Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II), by Rui de Pina

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II)

Author: Rui de Pina

Release Date: June 23, 2007 [EBook #21911]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V ***




Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)









BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

PROPRIETARIO E FUNDADOR

_MELLO D'AZEVEDO_




Bibliotheca de Classicos Portuguezes

Proprietario e fundador--Mello d'Azevedo


CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V

POR

_Ruy de Pina_

VOL. II


_ESCRIPTORIO_
147--Rua dos Retrozeiros--147
LISBOA


1902




CAPITULO LXXX

     _D'outra embaixada que ao Regente veiu d'El-Rei e do povo de
     Castella, sobre as mesmas cousas da Rainha, e da resposta que
     houveram, e como se entendeu em alguma concordia e contentamento da
     Rainha_


E o Infante D. Pedro se foi com El-Rei  cidada do Porto, onde tornaram
a elle sobre o mesmo caso da Rainha quatro embaixadores, dois em nome
d'El-Rei de Castella, e dois em nome do seu povo; porque a Rainha D.
Lianor, quando viu os primeiros embaixadores tornar com resposta  sua
esperana e desejo to contraira, comeou claramente de conhecer os
enganos em que caira, e lastimando-se d'isso aos Infantes seus irmos,
elles por em alguma maneira cumprirem com ella, fizeram com El-Rei que
os procurados dos povos de seus reinos em crtes ouvissem, como ouviram
suas querellas e agravos contra o Regente, e com tal graveza se
propozeram, que foi accordado enviar-se j por final aquella embaixada,
em nome d'El-Rei e do povo com temerosas protestaes, dizendo que
quando aos requerimentos d'ella no se satisfizesse, poderiam ento
mover guerra, sem parecer que por sua parte as pazes se quebrantavam.
Sobre a qual o Regente teve conselho, e enviou avisos aos Infantes e
pessoas principaes do reino, e foi determinado que o Infante no desse
determinada resposta aos embaixadores, e que por dilatar a remettesse, 
que El-Rei seu Senhor enviaria, para que offereceria a El-Rei de
Castella todo o que por contemplao sua e de seu povo  Rainha n'estes
reinos se devia e podia fazer.

E com isto despediu os embaixadores, e se foi com El-Rei  villa de
Tentuguel, que  no Campo Mondego. Onde accordou de enviar, como enviou
por embaixadores a Castella, como ficara, a Lionel de Lima, que depois
foi primeiro bisconde de Villa Nova de Caminha, e o doutor Ruy Gomes
d'Alvarenga. Os quaes bem instructos e avisados do que haviam de dizer,
se foram a El-Rei de Castella, com quem falaram em apartado as cousas de
sua embaixada, em que sustancialmente concludiram que a Rainha por
muitas causas, razes e impedimentos que apontaram, no devia vir a
estes reinos, nem menos ter a governana d'elles, nem a criao d'El-Rei
e seu irmo que requeria, e que o reino todo havia por tamanho
inconviniente para o bem e assessego d'elle, que para o no consentir se
despoeriam ante a todo trabalho e perigo; mas ainda que por direito no
houvesse para isso obrigao, que por ser madre d'El-Rei seu Senhor, e
por elle Rei o requerer, lhe dariam onde ella quizesse fra de Portugal,
seu dote e arras, e todas as cousas suas que n'este reino se achassem,
que no fossem da Cora, e mais dez mil dobras d'ouro para satisfao
dos que a serviram. E com isto outras muitas razes, com exemplos de
merecimentos passados, porque El-Rei devia amar muito mais El-Rei seu
Senhor e ao Regente, que a Rainha D. Lianor nem a seus irmos.

El-Rei de Castella depois de os ouvir, ante de lhe responder teve com os
grandes do seu reino sobr'isso conselho, em que eram os Infantes
d'Arago e a Rainha, onde para a paz e para guerra houve votos e
sentenas contrairas; e finalmente o conde de Faram, e um Bispo da Avila
que eram presentes, com fundamentos e razes mui justas concludiram que
por este negocio da Rainha, ainda que fosse irm, nem filha d'El-Rei,
que pelas pazes que com Portugal tinha feitas e juradas, no lhe podia
nem devia fazer guerra, e que a mr ajuda que  Rainha podiam dar, assi
era de rogos smente; com os quaes dois senhores muitos outros se foram.
E o conde de Faram aderenou sua falla para a Rainha, e lhe disse:

Senhora, bem creiu em caso que o voto que dei seja contrairo a vosso
desejo que no leixar vossa merc de crr que eu amo muito vosso
servio, e dos Senhores Infantes vossos irmos, por cuja honra e estado
eu trabalhei e padeci o que elles sabem, c por isso o dei e o disse, e
por isso vos quero bem conselhar. Soes primeiramente muito enganada em
procurardes entrar em Portugal por guerra, e contra vontade do Regente e
dos Infantes seus irmos; pois sabeis que todo o reino por natureza os
ama, e por obrigao e vontade os ho-de servir, e das mostranas que
alguns l fizeram de vos recolher e servir, j deveis de ser
desenganada, e a concordia do conde de Barcellos e do Marechal com o
Infante D. Pedro vos  para isso claro exemplo, e que vos parea que a
necessidade do tempo lh'o fez assi fazer, ainda no creaes, vendo elles
as cousas revoltas que no sostenham a parte de seu Rei natural antes
que a do estranho, e mais eu no sei que segurana tereis do amor do
povo que guerreardes por fogo e sangue, que tal caso se no pode
escusar, antes para vossa vida conseguireis odio, desamor e perigo, que
por todas razes no deveis querer; no fallo j no grande trabalho e
muita perda que estes reinos de Castella receberam com esperana de to
duvidosa victoria. Aquelle reino no  pequeno, e  mui forte e de gente
leal e mui esforada, e ser mui mo de sogigar por fora. E para melhor
verdes esta impossibilidade, sabeis bem que um cavalleiro de duas
fortalezas tem n'estes reinos corao de se levantar contra a obediencia
e servio d'El-Rei nosso Senhor; e quero dizer se o devo dizer, que no
 poderoso de o cercar nem tomar, quanto mais que os Infantes vossos
irmos que aqui esto, de necessidade conviria terem n'estes reinos
outra gente d'armas, e no pouca contra o Condestabre e o Mestre
d'Alcantara seus imigos, e que seria impossivel ou com abatimento de
suas honras e estados se sogigarem a elles, que seria grande vituperio
em sangue real, que Deus nunca consinta, c no haveis de duvidar que
estes dois homens pela grande imizade que comvosco e com elles tem e
pelas boas obras que do Regente em suas necessidades e affrontas tem
recebidas, o ho sempre de servir e ajudar, por mais enfraquentar vosso
poder, c de todo so desconfiados de vossa concordia, e fazendo ainda
esta empreza to leve, que sem muita pena cobrassemos o reino de
Portugal, no creaes que o dessemos a El-Rei vosso filho, nem a vs o
Regimento d'elle; porque para cobrar novos reinos no ha f nem verdade,
c  aos mortaes cobia sobre todas, e sobre tudo com reverena e
acatamento d'El-Rei nosso Senhor que aqui est, vos digo que sua
Senhoria tem com gram razo grande amor ao Regente. E crde que por s
importunao de que por vs e vossos irmos foi vencido, tem feito
contra elle o que fez, n'estas embaixadas que enviou, c no ha por sua
vontade de proseguir cousa que em sua honra e estado muito desfaa, pelo
qual Senhora, meu conselho  que pelo que a vosso habito, consciencia, e
assessego pertence, acceiteis qualquer razoado partido que de Portugal
vos fizerem, c do contrairo sede certa, que cada vez recebereis mais
dano, e mr paixo.

Este desengano do conde de Faram foi muito louvado, e muitos do conselho
o seguiram, e El-Rei o approvou, pelo qual por parte da Rainha logo se
apontaram alguns meios, em que para ella requereram uma grande somma de
dobres. E para alguns seus, casamentos assignados, e para outros
satisfaes de dinheiro, pago em certo modo e tempo, com outras cousas
que tambem requereram, segundo que por escripto o apontaram, e com estes
meios vieram os embaixadores a Portugal, com fundamento de logo tornarem
com a concordia; e porque o Regente sem todo o reino e principaes d'elle
no quiz n'elles tomar certo assento, seguiu-se no ajuntamento para isso
tanta dilao, que n'estes reinos, e nos de Castella principalmente
sobrevieram em tanto cousas de taes afrontas e necessidades, que as da
Rainha ficaram de todo por acabar, at que com ellas acabou tambm sua
vida, como se dir.




CAPITULO LXXXI

     _De como o Infante D. Joo falleceu, e que filhos d'elle ficaram_


No fim do mez de Outubro d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e
dois, o Infante D. Joo em a villa d'Alcacere do Sal acabou sua vida de
febre, d'onde levaram seu corpo ao mosteiro da Batalha, onde tem sua
sepultura, dentro da capella d'El-Rei D. Joo seu padre, e foi sua morte
com dr e tristeza de muitos muito sentida; porque era Principe de
grande casa, e em que havia muitas bondades e virtudes sem algum vicio
que as minguassem, em especial era muito amigo do bem commum d'estes
reinos, que por elle mostraram claros signaes da perda que n'elle
perderam.

E o que de sua morte e privao mostrou sobre todos ser mais triste e
anojado, foi o Infante D. Pedro que era em Coimbra, onde como soube de
seu fallecimento, cahiu de verdadeiro nojo em cama  morte, no havendo
em sua enfermidade outra causa, e no era sem razo; porque eram irmos
que sem cautella e mui verdadeiramenta se amaram, e foram sempre em todo
mui conformes, e o amor que o Infante D. Pedro lhe tinha no ficou sem
experiencia de ser mui conhecido; porque no smente na vida, mas depois
da morte muito mais claro em todas suas cousas lh'o mostrou; porque do
Infante D. Joo ficaram tres filhas e um filho. O filho houve nome D.
Diogo, a que o Regente logo em nome d'El-Rei fez Condestabre, e deu o
Mestrado de Santiago com todalas rendas e cousas que o Infante seu padre
tinha, e falleceu logo muito moo, e a filha maior a que chamavam D.
Isabel, que de virtudes da alma e perfeies do corpo foi em todo
cumprida, casou com El-Rei D. Joo de Castella, que sendo elle de edade
de quarenta annos a houve por segunda sua mulher, de que nasceu real
gerao e sobre todas mui excellente. E a segunda filha do Infante D.
Joo houve nome D. Breatiz, esta casou o Infante D. Pedro com o Infante
D. Fernando, irmo d'El-Rei D. Affonso, de que houveram por filhos, a
sobre todas mui virtuosa a Rainha D. Lianor, mulher que foi d'El-Rei D.
Joo o segundo d'estes reinos de Portugal, e El-Rei D. Manoel nosso
Senhor, que por fallecimento d'outro legitimo herdeiro, directa e
ligitimamente os sobcedeu. E a terceira filha do Infante D. Joo se
chamou D. Filippa, que sem casar, casando e fazendo muito bem a seus
criados e criadas, acabou virtuosamente sua vida.

N'este anno estando o Regente com El-Rei na cidade d'Evora, falleceu sem
herdeiros um D. Duarte, que foi senhor de Bragana, e tinha o castello
d'Outeiro de Miranda; veiu logo  crte o conde de Barcellos, e pediu
este senhorio e castello ao Regente, o qual se escusou d'elle por o ter
j promettido ao conde d'Ourem seu filho, que no requerimento se
antecipara primeiro, e porm logo entre o pae e o filho houve n'isso tal
concordia, que o conde d'Ourem por ser filho maior esperando todo
sobceder, juntamente desistiu da promessa e por prazer do Regente a
passou ao conde de Barcellos, que logo pelo dito Infante D. Pedro foi
feito e intitulado duque de Bragana. Mas no se seguiu assi, porque o
filho que era moo, falleceu primeiro que o pae que era j mui velho,
como se dir.




CAPITULO LXXXII

     _De como falleceu o filho do Infante D. Joo que era Condestabre, e
     como o filho maior do Infante D. Pedro foi d'aquella dinidade
     provido, que foi causa e fundamento da morte do dito Infante D.
     Pedro_


E no comeo do anno seguinte de mil e quatrocentos e quarenta e tres,
falleceu de febre continua D. Diogo, filho do Infante D. Joo, cuja
herana e casa passou logo a D. Isabel sua irm maior, e depois porque
casou com El-Rei de Castella, passou por contrato  filha segunda D.
Briatiz, casada com o Infante D. Fernando, como disse.

E o Infante D. Pedro, porque do Infante D. Joo no ficara outro
herdeiro baro, fez com El-Rei que proveu logo do Oficio de Condestabre
a D. Pedro seu filho maior, e o conde d'Ourem fundando-se em razes que
no provou, enviou pedir a mesma denidade ao Infante D. Pedro seu tio,
dizendo-lhe, que o seu av o conde Nuno Alvares Pereira houvera este
Oficio, para si e para todolos que d'elle decendessem. E que por quanto
d'elle no ficara filho baro que o herdasse o houvera o Infante D.
Joo, no como filho de Rei, mas como quem casou com sua neta, e que
como quer que a elle conde d'Ourem mais que a outrem de razo
pertencesse, por ser neto baro e maior do Condestabre; porm que o
leixara ento de requerer, porque para se haver no fizera diferena
entre o Infante D. Joo e si mesmo; mas agora que por sobcesso de baro
ficava distinto, e a elle pertencia como a principal ramo que do tronco
do Condestabre ficava, lhe pedia que o provesse d'elle.

E o Regente lhe respondeu que El-Rei seu Senhor tinha j d'elle feito
merc a D. Pedro seu filho, para quem elle o pedira, para em algum cargo
de honra ter mais razo de o servir; porm que se hi houvesse doao ou
cousa assi autentica por que parecesse este Oficio de direito lhe
pertencer, que lh'a mandasse mostrar e que por alguma maneira lh'o no
tiraria. Alegando-lhe mais para sua satisfao e contentamento a merc
de Bragana e de Castello d'Outeiro, que poucos dias havia que recebera,
ainda que de sua vontade a trespassara em seu padre, o que elle assi
consentira por ter razo de o mais cedo fazer duque depois da morte de
seu padre, que por curso de natureza, segundo sua muita edade no podia
j muito tardar, e que por hi elle ficaria duque, e tres vezes conde com
outros senhorios e terras, de que para a estreiteza de Portugal se devia
haver por muito acrecentado, honrado e contente. E que portanto lhe
rogava, que por amor d'elle no se descontentasse em seu filho haver
este Officio, em que bem cabia por muitos respeitos, e isto porm fosse
quando no houvesse tal firmeza, porque de direito lhe pertencesse;
porque se a houvesse fosse certo que seu filho lh'o leixaria.

E em fim o conde d'Ourem no mostrou o que por ventura no tinha; porm
tamanho descontentamento e agravo mostrou que do Infante por isso
recebia, que nunca depois quiz vir  sua casa, e menos  crte d'El-Rei
emquanto elle regeu, e este odio do conde d'Ourem foi a causa principal
da morte e destruio do Infante D. Pedro, como se dir.




CAPITULO LXXXIII

     _De como foi a morte do Infante D. Fernando que era captivo em Fez_


E n'este anno outrosi de mil e quatrocentos e quarenta e tres, veiu
certido da morte do Infante D. Fernando, que era posto por arefens em
Fez, e segundo o testemunho que de sua vida e morte deram os christos
que com elle ficaram, homens fidalgos e pessoas de muito credito, certo
de crr  piadosamente que morreu santamente, e com esperana de ser
santo e bem aventurado. E porque Deus por sua piadade e em galardo de
seus merecimentos, segundo f de muitos fez evidentes milagres, e a
morte antecipou os naturaes dias de sua vida com a aspereza do trato e
mo captiveiro que padeceu por mandado de Lazarac Marym, cr e mo
tirano de Fez, que por ser vil e de nenhum sangue real, com muita sede e
grande fome o fazia servir em oficios baixos e vis, e com tal
estreiteza, que em uma masmorra e priso mui escura acabou n'este mundo
a vida, para nosso Senhor lhe dar no outro outra melhor e mais viva, que
em sua gloria durar para sempre.

A morte d'este Infante por sua calidade e desamparo foi muito sentida e
pranteada n'este reino, e principalmente dos Infantes seus irmos, que
lhe mandaram fazer mui honradas e solemnes exequias e saimento, e seu
corpo metido em um ataude, esteve muitos tempos pendurado por cadas
sobre uma porta da cidade de Fez, e depois por conveno que se fez,
foram seus ossos trazidos a estes reinos em tempo d'este Rei D. Affonso,
no anno de mil quatrocentos e LXXIII, e depois da tomada de Arzilla; os
quaes de Lisboa foram levados com grande honra e solemnidade ao mosteiro
da Batalha, em que tem sua sepultura especial e honrada na capella
d'El-Rei D. Joo seu padre. Onde por signal que acabou como catholico e
mui fiel christo, ha grande credito que nosso Senhor fez, e faz por
elle muitos milagres.

Por morte d'este Infante D. Fernando ficou vago o Mestrado d'Avis, de
cuja governana e administrao, D. Pedro, filho do Regente, foi a
suplicao d'El-Rei por auctoridade Apostolica provido.




CAPITULO LXXXIV

     _De como foi a morte da Rainha D. Lianor em Toledo, estando j para
     se tornar a Portugal_


No anno de mil e quatrocentos e quarenta e quatro, vendo-se El-Rei de
Castella em poder dos Infantes d'Arago seus cunhados, roubado da
liberdade e senhorio que a sua dinidade real pertencia, tinha a elles
grande odio e desamor, e para se em alguma maneira d'elles isentar,
ordenou por conselhos e modos do Condestabre D. Alvaro de Luna de mandar
como mandou por visorei  comarca de Andaluzia ao Infante D. Anrique,
provendo-o para isso de poderes fingidos com fundamentos falsos,
dando-lhe a entender que assi cumpria para sua mais honra e mr
segurana, onde por engenho do dito Condestabre e mestres de Alcantara e
Calatrava seus contrairos, e com gente de Sevilha e outra muita que o
Infante D. Pedro d'estes reinos l mandou, foi em todo desobedecido, e
em desbaratos que houve mui mal tratado, e d'esta vez se tomou Carmona,
e em tanto se conformou o Condestabre com outros grandes senhores
d'aquelle reino que para isso se ajuntaram por fora d'armas, e tiraram
El-Rei do poder e sobgeio d'El-Rei de Navarra, que segundo o que se
via no o tratava, nem acatava como a rei superior se devia.

E d'estas voltas de fortuna que a Rainha D. Lianor viu padecer aos
Infantes seus irmos, foi da esperana que n'elles tinha desesperada de
todo, e vendo-se j mal olhada d'El-Rei e da Rainha sua irm, e com
pouca sua ajuda, foi-se da crte para a cidade de Toledo, d'onde
constrangida j de grandes minguas que a apertavam, soltou quasi toda a
gente que tinha, encommendando os filhamentos e vivendas de seus criados
a aquelles senhores de Castella com que cada um mostrava ter mais
contentamento de viver.

Alli veiu a Rainha a tanta necessidade e pobreza, que para seu
suportamento lhe conveiu receber ajudas em po e dinheiro d'alguns
Prelados e donas viuvas d'aquelle reino, em especial de uma D. Maria da
Silva de Toledo, senhora de nobre sangue e muita fazenda. E n'este reino
e em Ceuta sendo de suas necessidades sabedor D. Fernando de Noronha,
primeiro conde de Villa Real, e segundo capito da dita cidade; porque
era de real sangue e mui nobre corao; principalmente porque El-Rei D.
Duarte o criara e acrecentara com muito amor, e asi por elle ter com a
Rainha divido mui conjuncto, a mandou visitar e ajudar com uma boa somma
d'ouro amoedado, de que por sua nobreza e bom conhecimento foi de todos
c e l mui louvado. Pelo qual a Rainha sentindo-se j envergonhada de
requerer, e cansada de esperar, vendo os caminhos e remedios de sua
esperana, com as mudanas de seus irmos de todo cerrados, houve-se de
todo por mal aventurada, e sobretudo por enganos mal aconselhada, e
suspirando j por Portugal, ao menos para lhe sua terra comer o corpo,
fallou com Mossem Gabriel de Loureno, seu capello mr, e com suas
crenas, instruco e poder, o enviou a Albuquerque, d'onde por meio do
conde d'Arrayollos tratasse alguma concordia com o Infante D. Pedro, ao
qual Infante a Rainha com palavras e cousas assaz piadosas, enviava j
pedir, ao mais consentimento e lugar para vir a estes reinos, e n'elles
morrer, no como Rainha, mas como sua irm menor que se queria poer em
suas mos, de que se contentaria receber o que elle quizesse, e lhe
parecesse razo.

O conde d'Arroyollos, como era homem virtuoso e de justa teno,
acceitou com boa vontade o negocio, e o Regente a que o dito conde por
Vasco Gil, seu secretario, o notificou, o ouviu e recebeu com muito
melhor mostrana, e andando j em apontamentos com esperana de ba
concluso, chegou recado certo ao Regente, como a Rainha D. Lianor
fallecera na mesma cidade de Toledo, sexta-feira XIX dias de Fevereiro
de mil quatrocentos e quarenta e cinco.

Foi sua morte arrebatada, sem ter uma hora de accordo para o que  sua
alma e  sua fazenda cumpria, em que houve violenta presumpo que fra
de peonha; porque em lhe lanando uma ajuda, que por ser um pouco
achacada requerera, logo sem entrevalo nem repouso deu alma a Deus. E a
opinio dos mais foi que esta morte lhe ordenara, no o Infante D.
Pedro, como muitos maliciosos quizeram falsamente dizer, mas o
Condestabre D. Alvaro de Luna, por meio de uma mulher da villa de
Ilhescas, que em casa da Rainha tinha grande entrada e muita
familiaridade. Receoso que, se a Rainha vivesse, estando em a cidade de
Toledo, ordenaria como o Infante D. Anrique seu irmo, tornasse a ella,
de que fra j lanado. Porque foi avisado que ella o procurava e
concertava j com Pero Lopez d'Ayala, que na cidade era alcayde mr, e
cavalleiro mais principal, crendo que se o Infante fosse senhor de tal
cidade, o Condestabre o havia por cousa muito contraira a seu desejo e
proposito, que era destrui lo e desterra-lo do reino com seus irmos, e
por argumento d'isto, outro tanto se presumio do mesmo Condestabre, que
ordenara  Rainha D. Maria, mulher d'El-Rei D. Joo, que aps sua irm
no durou com vida mais de XV dias.

E esta Rainha D. Maria jaz sepultada na capella mr do mosteiro
d'Aguadallupe.

O Regente como soubesse do fallecimento da Rainha, enviou logo pela
Infante D. Joana, que ficara e estava em Toledo em grande desamparo, e a
foi ao extremo receber, e trouxe mui honradamente para Lisboa, onde a
poz em companhia da Infante D. Catharina sua irm, em poder de Violante
Nogueira, e tomou para El-Rei todolos criados que ficaram da Rainha,
tirando alguns em que tinha suspeita e descontentamento.




CAPITULO LXXXV

     _Como o Condestabre filho do Infante D. Pedro foi enviado a
     Castella com gentes d'armas, em ajuda de El-Rei de Castella contra
     os Infantes d'Arago, e do que se passou at tornar_


Pela morte d'estas duas Rainhas o partido dos Infantes d'Arago ficou em
Castella mui fraco e abatido, e o Condestabre porque viu tempo que lh'o
assi aconselhava, ordenou de os fazer lanar e desterrar fra do reino,
e acabou com El-Rei que escreveu ao Regente com as razes e causas com
que sentio que o mais obrigaria, pedindo-lhe para isso ajuda de gente
d'armas por seu messegeiro, o qual Infante teve sobre o caso bom
conselho em Tentuguel, onde elle foi de sua vontade movido para ir em
pessoa; e porque foi em contrairo aconselhado, determinou-se que
enviasse o senhor D. Pedro seu filho que era Condestabre, em edade de XV
annos, e a mais formosa nem melhor proporcionada creatura que se podia
vr de seu tempo, ao qual foram ordenados dois mil homens de cavallo, e
quatro mil de p, e com elle estes fidalgos principaes: D. Alvaro de
Castro que depois foi conde de Monsanto, e Lopo d'Almeida que depois foi
conde d'Abrantes, e D. Duarte de Menezes que depois foi conde de Viana,
e Diogo Soarez d'Albergaria, e Ferno Coutinho, e Joo de Gouva, e
outros muitos fidalgos e cavalleiros da crte, em que ia a frol d'ella.

E porque o sr. D. Pedro no era cavalleiro, quiz o Infante seu padre que
o fosse da mo do Infante D. Anrique seu tio, que era em Lagos, e foi
para isso chamado a Coimbra, onde logo veiu e este ajuntamento se fez, e
sobre qual dos Infantes devia fazer aquelle auto de Cavallaria, houve
entre elles uma perciosa, mas mui honrada e maravilhosa contenda. Porque
cada um parecia que minguava em seus merecimentos, por acrecentar nos do
outro, e cada um se alegrava ser n'elles do outro vencido para que o
fizesse, e em fim o cargo ficou ao Infante D. Anrique e no sem
merecimento; porque em seu tempo muitos Principes foram de mais terras,
gentes, e rendas, mas no houve em seus dias algum ante quem elle em
perfeio de virtudes, e bondade d'armas, e esforo do corao se
devesse contar por segundo, o qual com novas cerimonias e grandes
festas, armou Cavalleiro o Condestabre seu sobrinho, no mosteiro de S.
Jorge, que  junto com a cidade sobre o Mondego. D'onde logo partio com
mais gentes de sua ordenana; porque alguma que falleceu, se refez toda
com elle em Cidad Rodrigo, primeiro lugar de Castella por onde entrou. E
certo d'armas, cavallos, livr e arreios, foi gente mui luzida e mui
aparelhada para fazer um bom servio.

El-Rei D. Joo de Castella, para execuo do que desejava, tinha j
cercados na villa de Olmedo a El-Rei de Navarra, e ao Infante D. Anrique
seus cunhados, com muitos e grandes senhores de Castella. Os quaes
esforados na muita gente que comsigo tinham e confiados que pela antiga
criao e conhecimento que tinham d'aquelle reino, e assi pelo desamor
que geralmente tinham ao Condestrabre, que as gentes d'El-Rei quando os
vissem em rompimento e perigo os ajudariam, e temendo outrosi a gente de
Portugal, que tambem ia sobr'elles, e vendo que por isso o cerco por
muitos inconvenientes lhe no cumpria, determinaram poer seus feitos em
ventura, e dar, como deram, batalha a El-Rei, em que foram de todo
vencidos, d'onde o Infante D. Anrique sahiu ferido em um brao, de que a
poucos dias falleceu em Arago. E El-Rei de Navarra se acolheu fugido a
seu reino sem mais vir a Castella; ainda que o depois muito procurasse.

D'este caso assi como passara foi o senhor D. Pedro em Cidad Rodrigo
avisado. Sobre o qual os do conselho d'El-Rei, que com elle eram,
praticaram o que fariam. E acordaram que deviam todavia proseguir sua
viagem como fizeram, e que do caso acontecido avisassem logo El-Rei seu
Senhor, e a El-Rei de Castella notificassem sua ida. E com isto feito
foram fazendo suas jornadas, at chegarem  cidade de Touro, onde o
Condestabre D. Pedro houve resposta d'El-Rei de Castella, em que lhe
rogava, que assi como vinha o fosse vr, como foi,  villa de Maiorca,
onde j com toda sua crte estava, e em seu recebimento lhe foi feita
honra mui assinada; porque El-Rei com toda sua crte sahiu ao receber,
mui contentes de vr um Principe em todo to proporcionado, em que muito
acrecentava a graa das ricas armas em que ia vestido. E depois de
passarem alguns dias, em que d'El-Rei e dos grandes de seu reino, foi
com muitas honras e festas tratado, El-Rei com os aguardecimentes que em
sua ida cabiam, lhe disse: Que pois seu servio lhe no era necessario,
que se poderia tornar para Portugal. E como quer que o Condestabre muito
insistisse para ficar e o servir; como d'El-Rei seu Senhor, e do Infante
seu padre trazia ordenado, El-Rei no quiz, posto que lhe requereu e
desejou que com a gente smente que para o servir fosse necessaria
ficasse aforrado em sua crte. Mas aos fidalgos que com elle iam no
pareceu razo leixa-lo assi, sem prazer do Regente. Pelo qual El-Rei o
despediu com dadivas de joias e cavallos, e mullas e outras cousas de
grande preo, e no falleceram outros muitos grandes senhores d'aquelle
reino que lhe offereceram seus presentes, de cousas que sua idade e
tempo requeriam. Mas para d'outrem algum no receber nada, salvo
d'El-Rei, teve as mos to castigadas, como as fez soltas em dar e fazer
grandes mercs a aquelles que semelhantes cousas lhe apresentavam, ainda
que com ellas se tornassem, e d'esto se escusava com tanta humildade e
cortezia, que bem parecia que no era por algum vicio de presumpo que
n'elle coubesse.

E assi com sua gente na ordenana em que fra, e com bandeiras tendidas
se tornou a Portugal e entrou por Bragana, e na villa d'Aveiro achou
El-Rei e com elle o Infante seu padre, d'onde despediram os fidalgos e a
gente que com elle fra, dando pelo servio que fizeram muitos
aguardecimentos com as mercs que cada um por sua confisso merecia, e
isto passou no anno de mil e quatrocentos e quarenta e cinco.




CAPITULO LXXXVI

     _De como o Regente fez crtes geraes, em que leixou a El-Rei a
     primeira vez o Regimento do Reino, segundo era obrigado, e como
     El-Rei lh'o tornou a dar_


E consirando o Regente, como para o Janeiro do anno que logo entrava de
mil e quatrocentos e quarenta e seis, El-Rei D. Affonso cumpria idade de
XIV annos, em que, segundo fro d'Espanha, qualquer Principe Real deve
haver inteira posse e administrao de seu reino e senhorio, e
lembrando-se isso mesmo da obrigao em que por sua f e juramento
ficara de a este tempo livremente lhe entregar o reino, querendo
inteiramente assi cumprir, fez para isso crtes geraes e solemnes em
Lisboa, e na salla grande dos paos, sendo El-Rei com os Infantes e
senhores, e seus officiaes e procuradores, em sua costumada e antiga
ordenana, o doutor Diogo Affonso Mangancha, em nome do Infante D.
Pedro, fez uma louvada orao, cuja sustancia se concludio em quatro
cousas.

A primeira, apresentar e entregar alli El-Rei em tal disposio de sua
pessoa, siso e entender, manhas e virtudes, como de sua edade no cria
que no mundo outro tal houvesse; porque dava e dessem todos muitas
graas a Deus. A segunda, que no regimento do reino que todos lhe deram,
como quer que para o bem fazer, elle com todas suas foras, entender, e
diligencia fizera muito a alm do que podera; porm que pelo grande
trabalho, que em nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de
tantos desvairos e balanos como no seu se seguiram, elle confessava
tel-o feito muito quem do que devia, de que pedia perdo. A terceira,
em dar aguardecimentos quelles, que no tal caso bem e lealmente
serviram e ajudaram, guardando nas palavras o acatamento, mais e menos,
segundo cabia nas calidades das pessoas e estados do reino que eram
presentes. A quarta concluso foi, que em caso que no fra direito nem
costume aos Principes de to pequena edade, como eram a quatorze annos
dar-se livre poder de per si regerem reinos e senhorios, que a El-Rei
seu Senhor vista em todo sua perfeio, por graa especial lhe devia ser
dado, como a outro que fosse de muitos mais dias. E que para isso lhe
entregava alli mui livremente, e sem cautella, seu Regimento.
Metendo-lhe logo com rostro mui alegre a vara da justia nas mos, que
em giolhos e com muito acatamento lhe beijou.

E depois d'El-Rei ser recolhido  sua camara, onde era o Infante D.
Fernando, seu irmo, e o Infante D. Anrique, seu tio, com outros muitos
senhores, o Infante D. Pedro, praticando com elle a maneira que d'hi em
diante teria em reger, El-Rei depois de bem ouvir, lhe pediu que at vr
o que n'isso poderia fazer, elle inteiramente mandasse e fizesse em seu
nome o que d'antes fazia; porque receava de per si s sem sua ajuda ou
d'outrem no poder com tamanho cargo.

E de hi a tres dias se fez na ordenana passada outro ajuntamento, em
que o mesmo doutor Diogo Affonso em nome d'El-Rei fez outra falla,
porque sustancialmente se declarou que havia por recebido em si do
Infante D. Pedro seu tio e padre o inteiro regimento de seu reino,
dando-lhe, por isso com largo recontamento de seus muitos servios e
merecimentos, grandes agardecimentos com muitos seus louvores,
outorgando-lhe no smente auctorisadas quitaes de todo o tempo de sua
governana; mas ainda por maior sua honra, que ficasse em registo por
verdadeiro e claro testemunho, da obrigao em que por isso ficava a
elle e a seus filhos, com todolos que d'elles descendessem; porque
conhecia e declarava que nunca algum Principe fra no mundo com tanto
amor e em tanta perfeio criado, nem em manhas e costumes reaes to bem
ensinado, nem com tanta lealdade e obediencia servido e tratado, como
elle sempre fra do Infante D. Pedro seu tio e padre; porm porque elle
ainda no tinha idade para per si s reger sem perigo de si mesmo e das
cousas que regesse, nem tivera a pratica e esperiencia d'ellas como para
Rei cumpria, e era por isso necessario tomar alguma pessoa que no
regimento o insinasse e ajudasse, e por todos respeitos, causas e
razes, no havia em todos seus reinos outro para isso mais pertencente
que o mesmo Infante D. Pedro, que elle de seu proprio moto, sem
lembrana nem requerimento d'alguem o escolhia para isso, e havia por
seu servio e por bem de seus reinos que elle Infante tornasse com elle
a reger e governar seus reinos, assi como d'antes fazia, at elle se
sentir em desposio para per si s o poder fazer, mandando que a
obediencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em diante lhe
guardassem muito mais inteiramente.

E aos grandes e povos de seus reinos que eram presentes, em sua presena
mandou muito agardecer por lhe requererem e darem por mulher a filha do
Infante D. Pedro seu tio e padre, de que sobre todalas cousas do mundo,
por muitas razes era mais contente; mas porque este seu casamento
quando primeiramente foi em Obidos celebrado, por ventura por se fazer
ante de haver idade cumprida e necessaria, para isso sem sua aprovao
pareceria defeituoso, elle que ento a tinha j para isso de todo
perfeita, o aprovava e consentia, como se n'aquella hora de seu prazer,
e com sua inteira liberdade novamente o fizesse.




CAPITULO LXXXVII

     _De como as filhas do Infante D. Joo foram casadas_


E no comeo do anno de mil e quatrocentos e quarenta e sete, o Infante
D. Pedro se partiu com El-Rei da cidade d'Evora, para o lugar das
Alcaovas, onde por concerto veiu a Infante D. Isabel, mulher do Infante
D. Joo, e trouxe comsigo duas suas filhas, que alli ambas juntamente
casaram; D. Isabel que era maior com El-Rei de Castella, por Garcia
Sanchez de Toledo, que como seu procurador e embaixador a recebeu, e D.
Briatiz com o Infante D. Fernando, por elle mesmo. E do casamento que
prometeu a El-Rei de Castella, que foi cem mil florins d'Arago, se
seguiu a este reino pouca despesa; porque os recebeu El-Rei de Castella
em desconto do soldo que era obrigado pagar  gente do soccorro, e da
ajuda que El-Rei de Portugal lhe enviou com o Condestabre seu primo,
como atrs j disse.

E no Maio d'este anno, que era o tempo da entrega da Rainha, em que se
concertaram El-Rei e o Infante seu irmo, com todolos senhores e pessoas
principaes do reino, fizeram em Lisboa por honra da Rainha umas grandes
festas, acabadas as quaes, o Infante D. Pedro, acompanhado grandemente,
levou a Rainha a Coimbra, onde foi festejada, e d'hi  villa de Pinhel
que  em Portugal, onde era concordado que El-Rei de Castella havia de
vir em pessoa, para lhe ser alli entregue e a levar, e elle no veiu, de
que com palavras honestas e de receber, se enviou escusar por certos
senhores e grandes de seu reino, a que a Rainha com seu poder e
auctoridade foi entregue, e lh'a levaram.




CAPITULO LXXXVIII

     _Como El-Rei por meio do duque e de seu filho o conde d'Ourem pediu
     ao Infante o Regimento do Reino, e como inteiramente lh'o leixou_


O duque de Bragana, e conde d'Ourem, e o Arcebispo de Lisboa com outros
de sua valia, no ficaram sem grande paixo de ser o Regimento do reino
outra vez tornado ao Infante D. Pedro, e o duque publicamente por
Gonalo Pereira, que se dizia das armas, o contrariou nas crtes por uns
apontamentos que a ellas enviou. Mas no foi ento ouvido; porque o
corao d'El-Rei ainda no era de falsos testemunhos corrompido, nem
cheio das erradas suspeitas contra o Infante, como ao diante foi. Mas em
fim taes rodeios tiveram, principalmente o duque e conde d'Ourem, e taes
incitadores buscaram e meteram secretamente s orelhas d'El-Rei, que o
comoveram para o que quizeram, que foi requerer, como requereu ao
Infante D. Pedro que lhe leixasse livremente o regimento, porque s sem
outrem queria reger.

E o Infante bem conheceu que tal movimento, e a tempo to antecipado no
nascera na propria vontade d'El-Rei, mas que fra n'ella semeado por
engenho de seus imigos. E porm lhe disse que elle era d'isso mais ledo
e mais contente, do que por ventura lhe fariam crr que o elle seria;
porque quando elle nas crtes que ento foram, se escusava aceitar outra
vez o regimento para que o forava, bem via que lhe dera Deus tal siso e
tal disposio, que per si sem outra ajuda poderia reger estes seus
reinos e outros maiores; porm pois assi era sua vontade, que lhe pedia
por merc que com o regimento juntamente quizesse tambem tomar sua
mulher, pois era em edade para isso; porque assim faria mais por sua
honra e estado. No que El-Rei ento consentiu; e ficou logo entre elles
tempo assignado para isso, no qual o Infante se percebeu dos
corregimentos e cousas que para a pessoa d'El-Rei e da Rainha, e assi
para sua casa e camara cumpria; mas El-Rei por induzimentos d'alguns, e
do Arcebispo de Lisboa principalmente, que de noite lhe ia falar, no
esteve pela concordia em que ficara; porque antecipou o tempo, e tornou
requerer o Infante, que logo leixasse o regimento; porque antes de casar
elle inteiramente queria reger, c em outra maneira no seria sua honra
nem convinha a seu estado, ao que o Infante por no dar causa a mais
danamento, logo satisfez e desistiu em todo do mandado e governana que
tinha, em tanto que as cartas e provises que d'antes foram por elle
desembargadas, e eram feitas para se de seu nome assignarem, no as quiz
mais assignar, nem entender em cousa que a regimento pertencesse.

E porm El-Rei no mez de Maio de mil e quatrocentos e quarenta e sete,
em Santarem, tomou sua casa e sua mulher juntamente, com as benes e
cerimonias pela Santa Igreja em taes casos ordenadas, e com alguma
mostrana de festas, mas no foram n'aquella perfeio e cumprimento que
o Infante quizera e tinha ordenado. Porque como leixou o regimento, logo
todalas cousas ainda que fosse sem culpa sua, para seu desfavor lhe
volveram as costas.




CAPITULO LXXXIX

     _Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante
     D. Pedro depois que soube que j no regia, e para lanarem o
     Infante fra da crte_


O duque de Bragana como soube que o Infante desistira do regimento, e
que j El-Rei absolutamente regia, por imprimir e confirmar no povo a
suspeita de desleal que contra o Infante tinha j com El-Rei
principiada, partiu da Villa de Chaves, e com estrondo de gente armada
se foi  cidade do Porto, e a Guimares e Ponte de Lima, e a outros
logares d'aquella comarca, onde aos criados do Infante tirou os officios
que tinham d'El-Rei, e a todos com infamia de tredores lanou fra, e
com nome de receio do Infante mandou velar e roldar as villas e
castellos, como se El-Rei e o Infante foram imigos e houvera j entre
elles pregoada guerra, com outras onies d'esta calidade, que no reino
contra elle individamente se faziam.

Estas falsas novidades vinham logo s orelhas do Infante, que feriam sua
alma com muita dr e tristeza, especialmente porque o remedio que
n'ellas cabia e elle procurava, via que com desprezos lh'o denegavam.

Na crte d'El-Rei andava a este tempo um Berredo, proto-notairo, filho
de Gonalo Pereira, de Riba de Vizela, mancebo avisado, que por estar j
em crte do Santo Padre tinha boa pratica, e por algumas letras que
aprendera havia solta audacia de dizer. Este por astucia e conselho do
duque e do conde d'Ourem, veiu  crte bem avisado d'elles, do que
secretamente diria a El-Rei para o fim que desejavam, que era meter
El-Rei em odio com o Infante D. Pedro e tira-lo do regimento, e com
achaque de despedir suas cousas para Roma, fallava com elle muitas vezes
em apartado, por cujo malicioso meio e falsa informao que
astuciosamente dava a El-Rei, se seguiu principalmente o maior damno que
o Infante e suas cousas receberam. Porque com isto fazia-se grande
servidor e muito familiar do Infante, a cuja casa, camara e mesa ia
continuamente. D'onde maliciosamente trazia novidades e suspeitas a
El-Rei, com que umas horas lhe fazia crr que andava subgeito, e contra
o que a seu estado cumpria, e outras que sentia do Infante que queria
reinar e fazer seus filhos grandes, acautelando-se sempre que o que
dizia a El-Rei, no era como imigo nem desservidor do Infante, de quem
recebia honra e merc; mas porque era portuguez leal a El-Rei a quem
mais devia.

E assi o sabia entoar, que todo o que queria imprimia  sua vontade na
molle e nova edade d'El-Rei, e por aviamento d'este se foi El-Rei vr
com o conde d'Ourem a Torres Novas. Onde com muitas razes, que para o
caso com seus aderentes tinha compilladas, fez crr a El-Rei camanho
abatimento e quo grande sobgeio sua era andar mais o Infante na
crte, que cedo por isso no obedeceriam a El-Rei, e era razo que o
fizesse; porque andando o regimento assi misturado, sempre seria de crr
que o Infante mandava e regia, o que a todos seus vassallos fazia grande
escandalo, e que por isto e por outras causas muitas que alegavam,
El-Rei com alguma mostrana de bem o devia despedir de si e de sua
governana, e que para isso seria melhor, e com menos pejo seu no
tornar mais a Santarem, e mandar por outrem dizer ao Infante sua teno
e vontade, por se escusarem quebras e descontentamentos d'entre ambos em
pessoa.

El-Rei levemente consentiu no despedimento do Infante, mas disse que
no havia com tal engano despedir seu tio; porque seria sem duvida
declarar de todo sua fraqueza e algum desconhecimento; mas que em pessoa
o despediria como era razo.

E para em caso que o Infante a isso no obedecesse e refusasse sua
partida, disseram que era bem que El-Rei levasse comsigo armados, como
levou, os vassallos da comarca. E que por fora em tal caso, como a
revel o lanasse fra da crte, com aquella mais pena que por isso
merecesse. Mas o Infante a que tudo isto se logo descobrio, quiz da
fora alheia fazer sua livre vontade, e como El-Rei tornou a Santarem
foi-lhe logo falar, e encobrindo com uma falsa alegria de seu rostro uma
verdadeira tristeza do corao que tinha; depois d'algumas praticas
extraordinarias, publicamente lhe disse.

Senhor, dez annos ha que n'este cargo, que vs e vosso reino me destes,
vos servi como melhor pude e soube, nos quaes minhas terras por minha
ausencia receberam de mim pequeno repairo, como todos sabem, e minha
fazenda padeceu grande perda; porm tudo hei por bem empregado, pois
tudo redundou em vossa perfeita creao e mui inteiro servio. Agora
pois vos Deos chegou a tal idade, e deu tal siso, entender e disposio
para sem outra ajuda regerdes por vs vossos reinos ainda que fossem
maiores, peo-vos por merc que me deis licena para ir prover o meu,
que de mim j tem grande necessidade, e quando nas cousas graves e
pesadas, que em vosso reino e a vosso servio occorrerem minha presena
fr necessaria, mandae-me chamar, e prazendo a Deos vs n'isso e em todo
conhecereis que sobre todos vossos vassalos e servidores, eu vos amo e
vos sou o mais obdiente e mais leal.

D'este cometimento do Infante ficou El-Rei descarregado e mui ledo;
porque com elle se viu alivado do grande peso e cuidado que para isso
trazia, e por sua humana e mui real condio, com tudo lhe pesava
grandemente partir-se d'elle o Infante agravado nem descontente, e porm
com palavras que pareciam de muito agardecimento e amor lhe outorgou a
licena, e mais lhe mandou dar uma solemne quitao de todo o tempo que
por elle regera seus reinos, com aprovao de todo o que em seu nome at
ento dera e fizera. O que alguns quizeram depois contrariar, dizendo
que devia antes ser revogao que aprovao; mas por ento sua
contradio no aproveitou, por que todavia passou com toda solemnidade
e perfeio.

O Infante como teve licena d'El-Rei e aviou as outras cousas que lhe
cumpriam, se partiu de Santarem para Coimbra no fim do mez de Julho; e
porque se receiou de gente que o conde em Ourem tinha junta, quiz
n'aquella travessa segurar sua pessoa com outra gente sua que mandou
perceber, com que at Thomar foi mui honradamente acompanhado, e d'alli
a despediu e levou smente comsigo os de sua casa, e dois seus filhos,
D. Pedro o maior, e D. James que depois foi Cardeal.

E como o Infante leixou a crte, logo o conde de Ourem, e o Arcebispo de
Lisboa, e o conde D. Sancho com outros de sua opinio se foram a ella,
onde todo seu cuidado foi inventar com El-Rei novidades e determinaes
que fossem em nojo e abatimento do Infante. E entre outras ordenaram que
El-Rei para segurana no smente de sua vida, mas da justia e fazenda
tirasse, como logo tirou todolos officios que os criados de seu tio na
crte tinham de qualquer calidade que fossem, poendo suspeies e
testemunhos falsos, a uns que erravam na justia, e a outros que
roubavam a fazenda, e a outros que dariam peonha a El-Rei, segundo a
cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
provar, no falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
com esperana de galardo que lhe promettiam,  sua vontade o
testemunhavam. Ajuntavam-se a isto os criados da Rainha D. Lianor, que
para mais agravarem suas querellas diziam contra o Infante por conselho
de seus imigos muitas cousas  verdade mui contrairas. E o fundamento
d'estes era semear contra o Infante e contra os seus estas desleaes
suspeitas; porque o amor e affeio que por seus beneficios e
merecimentos El-Rei e o povo de Portugal lhe tinham, e era razo que
tivessem, o convertessem em odio e desamor, com que celeradamente e sem
se poder remedear lhe causassem a morte como fizeram; porque sabiam que
sua vida se muito durasse, no smente impediria o effeito das cobiosas
esperanas em que para seus maiores acrecentamentos andavam, mas ainda
suas vidas ao diante no seriam isentas de perigo, por saberem que alm
da grandeza do Infante e grande saber, a que seria mui deficil resistir,
tinha muitos no reino que por criao e por graas recebidas lhe tinham
grande amor, e des-hi que tinha filhos que seriam grandes senhores, e
sobre tudo a Rainha sua filha, de cujo amor e fruito de gerao, se
El-Rei fosse ao diante vencido, como de sua edade e por suas virtudes e
perfeies se esperava, teriam para si mui duros contrairos. E por tanto
trabalhavam de poer El-Rei por qualquer maneira que podessem, no
derradeiro gro de odio e imizade contra o Infante.




CAPITULO XC

     _Como o Infante D. Anrique entendeu nas cousas do Infante D. Pedro
     para seu favor, e assi o conde d'Abranches_


Partiu-se El-Rei de Santarem para Lisboa, onde o Infante D. Anrique que
era no Algarve lhe veiu fallar, e porque sentiu que a vida e honra do
Infante seu irmo com maneiras falsas de seus imigos era maltratada, e
se despunha a destruio e perigo, atalhou a isso algum tanto, mas no
com aquella fortaleza e escarmento, que elle a seu irmo devia e o mundo
esperava, o que lhe fra bem possivel se quizera; porque achou contra o
Infante artigos formados em que se afirmava que com cobia de reinar
matara El-Rei D. Duarte seu irmo, e em Castella dera ordem  morte da
Rainha D. Lianor, e assi  do Infante D. Joo. Com outras muitas
abominaes de que se tiravam inquiries, em que por seu sobornamento
lhe no falleciam testemunhas falsas com que parecia que o provavam. Mas
o Arcebispo e o conde d'Ourem com outros de sua parcealidade, receiosos
se o Infante D. Anrique segundo era no reino poderoso e de grande
auctoridade pendesse  banda do Infante D. Pedro, que suas maginaes
ficariam com damno d'elles muito quem de seu proposito, trabalharam de
fazer a El-Rei suspeitosas suas muitas virtudes e segura lealdade,
afirmando-lhe que nas desculpas do Infante D. Pedro o no devia crr.
Porque na culpa do engano e desterro da Rainha sua madre, e em outros
desmandos que por morte d'El-Rei D. Duarte no reino se fizeram foram
ambos causadores e participantes, mas como isto era falso, no damnava
na limpeza do Infante D. Anrique.




CAPITULO XCI

     _Vinda do conde d'Abranches s crtes_


A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta, o conde
d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
Infante D. Pedro, e publico amigo do conde d'Ourem, e em sua chegada no
foi ento d'El-Rei e de sua crte assi agasalhado e honrado, como seus
servios presentes e merecimentos passados requeriam. Porm o conde assi
como era de nobre sangue, assi no fallecia n'elle uma graciosa soltura
de dizer, com mui esforado corao e singular aguardecimento, com que
ante El-Rei e os de sua crte, no publico e no secreto defendia muito a
honra e estado do Infante D. Pedro, com claros exemplos e vivas razes
de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande audacia os
movimentos e maldades que seus imigos to sem causa contra elle moviam.

E como quer que El-Rei fosse induzido, que no ouvisse o conde e o
mandasse ir fra de sua crte, poendo-lhe que em todas as culpas do
Infante elle era muito culpado, porm porque El-Rei era de alto corao,
aceso no ardor de autos cavalleirosos, suspirando para grandes emprezas,
folgava muito de o ouvir, e comeava dar-lhe de si muita parte e
acolhimento, especialmente porque o Infante D. Anrique ante El-Rei
muites vezes por cousas muito assinadas em que o vira, dizia por elle,
que no smente Portugal, mas Espanha toda se devia de haver por honrada
criar tal cavalleiro. E porque os imigos do Infante viram que a vontade
d'El-Rei cerca do conde no terava por elles como desejavam,
lanaram-lhe amigos d'elle lanadios, e pessoas de credito que com
resguardo de grande segredo o aconselhassem que se fosse fra da crte,
e no entrasse em um conselho publico que se ento fazia, avisando-o
manhosamente que n'elle por cousas do Infante D. Pedro o haviam de
prender. Mas o conde com a cara cheia d'esforada segurana lhe disse:

Amigos, certamente pelos muitos e grandes servios que tenho feitos a
esta casa de Portugal, eu lhe mereo mais villas e castellos com que me
acrecente, que prises nem cadeias em que sem causa me ponha, e por
tanto com todo o que me dizeis, sabei que no hei-de fugir do conselho e
servio d'El-Rei nosso Senhor, pois leal e verdadeiramente sempre o
segui. E porm se tal cousa, e por tal causa se move contra mim, sabei
certo que em defender minha honra, e limpeza d'aquelle Senhor, eu me
mostrarei hoje dino de ser confrade da Santa Garrotea que recebi, e
espero em Deus que sem ociosidade de minhas mos, os que me quizerem
visitar antes seja na sepultura, que nos carceres nem cadeias, e por
isso no hajaes d nem compaixo de minha vida porque minha morte
honrada a far com louvor viver mui viva, e muito mais honrada nas
memorias dos homens para sempre.

Pelo qual o conde depois de com esta determinao despedir estes
manhosos e dobrados conselheiros; porque a hora do conselho se chegava a
que determinou ir, se vestiu de panos finos mui bem, e muito melhor
d'armas secretas, com que entrou no pao, onde seus imigos vendo a
segurana de sua pessoa, foram claramente certificados do esforo e
bondade de seu corao.

E estando El-Rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores
presentes e os principaes imigos do Infante, o conde com cara que mais
parecia que ameaava que temia, lhe tocou em sua priso que lhe fra
revelada, e assi lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
cousas do Infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
e com razes a todos to manifestas, que se no podiam contrariar;
concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condio que
fossem, que do contrairo tinham informado a El-Rei, eram com reverena e
acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo mos e
tredores, e que com licena e consentimento de sua Senhoria os
combateria por armas, e em campo a tres d'elles os melhores juntamente.

A resposta d'El-Rei para o conde foi ento graciosa e branda, e com
mostrana que lhe pesara de o ouvir, que para o mo fundamento dos que
tratavam a morte do Infante foram mui tristes sinaes, e por arredarem
El-Rei do Infante D. Anrique e do conde, que comeavam ser causa que de
todo impedia seu damnado proposito, o levaram a Cintra aforrado.




CAPITULO XCII

     _De como o Infante D. Anrique se foi vr a Coimbra com o Infante D.
     Pedro, e com elle o conde d'Abranches, e das novidades que se
     seguiram_


E o Infante e o conde d'Abranches vendo tempo para isso, foram vr a
Coimbra o Infante D. Pedro, que com tal vesitao pela estima e
reputao em que o Infante D. Anrique era havido, elle e os seus
mostraram receber muita alegria e grande favor.

Alli se juntaram os Infantes com alguns principaes seus adeptos que hi
eram, e fallaram algumas vezes nas sem razes e agravos que o Infante D.
Pedro tinha nas cousas passadas recebidos, e assi no remedio que se
teria nos que se aparelhavam e estavam por vir, para acrecentamento dos
quaes foram alli certificados que El-Rei como foi em Cintra logo por
engenho do conde d'Ourem e dos outros ordenara em desfavor e quebra do
Infante estas cousas. Uma foi que escreveu a todolos fidalgos e a
cavalleiros do reino em que sentio que havia boa vontade para o Infante,
que sob pena de caso maior por qualquer maneira o no fossem vr. A
outra que mandou poer e publicar editos por todo o reino, que todolos
criados que foram da Rainha D. Lianor, que de suas fazendas e cousas por
seu caso fossem privados, viessem requerer suas restituies, para que
foi dado por juiz Lopo d'Almeida, que como quer que em todalas outras
cousas fosse havido por homem justo e de so entender, n'esta a juizo de
bons (por ventura, porque o tempo assi o queria) no guardou a ordem
direita que devera; porque todo o que os damnificados por simples
petio pediam lhe era sem exame nem resguardado de justia julgado, e
logo executado, em que ajuntavam muitas cousas fra d'esta querella e
d'esta calidade, de que a muitos se seguiu sem causa muito damno. A
outra foi que El-Rei notificou ao Infante D. Pedro que o havia por
degradado de sua crte, e lhe mandava e defendia que sob pena de caso
maior sem seu especial mandado no fosse a ella nem sahisse de suas
terras.

E isto ordenaram assi os contrairos do Infante, porque se receiaram que
elle com a vista e confiana do Infante D. Anrique tomaria por ventura
atrevimento de se vir com elle  crte, onde era certo que em pessoa
alimparia ante El-Rei sua honra, o que a elles para seu desejo fra
mortal inconveniente.

Os Infantes descontentes e maravilhados da sem razo d'estas cousas
acordaram de enviar sobr'ellas a El-Rei, como enviaram Gonalo Gomez de
Valladares, commendador da Ordem de Christo. O qual como quer que pelas
cartas e instruo dos Infantes que levava em todo cumprisse seu
officio; porm porque o juizo d'El-Rei por sua no madura edade, e pelas
falsas opinies em que o criavam andava de todo emnevoado, turnou-se aos
Infantes sem alguma determinada resposta nem concluso. Dilatando-a para
outra pessoa que El-Rei disse que lhes enviaria, o que se no fez.

Partiu-se o Infante D. Anrique para a villa de Soure, e o Infante D.
Pedro para Monte Mr-o-Velho, que so lugares d'onde cada dia se podiam
vr e avisar, e o mais certo e mais so remedio que n'estas alteraes o
Infante D. Anrique achou para seu irmo, em se d'elle despedindo lh'o
leixou e encommendou, que foi sofrimento e paciencia que havia por armas
mais seguras para n'este caso elle sempre vencer.




CAPITULO XCIII

     _De uma frma de concordia que El-Rei fez em escripto entre o
     Infante D. Pedro e o duque de Bragana e d'outras cousas que contra
     o dito Infante se seguiram_


E para mais acrecentarem cuidado e paixo ao Infante, vieram a elle logo
D. Fernando, que por alcunha do povo se chamava Cagonho, e com elle Ruy
Galvo, secretario d'El-Rei, pessoas que descubertamente em todo
desserviam e desamavam ao Infante, estes trouxeram em escripto com
signal e sllo d'El-Rei uma frma de concordia e amizade com corados
fundamentos de bem, que sem saber nem consentimento do Infante, El-Rei
fez entre elle e o duque de Bragana, requerendo estes messegeiros ao
Infante que  mo direita do signal d'El-Rei pozesse n'elle seu signal,
e tambem seu sllo. Porque outro tanto era ordenado que o duque havia de
fazer da outra banda; porque o d'El-Rei ficasse por marco de paz e
segurana d'entre ambos. Mas o Infante pela frma das palavras, que com
pouca honra sua e muito abatimento vinham na concordia, e pela condio
dos messegeiros que a traziam, claramente viu que eram tentaes que
seus imigos ordenavam para mais em breve indinarem El-Rei para sua
destruio, e porm sem esperana que a concordia fosse verdadeira,
assignou n'ella e a mandou assellar assi como lhe fra requerido e
ordenado. Porque o parecer e crena do conde d'Ourem, que isto inventou,
foi que o Infante D. Pedro por sua forte e altiva condio no
obedeceria em assignar tal concerto, e que sua desobediencia daria
corada causa para El-Rei com mais razo ir sobr'elle e o destruir e
castigar como a desleal; porque ao tempo que esta concordia se formava
na crte, se fizeram juntamente cartas de geraes percebimentos de
guerra, para todalas cidades e villas e pessoas principaes do reino,
salvo para o Infante e para seu filho o Condestabre, com o fundamento
que se a isso no satisfizesse de irem logo sobr'elle; mas esta amizade
assi como sem vontade de todos nunca entr'elles se guardou.

E porque isto por esta via no succedeu  vontade dos imigos do Infante,
tentaram o negocio por outra, em que fizeram que El-Rei enviasse, como
enviou ao Infante, Diogo da Silveira, que depois foi escrivo da
puridade, o qual sem merecimento algum o reprendeu em nome d'El-Rei de
cousas em que o Infante nunca tivera culpa, em especial lhe estranhou
muito o aalmamento d'armas e mantimentos que se dizia que contra
servio d'El-Rei em seus castellos fazia, mas o Infante confiando em sua
innocencia, depois de verdadeiramente se escusar das outras falsidades
que lhe assacavam, mandou alli logo em continente mostrar-lhe todo o
castello de Monte Mr, e assi o de Coimbra, que eram os principaes que
tinha, em cujo despercebimento claramente viu a informao que se a
El-Rei fizera ser em todo falsa e maliciosa.

E porm como Diogo da Silveira tornou  crte, logo El-Rei ou por no
ser por elle verdadeiramente informado, ou por outro algum respeito,
tirou ao conde d'Abranches o castello de Lisboa, e a Aires Gomez da
Silva o Officio de Regedor da justia na casa do Civel, e a Luiz
d'Azevedo o Officio de Vedor da Fazenda, smente por serem amigos e
servidores do Infante, tendo-lh'os j confirmados por suas cartas. E a
D. Pedro seu filho pediu o conde d'Ourem o Officio de Condestabre,
dizendo que era d'elle roubado, e lhe pertencia de direito. Mas por no
lhe fazerem uma concesso to fea, sendo seu imigo, El-Rei o deu ao
Infante D. Fernando seu irmo.




CAPITULO XCIV

     _De como El-Rei enviou requerer ao Infante D. Pedro as suas armas,
     que tinha em Coimbra_


Aps estas que para o Infante eram mortaes perseguies, lhe ordenaram
seus imigos outra maior, que foi enviar-lhe El-Rei com muita estreiteza
requerer entrega das armas do seu almazem, que o Infante tinha em
Coimbra, onde ficaram ao tempo que o Condestabre seu filho volveu de
Castella, quando foi em ajuda d'El-Rei D. Joo contra os Infantes
d'Arago, que tinha em Olmedo cercados, como atrs j fica dito.

E do fundamento d'este requerimento se seguia uma das duas concluses
sem outro meio, ambas ao Infante e a sua honra mui perjudiciaes, c se
obedecendo entregasse as armas, ficava de todo com suas mos e foras
atadas sem alguma sua defensa, e se denegasse a entrega, cairia em caso
de rebelio e desobediencia, contra quem a indinao d'El-Rei em tal
caso pareceria justa e de mais razo. Mas o Infante a que estes
movimentos de seus imigos no ficavam por entender, como quer que com
receio d'elles se enviasse algumas vezes, e com muita razo e
honestidade escusar, El-Rei no lhe conheceu de suas escusas, antes
insistio em seu proposito e cada vez com mais graveza. A que o Infante
finalmente respondeu:

Que as armas em tal tempo no lh'as devia nem podia dar, pois em seu
reino e com seus vassallos no tinha d'ellas necessidade, e muito menos
com os estranhos, com quem elle tanta paz lhe procurara, pedindo-lhe por
merc pois as armas de sua innocencia, que eram as mais fortes, com a
contrariadade de seus imigos ante elle o no defendiam, que estas
materiaes e de ferro lhe leixasse por algum tempo para detenso de sua
vida e honra, e que no somente d'estas mas d'outras mais, visto seu
caso com seus merecimentos lhe devia fazer mercn; porque em seu poder e
para seu servio as teria sempre mais limpas e mais certas que no seu
almazem, e que se sua nobreza e real condio comeasse de embicar
n'elle em to pequena contia, sendo a outros em outras muito maiores mui
liberal, que de duas cousas uma houvesse por bem, ou lhe desse tempo
conveniente em que lhe fizesse trazer de fra outras tantas e melhores,
ou mandasse receber o preo d'ellas em dinheiro para o almoxarife de seu
almazem mandar comprar e trazer outras  sua vontade.

Mas El-Rei d'algum d'estes no mostrou ser contente nem satisfeito.




CAPITULO XCV

     _Como o conde d'Arrayolos veiu de Ceuta para concordar o Infante
     com El-Rei, e as causas porque se presumio que estas cousas se
     damnavam mais_


O conde d'Arrayolos a este tempo depois da morte do conde D. Fernando
era capito e governador da cidade de Ceuta, onde por ser muito amigo do
Infante D. Pedro, sendo certificado do engano e malicia que n'estes
feitos andavam, desejando o servio d'El-Rei e doendo-se do Infante,
para cuja perdio todalas cousas se inclinavam, se veiu d'Africa 
crte como homem virtuoso e de justa teno, e como quer que seu pai e
seu irmo tivesse por contrairos, comeou de entender com muita
diligencia na concordia entre El-Rei e o Infante. Mas o duque seu padre,
e o conde d'Ourem seu irmo anojados muito de seu proposito, no o
podendo d'elle desviar faziam com El-Rei que em muitas cousas o
desfavorecesse. Especialmente no o ouvindo as vezes que o conde
requeria e desejava.

E vendo elles com tudo que sua bondade no cansava, e que sem embargo
das fortes contrariadades que recebia tomava por fundamento trazer 
crte o Infante para que per si mostrasse a limpeza de suas culpas,
fizeram novas fingidas, e com cres e signaes que pareciam de certeza,
que os mouros vinham poderosamente cercar, ou tinham cercado Ceuta, com
que o fizeram volver sem alguma concluso em Africa, d'onde no
retornou, salvo depois da morte do Infante. Porque ento leixou
livremente a capitania a El-Rei, que a deu ao conde D. Sancho.

E no foi o conde d'Arrayolos s a que esta enganosa quebra d'El-Rei com
o Infante parecesse assi mal como era razo. Porque muitos outros bons
s vezes publica, e as mais secretamente, quizeram com El-Rei em sua
concordia entender, mas os imigos do Infante punham ao corao d'El-Rei
com informaes erradas taes defensivos, que a lembrana de seus
merecimentos para seu galardo e limpeza nunca na memoria d'El-Rei
podesse entrar. Pelo qual o Infante apressado em sua alma d'estes
continos padecimentos, suspirando pelo conhecimento da verdade, que
havia por mais principal remedio de sua salvao, escreveu a El-Rei por
seus confessores, e por outras pessoas religiosas muitas vezes,
pedindo-lhe em todas por merc, com palavras de muita piedade e com
grande acatamento e obedencia que por testemunhos e induzimentos de
seus imigos o no quizesse julgar nem to maltratar, e houvesse por bem
arreda-los de seus ouvidos, e assim manda-los sair de sua crte, como a
elle por menos causas fizera; porque sendo fra, elle no haveria seus
mandados e determinaes contra si por to graves nem to suspeitas como
ento lhe pareciam, e as cumpriria sem agravo nem escandalo, e lhe
obedeceria com muito amor e lealdade, e que lhe lembrasse a grande
perfeio e amor em que o criara, e a muita verdade e acatamento com que
o sempre servira, e ao pouco que durando seu regimento em sua fazenda e
estado tinha acrecentado. E principalmente por confirmao de sua boa
vontade lhe pedia que no se esquecesse que o casara com sua filha que
tanto amava, e no fra com fundamento e desejo de apagar, mas perpetuar
sua vida e real gerao.

E com estas cousas que traziam fundamento de razo e verdade, e por a
condio natural d'El-Rei ser inclinada a todo razoado bem, muitas vezes
se despunha a lhe pesar dos procedimentos e agravos que contra seu tio
fazia, e certo parecia que as cousas de seu damno e abatimento em que
consentia eram confrangidamente e sem sua vontade. Porque algumas
pessoas dinas de f e autoridade afirmaram, que uma das causas
principaes porque estes feitos entre El-Rei e o Infante mais se
damnaram, foi por entrevirem n'elles cartas falsas; porque umas davam a
El-Rei em nome do Infante, que o Infante nunca mandara, e outras recebia
o Infante com signaes d'El-Rei, em que El-Rei nunca assignara, fazendo
os contrairos do Infante poer n'ellas as sustancias com que os coraes
de uma parte e da outra mais se damnassem.

E por certo presumir-se assi no era sem caso; porque cotejadas as
cartas que n'este tempo se acharam escriptas da mo d'El-Rei para o
Infante com outras muitas feitas por escrives que lhe mandavam, bem
parecia que as da mo d'El-Rei eram proprias, e de filho para pae, e as
dos escrives muito alheias; porque mostravam ser de Rei imigo para
vassallo desleal, e em tanta contradio de cartas de uma s pessoa para
outra, e em um tempo e sobre uma mesma sustancia, claro se podia
conhecer que aquellas em que parecesse a boa vontade eram proprias e
verdadeiras d'El-Rei, e as outras eram acidentaes e postias, ou o mais
certo constrangidas.




CAPITULO XCVI

     _De como El-Rei mandou vir o duque de Bragana  sua crte, e como
     o Infante D. Pedro determinou que em auto de guerra como vinha no
     leixaria-o passar for sua terra_


El-Rei se partiu de Cintra no comeo d'Outubro de mil e quatrocentos e
quarenta e sete para Lisboa, d'onde por suas cartas mandou vir  sua
crte o duque de Bragana, de que o conde d'Ourem seu filho mostrou a
El-Rei para seu conselho e servio grande necessidade, e o aviso secreto
que o duque de seu filho houve, foi que viesse mais em auto de guerra
que de paz; porque j tinham commovido El-Rei para ir logo sobre o
Infante D. Pedro. O qual pelas espias que com todos trazia foi logo
certificado dos percebimentos de gentes e armas que o duque para isso
fazia, e como fazia fundamento de vir e passar em tal auto, e sem prazer
do Infante por suas terras, e sobre o que o Infante n'isso faria, de
resistir com fora sua passagem, ou a dessimular com paciencia, teve com
os seus conselhos, em que houve votos desacordados, e finalmente o
Infante seguindo a opinio do conde d'Abranches e d'alguns outros que
com a sua conformaram, determinou com armas lhe resistir, mostrando que
recebia de Deus muita merc despoer-lhe assim de uma pessoa a elle to
damnosa, vingana to bem aparelhada e tanto desejada, pelo qual de
Coimbra se foi  sua villa de Penella, d'onde as novas de seu fundamento
correram logo  crte d'El-Rei que era em Santarem, e com todo o
desfavor do Infante alguns fidalgos seus amigos e servidores que eram na
crte, sentindo que em tal tempo teria d'elles necessidade, se vieram
logo para elle, assim como Aires Gomez da Silva com Ferno Tellez, e
Joo da Silva seus filhos, e Luiz d'Azevedo, e Martim de Tavora, e
Gonalo d'Atayde, e outros muitos de menos condio, e n'este caso
Alvaro Gonalves da Tayde conde da Atouguia e seus filhos, sendo criados
e feitura do Infante, pelo no irem servir n'esta jornada, foram como
ingratos  sua criao e bemfeitoria geralmente bem reprendidos,
especialmente que para sua encuberta usaram de praticas, e fazendo-se
manhosamente e por suas astucias prender e impedir, para no irem
acompanhar e servir o Infante, fazendo-o j desleal e contrairo ao
servio e obediencia d'El-Rei.

O Infante D. Pedro, porque a este tempo ainda tinha no Infante D.
Anrique sobre todos grande esforo e muita confiana, mandou logo a elle
que era em Thomar, Joo Pirez Diogo, seu cavalleiro, e por elle lhe
enviou notificar e trazer por extenso  memoria os muitos agravos e
desfavores que d'El-Rei por seus imigos tinha recebidos, e como lhe
parecia que estas cousas, segundo as via guiadas do odio e viradas
contra toda razo e justia, que apertavam muito para sua destruio,
avisando-o mesmo por mais claro argumento d'isso, da maneira em que o
duque vinha, e como a seu despeito queria passar por sua terra e com que
fundamento, pedindo-lhe que em tanta e to injusta pressa e angustia
como esta em que estava, elle por sua bondade e com seu valor e
auctoridade, pois era em sua mo, lhe quizesse valer, afirmando se,
porm, que seu proposito e determinao era impedir por fora e sem
escusa a passagem do duque, pois vindo em sombra de poderoso e tendo
outro caminho por que sem escandalo poderia ir  crte, determinava vir
pela Louz, que era sua villa, sem lh'o primeiro fazer saber.

E o Infante D. Anrique por ento lhe respondeu, que do que ento em seu
caso, e em tal tempo melhor lhe parecesse, lh'o enviaria logo dizer.
Como enviou uma vez por Ferno Lopes d'Azevedo, Comendador Mr de
Christus, e outra por Martim Loureno, tambem Cavalleiro da Ordem, cuja
concluso foi: que o Infante D. Pedro no fizesse de si alguma mudana,
at elle Infante D. Anrique no ser com elle em pessoa, para que dizia
que se aparelhava.




CAPITULO XCVII

     _Do recado que o Infante D. Pedro enviou ao duque, sendo j em
     caminho_


O Infante D. Pedro como era prudente, e por no poer em seu proposito
trabalhos escusados, e no fazer despezas baldadas e no necessarias,
antes de o duque passar o Mondego, para saber a teno com que vinha,
enviou a elle primeiro Vasco de Sousa, fidalgo de sua casa, e por
virtude de uma carta de crena que levava, em presena dos que com elle
vinham publicamente lhe disse:

Senhor, o Infante, meu Senhor, soube de vossa vinda, e d'este auto de
guerra em que com tantas gentes vindes, e  certificado, que quereis
assi, sem seu prazer, passar por sua terra, de que  muito maravilhado,
assi por esta novidade de gentes armadas, que sem necessidade d'El-Rei,
seu Senhor, nem do reino levaes, como por lh'o no fazerdes primeiro
saber, que pois assi o determinaveis, que quer saber de vs em que
maneira vos ha de receber, e que se houver de ser como irmo e amigo,
como elle deseja, que queria que vos vades ch e pacificamente, como
sempre fostes, e que d'elle e em suas terras recebereis aquella honra,
prazer e gasalhado, que sempre recebestes, e que se com este
desacostumado estrondo d'armas quizerdes assi passar, que por quanto
pela quebra e rompimento em que com elle estaes, a elle seria fraqueza e
abatimento consenti-lo, saibaes que vos hade receber no campo como
imigo, mas que n'este caso por escusardes os males e damnos que se
d'esta viagem podem seguir, deveis tomar outro caminho porque vades,
pois sem seu abatimento nem muito trabalho vosso o podeis bem fazer.

E com isto Vasco de Sousa se despediu, e tornou ao Infante.




CAPITULO XCVIII

     _Da resposta do duque ao Infante D. Pedro_


Aps o qual o duque enviou logo a resposta ao Infante, que ainda era em
Penella, por Martim Affonso de Sousa, fidalgo de sua casa, que em
presena de todos lhe disse:

Senhor, o duque meu Senhor vos notifica por mim em resposta do que lhe
ora enviastes dizer, que depois que nascestes, sempre vos teve por irmo
e amigo, a que desejou fazer prazer e servio, e que agora por este vos
tem, e no com menos desejo e vontade, e que por cumprir o que El-Rei
lhe mandou, vae a sua crte por esta estrada publica, e que a gente que
traz no  d'ajuntamentos nem d'alvoroo como vos fizeram crr, mas  a
que o soe de acompanhar, e que de vir em acertamento seguido para a
crte caminho direito, haver de tocar vossa terra, que no sabe como
seja caso d'agravo nem escandalo vosso; porque n'ella no ha de
consentir que se faa damno, fora, nem tomadia, smente pedirem alguns
mantimentos se forem necessarios, por seus dinheiros, como vs podereis
fazer em suas terras quando por ellas de vontade, ou por necessidade
quizesseis passar, e que por tanto elle determina todavia seguir assi
seu caminho sem outro desvio, que vos pede que o hajaes assi por bem.

E o Infante sorrindo-se fingidamente e com cara cheia de verdadeira
sanha, lhe respondeu:

Martim Affonso, dizei ao duque, que no sou to nescio nem elle to
avisado, que com suas dissimulaes haja de enganar minha pessoa, nem
abater minha honra; muitos dias ha que nos conhecemos, e muitas vezes
passou j por minha casa e por minhas terras; e me lembra bem a gente
que trazia e a que tem, e agora sei que traz mil e seiscentos de cavallo
armados, com outra muita gente de p que para esta vinda ajuntou sua e
alheia, o que no responde aos tempos passados nem menos  paz e amizade
que comigo quer ter. E no lhe declarando mais o fim porque assim vem,
pois elle o sabe, nem o abatimento que n'isso recebo pois o deve
entender. Finalmente lhe dizei, que se elle no toma algum outro modo de
vir, porque a todos parea e seja notorio que elle por minhas terras vem
pacificamente e como irmo e amigo, saiba que vivo lh'o no hei de
consentir.

E com isto Martim Affonso sem outro mais repouso se despedio.




CAPITULO XCIX

     _Do que o conde d'Ourem ordenou em favor do duque seu pae para no
     leixar de proseguir seu caminho, e dos recados que El-Rei ao
     Infante D. Pedro enviou_


E o Infante D. Pedro vendo j por estas premissas passadas que o
recontro e peleja com o duque em concluso se no podia escusar, fez
para isso aquelles percebimentos de gentes, armas, artelharias,
mantimentos e cousas que sentio serem necessarias, e com aquella
trigana e diligencia que o caso requeria. Das quaes cousas todas como
passavam o conde d'Ourem foi logo na crte avisado, e por favorecer a
parte do duque seu padre no sendo bem seguro e confiado de muitos que
n'aquella viagem o acompanhavam, temendo que na maior affronta o
leixariam, fez crr ao Infante D. Fernando, irmo de El-Rei, que por ser
casado com a neta do duque, filha do Infante D. Joo, este caso era
proprio seu. Pedindo-lhe que aos que com o duque vinham quizesse
escrever e encommendar sua honra para que em tempo d'alguma affronta e
necessidade se sobreviesse, como fracos o no leixassem.

E de ter o conde este receio e desconfiana no era sem causa; porque os
mais dos fidalgos da companhia do duque com que refizera tanta somma de
gente, no eram de sua casa mas vinham acostados a elle por aquella
jornada smente, e no com fundamento de tomarem por elle armas contra o
Infante D. Pedro, mas pelo terem na crte em sua ajuda e favor para seus
negocios e requerimentos que esperavam fazer. E o claro conhecimento que
o duque na vespera da affronta d'isto tomou, lhe fez no esperar o dia
que para ella se aparelhava, como ao diante se dir.

E porm o Infante D. Fernando como era de mui pequena idade em que o
sangue fervia, no smente satisfez ao conde com cartas que ordenou 
sua vontade, mas ainda se offereceu ir em pessoa em ajuda do duque, e
assi lh'o escreveu logo e aos seus, por Alvaro de Faria, que depois foi
Commendador do Casal, cuja ida por ento no houve effeito; porque as
guardas que o Infante nos caminhos trazia o tomaram, e foi a elle
trazido, e tomou-lhe as cartas e as leu, e o fez tornar para Santarem, e
posto que do Infante nem dos seus no fosse em nenhuma outra cousa
maltratado, elle depois de ser na crte o no apresentou assi, antes no
desbarato e destroo da sua pessoa e de seu cavallo, que de industria
fingio, se mostrou ser de todo por mandado do Infante despojado,
affirmando que dissera sobre tudo algumas palavras mui contrairs s
verdadeiras, e no do reprender com o despedio de si, com que poz os
feitos contra o Infante em maior alvoroo e perseguio; porque El-Rei
mandou logo riscar de seus livros o assentamento e todalas tenas que o
Infante d'elle tinha, e deffendeu aos almoxarifes que d'hi em diante
mais lh'os no pagassem. E assi escreveu ao Infante por Joo Rodrigues
Carvalho, escudeiro de sua casa, defendendo-lhe com grande estranhamento
que no tivesse ao duque o caminho, e o leixasse passar livremente,
pois o ia servir. Do qual recado foi o Infante mui triste, e mostrou
grande sentimento, e sobre a sem razo de seus agravos e perseguies
fallou algumas cousas ao messageiro que pareciam de aspereza, mas no
to feias nem assi malditas, que se no podessem dizer de um agravado
servidor a um Senhor mal informado. Mas Joo Rodrigues como tornou 
crte, ou de sua no boa vontade, ou por ser dos contrairos do Infante
assi induzido, afirmou que o Infante publicamente dizia que no era
vassallo d'El-Rei de Portugal, mas subdito e servidor d'El-Rei de
Castella, e que assi como podera desterrar d'estes reinos a rainha D.
Lianor, que outro tanto saberia fazer aos filhos. Com outras enormes
palavras mui contrairas s que o Infante com elle fallou, com o teor das
quaes se fizeram logo autos, e tomaram publicos estromentos, que para
mais indinarem o povo contra o Infante, logo foram pelo reino enviados.

Aps Joo Rodrigues, veio ao Infante D. Pedro de mandado do Infante D.
Anrique, o Bispo de Ceuta D. Joo, que com quanto tinha afeio ao conde
de Ourem por ser da criao do Condestabre, era porm homem de grande
prudencia e de s e justa teno. E como quer que apontasse ao Infante
muitas causas e razes, porque catolicamente, e segundo a obediencia em
que a El-Rei era obrigado no devia impedir a passagem do duque. Em fim
no o pde mover da sua determinao, aprovando-a o Infante com outras
razes de honra e cavallaria, e porm taes que no desfaziam nada de sua
lealdade a El-Rei, afirmando-se que se o duque quizesse vir em frma de
pacifico e amigo como sempre viera, que elle o receberia e lhe faria
honra e acolhimento como a irmo e amigo, segundo sempre fizera, e que
d'outra maneira lh'o no havia de consentir, como por Martim Affonso lhe
mandara dizer.

E estando as cousas n'este ponto, e esperando ainda o Infante D. Pedro
em Penella pelo Infante D. Anrique, como lhe tinha enviado dizer, soube
que elle sem lh'o fazer saber se partira para Santarem onde era El-Rei e
sua crte, de que o Infante D. Pedro recebeu muita torvao. E no sei
como esta virtude de piedade falleceu n'este Principe para seu irmo,
pois em seu corao todalas outras parecia que sobejavam, de que alguns
disseram que El-Rei por enfraquentar a parte do Infante D. Pedro, o
mandara chamar sabendo que o queria ajudar, e outros afirmaram que elle
fingira tal chamamento por no ser com seu irmo, vendo j sua
determinao de ir contra a defesa d'El-Rei, e por fora d'armas
resistir  vinda do duque.

E no comeo do mez d'Abril d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta
e nove, veiu ao Infante em Penela Ferno Gonalves de Miranda com uma
grande instruo d'El-Rei, cuja concluso foi estranhar-lhe muito
algumas cousas, em especial seus ajuntamentos e o movimento contra o
duque, mandando-lhe em concluso que se tornasse a Coimbra, d'onde sem
seu mandado no saisse, e leixasse o duque sem contradio passar assi
como vinha. E que se o no fizesse, que fosse certo que logo procederia
contra elle assi rigorosa e asperamente, como tamanha desobediencia
merecia.

A esta embaixada d'El-Rei respondeu logo o Infante, justificando com
largas razes seu proposito, concluindo que pois sua Merc o mandava
contra sua honra e estado tornar atrz, que outro tanto devia mandar ao
duque que primeiro comeara, e que posto que na priminencia das pessoas
de um e do outro havia em tudo tanta diferena, como ao mundo era
notorio, que este caso d'ambos julgasse e houvesse por igual, e ao menos
o que defendia a um, no consentisse ao outro. E que pois sua Merc por
ento no tinha de gente d'armas to eminente necessidade, mandasse que
o duque passasse por sua terra em modo pacifico, e com a gente de sua
casa ordenada, e que n'esta maneira o receberia como a irmo e amigo, e
lhe faria e mandaria fazer muita honra e bom acolhimento, como sempre
fizera, e que em outra maneira recebendo n'isso tamanha mingoa no o
havia por seu servio, pela grande parte e razo que com seu real sangue
tinha e com esta resposta o despediu.




CAPITULO C

     _De como o Infante D. Pedro determinou impedir a passagem ao duque,
     e se percebeu e partiu para isso_


E porque o Infante D. Pedro foi avisado que o duque no leixava de
proseguir o caminho que comeara, deu logo grande trigana  sua
partida, e teve conselho onde e como o esperaria, e alguns lhe
aconselhavam, que para sua justificao o leixasse primeiro entrar em
sua terra, mas o Infante disse que a todo seu poder o duque por aquella
vez no trilharia nenhuma pequena parte da herana que possuia, e que
fra d'ella o queria esperar. Pelo qual de Penela moveu logo com sua
gente e carriagem, e se foi  Lous, e d'hi logo a uma alda sua que se
diz Villarinho, onde soube que o duque era em Cja, couto e lugar do
Bispo de Coimbra, alli concertou e proveu o Infante sua gente, e ordenou
com muita destreza suas batalhas, dando a avanguarda a D. James seu
filho e com elle o conde d'Abranches, e tomou a reguarda em que havia de
ficar.

Alli foi ao Infante dada secretamente uma carta com letra mudada e sem
signal, em que o aconselhavam que logo movesse contra o duque porque o
no havia d'esperar, mas o Infante publicamente disse que aquillo era
em favor do duque assi lanado, e para elle manifesto engano com que o
queriam fazer algum tal desmando, de que esperando victoria ficasse
vencido; porque bem cria que o duque que tantos annos se intitulara de
filho de tal Rei, e que de tanta e to honrada gente, para qualquer
pesado feito vinha to bem acompanhado, antes conhecidamente receberia
morte, que tornar atrs nem consentir em tal fraqueza,  sua honra e
estado tanto contraria.




CAPITULO CI

     _De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a
     cavallo_


Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla,
em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que j
havia dias que a tinha cuidada.

Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforo, despejo, e
segurana que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que
no era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no
amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de
seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e
perseguies, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do
conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes
justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingana ali
eram vindos, e que no cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que
tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu
vassallo e servidor, o reconhecia algum no, porque Deus sabia que elle
o amava e era razo que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na
criao que em sua real pessoa fizera, e na governana, paz e
conservao de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera,
quem sem paixo o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui
autorisada, e que o agravo que tinha no era da natural inclinao
d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente no
podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que
a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, no
fra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos
muito lhes tinha dado; mas porque lhe no dera todo, especialmente por
no dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimares, que muitas
vezes com outras cousas da cora mui cegamente lhe pedira, e que o
acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fra smente de muito
amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao
mais leal do mundo no conheceria avantagem; porque da herana da cora
de Portugal, no falando na que El-Rei D. Joo seu padre lhe dera, ainda
a primeira merc e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus
contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca
d'El-Rei, seriam para suas cobias e acrescentamentos cousas mui
suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei
do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do
duque por sua terra, e na maneira em que vinha, no era com verdadeira
necessidade de servio d'El-Rei, mas smente pelo abater, ou por dar
causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruio; porque se o
assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de corao
com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque
muita gloria, se lhe resistisse indo  crte, que lh'o reputariam a
desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem
para o que tanto desejavam. E porm que por ser quem era, e decender de
quem decendia, finalmente o no havia de consentir, e que tanto esforo
teria de morrer sobr'isso vencido com um s page, como ento tinha
esperana de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e to bons
amigos e criados, e que por isso era escusado esfora-los para a
vingana de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via
para isso to esforados, antes se o caso viesse a rompimento como
esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os
olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdo a Deus
com palavras de muita devoo, e se encomendou a elle, e  Virgem Maria
sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.




CAPITULO CII

     _De outra falla que o duque tambem fez aos seus em seu favor contra
     o Infante, e de como Alvaro Pires de Tavora lhe respondeu_


O duque de Bragana no leixou de continuar sua viagem at duas legoas
da Louz, crendo que o Infante D. Pedro com todas suas ameaas no
ousaria de lhe resistir, nem se moveria de Penella, assi por no quebrar
o mandado e defesa d'El-Rei que para isso tinha, como pela pouca gente
de que se percebera. E porm como pelas espias que trazia, soube que o
Infante estava j em Serpiz, que era d'elle pouco mais de uma legoa, e
vinha com determinao de peleja, foi posto em muito cuidado, e mandou
alojar sua gente com aquelle resguardo e seguridade que para o tempo e
caso cumpria, e ajuntou logo os fidalgos e pessoas principaes de sua
companhia para ter conselho sobre o que faria, ante os quaes disse:

Ns somos aqui to acerca do Infante como sabeis, e j devemos crr que
vem com determinao de por fora nos resistir, vde qual ser melhor,
ou o esperarmos aqui, ou irmos adiante busca-lo, ou por evitarmos as
mortes e danos que d'este recontro se podem recrecer nos tornarmos atrs
e seguirmos outro caminho, porque aqui por agora no  dar outros
meios.

Sobre o qual houve entre elles votos desvairados, e em fim Alvaro Pires
de Tavora, disse:

Senhor, a mim parece que para quem soes, e para a determinao com que
partistes, e para a gente que levaes, seria cousa mui vergonhosa, e para
vossa honra de grande vituperio, tornarde-vos atrs nem uma s passada;
porque em caso que para Deos fosse razoada encoberta, dizerdes que por
escusardes mortes e outros danos o fazeis, o mundo com que agora vivemos
vo-lo no ha de levar n'essa conta, mas estimarvo-lo-ha como  razo,
por grande fraqueza e assinada judaria; soes grande imigo do Infante e
elle vosso, e as mais palavras e dissimulaes so escusadas. Porque a
amizade que El-Rei entre vs ambos assentou, bem sabemos que foi uma
frma falsa de palavras de que nunca soubestes parte, e assi nunca a
guardastes; porque depois sempre em vossas cousas vos tratastes como
imigos, e vs o sabeis, e que digaes que El-Rei vos manda chamar, no 
o Infante to privado do entender, consiradas as cousas passadas e o
auto em que his, que no entenda que  sem fundamento de seu mal, e de o
resistir e contrariar em sua terra, sabei que como Principe e como
Cavalleiro tem razo e faz o que deve, e por tanto meu conselho , que o
que elle quer fazer vs o faaes primeiro, que ser irmo-lo buscar, e
nos desponhamos  ventura que nos vier.

E este conselho aprovou o duque por melhor, e determinou ento de o
seguir. Pelo qual porque soube que o Infante o havia d'esperar no
estremo e confins de sua terra, a que j estava mui chegado, foi alli
com esses principaes vr o lugar de melhor disposio para a peleja, e
assi partir e escolher o campo para elles mais seguro. E des-hi volveu a
seu alojamento, e fez ajuntar todolos seus, e com quanto era de pouca
fala, com a contenena grave e segura lhe fez um razoamento n'esta
maneira.




CAPITULO CIII

     _D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou
     no leixar o seu caminho_


Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu
Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco
este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora
sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito
Senhor, vem por elle com proposito de por fora m'o impedir, e porque eu
por muitas causas que todos entendereis, sou em determinao de todavia
seguir vante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e
afronta que sobrevier, por servio d'El-Rei meu Senhor e minha honra
esforceis os coraes, e desenvolvaes as mos como de vs e de vossas
bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria  nossa
sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante  pouca para a nossa,
e vem constrangida e cortada toda de temor; porque alm de conhecerem o
dano a que se despem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo
contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por
sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o
leixaro. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes no solteis
vossas mos e ferro a toda a crueza, pois em fim so christos e
vassallos de El-Rei meu Senhor, e  verdade innocentes, ainda que tenho
grande receio  vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu
filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento sero comnosco, que
por ventura nas mortes e danos d'estes no querero ter esse resguardo,
mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois  causa d'isso, e
este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei
meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercesso
vo-lo satisfar com honras e mercs, como a bons e leaes vassallos que
soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.




CAPITULO CIV

     _De como o conde d'Abranches fallou ao Infante, aconselhando-o que
     desse no duque_


O Infante D. Pedro que era j no lugar de Serpiz, soube logo como o
duque viera vr e repartir o campo, e assi da falla que aos seus fizera,
e porque de um a outro no havia j mais de meia legoa, o conde
d'Abranches assi armado como chegou, sem mandado do Infante se apartou
com alguns, e foi vr o arraial do duque; porque da gente e assento
d'elle se informasse para o que esperava, e em tornando lhe perguntou o
Infante com mostrana de lhe pesar d'onde vinha, e o conde lhe
respondeu:

Senhor, venho de vr vossos imigos, de que prazendo a Deus e ao
bemaventurado S. Jorge vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingana,
e peco-vos por merc que a no dilateis para mais, e hi logo dar
n'elles; porque na desordem e tristeza em que esto, do j certos
signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e no percaes
to bom dia; porque j em vossa vida nunca havereis outro tal, e no
alongueis a vida a quem se lh'a hoje daes, sabei que a encurtar mui
cedo a vs, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e
afortaleza no quer vir vante, e ou se tornar para trs como veiu, ou
escondido se salvar por outro caminho.

E o Infante lhe respondeu: Conde, no creaes que o duque por filho de
quem , e acompanhado e aconselhado de to bons fidalgos como com elle
vem, especialmente que  assaz entendido, tome nenhum d'esses sestros
que abata sua honra; antes pois j determinou de vir, elle vir, e ambos
como Deus ordenar esperimentaremos nossas fortunas, e por hoje  bem que
repousemos e provejamos no que nos cumpre, e a elles demos lugar que
para taes vistas se percebam  sua vontade. Ao menos porque com a culpa
de nosso salteamento e trigana, no se encubram e escusem da fraqueza e
leve resistencia, que prazendo a Deus n'elles acharemos. E praza a Deus
que ou se tornem, ou desviem por alguma maneira como dizeis; porque com
guarda de minha honra eu os no veja, e elles possam salvar suas vidas,
c em fim patrimonio so d'El-Rei meu Senhor, em que me sempre pesar
minguar e fazer estrago.




CAPITULO CV

     _De como o duque no quiz esperar o Infante, e se salvou
     atravessando secretamente a Serra d'Estrella, e do que o Infante
     sobr'isso disse e fez_


O duque n'aquelle dia que era sexta-feira ante do domingo de Ramos;
porque soube que corredores do Infante vieram vr seu arraial, tambem
mostrou que se provia e aparelhava, como quem determinava no desistir
de seu proposito, e menos negar a peleja, e segundo o pulso que  sua
gente tomou, no achou em todos aquella fortaleza e esforo, que para
tal afronta se requeria; porque como atrs disse muitos d'elles no eram
proprios seus, e vieram smente com elle pelo acompanhar pacificamente
at  crte, sem esperana nem aviso de tal recontro, especialmente
contra o Infante D. Pedro, a que muitos d'aquelles tinham afeio
secreta, e desejavam servir.

Pelo qual, o duque vendo a fraqueza d'estes, com que no convinha meter
sua vida e honra a um to certo e to chegado perigo, ou por ventura
aconselhado do pouco esforo de seu corao, em que por ento foi mui
culpado, determinou em si mesmo de no seguir adiante nem cometer o
Infante, nem menos o esperar. E ordenou poer-se secretamente em salvo
como fez, e no se quiz tornar atrz como viera; porque foi falsamente
certificado, que as pontes e barcas do Mondego porque passara, eram por
mandado do Infante j todas quebradas e tomadas, o que no foi. Para o
qual a mesma sexta-feira ante do domingo de Ramos d'este anno de mil e
quatrocentos e quarenta e nove, o duque apartou alguns seus a que
revellou o modo de sua partida, e por se escusar rumor nem algum
sentimento d'ella, lhes mandou que um e um dessimuladamente se saissem
do arraial, e elle com duas ss guias que tomou, em se cerrando a noite
se sahiu a cavallo, e se foi com elles ajuntar, que com mui grande
perigo e trabalho dos corpos e cavallos atrevessaram a Serra d'Estrella,
que lhes jazia  mo esquerda; porque os montes eram grandes e frios, e
a serra estava ainda com neves dobradas, de que o duque por ser j mui
velho recebeu to grande padecimento que foi em ponto de morte, e porm
da grande frialdade que padeceu ainda lhe ficou d'alli o pescoo e a
cabea baixa em quanto viveu.

E os seus que leixou, como souberam de sua partida, que foi sendo j
grande parte da noite passada, foram postos em grande desmaio, e cada um
como melhor pde se apressou de o seguir no sem grande desmando e
nenhum acordo, e com perda de muitas cousas que leixavam, crendo que o
Infante ou sua gente os seguiria. E assi passaram a serra do Ba at
descerem a outra banda de meio dia contra Covilh, em que pela grande
aspereza dos caminhos e as muitas neves e regelos que n'elle jaziam, os
homens suportaram frios e trabalhos incomportaveis, e assi morreram e
atereceram muitos cavallos e azemolas, de que muitas ficavam. E se
perdeu muita fardagem que os da montanha vieram recolher. E no cimo da
serra onde dizem Albergaria, acharam mortas de frio algumas pessoas a
que no houve remedio.

As escuitas que o Infante sobre a gente do duque sempre trazia, no
houveram sentimento de sua partida, salvo depois que o geral rumor de
todos todo lh'o certificou, que foi a tempo em que o duque j teria
andadas quatro ou cinco leguas. E por se mais verdadeiramente afirmarem
do caminho que levara, no trouxeram ao Infante certo recado se no em
amanhecendo, da qual cousa sendo o Infante certificado, mostrou receber
por isso tanta gloria e alegria, como pareceu que os seus houveram de
pena e tristeza, por o duque se ir assi livrememente e sem contenda, e
alguns requereram ao Infante licena para ainda lhes irem seguir o
encalo, mas o Infante o no consentio, antes lh'o defendeo, dizendo
que os leixassem ir embora, e que de assi ser, dava por isso muitas
graas a Deus.

E porm a opinio dos mais foi que o Infante errara muito, tendo o duque
to acerca e em to boa disposio para o cometer, no dar n'elle e o
matar se podera; porque quanto alongou sua vida, como o conde
d'Abranches lhe disse, tanto antecipou a morte de si mesmo como depois
se seguio.

E feito isto, o Infante porque a gente que tinha j lhe no era
necessaria por ento, fez ajuntar todalas pessoas principaes que hi
eram, e com aquellas palavras que mereciam, os que para tal servio com
to boas vontades se offereceram e disposeram, lhes deu a todos grandes
agardecimentos, e os despedio com sinaes de muito amor e obrigao,
leixando smente os continos de sua casa, com que passado o dia de Ramos
se tornou a Coimbra.




CAPITULO CVI

     _Como o duque se foi a Santarem onde era El-Rei, e do que se fez
     contra, o Infante_


E o duque como da banda de Covilh acabou de recolher a gente que o
seguio, fez logo seu caminho para Santarem. Onde por aviamento do conde
seu filho, foi de toda a crte assi grandemente, e com tanto triunfo
recebido, como se o merecera por batalhas campaes, que contra imigos
vencera.

E isto foi por seus aderentes assi ordenado, porque com esta face de
fingida honra encobrissem ao mundo o envs do verdadeiro abatimento que
o duque em sua vinda tinha recebido. Porque para o proposito com que de
suas terras o duque partira, e para a muita gente que comsigo trazia,
sempre os seus na crte afirmaram que o Infante D. Pedro por sua pouca
fora no ousaria de o cometer, nem lhe defender o caminho. Dando a
entender que as mostranas de resistencia que o Infante fazia, eram tudo
rebolarias do conde d'Abranches, porque n'estes feitos se governava. E
porm assi emprimiram todo o que quizeram no novo e molle entendimento
d'El-Rei, que a injuria d'este caso lhe faziam crr que no era do
duque, mas propria de sua pessoa real.

E porque no conselho em que ante El-Rei esto se praticava, o Infante D.
Anrique terou um pouco em favor do Infante seu irmo, afirmando que no
consentiria dizer-se, que nenhum filho d'El-Rei D. Joo faria injuria a
seu Rei e Senhor, fez no que contra o Infante D. Pedro ento se requeria
mui grande contrariedade, com que muitos do conselho se foram, e
folgaram de o ajudar, crendo que o Infante D. Anrique clara e
descubertamente a seu irmo queria j valer, e alegravam-se, desejando
aproveitar ao Infante D. Pedro terem-no para isso por cabeceira, sem o
qual consirada bem a disposio do tempo, e pelos contrairos serem de
grande condio no ousavam. D'onde segundo a opinio dos prudentes e
pessoas d'autoridade, que d'estes feitos tiveram conhecimento, se creu
que o Infante D. Anrique n'estes dias falleceu ao Infante D. Pedro com
aquelle verdadeiro amor, favor, e ajuda que como a irmo e amigo lhe
devia; porque com muito seu louvor, e sem mingoamento de sua muita
lealdade lhe podera valer, por maneira com que a El-Rei, e a sua cora
fizera muito servio, e ao Infante seu irmo desviara morte to crua e
to abatida como recebeu, e sua to honrada casa no cahira de todo como
cahiu, segundo adiante se dir, e porque o Infante D. Anrique sobre suas
muitas virtudes era assaz prudente e discreto, bem  de crr que esta
piedosa bondade para seu irmo, muitas vezes lhe tocaria e espertaria a
memoria, e para o no fazer, o mais honesto e seguro seria leixar a
determinao em duvida, salvo se a causa d'isso attribuissemos a algum
oculto Juizo Divino.

E por tanto, porque a boa vontade do Infante D. Anrique no perseverou
no favor do Infante seu irmo como logo ento atentou, foi a querella do
duque ouvida d'El-Rei, e posta e crida no mais alto encarecimento de
fealdade, que contra seu servio e estado se podia cometer. Pelo qual
logo El-rei comeou publicamente declarar a irosa vontade e grande
indinao que contra o Infante D. Pedro tinha, a que por aviamento de
seus imigos tambem ajuntava o desterro e morte da Rainha D. Lianor, sua
madre. E porque no recontamento de suas afeies, desamparo e pobreza,
que at morrer passara, o caso contra o Infante mais s'agravasse, faziam
com as Infantes irms d'El-Rei, que eram meninas, e com os criados da
Rainha, que de todas as partes faziam vir, que com lamentaes e
forosos choros as apresentassem ante El-Rei muitas vezes, pedindo-lhe
por isso do Infante D. Pedro justia e vingana, como de culpas e crimes
j claros e manifestos.




CAPITULO CVII

     _De como El-Rei declarou o Infante por desleal, e mandou fazer
     geraes percebimentos de guerra para ir sobr'elle_


Enviou logo El-Rei cartas de percebimentos de guerra por todo o reino,
com declarao de querer por desobediencia e deslealdade do Infante D.
Pedro ir contra elle, e assim mandou poer outras cartas publicas de
perdo geral para todolos humiziados, que por quaesquer casos andassem
fra do reino, se n'esta ida contra o Infante o viessem servir, e assim
se fizeram outras de editos porque mandava a todalas pessoas que eram
com o Infante de qualquer estado e condico que fossem, que a certas
horas sob pena do caso maior se partissem logo d'elle, e d'estas algumas
se pozeram nas praas publicas de Santarem, e outras haviam de ser por
notarios publicadas em Coimbra onde o Infante era, e os primeiros que
para isso foram ordenados cometeram o caminho, mas com receio no o
seguiram e se tornaram, em cujo lugar foi logo ordenado por El-Rei e
enveado a Coimbra Loureno Abril, seu escrivo da camara, homem mancebo
e de bom entender, e como quer que no caminho fosse das guardas do
Infante impedido, houve porm de chegar a elle com sua licena e prazer,
e tanta pressa se deu para a destruio do Infante, que o duque
desapareceu de seu arraial em Coja, bespora de Ramos como atrs fica, e
estes editos chegaram ao Infante em Coimbra bespora de Pascoa. O qual
depois que foi e viu as cartas que Loureno Abril sobr'isso levou, lhe
disse:

Loureno Abril, dizei a El-Rei meu Senhor, que eu s tomo e retenho em
mim esta sua proviso, e que no hei por seu servio e minha honra
publicar-se em tal tempo. No por no querer que em seus reinos e fra
d'elles se cumpram e obedeam inteiramente seus mandados; porque saiba
que eu sou um dos braos mais fortes que tem para lhe ajudar a manter e
cumprir sua vontade e justia. Mas porque estes procedimentos so de sua
ira contra mim, eu apello d'elle contra mim agora mal informado, para
elle mesmo de mim verdadeiramente e como deve depois bem informado.

E com esta resposta, e com outras palavras a estas conformes se tornou
Loureno Abril a El-Rei, que logo comeou de fazer merc a quem lh'a
pedia dos bens e officios dos que eram com o Infante.




CAPITULO CVIII

     _Do que o Condestabre filho do Infante D. Pedro fez, estando entre
     o Tejo e Odiana_


Estes dias com todalas torvaes e necessidades do tempo, o Condestabre
filho do Infante D. Pedro nunca lhe acodiu, e no seria assi sem seu
mandado, antes sempre esteve na comarca d'entre Tejo e Odiana, onde
tinha o Mestrado d'Avis com suas fortalezas, e mais os castellos das
villas d'Elvas e de Marvo, contra o qual fizeram tambem a El-Rei
suspeita, e que se devia segurar d'elle. Especialmente que pela liana e
amizade que o Infante seu padre com o Condestabre e Mestre d'Alcantara
de Castella tinha feita, podia com entrada de gentes estranhas fazer a
este reino muito dano, pelo qual acordou El-Rei de enviar sobr'elle, que
estava ento na Villa de Fronteira, D. Sancho, conde de Odemira como
fronteiro mr.

E davam fama pelo reino para mais indinao do povo, que o Infante D.
Pedro tinha ordenado com ajuda de Castella prender El-Rei e se senhorear
do reino, e assi lanar n'elle grandes pedidos, e outras muitas
opresses se o mais tempo regera.

E sendo o Condestabre d'esto certificado, vendo que Fronteira no tinha
fora nem disposio para n'ella manter cerco nem esperar afronta,
aconselhado sobr'isso com bons cavalleiros e pessoas d'autoridade que
comsigo tinha, se passou a Marvo, onde confiando na bondade e segurana
da fortaleza esteve alguns dias. E porque o conde D. Sancho todavia se
fazia prestes para o ir cercar, esses cavalleiros que com o Condestabre
eram vendo-o com alguma fantesia de resistencia, a que a nobreza e
esforo de seu corao o inclinava, consirando que no smente  sua
honra no cumpria faze-lo, mas que nos feitos do Infante seu padre podia
muito danar, lhe disseram:

Senhor, estas maginaes de defenso em que vos vemos, ou de esperardes
no campo esta gente que vem, so por agora escusadas; porque a defesa
d'armas e homens que tendes  nada em comparao dos que vem sobre vs,
se cuidaes dar-lhe praa, e tambem para quem soes, e para o sangue de
que descendeis, sabei que seria grande abatimento vosso esperardes
cerco, quanto mais to desesperado de socorro como sabeis que este
seria, principalmente cercando-vos pessoa de menos condio que vs e
com tanto poder a que no podesseis resistir, em especial vindo com nome
d'El-Rei nosso Senhor, a que seria feio desobedecer, e mais se o assim
fizesseis seria em todo desacatar ao Infante vosso padre, e no cumprir
sua vontade nem mandado, pois vos deve lembrar que a voz e nome, e o
servio d'El-Rei nosso Senhor, sobre tudo vos encommendou e encommenda
cada dia, pelo qual nosso conselho , que logo vos passeis aqui a
Valena, que  do Mestre d'Alcantara, em que ha esperana d'achardes
melhor acolhimento, e leixae em vossas fortalezas vossos alcaides com a
gente que as guardem e tenham por vs, com mandado vosso, que se El-Rei
lh'as pedir ou enviar pedir, que descarregando-os de vosso preito e
menagem, lh'as entreguem. As quaes levemente tornareis a cobrar se Deus
pozer os feitos do Infante vosso padre em bem e assesego, como a elle
praza que seja.

Ao qual conselho o Condestabre obedeceu e o cumpriu, e leixou em Marvo
por alcaide um Arthur Gonalvez, que por mandado d'El-Rei entregou a
fortaleza. E o Condestabre se passou a Valena, onde por principio de
suas fortunas comeou logo d'espremenmentar as grande malicias e sobeja
ingratido do Mestre d'Alcantara, que em tudo contrariou, e com nada lhe
respondeu  muita honra e merc, favr e amparo, que em suas grandes
necessidades passadas do Infante D. Pedro poucos dias havia que
recebera, como atrs fica.




CAPITULO CIX

     _De uma carta que a Rainha enviou ao Infante D. Pedro seu padre,
     sobre um conselho que acerca d'elle se tivera para sua morte ou
     destruio, e do conselho e determinao que o Infante sobr'ella
     teve_


Evolvendo o processo ao Infante D. Pedro, estando elle em Coimbra no
sem mortaes padecimentos, pela incertido que tinha do fim que sua vida
e feitos haveriam, foi-lhe dada uma carta da Rainha sua filha, por
Vicente Martins seu secretario, porque lhe notificava, que em um
conselho que sobre seus feitos ento se tivera, fra contra elle
determinado que El-Rei o fosse cercar, e que dando-se ou tomando-se por
fora, houvesse por pena de suas culpas uma de tres cousas. Ou morto, ou
carcere perpetuo, ou desterro para sempre fra do reino, para execuo
do qual El-Rei partiria contra elle aos cinco dias de Maio. E bem  de
crr que a Rainha lhe no enviaria esta carta sem espresso consentimento
e mandado d'El-Rei, cujo bem e amor ella teve sempre em tanta estima,
que pelo conservar e no perder nem minguar como mui virtuosa que era,
nunca nos feitos do Infante seu padre contra o gosto e contentamento
d'El-Rei se quiz entremeter. Esta carta foi dada publicamente ao
Infante, que depois de sem alguma mudana nem torvao a lr, com quanto
n'ella viu que a morte comeava j de bater s portas de sua vida, elle
a cerrou em sua mo e com a cara segura, e mais alegre que triste,
esteve um pedao perguntando ao messegeiro por novas da saude e ba
disposio d'El-Rei seu Senhor, e por as cousas em que se desenfadava, e
porque as respostas redundavam todas em louvores e perfeies d'El-Rei,
o Infante mostrava por isso tomar muita gloria sem alguma mestura da
mortal pena que j recebera e tinha. E com este despejo se assentou a
comer, e depois de acabar se recolheu a sua camara, onde fez logo vir
esses principaes que com elle eram, perante os quaes mandou lr a carta
que tinha, e como a sustancia d'ella era j espantoso prego da ira
d'El-Rei, ficaram todos mui torvados, mais e menos segundo a bondade e
esforo do corao que cada um tinha. E o Infante no dissimulando j
sua infinda paixo e tristeza, com as mos e braos abertos alevantou os
olhos ao ceo cheios d'agoa; porque nos taes casos quando fallava assi o
tinha por condio natural. E disse logo:

D'estes agravos e perseguies em que justia, razo, nem humanidade
no consente, eu primeiramente me queixo a Deos como a s e principal
Senhor de todalas cousas, e depois  Real casa de Portugal em que nasci
e me criei, e a que at agora bem e lealmente sempre servi. E assim 
casa d'Inglaterra em que de sangue tanta parte tenho, e finalmente me
agravo a vs meus criados, amigos e servidores como a participadores
d'esta minha desaventurada fortuna, aos quaes como a companheiros de
meus conselhos e perigos, direi em breve n'este caso minha teno, que 
tomar por melhor, mais honra e mais descano para mim a derradeira parte
d'esta determinao que  a morte; porque das outras de que uma  ser
desterrado, Deos nunca queira que eu filho ligitimo d'El-Rei D. Joo,
que com tanta honra uma vez sahi de seus reinos, fazendo a muitos em
muitas provincias e senhorios estranhos grandes graas e mercs, haja
d'andar sobre minha velhice por reinos e terras alheias, pedindo esmolas
com muito trabalho e grande deshonra minha. Pois da outra que  ser
preso, e que sobre cincoente e sete annos que hei haja de consentir
ferros de justia em minha carne, no sei a quem no parea ser muito
menos mal morrer, e este por mais bem e maior honra escolho para mim,
como disse. Mas porque at agora em todas minhas cousas e alheias que
tratei sempre, me prouve ser bem aconselhado, n'esta que me parece ser a
derradeira, o devo e queria ser melhor. E por isso vos rogo e encomendo,
que esguardadas bem todalas circumstancias d'esta fortuna, e a callidade
e priminencia da minha pessoa, queiraes sobre tudo consirar, e cada um
de manh me dizer seu parecer, lembrando-lhe que meus imigos segundo
esta nova determinao devem logo vir sobre mim, e partir de l a cinco
dias de Maio. E que diga meus imigos, nunca por amor de mim, e por
segurana de minha limpeza entendaes que o digo por El-Rei meu Senhor,
nem que o meto n'esse conto. Porque em caso que sua merc venha com
mostrana de ira sobre mim, sempre crerei que seu corpo vir com enganos
de meus imigos forado, a que sua nova edade no sabe nem pde resistir,
mas que sua vontade sempre para mim e minha honra ficar livre e s,
como se espera de Principe bom e agardecido como elle . E porm meu
primeiro movimento  n'esse mesmo dia partir d'aqui, e os ir buscar e
esperar no campo, e pedir a Deos e a El-Rei meu Senhor justia e
vingana d'elles, como de qnem to sem razo tanto damno e perda me tem
feito. E quando se por meus peccados assi no seguir, contentar-me hei
acabar como cavalleiro. E porm d'agora para em todo tempo e sempre
protesto, que seja com verdadeiro nome de bom e leal vassalo, e servidor
d'El-Rei meu Senhor.




CAPITULO CX

     _Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposio
     foram dados_


Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que
alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres concluses
sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma no falleceram estas
vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e
bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio
que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom
christo que era, no devia por si ir buscar a morte, mas antes
espera-la, em que havia muitas esperanas de vida, e quando sem razo
lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender
sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui
autorizados exemplos, e que elle por mr resguardo de sua lealdade e
mais segurana de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer
e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mr o Velho e de
Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse
cercar, e que sendo a cidade to forte, e tendo elle tanta e to boa
gente comsigo, El-Rei por fora o no poderia logo tomar, e que para lhe
poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, no havia
disposio nem possibilidade para isso, e que com Monte Mr teria tambem
a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam
portas abertas para sua salvao, e que por esta maneira no encurtaria
como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim
por sua condio tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei
assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforando seu
juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova
idade por ento no alcanava, quanto mais que a Rainha sua filha estava
em esperana de emprenhar, e com a gerao que Deus lhe daria, El-Rei se
acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mr atrevimento
de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias
andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroos, e que em fim
por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso
claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se
defender, e no com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos
sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.

E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, Aires
Gomes da Silva, Joo Corra, Joo de Lisboa, secretario, e Diogo
Affonso, e Pedro de Tayde, Dayo de Coimbra, que eram todos pessoas de
bom entender, esforo, e autoridade.

Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo
d'Azevedo, irmos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmos, os
quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro
acordo, dizendo que o Infante por maneira alguma no devia esperar
cerco, c no era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha,
nem proveito nem segurana, mas que leixasse suas villas e fortalezas em
bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse
o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo
d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e
d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o
seguissem, e que d'alli poderia tornar  Beira, e passar-se a riba do
Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o
no podia tanto seguir, que no andasse sempre diante, ou desviado a seu
salvo, aconselhando com isto que no smente trouxessem a voz e nome
d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente
servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso
receberiam, conhecendo a sem razo de suas perseguies, ousariam dizer
a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra
elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam
tal partido de que fosse contente.

E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que
o cerco por sua condio trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e
avorrecer.

O conde d'Abranches tomou s outra concluso, s dos outros que apontei
em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas
causas, razes e exemplos de Principes passados, porque no devia
esperar cerco, e outras tantas para no dever andar pelo reino,
especialmente com to pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos
passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio
com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio
com a teno do Infante que foi antes morrer grande e honrado, que
viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de
suas armas, e os coraes armassem principalmente de muita fortaleza, e
que se fossem caminho de Santarem, no como gente sem regra desesperada
nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governana e
mando de um tal Principe e tal capito, que a El-Rei seu Senhor sobre
todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei
pedir e requerer, que com justia o ouvisse com seus imigos, que lhe to
sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de
suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se
conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas no
houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que ento
defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforados
cavalleiros.




CAPITULO CXI

     _De como o Infante se teve ao conselho do conde d'Abranches, que
     foi morrer_


E o Infante depois de todos ouvir com muito tento e repouso, e lhes dar
por seus conselhos muito louvor e grandes aguardecimentos, finalmente se
teve com o conde d'Abranches, que seguiu sua primeira deliberao, e
determinou quando melhor no podesse ser, de morrer no campo, requerendo
e bradando a El-Rei por sua justia. E para ella se comeou logo de
perceber, e tanta foi a fortaleza e segurana do Infante, que n'estes
dias com quanto de cousas to arduas, e to chegadas  morte se tratava,
nunca por isso leixou de ir  caa e ao monte, e ter seraus e festas com
sua mulher e donzellas, assi como no tempo de mais assessego e de maior
prosperidade que nunca tivera.




CAPITULO CXII

     _Como o Infante D. Pedro e o conde d'Abranches consagraram ambos de
     morrer um quando o outro morresse_


E passados alguns dias depois d'estes conselhos, o Infante no se
esfriando em seu proposito, apartou s em uma camara o conde
d'Abranches, e lhe disse:

Conde, sabei que eu sinto j minha alma avorrecida de viver n'este
corpo, como desejosa de se sair de suas paixes e tristezas, e
consirados os feios combates que minha vida, honra e estado cada dia
recebem, com esperana de no minguarem, mas cada vez crescerem mais,
certo se as cousas n'esta viagem me no sobcedem como eu desejo, e seria
razo, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e no em pedaos, e
como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas
bondades folgariam e no se escusariam de morrer comigo, porm em vs
sobre todos tomei esta confiana, assi pela irmandade que comigo
merecestes ter na santa e honrada Ordem da Garrotea em que somos
confrades, como por criao que vos fiz, e principalmente pela certido
que de vossa bondade e esforo tenho ha muito conhecido, e por tanto
quero saber de vs, se no dia que d'este mundo me partir, querereis
tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos
primores de vossa honra, que sendo vs to conhecidamente meu criado e
servidor, e to publico imigo do conde d'Ourem e Arcebispo de Lisboa,
depois de minha morte no podeis ter vida, salvo reservada para com mos
d'algozes a perderdes em lugares vis, e com preges deshonrados.

Senhor, respondeu o conde, para caso de tamanho contentamento, como foi
sempre e  para mim viver e morrer por vosso servio, muitas palavras
nem os encarecimentos no so necessarios, eu vos tenho muito em merc
escolherdes-me para tal servio, e eu sou muito contente ter-vos essa
companhia na morte, assi como vo-la tive na vida, e se Deus ordenar que
d'este mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguir logo a
vossa, e se as almas no outro mundo podem receber servio umas das
outras, a minha n'esse dia ir acompanhar e servir para sempre a vossa.

E para mr confirmao d'este proposito o Infante mandou logo chamar o
doutor Alvaro Affonso, que era clerigo de missa, perante quem relatou a
concordia em que elle e o conde estavam, sobre a qual disse que lhe
desse logo o santo sacramento, e o doutor depois de lhe fazer seus
requerimentos e protestaes para o no receberem (como a elle por
sacerdote e por letrado em tal caso cumpria) elle lh'o deu, e elles o
receberam com sinaes de muita devoo e contrio, afirmando ambos e
cada um que como fieis christos a Deus, e leaes vassallos a El-Rei o
recebiam, e por taes protestavam morrer quando morressem, e que seu
fundamento no era offender, mas defender com razo e justia a pessoa e
honra do Infante. O qual derribando-se no cho sobre seu peito, com os
olhos cheios de lagrimas e com grande fervor de contrio se feria e
acusava de seus pecados, e sobre a comunho tornaram a firmar
solenemente seus prometimentos, cujo segredo o Infante encomendou muito
ao doutor, de quem depois se houve esta certido.




CAPITULO CXIII

     _Como a Rainha houve d'El-Rei que perdoaria ao Infante seu padre se
     elle lhe pedisse perdo, e assi lh'o escreveu, e a causa porque no
     houve effeito_


Vendo e ouvindo a Rainha em Santarem tantos alardos e ajuntamentos de
gentes com tantos alvoroos e percebimentos para destruio e morte do
Infante seu padre; porque n'ella se encerravam em grande perfeio
todalas outras virtudes, esta de amor e piedade para elle tambem lhe no
falleceu, e assi porque esta natural divida de sangue sempre a espertava
por seu remedio, com vivas lembranas de muita dr e grande compaixo,
como tambem porque de sua innocencia d'elle era mui certificada, se ps
um dia ante El-Rei em giolhos, e com perseveradas lagrimas lhe disse:

Senhor, _cesset jam nanus tua_, e pois minha desaventura quer que na
destruio do Infante meu senhor e padre damnem as falsas culpas mais,
do que aproveitam seus merecimentos, nem o grande e verdadeiro amor que
vos tenho, peco-vos por merc, que ao menos como Principe agardecido,
vos lembre as obrigaes em que por sua to alta criao, e por outros
muitos seus servios lhe soes, cuja paga devia ser outra, e no esta
morte e destruio to deshonrada, e com isso para alguma mais
temperana de tamanha ira tambem vos no esquea que vos pode nosso
Senhor dar de mim filhos que sero vossos ramos, cujas raizes para sua
mais honra e louvor deveis desejar e procurar que sejam antes limpas e
ss, que magoadas e sujas como ordenaes.

E El-Rei como era de mui perfeita humanidade, allevantando-a do cho com
grande acatamento, lhe respondeu:

Senhora, de todo o que me dizeis eu sou em mui inteiro conhecimento,
mas como quereis que nas cousas do Infante vosso padre eu me faa
brando, sendo elle em sua contumacia e para minha obediencia to duro,
de que se no quer conhecer nem arrepender, antes cada vez o mais
continuar. Mandei lhe muitas vezes requerer minhas armas, no m'as quiz
entregar, outras tantas lhe encomendei e mandei que no impedisse o
duque, que por meu mandado vinha a meu servio, e por me desservir e
anojar foi-lhe ter o caminho com outras muitas desobediencias, de que eu
a elle nem ao Infante meu irmo no relevaria sem justo castigo. Porm
pelo vosso amor principalmente, e porque n'isso sintaes o bem que vos
quero, se o Infante vosso padre como quem errou me quizer mandar pedir
perdo, eu me haverei com elle por outra melhor maneira de que sejaes
contente.

A Rainha lh'o teve muito em merc, e d'El-Rei houve logo licena para o
assi escrever como escreveo ao Infante, o qual vendo a carta, porque
acerca d'ella no deliberasse nada sem conselho, depois de aquelles
principaes com que suas cousas consultava serem juntos e verem a carta,
todos sem contradio concordaram ser bem e honesto que o Infante
satisfizesse com o perdo a El-Rei na frma que elle queria, pois em
nada lhe perjudicava, c parecia deseja-lo assi El-Rei para defesa sua,
contra aquelles que para o contrairo o indinavam. E porm o Infante
lastimando-se muito dos agravos e desfavores d'El Rei, e confiando muito
em sua innocencia recusava muito de o fazer, afirmando-se que to novo
meio, segundo as cousas estavam no era com fundamento de seu bem, mas
que El-Rei com astucia de seus imigos lhe lanava esta cilada de mal,
para que n'ella o tomassem como perdo, nascido e causado da confisso
de suas culpas e crimes que elle no tinha, com que ao mundo
justificassem depois os males passados que lhe ordenaram, e corassem os
que ao diante lhe queriam fazer. E que por isso antes queria morrer em
que receberia muitos beneficios; porque acabaria inteiro Infante duque
de Coimbra, e em sua vida no veria a outrem possuir nada do seu, nem
elle como desaventurado seria constrangido andar por terras estranhas
pedindo o alheio. E que em fim no lhe tirariam, que a todolos bons que
pelos tempos fossem no pesassem de sua morte, a qual segundo sua vida
era trabalhosa, esperava que fosse grande descanso j para si mesmo, e
certa segurana da vida da Rainha sua filha. Com outras muitas e boas
razes com que se escusava; e em fim vencido d'outras tantas e melhores,
com que seus conselheiros como a cavaleiro e christo o aconselharam e
requereram, prouve-lhe pedir como pediu a El-Rei o perdo por escripto,
na frma que a todos bem pareceu, e com que El-Rei se devesse
satisfazer, e tambem respondeu  Rainha, apontando-lhe largamente
algumas cousas com que sua segurana devia ser acautelada.

E tendo j El-Rei recebido sua carta, mostrou se com ella suspenso como
arrependido do que tinha outorgado, e porque na carta da Rainha que lhe
ella mostrou, entre outras eram umas palavras do Infante que diziam e
isto Senhora fao eu mais por vos comprazer e fazer mandado, que por me
parecer razo que o eu assi faa, El-Rei tomou d'ellas achaque para o
no cumprir, e rompeu logo a carta do perdo que o Infante lhe mandara,
dizendo que pois aquelle arrependimento era fingido e no de vontade,
que no queria desistir do que contra elle tinha comeado, e assi o fez,
do que o Infante foi logo avisado. Porm o que d'esta mudana e nova
sanha d'El-Rei, verdadeiramente se pde entender, foi se a vontade
d'El-Rei estivera de todo firme e s para o Infante, que as palavras da
carta da Rainha na forma em que vinham lh'a no revolveram nem danaram
contra elle, mas El-Rei tinha j um odio calejado ao Infante, e mais
pejou-se por moo em que o espirito da honra j se levantava, de parecer
o que lhe j diziam, que se sobjugava  Rainha mais do que era razo e
ao Estado de um tamanho Principe cumpria, e para no cumprir o que
prometera, tomou aquelle que foi mais achaque que causa verdadeira.




CAPITULO CXIV

     _Como os imigos do Infante D. Pedro procuravam haver antes odio que
     amor nem afeio entre El-Rei e a Rainha sua mulher_


Porque os contrairos do Infante, vendo que a Rainha era j para elle a
s esperana e remedio de sua salvao, e que por suas perfeies
corporaes e muitas bondades, El-Rei lhe tinha e teria cada vez mr
afeio, com que a ella e a sua vontade se daria mais, trabalhavam por
todalas maneiras de o apartarem d'ella, conselhando-lhe que fosse muitas
vezes  caa e montes, dizendo-lhe que a conversao continua de sua
mulher em tal idade, no smente era mui contraira  sua saude, mas
ainda mingoa e grande quebra das foras do corpo e do entendimento, e
que ficaria afiminado e no dino nem poderoso para soster o peso do
Regimento e defenso de seus reinos. E na capella e guarda roupa no
falleciam incitadores e ministros d'esta opinio, convocando para isso
mesmo fysicos, que para seu proposito tinham bem ensaiados, que com
livros e autoridades logo assi o provavam.

E taes conselheiros havia d'estes, que reprovavam o ajuntamento do santo
e legitimo matrimonio d'El-Rei com a Rainha, que eram publicos adulteros
e deshonestos concubinarios, jazendo como infernaes em mui continuo e
reprovado coito.

E porque este caminho no sobcedia de todo  sua vontade, cometeram
outro mui errado e muito para reprender; porque fizeram n'estes dias
prender D. Alvaro de Castro, camareiro mr d'El-Rei, que depois foi
conde de Monsanto, assacando-lhe falsamente que dizia amores  Rainha,
por tal que da pena de morte ou desterro que elle por tal caso merecia
nascesse infamia  Rainha com que a El-Rei de todo avorrecesse. Mas o
imigo da perdio que n'estes feitos andava por medianeiro, no pde
tanto danar, que mais no remedeasse o verdadeiro conhecimento que
El-Rei tinha das muitas e limpas bondades da Rainha, e da grande
lealdade do conde, com que o logo soltou e depois muito honrou e
acrescentou.




CAPITULO CXV

     _De um cumprimento que o Infante D. Pedro acerca de sua innocencia
     por meio de religiosos fez com El Rei_


E o Infante D. Pedro por muitas esmolas e bemfeitorias que aos mosteiros
e casas d'orao sempre fazia, era dos religiosos d'ellas sempre em suas
oraes e devoes muito encommendado a Deos, em especial n'este tempo
de sua tanta afflio, os quaes sabendo a determinao errada e perigosa
em que o Infante estava de partir, recorreram muitos a elle, e como
officiaes da alma o amoestavam, e lhe requeriam da parte de Deos
aquellas cousas de que sua maior segurana e salvao se podia seguir, e
principalmente que no partisse nem fizesse de si alguma mudana, e
antes esperasse a fortuna, que acometer.

E ao Infante crendo que o conselho dos taes poderia vir da vontade de
Deos, prouve obedecer-lhe, e quiz finalmente poer seus feitos em suas
mos, e d'elles apartou um Frei Anto, prior do mosteiro de Aveiro, e
outro Frei Dinis que depois foi confessor d'El-Rei, pessoas de grande
doutrina e mui santa vida, aos quaes disse os fundamentos que o moviam a
sua partida, e as razes que lhe contrariavam esperar cerco, e menos
andar como fugido pelo reino, e assi as injurias e sem razes que
d'El-Rei por induzimento de seus imigos tinha por extenso recebidas.
Porm que lhes parecesse que isto podiam remediar, que elle sobreseria
em sua partida, e por maior cumprimento com El-Rei e mais sua limpeza
faria o que elles ordenassem, e que para firme segurana de manter
sempre o que prometia, e que se fizesse d'elle justia se a merecesse,
que ante de ser ouvido lhe prazia mais que todos seus filhos fossem
entregues em poder d'El-Rei.

Estes religiosos vendo tanta justificao, esforaram-se acabar esta
concordia, crendo que no podia ser homem to sem juizo, e to fra de
humanidade que a denegasse, e acordaram que com isto Frei Anto por mais
secreto fosse s a El-Rei, o qual partiu logo com inteira crena e
instruo do Infante, dando graas a Deos por elle se someter a tanta
razo, com a qual esperava tudo acabar a servio de Deos, e d'El-Rei, e
bem de seus reinos e vassallos, mas este padre por muito que apressou
sua ida, j diante achou o imigo da razo e os contrairos do Infante,
com que no pde nem ousou dar a El-Rei as cartas do Infante, e muito
menos lhe falar; porque os imigos do Infante de que El-Rei em todolos
lugares e todalas horas era cercado, como sentiram que um religioso de
tanta autoridade, que em tal tempo ia de mandado do Infante, no podia
se no levar cousas de muita concordia e concluso, de que lhes muito
pesava, no smente o impediram e ameaaram para mais alli no estar,
mas ainda lhe defenderam que no tornasse com a resposta ao Infante,
pelo qual se foi triste e mui espantado para o mosteiro de Bemfica,
d'onde avisou de todo o Infante.




CAPITULO CXVI

     _Como El-Rei no tinha possibilidade de ir sobre o Infante como
     proposera, e como a partida do Infante de Coimbra foi causa da sua
     morte_


El-Rei no sabendo da determinao do Infante, que era partir de
Coimbra, fazia fundamento cerca-lo n'ella, o que pela muita gente que
cresceu e pelos mantimentos, e assi outras provises que se no podiam
haver; e menos tantas bestas, bois, e carros para as armas, artilherias
e carriagem, que para tal certo eram necessarios, parecia mui
dificultoso ou impossivel faze-lo. Pelo qual muitos entendidos se
afirmaram, consirado o pouco provimento que El-Rei tinha, e o muito que
para tal empreza lhe era necessario que no podera haver, se o Infante
no sahira de Coimbra, que El-Rei por aquelle anno no podera cerca-lo,
e que o mais de dano que lhe podera fazer fra comete-lo de passagem, o
que ao Infante segundo estava percebido, trouxera mais honra que dano
nem perigo.

Porm foi logo El-Rei certificado por um Loureno Affonso, procurador de
Coimbra, que o Infante se despunha a partir, e queria vir a Santarem,
afeando o mais que pde sua teno, de que o duque e o conde seu filho,
como principaes da empresa foram mui alegres; porque viram chegar-se o
effeito de sua esperana e desejo, que era a morte do Infante, cuja
dilao a elles poderia trazer perda e perigo. Pelo qual El-Rei acordou
de sobre ser at saber da certa determio do Infante, e ento mandou
poer fronteiros nos castellos d'arredor de Coimbra, receando que o
Infante queria por ventura guerrear o reino, e andar por elle como lhe
fra aconselhado, e foi Diogo da Cunha a Thomar, e D. Duarte de Menezes
a Pombal, e o proto-notario Berredo a Leiria, e assi outros a outros
lugares.

O Infante dava grande pressa  sua partida, porque no passasse de cinco
dias de Maio que tinha posto; porque n'esse dia fra certificado que
El-Rei movia contra elle como se disse, e porm de dinheiro por suas
muitas despesas tinha grande necessidade, de que por emprestimos dos
seus criados e servidores se proveu em alguma maneira. E porque a moeda
fallecia e no se podia haver, era conselhado para trato e servio da
gente, que da prata lavrada que tinha se fizessem uns quadrantes, da lei
e peso de leaes que era ento moeda do reino, e que sem mais outra letra
nem figura valessem o preo d'elles. O que o Infante no quiz consentir,
antes o defendeu estreitamente, e d'isto o reprenderam depois que se
intitulara de Rei, e mandara fazer moeda e justia, o que foi assacado
mas no verdadeiro.




CAPITULO CXVII

     _Como o Infante D. Pedro partiu de Coimbra, e como seguiu seu
     caminho at Rio Maior, e do conselho que hi teve_


Sendo o Infante prestes para cumprir sua opinio, fez a um domingo que
eram cinco dias de Maio partir diante com sua gente ordenada D. James
seu filho, que foi dormir no campo logo acerca de Coimbra, e essa noite
ficou o Infante na cidade em que com grande mostrana de muita alegria
mandou danar, e fazer festas como sohia. E depois de ter suas cousas
providas se foi  S, e a Santa Cruz, e a Santa Clara por serem casas em
que tinha singular devoo, e alli com sinaes de bom christo se
encomendou a Deus, e com a cara alegre e mui descarregada se despediu de
sua mulher, e dos que com ella ficaram, e foi com toda sua gente dormir
ao lugar da Egua, que  cabea da comenda mr de Christus, onde seriam
com elle at mil homens de cavallo, e cinco mil de p, com muita
carriagem de bois e bestas.

Com o Infante alm d'outros muitos e bons cavalleiros e escudeiros, eram
estas pessoas principaes: D. James seu filho, o conde d'Abranches, Aires
Gomez da Silva, e seus filhos Joo da Silva e Ferno Tellez, Ruy da
Cunha, Gonallo d'Ataide, Pero de Lemos, Luiz d'Azevedo, e Lopo
d'Azevedo irmos, e Martim Coelho, e Pedro Coelho irmos, e Pero de
d'Atayde, e Joo Corra, e Ferno Corra, Ferno d'Alvarez da Maya, Joo
Peixoto, e Lopo Peixoto irmos.

E no arrayal do Infante se levantaram duas bandeiras, uma sua, e outra
de seu filho, e em ambas iam de uma parte umas letras que diziam
_Lealdade_, e da outra _Justia e Vingana_.

E ao outro dia ante que o Infante abalasse, fez ajuntar sua gente, que
repartiu em capitanias, e a todos fez uma fala, cuja sustancia foi
saniar a boa teno e limpeza de sua vida que smente era como leal
servidor d'El-Rei seu Senhor, ir pedir e conseguir ante elle justia. E
assi em defender com razes de leal portugus, que se no fizessem males
nem roubos, e que pagassem bem os mantimentos e cousas que tomassem. E
sobre tudo encomendou aos capites o castigo, ps, e assessego de sua
gente, e principalmente que se no escandalizassem nem alevantassem por
cousas que ouvissem, em caso que parecessem contradizer a suas bondades
e muita lealdade.

E assi foi o Infante fazendo com muito resguardo suas jornadas at o
mosteiro da Batalha, onde o vedor da obra d'elle que fra sollergio
d'El-Rei D. Joo seu padre quiz com armas e artelharias poer o mosteiro
em resistencia e defesa contra elle, mas os frades lh'o no consentiram,
e abrindo as portas mandaram dizer ao Infante que o receberiam na frma
e com as cerimonias que elle ordenasse, mas o Infante no quiz que fosse
salvo como sempre fra, encomendando-lhe que na procisso com que a elle
viessem, como de costume tinham, cantassem devotamente por elle o salmo
que comea.

_Qui habitat in adjutorio altissimi in protectione Dei celi
commorabitur_--que se podia bem aplicar  sua viagem.

E alli ouviu missa e mandou dizer outras muitas pelas almas d'El-Rei e
da Rainha seus padres, e se despediu de seus ossos, que cedo havia de
vir acompanhar, e esteve olhando com muita tristeza a sepultura ainda
vasia, que em sua capella lhe fra ordenada, sobre que disse muitas
cousas que pareciam j revelaes d'alma, e sentimento da carne que a
cedo havia de povoar, como foi, e n'esta ordenana chegou a Alcobaa, e
assi foi dos frades recebido e encomendado a Deus.

E como El-Rei soube que o Infante passava Leiria, logo mandou sobr'elle
corredores, e outra gente de cavallo, para que sua gente com menos
licena se soltasse fazer dano.

E porm o Infante chegou a Rio Maior, de que ha cinco legoas a Santarem,
onde teve conselho se iria adiante como vinha, ou se enviaria seus
messegeiros a El-Rei para que lhe pedisse seguridade com que em alguma
ba frma, acerca das culpas que lhe falsamente davam fosse ouvido com
justia. E os que verdadeiramente o amavam, posposta toda outra fantesia
e paixo lhe davam mui so conselho, que elle no seguiu; porque lhe
disseram que para uma parte nem para a outra no devia ir mais adiante,
e que assi como viera se tornasse para Coimbra; porque assaz tinha
cumprido por sua honra chegar alli e estar tres dias acerca de seus
contrairos, que tendo j ento muita mais gente e poder que elle, nunca
lhe ousavam vir ter o passo, nem fazer uma leve resistencia,
contrariando muito todo outro fundamento, e muito mais enviar-se
embaixada a El-Rei, de cuja pouca idade diziam, que j o Infante
emquanto as cousas assi andassem no devia fiar sua vida, em caso que
com sinaes e sllos lh'a segurassem; pois por induzimentos de sens
contrairos, tantas vezes e em tantas cousas lh'os tinham quebrados, e
que muito mais lh'o fariam fazer n'esta em que todo seu desejo se
cumpria, e lem d'isso se punha a outra perigosa ventura, que era
seguindo mais adiante, e chamando-o El-Rei como a vasallo, e no indo
nem obedecendo logo despejadamente como a leal servidor cumpre, cahiria
em rebellio e desobediencia clara, de que os achaques passados contra
elle ficariam certas culpas, com causas verdadeiras para sua mais
justificada perseguio, quanto mais que metendo seu arraial adiante nos
olivaes de Santarem, segundo a grande espessura d'elles, e derribando-se
pelos caminhos atrs, ficava de todo atalhado sem lhe ficar smente uma
possibilidade de salvao nem desposio de peleja, e que quando se
quizesse salvar, j seria ao menos com perda da gente de p e de toda
sua carriagem, com que ficava de todo perdido e desbaratado, e que se
por ventura quizesse seguir contra Lisboa com fundamento de se lanar e
segurar n'ella, que era maginao errada e certo perigo seu; porque a
cidade segundo tudo andava revolto, j no era a madre que o criara
segundo elle dizia e confiava, mas que a havia d'achar mui irada, bem
guardada madrasta contra si, por onde no ficava poderoso de adiante nem
atrz se salvar, se El-Rei com seus imigos lhe saisse nas costas como
era de crr, e que em tanta angustia lhe seria forado, ou pedir
misericordia duvidosa, ou receber morte certa e desesperada de vingana,
ao que sem extrema necessidade se no devia arriscar, ao menos por
resguardo e segurana de tantos innocentes, quantos com elle sem causa
morreriam.

Aos quaes conselhos o Infante disse: Bem sinto j que estar aqui no 
necessario, e muito menos ir adiante contra Santarem, assi pelas causas
e razes que bem apontastes, como principalmente porque hei por grande
graveza para mim, parecer que levamos as pontas de nossas armas contra o
lugar onde est a Real pessoa d'El-Rei meu Senhor, a que eu sobre todos
desejo melhor obedecer e mais acatar e servir. Porm minha determinao
 por nenhuma maneira tornar atraz, mas quero-me ir por este caminho
contra Lisboa, no com esperana de me a ella acolher, porque n'ella no
tenho trato nem segurana, mas no pde ser que meus imigos sabendo que
vou assi com muito menos gente e poder do que agora tem, no saiam a mim
com suas valias; porque tero possibilidade e tempo de cumprir o que
tanto desejam, e mais escusaro trabalho, que a El-Rei meu Senhor por
todos respeitos no  conveniente nem necessario, e esta s merc peo a
Deus que seja assi, porque  a maior que d'elle posso receber; e se no
vierem a mi ento chegaremos  ponte de Loures, e d'ali faremos volta
por Torres Vedras e Obidos at Coimbra, onde esperamos a ventura que
vier, e espero que a Rainha minha filha, e o Infante D. Anrique meu
irmo remedeiem em tanto meus feitos, como a minha honra e estado
cumpre.

Mas esta esperana que o Infante publicava de seu irmo, era para com
ella favorecer e animar sua gente; porque em seu corao j tinha certa
desesperao, o que acabou de confirmar quando por tres dias que em Rio
Maior esteve, no viu em seu favor recado de seu irmo nem da Rainha, em
que at ento muito confiava. E o que os prudentes poderam conceber de
to errado conselho e teno, como o Infante em tal tempo e caso seguiu,
no foi salvo que desejando de morrer com algum mais cumprimento de sua
honra, e com maior descargo de sua conciencia, quiz antes ser cometido
d'El-Rei, que parecer cometedor, e que por isso lhe deu as costas, de
que mostrou alguma prova e experiencia o lugar em que ao diante foi
morto em que se alojou, onde por tres ou quatro dias repousou,
podendo-se n'elle livremente salvar.




CAPITULO CXVIII

     _Como o Infante partiu de Rio Maior e se foi a Alcoentre, e as
     pessoas d'El-Rei que hi mandou matar, e a causa porque_


E porm o Infante moveu de Rio Maior contra Lisboa, e a opinio e rumor
geral era, que por trato que com alguns d'ella tinha, se queria n'ella
acolher e remedear; e com quanto esta fama era fingida e no verdadeira,
no leixou de causar morte cra a dois mancebos de Lisboa, que por haver
n'elles suspeita de trato por serem criados do Infante, foram publica e
innocentemente feitos em quartos, e postos pelos mais publicos lugares
da cdade.

Seguiu o Infante seu caminho em sua ordenana, e a uma sexta feira XVI
dias de Maio chegou ao lugar d'Alcoentre, em que dos ginetes e
corredores d'El-Rei foi sempre seguido e perseguido, dizendo em altas
vozes contra elle que os ouvia, palavras torpes e mui feas, chamando-lhe
traidor tirano, e falso hypocrita roubador do povo, com outras vilezas e
fealdades a estas conformes, das quaes o Infante sempre encomendava aos
seus que se no anojassem nem lhes respondessem, e porm elle em as
ouvir recebia em si muita dr e grande sentimento, especialmente porque
as bocas d'aquelles, porque tantas torpezas contra elle sahiam, j lhe
muitas vezes beijaram as mos por honras e mercs que d'elle receberam,
e como alojou alli seu arraial, coube a guarda da herva e lenha a Aires
Gomes da Silva, sobre que vieram logo corredores da gente d'El-Rei
travando com elles, e procurando escaramua com desejo da gente do
Infante se desmandar por algum seu dano, e com esses rebates que na
guarda se faziam, veiu nova ao arraial que Aires Gomes com sua gente era
dos d'El-Rei cercado e posto em grande affronta, a que o conde
d'Abranches com grande trigana logo sahiu, e com elle quasi todos os do
arraial no guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita
desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com
muita fora nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados,
querendo-se salvar cahiram em um grande tremedal e lagoa, de que no
poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo at trinta, e os
vivos levaram logo ante o Infante, entre os quaes o principal era um
Pero de Castro, fidalgo e criado do Infante D. Anrique, a que o Infante
D. Pedro disse:

 mo ingrato e traidor, assi como por tua boca sahiram hoje tantas
vilezas, com que to falsa e desavergonhadamente magoavas minha pessoa e
estado, como tambem no entraram em tua memoria as muitas honras e
mercs, que de mim to poucos dias ha recebestes, para as leixares de
dizer, e contentares-te de me fazer mal com tuas mos, c pareceram por
tua escusa que eram foradas d'outro mando e senhorio maior, e no com a
lingoa com que cuidavas que me escandalisavas os ouvidos, e tu
feriste-me no corao, certamente a morte com que logo acabasses, ainda
seria quem da culpa que tens, e pena que mereces.

E ento com um po que tinha na mo lhe deu por cima da cabea, e sobre
esta pancada houve logo dos que eram presentes tantas feridas, de que
logo morreu, e dos outros uns mandou o Infante logo degolar, e outros
enforcar, segundo a condio das pessoas que eram.

Aquelle dia escapou por grande ventura Gonalo Rodrigues de Sousa, que
era capito dos ginetes. E assi alguns outros a que valeu a bondade de
seus cavallos; porque at o logar de Pontevel lhe seguiu o conde o
encalo, e d'alli temendo alguma volta de gente fresca e mais poderosa,
se tornou para o Infante.

Com a morte d'estes homens no foi menos a torvao e desmaio no arraial
do Infante, do que foi alvoroo e indinao contra elle em toda a crte
d'El-Rei, a que as novas chegaram logo de noite; porque a mais da gente
do Infante vendo tamanha crueza, julgaram-na por claro rompimento contra
El-Rei, e temendo a pena da culpa em que por isso encorriam, pungidos da
lealdade que no podiam encobrir, mostravam em suas caras uma publica
tristeza, que de seus coraes dava mui certos sinaes de fraqueza, com
que muita gente, especialmente de p, logo aquella noite fugiram do
arraial, e por serras e veredas como melhor podiam se tornaram a suas
casas, a que o doutor Alvaro Affonso com uma publica fala que a todos
sobr'isso fez, quizera remedear mas no aproveitava.




CAPITULO CXIX

     _Como El-Rei proveu e segurou a cidade de Lisboa para o Infante se
     no recolher a ella_


Como El-Rei foi certificado da ida do Infante a Lisboa, receoso de ser
com fundamento d'algum trato que n'ella tivesse, mandou logo por mar e
por terra muitos fidalgos e outra gente, que a guardaram e seguraram a
seu servio. E moveu logo de Santarem contra o Infante com muita e mui
formosa gente, que segundo a sentena dos que o melhor deviam saber,
entre de cavallo e de p, seriam numero de trinta mil homens de peleja,
que segundo as memorias dos que a viam, foi a mr somma de gente d'armas
que at ento n'este reino se ajuntou.

Foi El-Rei conselhado que no apressasse suas jornadas, assi por melhor
trato e alojamento de suas gentes, como porque tendo a cidade segura,
quanto o Infante mais a ella se chegasse, tanto se despunha a maior
perigo, pelo damno que dos moradores d'ella, lem dos que d'El-Rei podia
receber.




CAPITULO CXX

     _Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro
     d'Alfarrobeira_


E o Infante sendo no campo junto com o lugar da Castanheira, foi avisado
que El-Rei era j de Santarem contra elle partido; e porque o lugar em
que estava era campo devasso e sem disposio de se poder defender, e
muito menos de resistir, principalmente porque a gente no leixava cada
dia de lhe fugir, leixando j alguma parte de sua fardagem, partiu um
domingo com voz de se ir a Lisboa, em que n'aquelle dia queria entrar.
Mas isto se fingio assi por tal, que a gente na esperana de se salvar
fosse com elle e no lhe fugisse mais, e ante do meio dia se alojou logo
a alm d'Alverca, em um ribeiro que se diz d'Alfarrobeira.

E o assento de seu arraial na maneira em que estava, foi d'aquelles que
nas cousas da guerra tinham bom conhecimento muito louvado; porque havia
n'elle disposio natural e artificial para poucos se defenderem a
muitos, e alli houve o Infante por melhor esperar sua ventura e no
seguir vante, assi porque foi logo avisado da guarda de Lisboa, que de
todo estava irada contra elle, como porque tinha ainda esperana que
quando El-Rei sobre elle chegasse e o visse, que teria lembrana de
quanto servio lhe fizera, e no se esqueceria d'outros muitos seus
merecimentos, com que lhe fizesse algum bom e seguro partido, e que para
outros lh'o lembrarem e fazerem fazer no acabava de desconfiar do
Infante D. Anrique, e d'outros muitos a que j fizera honra e merc. E
quando isto assi no sobcedesse, e o rompimento no se escusasse, que ao
menos tinha escolhido lugar onde como Principe acabaria, e no sem
alguma vingana.

E alli esperou El-Rei, que logo  tera-feira, vinte dias de Maio, pela
manh, chegou sobre elle, e mandou assentar seu arraial, de que o
Infante ficou de todo cercado. E em vindo El-Rei com suas batalhas para
chegar ao Infante, o conde d'Abranches sahiu e foi vr sua gente, de
cuja somma, gentilleza e percebimento foi muito maravilhado, e em
volvendo como quer que de praa para esforo dos seus mostrasse e
dissesse o contrairo, porm ao Infante no encobriu a verdade, a quem
desenganou da pouca esperana que em sua resistencia e foras devia ter,
e alguns disseram que o conde pedira e requerera ao Infante, vista a
desegual comparao que havia de uns a outros, que s se fosse e
salvasse, e o leixasse com sua gente alli, onde folgaria acabar por seu
servio, e que o Infante no quizera. Mas, o que mais verdadeiramente
cerca d'isto se deve crr,  que o conde pela certa sabedoria que tinha
do proposito do Infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos
por isso tinham feito, no lhe cometteria nem ousaria cometer tal cousa,
em que ao menos ficava o Infante por f perjuro e fraco.




CAPITULO CXXI

     _Como El-Rei chegou sobre o arraial do Infante D. Pedro, e como por
     caso e sem deliberao se seguiu sua morte_


El-Rei trazia j determinado por aquelle dia em que sobre o Infante
chegou no o cometer, nem lhe dar combate algum, e dizem que com algum
fundamento de bem para o Infante, e porm por seus trombetas e Reis
d'armas e arautos mandou em torno do arraial do Infante dar espantosos
preges, mandando a todalas pessoas que com elle eram, que logo sob
grandes penas com suas armas o leixassem, e se viessem a El-Rei. Ao que
nenhum dos do Infante obedeceu, antes do arraial d'El-Rei se lanaram
com o Infante pelo amor que lhe tinham, Ferno da Fonseca, seu criado,
alcaide de Lisboa, que por este caso sahiu depois de seu siso, e assi
acabou; e Joo Vogado, que depois foi escrivo da fazenda d'El-Rei, e
estes escaparam, e Rodrigo d'Anellos, bom cavalleiro, e um Gonallo
Fernandes, que fra corregedor da crte, que ambos logo ali morreram.

E no travamento que n'este dia sem mandado d'El-Rei nem de seus capites
houve de uma gente com a outra, de que se seguiu a morte do Infante e do
conde d'Abranches, houve muitas opinies, porm aquella que os de mr
auctoridade afirmaram  esta:

Andando as gentes de uma parte e da outra provendo suas necessidades,
buscando os cercados do Infante maneiras para se defender, e os mais
d'El-Rei para ofender, aconteceu que certos besteiros da gente d'El-Rei
tomaram uma encuberta, e se meteram escondidos em um arvoredo que sobre
a agua hi estava, d'onde sem serem vistos faziam tiros aos do arraial do
Infante, de que alguns desavisadamente cahiam mortos e feridos. E Alvaro
de Brito Pestana, que tinha ento carrego dos espingardeiros d'El-Rei,
lhes mandou outrosi, que de um cabeo em que estavam tirassem aos do
Infante, em que se fez algum dano, e o Infante vendo comeos de tanto
mal, pelo em alguma maneira desviar, mandou poer fogo a algumas
bombardas que trazia encarretadas, e que tirassem aos do cabeo, de que
cria que o dano recebido procedia, d'onde por mo tento e pouco
resguardo d'algum bombardeiro dos do Infante sahiu a pedra de uma
bombarda que foi dar junto com a tenda d'El-Rei, sobre que muita e nobre
gente logo acudiu, cuidando que na pessoa d'El-Rei fizera algum dano
como publicamente se disse, o que no fez.

E porm foi por isto tanto o alvoroo na gente de El-Rei, e com tamanha
indinao contra o Infante e os seus, que logo sem outro mandado nem
repartida ordenana de peleja como se esperava, guiados smente de sua
sanha, deram mui fortemente no arraial do Infante, e romperam e entraram
por muitas partes, cuja gente, e pela maior parte de p, no podendo
sofrer tanta fora, com tamanho medo e perigo esquecidos do amparo e
defesa do Infante, o leixaram e comearam de tomar a fugida por sua
salvao, e o Infante vendo tamanha afronta, andando a cavallo se poz
logo a p com leves armas, socorrendo aos lugares de mr necessidade e
fraqueza com grande esforo, o qual por armas defensivas trazia smente
vestida uma cota de malha, e em cima uma jorne de veludo cremesin, e na
cabea uma servilheira. E vendo elle que sobre a parte de sua estancia
que era j rota recrecia a mr afronta de peleja, acudiu ali com muita
trigana e ousadia; porque em caso que a vil gente lhe fugisse, no
falleceram outros muito bons que com esforados coraes oferecendo j
suas vidas  morte sostinham e defendiam sua querella, tanto quanto e
suas foras era possivel. E como quer que o Infante d'alguns cavalleiros
de sua guarda fosse requerido que se retraisse, aconselhados da fora e
multido da gente que viam contraira, a que no podia j resistir, elle
o no quiz fazer, antes com sua cara esperta e segura, posposto todo o
medo e perigo, rompendo por sua gente em que j via muitos mortos e
feridos, seguiu adiante, e no com ociosidade do seu brao direito, com
que segundo testemunho dos que o viram, lem d'outros que feria
bravamente, dez escudeiros de seu ferro ficaram alli mortos, e andando o
Infante assi revolto n'esta peleja foi nos peitos ferido de uma seta que
lhe atravessou o corao, de que a poucos passos e menos horas cahiu
logo morto, sem antes nem depois receber outra ferida, e o bsteiro que
o ferio bem foi conhecido e havido por assaz destro em seu oficio, o
qual com outros de seu mester segundo fama, foram em especial pelos
imigos do Infante escolhidos e ordenados contra elle, para mais cedo
abreviarem sua morte, a qual elle recebeu com sinaes de verdadeira
contrio e grande arrependimento de seus pecados, que deu piedosa
esperana da salvao de sua alma, pelos quaes sinaes o Bispo de
Coimbra, que sobre elle logo acudio, o assolveu em lhe a alma saindo da
carne; porque no houve tempo de confisso, que elle nas derradeiras
palavras de sua vida afincada e devotadamente pediu; e porm elle no
mesmo dia fra confessado e absolto, e fizera em seu testamento que
leixou algumas adies, porque claro pareceu que acabou como sempre
viveu, catolico e bom christo, e leal vasallo e servidor d'El-Rei, em
edade de cincoenta e sete annos.




CAPITULO CXXII

     _Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como
     esforado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha_


O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,
provendo e resistindo em sua estancia como bom e ardido cavalleiro, a
muitas afrontas que o perseguiam, um moo chegou a elle e chorando lhe
disse:

Senhor conde que fazeis; porque o Infante D. Pedro  morto. E o conde
com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilao
desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o corao esforado
disse ao moo calla-te e aqui o no digas a ninguem. E com isto ferio
rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamento, onde
sem alguma torvao pedio po e vinho, de que por esforar mais seu
esforo comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas
honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e sahio a p
pelo arraial, que de todalas partes era j entrado e vencido, e como foi
conhecido logo os d'El-Rei uns sobre os outros carregaram sobr'elle
cometendo-o de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lana
que cortaram, e depois com sua espada os feria e escarmentava de
maneira, que os que a primeira vez o cometiam, de mortos ou feridos no
volviam a elle a segunda, e assi pelejou um grande pedao como mui
valente e acordado cavalleiro, no sem grande espanto dos que o viam
trazendo as mos e todas suas armas cheias no de seu sangue mas de
muito alheio que espargeo, porque emquanto andou em p e se pde
revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E em fim vencido
j de muito trabalho e longo cansao, disse em altas vozes;--_ corpo,
j sinto que no podes mais, e tu minha alma j tardas_--e com isto se
leixou cair tendido no cho, e uns dizem que disse,--_ora fartar
rapazes_ e outros _ora vingar villanagem_. Cujo corpo que j no
resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despedio a alma
de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido, e alli
um seu amigo, que no usou do que devia, lhe cortou e levou a cabea com
que a El-Rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco
ficou no cho feito em pedaos, at que por requerimento de Joo Vaz
d'Almada seu irmo bastardo, que era vedor d'El-Rei, houve logo
enterramento no campo, e depois sepultura honrada.

E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o Infante, vendo to
claro seu destroo, cada um desamparou a defesa das estancias que lhe
foram encomendadas, e como desesperados das vidas no lhe fallecendo o
corao e acordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial 
aventura que se lhes oferecesse, e em fim de mortos, feridos, ou presos
no escapou algum.

E dos principaes da gente do Infante morreram ali: Joo Mascarenhas,
alferes do Infante, e Luiz Gomez da Gr, que levava a bandeira de D.
James, e um seu irmo, e Diogo Peixoto, e Rodrigo d'Anellos, e outros
cavalleiros e escudeiros de boa sorte, e foram muitos feridos; e da
parte d'El-Rei morreram principaes Ruy Mendez Cerveira, aposentador-mr
d'El-Rei, e Ferno de S, alcaide-mr do Porto, e Joo Rodriguez
Toscano, e assi alguns bons com outra gente de baixa condio, que
fariam numero de at XXV.




CAPITULO CXXIII

     _Da maneira que se teve com o corpo do Infante D. Pedro, e como foi
     vilmente tratado e soterrado_


O corpo do Infante jouve todo aquelle dia sem alma descuberto no campo 
vista de todos, e sob a noite o lanaram homens vis sobre um pavs, e o
metteram hi logo em uma pobre casa, onde entre corpos j vazios d'almas
e fedorentos, jouve tres dias sem candea, nem cobertura nem orao, que
por sua alma publica se dissesse nem ousasse de dizer, o que foi grande
prasmo e vituperio da casa real; porque a honra e acatamento que ali se
devia, j no era do Infante morto sem sentido, mas era propria dos
vivos que lhe fizessem, e da principal culpa de se isso assi fazer,
El-Rei por sua mocidade e poucas experiencias passadas foi justamente
ento relevado, mas foi attribuida aos velhos e principaes da crte,
imigos do Infante, porque El-Rei n'aquelle tempo em tudo se governava;
porque como lisongeiros e bafejados da fortuna, lhe faziam crr que esta
fra batalha perigosa e campal, e de grande honra sua, em que por sinaes
de victoria e triunfo, e por enxalamento maior de seu estado, e por
cerimonia acostumada convinha jazerem assi os corpos no campo da rota,
das vidas e sepulturas privados, aniquilando em comparao d'esta a
famosa batalha de Farsallia, em que Julio Cesar venceu Pompeo, e a de
Canas, em que os romanos foram d'Anibal com tanto estrago vencidos. E
isto no se fazia por honra nem estado d'El-Rei, pois claramente era
magoa de sua cora, e publico abatimento de seu sangue, mas ordenavam-no
assi seus imigos por acrescentar no cume da desordenada vingana.




CAPITULO CXXIV

     _Exclamao  morte do Infante D. Pedro_


 inconstante fortuna, quo secreto segredo  o de tua variavel condio
e semelhana de grande poder! Quem se fiar de ti, quem no haver medo
de ti, pois aquelles que com moderados giros allevantas no mais alto
gro da honra e da gloria, esses com apressadas voltas trocas e derribas
em profunda pena, em deshonra mortal: os que hoje por tua ordenana
fazes ricos, estimados, e grandes senhores, de manh por tua desordem os
tornas logo pobres abatidos em semelhana de servos, para cuja prova
para que so outros passados e mais antigos exemplos seno este
presente, lembrando-vos quem foi este excellente Infante D. Pedro, e
agora vermo-lo jazer onde jaz; porque sendo Principe de tamanho estado,
virtudes e grandeza, herdado de tantas terras e senhorio, e dotado de
muitas mais bondades e virtudes, e sendo filho legitimo d'El-Rei D.
Joo, Rei no mundo to glorioso vencedor e nunca vencido, que por seu
brao e esforo defendeu e acrescentou estes reinos, e parecia que tu,
fortuna, por isso o servias e acatavas, e agora j no smente vimos que
o desconheces, mas ainda na propria patria em que nasceu e que honrou
lhe denegas uma pouca de terra em que o metam, e um pedao de panno
grosseiro com que o cubram; hontem sendo vivo o serviam e honravam com
razo grandes senhores, e hoje no acha quem morto o enterre, se no
servos e pessoas mui vis.

 enganosa fortuna ou alguma outra fora oculta; porque a este descreto
e mui prudente Infante cegastes seu to claro entendimento e limpo
juizo, com que no entendeu o perigo de sua honra, e vida, e fazenda em
que se meteo, e vs Infante D. Pedro como no apartastes com vosso siso,
devoo, prudencia e lealdade de nevoas de tanta contradio, e a vossa
vida e limpeza to suspeitosas e contrairas; porque no tomastes a
longura do tempo por cura de vossas paixes, e seguro remedio de vossos
feitos, pois estava em vosso poder, e se havieis que recebieis evidentes
agravos e injustas perseguies, causadas contra vs do odio de vossos
imigos, que vos faziam n'estes derradeiros dias avorrecer a vida, e por
maior honra e descanso vosso desejar a morte como dizeis; porque vos no
lembrava para a escusardes, que com ella havieis de necessidade matar e
desterrar e destruir vossa mulher e filhos, e os nobres mui honrados
amigos, criados e servidores que tinheis, e vos haviam de seguir,
despensareis com vossa morte paixes e trabalhos por dardes a estes
vida, segurana e descanso, pois o penhor e remedio d'isto era smente
viverdes, e vossa morte havia de ser o contrairo.

E tu fortuna imiga da razo e piedade com tua crueza assi o executaste;
porque logo se viu o triste Infante sahir-se em Coimbra dos paos em que
vivia, e sem algum resguardo de sua honra e estado, com medo da morte
duvidosa, anda-la procurando certa pelas casas pobres e alheias, de
maneira que fugindo crueza, parecia que a pedia avorrecendo piedade;
vimos de seus filhos, D. James logo preso aparelhado para o cutello, e
D. Pedro o maior fugido e desterrado em Castella, pedindo esmollas a
quem j fizera merc, e outros por escapar suas vidas vimos ir
escondidos e mudados por terras estranhas, encobrindo com habitos e
sinaes de pobreza suas mui nobres pessoas, que o real e mui alto sangue
de que descendiam, em honra, abastanas e estado criara; vimos logo seus
amigos, criados e servidores, uns mortos e outros presos e desterrados,
e todos de suas honras, favores, officios, beneficios, rendas e
patrimonios sem alguma misericordia de todo privados.

 mui excellente Rei D. Affonso, onde estava vossa piedosa humanidade,
onde se escondeu n'este passo vosso singular agardecimento, grande
prudencia, e mui alto saber!  Divina Providencia!  Virtudes
Celestiaes, pois com mos no avaras os XVII annos d'este glorioso e
mancebo Rei, n'este tempo dotastes de mais perfeies e bondades d'alma
do que a outros Principes de muitos mais annos fizestes; porque tambem
lhe no allumiastes seu mui angelico entendimento, com que perfeitamente
conhecesse os falsos erros e claros enganos em que seus apassionados
servidores e conselheiros n'estes feitos o traziam emlheado e cego por
tal, que do conhecimento d'esta verdade e limpeza, que nunca foi
conhecida, se evitara a morte e perda de um to perfeito e innocente
Principe, que a elle mesmo Rei sobre todos era proveitoso e mais
necessario, pois no  de duvidar que sua vida fra sempre um forte
freio e certa conservao da cora e patrimonio real de seus reinos, e
sua morte havia de ser o que foi redea solta de sua desoluo e
encurtamento!  duque de Bragana e conde d'Ourem vosso filho; porque
contra o Infante D. Pedro quizestes ser, e fostes principaes movedores e
ss capites d'esta feia e dorosa empresa!

No foi certamente por hereje nem mo christo; porque suas obras o
aprovavam por mui catholico e amigo de Deus. Nem seria por injusto nem
incorrecto nas cousas da justia, pois n'ella sua balana sem odio nem
affeio foi sempre mui egual e direita. Nem prodigo e destruidor do
thesouro e fazenda real, pois aproveitou e governou sempre com singular
proviso e muita temperana. E se alguma cousa da cora real tomou e
emlheou para ser culpado, no foi para si nem seus filhos, mas foi
smente a que a vs e cousas vossas deu, nem seria por ser de fraco
corao e no desposto para defenso dos reinos que regeu, pois sabeis
com quanto esforo, deligencia e ousadia sempre os defendeu,
procurando-lhe sempre paz e justia, e nunca guerra nem torvao, pois
certamente menos devera ser por desleal, ou por se sentir n'elle como
tyranno alguma vituperada cobia e danado desejo para reinar, segundo ao
novo rei e a seu povo, para sua maior indinao fizestes entender, pois
a todos foi notorio que no smente se no achou contra elle culpa,
porque verdadeiramente assi parecesse, nem se podesse bem conjecturar,
mas ainda est claro, que durar a vida d'El-Rei tanto tempo em seu
poder, e procura-la sempre com tanto amor e cuidado juntamente com sua
mui real e perfeita creao o relevam contra si de semelhantes
maginaes, e de todo o alimpam d'esta errada suspeita, c por suas
muitas virtudes e grande lealdade teve como era razo a vida, saude e
estado d'El-Rei em tanta venerao e resguardo, que lm de se conhecer
que sobre todalas cousas o amava, ainda parecia que o adorava, e se em
seu corao entrara proposito to reprovado, elle ou secreta ou
artificialmente o privara da vida, para que teve largo tempo e boa
disposio, ou o fizera criar e criara em tanta torpeza e danados
costumes, com que no podendo os mos leixar nem dos bons aprender, se
fizera para si mais dino de privao que da governana e regimento de
nenhum reino, cujo defeito e indisposio causara requerer-se n'estes
outro novo regedor ou rei como j outras vezes se fez, mas no se pde
negar que El-Rei assi para Deus e para o mundo, como para si mesmo e
para seus reinos e vassallos, foi to altamente criado e ensinado to
perfeitamente, que a certido d'isso que em sua real pessoa e mui nobre
corao por evidencia de obras claramente se mostrava, fazia que nos
reinos estranhos por sua louvada fama fosse desejado por seu proprio
Principe, e nos seus proprios servido e adorado por Rei; e porque o
Infante D. Pedro tal o criou, bem se viu que por tal o amou e serviu sem
alguma sua quebra nem defeito, usando seu officio de regente com tanta
perfeio e cumprimento, que mais pareceu que acceitara tal cargo para
sua pena e trabalho, mais que para sua gloria nem descano, cujo
galardo devera ser outro e no este que lhe procurastes, c vos
leixaste guiar d'odio, inveja e cobia, com que lhe causaste a morte to
vituperada com tamanhas maguas em sua limpeza; mas porque com isto a
bondade e justia de Deus foi claramente offendida, elle como justo e
poderoso que , no permittiu que tamanha culpa ficasse sem grave pena e
justa vingana, pelo qual sua severa justia e profundo saber, a que
nada s'esconde ainda que fosse por tempos e passos to vagarosos, quiz
por castigo d'este e por enxemplo d'outros, que qual de vs irmos
infante e duque, em tantos males, mortes e desaventuras um ao outro
tivesse a culpa, o neto do innocente, no neto do culpado com deshonrada
e mortal pena de sangue egualmente a vingasse e justificasse depois, e
assi se fez, como d'esta triste e espantosa execuo depois de muitos
annos passados a praa d'Evora foi publica testemunha, segundo em seus
tempos e logares est mais declarado.

E acabados os tres dias o corpo do Infante por homens de prema, e com
consentimento d'El-Rei foi levado em uma escada  egreja d'Alverca, onde
porento foi vilmente e com grande desacatamento soterrado; porque
depois houve outras sepulturas, e com grandes cerimonias e solemnidades,
como ao diante se dir.




CAPITULO CXXV

     _Das feies, costumes e virtudes do Infante D. Pedro_


O Infante D. Pedro por certo foi um singular Principe, dino de louvor
entre os bons e louvados Principes que no mundo em seu tempo houve,
homem de grande corpo, e de seus membros em todo bem proporcionado, e de
poucas carnes; teve o rosto comprido, nariz grosso, olhos um pouco
moles, os cabellos da cabea crespos, e os da barba algum tanto ruivos
como inglez; seu andar a p era vagaroso e com grande repouso, suas
palavras eram graciosas, com doce orgo de dizer, e nas sentenas mui
graves e sustanciaes, e quando alguma sanha o tocava era sua cara mui
temerosa, e porm no lhe durava muito, c por siso ou condio natural,
logo se lembrava de mansido e temperana; foi algum tanto culpado em
credeiro e vingativo, ainda que o desejo da vingana pareceu que no foi
n'elle de grande e vicioso ardor, pois dilatou e temperou a que teve em
sua mo, que para sua vida fra mui segura e necessaria.

Suas roupas e trajos e maneira de viver, foram sempre de homem honesto,
prudente e grande autoridade, e de moo at idade de LVII annos, em que
acabou, sempre foi muito catholico temente a Deus, e de grande orao, e
fez muitas esmolas. Honrou muito as pessoas ecclesiasticas a que sempre
se escusou dar suas mos a beijar, nem consentio estararem em giolhos
ante elle.

Foi mui temperado em todolos autos da carne. Nunca se soube ter com
alguma outra mulher carnal affeio, salvo com a sua propria, que
legitimanente recebeu, com que ainda usava de grande temperana, c como
devoto e mui continente se apartava d'ella em todolos dias de jejuns, e
dias outros solemnes da Egreja. E nas quaresmas com as roupas que de dia
trazia, com essas de noite se lanava sempre vestido sobre palha, sem
outra roupa nem cama ordenada; cada dia por sua devoo rezava as Oras
Canonicas segundo custume romo, com outras muitas oraes em que tinha
devoo. Foi muito devoto do Arcanjo S. Miguel, por cuja devoo touxe
por divisa as balanas; porque em sendo moo em uma doena que teve, foi
de todos julgado por morto, e por um Martim Gonalvez, capello d'El-Rei
seu padre foi assi levado ao altar da capela de S. Miguel, que est nos
paos de Lisboa, a que foi devotamente encomenda-lo, d'onde
milagrosamente logo retornou com vida e saude, em cuja memoria e por sua
singular gratificao, com suas despesas proprias mandou fazer nos dias
que viveu casas e obras muitas piedosas, assi como a egreja da cerca de
Penella, e S. Miguel d'Aveiro, e o mosteiro de Santa Maria da
Misericordia, que deu  ordem de S. Domingos, e a egreja de Tentugal com
outras.

Fez sempre uma mui louvada profisso do tempo, que nunca em seus dias
lhe passou sem beneficio ou louvor; teve para todalas cousas horas
certas e limitadas que nunca traspassou; deu a casa de Santo Eloy de
Lisboa, em que jaz o Bispo D. Domingos Jardo, aos clerigos da ordem e
regra de S. Joo Evangelista.

Foi Principe de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foi bem
latinado e assaz mistico em sciencias e doutrinas de letras, e dado
muito ao estudo; elle tirou de latim em linguagem o regimento de
Principes, que Frei Gil Correado compoz, e assi tirou o livro dos
Officios de Tullio, e _Vegecio de Re Militari_, e compoz o livro que se
diz da _Virtuosa Bemfeitoria_ com uma confisso a qualquer christo mui
proveitosa. E foi mui justo, de que lhe veiu sempre avorrecer os mos, e
fazer bem aos bons.

Foi muito verdadeiro e mui constante, e de mui claro entendimento; foi
liberal com medida, e assi caador e monteiro com temperana; porque o
estudo em que se mais deleitava o privava de semelhantes prazeres; fez
primeiramente usar que os Reis e Principes n'estes reinos comessem em
publico, e fossem em suas mesas acompanhados, o que d'antes no faziam,
c pela mr parte sempre comiam retraidos; dizendo elle que suas mesas
deviam ser escollas de sua crte, para que costumava mandar lr
proveitosos livros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muito
ensino e doutrina.

Tirou as aposentadorias de Lisboa, e ordenou os estaos que deu causa a
grande ennobrecimento da cidade, e assi fez outras muitas obras boas, e
proveitosas ordenanas para o reino.

Porque sua alma recebera de Deus o galardo, pois em sua vida este mundo
lhe foi to ingrato.




CAPITULO CXXVI

     _Do que a Rainha fez com a nova da morte do Infante seu padre_


A Rainha D. Isabel mulher d'El-Rei e filha do Infante D. Pedro ficara em
Santarem, onde em breve lhe foi dada a triste certido da morte de seu
padre, que ella com publicos sinaes de mortal dr muito sentio e chorou,
e no como alheia mas como sua propria morte, e no era sem causa;
porque em caso que no houvesse n'ella tantos dias nem to madura edade,
de que se esperasse perfeito conhecimento nas cousas, era porm
naturalmente abastada de muita discrio e prudencia com que sentiu bem,
que lm da grande perda que na privao de seu padre, no sendo vivo
recebia, ainda sua vida com morte antecipada se dispunha a claro perigo
como foi, e sobre tudo lhe dava mr tormento parecer-lhe que os imigos
do Infante seu padre teriam com sua morte mais coradas causas a
aprivarem e apartarem El-Rei seu Senhor d'ella, pois ante d'isto e sem
alguma razo com grande instancia j o procuravam, como atraz fica.




CAPITULO CXXVII

     _Como a Infante mulher do Infante D. Pedro soube de sua morte, e do
     que se fez de seus filhos_


A Infante mulher do Infante D. Pedro era em Coimbra, onde sendo salteada
com a nova triste de sua morte e da priso de D. James seu filho,
desejando achar quem logo a matasse, andava sem algum acordo de mosteiro
em mosteiro, e por casas alheias, no por escapar sua vida que j
avorrecia, mas por escusar  morte e priso d'outros seus filhos que
comsigo trazia, e no sem muitas lamentaes e grandes prantos seus, e
de muitas pessoas que a seguiam e acompanhavam.

Ficaram do Infante estes filhos, a Rainha D. Izabel mulher d'El-Rei, e
D. Fellipa, que ella j trazia em sua casa em edade de sete annos, a
qual no foi casada, e sem obrigao de religio, viveu e acabou mui
honesta e santamente no mosteiro d'Odivellas, onde jaz, e o Senhor D.
Pedro seu filho maior, que depois sem casar morreu em Barcellona,
intitulado Rei d'Arago, e D. James que depois foi Arcebispo de Lisboa e
cardeal em Roma, e jaz mui honradamente sepultado em Florena, e D. Joo
que morreu casado intitulado Rei de Chipre, e D. Briatiz que foi
honradamente casada em Borgonha pela duqueza sua tia com Monseor de
Cleves, de que nasceu o Filipe Monseor que foi l Gram Senhor.

N'esta peleja foi preso D. James filho do Infante, e com elle muitos
fidalgos e outra nobre gente do Infante, com que El-Rei acerca de suas
solturas se houve com aquella nobreza e piedade que de tal Rei sobre
victoria se esperava. E pelos ditos e testemunhos dos presos, foram logo
tiradas inquiries sobre as culpas de desleal em que culpavam o
Infante, e mais buscados para isso os cofres de suas escrituras, que no
arraial foram tomados, e finalmente contra elle no se achou outra
cousa, que com razo magoasse sua limpeza e bondade, salvo represando
errado juizo por no obedecer ao conselho de se no mover de Coimbra e
seguir opinio to errada, como foi partir-se d'ella, onde se esperava
era de crr, que seus feitos andando o tempo tiveram bom remedio, e sua
vida e honra receberam segura salvao.




CAPITULO CXXVIII

     _Como os imigos do Infante procuravam que El-Rei se quitasse da
     Rainha, e quo virtuosamente El-Rei o fez com ella_


El-Rei cumpriu alli no campo os tres dias, que para cerimonia do
vencimento da batalha lhe fizeram crr que eram necessarios, acabados os
quaes despediu alguma gente do seu arraial, e com os Infantes, duque, e
condes e prelados, e com outra muita e mui nobre gente, partiu para a
cidade de Lisboa, onde foi mui altamente e com grande triumfo recebido,
e alli por causa ainda do Infante se fez justia crua d'alguns e mui
innocentes.

E os imigos do Infante D. Pedro consirando no muito amor e grande
affeio que El-Rei tinha  Rainha sua mulher, e no muito maior que ao
diante com razo lhe poderia ter, com que o provocaria sempre para
vingana e destruio sua, logo como viram a morte do Infante, lhe
conselharam e requereram, que para segurana de sua vida, bem e
assessego de seus reinos e vassallos se quitasse d'ella como de imiga, e
j suspeita  sua real pessoa, e houvesse outra mulher, c para Deos e
para o mundo o podia e devia fazer. Allegando-lhe para isso muitas
causas e razes que pareciam boas e necessarias, para cuja aprovao no
falleciam autoridades e direitos, nem menos theologos e letrados
induzidos que o confirmavam. Mas El-Rei em que havia bondades reaes e
mui s consciencia, e que nas virtudes e amor da Rainha tinha mui gram
confiana, no deu a isso consentimento, antes para magoa e desfavor dos
que tamanho erro lhe aconselhavam, o que elle muito estranhou, a mandou
logo visitar e aconsolar a Santarem, e escusar-se com palavras de muito
amor de a no ir vr, e pedir-lhe que ella por si mesma o fizesse.

E com esta visitao de que a Rainha estava desesperada foi em sua
paixo e tristeza mui satisfeita, e sem muito trespasso, sendo d'El-Rei
primeiro certificada do modo em que a elle pelo mais contentar iria, deu
logo ordem  sua partida; e ella com suas damas e casa, por accordo
d'El-Rei, se vestiu com uma honesta temperana de d. El-Rei sahiu a
recebe-la, e d'elle e de toda sua crte foi com tanto acatamento e to
grandes cerimonias recebida, como at seu tempo nunca o foi outra
Rainha, e na vista e fala que ambos logo houveram, pareceram mostranas
de tanto prazer e contentamento, como se nunca entrevieram as
desaventuras passadas.




CAPITULO CXXIX

     _Como El-Rei fez aos Reis e Principes christos uma geral
     notificao da morte do Infante, e das respostas que houve, e da
     embaixada do duque e duquesa de Borgonha, que sobre a morte do dito
     Infante e sua desculpa foi principal_


E porque esta morte do Infante nos reinos e terras estranhas parecesse
justa, hi logo em Lisboa firmaram os imigos do Infante uma instruco
contra elle, assaz feia e mui difamatoria, que El-Rei por escusa e
justificao de sua morte enviou por seus messegeiros ao Papa e alguns
Principes christos, cujas respostas no vieram conformes a sua teno,
antes todos sem exceio, com apontamentos de muitos louvores e grandes
merecimentos do Infante, enviaram acerca de sua morte muito reprender
El-Rei, avisando principalmente as paixes particulares e enganos dos de
seu conselho, e escusando em alguma maneira sua pouca e no madura
idade, pois tinha razo de se reger e governar por elles.

E porm El-Rei deu logo Guimares ao duque de Bragana, que sempre
requerera e lhe fra denegado pelo Infante D. Pedro, e quizera haver a
cidade do Porto, a que se seus cidados no resistiram, j a vontade de
El-Rei era inclinada, e por esta maneira deu a villa de Portalegre ao
conde D. Sancho, a que valeu a resistencia e leal porfia dos moradores.

E porm a principal embaixada que a El-Rei sobr'este caso do Infante
veiu, foi uma do duque Felipe de Borgonha e da duqueza D. Isabel sua
mulher, irm do Infante D. Pedro, em que veiu por embaixador o Daio de
Vergi, que com muitas causas e razes fundadas em razo e direito, o
enviaram escusar e aprovar sua innocencia e limpeza e pedir para seu
corpo a sepultura que lhe El-Rei D. Joo, seu padre, em sua real capella
ordenara, e assi que se no negasse para sua mulher e filhos e criados
amparo e piedade, a que pedio que fossem restituidas suas honras e
fazendas.

E como quer que o effeito d'este requerimento, por contemplao do duque
e de seu filho foi algum tempo suspenso, porm no tardou muito que por
elle D. James se soltou, e se foi a casa da dita duquesa sua tia, e de
sua mo enviado a Roma, onde pelo Papa Callisto foi feito Cardeal do
titulo de Santo Estao, e aps elle foi D. Briatiz sua irm, que a
duquesa com muita honra l casou, como atrs j brevemente fica tocado.

E porque na primeira denegao que El-Rei fez  sepultura do Infante o
dito embaixador requereu que lhe mandasse dar seus ossos para os levar a
Borgonha, onde a duquesa sua irm lhe daria sepultura honrada e
merecida, receoso El-Rei de os furtarem da egreja d'Alverca, onde
devassamente jaziam, os mandou tirar e levar ao castello d'Abrantes,
cuja guarda e segurana encomendou a Lopo d'Almeida, que depois foi
primeiro conde d'Abrantes.




CAPITULO CXXX

     _De como a judaria de Lisboa foi roubada, e a causa porque_


E no fim d'este anno de mil e quatrocentos e quarenta e nove, certos
moos christos por travessura fizeram algum mal, ou sem razes a alguns
judeus que andavam na ribeira de Lisboa, sobre que se agravaram 
justia e ao doutor Joo d'Alpoem, que era corregedor, o qual provendo
sobr'isso, mandou publicamente aoutar alguns d'elles, de que algum povo
meudo e a voltas d'elle outras gentes que eram na cidade, assi se
escandalizaram dos judeus, que sem mais outro acordo nem conselho, antes
com grande onio e alvoroo, dizendo _matalos e roubalos_, cometeram a
judaria pela porta que vem ao poo de Fotea, e a roubaram toda at o
Poio, em que dos judeus que supunham em resistencia houve alguns mortos,
ao qual insulto logo acudiram com muita fora os officiaes da justia, e
principalmente D. Alvaro conde de Monsanto, que com suas foras
atalharam o mais roubo e dano que se determinava fazer.

Foi El-Rei d'isto logo avisado por Pero Gaalvez seu secretario, estando
j com a Rainha na cidade d'Evora. E pedido com grande instancia, que a
esta necessidade em pessoa quizesse prover, porque os rumores e
alvoroos eram j taes na cidade, a que sem sua pessoa no se esperava
resistir,  qual cousa El-Rei veiu em pessoa, e de muitos que pelo mesmo
caso achou presos, mandou fazer publicas justias, de que contra sua
real pessoa se alevantavam onies to irosas, que houve por bem cessar
de fazer mais cruas execues; porque prendiam e puniam principalmente
as pessoas, em cujas mos as cousas do roubo por qualquer maneira se
achavam; porque muitos que as no roubaram innocentemente padeciam.




CAPITULO CXXXI

     _De como foi o casamento da Inperatriz D. Lianor irm d'El-Rei com
     o Imperador Frederico, e festas que por elle se fizeram_


Tornou-se El-Rei a Evora, e na entrada do anno de mil e quatrocentos e
cincoenta, houve cartas do Imperador d'Allemanha Frederico, que ento se
chamava Rei dos romos, porque lhe prazia casar com a Infante D. Lianor
sua irm, segundo que fra j apontado e requerido por El-Rei D. Affonso
Rei de Napoles e d'Arago seu tio d'ella, sobre a qual cousa El-Rei veiu
ter crtes geraes em Santarem, em que foi acordado que o dito casamento
se fizesse, para cujo dote o reino com pedidos satisfaria o que fosse
razo e se concordassem.

Foi logo para isso ordenado por embaixador o doutor Joo Fernandez da
Silveira, homem fidalgo prudente e gro letrado, que depois foi o
primeiro baro d'Alvito. O qual no mez de Junho do dito anno se partiu e
foi  crte do dito Rei de Napoles, onde com os embaixadores e
procuradores do Imperador, que para o caso eram hi vindos, o dito doutor
por meio do dito Rei a que tudo ia cometido, concertaram o dito
casamento, de que fizeram autenticos contratos, e assinaram tempo certo
a que o dito Imperador enviaria sua embaixada com seu suficiente
procurador, para em seu nome receber por mulher a dita Infante, que
havia de ser na entrada do anno que vinha de mil quatrocentos e
cincoenta e nove, e logo levada a Allemanha. Da qual cousa sendo El-Rei
logo avisado, se foi com sua crte a Lisboa, onde entrou a uma quarta
feira XXIII de Junho, que por acertamento foi bespora do Corpo de Deos e
de S. Joo juntamente, onde quiz que o dito recebimento e entrega se
fizesse com grandes e reaes festas, para que fez grandes provimentos e
deu muita pressa.

E os embaixadores do Imperador que eram dois, tardavam j mais tempo do
que fra concordado, e a causa d'isso foi, porque em Castella no caminho
de Santiago, a que vieram em romaria, foram roubados e deteudos, os
quaes topou em seu destroo em Portugal, na Arrifana de Santa Maria,
Afonso Nogueira, Bispo de Coimbra, que d'hi a pouco tempo logo foi
Arcebispo de Lisboa, os quaes ambos eram homens de ordens sacras e
letrados, um se dizia confessor do Imperador e outro seu capello, e
vendo Affonso Nogueira sua necessidade, e que no vinham em auto e
habitos como cumpria a embaixadores de tamanho Senhor e que to alto
casamento haviam de fazer, determinou indo  mesma romaria de Santiago
se volver com elles, a que com suas despezas, prata e cama e servidores,
mandou servir e prover com muita nobreza e em grande cumprimento, e em
Coimbra fez comprar muitos pannos finos, de que a elles e aos seus
mandou fazer de vestir, segundo s pessoas de cada um pertencia. E com
elles leixou hi todo provimento com que de seu vagar se fossem a Lisboa,
para onde elle se adiantou; porque avizasse El-Rei do que lhe cumpria, e
logo ao caminho se tornou aos ditos embaixadores, com que foi por Villa
Franca, onde o Infante D. Anrique os recebeu com festas e mui
manificamente, e foram dormir ao Lumiar quinta feira trinta dias do mez
de Julho do dito anno de mil e quatrocentos cincoenta e um, e ao outro
dia foram recebidos de toda a crte e cidade com muita e mui nobre
gente, e de caminho foram decer aos paos d'Alcaova. Em que El-Rei na
sala grande, que para isso estava em grande perfeio aparelhada, os
recebeu assentado em sua cadeira triunfante, posta em seu estrado real,
acompanhado de muitos senhores e fidalgos como o auto requeria, e
aquella hora no foi mais que d'encomendas e visitaes, com as quaes
feitas se despediram e foram aposentados nos estaos do Rocio onde lhe
foram aparelhadas as casas necessarias como a taes pessoas cumpria. E
assi lhe foram ordenados mantimentos e provises, e outras cousas de
graa em muita abastana.

E os ditos embaixadores repousaram alguns dias, dentro dos quaes depois
de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assi os poderes
que traziam para o fazer, o recebimento entre a Imperatriz e o
procurador do Imperador se ordenou de fazer, e fez solemnemente por
palavras de presenente nos paos do duque, que so junto com S.
Cristovo, a um domingo IX dias de Agosto de mil e quatrocentos
cincoenta e um, ao qual foram El-Rei, e o Infante D. Fernando seu irmo,
e o Infante D. Anrique seu tio, e condes e perlados e muitos nobres
senhores, e assi foi a Rainha com a Infante D. Joana, e com muitas
outras donas e donzellas de grande condio.

E por honra e memoria d'aquelle dia depois do casamento acabado, a
requerimento da Imperatriz e dos embaixadores, outorgou El-Rei dificeis
perdes de mui rigorosos casos, e fez quita de grandes dividas, que para
outras pessoas particulares lhe foram requeridas. E houve aquelle dia
convite real de vinhos e fruitas em uma notavel perfeio, e assi muitas
danas e festas em toda a noite. E depois em todolos dias que a
Imperatriz esteve na cidade ante de sua partida houve sempre mui
suntuosos banquetes, em que d'El-Rei e da Rainha foi muitas vezes
convidada, e assi os embaixadores e Infantes, como em ricos momos que o
Infante D. Fernando por si fez, e outros de muito mr riqueza e singular
inveno, que o Infante D. Anrique mandou fazer, com outros de muitos
senhores e fidalgos, e sobre todos o d'El-Rei, em que desafiou os
cavalleiros para as justas reaes, que manteve na rua Nova, com condies
mui excellentes e de grande gentilleza, e assi propostos grados e
empresas mui ricas para quem mais galante viesse  tea e assim melhor
justasse. A que o Infante D. Fernando veiu com seus ventureiros vestidos
de guedelhas de seda fina como selvagens, em cima de bons cavallos
envestidos e cubertos de figuras e cres d'alimarias conhecidas, e
outras diformes, e todas mui naturaes, e o Infante D. Fernando por
melhor justador venceu ento o grado, que foi uma rica copa de que fez
logo merc a Diogo de Mello. E assi vieram outros seis ventureiros do
Infante D. Anrique ricos e em ba ordenana, e aps elles outros muitos,
que no primeiro dia e em outros quatro que El-Rei manteve justaram, em
que se fizeram notaveis e maravilhosos encontros. E depois das justas
houve touros, e canas e mais momos e banquetes e muitos entremezes de
grandes invenses, e com muita custa.




CAPITULO CXXXII

     _Da partida da Imperatriz d'estes reinos, e das pessoas que com
     ella foram_


E finalmente sendo j todalas pessoas ordenadas, e navios e cousas
prestes para a partida da Imperatriz, uma segunda feira XXV dias
d'outubro ante de embarcar e se meter no mar, ordenou El-Rei que fossem
todos ouvir missa  S, para onde El-Rei foi diante com a Imperatriz, e
aps elles a Rainha, e com ella o Infante D. Fernando, e logo a Infante
D. Caterina que levava o Infante D. Anrique, e aps ella a Infante D.
Joanna com que ia o marquez d'Ourem, e estas pessoas reaes foram todas a
cavallo, e a outra gente que era muita e mui nobre, assi homens como
mulheres foram todos a p.

E como entraram na S a Imperatriz se foi  cortina d'El-Rei, e com ella
as Infantes suas irms, El-Rei se foi para a da Rainha, que por ser
prenhe e ter na emprenhido fortes accidentes se retraiu a uma capella
da charolla em que ouviu missa.

Foi a principal missa dita em Pontifical e mui solemne, e com pregao 
partida e auto consoante, acabada a qual, e dada a beno pelo Bispo de
Ceuta com muita solemnidade e devoo  Imperatriz, abalaram todos at 
porta da S, d'onde a Imperatriz com muitas lagrimas se despedio da
Rainha que no pde mais ir, e de hi El-Rei com todolos outros senhores
e senhoras se foi com a Imperatriz a p, at o cais da Ribeira, em que
era feita uma ponte de toneis, porque entraram em uma carraca que para
ella se armou e concertou em grande perfeio.

E  primeira era ordenado que com ella fosse o Infante D. Fernando, e
elle o desejou e procurou assi pela acompanhar mui honradamente, segundo
a pessoa que era, como por ir vr El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio
que muito desejava. E em fim El-Rei o no houve por bem, e foram com
ella o conde de Ourem, que ento fra feito novamente marquez de Valena
de Minho, e a condessa de Villa Real a Velha com muitas donas e
donzellas, e o Bispo de Coimbra D. Luiz Coutinho, e Lopo d'Almeida, e
Pero Vaz de Mello, regedor da casa do civel de Lisboa, e Alvaro de
Sousa, mordomo mr, e Affonso de Miranda, e Gomez de Miranda, e Gomez
Freire, e Joo Freire, e D. Diogo de Castello o Velho, e Ferno da
Silveira, e Martim Mendez de Berredo, e outros muitos cavalleiros a que
ento foram ordenadas quinhentas e oitenta emcavalgaduras, e para sua
embarcao levaram duas carracas e seis nos, e duas caravellas; e
porque depois da Imperatriz ser embarcada sobrevieram ventos contrairos,
ella sem sair da carraca esteve no porto sobre ancora muitos dias; e
porm como Deos deu vento de viagem, partiram de Lisboa e foram a Ceuta
a cinco dias de Dezembro.

E a Imperatriz com todos sahiu em terra, e foi de p em romaria a Santa
Maria d'Africa. Era ento capito de Ceuta o conde D. Sancho, que com as
festas que pde lhe fez muito honrado recebimento, e deu banquetes na
terra, e assi muito refresco para o mar. E d'hi fizeram vella, e
passaram ao mar grandes e perigosas tromentas, e em fim aportaram a
salvamento em porto Liorne, junto com Pisa, bespora de Santa Maria
Candelaram, primeiro dia de Fevereiro.




CAPITULO CXXXIII

     _Como a Imperatriz chegou  Italia e foi do Imperador recebida, e
     assim como ambos foram pelo Papa recebidos e coroados em Roma_


E dos moradores da cidade de Pisa em que entrou foi altamente recebida,
e foi a tempo que o Imperador esperando j por ella estava em Italia na
cidade de Sena; d'onde logo enviou a ella o duque de Saxim e dois condes
e quatro bares, e algumas outras senhoras d'Allemanha, e tambem Eneas
Silvio, que ento era bispo da dita cidade de Sena, e depois foi
Cardeal, e tambem Papa chamado Pio segundo, com que de Pisa veiu com
grande honra at a dita cidade de Sena, em que entrou a primeira quinta
feira da quaresma. D'onde sahiu logo fra o duque Alberto, irmo do
Imperador, e depois El-Rei d'Ungria, moo acompanhado de rica e mui
nobre gente, e o Imperador a esperou  porta da cidade da parte de
dentro, acompanhado de dois Cardeaes, todos a p, e a Imperatriz se
deceu, e lhe quizera beijar a mo, e elle no quiz.

E depois de suas falas e arengas publicas, que por oradores alli se
fizeram, se foram s pousadas, onde por memoria d'esta primeira vista no
proprio logar em que se primeiro viram est uma coluna de marmore mui
alta com o escudo Real de Portugal, que o dito doutor Joo Fernandez da
Silveira, embaixador, que era presente, mandou fazer.

E depois de se alli em Sena fazerem muitas festas e prazeres por alguns
dias, o Imperador e Imperatriz partiram para Roma, onde tinha o Sumo
Pontificado o Papa Nicolo quinto, que depois de o Imperador fazer
certos juramentos e solenidades, a que os Imperadores de Roma so
obrigados, os mandou receber com o Collegio dos Cardeaes, e com toda a
crte romana, que  a mr honra que se pde fazer. Entraram a nove dias
de Maro do anno seguinte de mil e quatrocentos e cincoenta e dois. E da
porta da cidade onde os veiu receber uma solemne procisso, foram logo
decer  Igreja de S. Pedro, onde o Papa nos degros da porta principal
os veio receber, e depois de lhe beijarem o p, e fazerem o divido
acatamento, o Papa com grande alegria e muita honra os levou dentro ao
altar de S. Pedro, onde depois de fazerem orao se tornou com elles s
portas, d'onde por aquelle dia se despediram para as pousadas.

E aos quinze dias houve missa papal em S. Pedro muito solene, a que o
Imperador e Imperatriz estiveram, e alli o Papa lhes fez as benes que
a Santa Egreja aos novos casamentos ordena; porque sem isso houveram por
bem que o matrimonio entre elles se no consumasse nem consumou, salvo
em Napoles depois da quaresma toda passada; porque assi o tomaram por
devoo.

E aos vintoito dias do dito mez no fim da outra missa do Papa, elle com
grandes solemnidades e maravilhosas cerimonias, por suas mos em S.
Pedro os ungio e coroou, e hi com grandes triunfos foram sem o Papa
levados a S. Joo de Latro, e ao passar da ponte de Santangello, indo
de caminho fez o Imperador cavalleiros o duque Alberto seu irmo, e
El-Rei d'Ungria seu sobrinho, que vinham com elle. E assi outras muitas
pessoas de grande valor. E ao outro dia tornou a fazer outros em S.
Pedro ao p da veronica, em que foi o dito embaixador Joo Fernandez,
que depois foi o primeiro baro d'Alvito como j disse. Acabadas as
quaes cousas o Imperador e a Imperatriz ante de se irem para o imperio,
a XXVII dias de Maro partiram para Napoles vr El-Rei D. Affonso, que
em bespora de Pascoa lhe fez to ricos e suntuosos recebimentos e
festas, que com razo por sua grandeza, nobreza, e manificencia apagaram
a memoria de todolos excellentes, que at seu tempo se fizeram, e d'alli
tornaram outra vez junto com Roma, e de hi fizeram seu caminho para
Allemanha, e d'este Imperador e Imperetriz nasceu Maximiliano, que
depois da morte de seu pae foi Rei dos romos.




CAPITULO CXXXIV

     _Dos filhos que a Rainha pario, e de como o Infante D. Fernando
     secretamente se foi d'estes reinos, e logo tornou a elles_


A Rainha D. Isabel ao tempo d'estas festas era prenhe da primeira vez, e
pario em Cintra um filho, que houve nome o Principe D. Joo, e em menino
logo falleceu, e depois pario logo a Infanta D. Joana, que sempre se
chamou Princesa at o anno que vinha de mil e quatrocentos e cincoenta e
cinco, em que o Principe D. Joo nasceo, e depois se chamou Infante, e
falleceu honestamente sem casar nem obrigao de religio dentro no
mosteiro de Jesu d'Aveiro, em idade de XXXVI annos no anno que vinha de
mil e quatrocentos cincoenta e seis, e no anno de mil e quatrocentos
cincoenta e sete El-Rei se foi a Evora, onde o Infante D. Fernando seu
irmo, segundo alguma opinio, teve com elle alguns requerimentos a que
El-Rei, segundo sua vontade no satisfez. Pelo qual o Infante, ou
descontente d'isso, ou desejando acrescentar seu nome e honra na guerra
d'Africa, como outros disseram, ou com desejo de ir vr El-Rei D.
Affonso de Napoles seu tio, que por no ter filho herdeiro legitimo,
tinha esperana que o dotaria por filho para sua sobcesso, determinou
ir-se escondidamente d'estes reinos sem licena d'El-Rei, sendo j
casado em edade de desoito annos. E para isso mandou a Lopo Fernandez
Andorinho, seu estribeiro, que lhe fizesse como fez com grande trigana
e dissimulao aparelhar uma caravela na Foz d'Odiana, e como foi
avisado que era prestes, partiu-se d'Evora secretamente dia dos
Innocentes, que  a terceira Oitava do Natal, e com elle smente Nuno da
Cunha seu camareiro mr, e o doutor Vasco Fernandez, e dois moos da
camara, e meteu-se n'ella com fundamento de tocar Ceuta.

No foi El-Rei de sua partida sabedor salvo no outro dia, com que foi
muito anojado, e mandou logo muitos fidalgos por todalas partes,
avisados que por qualquer caminho que levasse o seguissem; e porque o
Infante ao partir d'Evora por enlear os que o seguissem, ps o rostro em
Moura com mostrana d'entrar em Castella, El-Rei que d'isso foi avisado,
partiu logo para Mouro e d'hi porque no achou certo recado, partio
pelo rio d'Odiana abaixo sem algum repouso at que chegou a Crasto Marim
onde soube que o Infante embarcara, e d'hi apressado se foi a Tavilla.

E ante que da mudana do Infante alguma cousa em Ceuta se conhecesse,
chegaram a ella por mandado d'El-Rei, Joo de Mello alcaide mr de
Serpa, e Galleote Pereira, que ao conde D. Sancho capito de Ceuta
notificaram o caso, e da parte d'El-Rei lhe encomendaram, que com gram
deligencia e trigana mandasse guardar o estreito, para que se o Infante
passasse como se presumia, em toda maneira at o avisar o detivesse.

Deu o conde a isso muita pressa e mandou logo armar fustas e caravellas,
e esses navios do reino que tinha. E em se estas cousas aparelhando,
estavam sobre o mar para isso postas atalaias, que n'elle descobriram
uma gall e uma caravela ambas juntas, e a gal era de um Peroso,
cosairo italiano, que n'aquelle estreito andava d'armada, e na caravella
vinha o Infante aps quem o cosairo vinha, j avisado de quem era, e
para o deter e no o leixar passar, se por ventura desviara a pra de
Ceuta, e o conde como houve conhecimento que alli vinha o Infante o foi
em uma galeota logo receber ao mar, e com elle se veio ao porto onde com
Joo de Sousa smente entrou na caravella e lhe beijou as mos, e o
Infante sahiu, e foi logo a Santa Maria d'Africa, e tornou-se a
apousentar, e o conde fez quanto pde pelo agasalhar e servir em todo
cumprimento e perfeio, e lhe entregou a vara da governana e capitania
da cidade; mas o Infante havendo-a em sua mo e esforo por bem
empregada, no lh'a tomou, e o conde como era de muitos annos e siso,
depois de praticarem sobre sua partida, moveu o Infante ao que quiz, que
foi conforma-lo com a vontade d'El-rei, para o qual o conde depois de
concertar o assessego do Infante na gall do cosairo, avisado bem de
tudo logo partiu e o achou em Tavilla, com que El-Rei e o Infante D.
Anrique e toda sua crte crendo que vinha alli o Infante, foram postos
em grande alvoroo, e os vieram receber  ribeira, e depois de o conde
lhe dizer o fundamento do Infante, El-Rei com causas e razes evidentes,
e que muito faziam ao resguardo de sua honra e estado, houve por
escusado satisfazer  teno do Infante, que era estar como fronteiro em
Ceuta, a quem tambem logo mandou o conde d'Arrayollos com quem foram
seus filhos, e o conde d'Atouguia, e o marechal, e aps elles outros
muitos fidalgos e pessoas principaes de todo o reino, para o Infante lhe
dar f, e o moverem logo para sua tornada.

E assi se tornou o conde D. Sancho, que no caminho tomou por fora uma
caravela com uma rica empresa de mouros e cavallos, e cousas outras
muitas com que veiu alegre a Ceuta. E elle e os outros declararam logo
ao Infante a vontade e desejo d'El-Rei. E finalmente depois de o Infante
ser por cartas d'El-Rei, e por os senhores que com elle eram mui
perseguido acerca de sua volta para o reino; com especial porque na
cidade morriam muito de pestenena, houve por bem faze-lo, sendo j
diante partido o conde d'Arrayolos e D. Fernando, e D. Joo seus filhos,
que o Infante tinha despedidos com fundamento de ficar em Ceuta alguns
dias.

E ante de o Infante se meter no mar; por que o conde D. Sancho andava
anojado por uma sua filha j mulher, e por o Arcebispo de Lisboa D.
Pedro seu irmo, que uma em Ceuta, e o outro no reino ambos ento
falleceram, e em signal de tristeza trazia por elles grande barba, o
Infante lhe rogou que a fizesse e tirasse o d, e o conde para o fazer
lhe metteu por condio que tambem fizesse a sua que ainda nunca fizera,
de que ao Infante aprouve e assi o fez, e logo embarcou em navios, e com
elle o conde D. Sancho, e o conde d'Atouguia, e outros muitos senhores e
fidalgos, e passaram logo  ilha de Tarifa, e d'hi pelos lugares da
costa do mar at Callez, recebendo o Infante dos castelhanos muitos e
honrados presentes e grandes refrescos, e elle assim fazendo a muitos
que lh'o pediam muitas mercs e esmolas.

E de Callez se foi a Crasto Marim, onde chegou quarta feira sete dias de
Fevereiro do anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, onde estava o
Infante D. Anrique, que no rostro e alegres mostranas com que logo
recebeu o Infante seu sobrinho e filho, e nas festas e avondanas com
que o tratou e os que com elle vinham, pareceu mui claro o grande e
verdadeiro amor que lhe tinha, e alli esteve o Infante D. Fernando oito
dias, nos quaes mandou fazer de vestir asi e a todolos senhores e
fidalgos que com elle vinham, de muitos pannos de sda e de l que em
Callez para isso mandou comprar.

E depois de se despedir do Infante seu tio se foi a Mertola, e d'hi a
Beja onde El-Rei o esperava, que foi aos XVII dias de Fevereiro, que era
a primeira sexta feira da quaresma.

Sahiu El-Rei tres legoas ao receber, em cuja vista elle e toda a crte
receberam muita alegria. E assi foram fallando at  villa, d'onde por
mandado d'El-Rei sahiu muita gente a receber o Infante com muitas festas
e prazeres.

E d'hi a poucos dias El-Rei por satisfazer ao descontentamento do
Infante de que mais sua partida pareceu que procedera, lhe fez doao
das villas de Beja e Serpa e Moura.




CAPITULO CXXXV

     _Como o Gram Turco tomou a cidade de Constantinopola, e o Papa
     publicou cruzada contra elle, e El-Rei D. Affonso a tomou_


E no Maio d'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e tres, o Gram
Turco chamado Mafamede tomou por cerco a nobre cidade de Constantinopola
em Grecia, cabea do imperio no Oriente, e a cidade de Pera com muitos
outros reinos e provincias de christos de Europa e Asia, sendo Papa na
Santa Egreja de Roma Nicolau sexto, que de muito velho e anojado do caso
a que quizera prover, logo falleceu e sobcedeu em seu lugar o Papa
Calisto terceiro, de nao valenceano, em virtudes, saber, e esforo
homem mui singular, e com a dr da perdio d'aquellas cidades e terras,
e aceso em um santo ardor de as cobrar, convocou e encitou para isso por
seus breves e messegeiros todolos Reis e Principes christos. Entre os
quaes foi El-Rei D. Affonso, que como era Principe mui catholico e de
grande corao, e em que o real sangue para mais honra servia, sendo
ainda a Rainha viva, acceitou a empreza com promessa de servir a Deus
n'aquella guerra com doze mil homens por um anno  sua custa, para
execuo do qual, em fazimento de navios e compras d'armas, e em outras
cousas a tal e to longa viagem necessarias, fez grandissimas despezas,
no sem grandes lamentaes do reino, e em fim El-Rei por ento desistiu
d'aquella ida, assi porque lhe falleceu para isso muito dinheiro, como
porque o Papa Calisto falleceu, que deu causa aos outros Principes
christos tambem desistirem. E assi juntamente porque foi certificado
que El-Rei de Fez sabendo de sua partida fra de seus reinos se
aparelhava vir como veio sobre Ceuta; mas porque ento achou a cidade
com mais fora e maior segurana do que fez fundamento, alevantou o
cerco com proposito de logo tornar sobr'ella com mais artilharias,
engenhos, e poder.

E tendo El-Rei muita frota e gente prestes, para a empregar como dizia,
occorreram-lhe tres emprezas juntamente, a primeira era a necessidade
que tinha de prover e remedear aos males e roubos que n'este tempo os
francezes faziam no mar aos naturaes d'estes reinos, de que se os
mercadores a El-Rei muito querelavam. A segunda cumprir sua promessa
cerca da guerra dos turcos, que j tinha publicada, e para que tinha
feito muitos percebimentos. A terceira a ida d'Africa, com fundamento de
tomar aos mouros algum lugar, com que de cercos e affrontas affrouxassem
Ceuta, e sobre todas tres teve conselho.

E a primeira de tamanha frota andar pelo mar  ventura, houveram que era
cousa duvidosa e no certa, e ainda com despeza e perigo. E a segunda de
seguir a empreza do turco no menos por escusada, pois El-Rei ficava
n'ella s, em que pela desegual comparao de poder que d'elle ao
contrairo turco havia, sem duvida se perderia.

E porm o marquez de Valena e alguns que o seguiram aconselhavam El-Rei
que esta sobre todas era razo que seguissem, pois o promettera e se
esperava por isso em toda a christandade, tendo ainda por mr e mais
forte contradico, que devia ir por terra e no por mar, em cujo voto
foi de todos confundido, e alguns tiveram que a teno do marquez em dar
e soster conselho de tantas contrariedades, no fra se no por arredar
El-Rei da affeio da Rainha, de que se muito receava por causa da morte
do Infante D. Pedro seu padre, em que elle fra o principal movedor. E
finalmente a terceira de passar em Africa se houve por melhor,
especialmente que presuppunha que El-Rei de Fez magoado de chagas novas,
que com sua passagem tomando algum lugar receberia, viria sobre El-Rei
que lhe daria batalha, e com ajuda de Deus o venceria, e porm as cousas
sobcederam logo no reino de maneira, que este desejo e determinao se
no pde assi cumprir.




CAPITULO CXXXVI

     _De como a Rainha pariu o Principe D. Joo e d'outras cousas a que
     El-Rei satisfez cerca do Infante D. Pedro, e como casou a Rainha
     D. Joanna com El-Rei D. Anrique de Castella_


E no mez d'Agosto do anno de mil e quatrocentos cincoenta e quatro,
estando a Rainha em Almeirim emprenhou do Principe D. Joo, e segundo El
Rei D. Affonso affirmou,  hora de seu concebimento a Rainha trazia em
um annel uma rica esmeralda, que por sua virtude especifica de guardar
castidade lhe quebrou no dedo, e ella lastimando-se da pedra, El-Rei a
confortou com esperana de cobrar por ella um filho, e assi foi.

E no anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco annos El-Rei se foi a
Lisboa, onde a Rainha acabou com elle, assi por intercesso do Papa e
d'outros Reis e Principes que sobr'isso tinham a El-Rei aficadamente
requerido, como principalmente por seu amor d'ella, que com devidas
exequias e cerimonias se dsse ao Infante D. Pedro a sepultura que na
capela d'El-Rei D. Joo seu padre lhe fra apropriada, e que seus ossos
fossem a ella trasladados com aquella honra e solemnidade que sem a
desaventura de sua morte merecia. Para o qual da egreja d'Alverca onde
seu corpo foi logo soterrado e d'onde seus ossos foram por Lopo
d'Almeida levados ao Castello de Abrantes, foi ordenado que d'ali ao
tempo da trasladao fossem solemnemente levados a Lisboa, e d'hi 
Batalha, como adiante direi.

E aos tres dias de Maio d'este dito anno de mil e quatrocentos cincoenta
e cinco, em Lisboa pario a Rainha o Principe D. Joo, que aos oito dias
logo seguintes na S da dita cidade foi bautizado pelo Bispo de Ceuta D.
Joo, que depois foi Bispo da Guarda, e foi levado  pia nos braos do
Infante D. Fernando, irmo d'El-Rei, e acompanhado do Infante D.
Anrique, e das Infantes e senhores e senhoras do reino; foram padrinhos
o duque de Bragana, e D. Vasco de Tayde, prior do Crato, e madrinha D.
Briatiz de Vilhena, mulher de Diogo Soarez.

E d'ahi a um mez foi por todolos tres Estados do Reino solemnemente
jurado por Principe ligitimo herdeiro, e D. Joana sua irm at ento se
chamou Princesa, e d'hi em diante Infante.

E as festas e prazeres que no nascimento do Principe, seu bautismo e
juramento em Lisboa principalmente, e assi em todo o reino se fizeram,
foram grandes e com muitas deversidades d'alegrias, que duraram por
muitos dias, e em grande perfeio.

E n'este anno de mil e quatrocentos cincoenta e cinco, El-Rei D. Anrique
o quarto de Castella, se quitou da filha d'El-Rei D. Joo de Navarra seu
tio que tinha por mulher, e se concertou com El-Rei D. Affonso de
Portugal, que lhe deu por mulher a Infante D. Joana sua irm, que sem
dote e com os ss corregimentos de sua pessoa, casa e camara, que foram
muito reaes e de gram cumprimento, a recebeu por mulher em idade de XVII
annos, e foi muito honradamente levada ao extremo d'estes reinos, e d'hi
levada a Castella por a condessa D. Guiomar, e por o conde da Atouguia
D. Martinho seu filho, que a entregaram a El-Rei, e alm das festas que
em Lisboa se fizeram mui grandes, houve tambem outras e honradas justas
na Landeira; porque a Rainha entrou por Elvas.




CAPITULO CXXXVII

     _Da treladao e exequias que se fizeram aos ossos do Infante D.
     Pedro, e como a Rainha sua filha logo falleceu, e os ossos da
     Rainha D. Lianor foram de Castella trazidos ao mosteiro da Batalha_


E alm do grande amor e affeio que entre elle e a Rainha havia, ainda
pelo nascimento do Principe se dobrou muito mais, com que a Rainha j
mais confiada requereu e pediu a El-Rei, que os ossos do Infante seu
Padre como lhe tinha prometido no andassem provando tantas e to vis
sepulturas, e quizesse que fossem trazidos a Lisboa, e d'ali os levassem
ao mosteiro da Batalha; porque alli faria por mais sua honra e mr seu
estado.

E como quer que isto fosse pelo duque de Bragana e por seu filho o
marquez muito contrariado, El-Rei posposto tudo o concedeo. No querendo
porm que o senhor D. Pedro Irmo da Rainha, que depois da morte de seu
padre andava em Castella desterrado, viesse a suas exequias e saimento,
nem a este reino; porque o tinha por seu alvar assi prometido ao dito
duque. E tinha dado ao Infante D. Anrique o Mestrado d'Avis, que tinha
D. Pedro filho do Infante D. Pedro. Mas o Papa nunca lh'o quiz conceder,
dizendo que se no podia confiscar nem elle o perder como as outras
cousas seculares. Pelo qual os ossos do Infante com assaz honra foram
logo trazidos ao mosteiro da Trindade de Lisboa, e d'hi ao mosteiro de
Santo Eloy, onde foram em grande triumfo e muita venerao postos em
tumba e estrado  vista de todos.

E concertado o dia em que os haviam de levar  Batalha, El-Rei e a
Rainha se foram diante para os esperar no mosteiro da Batalha, a que
foram chamados e vieram todolos senhores e senhoras principaes do reino,
salvo o Infante D. Fernando, e o marquez de Valena, que tomaram outra
opinio contraira ao prazer e contentamento da Rainha.

E o cargo principal da treladao e acompanhamento da dita ossada ficou
ao Infante D. Anrique, o qual vestido no de d preto, mas d'aluz
escuro, e assi muitos senhores que eram com elle fez com muita pompa e
grande cerimonia tirar a dita ossada do dito mosteiro de Santo Eloy, e
com solemne procisso de Bispos e cabido, e muitas ordens e clerezia,
que para isso foi junta, e com grande numero de tochas acesas a levarem
 S. E d'hi pela rua Nova, acompanhada do Infante e de muita gente com
que chegaram  Porta da Mouraria, e de hi se tornaram, e foi com ella o
Infante D. Anrique com muitos senhores, que com grande honra e com
muitas oraes, que de continuo iam pela alma do Infante rezando, a
levaram ao dito mosteiro da Batalha, d'onde El-Rei e a Rainha com
solemne procisso acompanhada de muitos prelados, abades e clerizia e de
muita e nobre gente sahiu a recebe-la.

E as senhoras e mulheres que alli foram, levaram algum sinal de d que
no foi de veos pretos, mas tintos como allionado escuro. Fez-se o dito
saimento com essa, e com toda outra perfeio e solemnidade que se podia
e devia fazer a um tal Principe natural, sem alguma magoa fallecido.
Acabado o qual, entrando j o inverno, El-Rei e a Rainha se foram para a
cidade d'Evora, onde a Rainha adoeceo logo de fruxo de sangue, de que
nos paos de S. Francisco onde pousava, a dois de Dezembro do dito anno
de mil e quatrocentos cincoenta e cinco logo falleceu, cuja morte foi
d'El-Rei muito chorada e sentida, e assi de todos, em especial dos
criados e servidores do Infante seu padre.

A causa de sua morte segundo foi accidental e arrebatada, por maginao
dos mais foi attribuida a peonha que dos imigos de seu padre por sua
segurana disseram que lhe fra ordenada, e como quer que para isso
houve muitas conjecturas e presunes, porm da certa verdade Deus  o
sabedor.

Foi seu corpo levado ao mosteiro da Batalha, onde jaz soterrado per si
em uma capella do cruzeiro. E d'hi a um mez que foi no Janeiro seguinte
de mil e quatrocentos cincoenta e seis, El-Rei lhe fez o mais honrado e
solemne saimento que at ento por Rainha d'estes reinos se fizera. A
que vieram ao dito mosteiro todolos senhores e senhoras, e Prelado,
abades e priores de todo o reino, e toda outra gente de sorte sem
excepo.

N'este anno logo depois da morte da Rainha, El-Rei enviou pela ossada da
Rainha D. Lianor sua madre, que jazia em Toledo onde falleceu como atrs
fica, a qual com grande honra, e com muita e nobre gente foi trazida a
Elvas, onde El-Rei com todolos grandes e Prelados de seu reino a foi
receber, e a levou ao mosteiro da Batalha, em que com a devida
solemnidade e cerimonia, que em tal auto e a to alta Rainha se
requeria, foi lanada com El-Rei D. Duarte seu marido.




CAPITULO CXXXVIII

     _Como El-Rei outra vez acceitou a crusada contra os turcos quando
     fez os Cruzados, e com os percebimentos que para isso fez passou em
     Africa e tomou aos mouros a villa d'Alcacere_


E no anno de mil e quatrocentos e cincoenta e sete annos, veiu a estes
reinos por delegado do Papa Calisto, um Bispo de Silves portugus, homem
de bom saber e grande autoridade, que a El-Rei trouxe a Cruzada contra
os turcos, com grandes e piedosas graas e perdes da S Apostolica,
assi como sobre o caso foram outros a outros reinos e provincias de
christos.

E El-Rei porque de sua real condio era para honrosos feitos mui
inclinado, consirando a obrigao em que estava pela offerta e aparelho
que para isso j fizera que no cumprira, vendo-se em melhor disposio
e com menos pejos, por razo d'estar sem mulher, e que para segurana de
sua direita sobcesso tinha filhos ligitimos, elle com grande alegria e
muita devoo, e com todalas pessoas principaes do reino acceitou a dita
Cruzada. Na qual se offereceu servir com os ditos doze mil homens por um
anno  sua custa, como d'antes prometera, para que tinha d'ajuda muitas
armas que comprara, e navios que mandara fazer, e assi outras muitas
cousas para tal perseguimento mui necessarias e proveitosas.

E fazendo fundamento, e crendo que todolos outros Reis e Principes
christos com suas pessoas, gentes e foras ajudariam como elle n'este
santo proposito, mandou logo Martim Mendez Berredo, fidalgo de sua casa,
e a elle mui acceito, a El-Rei D. Affonso de Napoles seu tio, para
d'elle saber e se enformar muitas cousas que por seu aviso lhe cumpriam,
e assi lhe requerer e trazer mandados e provises suas, com que em seus
reinos e terras, e principalmento em Secilia e na Pulha lhe desse por
seu dinheiro bitualhas e mantimentos, onde El-Rei era aconselhado que
com mais seu proveito e menos trabalho se podia fornecer, mas o dito
Berredo no achou em Napoles nem Italia, aquelle percebimento nem desejo
que para tal empresa cumpria, nem como El-Rei cuidava, de que logo
avisou El-Rei.

N'este tempo e no fervor d'esta Cruzada, andava ainda desterrado em
Castella o senhor D. Pedro, filho do Infante D. Pedro, que com muita
paciencia de grandes necessidades e desaventuras, que em seu desterro
soportava, e com uma louvada temperana, que em suas fallas e obras para
El-Rei e para o reino sempre teve, obrigou e comoveu El-Rei para o
retornar em seus reinos e lhe fazer aquella honra e merc que elle por
muitas causas merecia, especialmente porque o duque de Bragana, como
viu a morte da Rainha, no o contradisse com tanta instancia nem com
tanto receio, como em sua vida d'ella fazia; porque tinha uma promessa
d'El Rei, que o dito D. Pedro em vida do duque sem seu prazer no viesse
a estes reinos, da qual desistio. E El-Rei por isso lhe alevantou o
desterro, e o convidou para a Cruzada, com fundamento de o levar
comsigo, a que elle obedeceu, e veio a estes reinos bem acompanhado, e
logo para a mesma Cruzada invencionado com muita gentilleza foi d'El-Rei
e da crte com muita honra e gasalhado recebido, e El-Rei lhe leixou o
mestrado d'Avis, de que ante de seu desterro e por morte do Infante D.
Fernando fra provido, e deu-lhe mais seu honrado assentamento, com que
sempre serviu mui leal e honradamente, at que de Ceuta se foi para
Barcelona como se dir.

E com o grande desejo e louvado alvoroo que El-Rei tinha para esta
santa viagem, mandou novamente lavrar d'ouro fino sobido em toda
perfeio, a moeda dos cruzados, em cujo peso e no preo mandou sobre
todolos ducados da christandade acrescentar dois gros, por tal que por
terras to alongadas e naes to diversas como as porque esperava de
passar corressem e se tomassem sem alguma duvida; porque em seu tempo e
d'El-Rei D. Duarte seu padre, de ouro no se lavrou outra moeda, salvo
escudos d'ouro baixo, que em reinos estranhos se tomavam com grande
quebra e muito pejo.

E tendo El-Rei com seu animo no menos catholico que esforado, com
innumeraveis despesas, feitas e aparelhadas todalas cousas e provimentos
que cumpriam, o notificou assi  mr parte de todolos Reis e Principes e
provincias de christos. E finalmente nunca d'algum por verdadeira obra,
nem smente fingida mostrana, pde entender que em seu piedoso trabalho
e perigo to conhecido, o teria por parceiro nem ajudador, antes
claramente foi conhecido que se El-Rei por abatimento de todos tal
movimento fizera, que por vingana da injuria e quebra que n'isso
recebiam lhe ordenaram coisas com tal cautella, com que por fora
desistira da empresa, com muita despesa e pouca sua honra.

Pelo qual tudo bem visto e examinado em seu conselho que teve, ajuntando
tambem outras muitas contrariedades e inconvenienentes que no reino e
fra d'elle em muitas cousas e de grande perigo podiam recrescer, foi
El-Rei finalmente e sem contradio aconselhado que na empresa da
Cruzada se no entremetesse, e que repousasse, regendo em paz e justia
seus reinos e vassallos, at que a visse tomar e proseguir a outros
Principes, e que ento obraria n'isso como o tempo e a razo o
aconselhassem, ou se quizesse por exercicio de sua devoo, e por elle
parecer verdadeiro ramo dos excellentes e reaes troncos de que procedia,
podia passar em Africa, e tomar aos infieis algum lugar em que Deus
fosse servido, e sua f mais acrescentada, pois era guerra da mesma
calidade, e que a elle com mais honra e mr segurana d'Espanha mais
pertencia. E este acceitou El-Rei por meio mais de sua inclinao e
contentamento, e no conselho que logo sobr'isso teve foi acordado que
fosse  cidade de Tangere, sobre que acordou de levar vinte cinco mil
homens de combate, afra a outra gente do mar e servio, para que fez
seus percebimentos, e ordenava passar logo n'este anno de mil e
quatrocentos e cincoenta e sete. Ao que deu total impedimento sobrevir
crua pestenena  cidade de Lisboa, onde da embarcao principal se
fazia fundamento. Pelo qual El-Rei foi conselhado que sobrestevesse e
leixasse por ento a guerra dos mouros pela no tomar com a ira de Deus
e contra sua vontade.

E sobre esta determinao, que para seu desejo foi de mortal tristeza se
passou  comarca d'entre Tejo e Odiana, e estando em Estremoz, por
certido que houve dos danos e roubos que dos franceses os seus vassalos
no mar recebiam, acordava de mandar em guarda da costa o almirante Ruy
de Mello com vinte nos grossas e outros navios, e com muita gente, em
especial a mais limpa de sua crte. E estando j tudo ordenado e
provido, e a frota com as vergas altas para partir, vieram a El-Rei
cartas do conde d'Odemira, que era capito de Ceuta, como por avisos
certos que tinha, El Rei de Fez vinha sobr'ella para a cercar,
pedindo-lhe proviso e ajuda e soccorro quando cumprisse. Da qual cousa
sendo tambem avisado o Infante D. Fernando, veiu logo a El-Rei pedir-lhe
licena para ir ao socorro, e assi o fez o marquez de Villa Viosa, de
que El-Rei se escusou; porque lhe descobriu que sua determinada vontade
era passar em pessoa, e trabalhar por tomar algum bom lugar, com desejo
de vir em sua defesa e cobramento El-Rei de Fez, para lhe dar batalha e
acabar com elle estes rebates, e elles assi o aprovaram.

E para socorro de Ceuta enviaram diante alguns senhores, com fundamento
d'El-Rei ir aps elles, mas no foi, porque El-Rei de Fez como deu vista
a Ceuta logo se volveu. Porque esta determinao d'El-Rei ir sobre
Tangere foi ao conde D. Sancho revelada, El-Rei por seu conselho a
mudou, e converteu em Alcacer Ceguer com fundamento e razes que a bem
de conquista e a necessidades do reino cumpriam, a que por sua evidencia
que apontou, se deu inteira auctoridade. Pelo qual El-Rei acordou, que
por razo da m disposio de Lisboa que ainda no cessava, sua
embarcao fosse em Setuvel, e o marquez de Valena fizesse a outra no
Porto, e o Infante D. Anrique a do Algarve.

E tudo se aparelhou e fez prestes com muita brevidade e trigana, para
que foram ajuda e aviamento os percebimentos passados.

El-Rei, d'Estremoz se foi a Evora, e hi leixou seus filhos, e com elles
D. Briatiz, e Diogo Soarez d'Albergaria seu marido, que por sua
fidalguia, bondades, e grande saber foi dado ao Principe por aio, e at
sua morte sempre o foi.

Veiu-se El-Rei a Setuvel para logo embarcar, em que sobreveiu alguma
torvao pela grande doena de febre em que achou o Infante D. Fernando
seu irmo, de que Deus em breve o livrou, tendo elle j mandado que por
no ficar o levassem, e assi doente em um leito o metessem no mar.

E um sabado, derradeiro dia de Setembro, do anno do nascimento de Nosso
Senhor Jesus Christo de mil quatrocentos e cincoenta e sete, depois
d'El-Rei ouvir sua missa solemne e prgao mui devota, foi em procisso
armado, e no de todas armas, at os bateis, acompanhado de sua guarda e
de muita e mui luzida gente, e n'elles bem remados e ricamente toldados
se foi  sua no, que se chamava Santo Antonio, e com elle o Infante D.
Fernando, e o senhor D. Pedro, que alli veiu com gentes e concertos que
muito louvaram, e o marquez de Villa Viosa com D. Fernando, e D. Joo,
seus filhos, e D. Alvaro de Castro, e Pero Vaz de Mello, e outros muitos
senhores e fidalgos, com que El-Rei do dito porto partio com noventa
vellas.

E  tera-feira seguinte, tres dias d'Outubro, pela manh, dobraram o
cabo de S. Vicente, e chegaram  villa de Sagres, onde o j esperava o
Infante D. Anrique, que a El-Rei e a todos os que sairam em terra fez
falla em grande perfeio e abastana; era j hi o conde d'Odemira, que
viera de Ceuta com quatro fustas e um barinel, e  quarta-feira foi
El-Rei a Lagos, e  quinta-feira sahiu em terra e pousou no castello,
onde esteve oito dias esperando as frotas do Porto e do Mondego e
d'outros lugares, que alli todos chegaram.

El-Rei  tera-feira, que eram dez dias d'Outubro, se recolheu  sua no
porque todos se recolhessem, e  quarta-feira tornou logo a sair armado,
com sua guarda diante, e todo o mais com maravilhoso e rico estado e
grande gentileza, foi ouvir missa, e com elle todolos senhores que eram
na frota. Acabada a qual El-Rei posto em meio de todos, com graciosa e
alegre contenena, e com palavras cheias de devoo e grandeza, esforo
e perfeita eloquencia, e com cautelas e fundamentos de bom e prudente
guerreiro declarou sua ida sobre a villa d'Alcacere, louvando e
agardecendo a todos com muita humanidade a diligencia e amor com que o
to honradamente vinham servir, offerecendo-se a lh'o conhecer com as
honras e mercs, e acrescentamento que a cada um coubesse e merecesse. E
em fim de sua falla, o Infante D. Fernando como pessoa mais principal
lhe respondeu por todos, assaz bem e como cumpria. E em fim de suas
palavras, com os giolhos no cho lhe beijou as mos, e assi todos os
principaes que hi eram, e  quinta feira XVII dias d'Outubro El-Rei
partiu de Lagos com toda sua frota, em que por todas haveria duzentas e
vinte vellas, e ao sabado porque o vento no terou para tomar o porto
d'Alcacere, foi El-Rei surgir pela manh sobre a barra de Tangere, onde
esteve aquelle dia e ao domingo, por recolher a outra frota que no
chegava.

E n'estes dias andando El-Rei pelo mar, viu e contemplou bem a cidade,
sobre que desejou que sua ida se mudasse, e acerca d'isso teve conselho
bem aperfiado; porque a grandeza de seu corao no requeria menos
empresa, e em fim se concordaram no primeiro proposito com que logo
partiu, e  segunda-feira ao meio dia chegou a Alcacere, e com elle os
navios mais pequenos que se podiam ter s correntes do estreito.

Mandou El-Rei aparelhar e perceber, para logo tomar terra, e porque
ambos os navios em que iam os Infantes no poderam ancorar com elle, e
com foradas correntes foram d'elle surgir duas legoas, e assi bem
outras quarenta vellas, El-Rei os mandou a gr pressa chamar, e quando
vieram j o acharam armado entre muitos bateis armados postos em sua
ordenana para tomar terra, esperando pelo Infante D. Anrique que j
tardava, e como o viu fez com muita viveza vogar rijamente os bateis 
praia, que com muito esforo e acordo a tomaram todos juntamente, em que
se no soube bem determinar quaes foram primeiros nem segundos.

Eram na praia at quinhentos mouros de cavallo d'aquella comarca, e
muitos mais de p, de que na resistencia que cometeram para defender a
desembarcao morreram logo alguns, e elles tambem dos christos feriam
outros, e mataram ao sair, um Ruy Barreto, comendador da Ordem de
Christus. Mas com tal pressa foram os mouros apertados, que uns para a
villa, e outros para as serras d'onde vieram, todos se acolheram, e no
encalo d'elles seguiu Joo Fernandez da Arca, fidalgo de bom esforo, e
nas cousas do pao de seu tempo gracioso e mui ensinado. E tanto se
chegou ao muro por vingar a morte que logo recebeo, que de uma pedra de
cima do muro foi logo ao p d'elle morto, de que por sua bondade e
criao em toda a crte houve grande sentimento.

E sobre a tarde depois de se repartirem os combates, e n'elles se
assentarem as bombardas e ordenarem as mantas, e bancos, e escadas, que
com muita presteza se tiraram da frota, El-Rei posto em um cavalo
sezeliano, armado e acobertado com sua espada nua na mo, mandou cometer
a villa com alguma mostrana de combate, para vr smente a maneira de
fortaleza e defeza em que se os mouros punham, que n'elles foi assaz boa
e com grande recado e esforo; porque com tiros de fogo e bestas que
tinham, e pedras que no falleciam, faziam muito dano. Mas os christos
emprenderam to de verdade, e com tanta fora o combate, que El-Rei nem
os Infantes os poderam recolher nem afastar d'elle, em que logo
derribaram um grande lano da barreira, e os cavalleiros e gente do
Infante D. Anrique, com muito esforo e ardideza romperam e entraram por
as portas da mesma barreira, e foram com muita ousadia cometer com
engenhos as portas da villa, que por sua grande fortaleza no poderam
quebrar; porque eram mui fortes, e forradas de mui grossas pastas de
ferro. E sendo j de noite vendo o Infante D. Anrique o desejo e a
determinao dos seus, socorreo alli com sua bandeira despregada, e com
palavras de Principe to prudente e ardido como elle era, os avivou
muito mais para o combate, que  sua vista e com sua ajuda o fizeram sem
alguma covardice. E El-Rei e o Infante D. Fernando seu irmo sentindo na
gente do arraial o mesmo fervor e orgulho, que de victoria lhes davam
mui grande esperana, mandaram s trombetas fazer sinal de combate, que
por todas partes se deu to rijamente, e com tanta competencia de honra,
que o que menos trabalhava, parecia que toda a empresa tomava sobre si,
a que ajudava muito e no favorecia pouco a presena d'El-Rei, que a
todalas afrontas acudia, e com palavras de tanto acordo e esforo, de
que todos eram maravilhados e mui contentes.

O Infante D. Anrique que n'aquelle officio era velho artificial, mandou
 meia noite poer fogo a uma bombarda grossa, que no seu combate era
assentada, com que aos mouros comeou de fazer no menos dano que
espanto, pelo qual desesperados j d'achar remedio de salvao em suas
armas, nem defesa, a vieram buscar e procurar na piedade do Infante. O
qual lhe respondeu que por quanto El-Rei seu Senhor era alli vindo por
servio de Deos smente, e no por cobia de seus resgates nem fazendas,
que ao dito Senhor aprazia que elles se saissem com suas mulheres e
filhos, e cousas, e leixassem a villa com todolos christos captivos que
n'ella estivessem, os quaes vendo to determinada resposta, vencidos j
de condies to piedosas, lhe pediram que por aquella noite mandasse
sobreser no combate, do que ao Infante no prouve, antes o mandou mais
avivar, e pediram aps isso uma hora de sobresimento para haverem seu
acordo, e o Infante muito menos lh'a deu, antes os desenganou que se
fossem entrados por fora, que todos sem resguardo nem privilegio de
idade, com ferro haviam d'acabar suas vidas. Os quaes meios e concertos
o Infante mandou logo notificar a El-Rei, e ao Infante D. Fernando, que
de todalas partes esforaram o combate, que era esforado e no
enfraquecia, pelo qual os mouros se remedearam, e deram nas primeiras
seguranas e condies do Infante D. Anrique, e para aprovao de seu
rendimento enviaram logo suas seguras arrefens, que foram levadas 
tenda d'El-Rei com que o combate logo cessou. E ao outro dia
quarta-feira pela manh, os mouros sairam todos com suas mulheres,
filhos, e fazendas sem algum receber nojo, dano, nem alguma outra
semrazo, de que os mouros vendo tanta e to segura verdade nos
christos, tomaram em seu mal muito conforto. Porque o Infante D.
Fernando teve na saida d'elles cargo de sua segurana, e como acabaram
de sair, que foi depois de meio dia, entrou El-Rei na villa a p em
procisso com os Infantes e senhores e outra nobre gente, e se foi 
misquita, que foi logo tornada em egreja de Santa Maria da Misericordia,
onde j estava posto um altar em que El-Rei fez orao, e elle e todos
com muita devoo por to segura victoria deram graas e louvores a
Deos, porque segundo o lugar era de torres e muros mui forte, e to
provido de gente, bem pareceu tomando-se to levemente como se tomou,
que com a mo e graa de Deos se tomara, mais que com fora nem poder
dos homens.




CAPITULO CXXXIX

     _Como El-Rei se foi d'Alcacere a Ceuta, e como a villa foi por
     El-Rei de Fez cercada, e El-Rei a no pde socorrer, e desafiou
     El-Rei de Fez_


Esteve El-Rei em Alcacere at o domingo, em que de muitos e mui
principaes homens foi requerido sobre a capitania da villa, mas El-Rei a
deu e empregou bem em D. Duarte de Menezes, com que ainda no satisfez
s grandes promessas que em cousas d'aquella calidade lhe tinha por seus
assinados prometidas, e El-Rei quando lhe deu a dita capitania e
governana, publicamente assi lh'o disse com palavras de muita sua honra
e louvor.

E depois d'El-Rei prover a villa dos mantimentos, armas, e gente que
pareceu necessaria, e armar muitos cavalleiros que o bem mereceram, 
segunda feira por mar se foi a Ceuta, onde ainda no fra. Ao qual
senhorio acrescentou d'hi em diante em seu titulo, o d'Alcacere em
Africa, dizendo, _D. Affonso por graa de Deus Rei de Portugal e do
Algarve, Senhor de Ceuta e d'Alcacere em Africa_.

E certamente quando El-Rei viu e contemplou na realeza de Ceuta, e em
sua grandeza, maravilhoso e forte assento, que seu av com outra
semelhante passagem ganhara, e se lembrou d'Alcacere, e de seu sobrenome
Ceguer, ficou triste e pensoso; porque a parecer dos que as viram, to
pequena cousa no encheu a grandeza e bondade de seu corao, e
suspirava por outra maior.

El-Rei de Fez como soube que a villa era cercada, partiu com muita
pressa e grande poder pela socorrer, e quando soube que j era tomada,
com muita ira e tristeza sua e dos seus se veiu logo  cidade de
Tangere, para d'alli ajuntar suas gentes e a vir cercar, e trabalhar
pela recobrar, da qual cousa D. Duarte foi logo certificado por um mouro
d'autoridade, que na face d'Alcacere em uma escaramua que houveram fra
com outros tomado e captivo, o qual logo mandou a El-Rei que ainda era
em Ceuta, e sobre a certa informao que do mouro houve teve conselho,
em que depois de ser acordado sem diferena, que Alcacere sobre o
provimento d'armas e mantimentos que tinha lhe devia ser dado outro
maior, quanto ao mais, que tocava  ida d'El-Rei para o reino, ou
esperar alli o fim do cerco ou lhe socorrer houve votos diferentes.
Porque uns diziam que dado o dito provimento se devia vir a seus reinos
e no esperar l mais, outros tiveram que em tal tempo estando El-Rei de
Fez to acerca, e partindo-se pareceria fraqueza, e que com seu medo o
fazia, e que para isso por tirar suspeitas e fazer um grande
cometimento, que  sua honra e estado cumpria, que o devia mandar
desafiar em campo, e que se acceitasse o desafio, que ainda estava
poderoso para lhe dar batalha e esperar victoria, e quando de tal reto
se escusasse, que ento sem pejo poderia para seus reinos partir sem
algum prasmo nem reprenso dos seus nem estranhos, que o j remocavam.

E a este parecer se inclinou mais El-Rei, que com as palavras e razes
que bem cabiam, formou para o dito Rei de Fez um desafio, que lhe enviou
por Martim de Tavora, e Lopo d'Almeida, que embarcados em um navio
aparelhado d'armas, e Reis d'armas e trombetas, e de suas pessoas em gr
cumprimento foram sobre Tangere. Mas El-Rei de Fez avisado do recado com
que iam, mandou que lhe tirassem s bombardas, e no os quiz ouvir, e
tornaram-se Lopo de Almeida a Ceuta, e Martim de Tavora a Alcacere, onde
tambem com desejo de honra se lanaram muitos fidalgos, que sem duvida
no cerco que defenderam a mereceram e ganharam, to bem e melhor que na
tomada da villa.

E aos XIII dias de Novembro El-Rei de Fez com trinta mil de cavallo, e
gente de p sem conto veiu sobre a dita villa, que j d'antes com oito
Alcaides seus era cercada, e logo com bombardas grossas e muitos tiros
outros de fogo, e com muitos besteiros de Grada que trazia, combateu a
villa muitas vezes e com muita fora, mas nas infindas mortes e feridas,
e outros danos que sempre dos christos receberam, bem conheceram logo
que no tinham d'elles a victoria to leve e to certa como esperavam.

E sendo El-Rei certificado do cerco da villa e da estreiteza em que os
mouros a punham, logo aos sete dias do cerco veiu d'avante d'ella, com
vontade de a socorrer, ou ao menos de a bastecer. Porque quando a tomou,
smente lhe ficou mantimento para a gente ordenada para tres mezes, o
que houvera de ser causa de a villa e gente ao diante de necessidade se
perder, se Deus por sua piedade o no remedeara.

E porm, El-Rei pela muita gente contraira dos mouros que achou, que por
mar e por terra impedio sem remedio seu socorro e bastecimento, depois
de enviar a D. Duarte e aos cercados muitos confortos e dar grande
esperana da sua breve tornada, se partiu para Faro no Algarve, onde
desembarcou, e d'hi se foi a Evora para dar ordem a tornar a socorrer a
dita villa, para que depois de tudo bem consirado e provido, achou que
para isso todalas cousas falleciam.




CAPITULO CXL

     _Das cousas que passaram n'este cerco, at que de todo se
     alevantou_


E n'estes tempos foi a villa d'Alcacere pelos mouros com bombardas e
trons e outras armas, e com uma irosa porfia muitas vezes combatida e
afrontada, e com a graa de Deus no faziam dentro o dano de que elles
tomavam de fra muita v gloria, e porm a verdadeira pena elles a
recebiam com muitas mortes e feridas, que dos christos de noite e de
dia sempre padeciam.

E porque viram que com os mui apressados e furiosos tiros que faziam, os
muros da villa no caiam como maginavam, ordenaram trazer uma bombarda
grossa, das que no tempo do palanque ficaram aos christos em Tangere,
em que j tinham a sua s confiana, a qual lanava pedra de quatro
quintaes de peso, e logo foi armada e ensarada e fez alguns tiros, de
que os mouros vendo ficar as paredes mui ss, e os christos sobr'ellas
com muito prazer e alegria, ficaram mui tristes e desesperados, e por
isso vendo que sua empresa no sobdecia como esperavam, elles a risco
das graves penas que por sua fugida lhes eram postas, de dia e de noite
no leixavam de fugir, de que D. Duarte por elches e mouros que se na
villa lanavam, era logo avisado.

E no tempo da maior afronta chegou  vista d'Alcacere Luiz Alvarez de
Sousa, vedor da fazenda do Porto, que El-Rei mandou aos cercados com
esperanas e confortos, que enviava do mar com escriptos em virotes. E
D. Duarte fez um aviso a El-Rei, e por mr cautella escripto em francs,
notificando-lhe a extrema necessidade em que estavam, e smente por
mingoa de mantimentos e polvora, e pedindo remedio com as palavras que
em tal affronta cabiam. O qual escripto enviado a Luis Alvarez com outro
viroto, cahiu no arraial dos mouros, entre quem no falleceu quem lh'o
logo leu e interpretou inteiramente, de que elles ficaram mui alegres, e
tendo sobr'isso seu conselho, acordaram ser bem d'El-Rei de Fez, por seu
Marim requerer a D. Duarte que se desse e lhe entregasse a villa, para
que lhe mandou uma carta, e dentro della a outra que tomaram, e dizia
n'estas maneira:

Porque eu j sei tua puridade, mais por modo de compaixo que de
necessidade que tenha, conhecendo de ti que s bom christo e esforado
cavalleiro, filho do outro bom velho de Ceuta, defenda-te Deus e te
mostre o caminho da verdade por melhor e mais direito, se te quizeres
poer em nossas mos com algum honesto trato fars cousa a ti proveitosa,
e a esses que hi tens mais que a ns; porque a ti e a elles guardaremos
de mal, e vos faremos o que o vosso Rei fez aos nossos mouros, que
estavam n'essas casas em que tu agora ests. Conselhe-te Deus de
conselho so, e se tu isto no quizeres, sabe que Deus  grande e
justioso, e querer dar s mos de seus servos as casas em que
nasceram, e as herdades que seus padres e avs fizeram e prantaram, e
manda logo a resposta com toda tua vontade.

D. Duarte recebeu a carta que era do Marim, e a fez lr para si s
secretamente, e perguntado dos fidalgos pela sustancia d'ella lhes
encobrio a verdade, e disse que lhe cometiam trato de paz como mouros
fracos que eram, e que estavam j de todo perdidos, para segurarem a
terra de mais dano, com fundamento de se quererem alevantar, mas que lhe
responderia, como respondeo de si mesmo ao Marim n'esta maneira:

Tu sabe que El-Rei meu Senhor no leixou a mim e a estes seus fidalgos
e a outra nobre gente n'esta sua villa para t'a entregarmos como cuidas,
mas para a defendermos como defenderemos a ti e ao teu rei, e com elle a
todolos Reis mouros do mundo quando sobre ns viessem, e cr que nossa
determinada vontade pela defender  sofrer no smente o trabalho que
nos ds, que por tua covardice  assaz pequeno, mas outros muitos
maiores, at sobr'isso morrermos. E para conheceres se estas palavras
saem da boca ou do corao, chega-te melhor aos combates do que fazes e
ve-lo-has, e porque me dizem que o teu Rei manda fazer escadas para
subir aos muros e nos combater e entrar, dize-lhe que eu o escusarei
d'esse trabalho; porque se n'elle e em ti ha corao para isso, eu entre
torre e torre lhe mandarei poer muitas que El-Rei meu Senhor aqui trouxe
para tomar a villa, e manda subir aos teus por ellas, e vers que fora
pem em ns o servio do nosso Rei e o enxalamento de nossa f, e a
estima de nossas honras, e d'esta graa se a de ns quizeres receber no
queremos de vs outros outra paga, se no que no sejaes to covardes e
to fracos como at qui mostrastes, c no  honra nem gloria
vencer-vos.

Esta resposta foi lida na tenda d'El-Rei, perante elle e seus merins e
alcaides, de que ficaram mui maravilhados, atribuindo tudo  soberba,
como fra a do cerco outro de Tangere, que apontaram. Mas Xarate,
alcaide de Tangere que hi era, disse:

Sabei vs que esses em que fallaes que d'essa vez vieram a Tangere, se
dentro de taes paredes se acharam, e de mantimentos tiveram razoado
soportamento, podera ser segundo o que vi, que mais caro nos custaram. E
porm na continua alegria d'estes christos sentireis bem sua fortaleza,
e que n'aquelle escripto confessassem ao seu Rei suas mingoas e
trabalhos, so maneiras que os cercados sempre tem para obrigarem com
mais piedade e mr trigana a seu socorro, mas no  de crr que
tomando-se hontem a villa, e estando aqui o seu Rei com muitos navios,
que a no leixassem aalmada para muito mais tempo do que ns podemos
aqui estar.

E porm o Marim tornou a replicar a D. Duarte, que ao messegeiro mandou
tirar s bestas e no lhe quiz vr a carta; porque receou tendo to
pouca esperana de socorro, parecerem a alguns bem suas palavras e
cometimentos, e enfraquentarem-se por isso na defesa da villa e
esforarem-se para o dar d'ella.

Aos mouros porque o tempo era de grandes frios, morriam e atereciam os
cavalos, e assi os camelos e bestas de sua carriagem, e tambem elles
padeciam asperezas incomportaveis. E com isto eram to cansados e
tristes, como os christos pelo contrairo; porque no testemunho e prova
de seus alegres rostos e esforados coraes, em especial na segurana e
valentia de seu capito, tomavam todos esperana de sua honra,
resistencia e desejada defesa.

Os mouros porque as cousas em nada sobcediam a seu proposito, eram
postos em grande cuidado, fazendo entre si grandes lamentaes pela
triste e deshonrada memoria que d'elles ficaria, no acabando feito de
to pequena estima para a presuno e confiana com que vieram, e sendo
j minguados de polvora e muito mais da esperana que tinham de lhe j
aproveitar, determinaram dar por todalas partes e a uma s hora um
grande combate  villa, e assi o fizeram. Mas o capito D. Duarte,
porque logo nos aparelhos e alvoroo dos mouros que viu, sentiu bem o
que queriam fazer, assi se percebeu e os recebeu, que d'alli por diante
assi pelo grande estrago e mortindade que n'elles fez, como porque a
gente sem o poderem resistir lhe fugia, e principalmente porque a
polvora lhe falleceu e seus tiros e artilharias no jugaram mais, no
houve mais rebates nem cometimentos porque ficaram de todo cortados.

E at ento se lanaram na villa por todas, oitocentas e dez pedras
grossas, XXXII de bombarda grande, e as outras das outras mes, de que
foram muitos christos feridos, e alguns poucos mortos. E porque o
mantimento fallecia j muito, e no sabiam da detena que os mouros no
cerco fariam, depois de pedir socorro ao capito de Ceuta, que lh'o no
deu e podera dar, praticou D. Duarte com esses fidalgos que seria bem
matarem os cavallos; porque no lhe comeriam trigo nem cevada, que tanto
haviam mester, e mais salgados lhes poderiam em sua extrema necessidade
muito socorrer, e mais que no dessem de comer  gente mais de uma s
vez no dia, e ainda esta com temperana que cada um com os seus tivesse,
com outras prudentes cautelas e provimentos que concordaram e tudo
pareceo bem, salvo o matar dos cavallos, a que acordaram que smente por
mantimento se desse palha, e que porm antes de os meterem n'esta
proviso, determinaram dar primeiro com elles uma escaramua e rebate
aos mouros; porque elles tinham j por muito certo que eram mortos e com
fome comidos.

Deu D. Duarte cargo da capitania d'elles, que eram pouco mais de XXX, a
D. Anrique seu filho maior. E em dia de Santo Estevo primeiro dia das
Oitavas de Natal sahiu D. Duarte fra a p, com certos homens todos
fidalgos, com mostrana de recolher o almazem que na praia jazia; porque
tivessem os mouros razo sahir do arraial, como sairam para lh'o
defender, e com isto os offenderam. E como D. Duarte viu tempo, fez o
signal que com D. Anrique seu filho tinha concertado, e elle com todolos
cavalos enjaezados, e os cavalleiros bem armados e vestidos de livrs e
gentileza, sahiu da barreira em que jazia em cillada, e com o nome de
Santiago, deram rijamente nos mouros, que feriram com tanta fora e
ardideza, que certo o testemunho d'aquelle s dia, alm d'outros muitos,
deu clara prova de que capites aquelle novo capito por avoengas
decendia, e que capito se n'elle criava.

Foi a peleja d'este dia sobre todalas outras do cerco de mais dura e
melhor pelejada; porque os que n'ella eram foram todos como disse
fidalgos escolhidos, os quaes o capito j no podia recolher, em que os
mouros receberam muito dano e maior desmaio, vendo vivos os cavallos que
cuidavam ser mortos, estimando-os por dez tantos com formosura e penso
dobrado, o que deu muita causa aos mouros desesperarem da victoria do
cerco, e proposeram de o mais no manter.

N'esta peleja usou Martim de Tavora de uma clara e verdadeira fidalguia;
porque vendo n'ella entre os mouros Gonallo Vaz Coutinho seu imigo
capital, e sem alguma esperana de vida, s lhe foi socorrer, e com
muito esforo e mais bondade, e com grande risco de sua pessoa como a um
irmo o livrou e tirou de poder dos mouros, e d'hi em diante ficaram em
sua imizade mortal.

N'estes danos e males que os mouros contra sua primeira maginao cada
dia recebiam, e com esperana de os receber ao diante maiores, no os
podendo soffrer, nem esperando de os poder mais contrariar, se queixaram
e levantaram a um seu Cade, que entre elles  sacerdote maior, havido
dos seus Reis e Marins em grande venerao como Papa, o qual com a
grande congregao de cacizes falou a El-Rei e a seus Marins e alcaides,
apontando com palavras prudentes as maldies e vituperios que os mouros
e casa de Fez principalmente por tamanha fraqueza recebiam, e que porm
ou determinasse no leixar de combater a villa de noite e de dia at que
a tomasse e todos morressem, ou por no terem mais mortes e padecimentos
se alevantasse do cerco d'ella.

E depois d'El-Rei e o Marim terem seu conselho, acordaram por muitas
razes boas que apontaram, que o cerco por ento se alevantasse, com
voto de o tornar a poer dobrado para o vero que logo vinha, como
fizeram e se dir.

E ao derradeiro dia de Dezembro comeou a gente de se levantar e partir,
e a dois de Janeiro do anno que logo vinha de mil e quatrocentos
cincoenta e nove annos, El-Rei de Fez com todo seu arraial partiu de
todo do cerco, que durou cincoenta e tres dias, no qual dos mouros
segundo a certido maior morreriam at mil e duzentos, e dos christos
muito poucos. E da causa porque El-Rei de Fez se partira, e assi da
determinao que levava, logo D. Duarte por alguns mouros e elches que
do arraial na villa se lanaram, foi de todo avisado. Do que elle e
todolos christos no ficaram menos ledos e descarregados, do que
ficaram honrados e louvados por toda a christandade. Da qual cousa D.
Duarte avisou logo El-Rei, que do descerco era j por castelhanos
d'Andaluzia avisado; porque com esperana das alviaras que d'elle por
isso recebiam, uns aps outros no leixavam de correr este pario de
cobia. E porm o messegeiro de D. Duarte as recebeu dobradas, com
honra, proveito e acrescentamento.

E por isso mandou em todo o reino fazer geraes procisses, em que se
deram muitas graas a Deus, e assi ordenou esmolas a todolos mosteiros e
casas piedosas. E respondeu a D. Duarte; e assi a todolos principaes
fidalgos e cavalleiros que mantiveram o cerco, dando-lhe por estes
cincoenta e tres dias que durou o cerco, tantos agardecimentos com
esperana de mercs, como se foram outros tantos annos de mui assinados
servios. E mandou logo de dinheiro e mantimentos prover a villa. E que
os fronteiros que n'ella fra da ordenana estavam, se tornassem ao
reino. E ante de se virem fizeram muitas entradas, e trouxeram  villa
grandes cavalgadas e muitos mantimentos das aldas dos mouros.


FIM DO II VOLUME






End of the Project Gutenberg EBook of Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol.
II), by Rui de Pina

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO V ***

***** This file should be named 21911-8.txt or 21911-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/2/1/9/1/21911/

Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
produced from images generously made available by National
Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
