eu ainda
te amo).

Duas lagrymas--duas perolas, d'estas que se criam com tanta dor no
corao e que s vezes sahem com tanto prazer dos olhos--romperam do
celeste azul dos olhos da dama e suavemente correram por aquellas faces
de uma alvura pallida e mortal.

Carlos accordou de todo, abriu os olhos e cravou-os fixamente no rosto
angelico d'essa mulher.

Esteve assim minutos: ella no dizia nada nem de voz nem de gesto:
fallavam-lhe so as lagrymas que corriam quietas, quietas, como corre uma
fonte perenne e nativa d'agua que mana sem esfro nem impeto, por um
declive natural e facil.

--'Onde estou eu, Georgina?'

--'Nos meus braos.'

--'Que me succedeu?'

--'Que no podes ser feliz seno n'elles: bem sabes.'

--'Sei... devia saber.'

--'Hasde sabe-lo agora. O passado...'

--'O passado! qual?'

--'O passado deixou de existir.'

--'E o futuro?'

--'Eu no creio no futuro.'

--'Porqu?'

--'Porque tu me disseste que no cresse.'

--'Eu!.. Eu sou um...'

--'Um homem.'

--'Oh!'

--'Basta e descana. Amanhan fallaremos.'

--'Estou ferido, muito; e doe-me agora... no me doa.'

--'Ests, mas sem perigo: e estou eu aqui. Dorme.'

--'No posso. Que casa  sta?'

--'San'Francisco de Santarem.'

--'Deus de misericordia!'

--'Es prisioneiro: sra, e eu te livrarei.'

--'Tu!--E tu aqui, como?'

--'Vim buscar-te, e achei-te assim.'

--'Georgina!'

--'Que tens tu ahi tam seguro na mo esquerda?'

--'V: a medalha com o teu cabello.'

--'Ento amas-me tu ainda?'

--'Se te amo! Como no primeiro...'

--'No mintas, Carlos... E dorme.'

--'Oh meu Deus, meu Deus! Georgina aqui, eu n'este estado e... E a minha
gente?'

--'A tua gente est salva.'

--'Aonde?'

--'Aqui mesmo, em Santarem.'

--'Quero... no quero... Oh sim, quero mas  morrer. Tende misericordia
de mim, meu Deus!'

--'Socega, Carlos.'

Mas Carlos no socegava: immudeceu porque a torrente de seus
pensamentos, o incontrado d'elles, e o inesperado d'aquella situao lhe
imbargavam a voz, e o quebramento das fras lhe tolhia os movimentos do
corpo; mas o espirito inquieto e alvoraado revolvia-se dentro com um
phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria.

 fra de bebidas calmantes o accesso diminuiu, a noite passou mais
tranquilla; e pela manhan o doente no dava cuidado ao facultativo que o
veio ver.

Prohibiram-lhe fallar; e Georgina tinha a coragem de lhe resistir, de
lhe no responder todas as vezes que elle tentava quebrar o preceito de
que dependia a sua vida... e a d'ella, porque a infeliz amava-o... oh!
amava-o como se no ama seno uma vez n'este mundo.

Passaram dias, semanas, Carlos estava melhor, estava salvo; Georgina
pde dizer-lhe um dia:

--'Carlos, meu Carlos, tu ests livre de perigo, vou restituir-te aos
teus.'

--'Os meus!'

--'Os teus. Tua av, tua prima...'

--'Joaninha! oh! Joanninha...'

--'Tua av que tambem tem estado a morrer mas que emfim est escapa,
ignora que tu estejas aqui. Occultmo-lo egualmente a tua prima.'

--'Ah!'

--'Sim, assentmos de lh'o no dizer a uma nem a outra at que
tivessemos certeza da tua melhora. Hoje porm vais ve-las. E eu...'

--'Tu!'

--'Eu no tenho aqui mais nada que fazer.'

--'Georgina!'

--'Carlos!'

--'Tu ja me no amas?'

--'No.'

Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o da calma que precede as
grandes tempestades. O rosto de Georgina estava impassivel, Carlos
estorcia-se debaixo de uma compresso horrivel e incapaz de se
descrever.




CAPITULO XXXIII.


     Carlos e Georgina. Explicao.--Ja te no amo! palavra
     terrivel.--Que o amor verdadeiro no  cego.--Frade no caso outra
     vez. _Ecce iterum Crispinus_; ca est o nosso Fr. Diniz comnosco.


--'Tu ja me no amas, Georgina, tu!' exclamou Carlos depois de uma longa
e penosa lucta comsigo mesmo: 'Ja me no amas tu, Georgina? Ja no sou
nada para ti n'este mundo? Aquelle amor cego, louco, infinito, que
derramavas em torrentes sbre a minha alma, em que trasbordava o teu
corao; aquelle amor que eu cheguei a persuadir-me que era o maior, o
mais sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mulher que ainda houve
no mundo, esse amor acabou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte
celeste d'onde manava? Nem as recordaes de nossa passada felicidade,
nem as memorias dos crueis lances que nos custou, dos sacrificios
tremendos que por mim fizeste, nada, nada pde acordar na tua alma um
echo, um echo sumido que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas--da
nossa vida, Georgina, porque ns chegmos a confundir n'um s os dois
seres da nossa existencia--Oh! porque vivi eu at este dia? E tu, tu que
refinada crueldade te inspirou o salvar uma vida que tinhas condemnado,
que tinhas sacrificado quando a separaste da tua?'

--'Carlos,' respondeu Georgina com a fria mas compassiva piedade que
mais o desesperava:--'Carlos, no abuses da pouca saude que ainda tens.
O esfro d'alma que ests fazendo pde-te ser prejudicial. Socega. Tu
illudes-te, e sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. Entra em ti,
Carlos, e discorramos pausadamente sbre a nossa situao, que no 
agradavel porcerto nem para um nem para outro, mas que pde supportar-se
se tivermos juizo para a incarar toda e sem medo, e para nos
convencermos com lealdade e franqueza do que ella realmente . Ouve-me,
Carlos: tu amaste-me muito...'

--'Oh como, oh quanto! Nenhum homem...'

--'Poucos homens,  certo, amaram ainda como tu... quem sabe! talvez
nenhum.--No quero perder sta ltima illuso... ja no tenho outra...
Talvez nenhum amou como tu me amaste ou... ou cuidaste amar-me. Eu...
oh! eu quiz-te... pelo eterno Deus que me ouve! eu quiz-te com uma
cegueira d'alma, n'uma singeleza de corao, com um abandno tam
completo, uma abnegao tam inteira de mim mesma, que realmente creio,
este  o amor que so a Deus se deve, que so ao Creador a creatura pde
consagrar licitamente.

Bem castigada estou: mereci-o.'

--'Georgina, Georgina!'

--'Deixa-me, quero desabafar eu tambem agora. Ouve-me, tens obrigao de
me ouvir.--Se te dei provas d'este amor, tu o sabes; se desde que te
amei, uma palavra, um gesto, um pensamento unico, um so e o mais leve
relampejar da imaginao desmentiu em mim d'esta absoluta e exclusiva
dedicao de todo o meu ser... dize-o tu.'

--'No, minha alma, no, minha vida, no; tu s um anjo, tu es...'

--'Sou uma mulher que te amava como creio que ordinariamente se no
ama.'

--'No, certo, no.'

--'Fomos felizes,  verdade; e creio que poucos amantes ainda foram tam
felizes como ns nos breves dias que isto durou.--Tu partiste para a tua
ilha; era foroso partir, conheci-o e resignei-me. Consolavam-me as tuas
cartas, as tuas cartas de fogo, escriptas, oh se o eram escriptas com o
mais puro sangue do teu corao. Nunca duvidei do que me ellas diziam:
no se mente assim, tu no mentias ento.  falso que o amor seja cego:
o amor vulgar pde s-lo, amor como o meu, o amor verdadeiro tem olhos
de lynce: eu bem via que era amada. Nunca me escreveste a protestar
fidelidade, e eu saba, eu via que tu me eras fiel.--Assim passaram
meses, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. Eu padecia muito, mas
confortava-me, vivia de esperanas... triste viver mas doce! Emfim
vieste para Lisboa, para aqui... e as tuas cartas que no eram menos
ternas nem menos apaixonadas...'

--'Se eu nunca deixei, nem um momento...'

Com um gesto expressivo, e de suave mas resoluta denegao, Georgina ps
a mo na bcca do pobre Carlos, como para o impedir de dizer uma
blasphemia. Elle segurou-a com as suas ambas e lh'a beijou mil vezes com
um arrebatamento, uma _furia_, n'um paroxismo de lagrymas e de soluos,
que partiriam o corao ao mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a
inalteravel rigidez do bello rosto da dama, abaixaram-se as longas
palpebras de seus olhos; mas se chegou at elles alguma lagryma mais
rebelde, prompta refluiu para o corao, porque ao levant-los outra vez
e ao fix-los tranquillamente nos do seu amante, aquelles olhos puros,
celestes e austeros como os de um anjo offendido, estavam seccos.

Ella continuou:

--'As tuas cartas, que no eram menos ternas nem menos apaixonadas,
comearam todavia a ser menos naturaes, mais incarecidas... eram menos
verdadeiras por fra. Senti-o, vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da
minha amizade vinha ento para Portugal, accompanhei-a. Apenas cheguei,
procurei e obtive os meios seguros de tranzitar pelos dous campos
contendores: presagiava-me o corao que me havia de ser preciso. E foi;
cheguei ao valle no dia em que tu o deixavas para aquella fatal aco
que te ia custando a vida. Vim-te incontrar prisioneiro e meio morto no
hospital dos feridos. Aop de ti estava um frade...'

--'Um frade! Meu Deus, se seria elle?'

--'Era elle.'

--'Pois tu sabes?..'

--'Sei: eu disse-lhe quem era e o que tu me eras...'

--'Tu a elle... disseste?..'

--'Disse. No sei se fiz mal ou bem, sei que me no importava o que
fazia. Vi depois que me no inganra na confiana que posera n'elle.
Trouxemos-te para este convento, trattmos de ti, conseguimos salvar-te
a vida... E em quanto esse cuidado me livrava de outros, fui... fui
feliz. A tua gente... a tua familia do valle tambem veio para
Santarem... tua av e tua prima, Carlos...'

--'Joanninha! Joanninha est aqui?'

--'Est; socega; ja t'o disse, logo a vers.'

--'Eu! Eu para qu? Eu no quero...'

--'Quero eu: hasde ve-la. Ja sabes que sei tudo.'

--'Tudo o qu, Georgina?'

--'Queres que t'o repitta? Repettirei. Que tu amas tua prima, que ella
que te adora. E por Deus, Carlos eu ja lhe quero como se fra minha
irman. Intendes bem agora que te no amo? Comprehendes agora que tudo
acabou entre ns, e que no vejo, no posso ver em ti ja seno o espso,
o marido da innocente criana que tomei debaixo da minha proteco, e a
quem juro que hasde pertencer tu?'

--'Juras falso.'

--'Como assim! Pois queres mais victimas? No ests satisfeito com a
minha ruina? Eu aomenos no sou do teu sangue. E essa velha decrepita
que  tua av, que duas vezes foi em verdade tua me porque te
criou,--essa innocente que te ama na singelleza do seu corao... e esse
pobre frade velho...'

--'Oh! aqui anda elle, bem o vejo, aqui anda o genio mau da minha
familia. Malditto sejas tu, frade!'

O desgraado no acabra bem de pronunciar stas palavras, quando a
porta da alcova se abriu de par em par, e a rigida, ascetica figura de
Fr. Diniz estava deante d'elle.




CAPITULO XXXIV.


     Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do  drama.--


Carlos estava meio sentado meio deitado n'uma longa cadeira de recsto;
Georgina em p, com os braos cruzados e na attitude de reflexiva
tranquillidade. Um sol brilhante e ardente, um sol de maio, feria os
estreitos vidros da pequena janella que so dava luz quelle quarto: a
excessiva claridade era velada por uma longa e ampla cortina.

Carlos lanou derepente a mo a essa cortina e a affastou para avivar a
luz do aposento. Um raio agudissimo de sol foi bater direito no macerado
rosto do frade, e reflectiu de seus olhos incovados, um como relampago
de ra celeste que fez estremecer os dous amantes.

No foi porm seno relampago; sumiu-se, apagou-se logo. Aquelles olhos
ficaram mortaes, mudos, fixos, invidraados como os de um homem que
acabou de expirar e a quem no cerraram ainda as palpebras.

E assim mesmo aquelles olhos tinham o podr magnetico de fixar os
outros, de os no deixar nem pestanejar.

Curvo, incostado a um bordo grosseiro, o seu chapeo alvadio debaixo do
brao, o frade deu alguns passos tremulos para onde estavam os dous,
arrastando a custo as sltas alpercatas que davam um som bao e batido,
e faziam--no sei por qu nem como--estremecer a quem as sentia.

Parou a pouca distancia, e tirando a voz fraca e tenue, mas vibrante e
solemne, do ntimo do peito, disse para Carlos:

--'Tu mal disseste-me, filho, e eu venho perdoar-te. Tu detestas-me,
Carlos, de todos os podres da tua alma, com toda a energia de teu
corao; e eu venho-te dizer que te amo, que tomra dar a minha vida por
ti, que do fundo das intranhas se ergue este immenso amor que no tem
outro egual, a pedir-te misericordia, a clamar-te em nome de Deus e da
natureza, a pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de respeito na
terra, que levantes essa maldico, filho, de cima da cabea de um
moribundo.'

Eram dittas em tal som estas vozes, vinham pronunciadas l de dentro
d'alma com tal vehemencia, que lh'as no articulavam os labios,
rompiam-n'os ellas e sahiam.

O soldado parecia desaccordado, confuso e sem intelligencia do que
ouvia. Georgina impassivel at alli, rigida e inabalavel com o seu
amante, sentia commover-se agora d'aquella angstia do velho.  que
partia pedras a dor que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que
trassudava d'aquelle rosto cadaverico.

Ao mesmo tempo, um som confuso, um tumulto vago e abafado de mil sons
que pareciam arredar-se, incontrando-se, tornando, indo e vindo, e
dispersando-se para se tornar a unir, e tornando a dispersar-se emfim,
reboava ao longe pela villa, extendia-se nas praas, concentrava-se nas
ruas, e mandava quella solitaria e remota cella do convento uns echos
surdos, como os do mar ao longe quando se retira da praia no murmurar
melancholico que precede um temporal d'equinoxio.

--'Ouves esse borburinho confuso, Carlos?  a tua causa que triumpha, 
a d'estes loucos que succumbe,  a de Deus que a si mesmo se desamparou.
A hora est chegada, escreveram-se as lettras de Balthasar; a confuso e
a morte reinam sos e senhoras na face da terra. Eu quero ir morrer onde
haja Deus... Perdoae-me, Senhor, a blasphemia!.. onde o seu nome no
seja profanado e malditto...

Ao canto de uma pedra, debaixo de uma rvore hade ser, n'algum logar
escuso d'essas charnecas, onde me no rasguem aomenos sta mortalha, e
m'a no insultem nos ultimos instantes, porque eu sou frade, frade,
frade... o malditto frade! Mas frade quero morrer, e heide morrer. Oh!
assim tivera eu vivido!'

--'Mas que foi; que succedeu?'

--'O resto do exrcito realista evacua n'este momento Santarem; vo em
fuga para o Alemtejo. Os constitucionaes venceram na Asseiceira, e tudo
est ditto para ns. Para mim, Carlos, falta uma palavra so: querers tu
diz-la?'

--'Eu?'

--'Sim tu, Carlos. Revoca as palavras terriveis que proferiste, e em
nome de Deus, filho, perdoa a teu...'

A Carlos revolvia-se-lhe no peito uma grande lucta. O horror, a
compaixo, o odio, a piedade iam e vinham-lhe alternadamente do corao
s faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma exclamao involuntaria
lhe rebentou dos labios em meio d'este combate:

--'Padre, padre! e quem assacinou meu pae, quem cegou minha av, e quem
cubriu de infamia a minha... a toda a minha familia?'

--'Tens razo, Carlos, fui eu; eu fiz tudo isso: mata-me. Mas oh!
mata-me, mata-me por tuas mos, e no me maldigas. Mata-me, mata-me. 
decreto da divina justia que seja assim. Oh! assim meu Deus! s mos
d'elle, Senhor! Seja, e a vossa vontade se faa...'

O frade cahiu de bruos no cho, e com as mos postas e extendidas para
o mancebo, clamava:

--'Mata-me, mata-me! aqui ha pouca vida ja: basta que me ponhas o p
sobre o pescoo; esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na tua
familia e que fez a sua desgraa e a de quantos o amaram. Sim, Carlos,
s tu o executor das ras divinas. Mata-me. Tantos annos de penitencia e
de remorsos nada fizeram; mata-me, livra-me de mim e da ra de Deus que
me persegue.'




CAPITULO XXXV.


     Reunio de toda a familia.--Explicao dos mysterios.--O corao da
     mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mo a Fr. Diniz e abraa
     a pobre da av.


Georgina disse para Carlos:

--'D a mo a esse homem, levanta-o e dize-lhe as palavras de perdo que
te pede.'

Carlos fez um gesto expressivo de horror e de repugnancia. Georgina
ajoelhou aop do frade, tomou as mos d'elle nas suas, e lh'as affagou
com piedade; depois levantou-lhe o rosto, incostou-o a si e gradualmente
o foi accalmando. O velho parecia uma criana mimada e sentida que se
vai accalantando nos braos da me: agora so murmurava de vez em quando
alguns soluos, a mais e a mais raros.

Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; elle mal se tinha, ella
amparava em seus braos e contra seu peito o amortecido corpo do velho.
E Georgina disse com aquelle som de voz irresistivel que as filhas de
Eva herdaram de sua primeira me, e que a ella ou lh'o tinham antes
insinado os anjos, ou o apprendeu depois da serpente,--um som de voz que
 a ltima e a mais decisiva da seduces femininas--disse:

--'Este homem vai morrer, Carlos: e tu hasde-o deixar morrer assim, _meu
Carlos_?'

Todo o odio, todas as offensas se callaram, desappareceram deante
d'aquellas palavras do anjo supplicante. _Meu Carlos_ ditto assim, no o
ouvra elle ha muito tempo, no lhe pde resistir: extendeu os braos
para o frade, cahiu de joelhos aop d'elle, e um so abrao uniu a todos
tres.

Como no eterno grupo de Lacoonte, o velho e os dous mancebos sentiam
estreitar-se das cobras da mesma dor, e affogavam junctos da mesma
angstia.

Assim estiveram longamente; e no se ouva entre elles seno algum
gemido slto, e aquelle sussurrar sumido das lagrymas que mais se ouve
com o corao do que com os ouvidos.

O frade disse emfim com uma voz apenas perceptivel de timida e de fraca:

--'Carlos, meu Carlos, perdoa tambem... oh perdoa  memoria de tua
desgraada me!'

O mancebo saltou convulsamente como o cadaver na pilha galvanica. Em p,
hirto, horrivel, tremendo, exclamou com um brado de trovo:

--'Demonio! demonio incarnado em figura de homem, que vieste
recordar-me? Dizias bem indagora, monstro: so s minhas mos deves
morrer. E hasde.'

Lanou-se a um enorme velador de pau-sancto que lhe jazia aop, massa
terrivel d'Hercules, e bastante a fender craneos de ferro, quanto mais a
descarnada caveira do frade! D'ambas as mos a levava no ar; e o velho
extendeu para elle a cabea como na ancia de morrer... Georgina fechou
involuntariamente os olhos, e um grande e medonho crime ia
consummar-se...

Dous gritos agudissimos, dous gritos de desespro e de terror,
d'aquelles que so sahem da bcca do homem quando suspenso entre a morte
e a vida--soaram repentinamente no apposento; uma velha decrepita e meia
morta, arrastada por uma criana de pouco mais de dezeseis annos, estava
deante de Carlos, e ambas cubriam com seus debeis corpos a fragil e
extenuada figura da sua victima.

--'Filho, meu filho!' arrancou a velha com stertor do peito: ' teu pae
meu filho. Este homem  teu pae, Carlos.'

O ponderoso velador cahiu inerte das mos do mancebo, e rolou pesado e
bao pelo pavimento. Carlos cahiu por terra sem sentidos. De um pulo
Georgina estava aop d'elle, e o fez incostar na longa cadeira de
braos. Estava lavado em sangue; era uma ferida do pesco que o excesso
da commoo lhe fizera rebentar. Os dous velhos vieram ajoelhar-se aop
d'elle. As duas mulheres moas lidavam pelo restaurar e lhe estancar o
sangue. A cambraia dos lenos, as rendas do collo e das cabeas, tudo se
fez em ataduras e compressas: o sangue parou emfim.

Admiravel belleza do corao feminino, generosa qualidade que todos seus
infinitos defeitos faz esquecer e perdoar! Essas duas mulheres amavam
esse homem. Esse homem no merecia tal amor: no, por Deus! o monstro
amava-as a ambas: est tudo ditto. E ellas que o sabiam, ellas que o
sentiam, e que o julgavam digno de mil mortes, ellas rivalizavam de
cuidados e de ancia para o salvarem.

De tanto no somos capazes ns.

E por isso admirmos tanto.

E perdomos tanto.

E esquecmos tanto.

Mas amar tanto, no sabemos: verdade, verdade...

Ammos _melhor_; sim, isso sim: _tanto_ no.

O mancebo permanecia em deliquio. Fr. Diniz e a velha rezavam. Georgina
e Joanninha--ja vereis que era Joanninha--olharam uma para a outra,
coraram e ficaram suspensas. A ingleza extendeu a mo  amavel criana,
estremeceu involuntariamente, mas disse-lhe com firmeza:

--'O ditto ditto, Joanninha! Eu ja o no amo; prometto.'

--'Eu amo-o cada vez mais, Georgina: elle  tam infeliz!'

--'Juras-me tu de o no deixar, de velar por elle sempre, de o defender
de si mesmo que  o peior inimigo que tem?'

--'Se juro!'

--'Ento adeus, Joanninha! Eu estou de mais aqui. Ja tenho ouvido o que
no devia ouvir. Os segredos da tua familia no me pertencem. O corao
d'esse homem no  meu, nem o quero.  um nobre e grande corao,
Joanninha; mas... No te deixes dominar por elle se o queres segurar.
Adeus!--Santarem est desamparada pelos realistas; eu vou para Lisboa.
Consola tua boa av, e esse pobre velho. Elle no  tam criminoso, estou
certa...'

--'Oh no! Carlos cuida-o assassino de seu pae; e  falso. Minha av ja
me disse tudo.'

--'Falso!' murmurou Carlos sem abrir os olhos: ' falso? Pois no foi
elle que matou meu pae?'

--'No, filho, clamou a velha: 'no, meu filho; teu pae  este infeliz.'

--'E minha me?'

--'Tua me... e eu somos duas desgraadas. Que mais queres saber? Tua
me amou esse homem...'

--'Ah!' disse Carlos: 'ah!' e abriu os olhos pasmados para a av e para
o frade que cravaram os seus no cho, e ficaram como dous ros na
presena do seu inflexivel juiz.

--'Mas esse homem que ... que por fra querem que seja meu... meu
pae... Sancto Deus! elle matou o outro.'

--'Defendi-me, foi defendendo sta vida miseravel... Oh nunca eu o
fizera! E paraqu? Paraque quiz eu viver? Para isto!'

--'E meu tio, o pae de Joanninha? Tambem esse era preciso que morresse?'

--'Ambos se junctaram para me assassinar, e me accommetteram
atraioadamente na charneca. No os conheci; foi de noite escura e
cerrada. Defendi-me sem saber de quem, e tive a desgraa de salvar a
minha vida  custa da d'elles. Filho, filho, no queiras nunca sentir o
que eu senti, quando pegando, um a um, n'esses cadaveres para os lanar
no rio, conheci as minhas victimas... Era hynverno, a cheia ia de valle
a monte: quando abateu e se acharam os corpos ja meios desfeitos,
ninguem conheceu a morte de que morreram; passaram por se ter affogado.
Ninguem mais soube a verdade seno eu--e tua infeliz me a quem o disse
para meu castigo, a quem vi morrer de pezar e de remorsos, que expirou
nos meus braos chorando por elle, e maldizendo-me a mim. No sera
bastante castigo, meu filho?--No foi, no. Este burel que ha tantos
annos me roa no corpo, estes cilicios que m'o desfazem, os jejuns, as
vigilias, as oraes nada obtiveram ainda de Deus. A sua ra no me
deixa, a sua cholera vai at a sepultura sbre mim... Se me perseguir
alm d'ella!..'

Fez-se aqui um silencio horroroso: ninguem respirava; o frade proseguiu:

--'No me dei por bastante castigado com a agonia de tua me, a mais
horrorosa e desesperada agonia que ainda presenciei, oh meu Deus!.. Tive
o cruel nimo de explicar a tua av as negras circumstancias d'aquella
morte, e de lhe patentear toda a fealdade e hediondez do meu crime.
Rasguei-lhe o corao, e vi-lhe sahir sangue e agua pelos olhos, at que
lhe cegaram. Que mais queres? Cuidei que podia morrer sem passar por
sta derradeira expiao. Deus no o quiz. Aqui estou penitente a teus
ps, filho. Aqui est o assassino de tua me, de seu marido, de teu
tio... o algoz e a deshonra de tua familia toda.--Faze de mim como fr
tua vontade. Sou teu pae...'

--'Meu pae!.. Misericordia meu Deus!'

--'Misericordia, filho, e perdo para teu pae!'

Carlos levantou-se deliberadamente, veio ao velho, tomou-o a pso nos
braos, foi sent-lo na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se de
joelhos, beijou-lhe a mo em silencio. Depois foi abraar-se com a av,
que o apalpava soffregamente com as mos trmulas, e murmurava baixo:

--'Agora sim, ja posso morrer, ja posso morrer porque o abracei, porque
o senti juncto a mim, o meu filho, o filho da minha filha querida...'

Carlos  que no proferiu mais palavra; tinha-se-lhe rompido corda no
corao, que ou lhe quebrra o sentimento ou lh'o no deixava expressar.
Sahiu da cella fazendo signal que vinha logo: mas esperaram-n'o em
vo... no tornou.

D'ahi a tres dias, veio uma carta d'elle, de juncto d'Evora onde estava
com o exrcito constitucional.




CAPITULO XXXVI.


     Que no se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao corao de
     Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organizao no 
     immoralidade.--Horror, horror, maldico!--Um baro que no
     pertence  familia lineana dos bares propriamente dittos--Porta de
     Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
     _afforada_.--Threnos sbre Santarem.


--Pois ja se acabou a historia de Joanninha?

--No, de todo ainda no.

--Falta muito?

--Tambem no  muito.

--Seja o que for, acabemos, que est a gente impaciente por saber como
se concluiu tudo isso, o que fez o frade, o que foi feito da ingleza,
Joanninha e a av que caminho levaram, e o pobre Carlos se...

--Pois interessam-se por Carlos, um homem immoral, sem principios, sem
corao, que fazia a crte--fazer a crte ainda no  nada--que amava
duas mulheres ao mesmo tempo? Horror, horror! como dizem os dramaticos
romanticos: horror e maldico!

--Horror seja, horror ser... e horror , sem dvida. E maldico que
deitaram ao pobre homem. Mas immoralidade! Immoralidade  inganar, 
mentir,  atraioar: e elle no o fez. Desgraa grande ter um corao
assim; mas no me digam que  prva de o no ter. Eu digo que elle tinha
corao de mais: o que  um defeito e grande,  um estado pathologico e
anormal. Physicamente produz a morte; e moralmente pde matar tambem o
sentimento. Bem o creio: mas  molestia commum, e com que vai vivendo
muita gente, at que um dia...

--Um dia, o orgam, que progressivamente se foi dilatando, no pde
funccionar mais, cessa a circulao e a vida. Deve ser horrivel morte!

--Fallam physicamente?

--Physicamente. Mas no moral anda pelo mesmo. E se esse  o defeito de
Carlos...

--Sentir muito?

--No; ter sentido muito: que o corao, como orgam moral, no se dilata
a esse ponto seno pelo demaziado excesso e violencia de sensaes que o
gastaram e relaxaram. Se esse  o defeito, a molestia de Carlos, digo
que ja sei o fim da sua historia sem a ouvir.

--Ento qual foi?

--Que um bello dia cahiu no indifferentismo absoluto, que se fez o que
chamam sceptico, que lhe morreu o corao para todo o affecto generoso,
e que deu em homem politico ou em agiota.

--Pde ser.

--Mas qual das duas foi, deputado ou baro? queremos saber.

--Sabero.

--Queremos ja.

--E se fossem ambas?

--Oh horror, horror, maldico, inferno! Ferros em braza, demonios
pretos, vermelhos, azues, de todas as cres! Aqui sim que toda a
artelharia grossa do romantismo deve cahir em massa sbre esse monstro,
esse...

--Esse qu? Pois em se acabando o corao  gente...

--Eu no creio n'isso. Acaba-se l o corao a ninguem!..

Houve gargalhada geral  custa do pobre incredulo, e levantamo'-nos para
ir ver o Sancto-milagre, que era a hora apprazada, e estava o prior 
nossa espera.

manhan o fim da historia da menina dos olhos verdes.

No caminho incontrmos o nosso antigo amigo, o baro de P.--baro de
outro genero, e que no pertence  familia lineana que n'esta obra
procurmos classificar para illustrao do seculo--cavalheiro generoso,
e typo bem raro ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, com
todos os seus brios e com toda a sua cortezia d'outro tempo, que em
tanto relvo destaca da grosseria villan d'essas notabilidades
improvisadas...

Vinha em nossa procura para nos guiar. Seguimo-lo.

Fomos de passagem observando algumas das mais interessantes coisas
d'aquella interessantissima terra em que se no pde dar um passo sem
que a reflexo ou a imaginao incontre objecto para se entreter.
Inclinando um pouco  direita, dmos na celebrada porta de Atamarma.

Por aqui entrou D. Affonso Henriques, por aqui foi aquella destemida
surpreza que lhe intregou Santarem, e acabou para sempre com o dominio
arabe n'esta terra.

Os illustrados municipaes Santarenos tem tido por vezes o nobre e
generoso pensamento de demolir sta porta! o arco de triumpho de Affonso
Henriques, o mais nobre monumento de Portugal!

A idea  digna da epocha.

Felizmente parece que tem faltado o dinheiro para a demolio; e o
senatus consulto dos dignos padres conscriptos no pde ainda
executar-se.

No que eu creia este arco o genuino arco moiresco por onde entraram os
bravos de D. Affonso; mas creio que essa porta da antiga villa se foi
reparando, concertando e conservando em suas successivas alteraes, at
chegar ao que hoje est: e ainda assim como est,  um monumento de
respeito que so barbaros pensariam desacatar e destruir.

Porcima d'ella est uma capellinha de N. S. da Victoria: quer a
tradico que primeiro erguida e consagrada  Virgem pelo heroico
fundador da monarchia e da independencia portugueza. Este  um dos
muitos pontos em que a religio das tradies deve ser respeitada e
crida sem grandes exames, porque nada ganha a crtica em pr dvidas, e
o espirito nacional perde muito em as acceitar.

Deix-la estar a Virgem da Victoria sbre o arco de Affonso Henriques.
Prostremo'-nos e adoremos, como bons portuguezes, o symbolo da f
christan e da f patriotica levantado pelas mos insanguentadas do
triumphador!

Mas sera elle ou no que levantou essa capellinha? os documentos
faltam, os escriptores contemporaneos guardam silencio; a historia deve
ser rigorosa e verdadeira...

Deve: e os grandes factos importantes que fazem epocha e so balizas da
historia de uma nao, tambem eu os regeitarei sem d quando lhes
faltarem essas authnticas indispensaveis. Agora as circumstancias, para
assim dizer, episodicas de um grande feito sabido e provado, quem as
conservar seno forem os poetas, as tradies, e o grande poeta de
todos, o grande guardador de tradies, o povo?

Eu creio na Senhora da Victoria de Santarem, e em muitos outros sanctos
e sanctas, que a religio do povo tem por esses nichos e por essas
capellas e por esses cruzeiros de Portugal, a recordar memorias de que
se no lavrou outro auto, no se escreveu outra escriptura, de que no
ha outro documento, e que os frades chroniqueiros no julgaram dever
escrever no livro de tera ou de noa, em nenhum livro preto nem
incarnado, porque o tinham por melhor escripto e mais bem guardado nos
livros de pedra em que estava.

Coitados! no contaram com os apperfeioadores, reparadores e
demolidores das futuras civilizaes que, para pr as coisas em ordem,
tiram primeiro tudo do seu logar.

A camara de Santarem, no podendo demolir o arco, tomou um meio termo
que appsto que ninguem  capaz de adivinhar. Afforou a capella por cima
d'elle, com altar, com sanctos e tudo: e assim esteve afforada alguns
annos, no sei paraqu nem porqu; o caso  que esteve.

O anno passado porm (1842) comeou a manifestar-se sta reaco
religiosa que os especuladores quizeram logo converter em ganancia
pessoal, descontando-a no mercado das agiotagens facciosas; mas perdem o
seu tempo, inda bem! Veio, digo, sta reaco nas ideas das gentes; e a
capella da Senhora da Victoria sbre o arco, no sei tambem como nem
porqu, foi _desafforada_, e restituida ao culto popular.

Subimos a ver a capella por dentro:  um rifacimento ridiculo e
miseravel, sem nenhuma da solemnidade do antigo, nem elegancia moderna
alguma.

Desappontou-me tristemente. Vamos ao Sancto-milagre depressa, que me
quero reconciliar com Santarem: e ja comea a ser difficil.

Mas  injustia minha. Que culpa tem ella, coitada?

Ai Santarem, Santarem, abandonaram-te, mataram-te, e agora cospem-te no
cadaver.

Santarem, Santarem, levanta a tua cabea coroada de trres e de
mosteiros, de palacios e de templos!

Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: e vers como eras bella e
grande, ricca e poderosa entre todas as terras portuguezas.

Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grandeza, e mira-te no Tejo: vers
como ainda so grandes e fortes esses ossos desconjuntados que te
restam.

Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua foice, sacode os vermes que
te poluem, esmaga os reptis que te corroem, as osgas torpes que te
babam, as lagartixas peonhentas que se passeiam atrevidas por teu
sepulchro deshonrado.

Ergue-te Santarem, e dize ao ingrato Portugal que te deixe em paz ao
menos nas tuas ruinas, myrrhar tranquillamente os teus ossos gloriosos;
que te deixe em seus cofres de marmore, sagrados pelos annos e pela
venerao antiga, as cinzas dos teus capites, dos teus lettrados e
grandes homens.

Dize-lhe que te no vendam as pedras de teus templos, que no faam
palheiros e estrebarias de tuas egrejas; que no mandem os soldados
jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a bilharda com as
cannellas dos teus sanctos.

Tiraram-te os teus magistrados, os teus mestres, os teus seminarios...
tudo, menos o intulho e a calia, as immundices e os monturos que
deixaram accumular em tuas ruas, que espalharam por tuas praas.

Santarem, nobre Santarem, a Liberdade no  inimiga da religio do ceo
nem da religio da terra. Sem ambas no vive, degenera, corrompe-se, e
em seus proprios desvarios se suicida.

A religio do Christo  a me da Liberdade, a religio do Patriotismo a
sua companheira. O que no respeita os templos, os monumentos de uma e
outra,  mau amigo da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em desamparo,
intrega-a  irriso e ao odio do povo......................................
...........................................................................

Vamos ao Sancto-milagre.




CAPITULO XXXVII.


     A Graa e sua bella fachada gothica.--Sepultura de Pedr'alvares
     Cabral.--Outro baro que no  dos assignalados.--Egreja do
     Sancto-milagre.--Bellos medalhes mosarabes.--De como, chegando o
     prior e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
     solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a
     infanta D. Maria da Assumpo.--Casa onde succedeu o milagre,
     convertida em capella de stylo philipino.--O homem das botas, e o
     que tem elle que haver com o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel
     e graciosa esperteza da regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e
     theoria dos governos folgases; os melhores governos
     possiveis.--Volta o paladio scalabitano de Lisboa para Santarem.


Inclinmos o nosso caminho para a esquerda, e fomos passar deante do
arrendado e elegante frontispicio gothico da Graa. A ausencia de no
sei que regedor, ou insignificante personagem de egual importancia que
tem as chaves da egreja e convento, nos fez perder toda a esperana de
visitar a sepultura de Pedr'alvares Cabral que alli jaz, assim como
outras bellas e interessantes antiguidades de no menor preo.

Fomos seguindo at casa do baro d'A., outro illegitimo, porque no
pertence aos bares assignalados

    Que, sem passar alm da Taprobana,
    No velho Portugal edificaram
    Novo reino que tanto sublimaram.

Incontrmo-lo prompto a accompanhar-nos, e a presidir, como juiz da
irmandade que ,  grande cerimonia da exposio e ostenso do
Sancto-milagre.

Junctos descmos  egreja, que  perto.

A egreja pequena e do peior gsto moderno por dentro e por fra. Notavel
no tem nada se no uns quatro medalhes de pedra lavrada com bustos de
homens e mulheres em relvo que visivelmente pertenceram a edificao
antiga, e que actualmente esto incrustados na tosca alvenaria do
cruzeiro.

Os bustos so de puro e finissimo lavor gothico, altos de relvo e
desenhados com uma franqueza que se no incontra em esculpturas muito
posteriores.

So talvez reliquias da primitiva egreja do Sancto-milagre que nas
successivas reedificaes se teem ido conservando. Abenoado seja o
escrupuloso que as salvou d'este ltimo _melhoramento_ que houve no
desgraado e desgraioso templo: o que no foi ha muitos annos por
certo.

Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabeas por que  a phrase vulgar e
impropria usada de toda a gente: segundo ja observei n'outra parte, com
mais exaco se devra dizer mosarabe.

Chegou o prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, vieram uns poucos de
irmos com tochas, distribuiram-nos a cada um de ns a sua, e
processionalmente nos dirigimos  porta lateral do altar-mor, da qual se
sobe, por uma escada asss larga e commoda,  especie de camarim que
est parallelo com o mais alto do throno em que perpetuamente se
conserva o grande paladio santareno.

Subimos, accompanhados do prior em sobrepeliz e estola; chegados ao
alto, ajoelhmos em roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, com
a chave dourada que trazia pendente ao pescosso, uma como porta de
sacrario, depois ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse alguns
versetos a que respondeu o sacristo, e finalmente tirou de seu
repositorio uma especie de ambula de ouro de fbrica antiga, mas no
mais antiga que o decimo sexto, ou decimo quinto seculo, quando muito.

Depois de nos inclinarmos e receber a benam que o padre nos deitou com
a reliquia, foi-nos permittido erguer-nos, e chegar perto para ver e
observar.

Entre uns cristaes ja bem velhos e imbaciados se descobre comeffeito o
pequeno vulto amarellado-escuro que piedosamente se cr ser o resto da
particula consagrada que a judia roubra para seus feitios.

Escuso contar a historia do Sancto-milagre de Santarem que toda a gente
sabe. O bom do prior, ex-frade trino gordo e bem conservado, no nos
perdoou o menor ponto d'ella, que tivemos de ouvir com a maior
compunco.

Incerrada outra vez a ambula com as mesmas solemnidades, entrmos em
conversao com o prior.

N'aquelle mesmo camarim juncto  devota reliquia se conservaram, por
espao de cinco ou seis annos, se bem me recordo do que o bom do parocho
nos contou, os restos mortaes da senhora infanta D. Maria da Assumpo,
que fallecra em Santarem nos ultimos mezes da occupao d'aquella villa
pelas fras realistas. O cadaver, mal imbalsemado e com ms drogas, foi
mettido n'um caixo de folha de Flandres. Em pouco tempo a corrupo
estragou e rompeu a folha, e uma infeco terrivel apestava a egreja.
Soffreu-se isto annos, representou-se ao govrno por vezes, mas nenhuma
resoluo se pde obter. At que afinal, declarando o prior que, se no
mandavam tomar conta d'aquelles tristes restos da pobre princeza, elle
se via obrigado a mett-los na terra, foi-lhe respondido que fizesse
como intendesse; e elle intendeu que os devia sepultar no cruzeiro da
egreja, como fez, do lado da epistola, isto ,  direita.

E ahi jaz em sepultura raza, sem mais distinco nem epitaphio, a muito
alta e poderosa princeza D. Maria, filha do muito alto e poderoso
principe D. Joo o VI, rei de Portugal, imperador do Brazil, e da
conquista e navegao etc.

Assim  o mundo, as suas grandezas e as suas glrias!

A visita ao Sancto-milagre no  completa sem se ir ver a casa onde elle
se operou. Conservou-se ella por alguns seculos em grande venerao, e
em mil seiscentos e tantos se converteu porfim em capella. Hoje est
abandonada, chove em toda ella, e apenas tem uma m porta que a defende
das incurses dos animaes. Pena e desleixo grande, porque  elegante e
graciosa a capellinha, lavrada de bons marmores, no melhor gsto do
decimo-sexto seculo, de renascena ja muito adiantada no classico:  um
verdadeiro typo do stylo philippino, que tanto predomina n'essa epocha
em toda a peninsula.

A historia do Sancto-milagre de Santarem muitas vezes tem andado ligada
com a historia do reino; e ja n'este seculo, no tempo da guerra da
independencia, veio prender com um dos factos mais importantes, e tambem
com a mais curiosa e comica aventura de que em Lisboa ha memoria.

Alludo nada menos que ao 'homem das botas.' E perdoem-me as senhoras
beatas a irreverencia apparente, que bem sabem no ser eu de motejar com
as coisas srias e sanctas. Mas o facto  que a historia do
Sancto-milagre est ligada com a clebre historia do 'homem das botas.'

Saiba pois o leitor contemporaneo, e saiba a posteridade, para cuja
instruco principalmente escrevo este douto livro, que pela invaso de
Massena, o grande paladio scalabitano foi mandado recolher a Lisboa, e
ahi se conservou alguns annos at muito depois da completa retirada dos
francezes.

Passado todo o perigo de que o exrcito invasor roubasse--ou
profanasse--que era o mais provavel--a sancta reliquia, comeou a
reclam-la o senado e povo santareno, e a mostrar muito pouca vontade de
lh'a restituir o senado e povo ulyssiponense. Era uma questo d'entre
Alba e Roma que dava serio cuidado aos reflectidos Numas da regencia do
Rocio.

Em poucas preplexidades tam graves se viu aquelle pobre govrno que
tantas teve, e de quasi todas se sahiu tam mal.

No assim d'esta, que a evitou com o mais inesperado e admiravel
stratagema, digno de ornar os maravilhosos fastos do grande Aaroun
el-Raschid, ou de qualquer outro principe de bom humor, d'esses poucos
felizes que em felizes tempos reinaram a brincar, e zombaram com o seu
povo, mas fazendo-o rir.

Pois, senhores, apertada se via a regencia d'estes reinos com a
restituio do Sancto-milagre que era de justia fazer-se a Santarem,
mas que Lisboa recusava, e ameaava impedir. Temia-se alborto no povo.

No sei de quem foi o alvitre, mas foi de magano de bom gsto; e bom
gsto teve tambem o govrno em o acceitar e approveitar. Para o dia em
que o Sancto-milagre devia sahir de Lisboa Tejo acima, e que se esperava
fosse com grande solemnidade e pompa ecclesiastica,--fez-se annunciar
por cartazes que um fulano de tal passaria o rio, de Lisboa a Almada, em
umas botas de cortia nas quaes se teria direito e inchuto, navegando a
p sem mais embarcao, vela nem remo.

A lograo era gorda e grande; melhor e mais depressa foi ingullida. No
dia apprazado despovoou-se a capital, e uns em barcos outros por navios,
outros por essas praias abaixo, tudo se encheu de gente de todas as
classes, e todos passaram o melhor do dia  espera do homem das botas.

No emtanto, muito surrateiramente imbarcava o Sancto-milagre no seu
barco de agua-arriba, e navegava com vento e mar para as ditosas
ribeiras de Santarem.

Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle em Lisboa seno quando
constou da sua chegada a Santarem, e das grandes festas que lhe fizeram
aquelles saudosos e devotos povos ribatejanos.

Os Aarouns-el-Raschids do Rocio riram de soccapa: e nunca tam
innocentemente se riu govrno algum de ter inganado o povo.

Ns celebrmos a historia como ella merecia, e fomos jantar  Alcaova,
para irmos de tarde ver a Ribeira, e procurar os vestigios do seu
inclyto alfageme.




CAPITULO XXXVIII.


     Jantar nos reaes paos de Affonso Henriques.--Sauts e
     salmis.--Desce o A.  Ribeira de Santarem em busca da tenda do
     Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salo
     elegante. Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis.--Tudo
     melhor quando visto de longe.--O baile pblico.--Soire de piano
     obrigado.--Theatro. Desafinaes da prima-dona. Syphlis incuravel
     das traduces. Destempro dos originaes.--A xcara de rigor, o
     subterraneo e o cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A
     bella e necessaria palavra 'gallimathias.'--Se as saudades
     matam.--Perigo de applicar o scalpello ou a lente ao mais perfeito
     das coisas humanas.--De como a logica  a mais perniciosa de todas
     as incoherencias.


Esperava-nos comeffeito em casa do nosso bom hspede, nos regios paos
de Affonso Henriques, um esplendido jantar a que assistiram quasi todos
os cavalheiros da terra.--No quero dizer as notabilidades, por ser
palavra peralvilha a que tenho invencivel zanga.--As iguarias de
legtima eschola portugueza, no menos saborosas e delicadas por
apparecerem estremes de _sauts e salmis_ extrangeirados. Brilharam
sbre tudo os productos das duas grandes vendimas rivaes, do Ribatejo e
Ribadouro. Foi largo e alegre o jantar.

Acabmos tarde, montmos logo a cavallo, e pela porta de Atamarma
descmos  Ribeira; era quasi sol psto quando la chegmos.

 o suburbio democratico da nobre villa, hoje o ricco e o forte d'ella.
Faz lembrar aquellas aldeas que se criaram  sombra dos castellos
feudaes e que, libertas, depois, da oppressora proteco, cresceram e
ingrossaram em substancia e fra: o castello, esse est vazio e em
ruinas.

Por aqui se faz quasi todo o commercio da Extremadura e Beira com o
Alemtejo. Os habitantes laboriosos e activos conservam os antigos brios
e independencia do character primitivo:  a unica parte viva de
Santarem.

Cruzmos a povoao em todos os sentidos, procurando rastrear algum
vestigio, confrontar algum stio onde podessemos collocar, pela mais
atrevida supposio que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas
espadas bem 'corregidas', as suas armaduras luzentes e bem postas--e o
joven Nun'alvares passeando alli por p, ao longo do rio--como diz a
chronica--namorado d'aquella perfeio de trabalho, e dando a 'correger'
a bella espada velha de seu pae ao rustico propheta que tantos
vaticinios de grandeza lhe fez, que o saudou condestavel, conde d'Ourem
e salvador da sua patria.

Nada podmos descubrir com que a imaginao se illudisse siquer, que nos
dsse, com mais ou menos anachronismo, uma leve base tamsomente para
reconstruirmos a gothica morada do clebre cutileiro-propheta que a
historia herdou das chronicas romanescas, e hoje o romance outra vez
reclama da historia.

Em Santarem ha poucas casas particulares que se possam dizer
verdadeiramente antigas; na Ribeira, nenhuma. As implastagens e
replastagens successivas teem anachronizado tudo.  uma feliz expresso
do Sr. Conde de Raczinski bem applicada por elle ao estado de quasi
todos os nossos monumentos, sta de anachronismo.

Mas alli, na villa alta ou Marvilla, no Santarem propriamente ditto, ha
os templos, os conventos, a crca das muralhas que todavia conservam a
physionomia historica da terra; aqui nem isso ha.

Voltei completamente desappontado da Ribeira, isto , da sua pedra e
cal: gsto immenso da sua gente.

Outra surpreza de mui differente genero nos esperava  noite em
Marvilla, no elegante salo da B. d'A. com quem fomos tomar cha.

Em meio das ruinas e desconfrto d'aquelles desertos e mortos pardeiros
circumstantes, ir incontrar uma casa em plena florescencia de
civilizao e de vida; ver a amabilidade e a elegancia fazendo
graciosamente as honras d'ella--por mais que se devesse esperar--sempre
espanta  primeira vista: parecia golpe de varinha de condo.

Em tam agradavel e joven companhia todas as ideas archeologicas se
desvaneceram, apezar de dous ou tres fosseis que alli appareciam para se
no perder detodo a cr local talvez.

Largamente se conversou, de Lisboa principalmente, dos nossos mutuos
amigos, das festas do ltimo hynverno, das probabilidades que se deviam
esperar do futuro.

Ralhmos muito da sociedade portugueza; exaltmos Pars e Londres e no
sei se Pekim e Nankim tambem, e concluimos que antes Timbokotuo do que a
seccante capital do nosso pobre reino. E comtudo estavamos com saudades
d'ella; e concesso d'aqui, concesso d'alli, viemos a que no era tam
m terra como isso.

Admiravel condico da natureza humana, que tudo nos parece melhor e
menos feio quando visto de longe!

O baile pblico mais semsabor, detestavel de barulho e confuso, em que,
para repousar os olhos n'um rosto conhecido e agradavel, foi preciso
furar por entre centenas de cotovellos barbaros que se no sabe d'onde
vieram, levar desalmadas pisadellas do danante novio, do deputado
recemchegado, e das botas novas do novo director da Galocha--e, mais
horrivel que tudo! ver as absurdas toiletes, os penteados fabulosos, as
caras incriveis e as antidiluvianas figuras de tanta mulher feia e
desastrada... pois esse mesmo baile, quando ja no  seno reminiscencia
que acorda no meio do infado ronceiro de uma terra de provincia, parece
outro. As luzes, as flores, a musica, toda aquella animao lembra com
prazer, o mais esquece, e involuntariamente se descai um pobre homem a
suspirar por elle.

A soire mais massante, de piano obrigado, com dueto das manas, polka
das primas e casino das tias velhas--recordada em eguaes circumstancias,
tambem ja no accode  memoria seno como uma reunio escolhida e
ntima, de facil e doce tracto... oh! o verdadeiro prazer da sociedade.

Pois o theatro... Que se lembre alguem, na provincia, dos martyrios que
soffreu o ouvido com os berros da prima-dona, as desafinaes do tenor,
ou com o infadonho resonar d'aquella adormecida orchestra de San'Carlos!

A injoativa traduco de uma comedia da Rua-dos-condes, roda de
incuravel syphilis, figura-se avelludada de todas as graas do stylo de
Scribe.

E o destempro original de um drama plusquam romantico, laureado das
imarcessiveis palmas do Conservatorio para eterno abrimento das nossas
bccas! L de longe applaude-o a gente com furor, e esquece-se que
fummou todo o primeiro acto ca fra, que dormiu no segundo, e conversou
nos outros, at  infallivel scena da xacara, do subterraneo, do
cemiterio, ou quejanda, em que a dama, soltos os cabellos e em penteador
branco, indoudece de rigor,--o gallan, passando a mo pela testa, tira
do profundo thorax os tres _ahs!_ do stylo, e promette matar seu proprio
pae que lhe apparea--o centro perde o centro de gravidade, o barbas
arrepella as barbas... e maldico, maldico, inferno!... 'Ah mulher
indigna, tu no sabes que n'este peito ha um corao, que d'este corao
sahem umas arterias, d'estas arterias umas veias--e que n'estas veias
corre sangue... sangue, sangue! Eu quero sangue, porque eu tenho sde, e
 de sangue... Ah! pois tu cuidavas? Ajoelha, mulher, que te quero
matar... esquartejar, chacinar!'--E a mulher ajoelha, e no ha remedio
seno applaudir...

E applaude-se sempre.

E no  de mim que fallo, que eu gsto d'isto: os outros  que se
infastiam e cansam de tanta barafusta, sempre a mesma...

Mas emfim o que digo  que na provincia no ha tal fastio, que esquece a
canceira, e que nem o sublime gallimathias do ridiculo d'alli se
percebe.

Peo aos illustres puritanos que,  fra de sublimado quinhentista, tem
conseguido levar a lingua  decrepitude para a curar de suas
infermidades francezas, peo-lhes que me perdoem o _gallimathias_,
porque elle  muito mais portuguez que outra coisa. A clebre orao
_pro gallo Mathiae_ deu origem a sta bella e expressiva palavra, que
sim foi procreada em francez, mas hoje precismos ca muito mais d'ella
que em parte nenhuma.

Volto ja da digresso philologica: tornemos  optica e  catoptrica.

Grande coisa  a distancia!

E dizem que saudades que matam! Saudades do vida; so a salvao de
muita coisa que, em seu pleno gso e posse pacfica, pereceria de
inanio ou morreria da oppressora molestia da saciedade.

Por isso eu no gsto de metter o scalpello no mais perfeito da
construco humana, nem de applicar a lente ao mais fino e delicado do
seu funccionar...

Vamos usando d'estas palavras que herdmos, sem metter louvados na
herana; no succeda descobrirmos que estamos mais pobres do que se
cuidava... vamos repetindo stas phrases que nos formularam nossos
antepassados sem as analysar com muito rigor; no succeda vermos claro
demais que temos passado a vida a mentir...

Detesto a philosophia, detesto a razo; e sinceramente creio que n'um
mundo tam desconchavado como este, n'uma sociedade tam falsa, n'uma vida
tam absurda como a que nos fazem as leis, os costumes, as instituies,
as conveniencias d'ella, affectar nas palavras a exactido, a logica, a
rectido que no ha nas coisas,  a maior e mais perniciosa de todas as
incoherencias.

No fallemos mais n'isto, que faz mal, e acabemos aqui este captulo.




CAPITULO XXXIX.


     Processo de scepticismo em que est o auctor.--Moralistas de
     _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a logica.--Differena do
     poeta ao philosopho.--O corao de Horacio.--O collegio de
     Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
     reis.--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que
     'Ficar no tinteiro.'--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A.
     foi ao tumulo do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?


O final do captulo antecedente , bem o sei, um terrivel documento para
este processo de scepticismo em que me mandaram metter certos moralistas
de _requiem_ de quem tenho a audacia de me rir, d'elles e da sua
querella e do seu processo, protestando no me aggravar nem appellar,
nem por nenhum modo recorrer da mirifica sentena que suas
excellentissimas hypocrisias se dignarem proferir contra mim.

Feita sta declarao solemne, procedamos.

E quanto a ti, leitor benevolo, a quem so desejo dar satisfao, a ti,
se ainda te cansas com essas chymeras, dou-te de conselho que voltes a
pagina obnoxia, porque essas reflexes do ltimo captulo so tam
deslocadas no meu livro como tudo o mais n'este mundo. Dorme pois, e no
despertes do bello-ideal da tua logica.

 uma descuberta minha de que estou vaidoso e presumido, sta de ser a
logica e a exaco nas coisas da vida muito mais sonho e muito mais
ideal do que o mais phantastico sonho e o mais requintado ideal da
poesia.

 que os philosophos so muito mais loucos do que os poetas; e de mais a
mais, tontos: o que est'outros no so.

Voltemos, voltemos a pagina comeffeito, que  melhor.

Amanheceu hoje um bello dia, puro e sublime. Dorme nas cavernas do padre
Eolo aquelle vento scco e duro, flagello dos estios portuguezes.
Suspira no ar uma virao branda e suave que regenera e d vida. Mal
impregado dia para o passar a ver ruinas! No seio da sempre joven
natureza, sob a remoada espessura das rvores, sbre a alcatifa sempre
renovada das grammas verdes e variegadas boninas, queria eu que me
corresse este dia em ocio bemaventurado de corpo e d'alma, sentindo
pulsar lento e compassado o corao livre e slto de todo impenho, o
verdadeiro corao de Horacio,

    Solutus omni foenore!

Tomra-me eu no valle outra vez, com a irman Francisca a dobar  porta,
a nossa Joanninha a deslindar-lhe a meada; e embora venha o terrivel
spectro de Fr. Diniz projectar sua funesta e tragica sombra no idilio
d'este quadro suave, que no pde destruir-lhe toda a amenidade
bucolica, por mais que faa.

L voltaremos ao nosso valle, amigo leitor, e l concluiremos, como  de
razo, a historia da menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, que 
tarde, e terminemos os nossos estudos archeologicos em Marvilla de
Santarem.

C estamos no Collegio, edficio grandioso, vasto, magnfico, propria
habitao da companhia--rei que o mandou construir para educar os
infantes seus filhos.

Creio que sta e a de Coimbra eram as duas principaes casas que para
isto tinham os Jesuitas em Portugal.

Foram os templarios dos seculos modernos, os Jesuitas. A potencia
formidavel e quasi rgia que aquelles levantaram com a espada, tinham
estes fundado com a doutrina. Riquezas, podr, influencia, uns e outros
as tiveram com applauso e acquiescencia geral; uns e outros as perderam
do mesmo modo.

Extinctas e perseguidas, ambas as ordens renasceram no mysterio, e se
converteram em associaes secretas para conspirarem; ambas tomaram
diversos nomes e variadas mscaras para o fazerem mais seguramente.

Ambas em vo!

O predominio, crescente ha seculos, do elemento democratico annulla
todas essas conspiraes. Sos e sem elle, os reis tinham succumbido... 
a alliada natural dos reis a democracia.

O edificio do Collegio  todo philippino, ja o disse: a egreja dos mais
bellos specimens d'esse stylo, que em geral scco, duro e sem poesia,
no deixa comtudo de ser grandioso.

Aqui esteve depois muitos annos o seminario patriarchal, cujas aulas
frequentava a mocidade do districto. Hoje leem-se alli outras palestras
da cathedra administrativa.  a sde do govrno civil chamado: corrumper
a moral do povo, sophismar o systema representativo  o thema das
lices.

Todo outro insino se tirou de Santarem. Falla-se n'um liceu e no sei em
que mais 'que ficou na gazetta:' phrase portugueza moderna que deve
supprir a antiga e antiquada de--'ficou no tinteiro'--por muitas razes,
at porque hoje no fica nada no tinteiro seno o senso commum, tudo o
mais de l sai, tudo. E muitas graas a Deus quando no passa s ballas
do impressor para dar a volta do mundo.

Santarem  das terras de Portugal a melhor situada e qualificada para um
grande estabelecimento de instruco e de educao pblica. Porque no
hade estar aqui o Collegio-militar ou a Casa-pia, ou outra grande
eschola, seja qual for? Porque hade ser sta centralizao d'insino em
Lisboa? Em que se funda um privilegio dado  capital em prejuizo e 
custa das provincias?

Sahimos do Collegio, fomos direitos a San'Domingos, um dos mais antigos
estabelecimentos monasticos do reino e que eu tanto desejava visitar.
No sei descrever o que senti quando a inferrujada chave deu a volta na
porta da egreja e o velho templo se patenteiou aos nossos olhos. Acabra
de servir, no imaginam de qu... de palheiro!

A derradeira camada de palha que apodrecra, adheria ainda ao lagedo
humido, e exhalava um forte vapor mephitico que nos suffocava. Mal
podmos ver os tumulos dos Docems e tantos outros interessantes
monumentos que abundam na parte superior do templo. A inferior, ou corpo
da egreja como dizem,  de um miseravel e moderno anachronismo.

Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o tempo que lhe pudesse
resistir, quiz approveit-lo em examinar a principal e mais interessante
reliquia da profanada egreja--a capella e jazigo do grande bruxo e
grande santo, San'Frei-Gil.

Algures lhe chamei ja o nosso Doutor Fausto: e  comeffeito. No lhe
falta seno o seu Goethe.

    Vixere fortes ante Agamemnona multi.

Houve fortes homens antes de Agamemno, e fortes bruxos antes e depois
do Doutor Fausto. Mas sem Homero ou Goethe  que se no chega 
reputao e fama que alcansaram aquelles senhores. Ns precismos de
quem nos cante as admiraveis luctas--ora comicas, ora tremendas--do
nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. O que eu fiz na 'Dona Branca' 
pouco e mal esboado  pressa. O grande mago lusitano no apparece alli
seno episodicamente; e  necessario que apparea como protagonista de
uma grande aco, pintado em corpo inteiro, na primeira luz, em toda a
luz do quadro.

Ento o seu ardente e anciado desejo de saber, os seus vastos estudos,
os reconditos mysterios da natureza que descobriu at penetrar no mundo
invisivel--a sde de oiro, de prazer e de podr que o perseguia e o fez
cahir nas garras do espirito maligno--o fastio e saciedade que o
desincantaram depois--o seu arrependimento emfim, e a regenerao de sua
alma pela penitencia, pela orao e pelo desprzo da van sciencia
humana--ento essas variadas phases de uma existencia tam
extraordinaria, tam poetica, devem mostrar-se como ainda no foram
vistas, porque ainda no olhou para ellas ninguem com os olhos de grande
moralista e de grande poeta que so precisos para as observar e
intender.

Lembra-me que sempre entrevi isto desde pequeno, quando me faziam ler a
historia de San'Domingos, tam rabujenta e semsabor s vezes, apezar do
incantado stylo do nosso melhor prosador; e que eu deixava os outros
capitulos para ler e reler somente as aventuras do sancto feiticeiro que
tanto me interessavam.

Com todas stas reminiscencias que me reviviam n'alma, com os admiraveis
versos do Fausto a acudir-me  memoria, e com uma infinidade de
associaes que essas ideas me traziam, caminhei direito  capella do
sancto, cheio de alvoro, e como tocado, para assim dizer, de sua
magica vara de condo.

A capella--oh desappontamento! a cappella de San'Frei Gil  um mesquinho
rifacimento moderno, do lado esquerdo da egreja, sem nenhum vestigio de
antiguidade, nenhum ornato characteristico, pesada, grosseira--velha sem
ser antiga--um verdadeiro non-descriptum de mau gsto e semsaboria. Quem
tal dissera?

O tumulo do sancto est elevado do altar n'uma especie de mau throno.
Subi acima da degradada e profanada credencia para o examinar deperto.

 de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se que tinham pintado a pedra;
no tem lavor algum.--E estava vazio, a loisa levantada e quebrada!..

Quem me roubou o meu sancto?

Quem foi o anathema que se atreveu a tal sacrilegio?..




CAPITULO XL.


     As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo aos
     liberaes?--O Psalmo.--Tres frades.--Prctica do franciscano.--O
     corpo de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do
     govrno que deixar comer mais aos bares.


ra de noite, reinava a confuso, a desordem, o susto e a anciedade nos
muros de Santarem, tres homens chegavam, por horas mortas, ao antigo
mosteiro das Claras, davam  portaria um signal surdo e mysterioso;
respondiam-lhe de dentro com outro egual; e d'ahi a pouco, sem rumor e
com as mais escrupulosas precaues se abria quietamente a porta da
clausura.

Os tres homens entraram, a porta fechou-se sbre elles do mesmo modo
precatado.

Que ser?

Os homens levavam uma especie de cofre que parecia conter preciosidades
de grande valor: tal era o desvello com que o resguardavam.

Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta aventura. Mas os tempos
so para tudo.

Era no anno de 1834.

Entremos n'esse convento das pobres Claras, tam afflictas e
desconsoladas agora que as ameaam de dissoluo como aos frades.

No ser assim: aquellas instituies no mettem medo aos verdadeiros
liberaes, e os outros l teem o espolio dos frades para devorar; esto
entretidos: as freiras salvam-se porora.

Taes eram as esperanas dos tres homens que entravam a essas deshoras
nos vedados precinctos do mosteiro. Sigamo-los porm, que  tempo.

Chegavam elles a uma pequena capella do claustro das freiras, foram
depor sbre o altar o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente deante
d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear baixo e sumido de vozes
femininas; e d'ahi a pouco, toda a communidade das Claras, de tochas na
mo, em duas alas, e a abbadessa com o seu baculo atraz, entravam
processionalmente no claustro e se dirigiam  mesma capella.

O psalmo que cantavam era este:

[6] 'Meu Deus, vieram os barbaros s tuas herdades, polluiram o teu
sancto templo, pozeram Jerusalem como um grannel de fructos.

'Pozeram os cadaveres de teus filhos de cevo s aves do ceo; as carnes
dos teus sanctos s alimarias da terra.

'O sangue d'elles derramaram-n'o como agua nos valles de Jerusalem; ja
no havia quem sepultasse.

'Estamos feitos o opprbrio dos nossos vizinhos; o escarneo e a zombaria
dos que vivem por nossos arredores.

'At aonde,  Senhor, te hasde irar emfim; e se hade accender o teu zlo
como fogo?

'Vrte a tua ra sbre as gentes que te no conheceram, contra os reinos
que no invocaram o teu nome;

'Que devoraram a Jacob; e desolaram suas terras.

'No te lembres de nossas iniquidades passadas, e depressa nos alcancem
as tuas misericordias; ja que tam pobres de mais estamos.

'Ajuda-nos Deus, salvador nosso; e pela gloria do teu nome livra-nos,
Senhor, amercea-te de nossos peccados por causa do teu nome.'

Cantavam assim as pobres das freiras, cantavam em latim que ellas mal
intendiam; mas dizia-lhes o instincto do corao, dizia-lhes a tam
excitavel imaginao feminina, que era chegada a hora de se cumprir a
seus olhos, e sbre ellas mesmas tambem, a tremenda prophecia do psalmo
que intoavam.

Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que assim cantavam, sahiam d'alma
aquelles sons e n'alma vibravam tambem com profunda e solemne
melancholia.

Chegadas juncto  capella aonde estava o cofre, as freiras pararam
conservando as mesmas duas alas da procisso e continuando no accentuado
mormrio de seu psalmo.

Os tres vultos de homem permaneceram de joelhos e curvados deante do
altar.

Findou o psalmo e seguiu-se breve intervallo de silencio. Depois, os
tres homens levantaram-se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas
em que vinham involtos, viu-se que o do meio era um frade velho, magro,
curvado e scco, trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos
franciscanos e cingido com sua corda. Os outros dous eram dominicos e
vestiam de preto e branco segundo as cres de seu tambem proscripto
instituto.

O velho franciscano subiu com passo trmulo os degraus do altar, beijou
o cofre que estava sbre elle, e voltando-se para a communidade que o
contemplava em religioso silencio, disse com uma voz cava que parecia
vir do sepulchro mas accentuada e forte:

'Irmans, vimos intregar-vos este depsito precioso. Deus no quer que os
cadaveres dos seus sanctos fiquem expostos s aves do ceo e s alimarias
da terra. Este  o sancto corpo de um dos maiores sanctos que produziu
sta terra de Portugal quando era abenoada. Hoje  malditta e no devia
conservar as suas reliquias. Os filhos de San'Domingos foram expulsos de
sua casa, assim como ns fomos, ns os filhos de Francisco,
incontrmo'nos sem tecto nem abrigo uns e outros, e junctmos as nossas
miserias para as chorarmos como irmos que somos, como filhos de paes
que tanto se amaram e ajudaram. Perigrinaremos junctos por essas
solides da terra, e junctos iremos bater por essas portas que cerrou a
impiedade e a indifferena, a pedir o po de cada dia porque temos fome.

'Que importa! no professmos ns, no nos honrmos ns de ser mendigos?
De que vivmos ns sempre seno de esmolla?

'No choreis irmans, no choreis sbre ns. Deus que o permittiu bem
sabe o que fez. Louvado seja elle sempre! Ns tinhamos peccados para
mais! Ainda foi misericordioso comnosco o Senhor da justia e do
castigo.

'A ns tiraram-nos tudo, tudo! At stas mortalhas que tinhamos
escolhido em vida e que nem a morte ousava roubar-nos.

'A furto e como quem se esconde para um acto criminoso, ns as vestimos
sta noite para commetter o que elles chamaro um furto, e que era uma
obrigao sagrada nossa.

'Fomos  antiga casa de nossos irmos e roubmos o corpo do
bemaventurado San'Frei Gil.

'Aqui vo-lo intregmos; guardae-o. Emquanto estes muros estiverem em pe,
que o abriguem dos desacatos d'essa gente sem Deus nem lei. A vs no
ousaro expulsar-vos d'aqui: talvez vos matem  fome... No pde ser:
Deus no hade permitti-lo.

'Mas qualquer que seja a sua vontade, resignae-vos a ella, minhas
irmans. So elle sabe como nos ama e como nos castiga. Louvemo'-lo por
tudo.'

Aqui foi um chorar e um supplicar fervente como so se ouve na hora da
angstia.

As afflictas monjas, estavam prostradas nas lages humidas do claustro,
sbre as sepulturas de suas irmans, sbre seus proprios jazigos que
haviam de ser. O frade com os braos extendidos pronunciou as solemnes
palavras de beno, descrevendo com a direita o augusto symbolo da
redempo:

'Bemdiga-vos Deus omnipotente, Pae, Filho e Espirito-sancto!' 'Amen!'
respondeu o cro; e os tres proscriptos se retiraram, deixando a salvo o
seu thesoiro.

Assim desappareceu do tumulo o corpo de San'Frei Gil de Santarem.

Ninguem saba d'elle: soube eu e guardei o segredo religiosamente.

Os tempos so outros hoje: os liberaes ja conhecem que devem ser
tolerantes, e que precisam de ser religiosos. No ha perigo em dizer-lhe
onde elle est.

Quando houver em Portugal um govrno que saiba ser govrno, hade regular
e consolidar a existencia das freiras, hade approveit-la para as
piedosas instituies do insino da mocidade, da cura dos infermos, e do
amparo dos invalidos.

Os bares andam-lhe com o cheiro nos poucos bens que lhes restam s
pobres das freiras. Mal do govrno que deixar comer mais aos bares!




CAPITULO XLI.


     O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta perspicacia do
     leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa historia.--Porque se no
     preenche?--Pgina preta na historia de Tristam Shandy.--Novellas e
     romances, livros insignificantes.--O adro de San'Francisco e as
     suas acacias.--Que ser feito de Joanninha?--O peito da mulher do
     norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas ruinas.--A
     corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu, Portugal,
     eheu!


Porcerto, leitor amigo, no franciscano velho que vai de noite roubar os
ossos do sancto ao seu tumulo, e os vem esconder na clausura das
freiras, porcerto, digo, reconheceu ja a tua natural perspicacia ao
nosso Frei Diniz, o frade por excellencia--frade por teima e acinte.

Pois esse era, no ha dvida.

Assim se passou aquella scena e assim m'a contaram. Do que medira entre
ella e o acontecido com o frade, Carlos, Joanninha, a av e a ingleza,
d'isso  que nada pude saber.

 uma grande lacuna na nossa historia; mas antes fique assim do que
ench-la de imaginao.

Oh! eu detesto a imaginao.

Onde a chronica se calla e a tradio no falla, antes quero uma pagina
inteira de pontinhos, ou toda branca--ou toda preta, como na veneravel
historia do nosso particular e respeitavel amigo Tristo Shandy, do que
uma so linha da inveno do chroniqueiro.

Isso  bom para novellas e romances, livros insignificantes que todos
leem todavia, ainda os mesmos que o negam.

Eu tambem me parece que os leio, mas vou sempre dizendo que no...

Emfim, tornemos ao frade, e tornemos s minhas viagens.

Cheio d'elle e da sua memoria, palpitando com a recordao das tremendas
scenas que, havia tam poucos annos, se tinham passado em seu antigo
mosteiro, eu me approximei emfim do real convento de San'Francisco de
Santarem.

Dei pouca atteno ao bello adro e  solemne vista que d'elle se
descobre--e menos ainda s doentias acacias que ahi vejetam infezadas e
rachiticas, como plantadas de m mo e em m hora--porque mas so
ellas,  visivel: poseram-n'as ahi depois de extincto o convento. So
triste mas verdadeiro symbolo da apagada e facticia vida que se quiz dar
ao que era morto.

Vamos dentro, e vejamos pelas baixas e aguadas arcadas do claustro,
pelas altas naves do templo se descubrimos algum vestigio do ltimo
guardio d'esta casa, e d'essa fadada familia cujo destino em hora
aziaga tam estreitamente se ligou com o d'elle.

Ja me interessa isto mais, confesso, ai! muito mais, do que todos esses
tumulos e inscripes que por ahi esto, e que tanto characterizam este
um dos mais antigos e mais historicos edificios do reino.

Mas em vo interrogo pedra a pedra, lage a lage: o echo morto da solido
responde tristemente s minhas perguntas, responde que nada sabe, que
esqueceu tudo, que aqui reina a desolao e o abandno, e que se
apagaram todas as lembranas de outro estado...

Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amores? Que ser feito d'esse
homem que ousou amar-te amando a outra? E essa outra onde est?
Resignou-se ella devras? Sepultou comeffeito, sob o glo apparente que
veste de triplice mas falsa armadura o peito da mulher do norte, todo
aquelle fogo intenso e ntimo que solapadamente lhe devora o corao?

No tenho esperanas de saber nada d'isso aqui.

So pude descubrir que, no dia immediato  scena nocturna das Claras, Fr.
Diniz sahiu de Santarem, no se sabe em que direco--que n'esse mesmo
dia Georgina sahra tambem pela estrada de Lisboa, levando em sua
carruagem a av e a neta, ambas meias mortas e ambas meias loucas--que
no houvera mais novas de Carlos--e que a sua ltima carta, aquella que
escrevra de juncto d'Evora, Joanninha a levava apertada nas mos
convulsas quando partra.

Pois tambem eu me quero partir, me quero ir embora. Ja me infada
Santarem, ja me cansam stas perptuas ruinas, estes pardeiros
interminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intulhos, a tristeza
d'estas ruas desertas. Vou-me embora.

E comtudo San'Francisco  uma bella ruina, que merecia examinada de
vagar, com outra paciencia que eu ja no tenho.

Se tudo me impacienta aqui!

Da bella egreja gothica, fizeram uma arrecadao miltar; andou a mo
destruidora do soldado quebrando e abolando esses monumentos preciosos,
riscando com a baioneta pelo verniz mais pulido e mais respeitado
d'esses jazigos antiquissimos: os lavores mais delicados esmoucou-os,
degradou-os. Levantaram as lages dos sepulchros; e ao som da corneta
militar acordaram os mortos de seculos, cuidando ouvir a trombeta
final...

Decididamente vou-me embora, no posso estar aqui, no quero ver isto.
No  horror que me faz,  nusea,  asco,  zanga.

Maldittas sejam as mos que te profanaram, Santarem... que te
deshonraram, Portugal... que te invilleceram e degradaram, nao que
tudo perdeste, at os padres da tua historia!..

Eheu, eheu, Portugal!




CAPITULO XLII.


     Protesto do auctor.--Desaffinao dos nervos.--O que  preciso para
     que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus est no Colliseu
     assm como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
     Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que
     estado se acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real
     sbre a caveira.--O rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem
     nunca viu o rei cuida que  de oiro.--Brutalidades da soldadesca
     n'um tumulo real.--O que se acha nas sepulturas dos reis.--A
     phrenologia.--Vindicta publica, tardia mas ultrajante.--Cames e
     Duarte Pacheco.--A sombra falsa da religio.--Regimen dos bares e
     da materia.--A prosa e a poesia do povo.--Synthese e analyse.--O
     senso ntimo.--Se o auctor  demagogo ou Jesuita?--Jesu Christo e
     os bares.


No chamem exaggerado ao que vai escripto no fim do ltimo capitulo;
senti o que escrevi, senti muito mais do que escrevi. O que poder haver
 desacrto nas palavras, porque em verdade no sei explicar a impresso
que me faz uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os nervos, vibram-me
n'uma discordancia e dissonancia insupportavel. Queria ver antes estes
altares expostos s chuvas e aos ventos do ceo,--que o sol os queimasse
de dia,--que  noite,  luz branca da lua, ou ao tibio reflexo das
estrellas, piasse o mocho e sussurrasse a coruja sbre seus arcos
meio-cahidos.

No me parecia profanado o templo assim, nem descahido de majestade o
monumento. Podia ajoelhar-me no meio das pedras sltas, entre as hervas
humidas, e levantar o meu pensamento a Deus, o meu corao  glria, 
grandeza, o meu espirito s sublimes aspiraes da idealidade. O
material, o grosseiro, o pesado da vida no me vinham affligir ahi.

Deus, a idea grande do mundo--Deus, a Razo Eterna--Deus, o amor--Deus,
a glria--Deus, a fra, a poesia e a nobreza d'alma--Deus est nas
ruinas escalavradas do Colliseu, como nos zimborios de bronze e marmore
de San'Pedro.

Mas aqui!.. nos pardeiros de um convento velho, concertado pelas
Obras-pblicas para servir de quartel de soldados--aqui no habita
espirito nenhum.

Quero-me ir embora d'aqui!

E como? sem ver o tumulo d'elrei Fernando? No pde ser,  verdade.

Onde est elle?

No cro alto.

Subamos ao cro alto.

    Oh! que no sei de njo como o conte!

O bello jasigo do rei formoso e frivolo, tam dado s delicias do prazer
como foi seu pae s austeridades da justia, em que estado elle est!

Oh nao de barbaros! Oh malditto povo de iconoclastas que  este!

O tumulo do segundo marido de D. Leonor Telles  um sarcophago de pedra
branca, fina e friavel, elegante e simplesmente cortada, com mais
sobriedade de ornatos do que tem de ordinario os monumentos do seculo
XIV, mas de uma acabada sculptura, casta e continente, como o no foi a
vida do rei que ahi incerraram depois de morto.

Percebem-se ainda vestigios das vivas cres em que foram induzidos os
relevos da pedra branca:--stylo byzantino de que no sei outro exemplar
em Portugal. Este --ou antes, era--precioso.

Era; porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a um ponto incrivel.
Imaginou a estupida cubia d'estes Allanos modernos que devia de estar
alli dentro algum grande haver de riquezas incantadas,--talvez cuidaram
achar sbre a caveira do rei a coroa real marchetada de perolas e rubis
com que fosse interrado,--talvez pensaram incontrar appertado ainda
entre as sccas phalanges dos dedos myrhados, aquelle globo de oiro
macisso que lhes figura o rei d'espadas do sujo baralho de sua tarimba,
e que elles teem pela indisputavel e infallivel insignia do supremo
imperio;--talvez supposeram que mesmo depois de morto, um rei devia de
ser de oiro... Emfim quem sabe o que elles cuidaram e pensaram? O que se
sabe, porque se ve,  que quizeram abrir e arrombar o tumulo. Tentaram,
primeiro, levantar a campa; no poderam: tam solidamente est soldada a
pedra decma ao corpo ou caixo do jazigo, que o todo parece macisso e
inconsutil. Mas n'este impenho quebraram e estallaram os lavores finos
dos cantos, os caireis delicados das orlas; e a campa no cedeu: parece
chumbada pelo anjo dos ltimos julgamentos com o sllo tremendo que so
se hade quebrar no dia derradeiro do mundo.

A cubia estolida dos soldados no se aterrou com a religio do
sepulchro, nem lhe causou attrio, ao menos, sta resistencia quasi
sobrenatural das pedras do moimento. Ve-se que trabalhou alli, de
alavanca e de ariete, algum possante e ponderoso p-de-cabra; mas que
trabalhou em vo muito tempo.

Desinganaram-se emfim com a tampa; e resolveram atacar, mais brutalmente
mas com mais vantagem, as paredes do sarcophago, que justamente
suspeitaram de menos espessos. Assim era; e conseguiram na parede da
frente abrir um rombo grosseiro por onde entra facil um brao todo e
pde explorar o interior do tumulo  vontade.

Assim o fiz eu, que metti o meu brao por essa abertura barbara, e achei
terra, p, alguns ossos de vertebras, e duas caveiras, uma de homem,
outra de criana.

No me lembra que haja memoria alguma de infante que ahi fosse sepultado
tambem, segundo faziam os antigos muitas vezes que punham os cadaveres
das crianas nos jazigos dos paes, dos parentes, at de meros amigos de
suas familias.

Tive, confsso, uma especie de prazer maligno em imaginar a estupida
compridez de cara com que deviam de ficar os brutaes profanadores,
quando achassem no tumulo do rei o que so teem os tumulos--de reis ou de
mendigos--ossos, terra, cinza, nada!

Por mim, estive tentado a furtar a caveira d'elrei D. Fernando. Se
acreditasse na phrenologia, parece-me que no tinha resistido. No creio
na sciencia, felizmente--n'este caso--para a minha consciencia. Tambem
no sei o que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o 'fraco rei'
que fez 'fraca a forte gente' no so reliquias as suas que se guardem.

Oh! e quem sabe? sta profanao, este abandno, este desacato do tumulo
de um rei, alli na sua terra predilecta--D. Fernando era santareno de
affeio--no ser elle o juizo severo da posteridade, a vindicta
pblica dos seculos, que tardia mas ultrajante, cai emfim sbre a
memoria reprovada do mau principe, e lhe deshonra as cinzas como ja lhe
deshonrra o nome?

Quero acreditar que tal no podia succceder aos tumulos de D. Diniz, de
D. Pedro I, dos dois Joannes I e II, de...

Sim: e aonde est o de Cames? O de Duarte Pacheco aonde _esteve_? que
ainda  mais vergonhosa pergunta sta ltima.

Em Portugal no ha religio de nenhuma especie. At a sua falsa sombra,
que  a hypocrisia, desappareceu. Ficou o materialismo estupido, alvar,
ignorante, devasso e desfaado, a fazer gala de sua hedionda nudez
cynica no meio das ruinas profanadas de tudo o que elevava o espirito...

Uma nao grande ainda poder ir vivendo e esperar por melhor tempo,
apezar d'esta paralysia que lhe pasma a vida d'alma na mais nobre parte
de seu corpo. Mas uma nao piquena,  impossivel; hade morrer.

Mais dez annos de bares e de regimen da materia, e infallivelmente nos
foge d'este corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do
espirito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo, est so:
os corruptos somos ns os que cuidmos saber e ignormos tudo.

Ns, que somos a prosa vil da nao, ns no intendemos a poesia do
povo; ns, que so comprehendemos o tangivel dos sentidos, ns somos
extranhos s aspiraes sublimes do senso-ntimo que despreza as nossas
theorias presumposas, porque todas veem de uma acanhada anlyse que
procede curta e mesquinha dos dados materiaes, insignificantes e
imperfeitos;--em quanto elle, aquelle senso-ntimo do povo, vem da Razo
divina, e procede da synthese transcendente, superior, e inspirada pelas
grandes e eternas verdades que se no demonstram porque se sentem.

E eu que escrevo isto serei eu demagogo? No sou.

Serei fanatico, jesuita, hypocrita? No sou.

Que sou eu ento?

Quem no intender o que eu sou, no vale a pena que lh'o diga...

Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexo ltima no fim d'este captulo ja
tam seccante, e prometto no reflectir nunca mais.

Jesu Christo, que foi o modlo da paciencia, da tolerancia, o verdadeiro
e unico fundador da liberdade e da egualdade entre os homens, Jesu
Christo soffreu com resignao e humildade quantas injustias, quantos
insultos lhe fizeram a elle e  sua misso divina; perdoou ao matador, 
adltera, ao blasphmo, ao impio. Mas quando viu os bares a agiotar
dentro do templo, no se pde conter, pegou n'um azorrague e zurziu-os
sem dor.




CAPITULO XLIII.


     Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
     saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
     peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocao de incanto.--A
     irman Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E
     Joanninha?--Joanninha est no ceo.--A mulher morta a dobar
     esperando que a interrem.--A esperana, virtude do
     christianismo.--Uma carta.


Estou devras fatigado de Santarem; vou-me embora.

Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal familia que nos hospedra
com tanto carinho, com toda a velha cordialidade portugueza; partimos.

Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhan nos olivaes, senti
desaffogar-se-me alma d'aquella constrico cansada que se experimenta
na longa visita a um museu de antiguidades, a uma galeria de pinturas.

Perdoem-me que no diga 'pinacotheca': bem sei que  moda, e que a
palavra  adoptavel segundo as mais strictas regras de Horacio, pois
'cai da fonte grega' direitamente e sem mistura: mas soa-me tam mal em
portuguez que no posso com ella.

Santarem fatigou-me o espirito, como todas as coisas que fazem pensar
muito. Deixo-a porm com saudade, e no me heide esquecer nunca dos dias
que aqui passei.

De qu e como sou eu feito, que no posso estar muito tempo n'um logar,
e no posso sahir d'elle sem pena?

Ja me est custando ter deixado Santarem. Porque no haviamos de partir
manhan, e ter ficado ainda hoje alli?

E hoje que  sexta-feira?... Mau dia para comear viagem!

Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso valle, da pobre velha cega que
ahi vivia sua triste vida de dores, de remorsos e desconfrto, esperando
porm em Deus, conformada com seu martyrio: martyrio obscuro, mas tam
insanguentado d'aquelle sangue que mana gotta a gotta e dolorosamente do
corao rasgado, devorado em silencio pelo abutre invisivel de uma dor
que se no revela, que no tem prantos nem ais.

Era na sexta-feira que o terrivel frade, o demonio vivo d'aquella mulher
de angstias, lhe apparecia tremendo e espantoso deante de seus olhos
cegos, elevado pela imaginao s propores descommunaes e gigantescas
de um vingador sobrenatural.

Era a figura tangivel, e visivel  vista de sua alma, do enorme peccado
que contra ella estava sempre.

Creio que escuso dizer que no tenho eu sta superstio dos dias
aziagos que tinha a desgraada velha, que a sua Joanninha partilhava.
Mas confesso que, recordando as fatalidades d'aquella familia e
d'aquelle dia, no gostei de voltar n'elle ao valle de Santarem.

Estavamos porm no valle; e ja eu via de longe aquellas rvores e
aquella janella que tanto me impressionaram, quando stas reflexes me
acudiam ao espirito e m'o contristavam.

Affrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga dianteira aos meus
companheiros de viagem; e quando chegava perto da casa, tinha-os perdido
de vista.

Involuntariamente parei defronte da janella; mordia-me um intersse, uma
curiosidade irresistivel... Nem viva alma por aquelles arredores;
apeei-me e fui direito para a casa.

Apenas passei as rvores, um spectaculo inesperado, uma evocao como de
incanto me veio ferir os olhos.

No mesmo stio, do mesmo modo, com os mesmos trajos e na mesma attitude
em que a descrevi nos primeiros capitulos d'esta historia, estava a
nossa velha irman Francisca...

Ella era, e no podia ser outra; sentada na sua antiga cadeira, dobando,
como Penelope tecia, a sua interminavel meada. No havia outra
differena agora seno que a dobadoira no parava, e que o fio seguia,
seguia, inrollando-se, inrollando-se contnuo e compassado no novllo; e
que os braos da velha lidavam lentamente mas sem cessar no seu
movimento de authomato que fazia mal ver.

Defronte d'ella, sentado n'uma pedra, a cabea baixa, e os olhos fixos
n'um grosso livro velho, que sustinha nos joelhos, estava um homem scco
e magro, descarnado como um esqueleto, livido como um cadaver, immovel
como uma esttua. Trajava um non-descriptum negro, que podia ser sotana
de clerigo ou tunica de frade, mas descingida, slta, e pendente em
grossas e largas pregas do extenuado pescosso do homem.

Tambem no podia ser seno Frei Diniz.

Cheguei juncto d'elles; no me sentiu nenhum dos dois; nem me viu elle,
o que so via dos dois.

Sem mais reflexo, e continuando alto na serie de pensamentos que me
vinha correndo pelo espirito, exclamei:

--'E Joanninha?'

--'Joanninha est no ceo':--respondeu sem sobresalto, sem erguer os
olhos do seu livro, a sombra do frade--que outra coisa no parecia.

--'Joanninha, pobre Joanninha! Pois como foi, como acabou a infeliz?'

--'Joanninha no  infeliz: foi ser anjo na presena de Deus.'

--'E... e Carlos?' balbuciei eu hesitando, porque temia a
susceptibilidade do frade.

--'Carlos!' respondeu elle erguendo emfim os olhos e cravando-os em
mim...

E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem os heide ver!

--'Carlos!... E quem  que m'o pergunta? quem  que tanto sabe de mim e
dos meus?.. Dos meus! Eu no tenho meus: sou so.'

--'So! No est aqui, que eu vejo?..'

--'Ve essa mulher morta que ahi ficou, que a matei eu, e que aqui est 
espera que d a hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e quero
estar so. Morreu tudo. Que mais quer saber?'

--'Venho de Santarem...'

--'Santarem tambem morreu; e morreu Portugal. Aqui no, vive seno o meu
peccado, que Deus no perdoou ainda, nem espero...'

--'A nossa religio fez uma virtude da esperana.'

--'Fez.'

--'E n'isso se distingue das outras todas.'

--'Pois ainda ha quem o saiba n'esta terra?'

--'Ha mais do que no houve nunca--pelo menos ha mais quem o saiba
melhor.'

--'Pde ser: os juizos de Deus so incomprehensiveis.'

--'E infinita a sua misericordia.'

--'Mas a sua cholera implacavel, a sua justia tremenda.'

--'A misericordia  maior.'

--'Quem lhe insinou tudo isso?'

--'O evangelho, o corao, e minha me que m'os explicou ambos.'

--'Sente-se aqui... aop de mim.'

Sentei-me. O frade pegou-me na mo com as suas ambas, e ps-me os olhos
com uma expresso que nenhuma lingua pde dizer, nem nenhum pincel
pintar.

Esteve assim algum tempo, como quem me observava. Vi-lhe apontar
claramente uma lagryma, vi-lh'a retroceder, e ficarem-lhe inchutos os
olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro que lhe vinha  garganta;
percebi distinctamente o estremeo que lhe correu o corpo; mas observei
que todo se serenou depois.

Disse-me ento com voz magoada mas placida e sem aspereza ja nenhuma:

--'Sabe a historia do valle?'

--'Sei tudo at  partida de Carlos para Evora.'

--'Aqui tem a carta que elle escreveu.'

Tirou do breviario um papel dobrado, amarello do tempo, e manchado, bem
se via, de muitas lagrymas, algumas recentes ainda.

--'Leia.'

Li.

sta era a carta de Carlos.




CAPITULO XLIV.


     Carta de Carlos a Joanninha.




                                       Evora-monte...
                                     de maio de 1834.


 a ti que escrevo, Joanna, minha irman, minha prima, a ti so.

Com nenhum outro dos meus no posso nem ouso fallar.

Nem eu ja sei quem so os meus: confunde-se, perde-se-me sta cabea nos
desvarios do corao. Errei com elle, perdeu-me elle... Oh! bem sei que
estou perdido.

Perdido para todos, e para ti tambem. No me digas que no; tens
generosidade para o dizer, mas no o digas. Tens generosidade para o
pensar, mas no pdes evitar de o sentir.

Eu estou perdido.

E sem remedio, Joanna, porque a minha natureza  incorrigivel. Tenho
energia de mais, tenho podres de mais no corao. Estes excessos d'elle
me mataram... e me matam!

Tu no comprehendes isto, Joanninha, no me intendes decerto; e 
difficil.

Es mulher, e as mulheres no intendem os homens. Sempre o entrevi, hoje
sei-o perfeitamente. A mulher no pde nem deve comprehender o homem.
Triste da que chega a sab-lo!..

E d'ahi... quando se tem de morrer, antes saber a morte de que se morre,
do que expirar na ignorancia do mal que nos matou.

Tu es joven e inexperiente, a tua alma est cheia de illuses doces; vou
dissipar-t'as em quanto se no condensam, que te offusquem a razo e te
deixem para sempre escrava cega do maior inimigo que temos, o corao.

Quero contar-te a minha historia: vers n'ella o que vale um homem.

Sabe que os no ha melhores que eu; e tam bons, poucos. Olha o que ser
o resto!

Tu no ignoras ja hoje o porque fugi da casa materna: saba-a manchada
de um grande peccado, e imaginei-a polluida de um enorme crime.

Esse homem que  meu pae, no o podia ver; hoje que sei o que me elle
... Deus me perdoe, que ainda o posso ver menos!

Minha av, julguei-a cumplice no crime; ella so o era no peccado.
Perdoe-lhe Deus; e bem pde e bem deve, ja que a fez tam fraca. Minha
pobre me succumbiu por sua culpa, por sua irremissivel complacencia...

Deus pde e deve, repitto... mas eu, como lhe heide perdoar eu este
rubor que sinto nas faces ao nomear minha me?

Tem padecido e soffrido muito... coitada! A sua penitencia  um
martyrio, a sua velhice uma longa paixo, e esse homem que a perdeu um
verdugo sem piedade. Mas tudo isso  com Deus, no  commigo.

Eu sou filho; minha me morreu sem perdoar--no posso perdoar eu.

E quem me hade perdoar a mim? Ninguem, nem quero.

No sers tu, minha irman; no, que no deves. Porque eu amei-te com um
corao que ja no era meu; acceitei o teu amor sem o merecer, sem o
podr possuir, trahi quando te amava, menti quando t'o disse, menti-te a
ti, menti-me a mim, e no guardei verdade a ninguem.

Mas espera, ouve; deixa-me ver se posso atar o fio d'esta minha incrivel
historia--incrivel para ti, bem simples para quem conhea o corao do
homem.

Sahi de Portugal, e posso dizer que no tinha amado ainda. Inclinaes
de criana, galanteios de sociedade, ligaes que nasceram da vaidade,
ou que so os sentidos alimentam, no merecem o nome de amor.

Eu no tinha amado.

Ha tres especies de mulheres n'este mundo: a mulher que se admira, a
mulher que se deseja, e a mulher que se ama.

A belleza, o espirito, a graa, os dotes d'alma e do corpo geram a
admirao.

Certas frmas, certo ar voluptuoso criam o desejo.

O que produz o amor no se sabe;  tudo isto s vezes,  mais do que
isto, no  nada d'isto.

No sei o que ; mas sei que se pde admirar uma mulher sem a desejar,
que se pde desejar sem a amar.

O amor no est definido, nem o pde ser nunca. O amor verdadeiro; que
as outras coisas no so isso.

Eu vivi poucos mezes em Inglaterra; mas foram os primeiros que posso
dizer que vivi. Levou-me o acaso, o destino--a minha estrella, porque eu
ainda creio nas estrellas, e em pouco mais d'este mundo creio
ja--levou-me ao interior de uma familia elegante, ricca de tudo o que
pde dar distinco n'este mundo.

Extranhei aquelles habitos de alta civilizao, que me agradavam
comtudo; moldei-me facilmente por elles, affiz-me a vejetar docemente na
branda atmosphera artificial d'aquella estufa sem perder a minha
natureza de planta extrangeira. Agradei: e no o merecia. No fundo
d'alma e de character eu no era aquillo por que me tomavam. Menti: o
homem no faz outra coisa. Eu detesto a mentira, voluntariamente nunca o
fiz, e todavia tenho levado a vida a mentir.

Menti pois, e agradei porque mentia. Sancto Deus! para que sahiria a
verdade da tua bcca, e para que a mandaste ao mundo, Senhor?

Havia tres meninas n'aquella familia. Dizer que eram as tres graas 
uma vulgaridade cansada, e tam bannal que no d idea de coisa alguma.
Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer com mais propriedade. E quando
em nossos longos passeios solitarios, por aquelles campos sempre verdes,
por aquellas collinas coroadas de arvoredo, tapessadas de relva macia,
os seus vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem arte,
fluctuavam com a brisa da tarde... e os longos anneis de seus
cabellos--os de uma eram loiros, os de outra castanhos, no ha nome para
a indefinida cr dos da terceira--quando esses longos anneis descahiam
de sua ondada spiral com o orvalho humido do crepusculo--e que a essa
luz vaga e mysteriosa eu as contemplava todas tres com adorao e
recolhimento devoto d'alma--sinceramente exclamava: 'So tres anjos
celestes que  foroso adorar!..'

E assim  que os adorava os tres anjos, todos tres, e no podia adorar
um sem os outros.

Que me queriam ellas,  certo; que insensivelmente se habituaram  minha
companhia e ja no podiam viver sem ella... ai! era preciso ser um
monstro para o no confessar com lagrymas de gratido e de remorso.

Os mais difficeis e delicados apices da perfeio de sua tam caprichosa
e tam expressiva lingua, as bellezas mais sentidas de seus auctores
queridos, o espirito e tom difficil de sua sociedade tam desdenhosa e
fastienta, mas tam completa e tam calculada para sublimar a vida e a
desmaterializar--isso tudo, e um indefinivel sentimento do _gentil_, que
so com natural tacto se adquire,  verdade, mas que se no alcansa com
elle so--isso tudo o apprendi alli das suaves lices que
insensivelmente recebia a cada instante.

Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; se tenho merecido alguma
considerao no mundo, toda lh'a devo.

Ves que confesso a dvida, vers como a paguei.

O tom perfeito da sociedade ingleza inventou uma palavra que no ha nem
pde haver n'outras linguas emquanto a civilizao as no aparar. _To
flirt_  um verbo innocente que se conjuga alli entre os dois sexos, e
no significa _namorar_--palavra grossa e absurda que eu detesto--no
significa 'fazer a crte';  mais do que estar amavel,  menos do que
galantear, no obriga a nada, no tem consequencias, comea-se,
acaba-se, interrompe-se, addia-se, contina-se ou descontina-se 
vontade e sem compromettimento.

Eu _flartava_, ns _flartavamos_ ellas _flartavam_...

E no ha mais doce nem mais suave intertenimento d'espirito do que o
_flartar_ com uma elegante e graciosa menina ingleza; com duas  prazer
angelico, e com tres  divino.

Para quem nasceu n'aquillo, no  perigoso; para mim degenerou, breve,
aquella placida sensao em mais profundo sentimento.

Veio a admirao primeiro.

E como as eu admirava todas tres as minhas gentis fascinadoras!

E ellas conheciam-n'o, riam, folgavam e estavam incantadas de me
incantar.

Fizeram nascer os desejos!

Julguei-me perdido, e quiz fugir.

No me deixaram e zombaram de mim, da ardencia do meu sangue hespanhol,
da vehemencia das minhas sensaes...

Em breve eu amava perdidamente uma d'ellas--queria muito s outras duas;
mas amar, amar devras, d'alma cuidava eu, de corao ia jur-lo, era a
segunda--Laura, a mais gentil, mais nobre, mais elegante e radiosa
figura de mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora de verdadeiro
amor de artista que se dignou tomar por esse pouco de greda que tinha
nas mos ao form-la.




CAPITULO XLV.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Laura no era alta nem baixa, era forte sem ser gorda, e delicada sem
magreza. Os olhos de um cr-de-avelan diaphano, puro, avelludado,
grandes, vivos, cheios de tal majestade quando se iravam, de tal doura
quando se abrandavam, que  difficil dizer quando eram mais bellos. O
cabello quasi da mesma cr tinha, demais, um reflexo dourado,
vacillante, que ao sol resplandecia, ou antes, relampejava,--mas a
espaos, no era sempre, nem em todas as posies da cabea:--cabea
pequena, modelada no mais classico da statuaria antiga, poisada sbre um
collo de immensa nobreza, que harmonizava com a perfeio das linhas dos
hombros.

A cintura breve e estreita, mas sem exaggerao, via-se que o era assim
por natureza e sem a menor contrafeio d'arte. O p no tinha as
exiguidades fabulosas da nossa peninsula, era proporcionado como o da
Venus de Medicis.

Tenho visto muita mulher mais bella, algumas mais adoraveis, nenhuma tam
fascinante.

Fascinante  a palavra para ella.

O rosto oval e perfeitamente symetrico, pallido; so os beios eram
vermelhos como a rosa de cr mais viva.

A expresso de toda sta figura  que se no descreve. A bcca breve e
fina surria pouco; mas quando surria, oh!..

Ve-la n'um baile, vestida e calada de branco, cingida com um cinto de
vidrilhos pretos--toilete inalteravel para ella desde certa epocha--sem
mais ornato, sem mais flores, apenas um farto fio de perolas
derramando-se-lhe pelo collo--era ver alguma coisa de superior, de mais
sublime que uma simples mulher.

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto podia e saba amar. Era pouco,
sei-o agora; entao parecia-me infinito.

Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que passeavamos ss, e depois de
andarmos horas e horas esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensavamos, eu
n'ella, ella no sei em qu.

Sera em mim?

Sera mas no m'o confessou.

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para mim uma so vez, sem fugir
com a mo que lhe eu appertava, que lhe beijava, e que sentia fria e
humida nas minhas que escaldavam.

Era tarde, dirigimo'-nos para casa.  porta disse-me: 'No entre'; e
vi-a banhada em lagrymas. Quiz segui-la, fez-me um gesto imperioso que
me confundiu. Pela primeira vez, depois de tanto tempo, fui so, triste e
melancholico para a minha pobre habitao, onde passei a noite.

Quando era madrugada quiz-me deitar. No dormi.

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: assim se chamava a mais
velha, a mais sensivel e a mais carinhosa das tres irmans.

O bilhete parecia indifferente; no continha seno palavras usuaes,
pedia-me que fosse almoar com ella... no fallava nas irmans.

Senti que era chegada a minha hora, pareceu-me que ia ser expulso
d'aquelle Eden de innocencia em que tinha vivido. A lettra de Julia, uma
lettra linda, perfeita, natural, figurava-se-me um aggregado de signaes
caballisticos terriveis que incerravam o mysterio da minha condemnao.

Vesti-me, fui, achei-me so com Julia no _parlour_ elegante de seu
exclusivo uso.

Era um pequeno gabinete de estudo, ornado somente de umas _etagres_ com
livros e musicas, uma harpa e um cavallete.

Sbre o cavallete estava o meu retratto esboado, na estante da harpa
uma romana franceza a que eu tinha feito lettras portuguezas...

A urna asoviava sbre a mesa, Julia fazia o cha e no parecia attender a
mais nada.

 preciso que eu te descreva a piquena Julia--Julietta como ns lhe
chamavamos--ns, as duas irmans e eu que rivalizavamos a qual lhe havia
de querer mais...

Oh! que saudade e que remorso para toda a minha vida n'estas recordaes
de fraternal intimidade!

Julia era piquena, delicadissima, propriamente infantina no rosto, na
figura, na expresso e no hbito de toda a sua incantadora e diminutiva
pessoa.

Nenhuma ingleza, desde o tempo da rainha Bess, teve p e _ancle_ mais
delicado. Nenhuma, desde o rei Alfredo, se occupou tam elegantemente dos
elegantes cuidados de um interior britannico--gentil quadro 'de genero'
como no ha outro.

Lady Julia R. era a mais piquena e a mais bonita subdita britannica que
eu creio que tenha existido.

Vista  lua, no meio do seu parque, volteiando por entre os raros
exoticos que no curto vero inglez se expoem ao ar livre, facilmente se
tomava pela bella soberana das fadas realizando aquella preciosa viso
de Shakspeare, o 'Midsumer night's dream.'

Seus olhos de azul celeste, sempre humidos e sempre doces, os cabellos
de um claro e assedado castanho todos soltos em anneis  roda da cabea
e cahindo pelos hombros, espalhando-se pelo rosto, que era uma lida
contnua para os tirar dos olhos, um corpo airoso, uma bcca de beijar,
os dentes miudos, alvissimos e apertados, a mo piquena estreita, e de
cera--tudo isto fazia de Julia um typo ideal de bondade, de candura, de
innocencia angelica.

E era um anjo... oh se era!

Contemplei-a muito tempo em silencio: ella surria-me tristemente de vez
em quando, mas no fallava. Emfim almomos, levaram o trem.

Ella disse  sua aia:

--'Phebe, eu estou so com Carlos; e quero estar so. Em casa para
ninguem.'

--'Sim, minha senhora.' Resposta obrigada do criado inglez a tudo.

E ficmos sos completamente.




CAPITULO XLVI.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Julia levantou finalmente para mim os seus olhos humidos, assombrados
das mais longas e assedadas pestanas que ainda vi em olhos de mulher, e
disse-me:

--'Carlos, eu estou triste. Devia consolar-me; diga-me alguma coisa que
me console. Falle-me.'

--'Que heide eu dizer?..'

--' um cavalheiro, Carlos: diga-me que o , e desassombre-me d'este
terror em que estou.'

--'Pois duvda, Julia?..'

--'No duvido. Queremos-lhe todos muito aqui... muito demais... receio:
como havemos de duvidar?'

--'Oh Julia, perdoe-me!' exclamei eu lanando-me a seus ps, tomando-lhe
as mos ambas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um paroxysmo de
verdadeira contrico. 'Perdoe-me, Julia: bem sei que fiz mal, e
prometto...'

--'No prometta nada, seno que hade ser cavalheiro. Isso sei eu e sinto
que o pde cumprir.'

--'Juro por... por ella.'

--'Ella!.. Ella ama-o, Carlos.  melhor dizer a verdade de uma vez, e
incarar todas as consequencias de uma posio difficil, do que
illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, mas no deve nem pde
am-lo. Se fosse livre, no sei o que diria--no sei o que faria eu...
Mas no se tratta de mim'--proseguiu com volubilidade febril--'no se
tratta de mim, Carlos, tratta-se d'ella. Laura no o pde amar, est
compromettida. Hade partir em tres mezes para a India.'

--'Para a India!'

--'Sim:  verdade: velo-ha. O seu noivo  capito ao servio da
companhia, e parte em casando.'

Eu sentia-me morrer o corao dentro do peito: foi a primeira dor
verdadeira d'alma que soffri... Aquelle era o primeiro amor sincero da
minha vida, e aquella foi tambem a primeira excruciante pena d'amor por
que passei.

Eu que de taes penas zombra sempre, que as desterrava da realidade para
os romances, eu!.. Ai! que poeta ou que novellista soube nunca pintar um
padecer como eu experimentei n'aquella hora?

No sei o que fiz nem o que disse; no me recordo seno que senti as
lagrymas de Julia cahirem-me sbre a face e misturarem-se com as minhas
que corriam em abundancia. Levantei os olhos para ella, e a expresso
que vi nos seus... oh! como a heide esquecer nunca?

Quanto ha de piedade e compaixo no thesouro infinito de um corao
feminino se derramava d'aquelles olhos celestes para me consolar. L no
ficava seno uma tristeza profunda, desanimada e mortal...

No sei que vago pensamento, que idea louca... ou antes, que
presentimento indeterminado e confuso me atravessou pelo espirito--ou
sera pelo corao?--n'aquelle momento...

Se Julia?..

Mas no pde ser.

--'Julia, Julia' bradei eu 'quero v-la: heide v-la uma vez ao menos.
No me negue este ltimo favor. Sei que devo, que preciso, que  foroso
fugir d'ella. Mas antes heide dizer-lhe...'

--'O qu?..'

--'Que a amo como nunca amei, como nunca mais heide amar...'

--'Ai Carlos!'

--'Que para sempre, sempre...'

Julia levantou-se sem dizer palavra, e lanando sbre mim um olhar de
ineffavel compaixo, sahiu rapidamente do quarto.

Achei-me so, no sei o que pensei nem se pensei. Sentia-me aturdido da
cabea, exhausto do corao--n'uma depresso d'espirito que tocava na
estupidez. Se me apontassem uma pistola aos peitos, no levantava o
brao para a arredar... Ja no sentia pena nem desejo. Parecia-me que
comeava a morrer; e no achava que morrer custasse muito.

N'este estado fiquei no sei que tempo; muito no foi. Percebi que se
abria a porta, no tive fra para levantar os olhos. At que senti uma
doce e querida mo na minha... era Julia... e era Laura tambem... sancto
Deus! que estavam aop de mim ambas.

Julia tinha a minha mo na sua; e Laura incostada ao hombro da irman,
deixava cahir sbre mim aquelles olhos em que a severidade habitual se
tinha relaxado n'uma indulgencia tam doce, n'uma compaixo tam celeste
que, juro por Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que tinha deante
de mim dous anjos seus, baixados nas azas da piedade divina para me
trazer todo o perdo, toda a misericordia do ceo  minha alma.

Como te direi eu, Joanna, querida Joanninha, como te direi a ti que me
amas, a ti que eu amo--porque te amo, e Deus me castigue que deve!
porque te amo, cegamente te amo com este infame e abominavel corao que
Elle me deu--como te heide eu dizer a ti, e para qu, as palavras que
alli dissemos, os protestos que alli fiz, os juramentos que alli se
deram, as promessas que alli foram trocadas?

Julia foi para a janella--indulgente chapero que nos no via e fingia
no nos ouvir. O dia passou-se assim, um longo dia de junho que tam
curto e rapido nos pareceu. Era noite quando fomos jantar.

 mesa Laura appareceu em trajos de viagem; partia n'aquella noite para
o paiz de Galles onde tinha uma amiga, com quem ia estar at o dia
terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe de mim, no seio da
amizade.

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingiamos. Ao sahir da mesa achmos
 porta da casa a caleche posta, o cocheiro na almofada, e o criado 
portinhola. Montmos, as tres irmans e eu.

Eram duas milhas d'alli  estalagem onde tocava a malla-posta e onde
Laura devia incontr-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum dos
quatro.

A lua ia grande e bella com sua luz triste e fria por um ceo sem nuvens.
Era uma d'aquellas noites raras, mas admiraveis do breve estio
britannico.

A areia que rangia com o attrito das rodas da carruagem nas lisas ruas
do parque, os ramos descahidos das rvores por que roavamos levemente
ao passar, os veados mansos que se levantavam para nos ver--os phaeses
que erguiam seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir o estalido do
chicote, com que o cocheiro mais moderava do que excitava os seus
cavallos, tudo para mim eram impresses de nunca sentida e inexplicavel
tristeza. Ficava-me a alma apoz tudo aquillo, sentia fugir-me a
felicidade para sempre, e que era eu que a affugentava, e que me ia
incontrar so, desamparado e proscripto no deserto da vida.

No me sentia fra para blasphemar, para maldizer de Deus, seno
tinha-o feito.

Tinha: e outras ancias mais angustiadas e mortaes me teem afflicto na
vida; em nenhuma me senti tam capaz de renegar de Deus e descrer d'elle
como n'esta.

Sera effeito de sua inexhaurivel piedade que talvez quiz acudir  minha
alma antes que se perdesse, sera por certo--pois n'esse mesmo instante
distinctamente me appareceu deante dos olhos d'alma a unica imagem que
podia cham-lo do abysmo: era a tua, Joanna! Era a minha Joanninha
piquena, innocente, aquelle anginho de criana, tam viva, tam alegre,
tam graciosa que eu tinha deixado a brincar no nosso valle: o nosso
valle rustico, tam grosseiro e tam inculto! oh como as saudades d'elle
me foram alcanar no meio d'aquellas allinhadas e perfeitas bellezas da
cultura britannica! Os raios verdes de teus olhos, faiscantes como
esmeraldas, atravessaram o espao, e foram luzir no meio d'aquell'outros
lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo aspero da nossa charneca
mandavam-me ao longe as exhalaes de seu perfume agreste, e matavam o
suave cheiro do feno macio d'essas relvas sempre verdes que me rodeavam.
As folhas crespas, sccas, alvacentas das nossas oliveiras como que me
luziam por entre a espessura cerrada da luxuriante vegetao do norte,
promettendo-me paz ao corao, annunciando-me o fim de uma peleja em que
m'o dilaceravam as paixes.

E tu, Joanna, tu, pobre innocente, e desvallida criancinha, tu
apparecias-me no meio de tudo isso, extendendo para mim os teus
bracinhos amantes como no dia que me despedira de ti n'esse fatal,
n'esse querido, n'esse doce e amargo valle das minhas lagrymas e dos
meus risos, onde so me tinham de correr os poucos minutos de felicidade
verdadeira da minha vida, onde as verdadeiras dores da minha alma tinham
de m'a cortar e destruir para sempre...

Oh! de qu e como  feito o homem, para qu e porque vive elle? Que vim
eu, que vimos ns todos fazer a este mundo?

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella splendida e macia
carruagem, rodeado de tres mulheres divinas que me queriam todas, que eu
confundia n'uma adorao mysteriosa e mystica--cego, louco d'amores por
uma d'ellas, no momento de lhe dizer adeus para sempre... eu tinha o
pensamento fixo n'uma criana que ainda andava ao collo!--Revendo-me nos
olhos pardos de Laura que eu adorava, eram os teus olhos verdes que eu
tinha n'alma! Os sentidos todos embriagados d'aquelle perfume de luxo e
civilizao que me cercava,--era o nosso valle rustico e selvagem o que
eu tinha no corao...

Oh! eu sou um monstro, um aleijo moral devras, ou no sei o que sou.

Se todos os homens sero assim?

Talvez, e que o no digam.

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha querida, anjo adorado da minha
alma, tem compaixo de mim, no me maldigas. No quero que me perdoes,
nem tu nem ninguem, que o no mereo: mas que tenhas d e lstima de
mim.

Ai! que isso mereo eu, oh sim.

Deixa-me parar aqui. Falta-me o nimo para me estar vendo a este
terrivel espelho moral em que jurei mirar-me para meu castigo, d'onde
estou copiando o horroroso retratto de minha alma que te desenho n'este
papel.

Saba que era monstro, no tinha examinado por partes toda a hediondez
das feies que me reconheo agora.

Tenho espanto e horror de mim mesmo.




CAPITULO XLVII.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


Chegmos ao Inn (estalagem), triste casa solitaria no meio dos campos 
borda da estrada. A malla chegava ao mesmo tempo quasi.

Eu dei a mo a Laura para sahir da caleche e entrar no coche; e apenas
tivemos tempo para um convulsivo shake-hands e para nos dizer adeus!
adeus! com a affectada seccura que exige a lei das conveniencias
britannicas.

A malla partiu ao grande trote... E dir-te-hei a verdade ou queres que
minta? No, heide dizer-te a verdade. Pois senti como um alvio
desesperado, uma consolao cruel em a ver partir. Senti o que imagino
que deve sentir um infrmo depois da operao dolorosa em que lhe
amputaram parte do corpo com que j no podia viver, e que era foroso
perder ou perder a vida.

Tambem deve de ser assim a morte: um descano apathico e nullo depois de
inexplicavel padecer.

Era como morto que eu estava; no soffria pois.

E ja no pensava em ti, ja te no via na minha alma: eu no existia,
estava alli.

Voltmos ao parque; apeei silenciosamente as minhas duas gentis
companheiras, e eu fui so, ap, com passo firme e resoluto para a minha
habitao. Nenhuma d'ellas me procurou retter, nem me disse nada, nem
tentou consolar-me. Paraqu?

L. William R. chegava, na manhan seguinte, de uma de suas habituaes
excurses a Londres. Veio ver-me assim que chegou, e trazer-me cartas de
Portugal que eu esperava ha muito.--Disse-me que partia no outro dia
para Swansea, a terra de Galles para onde Laura fra; e que me
incarregava de fazer companhia s duas filhas que ficavam sos.

A mim!..

Estive tres dias sem as ver: em todos tres no fiz mais do que escrever
a Laura.

No quarto dia fui ao parque. Julia deu um grito de alegria quando me
viu: raro exemplo de excepo s formuladas regras que tyrannizam a vida
ingleza, que prescrevem at a cara com que se hade morrer, e teem
graduado o tom em que se deve exhalar o ltimo suspiro.

Mas a natureza chega a triumphar s vezes at da propria etiqueta
britannica.

Julia cuidava que eu no queria voltar quella casa, tinha-se resignado
a no tornar a ver-me; no pde reprimir a alegria que lhe causou a
minha inexperada appario.

Passmos todo o dia junctos e sos: quasi todo se nos foi passeando no
parque, ou sentados  sombra de seus espessos arvoredos, ou mirando-nos
nas crystallinas aguas de uma vasta represa povoada de aves aquaticas e
rodeada d'aquelles immensos mantos de velludo verde de que perpetuamente
se infeita a terra ingleza e que so desapparecem quando vem o hynverno
extender-lhe porcima seus alvos lenoes de neve.

Quiz ver o que eu escrevia  irman; dei-lhe a carta, leu-a, meditou-a,
restituiu-m'a sem dizer palavra.

Que horas passmos n'este silencio, n'esta eloquente mudez que no vem
seno do muito de mais que a alma sente, do muito de mais que diria se
fallasse!

 despedida, essa noite, deu-me uma bolsa de rede que Laura tinha estado
fazendo para mim e que lhe deixra para me intregar. Senti que tinha
dentro o que quer que fosse a bolsa, no quiz examinar. Achei, quando
voltei a casa, que era o _fadado cinto_ de vidrilhos pretos que eu tanto
tinha admirado em certo baile onde foramos junctos, e que Laura no
deixra de pr nunca mais em se vestindo de branco e que fizesse alguma
toilette.

Ainda o conservo aquelle cinto precioso, Joanna; ainda a tenho, no meu
thesoiro mais guardado, aquella joia, aquella reliquia. E amo-te, e
amo-te a ti so como realmente nunca amei nem poderei tornar a amar. Mas
aquelle cinto  uma sorte, um talisman, um amuleto em que est o meu
destino.

Amei... isto , amei... pois sim, amei, ja que no ha outra palavra
n'estas estupidas linguas que fallam os homens; pois amei outras
mulheres, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, no deixei nunca de
beijar devotamente aquelle cinto, de o appertar sbre o meu corao, de
me incommendar a elle--como o salteador napolitano se incommenda ao
escapulario da madona que traz ao peito, com as mos insanguentadas de
matar, ou carregado do roubo que acaba de fazer.

Ai, Joanna, no te digo eu que estou perdido, sem remedio, e que para
mim no ha, no pde haver salvao nunca?

Vivi assim dois mezes. Laura no me escrevia: recebia as minhas cartas e
respondia a Julia: por este modo nos correspondiamos. Julia era parte de
ns, era uma poro do nosso amor, viviamos n'ella a nossa vida. E ja as
confundia ambas por tal modo no meu corao que me surpreendia a no
saber a qual queria mais. Julia parecia feliz d'este estado; eu era-o.
Insensivelmente me habituei a elle, ja no tinha saudades do passado. E
quando se approximou o casamento de Laura, que ella tinha de voltar de
Galles, e que eu, fiel ao que promettra, devia pretextar negcio
urgentissimo em Londres que me obrigasse a ausentar-me at  sua partida
para a India, eu tive uma pena, uma difficuldade em cumprir o que
promettra que me invergonhava.

Parti porm; e alli me demorei um mez. Julia escrevia-me todos os dias e
eu a ella. Na vspera do dia fatal em que Laura ia ser de outro homem,
Julia escreveu-me stas palavras sos:--'O nosso romance acabou; comea
uma historia sria. Laura manda-lhe o seu ltimo adeus.'

E nunca mais se escreveu nem se pronunciou o nome de Laura entre ns
dous.

O galeo que me levava para o Oriente as ruinas de toda a minha
esperana ha muito que navegava; entrava outubro e o hynverno inglez com
suas mais asperas, e n'este anno tam precoces, severidades. Eu sentia-me
morrer de tristeza e de isolamento no meio da populosa e turbulenta
Londres, Julia percebeu-o, e mandou-me voltar a ----shire. Voltei.




CAPITULO XLVIII.


     Carta de Carlos a Joanninha: contina.


O que eu senti quando, apezar de tam desfigurados pelos tres-altos de
neve que os cubriam, comecei a reconhecer aquelles sitios da vizinhana
do parque, e a confrontar as rvores, os pastios, os casaes d'aquelles
arredores!

Era outra a expresso de physionomia da paizagem, mas as queridas
feies eram as mesmas, e uma a uma lh'as ia estremando.

Emfim o meu _stage_ parou  entrada do parque, e eu tomei ap pela longa
avenida. Eram nove horas da manhan, e a manhan brumosa, fria, mas o
tempo macio, no estava _cru_, segundo a expressiva phrase do paiz.

Por entre a nevoa que me incubria a antiga manso e involvia as rvores
circumstantes n'um sudario cinzento e melancholico, fui caminhando,
quasi pelo tacto, at meia alameda talvez.

Parei a reflectir na minha posio e no que eu ia ser n'aquella casa que
de novo me abria suas portas hospitaleiras, quando, atravez da neblina
brancacenta e onde ella era mais rara, descubri um vulto que vinha a mim
de entre as rvores do parque.

O vulto era de mulher e parecia uma sombra, uma appario phantastica em
meio d'aquella scena mysteriosa, so, triste.

Na distancia figurava-se-me alto em demazia: Julia no era nem podia
ser; Julia a mais diminutiva e delicada de quantas fadas bonitas e
graciosas teem trazido varinha de condo. Laura... ai! Laura tam longe
estava d'alli... Quem sera pois? So se fosse!.. Quem?

Aquella elegancia, aquelle cabello slto e annellado, aquelle ar gentil
no podia ser seno d'ella...

D'ella, quem?

Ainda te no fallei, quasi, da ltima das tres bellas irmans que me
incantavam, no t'a descrevi, no t'a nomeei pelo seu nome. Repugnava-me
faz-lo. Mas  preciso: custa-me, no ha remedio.

Era Georgina...

Georgina que tu conheces, Georgina que... era Georgina a que vinha a mim
n'aquella--fatal ou feliz?--manhan; Georgina que de todas tres era a que
menos me fallava, que eu verdadeiramente menos conhecia.

Este meu corao,  fra de ferido e de mal curado que tem sido,
pressente e adivinha as mudanas de tempo com uma dor chronica que me
d. Pressenti no sei qu ao ver approximar-se Georgina...

--'Como foi bom em vir! Estou realmente feliz de o ver. E Julia, a pobre
Julia, que alegria que vai ter, hade cur-la de todo.'

--'Pois qu! Julia est doente?'

--'No o saba!... Ai! no, bem sei que no: ella no lh'o quiz dizer.
Julia est doente; mas no  de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo antes
que a visse, por isso calculei as horas do coche e vim para aqui
esper-lo.'

stas palavras eram simples, no tinham nada que me devesse impressionar
extraordinariamente, e todavia eu sentia-me agitado como nunca me
sentira. Olhava para Georgina como se a visse a primeira vez, e pasmava
de a ver tam bella, tam interessante.

 uma situao d'alma sta que no sei que a descrevessem ainda poetas
nem romancistas: desprezam-n'a talvez, ou no a conhecem. Est recebido
que as subitas impresses causadas por um primeiro incntro sejam as
mais interessantes, as mais poeticas.

Eu no nego o effeito theatral d'essas primeiras e repentinas sensaes;
mas sustento que interessa mais ess'outra inesperada e extranha
impresso que nos faz um objecto ja conhecido, que vramos com
indifferena atalli, e que derrepente se nos mostra tam outro do que
sempre o tinhamos considerado...

Mas sta mulher  bella realmente! E eu que nunca o vi! Mas aquelles
olhos so divinos! Onde tinha eu os meus atgora? Mas este ar, mas sta
graa onde os tinha ella escondidos? etc. etc.

Vo-se gradualmente, vo-se pouco a pouco descobrindo perfeies,
incantos; e o sentimento que resulta  mil vezes mais profundo, mais
fundado, sbretudo, que o das taes primeiras impresses tam cantadas e
decantadas.

Que mais te direi depois d'isto? Entrmos em casa, vi Julia, fallmos de
Laura muito e muito. Mas eu ja o no fiz com o enthusiasmo, com a
admirao exclusiva com que d'antes o fazia...

Julia recobrou, breve, a saude, e com ella o equilibrio do espirito.
Renovou-se toda a alegria, todo o incanto das nossas conversaes
ntimas, dos nossos longos passeios. Laura lembrava com saudade; mas
suavizava-se, imbrandecia gradualmente aquella saudade.

Georgina, que atalli parecia impenhar-se em se deixar eclipsar pela
irman, agora, ausente ella, brilhava de toda a sua luz, em graa, em
espirito, por um natural singelo e franco, por uma exquisita doura de
maneiras, de voz, de expresso, de tudo.

Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. Vergonha eterna sbre
mim! mas  a verdade: quiz-lhe mais do que a Laura, ou pareceu-me
querer-lhe mais... que tanto vale.

Eu sei?.. No, no lhe queria tanto. Mas amei-a.

Amei, sim, e fui amado!

Tres mezes durou a minha felicidade.  o mais longo periodo de ventura
que posso contar na vida. Falsa ventura, mas era.

A imperiosa lei da honra exigiu que nos separassemos, que partisse para
os Aores. Fui. Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto como eu para
aquella expedio. A historia fallar de muitos servios, de muitas
dedicaes. Quem saber nunca d'esta?

A historia  uma tola.

Eu no posso abrir um livro de historia que me no ria. Sbretudo as
ponderaes e adivinhaes dos historiadores acho-as de um comico
irresistivel. O que sabem elles das causas, dos motivos, do valor e
importancia de quasi todos os factos que recontam?

Ainda no sei como parti, como cheguei, como vivi os primeiros tempos da
minha estada n'aquelle esclho no meio do mar, chamado a ilha Terceira,
onde se tinham refugiado as pobres reliquias do partido constitucional.

Habituei-me porfim. A que se no affaz o homem?

Levaram-me uma tarde  grade de um convento de freiras que ahi havia. O
meu ar triste, distrahido, indifferente excitou a piedade das boas
monjas. Uma d'ellas, joven, ardente, apaixonada, quiz tomar a empresa de
me consolar. No o conseguiu, coitada! O meu corao estava em ----shire
em Inglaterra, estava na India, estava no valle de Santarem,

    Pelo mundo em pedaos repartido;

estava em toda a parte, menos alli, que nada d'elle estava nem podia
estar.

Era Soledade que se chamava a freirinha, e com o seu nome ficou.
Disseram o que quizeram os falladores que nunca faltam, mas mentiram
como mentem quasi sempre, inganaram-se como se inganam sempre.

Eu no amei a Soledade.

E comtudo lembro-me d'ella com pena, com sympathia... Se eu sou feito
assim, meu Deus, e assim heide morrer!

Viemos para Portugal; e o resto agora da minha historia sabes tu.

Cheguei porfim ao nosso valle, todo o passado me esqueceu assim que te
vi. Amei-te... no, no  verdade assim. Conheci, mal que te vi entre
aquellas rvores,  luz das estrellas, conheci que era a ti so que eu
tinha amado sempre, que para ti nascra, que teu so devia ser, se eu
ainda tivera corao que te dar, se a minha alma fosse capaz, fosse
digna de junctar-se com essa alma d'anjo que em ti habita.

No , Joanna; bem o ves, bem o sentes, como eu o sinto e o vejo.

Eu sim tinha nascido para gosar as douras da paz e da felicidade
domstica; fui creado, estou certo, para a glria tranquilla, para as
delicias modestas de um bom pae de familias.

Mas no o quiz a minha estrella. Embriagou-se de poesia a minha
imaginao e perdeu-se: no me recobro mais. A mulher que me amar hade
ser infeliz por fra, a que me intregar o seu destino, hade v-lo
perdido.

No quero, no posso, no devo amar a ninguem mais.

A desolao e o opprbrio entraram no seio da nossa familia. Eu renuncio
para sempre ao lar domstico, a tudo quanto quiz, a tudo quanto posso
querer. Deus que me castigue, se ousa fazer uma injustia, porque eu no
me fiz o que sou, no me talhei a minha sorte, e a fatalidade que me
persegue no  obra minha.

Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus irman da minha alma! Tu
accompanha nossa av, tu consola esse infeliz que  o auctor da sua e
das nossas desgraas. Tu, sim, que podes; e esquece-me.

Eu, que nem morrer ja posso, que vejo terminar desgraadamente sta
guerra no unico momento em que a podia abenoar, em que ella podia
felicitar-me com uma balla que me mandasse aqui bem direita ao corao,
eu que farei?

Creio que me vou fazer homem politico, fallar muito na patria com que me
no importa, ralhar dos ministros que no sei quem so, palrar dos meus
servios que nunca fiz por vontade; e quem sabe?.. talvez darei porfim
em agiota, que  a unica vida de emoes para quem ja no pde ter
outras.

Adeus minha Joanna, minha adorada Joanna, pela ltima vez, adeus!




CAPITULO XLIX.


     De como Carlos se fez baro.--Fim da historia de
     Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juizo de Fr. Diniz sbre a questo
     dos frades e dos bares.--Que no pde tornar a ser o que foi, mas
     muito menos pde ser o que . O que hade ser, Deus o sabe e
     prover.--Vai o A. dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a
     Lisboa.--Caminhos de ferro e de papel.--Concluso da viagem e
     d'este livro.


Acabei de ler a carta de Carlos, intreguei-a a Fr. Diniz em silencio.
Elle tornou-me:

--'Leu?'

--'Li.'

--'Que mais quer saber? Sinto que lhe posso dizer tudo: no o conheo,
mas...'

--'Mas deve conhecer-me por um homem que se interessa vivamente...'

--'Em qu? nas eleies, na agiotagem, nos bens nacionaes?'

--'No senhor. Fui camarada de Carlos, no o vejo ha muitos annos e...'

--'Nem o conhecia se o visse agora: ingordou, inriqueceu, e  baro...'

--'Baro!'

--' baro, e vai ser deputado qualquer dia.'

--'Que transformao! Como se fez isso, sancto Deus! E Joanninha e
Georgina?'

--'Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina  abbadessa de um convento
em Inglaterra.'

--'Abbadessa?'

--'Sim. Converteu-se  communho catholica; era ricca, fundou um
convento em ----shire e l est servindo a Deus.'

--'E sta pobre senhora, a av de Joanninha?'

--'Ahi est como a ve, morta de alma para tudo. No ve, no ouve, no
falla, e no conhece ninguem. Joanninha veio morrer aqui n'esta fatal
casa do valle, eu estava ausente, expirou nos braos d'ella e de
Georgina. Desde esse instante a av cahiu n'aquelle estado. Est morta,
e no espero aqui seno a dissoluo do corpo para o interrar, se eu no
for primeiro, e Deus queira que no! quem hade tomar conta d'ella, ter
charidade com a pobre da demente? Mas depois... oh! depois... espero no
Senhor que se compadea emfim de tanto soffrer e me leve para si.'

--'Mas Carlos?'

--'Carlos  baro: no lh'o disse ja?'

--'Mas por ser baro?..'

--'No sabe o que  ser baro?'

--'Oh se sei! Tam poucos temos ns?'

--'Pois baro  o succedaneo dos...'

--'Dos frades... Ruim substituio!'

--'Vi um dos taes papeis liberaes em que isso vinha: e  a unica coisa
que leio d'essas ha muitos annos. Mas fizeram-m'o ler.'

--'E que lhe pareceu?'

--'Bem escripto e com verdade. Tivemos culpa ns,  certo; mas os
liberaes no tiveram menos.'

--'Errmos ambos.'

--'Errmos e sem remedio. A sociedade ja no  o que foi, no pde
tornar a ser o que era;--mas muito menos ainda pde ser o que . O que
hade ser, no sei. Deus prover.'

Ditto isto, o frade benzeu-se, pegou no seu breviario e poz-se a rezar.
A velha dobava sempre, sempre. Eu levantei-me, contemplei-os ambos
alguns segundos. Nenhum me deu mais atteno nem pareceu conscio da
minha estada alli.

Sentia-me como na presena da morte e atterrei-me.

Fiz um esfro sbre mim, fui deliberadamente ao meu cavallo, montei,
piquei desesperado d'esporas, e no parei seno no Cartaxo.

Incontrei alli os meus companheiros; era tarde, fomos ficar fra da
villa  hospedeira casa do Sr. L. S.

Rimos e folgmos at alta noite: o resto dormimos a somno slto.

Mas eu sonhei com o frade, com a velha--e com uma enorme constellao de
bares que luzia n'um ceu de papel, d'onde choviam, como farrapos de
neve, n'uma noite pollar, notas azues, verdes, brancas, amarellas, de
todas as cres e matizes possiveis. Eram milhes e milhes e milhes...

Nunca vi tanto milho, nem ouvi fallar de tanta riqueza seno nas mil e
uma noites.

Acordei no outro dia e no vi nada... so uns pobres que pediam esmola 
porta.

Metti a mo na algibeira, e no achei seno notas... papeis!

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de inguios e de tristes
presentimentos.

O vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso andou mais depressa.

Eram boas cinco horas da tarde quando desimbarcmos no Terreiro-do-Pao.

Assim terminou a nossa viagem a Santarem: e assim termina este livro.

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De
todas quantas viagens porm fiz, as que mais me interessaram sempre
foram as viagens na minha terra.

Se assim o pensares, leitor benevolo, quem sabe? pde ser que eu tome
outra vez o bordo de romeiro, e va perigrinando por esse Portugal fra,
em busca de historias para te contar.

Nos caminhos de ferro dos bares  que eu juro no andar.

Escusada  a jura porm.

Se as estradas fossem de papel, fa-las-iam, no digo que no.

Mas de metal!

Que tenha o govrno juizo, que as faa de pedra, que pde, e viajaremos
com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra.




NOTAS




NOTAS

AO LIVRO SEGUNDO.



*Nota A.*


     Ficmos sem Nibelungen

                                                                pag. 3.



Colleco de antigas rhapsodias germanicas contendo o maravilhoso e
poetico de suas origens historicas e que  para os povos theutonicos o
que era a Ilada para os hellenos. So se no sabe o nome do Homero
allemo que as redigiu e uniformizou como hoje se acham.


*Nota B.*


     Caranguejar para as Lamas

                                                               pag. 3.



Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de Sanctos, que tem este nome e 
onde vo apodrecer as carcassas dos navios velhos e ja inuteis.


*Nota C.*


     Os ps no _fender_

                                                               pag. 4.



Fender se chama em inglez a pequena e baixa tea de metal que defende o
fogo nas salas, paraque no caiam brazas nos sobrados. Descanam n'elle
os ps naturalmente quando a gente se est confortavelmente aquecendo em
liberdade.


*Nota D.*


     Perfumados resplendores do _Old sack_

                                                               pag. 5.



Tem-se disputado muito sbre qual seja a bebida espirituosa celebrada
por Shakspeare tantas vezes com este nome. A opinio mais acceita  que
fosse boa e velha aguardente de Frana.


*Nota E.*


     Renegaram de San'Tiago por castelhano

                                                               pag. 5.



O grito de guerra commum a todas as naes christans hespanholas era:
San'Tiago! Quando na accesso da casa de Avis nos allimos intimamente
com a Inglaterra contra Castella, comemos a invocar San'Jorge.


*Nota F.*


     Vacca e riso de Fr. Bartholomeu dos Martyres

                                                               pag. 9.



Singela e original expresso do sancto arcebispo n'uma carta de convite
a um seu amigo. Fez-se, como devia ser, proverbial sta phrase.


*Nota G.*


     Feliz expresso do Sr. Conde de Raczinski

                                                             pag. 124.



Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', Paris 1845.


*Nota H.*


     O centro perde o centro de gravidade, o barbas arrepella as barbas

                                                             pag. 127.



Centro e barbas so qualificaes e nomes de impregos theatraes.




INDICE.


Capitulo XXVI--Modo de ler os auctores antigos, e os modernos
tambem.--Horacio na sacra-via.--Duarte Nunes iconoclasta da nossa
historia.--A policia e os barcos de vapor.--Os vandalos do feliz systema
que nos rege.--Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo
de _old-sack_ sbre a banca.--Sir John Falstaff se foi maior homem que
Sancho-Pansa?--Grande e importante descuberta archeologica sbre
San'Tiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.--Prva-se a vinda d'este
ltimo a Portugal.--O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e
Abeillard no Pre-la-Chaise.--Bentham e Cames.--Chega o auctor  sua
janella, e pasmosa _miragem_ poetica produzida por umas oitavas dos
Lusiadas.--De como em fim proseguem stas viagens para Santarem, e que
feito ser de Joanninha.      1

Capitulo XXVII--Chegada a Santarem.--Olivaes de
Santarem.--Fra-de-Villa.--Symetria que no  para os olhos.--Modo de
medir os versos da biblia.--Architectura pedante do seculo
XVII.--Entrada na Alcova.      11

Capitulo XXVIII--Depois de muito procurar acha em fim o auctor a egreja
de Sancta-Maria d'Alcova.--Stylo da architectura nacional perdido.--O
terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-pblico
de Lisboa.--O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D.
Affonso Henriques.--Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada
de uma janella da Alcova, de manhan.-- tomado o auctor de ideas
vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.--Introduco do
Fausto.--Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos
dialectos romanos.      19

Capitulo XXIX--Douras da vida.--Imaginao e sentimento.--Poetas que
morreram moos e poetas que morreram velhos.--Como so escriptas stas
viagens.--Livro de pedra. Criana que brinca com elle.--Ruinas e
reparaes.--Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.--Sancta
Iria ou Irene, e Sanctarem.--Romance de Sancta Iria.--Quantas sanctas ha
em Portugal d'este nome?      29

Capitulo XXX--Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o
romance popular.      39

Capitulo XXXI--Quommodo sedet sola civitas.--Santarem.--Portugal em
verso e Portugal em prosa.--Exquisito lavor de umas portas e janellas de
architectura mosarabe.--Busto de D. Affonso Henriques.--As salgadeiras
de Affrica.--Porta do Sol.--Muralhas de Santarem.--Voltemos  historia
de Fr. Diniz e da menina dos olhos verdes.      49

Capitulo XXXII--Tornmos  historia do Joanninha.--Preparativos de
guerra.--A morte.--Carlos ferido e prisioneiro.--O hospital.--O
infermeiro.--Georgina.      55

Capitulo XXXIII--Carlos e Georgina. Explicao.--Ja te no amo! palavra
terrivel.--Que o amor verdadeiro no  cego.--Frade no caso outra vez.
_Ecce iterum Crispinus_; ca est o nosso Fr. Diniz comnosco.      69

Capitulo XXXIV--Carlos, Georgina e Fr. Diniz.--A peripecia do drama.      79

Capitulo XXXV--Reunio de toda a familia.--Explicao dos mysterios.--O
corao da mulher.--Parricidio.--Carlos beija emfim a mo a Fr. Diniz e
abraa a pobre da av.      87

Capitulo XXXVI--Que no se acabou a historia de Joanninha.--Processo ao
corao de Carlos.--Immoralidade.--Defeito de organizao no 
immoralidade.--Horror, horror, maldico!--Um baro que no pertence 
familia lineana dos bares propriamente dittos.--Porta de
Atamarma.--Senatus consulto santareno.--Nossa Senhora da Victoria
_afforada_.--Threnos sbre Santarem.      99

Capitulo XXXVII--A Graa e sua bella fachada gothica.--Sepultura de
Pedr'alvares Cabral.--Outro baro que no  dos assignalados.--Egreja do
Sancto-milagre.--Bellos medalhes mosarabes.--De como, chegando o prior
e o juiz, houve o A. vista do Sancto-milagre, e com que
solemnidades.--Monumento da muito alta e poderosa princeza a infanta D.
Maria da Assumpo.--Casa onde succedeu o milagre convertida em capella
de stylo philippino.--O homem das botas, e o que tem elle que haver com
o Sancto-milagre de Santarem.--Admiravel e graciosa esperteza da
regencia do Rocio.--Aaroun-el-Arraschid: e theoria dos governos
folgases, os melhores governos possiveis.--Volta o paladio scalabitano
de Lisboa para Santarem.      111

Capitulo XXXVIII--Jantar nos reaes paos de Affonso Henriques.--Sauts e
salmis.--Desce o A.  Ribeira de Santarem em busca da tenda do
Alfageme.--A espada do Condestavel.--Desappontamento.--O salo elegante.
Dissipam-se as ideas archeologicas. Os fosseis. Tudo melhor quando visto
de longe.--O baile pblico.--Soire de piano obrigado.--Theatro.
Desaffinaes da prima-dona.--Syphlis incuravel das traduces.
Destempro dos originaes.--A xcara de rigor, o subterraneo e o
cemiterio.--Sublime gallimathias do ridiculo.--A bella e necessaria
palavra 'gallimathias.'--Se as saudades matam.--Perigo de applicar o
scalpello ou a lente ao mais perfeito das coisas humanas.--De como a
logica  a mais perniciosa de todas as incoherencias.      121

Capitulo XXXIX--Processo de scepticismo em que est o
auctor.--Moralistas de _requiem_.--O maior sonho d'esta vida, a
logica.--Differena do poeta ao philosopho.--O corao de Horacio.--O
collegio de Santarem.--Jesuitas e templarios.--O alliado natural dos
reis:--'Ficar na gazeta' phrase muito mais exacta hoje do que 'Ficar no
tinteiro'.--San'Frei Gil e o Doutor Fausto.--De como o A. foi ao tumulo
do sancto bruxo e o achou vazio.--Quem o roubaria?      131

Capitulo XL--As Claras.--Aventura nocturna.--Se as freiras mettem medo
aos liberaes? O Psalmo.--Tres frades.--Prctica do franciscano.--O corpo
de San' Fr. Gil.--Que se hade fazer das freiras?--Mal do govrno que
deixar comer mais aos bares.      141

Capitulo XLI--O roubador do corpo do sancto descuberto pela arguta
prespicacia do leitor benevolo.--Grande lacuna na nossa
historia.--Porque se no preenche?--Pgina preta na historia de Tristam
Shandy.--Novellas e romances, livros insignificantes.--O adro de
San'Francisco e as suas acacias.--Que ser feito de Joanninha?--O peito
da mulher do norte.--Vamos embora: ja me infada Santarem e as suas
ruinas.--A corneta do soldado e a trombeta do juizo final.--Eheu,
Portugal, eheu!      151

Capitulo XLII--Protesto do auctor.--Desaffinao dos nervos.--O que 
preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes.--Que Deus est no
Colliseu assim como em San'Pedro.--Quer-se o auctor ir embora de
Santarem.--Como, sem ver o tumulo d'elrei D. Fernando?--Em que estado se
acha este.--Exemplar de stylo byzantino.--Coroa real sbre a caveira.--O
rei d'espadas e o symbolo do imperio.--Quem nunca viu o rei cuida que 
de oiro.--Brutalidades da soldadesca n'um tumulo real.--O que se acha
nas sepulturas dos reis.--A phrenologia.--Vindicta pblica, tardia mas
ultrajante.--Cames e Duarte Pacheco.--A sombra falsa da
religio.--Regimen dos bares e da materia.--A prosa e a poesia do
povo.--Synthese e anlyse.--O senso ntimo.--Se o auctor  demagogo ou
Jesuita?--Jesu Christo e os bares.      157

Capitulo XLIII--Partida de Santarem.--Pinacotheca.--Impaciencia e
saudades.--Sexta-feira.--Martyrio obscuro.--A figura do
peccado.--Estamos no valle outra vez.--Evocao de incanto.--A irman
Francisca e Fr. Diniz.--A teia de Penelope.--E Joanninha?--Joanninha
est no ceo.--A mulher morta a dobar esperando que a interrem.--A
esperana, virtude do christianismo.--Uma carta.      167

Capitulo XLIV--Carta de Carlos a Joanninha.      177

Capitulo XLV--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      187

Capitulo XLVI--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      195

Capitulo XLVII--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      207

Capitulo XLVIII--Carta de Carlos a Joanninha: contina.      215

Capitulo XLIX--De como Carlos se fez baro.--Fim da historia da
Joanninha.--Georgina abbadessa.--Juiso de Fr. Diniz sbre a questo dos
frades e dos bares.--Que no pde tornar a ser o que foi, mas muito
menos pde ser o que ? O que hade ser, Deus o sabe e prover.--Vai o A.
dormir ao Cartaxo.--Sonho que ahi tem.--Volta a Lisboa.--Caminhos de
ferro e de papel.--Concluso da viagem e d'este livro.      227

Notas      237




Notas:

[1] Transcrevemos aqui o original allemo, para se avaliar o que fica
ditto no texto.

    Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten,
    Die frh sich einst dem trben Blick gezeigt.
    Versuch ich wohl euch diesmal fest zu halten?
    Fhl' ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt?
    Ihr drngt euch zu! nun gut, so mgt ihr walten
    Wie ihr aus Dunst und Nebel um mich steigt;
    Mein Busen fhlt sich jugendlich erschttert
    Vom Zauberhauch, der euren Zug umwittert.
    Ihr bringt mit euch die Bilder froher Tage,
    Und manche liebe Schatten steigen auf;
    Gleich einer halbverklungen Sage
    Commt erste Lieb' und Freundschaft mit herauf;
    Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage
    Des lebens labyrintisch irren Lauf,
    Und nennt die Guten, die, um schne Stunden
    Vom Glck getuscht, vor mir hinweggeschwunden

[2] Nas notas a Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei
differentemente sta copla pela imperfeita lico de um Ms. do Minho,
unico que tinha  mo.

[3] Outra lico, e talvez melhor diz _a coitada_.

[4] Thomar.

[5] De frades e de freiras.

[6] Deus, venerunt gentes in hereditatem tuam. Ps. 78.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +----------+----------------------+----------------------+
  |          |      Original        |      Correco       |
  +----------+----------------------+----------------------+
  |#pg.    2| et mos               | est mos*             |
  |#pg.    5| Faltaffs             | Falstaffs            |
  |#pg.   17| San'Joo-de-Alpiara | San'Joo do Alporo* |
  |#pg.   17| egrea                | egreja*              |
  |#pg.   43| retiraam             | retiraram            |
  |#pg.   50| recordam             | memoram*             |
  |#pg.   62| stil                 | still*               |
  |#pg.   81| da intranhas         | das intranhas        |
  |#pg.   99| Horor                | Horror               |
  |#pg.  118| quelle               | aquelle              |
  |#pg.  118| digno do ornar       | digno de ornar       |
  |#pg.  119| LisboaTejo           | Lisboa Tejo          |
  |#pg.  123| confrontar- algum    | confrontar algum     |
  |#pg.  138| extistencia          | existencia           |
  |#pg.  213| com com              | com                  |
  |#pg.  217| desdescrevi          | descrevi             |
  |#pg.  218| ma curado            | mal curado           |
  |#pg.  241| modernas             | modernos             |
  |#pg.  241| Flastaff             | Falstaff             |
  +----------+----------------------+----------------------+


* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Shakespeare, San' Thiago e Joanninha surgem neste livro como Shakspeare,
San'Tiago e Joaninha respectivamente. Dada a repetitividade constante,
decidi manter de acordo com o original.





End of the Project Gutenberg EBook of Viagens na Minha Terra, by 
Joo Baptista da Silva Leito de Almeida Garrett

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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