The Project Gutenberg EBook of Os Primeiros Amores de Bocage, by 
Jos da Silva Mendes Leal

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Title: Os Primeiros Amores de Bocage
       Comedia em Cinco Actos

Author: Jos da Silva Mendes Leal

Release Date: March 2, 2007 [EBook #20725]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS PRIMEIROS AMORES DE BOCAGE ***




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OS PRIMEIROS AMORES DE BOCAGE

COMEDIA EM CINCO ACTOS

POR

JOS DA SILVA MENDES LEAL

(REPRESENTADA PELA PRIMEIRA VEZ NO THEATRO DE D. MARIA II EM 7 DE JUNHO
DE 1865)


LISBOA
TYPOGRAPHIA UNIVERSAL
MDCCCLXV




INTRODUCO


Tentando traar os primeiros lineamentos caracteristicos de um grande
poeta, esboo a que serve de moldura uma poca ainda pouco estudada,
desejou ao mesmo tempo o auctor compendiar n'esta pea os tres
principaes generos de comedia--a comedia de enredo, a comedia de
caracteres, a comedia de costumes.

Dizendo-se que  uma comedia, bem se deprehende que no se coadunam com
as suas condies os lances violentos, que s pertencem ao drama.
Desejando-se que em tudo sahisse de feio portugueza, evidente se torna
que no podia entrar no seu quadro o expediente de inverosimeis
situaes, que o theatro francez offerece com trivial abundancia.

No  porm a comedia uma biographia. No podia apparecer n'ella inteira
a vida do poeta, com todas as modificaes que os annos successivamente
exercem nos espiritos. Por isso no tem por titulo _Bocage_, seno _Os
primeiros amores de Bocage_; como para dizer--a aurora d'esse homem--um
homem egualmente singular pela indole e pelo ingenho.

Aquelle homem, com effeito, encheu do seu nome o fim de um seculo e o
principio de outro. Era elle essencialmente o homem do futuro. A morbida
inquietao, progressivamente aggravada at ao desvario, vinha-lhe
naturalmente do estreito ambito de idas em que o seu talento se
asphixiava!

Para bem o comprehender cumpre ler-lhe attentamente a anciosa poesia, e
logo depois fixar a meditao e os olhos nas paredes negras da
Inquisio, em seu tempo erguidas ainda, e ainda ameaadoras!

Surgindo entre duas sociedades, uma que o instincto lhe adivinhava,
outra que em torno d'elle se alluia, foi a sua existencia um indeciso
protesto e uma turbida agonia. Os desvios dos annos ulteriores,
precipitando-o to cedo na sepultura, fizeram-se o triste refugio de uma
actividade intellectual, convulsa de febre, comprimida de fra, no bem
conscia de si. Os seus ultimos desregramentos apparecem-nos hoje como as
valvulas perigosas por onde se derramou, e brevemente se exhauriu, a
exhuberancia d'aquella alma

     ...--que sedenta em si no coube!

A comedia, tomando o poeta nos primeiros annos e nas generosas paixes
da mocidade, mede-lhe a grandeza do vulto pela grandeza dos impulsos, d
aos seus mesmos defeitos a explicao elevada e nobre que s se pde ter
por verdadeira em to alto e claro espirito, mas deixa sempre entrever o
germe fatal das futuras aberraes.

Equivocar-se-ia de todo quem unicamente o quizesse ver segundo a
tradio que ficou do derradeiro periodo da sua vida, transmittindo-se
pela bocca dos que s ento o conheceram e chegaram aos nossos dias. O
versista das trovas ao Chrispiniano,  Estanqueira do Loreto, e ao Anto
Broega, o vate plebeu dos sonetos ao Galina e aos novos rcades, no
exclue o admiravel poeta de _Leandro e Hero_, de _Areneu e Argira_, do
_Trito_ e das Epistolas. A propria mobilidade do seu talento duplica,
multiplica as variantes d'um caracter, cujo principal distinctivo era a
excessiva impressionabilidade.

Na comedia, Bocage mostra-se pelas duas faces essenciaes. Est n'isso a
verdade: o contrario seria grave erro de observao. Ninguem se
apresenta nas salas como na rua. Quando no houvesse esta distinco
natural, que  de todos os tempos, bastaria o que a respeito d'elle
escreveu o viajante Beckford, (que o tratou no tempo em que frequentava
a casa dos Marialvas) para tornar evidente como o fogoso mancebo, apesar
das suas singularidades, no podia ter ao despontar da vida desaprendido
o que recebera da educao paterna, que recordava com desvanecimento da
origem como provam alguns dos seus versos.

Releu cuidadosamente o auctor os preciosos trabalhos dos srs. Castilhos,
Rebello da Silva, e Innocencio cerca de Bocage; compulsou os documentos
respectivos ao poeta com tanta meudeza, que teve a fortuna de poder
rectificar a data da sua nomeao de guarda marinha para Goa, que no 
a de 1782 como se l na biographia que precede a ultima edio, mas a de
31 de janeiro de 1786, como authenticamente se v no proprio documento
official conservado nos archivos do ministerio da marinha; procurou
sobre tudo o segredo d'aquelle complexo caracter nos seis volumes que
encerram a colleco completa dos seus poemas, colleco inteirada pela
illustrada solicitude e zelo incansavel do nosso primeiro bibliographo,
o j citado sr. Innocencio.

A variada feio da indole e talento de Bocage, o seu advento, e os
lances principaes da sua vida, alli com effeito se retratam.

Aos 8 annos improvisava uma quadra, que no poderia ter chegado at ns
se no fosse logo repetida por apreciada, concluindo-se d'ahi que no
pde parecer prematura reputao a que elle goza j aos 19:

Fui ver a procisso a S. Francisco,
A quem o vulgo chama da cidade,
E supposto o aperto, foi raridade
Que indo eu em carne no viesse em cisco.

Logo no primeiro soneto da colleco exclama:

Incultas produces _da mocidade_
Exponho a vossos olhos, oh leitores;
Vede-as com magoa, vede-as com piedade,
Que ellas buscam piedade e no louvores;

Ponderae da Fortuna a variedade
Nos meus _suspiros, lagrimas e amores_;
Notae dos males seus a immensidade,
A curta durao dos seus favores;

E se entre _versos mil de sentimento_
Encontrardes alguns, _cuja apparencia
Indique festival contentamento_,

Crede, oh mortaes, que foram com violencia
Escriptos pela mo do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependencia.

Ninguem dir, em presena d'esta dolorosa confisso, que lhe eram
extranhos os grandes affectos e os grandes pezares expressos na mais
alta e culta lingua; ninguem poder persistir em consideral-o
exclusivamente homem de botequins e oiteiros, incapaz de outras
aspiraes e outras praticas; ninguem em summa presumir conhecel-o
melhor do que elle a si se conhecia.

O soneto 99.^o do Livro I attesta como n'esse privilegiado ingenho se
revelou cedo a vocao, que cedo tambem o fez presado:

Das faixas infantis despido apenas
Sentia o sacro fogo arder na mente.

Se o testemunho d'elle no bastasse, removeria quaesquer duvidas o de
Philinto quando lhe escrevia:

Lendo os teus versos, numeroso Elmano,
E o no vulgar conceito, e a feliz phrase,
Disse entre mim: Depe, Philinto, a lyra
    J velha, j canada,
Que _este mancebo_ vem tomar-te os louros.

Manifesto  pois que a fama no esperou muito para apregoar o nome de
Bocage, e apregoal-o por voz to auctorisada como esta, a que o moo
poeta respondia n'um rapto de enthusiasmo em que se est revelando
quanto o lisongeava tal suffragio:

Fadou-me o gran Philinto, um vate, um nume!
Zoilos, tremei! Posteridade, s minha!

O retrato physico de Bocage acha-se, alm de outro inferior, no soneto
22.^o do Livro IV:

Magro, de olhos azues, caro moreno,
Bem servido de ps, _meo_ na altura.

O nome que mais frequentemente apparece nas suas queixas amorosas,
indicando uma preoccupao e predileco pouco vulgar em homem to
variavel, e consequentemente certificando que fra aquelle o seu mais
intenso affecto,  justamente o nome de Gertruria. Enlevos,
desconfiana, zelos, saudades, presagios, alternam-se em impetuosos
arrebatamentos e sentidos desaffogos nos sonetos 13.^o, 18.^o, 23.^o,
37.^o e 57.^o do Livro I, e Gertruria  o objecto d'estas persistentes
recordaes. Os sonetos 17.^o e 20.^o provam que, indo em viagem, 
ainda esta a memoria que lhe enche o espirito. O soneto 58.^o  uma
despedida a Gertruria na occasio de partir para a India. O soneto 47.^o
chora a ausencia da patria e de Gertruria. Finalmente o 83.^o, com o
respectivo mote,  o que o Bocage da comedia no segundo acto improvisa
sem mudana de uma virgula, e serve nas mos astutas do commendador, por
intermedio do officioso mestre Amancio, para dar no 3.^o acto motivo aos
temporarios arrufos entre a supposta afilhada de D. Filicia e o filho de
Manuel Simes.

J portanto se v que, s desconhecendo-se totalmente as obras do poeta,
se poderiam julgar destoantes do seu caracter estes amores, estes
versos, e a feio d'elles, pois que ahi se encontra, n'aquelle periodo
da sua vida, uma parte da sua propria individualidade com o que  mais
d'ella, ou antes no que  mais ella!

Seria facil multiplicar infinitamente as citaes das poesias que
authenticam, digamos assim, o caracter e a expresso que lhe deu o
auctor. Para que? Seria um estudo demasiadamente longo e prolixo; seria
peior, seria pr em duvida a lico e criterio dos leitores.

Poderia crer-se apenas um freguez do Izidro e do Nicola o poeta que ao
partir para Goa soltava esta enternecida e magnifica despedida?

Amigos, patria minha, e lar paterno
Penates a quem rendo um culto interno!
    Lacrimosos parentes
Qu'inda na ausencia me estareis presentes,
Adeus! Um vivo ardor de nome e fama
A nova regio me atrae, me chama.

No diz elle as suas arrojadas esperanas e secretas penas n'este
quarteto to cheio?

Cames! grande Cames! quo similhante
Acho teu fado ao meu quando os cotejo!
Egual sorte nos fez, perdido o Tejo,
Arrostar co'o sacrilego gigante!

No deixa entrever, n'est'outro mavioso trecho, a par d'aquelles
grandiosos sonhos, a dr mysteriosa que o impelle e o acompanha?

_Eu parto_; e vou teu nome repetindo
Por que d desafogo  magoa dura;
Meus tristes ais, suspiros de amargura
_quem dos mares_ ficars ouvindo!

De tudo isto se compe o Bocage da comedia!

Em torno d'elle, concorrendo a uma aco fundada nos costumes do paiz e
da poca, grupam-se os typos que mais visivelmente representam os
sentimentos e tendencias coevas. De um lado as antigas tradies,
_ainda_ na sua grave pureza. De outro lado a degenerao variada, _j_
mixturando os elementos d'onde surgir a necessaria transformao. De um
lado o marquez de Marialva, D. Maria Joanna, Gonalo Mendo; do outro D.
Felicia, o Commendador, o Morgado. Ao fundo a burguezia nascente, isto
, Manuel Simes e seu filho,--o proprio Manuel Simes concebido e
desenhado por Garrett na _Sobrinha do Marquez_--quanto possivel guardado
e acatado como se guardam e acatam as tellas dos mestres--e s
passageiramente retocado com uma leve tintura de ambio, indispensavel
para indicar a progresso dos tempos, e os futuros destinos de tal
classe. Ao redor do todo, o povo em algumas physionomias rapidamente
esboadas. Ao longe, como horisonte melancholico, uma ida do so e
austero lar provinciano, com seus longes dos costumes patriarchaes e
fragueiros que lhe eram usual apanagio.

Eis aqui resumido todo o pensamento e toda a economia da composio, que
depois de experimentar a fortuna do palco, vae agora experimentar a
fortuna da imprensa--duas temerosas experiencias.

Expondo assim o conjuncto do designio, cujas multiplicadas difficuldades
calculou, no procura o auctor antecipar as desculpas, mas unicamente
assentar as responsabilidades.

Se logrou o seu proposito no o dir elle; decidil-o-ha o publico!

O singular favor com que foi acolhido este ensaio n'um genero pouco
cultivado no nosso theatro, impe ao auctor o gratissimo dever de
exprimir aqui (vedando-lhe o respeito outra meno) o seu profundo
reconhecimento para com o publico, indulgente e attento, que em todos os
seus tentames o tem acompanhado como um amigo fiel, ora animando-o com o
estimulo do applauso, ora advertindo-o com a benevolencia do conselho, e
que, de certo apreciando a obra mais pela inteno que pela valia,
recompensou os seus esforos por modo tal que lhe ficar indelevel
memoria.

 imprensa agradece tambem a benignidade com que at aqui o tem honrado.

 direco do theatro normal testemunha quanto o penhorou a solicita
cooperao que n'ella encontrou.

Seja-lhe finalmente permittido certificar  graciosa actriz, que fez com
a estreia da pea o seu beneficio, a sua inteira satisfao pela maneira
verdadeiramente distincta com que interpretou o seu variado papel e lhe
venceu as numerosas difficuldades, sendo a maior ter ao lado uma artista
to conscienciosa e completa como a sr.^a Delfina, que do esboo
senhorilmente comico de D. Felicia tirou uma das suas mais acabadas
creaes.

Se a estas, pela primasia devida ao sexo, menciona o auctor em primeiro
logar, nem por isso esquece que deve egual agradecimento aos mais
actores, do primeiro at ao ultimo, tendo achado n'elles tamanho zelo,
que, mesmo graduando-os pela ordem dos meritos bem conhecidos, no
poderia especialisar um sem offender a boa vontade de todos.

A comedia _Os primeiros amores de Bocage_, se Deus der vida ao auctor,
ser o introito de uma trilogia, que se destina a abranger o mais
notavel da vida do poeta, e dos curiosos periodos coetaneos da historia
patria, at aos ultimos momentos d'elle em dezembro de 1805.

Junho 12--1865.




ADVERTENCIA


Alm dos crtes, effectuados antes da representao, que vo designados
com cmmas no impresso, a experiencia mostrou a necessidade de novas
reduces. Como estas reduces tiveram logar depois de completa j a
impresso dos respectivos actos, vo ellas aqui notadas para facilitar a
execuo da pea em quaesquer theatros.




ACTO II


SCENA II

Desde as palavras estava de pedra e cal que se tinha j livrado
(exclusiv) at comear a phrase: dizem que ha ahi uma tal senhora
morgada, etc. supprime-se tudo.

E depois, egual suppresso desde as palavras: se no pde chegar a um
rosicler de pedras (exclusiv) at ao fim da scena.


SCENA IV

Suppresso desde as palavras: elle s bastra para dar a immortalidade
ao nome portuguez (exclusiv) at onde Bocage diz: oua-me tambem, sr.
Gonalo Mendo.




ACTO III


SCENA X

Suppresso desde que o Commendador pergunta: resolveu casar com sua
prima quanto antes? (exclusiv) at prender onde o mesmo Commendador
diz: chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que importa, etc.

 phrase de Gonalo Mendo, na scena 2.^a do 5.^o acto: disse-me que ia
a Setubal despedir-se _dos paes_, phrase que por facil inadvertencia
escapou na composio e reviso, cumpre substituir est'outra: disse-me
que ia a Setubal despedir-se do pae.

A me do poeta no existia j havia nove annos.




PERSONAGENS


O Marquez de Marialva, 72 annos      Sr. _Rosa_

Manuel Simes, mercador, 69 annos       Sr. _Theodorico_

Gonalo Mendo de Sendim, da casa de Mendel, tenente de drages de Campo
Maior, 33 annos       Sr. _Tasso_

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage, cadete do regimento de Setubal,
19 annos      Sr. _Santos_

Bartholomeu Tojo, morgado da Gesteira, 44 annos      Sr. _Cezar_

Sebastio de Brito Louzellos, commendador de S. Marcos de Monsars, 52
annos      Sr. _Izidoro_

Francisco Pedro Simes, filho do Manuel Simes, 26 annos      Sr.
_Coelho_

Um Transeunte      Sr. _Corra_

Z da Moita, guarda de montado, 30 annos      Sr. _Pinto_

Luiz Manuel, escudeiro, 65 annos      Sr. _Moreira_

D. Maria Joanna Galvo Lobo, morgada de Valmoreno, Fresnos e
Carregueiros, 23 annos      Sr.^a _E. Adelaide_

D. Felicia Moutoso de Cerqueira, morgada da Torre da Palma, 48 annos
    Sr.^a _Delfina_

Maria Gertrudes, sua afilhada, 20 annos      Sr.^a _Marianna_

Tia Paschoa do Espirito Santo      Sr.^a _Maxima_

Tia Vigencia da Purificao      Sr.^a _C. Emilia_

Uma Palmilhadeira.      Sr.^a _Maria das Dores_

Compadre Theotonio Alves      Sr. _Marcolino_

Compadre Amancio Pires      Sr. _Sargedas_

1.^o}        { Sr. _Amaro_
2.^o} POETAS { Sr. _Polla_
3.^o}        { Sr. _Soller_

1.^o}          { Sr. _Vencancio_
    } MANCEBOS {
2.^o}          { Sr. _Christiano_

O alcaide do bairro do Rogio     Sr. _J. Antonio_

O tabelio

Um cavalheiro

O Almeiro }
           } Picadores
O Gaeta    }

Um cego, pregoeiro de impressos      Sr. _Farruja_

Um Volantim

Um penitente


Um escudeiro do Marquez.--O mouro do Marquez.--O escudeiro de D.
Felicia.--Povo.--Convidados.--Damas.--Ronda do Alcaide--Criados, etc.

1785 a 1786


O COMMENDADOR (_atrs de D. Maria Joanna, do mesmo modo_)

Bem... bem diz Xenophonte!... Nem eu sei o que diz! (_Deixa-se ir meio
desfallecido sobre outra cadeira  entrada da porta do F._)

(_Silencio geral. Cada um dos tres personagens procura resfolegar e
reanimar-se_.)


D. MARIA JOANNA (_como tornando a si_.) (_Para os dois_)

Que foi isto?... Como foi isto?...


MORGADO

Pois no sentiu?--Um tiro... tropel de cavallos...


D. MARIA JOANNA

E desappareceu tudo!... E deixaram-me s!... (_meio reprehensiva_) E o
primo a fugir!


MORGADO (_levantando-se_)

Fugir eu, minha prima!... (_Formalisado_.) Fugir!... Seria a primeira
vez.


D. MARIA JOANNA (_recobrando gradualmente o bom humor_)

Pois para a primeira no o fazia mal.


MORGADO

Avistei esta casaria... Corria para aqui... para me fazer forte... para
nos fazermos fortes!


D. MARIA JOANNA

Mas corria diante... E eu corri tambem... corri que nem eu sei... corri
devras para o poder seguir... E at o commendador correu... No correu,
commendador?


COMMENDADOR (_gravemente_)

Affirmam boas auctoridades que muitas vezes  prudencia o correr...
_Pedibus celer_, diz Virgilio com louvor.


D. MARIA JOANNA (_sorrindo_)

J est mais em si, o commendador... J no falla como toda a gente.


MORGADO (_com extrema volubilidade, que  o seu natural_)

Mas, prima, que havia de fazer um homem s, n'aquelle descampado, contra
tanta gente!... Agora que venham. Dez, doze, vinte que sejam...


D. MARIA JOANNA (_erguendo-se como escutando_)

Espere...


MORGADO (_assustado_)

Que ?


COMMENDADOR (_idem, levantando-se e approximando-se  D._)

Que ?


D. MARIA JOANNA (_Applicando o ouvido, aos dois que se lhe reunem em
grupo turbado_)

No ouvem?


COMMENDADOR

Tropear de cavallos!...


MORGADO (_inquieto e interrogando as saidas com os olhos_)

No ter aqui a minha espada!...


D. MARIA JOANNA (_com leve ironia_)

Perdeu-a?


MORGADO (_mais inquieto_)

No sei como foi... (_dirigindo-se apressadamente a uma porta lateral_)
Vou procurar uma arma.


D. MARIA JOANNA (_com terror dirigindo-se a outra_)

Chame gente, primo.


COMMENDADOR (_que ficra escutando_)

Vem subindo alguem! (_encaminhando-se desorientado  outra_).

(_No momento em que os tres aterrados procuram debalde atinar com os
fechos das portas a que se dirigem, apparece ao F. Gonalo Mendo_)


SCENA II


OS MESMOS _e_ GONALO MENDO


GONALO

Da parte d'el-rei... nem mais um passo.


COMMENDADOR (_apegando-se  umbreira_)

Ai!


MORGADO (_idem_)

Jesus!


D. MARIA JOANNA

Desmaiava... se tivesse onde.


GONALO

Ninguem tente fugir ou esconder-se. Da parte d'el-rei est preso tudo.


MORGADO (_esperanado, comsigo, e ainda voltado para a porta_)

Da parte d'el-rei!


D. MARIA JOANNA (_do mesmo modo_)

Havia de jurar que me no  desconhecida esta voz.


COMMENDADOR (_voltando dissimuladamente o rosto, e procurando
reconhecer_)

Da parte d'el-rei!... Ento...


GONALO (_adiantando-se_)

Vamos... Toda a resistencia seria inutil...


D. MARIA JOANNA, MORGADO _e_ COMMENDADOR

(_voltando-se simultaneamente_)

O sr. Gonalo Mendo!


GONALO (_attonito_)

Que  isto! (_affirmando-se e reconhecendo-os_) Na verdade no sei se
acredite... A sr.^a D. Maria Joanna Galvo!... O sr. morgado da
Gsteira!... O sr. commendador Louzellos!... E eu que pensava colher um
bando de salteadores!... (_a D. Maria Joanna sorrindo_) No so os
salteadores?


D. MARIA JOANNA (_recobrando a jovialidade_)

Somos os assaltados. Respondo-lhe por elles.--Agora diga-me antes de
tudo. Que aventura  esta? Como veiu aqui? Onde estamos? Diga. Foi
terrivel o susto, mas ainda  maior a curiosidade.


GONALO

Responderei logo; perguntarei primeiro. Estes senhores pdem auxiliar as
explicaes, e eu completo o meu dever. Vinham de jornada e foram
atacados alli em baixo, na estrada, ao fundo do valle, entre a ribeira
d'Aviz e o azinhal grande?


COMMENDADOR (_no seu caracter habitual de prolixa gravidade_)

Fomos. Tinhamos jantado em Portalegre, onde mais nos detivemos do que
deviamos. E no foi por eu no repetir ao morgado, com a auctoridade de
Cicero: nos negocios graves so perigosas as demoras. Jornadas, em boa
razo, so graves negocios.


MORGADO (_no seu caracter de costumada loquacidade_)

A que proposito vinha o tal Cicero, ou o que , quando eu tinha
conseguido pr na meza  prima, em Portalegre... em Portalegre, como se
estivessemos na crte!... tudo por diligencias minhas, tudo com receitas
minhas!... uma lha  castelhana, um prato de gallinhas de alfitete,
outro de coelho  Ferno de Sousa, outro de arteletes de vitella, outro
de coroa real de folhado francez, sem contar as miudezas... Em jornada
nem princezas teriam melhor, hade confessar, sr. Gonalo Mendo... No,
que se no fra a minha consummada pratica n'estas coisas...


D. MARIA JOANNA

Estavamos ha uma hora em Monforte... e provavelmente no nos tinha
succedido o que nos succedeu.


MORGADO (_desconsolado_)

Ah! prima!


GONALO (_a D. Maria Joanna_)

No me queixarei eu do succedido. (_Aos homens_.) Vamos ao caso...


COMMENDADOR

Era j ao pr do sol e estavamos quasi ao meio do azinhal, a sr.^a D.
Maria Joanna com a sua aia n'uma liteira, ns dois e dois criados, todos
a cavallo, um pouco atrs uma azemola com as bagagens mais leves, e um
moo de p...


MORGADO

Bagagens leves!... Leves sero, mas preciosas!... Mil coisas
necessarias!... Uma bateria de cosinha de viagem como no ha outra ainda
em Lisboa... completa... completa... Frmas, facas, espatulas, agulhas,
passadores... Nem na uxaria de Salvaterra!... E tudo precauo minha
para commodidade da prima, tudo...


GONALO (_interrompendo_)

Vamos ao caso... vamos ao caso, commendador.


COMMENDADOR

A meio do azinhal, pouco mais ou menos, onde a estrada faz um cotovelo e
se aperta entre os montes, damos de rosto com uns poucos de homens
armados...


MORGADO

Poucos!... Quinze eram pelo menos... vinte talvez... vinte de certo, se
no eram mais...


GONALO (_atalhando impaciente_)

O numero pouco importa.


MORGADO (_protestando_)

Importa pouco! Para o valor o numero...


COMMENDADOR

O numero no  indifferente... Por no ser indiferente se distinguiu em
singular e plural... Basta ver o que a respeito do numero escreveu
Prisciano Cesariense... mas n'este caso...


D. MARIA JOANNA

N'este caso, contino eu... ou no se acaba.--Parmos. O morgado e o
commendador vinham ainda um pouco distantes, penso. Os homens fazem
meno de nos cercar a liteira. A minha aia desmaia. Os liteireiros
fogem pelo azinhal, e creio que os criados tambem. Emfim achei-me no
sei como a p na estrada. N'isto o commendador caiu...


COMMENDADOR

Dei de esporas para acudir, e tropeou-me o cavallo...


D. MARIA JOANNA

Muito a tempo.


MORGADO (_que espreitava a occasio, apoderando-se da palavra_)

No meio d'estes apuros, conservo toda a presena d'espirito... deito 
carreira, fao parada firme, ponho p em terra n'um relance, com todos
os preceitos... os tres tempos velozes em meio circulo seguido...
levanto o commendador que estava tolhido pela sella... no indago
mais... a p mesmo levo da espada, e caio como um raio sobre a malta...
Ah! que se tenho tempo! Duas voltas, um cambiamento, treta sobre treta,
talho e revez, e ensinava-lhes o que  o morgado da Gsteira com a
espada na mo!... A prima veria... Por seu respeito!... Veria... No
digo mais!


D. MARIA JOANNA

Veria... estou certa. Mas no vi. Foi pena. Apagou-se o raio antes de
fulminar!


GONALO (_a D. Maria Joanna_)

Depois?


D. MARIA JOANNA

Depois... nem eu sei bem... ouviu-se um galope... um tiro, creio... O
morgado diz que foi um tiro...


MORGADO

Foi... Por signal, com o estrondo os nossos cavallos, que tinhamos
deixado soltos na estrada, fugiram  desfilada...


D. MARIA JOANNA

Dando exemplo aos cavalleiros. Fugiram os cavallos, fugiram os
salteadores... se eram salteadores... j tinha fugido o commendador,
fugiu o primo, e eu, que estava desatinada, confesso, vendo-o fugir...
segui-o. Debandada geral... No se ria, sr. Gonalo Mendo... Segui-o, 
verdade, a correr, a bom correr, eu mesma, por essas ladeiras acima, por
entre o matto... E tive folego!... Veja que foras d o terror, e como
eguala as condies!... Por fim viemos dar todos aqui. Pde explicar-me
o enigma?


MORGADO

Tive a imprudencia de no trazer armas de fogo. Estava apeado, no
esperava dois ataques ao mesmo tempo... Mettido assim entre os
salteadores que nos esperavam, e o outro bando que atirou sobre ns...
Senti assobiar a bala aos ouvidos.


GONALO

Admira. Disparei para o ar.


MORGADO (_surpreso_)

Disparou!


D. MARIA JOANNA

Ento o outro bando era o sr. Gonalo Mendo!


GONALO

Eu mesmo. Voltava de Marvo, com duas ordenanas do meu regimento, em
direco a Monforte. Ao descer a encosta avistei um ajuntamento na
estrada... No podia distinguir bem, porque estava distante ainda, e j
comeava a escurecer o valle com a sombra do arvoredo... Metti a galope,
e desconfiei que era ataque a passageiros. Disparei ento uma das
pistolas para dar aviso de soccorro, e prevenir alguma ousadia maior.
No esperava to grande resultado. N'um instante desappareceu tudo...
menos a liteira e a sua aia, minha senhora!


D. MARIA JOANNA

Jesus!  verdade! A minha pobre Anna Maria! Que  feito d'ella?... Com o
sobresalto, com tudo isto, quasi me tinha j esquecido.


GONALO

Tornou a si... Acompanha-a um dos meus drages... Vem ahi j. Nem pode
acreditar ainda, que esteja viva.


D. MARIA JOANNA

E os ladres, os criados, os liteireiros...


GONALO

Dos ladres, nem vestigios... Parece que se abriu a terra com elles...


MORGADO (_que escutava attentamente, comsigo_)

Ainda bem!


GONALO (_fitando-o_)

Como?


MORGADO

Nada, nada... Explica-se tudo perfeitamente. Ainda bem, dizia eu. Ainda
bem que se explica, est visto.


GONALO

Os liteireiros e os criados... deixei a outra ordenana incumbida de
procural-os, e esses de certo no ho de estar longe.


D. MARIA JOANNA

E como veio aqui ter, tanto a proposito?

(_Vae carregando a noite_)


GONALO

Porque vi que se acoitavam n'esta casaria alguns vultos... e por...
(_mais baixo_) por destino talvez!


D. MARIA JOANNA (_idem, motejando_)

Como ha dois annos?


GONALO (_gravemente e com ardor_)

Como sempre!


D. MARIA JOANNA (_afastando a conversao_)

Mas a final, onde estamos? Que havemos de fazer?


GONALO

Em primeiro logar... procurar luz.  noite quasi. Sr. Morgado da
Gsteira, a casa tem ares de habitada. Se quizesse...


MORGADO

Pois no. Eu chamo. (_Successivamente e a intervallos, s portas da D._)
Ol! Oh!...  de casa. Venha alguem? Est aqui o morgado da Gsteira!...
Est uma senhora!... Gente de bem, tudo!... (_Silencio absoluto_.) Nem
viv'alma!


GONALO

Estaro longe...


COMMENDADOR

 singular!


D. MARIA JOANNA (_inquieta_)

Ser a propria guarida dos salteadores!


GONALO

Tem-se visto, mas no  provavel... Vamos, sr. morgado. Veja se acha uma
luz. Bem reconhece que no posso ir eu. Est aqui uma dama, e agora,
como militar, respondo pela sua segurana.


MORGADO (_irresoluto_)

Assim , mas... (_sem se atrever a ir_) Commendador, mais vem dois do
que um.


COMMENDADOR

No  a luz dos olhos a que mais v, como diz...


GONALO (_instando_)

Ento! Cada vez se faz mais escuro, e no sabemos onde estamos.


MORGADO (_resolvendo-se_)

Vamos, commendador, antes que seja noite de todo! Por aqui... (_indo 
E._) Uma varanda... (_indo  D._) d'este lado um corredor... Vamos a
ver.

(_Saem os dois pela 1.^a porta da D._)


SCENA III


GONALO, _e_ D. MARIA JOANNA

(_Longo silencio como se receiassem quebral-o_)


D. MARIA JOANNA

Sr. Gonalo Mendo,  ainda submisso como d'antes jurava?


GONALO

Nunca faltei a nenhum juramento.


D. MARIA JOANNA

Tornamos a vr-nos em circumstancias extraordinarias... n'um ermo a bem
dizer... entre sombras e mysterios... No lhe permitto uma palavra de
galanteio s escuras... Esto entre ns...


GONALO (_gravemente_)

Esto tres seculos de honra... est a espada de um soldado.--Faz-me a
injuria de suppr necessario advertir-m'o?


D. MARIA JOANNA

No. Desculpe.  ainda do sobresalto! Desculpe. Conversemos.--Estava bem
longe de me encontrar, no? E assim, e aqui muito menos?


GONALO

S adivinhando. Suppunha-a ainda em Paris.


D. MARIA JOANNA

Volto de l. Um mez de jornada, faa ida! Se no posso aturar o mar!


GONALO

Um mez!... Entre o commendador e o morgado?


D. MARIA JOANNA

O commendador...


GONALO

Uma reminiscencia das academias do sr. D. Joo V... a quem Deus
perde...


D. MARIA JOANNA

Ao sr. D. Joo V?


GONALO

No, minha senhora, s academias.


D. MARIA JOANNA

O morgado...


GONALO

A casca dos antepassados... que no teve.


D. MARIA JOANNA

J vejo que os conhece a fundo.


GONALO (_ponderando dolorosamente_)

Um mez em tal companhia!... A fadiga do caminho  nada ao p d'isso.


D. MARIA JOANNA

Um mez com o commendador, que o meu contra-parente D. Vicente de Sousa
Coutinho incumbiu de acompanhar-me, attendendo  sua edade, e que
emprehendeu render-me  fora de erudies... um dia com o morgado, que
encontrei em Porto de Espada, e que foi esperar-me  raia, no sei se
por sua conta, se por ordem de minha tia D. Felicia, a quem escrevi de
Paris.


GONALO

Ao menos foi s meio supplicio no mez!


D. MARIA JOANNA

Ai! o dia do morgado tem valido bem o mez do commendador. Imagine.  um
nunca acabar de proezas em cavallaria, em... esgrima, em altanaria, em
monteria e em... gastronomia, como se diz em Frana. Com o pretexto de
um parentesco... de que eu no tinha noticia... quer-me captivar pelas
artes como o commendador pela sciencia.


GONALO

Concluo d'ahi que tenho n'elles dois... dois... Como direi?...


D. MARIA JOANNA

Rivaes. Pde dizer. No tem risco.


GONALO

Em summa, requestam-n'a ambos!


D. MARIA JOANNA

O commendador ds que partimos de Paris... O morgado ds que nos saiu ao
encontro na fronteira...


GONALO

Complicando o galanteio... ambulante.


D. MARIA JOANNA

Pelo contrario: simplificando-o. Distraem-se mutuamente, e deixam-me
respirar. Dois so menos perigosos que um.


GONALO

E tres?


D. MARIA JOANNA

Menos perigosos que dois. J lhe esqueceu o promettido? (_Pausa_.) Ambos
pertendem a minha mo,  verdade... porque n'esta mo, com ser pequena,
cabe a herana de tres casas.


GONALO (_simplesmente_)

No me lembrava!


O MORGADO (_fra_)

Prima! Prima!


D. MARIA JOANNA

Ouve? Temos temporal de palavras.


SCENA IV


OS DITOS, MORGADO _e_ COMMENDADOR

(_Ambos com luzes--Clarea de novo a scena_)


MORGADO

Prima. Achmos luz.


GONALO

No  difficil verifical-o.


MORGADO

E no s achmos luz, fizemos um grande descubrimento. (_Vo pr as
luzes no bufete_.)


D. MARIA JOANNA

No foi o novo mundo?


MORGADO

No foi o novo mundo. Foi um mundo antigo... um canto d'elle... muito
seu conhecido... A prima mal se podia lembrar. No o v de pequenina...
E eu mesmo... Se no venho por aqui ha bons quinze annos!...


D. MARIA JOANNA

Vamos, acabe. Encontrou gente?


MORGADO

Gente! Ninguem. Um deserto.--Quer saber onde estamos?


D. MARIA JOANNA

Porque no comeou por ahi? No v que estou morta de impaciencia?


MORGADO

Deus me livre de a molestar na minima coisa, prima. Quizera antes...
brigar commigo! Bem sabe que para lhe evitar um dissabor... uma sombra
d'elle, um... (_Gesto de impaciencia de D. Maria Joanna_.) J vou,
prima. L vae.--Quer saber onde estamos? Estamos no pao da Torre da
Palma!


D. MARIA JOANNA

Em casa de minha tia D. Felicia?


MORGADO

No seu proprio solar. No ignorava que era para estes sitios, mas deram
nova direco  estrada, e l em baixo no me occorreu... Depois, quando
entrmos, com o lusco-fusco...


D. MARIA JOANNA (_maliciosa_)

Com a perturbao...


MORGADO

Nem reparei sequer. Agora, entrando por ahi dentro, quiz-me parecer que
me no era estranho o corredor... tpo uma escada, e d-me ares de
conhecida... deso, entro n'uma casa lageada, e cada vez se me afigura
mais familiar o piso... Procuro, acho vlas, accendo, lho em redor...
Era a cosinha... foi um raio de luz...


GONALO (_sorrindo_)

Pudra! Na cozinha!


MORGADO

Tantas vezes jantei n'esta casa!... Fui eu que dei as receitas de fartes
e de manjar real  Dorotha!... Foi alli que ensinei o Fernandes velho a
fazer perdizes de gigote, quando vinha caar com seu tio capito mr...


D. MARIA JOANNA

Memoraveis recordaes!... Admira como no reconheceu logo a casa.


MORGADO (_machinalmente_)

Com a perturbao... (_emendando-se_) com o escuro, quero dizer... E era
to novo ainda n'aquelle tempo!--No se lembra de seu tio Joo, de
Carregueiros? Parece-me estar vendo ainda o sr. capito mr, Joo
Alvares Lobo, sempre sisudo, e sempre triste... triste como a noite!...
Tudo por qu? Por no deixar filho varo para herdeiro, (_a D. Maria
Joanna_) e por causa da paixo de sua tia D. Felicia pelos donaires...
Nunca se viram dois genios mais oppostos... Elle todo monteador e
fragueiro; ella toda crte e mimos!... Teimava o capito-mr em
eternizar, na Torre da Palma, os costumes do tempo em que era castello
fronteiro a casa. A sr.^a morgada D. Felicia no tinha seno um fito...
ser aafata no Pao.


D. MARIA JOANNA

E j ?


GONALO

Espera ainda ser. Ha treze annos que espera.


MORGADO

Na filha unica via o capito-mr a continuao provavel da indole de sua
mulher, e a ruina dos proprios intentos.


D. MARIA JOANNA

Tenho ida de ouvir dizer que por isso se apartaram.


MORGADO

Por isso, certamente. Foi ella viver na crte como desejava. Elle
deixou-se ficar, no consentindo que sua tia levasse a filha...
provavelmente para a criar a seu modo... Ficou pois... Mas como
ficou!... Esta casa um ermo, elle uma sombra.--Levou-o mais cedo 
sepultura aquelle desgosto!


D. MARIA JOANNA

E a pequenina?


MORGADO

Tinha dezoito mezes apenas. Tratava d'ella aqui a Joaquina Sima, filha
de um matteiro de Carregueiros, que havia dois annos casra com o Luiz
Manuel, o escudeiro da Torre da Palma... A creana morreu, e seu tio
pouco mais durou... Ha bons quinze annos isto... dezeseis talvez!


D. MARIA JOANNA

E dezesete porque no? Apezar de mais moo, meu pae havia casado muito
antes de meu tio Joo. Tinha eu os meus seis annos feitos por esse
tempo, e lembra-me bem de ouvir contar. Foi por morte do tio Joo e da
filha herdeira, que as casas de Fresnos e Carregueiros passaram para meu
pae, na qualidade de immediato successor. No  isto?


MORGADO

. Vivia ainda seu irmo Nuno Alvares, quando morreu o capito-mr. Ao
menos acabou persuadido de que as terras dos seus iam a herdeiro varo,
como tanto desejava.


D. MARIA JOANNA

Deus tinha disposto d'outro modo. Meu irmo Nuno morreu ainda menino
tambem.--O morgado no  menos forte em genealogias... patrimoniaes...
do que em esgrima, e no resto.--Minha tia D. Felicia nunca mais voltou
aqui? Fui cedo para Lisboa, casei aos quinze annos, e parti logo com meu
marido para a embaixada de Vienna d'Austria, onde elle era secretario.
Desejo informaes.


MORGADO

Sua prima? No voltou. A crte  o seu encanto, e esta casa s lhe
lembrava desgostos. Haver dez annos mandou ir para a sua companhia a
pequena da Sima, que  sua afilhada. Tem o mesmo nome que tinha a
filha, e nasceu pelo mesmo tempo... Recordaes... saudades
provavelmente.


D. MARIA JOANNA

E a Joaquina Sima? E o Luiz Manuel? Tenho ainda uns longes d'elles.


MORGADO

Ficaram por feitores da casa.


D. MARIA JOANNA

E no apparecem, essas reliquias de outro tempo?... Procure-m'as,
commendador... procure-as morgado... Ah!... (_como achando uma ida_)
Estaro ellas encantadas? Querem vr que esto!... Desencantem-m'as.


MORGADO

Se no mudaram os costumes, foram ao tero a Vayamonte, e no tardam.


D. MARIA JOANNA

Sabemos onde estamos, e estamos em morada da familia... No  pouco, mas
no  tudo. Agora que fazemos? Monforte fica ainda longe?


GONALO

Meia legoa, o muito.


D. MARIA JOANNA

No me fio n'estas meias legoas.--Visto que nos podemos julgar a
salvo... (_a Gonalo_.) Podemos?


GONALO

Sempre o julguei.


D. MARIA JOANNA

Acho-me um pouco moda das carreiras que dei atraz do morgado; e no sei
se  do susto, se do ar, se da jornada, sinto uma fraqueza que... que
est solicitando com empenho a interveno e o soccorro da famosa
ucharia... (_para o morgado_) No seria occasio de experimentar alguma
das receitas?... Qualquer coisa.


MORGADO

Preveni tudo... Vem tudo nas bagagens, muito bem acondicionado...
Servir-lhe-hei duas ades estilladas, frias, que so um primor, e um
queijo de presunto, que ver... sem contar um prato de broas d'ovos que
tinha de reserva.


D. MARIA JOANNA

Ouviu j fallar no supplicio de Tantalo, morgado?


COMMENDADOR

Tantalo, rei da Lydia, filho de Jupiter e de Plotis.


MORGADO (_sriamente_)

No conheo o sujeito, mas tratarei de fazer o seu conhecimento, se 
pessoa de bem.


D. MARIA JOANNA

No  preciso.--Tantalo ardia em sede, e fugia-lhe a agua que via
proxima; devorava-o a fome, e retiravam-se d'elle os fructos que tinha 
vista... Assim estamos ns... To boas coisas nas bagagens, e as
bagagens por montes e valles!


GONALO (_que parecia escutar_)

Perdoe! (_Continua a applicar o ouvido_.)


D. MARIA JOANNA

Novidade?


GONALO (_saindo precipitadamente_)

Volto j.


SCENA V


OS DITOS _menos_ GONALO


D. MARIA JOANNA

Mais inquietaes ainda!


COMMENDADOR (_turbado_)

No agoiro nada bom... Ouo rumor se me no engano...


MORGADO

No tem a gente um momento de socego. (_comsigo_) Dar-se-ha caso que
devras... (_alto_) Isto est como nunca... Anda tudo minado de
malfeitores!


COMMENDADOR (_com o ouvido attento_)

Que ha rumor l fra, ha!


D. MARIA JOANNA

Assim  que me tranquillisam!


SCENA VI


OS DITOS _e_ GONALO


D. MARIA JOANNA (_assustada_)

Que foi?


GONALO

So as suas bagagens. No  caso de consternar, creio.


D. MARIA JOANNA (_meio enleiada ainda_)

De certo no.


GONALO

Teve alguma coisa?


D. MARIA JOANNA

No tive...--Tive... tive os terrores chronicos do morgado e do
commendador.


MORGADO (_protestando_)

Terrores! Cuidados pela prima.


D. MARIA JOANNA (_aos dois_)

Ho de acabar por me tornar convulsa.


GONALO

Chegou a sua aia, voltaram os liteireiros, e appareceu o criado do sr.
morgado. No falta seno o do sr. commendador.


COMMENDADOR

Esse no me d cuidado.  dos sitios.


GONALO

Tantalo tem frias?


D. MARIA JOANNA

Tem.--A minha Anna Maria?


GONALO

Entrou para os quartos inferiores.


D. MARIA JOANNA

J agora aqui pernoitamos, commendador!


COMMENDADOR

 o mais prudente, se o sr. Gonalo Mendo nos assegura...


GONALO

Basta que esteja em Monforte de madrugada. Eu e as minhas ordenanas
ficamos de guarda a esta casa.


D. MARIA JOANNA

O Luiz Manuel no pde tardar. Sempre ha de haver modo de no ficarmos
peior do que em Monforte.


MORGADO

Ha, pois no... Hade haver onde a prima se accommode como cumpre. Ns...


GONALO

Ns em qualquer parte e de qualquer maneira.


MORGADO

Como homens de guerra.


D. MARIA JOANNA

Que poeira trago... reparo agora!--Commendador... minha prima havia de
ter um quarto de toucar... Quer dizer  Anna Maria que suba e procure.


COMMENDADOR

Procurarei eu mesmo (_galanteando_). Pretende Tibullo...


D. MARIA JOANNA (_atalhando_)

Ai! o morgado que faz que no vae acudir s ades... s ades... Como ?


MORGADO

Estilladas, prima, estilladas... Vou. J vou. Deus me livre de entregar
coisas d'estas a lacaios nem mochillas... Vou no mesmo instante.


COMMENDADOR (_indo para sair pela D., e mirando desconfiado Gonalo
Mendo_)

Dar-se-ha caso que...--Pde l ser...--Um soldado!


MORGADO (_idem,  porta do F_.)

Querem vr que...--Ora... um filho segundo!


SCENA VII


D. MARIA JOANNA _e_ GONALO


D. MARIA JOANNA (_que tem ido sentar se na cadeira junto ao bufete,
acompanhada de Gonalo, que fica de p_)

No est canado, sr. Gonalo Mendo?


GONALO

De qu?


D. MARIA JOANNA

Estou eu... creio que estou.


GONALO

Com um mez de jornadas!...


D. MARIA JOANNA

No  das jornadas.


GONALO

Ser dos companheiros?


D. MARIA JOANNA

Ser.--Continuemos a conversar em quanto elles no veem, os
companheiros.


GONALO

A respeito de qu?


D. MARIA JOANNA

Do que lhe parecer.


GONALO

Sem restrico?


D. MARIA JOANNA (_indicando_)

Agora temos luzes.--Diga-me alguma coisa de Lisboa. Hade estar
informado.


GONALO

Sahi de l ha quinze dias, e volto antes de oito. Vim  provincia em
commisso apenas. Estou s ordens do conde de Aveiras.


D. MARIA JOANNA (_distrahidamente_)

Que se faz? que se diz?


GONALO (_encostando-se-lhe ao espaldar da cadeira_)

Hade-se dizer em breve que possue Lisboa a perola das formosas e
discretas... que j Paris admirava, e agora fica invejando.


D. MARIA JOANNA

Cumprimentos!


GONALO

Bem sei que a enfadam j por continuados.--Cumprimentos no, prophecias.


D. MARIA JOANNA

 moo para propheta... e ninguem o  na sua terra.


GONALO

O que se faz?... Deixe-me vr... (_como recordando-se_) No se faz nada.


D. MARIA JOANNA

Pois nada?


GONALO

O mesmo sempre.--A rainha, minha sr.^a, vae a Salvaterra, e sae s suas
devoes. De tempos em tempos opera em Queluz. Fra d'isso a nau de
viagem de anno a anno, e... e acabou-se.  assim depois que morreu o
marquez de Pombal. Ao principio ainda se entretinham em ter medo d'elle,
mesmo depois de desterrado. Agora at essa distraco falta.


D. MARIA JOANNA

Ai! sr. Gonalo Mendo, desculpe. Est ali uma cadeira convidando-o... e
ahi um logar a esperal-o. (_Indica o lado opposto do bufete. Gonalo vae
buscar a cadeira, e senta-se no ponto designado_.) No lhe parece que
estaremos melhor?--So ainda moda os abadeados?


GONALO

Uma vez por outra. Agora esto em voga as assemblas.--Como lhe hade
parecer tudo isto semsabor!


D. MARIA JOANNA (_sriamente_)

Engana-se. Sempre so ares nossos. No sabe que me trazem saudades?


GONALO (_com inteno_)

De...?


D. MARIA JOANNA (_accentuando_)

Da patria.


GONALO

E sentimento digno de tal dama. Mas depois sempre se hade lembrar d'esse
Paris, que era j to seu.


D. MARIA JOANNA

O Paris que viu ha dois annos vae de dia para dia degenerando... Os
requebros so curtidos em philosophia... as canes tem um sabor de
finanas... Que distraco para damas!...


GONALO

Amortalharam ento a galanteria franceza com a Dubarry?


D. MARIA JOANNA

Que est dizendo! Seria leval-a de caixo  cova. A galanteria
sobrevive; mas agora tem por figurino a sensibilidade... e anda de brao
dado com uma coisa nova, que veiu ha pouco de Inglaterra, e que se
chama... (_recordando-se_) chama-se?... (_occorrendo-lhe_) philantropia.
Sabe o que ?


GONALO

Um nome que trescalla a grego. Hade sabel-o o commendador.--Acredita na
sensibilidade de figurino?


D MARIA JOANNA

No; nem na philantropia de apparato.


GONALO

N'isso se occupam agora os francezes!... Substituiram isso aos
madrigaes?... Pois no ganharam na troca. Estou tentado a preferir-lhes
as nossas formalidades ronceiras... a nossa rustiquez e lhaneza... Por
fim de contas, so coisas de casa... e muito de bom tem algumas.


D. MARIA JOANNA

Prefiro-as eu. Por isso vim.


GONALO

E bem haja que veiu! (_admirando-a_) Vem, ainda mais formosa do que era
ha dois annos, quando fui levar officios de gabinete  embaixada de
Paris... Lembra-se?


D. MARIA JOANNA

Tinha-se levantado o cerco de Gibraltar!


GONALO

S isso lhe lembra?... Vem prendada de todos os primores do espirito, de
todas as graas da beleza, e no consente...


D. MARIA JOANNA (_detendo-lhe a palavra com o gesto_)

Escute! Cuidei que era j o commendador... Quer ver se o commendador com
effeito achou o quarto?...


GONALO (_Ergue-se vivamente_. _Pausa_. _Contemplando-a_.)

 cruel! (_Nova pausa_. _Com visivel despeito_.) Vou procurar o
commendador. (_Encaminha-se  D._)


D. MARIA JOANNA (_levantando-se como por effeito de reflexo_)

No. Espere. O commendador era capaz de pensar que no posso passar
cinco minutos sem a sua presena.


GONALO (_voltando esperanado_)

Dispensa-a ento... por ra?


D. MARIA JOANNA

Por mais um instante. (_Vae sentar-se no canap_.)


GONALO (_defronte, de costas para o bufete, fitando-a_)

Porque me obriga a dissimular commigo mesmo? Porque me fora a estes
colloquios frivolos?  isto para ns? No sabe que s a bocca lhe
responde, porque tenho a alma e o sentido n'outra coisa?


D. MARIA JOANNA (_depois de pausa_)

Tem razo. -lhe absolutamente indispensavel fallar-me do que j me
disse ha dois annos em Paris? Pois fallemos... Fallemos.--Dei-lhe ento
esperanas?


GONALO

Nenhumas,  verdade.


D. MARIA JOANNA

Dei-as a alguem?


GONALO

Rodeam-n'a as homenagens como a soberana...  agradavel. Sorri a
todos... mas fica a todos insensivel... tambem sei!


D. MARIA JOANNA

Insensivel!... Uma pedra, porque no?... Um gelo dos Alpes, vamos...
Diga, diga... Se no o diz, pensa-o.--Somos insensiveis para estes
senhores, ns outras, quando no nos declaramos humildemente rendidas
apenas se dignam dar-nos um signal de preferencia... Nascemos para seu
desenfado... Sorri a todos!... Vejam! Uma causa crime, completa s
n'esta phrase: sorri a todos! Olhem o attentado! Queriam que
chorassemos sempre? Queriam que _os_ chorassemos!... E quando
choramos... Nem eu digo!--Sentenciado a pena ultima, o nosso sorriso.
Sentenciado porqu?... No sabem que nas mulheres o sorriso anda perto
das lagrimas!... Deixem-nos ao menos esse raio de luz entre chuveiros...
como o sol de inverno.


GONALO

Poderia responder-lhe que mais commodo do que ter amor  deixar-se
amar... Mas no digo... no me queixo... nada peo. Est na sua mo no
preferir ninguem?... No o est impedir que lhe queiram... mesmo sem
esperana. Porque no serei eu d'esses?


D. MARIA JOANNA

O sr. Gonalo Mendo!...--Sente-se ahi. Vamos, sente-se. Quero
confessal-o.


GONALO

E d-me a penitencia antecipada!


D. MARIA JOANNA

Verei depois a que merece... segundo o arrependimento.


GONALO (_com esperana, fazendo meno de ajoelhar_)

As culpas dizem-se de joelhos.


D. MARIA JOANNA (_vivamente_)

Sente-se. Os culpados comeam por obedecer. Isso. Vamos a saber:
(_solemnemente_)  verdade que por occasio da sua ida a Paris desafiou
em Versailles um capito dos guardas francezes, e o deixou tres mezes de
cama com uma estocada?


GONALO

 verdade. Foi para lhe provar que as parisienses no eram as primeiras
entre todas as damas, como elle pertendia.


D. MARIA JOANNA

E porque no seriam?


GONALO

Tinha c as minhas razes.


D. MARIA JOANNA

Boas razes haviam de ser. Como se estiveramos ainda no tempo dos
Magrios!


GONALO

Os Magrios em Portugal so de todos os tempos.


D. MARIA JOANNA

 verdade que o anno passado, quando se festejou o casamento do sr.
infante D. Joo com a sr.^a infanta D. Carlota, n'uma corrida de touros
no pao da Murteira, saiu ao terreiro de espada na mo, e a p, sem mais
capa nem defesa, chamou a si o animal furioso, e matou-o de um golpe, s
para que elle no pozesse os ps n'um leno, que da varanda havia caido
a uma dama?


GONALO

 verdade. A dama tinha sessenta annos.


D. MARIA JOANNA (_incredula e motejando_)

Sessenta annos!


GONALO

Mas chamava-se D. Mencia Jorge, e o leno tinha bordado um _M_ e um
_J_... as suas iniciaes.


D. MARIA JOANNA (_lisonjeada_)

Ah! (_Pausa_.) Mais...


GONALO

Mais ainda? Devo agradecer a curiosidade, que se informou... ou a
informou... com tanta miudeza a meu respeito?


D. MARIA JOANNA

Deve responder.-- verdade que um dia, amotinando-se o regimento de
Meklemburgo... servia ento l... o tenente-coronel... um allemo,
creio... ficou s, ameaado dos soldados enfurecidos?  verdade que
unicamente um alferes se atreveu a collocar-se ao lado do commandante,
com tal resoluo e bizarria, que o exemplo envergonhou os sublevados, e
a firmeza do official salvou a vida ao tenente-coronel?


GONALO

 verdade. O alferes cumpriu o seu dever, nada mais.


D. MARIA JOANNA

Mas dizem que n'esse dever lhe serviram de estimulo os olhos azues da
irm do tenente-coronel. Ser assim?


GONALO

. Foi. Ha quantos annos?


D. MARIA JOANNA

Eu sei!...


GONALO

Ha seis. (_a D Maria Joanna_.) No a conhecia ainda.


D. MARIA JOANNA

Ahi est... No a conhecia ainda! O estribilho costumado.  como
todos.


GONALO

Pouco mais ou menos. Se imagina uma especie differente... Sou um simples
mortal, confesso humildemente.


D. MARIA JOANNA

...  todo verduras e temeridades... Por uns olhos affrontar um
regimento!... Por uma palavra provocar os melhores espadas de Frana!...
Por um leno arriscar-se a ficar nas armas de uma fera!... Pde l
dispr da sua mo, um homem assim?... Para trazer sempre a mulher em
vesperas de viuvez!


GONALO (_encantado_)

Oh! se isso fosse uma esperana!


D. MARIA JOANNA

Deus me defenda.--Quando me comeavam a florir os annos, casaram-me com
um homem... que j ia desfolhando os seus. Deixei patria e familia aos
dezoito. Achei-me viuva aos vinte. Acolhendo-me a casa de minha prima,
na nossa embaixada em Paris, senti sinceramente a falta do companheiro e
protector. Mas d'esta alliana... da primavera com o inverno... podem
ter-me ficado memorias que me faam desejar novo captiveiro?


GONALO

No o captiveiro, mas a compensao.


D. MARIA JOANNA

Quem m'a assegura?


GONALO

Quem? A constancia.


D. MARIA JOANNA

Que diria a isso a allem?


GONALO

Ama-se devras uma s vez. Quer-me crer? Amo-a assim eu. Digo-lh'o
singelamente, chmente, c de dentro,  moda da minha provincia, como um
verdadeiro transmontano.... Deixe-me desabafar. Esta vez, e
acabou-se.--No sei que pense, no sei se espere... Unicamente sei que
no posso deixar de...


D. MARIA JOANNA

Ia repetir.


GONALO

Tem razo. Para qu?


D. MARIA JOANNA

Interrompe a confisso?


GONALO

Visto que me no absolve... (_interrogando D. Maria com os olhos;
silencio d'esta_.) Vou ter com o commendador.


D. MARIA JOANNA (_que deitra os olhos para dentro debruando-se no
canap_)

No  preciso; elle ahi vem.


SCENA VIII


OS DITOS _e o_ COMMENDADOR


D. MARIA JOANNA

Ento achou?


COMMENDADOR

Est remediado. No  um _boudoir_, como l diziamos em Frana, mas pde
passar. Eu mesmo ajudei a pr tudo em ordem.


D. MARIA JOANNA

O sr. Gonalo Mendo permitte?


GONALO (_inclinando-se_)

Minha senhora!


D. MARIA JOANNA

Escuso dizer-lhe que ceia comnosco... Desculpa de certo o incommodo que
lhe tenho dado, e preciso agradecer-lhe a companhia que me tem feito.
(_ao commendador_) Ha luzes no corredor?


COMMENDADOR (_galanteando_)

Tudo prevenido, como quem sabe o que n'estes pontos convm. Marcial, que
to bem conheceu os gyneceus de Roma, d a respeito dos adornos
femininos informaes preciosas.--Acompanho-a?


D. MARIA JOANNA (_relanceando os olhos a Gonalo_)

Obrigada. (_ao commendador_) Quer ir ver se descarregaram as bagagens, e
mandar-me ao quarto as minhas malas?


GONALO (_vendo o commendador hesitar_)

Aproveito a occasio para fazer accommodar as ordenanas.

(_Gonalo dirige-se ao fundo_. _D. Maria Joanna  D. O morgado apparece
 porta d'entrada do F._)


SCENA IX


OS DITOS _e o_ MORGADO


MORGADO (_ainda fra da porta, mas  vista do espectador, como reparando
e fallando para dentro_)

Levantem o animal... Puxa-lhe a arreata, Jacintho... Tirem-lhe o resto
da carga... Fortes alarves!... (_Entra_.)


D. MARIA JOANNA (_que parou  porta da D_.)

Que mais temos, sr. morgado?


GONALO

Deixaram deitar-se a azemola... Um instante que eu falte!... Mas no tem
duvida j... Arrecadaram-se os comestiveis. (_voltando ao F. a
observar_) L est a mula a espojar-se... Levantem-n'a, levantem-n'a.


D. MARIA JOANNA

Commendador, as minhas malas! Acuda s minhas malas! C as vou esperar,
e no tardo. (_Sae pela D._)


SCENA X


OS DITOS _menos_ D. MARIA JOANNA


COMMENDADOR (_ao morgado_)

Sr. morgado, as malas?


MORGADO (_a Gonalo_)

Sr. tenente, as malas?


GONALO

Cada qual no seu officio! (_Sae_.)


SCENA XI


OS DITOS _menos_ GONALO


MORGADO

Ento, commendador, as malas da prima. Eu no posso servir para tudo!


COMMENDADOR (_tomando o seu partido_)

Bem dizia Socrates, atheniense, que a mulher  como o altar: nunca
est bastante ornada (_para sahir_) E com razo a definia o famoso Julio
Cesar Scaligero, de Verona... (_Sae_.)


MORGADO (_seguindo-o_)

Muito melhor canta o nosso rifo com a mulher e o dinheiro, no zombes
companheiro.


SCENA XII


MORGADO _s_ (_voltando_)

Bem te percebo, meu feixe de maximas velhas e sentenas occas!... Bom
signal  que de mim te receies... Pressentes que te foge a presa... E
no ha 48 horas ainda!... O que far d'aqui a dias... Pudra! similhante
deposito de latins e de catarros, ao p d'um homem da minha tempera,
moo ainda, bem posto, prendado e cavalleiro!... (_esfregando as mos_)
Est certa, Bartholomeu Tojo, morgado da Gsteira... est caida. Pdes
ir encommendando sege  boleia... Sege de crte e sege de campo!... A
fallar a verdade vem a tempo... era tempo. Iam-se j os ltimos torres!
(_esfregando as mos_) O que  ter artes e astucias!...


SCENA XIII


MORGADO _e_ Z DA MOITA


Z (_deitando a cabea pela porta da E. em voz baixa e cauteloso_)

Sr. morgado... Pschiu!... eh! sr. morgado!


MORGADO (_assustado_)

Que ? (_voltando-se e dando por elle_) Tu, homen! (_inquieto_) Que
queres?


Z (_entrando_)

Est s?


MORGADO

No vs? Vae-te, que pde vir gente. Como vieste aqui parar?


Z

_ s_ as trilhas de cr e salteado. Vinha em sua _prcura_.


MORGADO

Porqu? Para qu?


Z

 que l a rapaziada est levada de quantos dmos ha. O Manuel da
Brazia, o Domingos Picano, o Chico d'Alter, o Joo Gallego, o Timotheo
d'Alcaravia... aquillo  todos  uma.


MORGADO

Deixou-se apanhar algum?


Z

_Q'al_! Bem alma tinham para isso os cavallarias, que no sabem caminho
nem _carrra_. A gente _mettemo-nos_ pelo azinhal dentro... ps para que
te quero... Fossem l pr mais a vista em cima a nenhum. D'ali a um
credo estava tudo junto no barranco de baixo, ao fundo da Fonte da
Fornalha, ahi ao p da azinhaga da herdade.


MORGADO (_inquieto_)

Pois sim, mas que me queres?


Z

Como eu  que _les fall_ por conta do sr. morgado...


MORGADO

Avia-te. No te dei j o que ajustmos? Quantos eram?


Z

Eram sete... commigo oito.


MORGADO

Dei-te uma moeda. Um cruzado novo para cada um, e dois para ti. O resto
para beberem.


Z

Ai! senhor!... Se os ouvisse!


MORGADO

No esto contentes?


Z

Contentes! Ficaram derramados!... Andam na mente que os _engan_... que
no era uma _brincadra_, como o sr. morgado me disse... que foi uma
fidalga que ns fizemos cara de assaltar na estrada... que d brado o
caso e que se mettem n'isso as justias... que o sr. morgado o que
queria era fazer de pimpo sem perigo,  custa dos rapazes... que pdem
ficar agora todos mettidos em trabalhos... e que torna e que deixa...
Ih! Jesus!... um dia de juizo!


MORGADO

Por esta no esperava eu!


Z

_P'ra_ mais ajuda, um dos criados foi-se direito a Vayamonte, e achou l
o sr. juiz ouvidor com uma escolta do regimento de Setubal...
_Contou-le_ tudo pelos modos... e os rapazes dizem que o melhor  ir
pedir perdo, porque a final elles no teem culpa, e o sr. morgado ha-de
contar a verdade.


MORGADO (_atterrado_)

Pelo amor de Deus, homem. Vae ter com elles... Anda, depressa, vae.
(_comsigo_) Que no diria minha prima!... (_a Z_) Para que haviam de
fazer tal? Ninguem os conheceu.


Z

Pois sim! No ha quem os accommode. Como _pesqu_ que os senhores tinham
_botado_ para aqui, l _assocegu_ a gente _dizendo-le_ que esperassem
todos um nada, que vinha fallar com o sr. morgado.


MORGADO

Mas se te veem aqui!...


Z

No tem _duveda_. __ conheo o feitor, e j fui guarda c da casa. O
Timotheo d'Alcaravia  que est mais perro. Tem l a sua _aquella_ que
ninguem _le_ pe o p adiante, (_elevando a voz_) e como o sr. morgado
quiz assim fazer pouco da rapaziada...


MORGADO (_afflicto_)

Mais baixo. Que preciso tens tu de gritar?


Z

Bem _s_ que no era a valer... Se fosse... ai... se fosse!... Mas um
_home_  um _home_, e...


MORGADO (_inquieto_)

Est bom, est bom... Se lhes dsse mais?...


Z (_coando a orelha_)

_ s_!... to bravos como esto!... Talvez se accommodassem pedindo
eu... talvez.--Mais quanto?


MORGADO (_com esforo_)

Uma pea.


Z

Uma pea! Quanto faz uma pea?


MORGADO (_ponderando_)

Quinze cruzados novos menos oito tostes.


Z

Quinze?... (_comsigo, contando pelos dedos_) menos... (_resolutamente_)
Tem-n'a ahi?...


MORGADO (_mostrando-lh'a_)

Aqui est.


Z (_fazendo-lhe cara_)

Em oiro?


MORGADO

Se no tenho troco!


Z

Tem a gente de ir trocal-a a Evora, que l na villa, se nos vem com
isto, so capazes de pegar logo a desconfiar...


MORGADO (_perdendo a cabea_)

Ento como ha de ser?


Z (_tocando-lhe familiarmente com o cotovelo_)

 sr. morgado, a fidalga tem uns olhos!... Ella sempre vale as duas
loiras! (_elevando a voz_) Se vem a saber que foi tudo fingido...
hein?...


MORGADO

Cala-te! (_fitando-o_) Com que ento... (_comsigo_.) A final o assaltado
sou eu. (_Alto_) Aqui tens duas peas. (_D-lhe as duas_.)


Z (_respeitosamente_)

No manda mais nada o sr. morgado?


MORGADO

A casa do feitor  para esse lado. Olha no te encontre.


Z

 o mesmo. No desconfia, j _le_ disse. At mais ver! (_sae_)


MORGADO

Vae com Deus! (_depois de o vr sair_) Os demonios te levem, tratante!


Z (_tornando a deitar a cabea_)

Chamou?


MORGADO (_impaciente_)

Vae com Deus! vae com Deus! (_Z sae definitivamente_.)


SCENA XIV


MORGADO

Que tal  a lio! O susto que me pregaram os cavallarias... cuidar que
andava tudo por ahi cheio de salteadores deveras... e ainda mais
esta!... Calam-se, agora calam-se:  o seu interesse... O que o
desalmado quiz foi... E gabem-me a singeleza dos rusticos!... Tomra que
succedesse uma d'estas aos srs. poetas de Lisboa, que no fazem seno
deitar las  innocencia pastoril... Que remedio! O que l vae l vae...
E foram-se as peas!... E o que no riro  minha custa, os malandrins,
quando as beberem!...--Por fim de contas vale a pena... Se vale... Vale
a pena de tudo...


SCENA XV


MORGADO, _e_ LUIZ MANUEL (_da E_)


MORGADO (_vendo-o_)

Outro!... (_reparando_) Um retrato do tempo d'el-rei D. Pedro!...
(_conhecendo-o_) Ai! o Luiz Manuel.


LUIZ MANUEL (_Trajo do tempo de D. Joo V, tristeza profunda, sisudez
inalteravel_.)

Bem vindo seja  casa da Torre da Palma, o sr. morgado da Gesteira. Que
estava aqui me disse um guarda do monte, que topei agora como nos
tornavamos do tero. J no  isto o que era, porque a sr.^a morgada...
gota a gota o mar se esgota, e quem em maio relva, fica sem po nem
herva. Mas... ella  senhora do que  seu!... E eu venho s a dizer a
Sua Merc que, se bem onde senhores empobrecem, criados padecem, tudo
o que ha na casa e na quintan est s ordens do sr. morgado, e mais da
fidalga companhia que traz, a julgar pelo arruido que por ahi vae.


MORGADO

Boa companhia trago com efeito. Como no tempo do sr. capito-mr!


LUIZ MANUEL

Como no tempo do sr. capito-mr, que Deus haja!... Isso j l vae, e
no volta... No volta... Nem conhecia o sr. morgado, se me no
avisam... Que annos ha! E como assim nos enterramos n'este ermo!...
Tanto faz. Como o outro que diz: ainda que nos no fallemos, bem nos
queremos.--O sr. morgado precisa alguma coisa?


MORGADO

J por ahi procurmos e dispozemos do que encontrmos... So ainda
necessarias roupas, talheres...


LUIZ MANUEL

Ha de apparecer tudo... Tudo?... tudo o que resta. Fizeram bem em se ir
logo servindo... Haviam de achar as chaves nas portas... Era o costume
antigo, bem sabe.


MORGADO

Achmos. Extranhei at... Estando aqui ss...


LUIZ MANUEL

No tem perigo. Pouco ha j que fechar e arrecadar. Vasios quasi, os
taleigos que andavam de cogulo... a bem dizer no fundo, as arcas d'antes
a arrebentar de fartas. No ser como ento, que melhor se podia dizer:
em casa cheia depressa se faz a ceia. Mas o que ha, o que houver... 
a vontade da sr.^a morgada... decerto ha de ser. Com ir ahi tudo por
agua baixo... que nem sei j se virei a cerrar os olhos n'esta casa onde
nasci... ella a final sempre  quem ... (_como para atravessar para a
D._) Vou dar ordem a... (_parando de repente e com tom consternado_.)
Queria, sr. morgado, mas no posso... Queria pr a alma e a vida no que
me cumpre, j que a Torre da Palma est sem amos... Eu bem conheo que
hospedes em casa dia santo ... mas... mas... Estou velho, faltam-me
as foras! Uma coisa se deseja e outra  bem que seja.


MORGADO

Tem alguma coisa, Luiz Manuel?


LUIZ MANUEL

Eu no, sr. morgado.  a minha Sima... Isto de viver assim vinte annos
juntos, deita raizes c dentro!...


MORGADO

Pois... que lhe succedeu?


LUIZ MANUEL

Mal acabou o tero, a minha Sima foi  sacristia buscar um papel, que
pelos modos tinha encommendado ao nosso padre cura do Vayamonte... Eu
estava  porta  espera... Mal vinha a sair, entra-me a tremer, a tremer
toda, a torcer-se como um vime, e a revirar os olhos, e a sumir-se-lhe a
falla, e sem se poder ter!... Aquillo no  seno olhado que lhe
deram!... Foi preciso trazel-a em braos, e l ficou em baixo na cama...
(_lembrando-se de subito_) Ai! Jesus! esta cabea como est com tanta
coisa de repente!... Ento no me esquecia?... Quando o moo passou por
ns, e nos advertiu que estava c o sr. morgado da Gesteira, tornou
assim mais a si a minha Sima, e disse... (_como recordando_) Queira
Deus que me lembre... Foi isto:  parente da sr.^a morgada... pede-lhe
que venha ver-me, pede-lhe Luiz... Tral-o hoje aqui a Providencia! Foi
isto, foi!


MORGADO

E no m'o dizia? Vamos j. (_comsigo_) Porque ser?


LUIZ MANUEL

Pois o sr. morgado quer?... Aquillo  tresvario do mal!


MORGADO

Sua mulher assim!... Vamos. (_comsigo_.) Para que ser?


LUIZ MANUEL

Como o outro que diz: o pequeno mal espanta, o grande amansa. Deixei
gente com ella. A obrigao primeiro. E a obrigao era...


MORGADO

Dispenso-o eu d'ella... Vamos, vamos. Depois se tratar do mais.


LUIZ MANUEL

Agora  o sr. morgado quem manda. (_Sae_. _O morgado vae a seguil-o,
entra Gonalo e Bocage_.)


GONALO (_da porta_)

Sr. morgado.


MORGADO (_saindo vivamente_)

J volto. Volto j!


SCENA XVI


GONALO, _e_ BOGAGE


BOCAGE

Quem ?


GONALO

Uma singularidade, emparelhada com outra que hade ver logo.--No o
esperava aqui, sr. Bocage. Vem mesmo por ordem do Ouvidor?


BOCAGE

Mesmo por ordem do Ouvidor. Faz trez semanas que me aquartelei em
Monforte, n'um destacamento do meu regimento. Esta manh o sr. Juiz
Ouvidor de Villa Viosa, que est em correio na villa, saiu a
Vayamonte, e trouxe comsigo uma escolta em que eu vim. Ha pouco chega l
um homem todo esboforido... Um criado ouvi que era... D'ahi a um
instante o sr. Ouvidor manda-me chamar em pessoa, e envia-me com quatro
soldados aqui, para proteger no sei que fidalga que vem de jornada... O
encargo pde ser lisongeiro, mas confesso que o dava a todos os demonios
quando deitei por esses fraguedos abaixo. Agora, encontrando-o, meu
tenente, dou-me por pago de tudo... Informei-me, e disseram-me que se
tinham recolhido n'esta casa os viajantes. (_reparando_) Que casa santo
Deus!... D-me ares de ter escapado ao diluvio... Pois a mobilia!... Da
arca de No a trouxeram para aqui, certamente!... E aquelle canap...
Que canap!... Um canap? Um monumento!...

Quando a velha antiguidade
Dentro n'esta sala entrou,
Disse quelle canap:
Sua beno, meu av!


GONALO

Bravo, sr. Bocage. No se lhe estanca a veia por estes desertos do
Alemtejo. O mesmo sempre!


BOCAGE

O mesmo diz? Estou a ponto de cair em melancolia... britanica. Mulher
que se alberga n'uma habitao d'estas  por fora como ella. Uma mumia,
no? Uma curiosidade archeologica... uma contemporanea das pyramides...
No me diga quantos annos tem.


GONALO

Vinte e tres annos, viuva, todos os dotes do espirito, todas as graas
da formosura, todos os primores de duas crtes.


BOCAGE

Tudo isso! Aqui?... Aqui!...


GONALO

De passagem.


BOCAGE

No diga mais, meu tenente. Quer-me fazer apaixonar, ou est j
apaixonado.


GONALO

Isso esto quantos a vem.


BOCAGE

Severa ou jovial?


GONALO

Um porte que infunde respeito, uma afabilidade esmaltada de sorrisos.
No ha temeridade que se lhe atreva, nem iseno que lhe resista.


BOCAGE

Esse enthusiasmo faz-me tremer! Uma perfeio!


GONALO

Um enigma.


BOCAGE

Enigma ou mulher, o mesmo .


GONALO (_olhando para dentro_)

Eil-a!


BOCAGE

O enigma.


GONALO

A perfeio.


SCENA XVII


OS DITOS, D. MARIA JOANNA _e o_ COMMENDADOR


GONALO

Se d licena, a sr.^a D. Maria Joanna Galvo, apresento-lhe o sr.
Manuel Maria Barbosa de Bocage, cadete do regimento de Setubal, que lhe
traz recado do sr. Juiz Ouvidor de Villa Viosa.


D. MARIA JOANNA

O sr. Juiz Ouvidor teve noticia de ns, e digna-se pensar em mim!


BOCAGE

Dever  de todo o homem proteger as damas. Mais ainda quando o homem 
magistrado. Mais ainda quando as damas so de tal qualidade.--Por sua
ordem e em seu nome venho. Infelizmente no chego a tempo de ser util.


D. MARIA JOANNA

Se no  j necessario auxilio, o sr. cadete vem sempre a tempo de
receber os meus agradecimentos, e os do sr. commendador de Monsars...
(_Os homens inclinam-se, cumprimentando-se_) que me acompanha... para os
transmittir  estremada cortezia do sr. Juiz Ouvidor.--Est aqui ha
muito?


BOCAGE

Ha um instante. Os meus soldados esperam as ordens de v. s.^a


D. MARIA JOANNA

Soldados! Mais? Temos uma guarnio completa. Coitados! Mande-os
descanar.


BOCAGE

Esto j descanando.


D. MARIA JOANNA

N'esse caso, o sr. cadete demora-se tambem.


BOCAGE (_inclinando-se_)

Mandaram-me ficar s ordens! (_baixo, a Gonalo_.) Tinha raso.
Gentilissima!


GONALO (_a Bocage, do mesmo modo_)

Inflammado j? (_alto_.) Apresentei-lhe o militar, permitta-me agora que
lhe apresente o poeta... O sr. Bocage  conhecido, e j apreciado, pelo
seu estro brilhante... um estro que se revelou desde a infancia... Nem
s em Frana se frequenta o Parnaso. Aqui tem um moo que nasceu poeta.


BOCAGE

Como outros nascem vesgos ou tartamudos.--Talvez seja assim, se a
amizade do sr. tenente o no cega, ou me no favorece... mas talvez
tambem a segunda apresentao prejudique a primeira.


D. MARIA JOANNA

Porque? As armas e as musas no so inimigas, que eu saiba.


COMMENDADOR

Horacio esteve na batalha de Philipes, o Suetonio foi escriptor e
guerreiro! Ainda que Pittaco, um dos sete sabios da Grecia, dizia os
validos de Marte so a injustia e a violencia no deixou o grande
Plutarcho de escrever que os Lacedemonios pintavam Pallas armada posto
serem uma s Pallas e Minerva.


BOCAGE (_contemplando-o abysmado, a Gonalo em voz baixa_)

Este quem ?


GONALO (_idem_)

A outra singularidade!


BOCAGE

Que pena ter estudado! Forte asno se perdeu ali!


D. MARIA JOANNA

N'uma das mos a pena, n'outra a espada, diz, creio eu, o nosso
Cames, poeta e soldado tambem.


BOCAGE

Ahi est um _tambem_ capaz de inventar orgulho no mais modesto... se o
no tomasse  conta de exagerao obsequiosa. (_a Gonalo, baixo_)
Venus, disfarada em viajante!


D. MARIA JOANNA

Exagerao! Em que? Por ler vivido fra da patria no lhe desaprendi a
lingua, nem lhe desestimo as glorias.


BOCAGE (_lisongeado_)

D'essas glorias no participo eu, como obscuro ainda.


GONALO

No tanto, sr. Bocage!


D. MARIA JOANNA

_Ainda_? No ha n'essa palavra a consciencia do que ? a confiana no
que ser? As musas no deixam muito tempo sem gloria os seus
predilectos.


BOCAGE

Sabe se sou d'esses?


D. MARIA JOANNA

Adivinho-o. Deixa-me vaticinar-lh'o?


BOCAGE (_com enthusiasmo_)

Bastaria o vaticinio para inflammar o estro.


D. MARIA JOANNA

Deveria provar-me que tenho razo. Em Frana estima-se a poesia, e eu
venho sequiosa da nossa. Era dar-me as boas vindas.


GONALO

Ninguem melhor do que o sr. Bocage.  no s poeta, mas improvisador.


D. MARIA JOANNA

Como em Italia.


GONALO

Ainda ha pouco...


BOCAGE (_atalhando-o_)

Por quem ! (_a D. Maria Joanna_) Vem de Frana, v. s.^a?


D. MARIA JOANNA

De Paris.


BOCAGE

Francez era meu av; com as musas francezas me creou minha me... Somos
quasi conhecidos.


D. MARIA JOANNA

Bocage!... No me  novo o appellido. No tem em Frana parentes?


BOCAGE

Tenho. Uma segunda tia materna... Bocage tambem por seu marido.


D. MARIA JOANNA

J sei. A sr.^a D. Marianna, auctora do poema da _Columbiada_... coroada
ha annos em Ferney pelas proprias mos de Voltaire... E queixa-se de lhe
faltar a gloria!


BOGAGE

Agora no me queixo. Ainda que no seja minha essa gloria,  meu o
proveito d'ella.


COMENDADOR (_que tem disfarado alguns signaes d'impaciencia, murmurando
comsigo_)

Coroada por Voltaire!... Boa prenda hade ser!...


BOCAGE (_que no ouviu bem, mas que lhe notou o gesto, a Gonalo_)

Antipathiso formalmente com a singularidade!


D. MARIA JOANNA

A poesia  hereditaria nos seus, j vejo.


GONALO

De ambos os lados. Seu pae o dr. Jos Luiz Soares de Barbosa adorna a
toga com a lyra, e  um dos discipulos mais estimados de Souto-Mayor.


BOCAGE (_sorrindo_)

 doena de familia, no o nego. Doena chronica, e por isso incuravel.


D. MARIA JOANNA

Em Frana diz-se: _noblesse oblige_. A poesia, que  nobreza tambem,
est a obrigal-o.


BOCAGE (_exaltando-se progressivamente_)

A poesia... A poesia  a lingua dos deuses, e a historia do mundo.  o
raio omnipotente de Jupiter, e o carro fulgurante de Apollo. N'ella, em
todos os tempos, teem cantado os homens as suas alegrias, teem chorado
as suas dores, teem perpetuado os seus feitos, teem immortalisado as
suas catastrophes. N'ella comeou a balbuciar a humanidade; n'ella
fundou os monumentos que desafiam os seculos. A poesia  a expresso do
que ha mais intimo no corao e mais celestial no pensamento; 
magnificencia e harmonia;  arrebatamento e seduco; esplendor pela
frma, delicia pelo som.  resumo de quantas artes levantam o homem ao
Olympo; sentimento para a alma, ida para o espirito, imagem para os
olhos, musica para o ouvido, enlevo para todos os sentidos! Seria a
poesia a unica lingua digna de saudal-a, minha senhora, se a mais
completa poesia no fosse a propria formosura. (_recrescendo_) Deve ser
a poesia...


COMMENDADOR (_que durante esta falla passeou ao F. indo  janella_)

No quer que lhe feche esta janella, sr.^a D. Maria Joanna? Esto frias
as noites, e o ar por aqui traspassa. Dos ares montesinhos, diz o
insigne Columella...


D. MARIA JOANNA (_atalhando-o impaciente e reprehensiva_)

Commendador!

(_O commendador approxima-se tirando a caixa de rap_.)


BOCAGE (_reprimindo um gesto furioso e como continuando_)

Mas a poesia, como dama, tem os seus dias, tem os seus momentos, tem os
seus caprichos.  rainha, e no serva. Impra, no obedece. Se vae
arremessada no vo, se a fazem colher as azas e baixar  terra (_fitando
o commendador_)... para tropear na impudencia, ou no ridiculo... faz-se
allegoria, faz-se apologo;  epigramma,  satyra; fustiga, flagella,
punge, dilacera, fulmina... e segue, a sorrir desdenhosa, deixando
atascada no seu lodaal immundo a sandice enfatuada e grosseira!...


COMMENDADOR (_sorrindo dubiamente e saboreando a pitada_)

Hypotypse arrojada! J Democrito, philosopho da Thracia, dizia... o que
quer que seja similhante... ao divino Hypocrates, natural da ilha de
Cs! (_Bocage vae para replicar arrebatado_. _Entra o morgado_.)


SCENA XVIII


OS DITOS _e o_ MORGADO


MORGADO (_com um papel na mo, que esconde apenas v os que esto em
scena_)

Grande novidade, prima! Grande novidade!


GONALO (_que observou tudo_)

Diverso a tempo.


D. MARIA JOANNA (_ao morgado_)

Como as do costume?


MORGADO

A mulher do Luiz Manuel que est muito mal! Perdeu j a falla.


D. MARIA JOANNA

To mal a pobre Sima!... Commendador, sr. Gonalo Mendo, venham,
venham.


MORGADO

Pde ir logo, prima. A sua refeio hade estar prompta!


D. MARIA JOANNA

Quando me diz que temos ahi uma creatura em perigo! Enlouqueceu? (_aos
outros_) Vamos... (_como lembrando-se, e detendo-se_) Sr. cadete...
qualquer dos seus soldados pde ir buscar o cirurgio  villa.


GONALO

Que monte a cavallo um dos drages: ir mais depressa.


D. MARIA JOANNA

Vamos, venham. (_Sae, e o commendador pela E._)


BOCAGE (_baixo, apressado e a Gonalo_.)

Uma nympha! uma deusa! Estou doido por ella. Tem s um defeito...


GONALO (_indicando o commendador_)

A singularidade?


BOCAGE

A asnidade, digo eu. (_Sae pelo F._--_Gonalo segue D. Maria Joanna_).


SCENA XIX


MORGADO _s, pouco depois o_ COMMENDADOR


MORGADO (_vendo-os sair, desconfiado_)

Um cadete agora!  o quartel general aqui... (_olhando em redor_)
Tardava-me j ver-me s... (_tirando o papel e examinando-o_)
Fechado!... sem direco!... E com que ancia e mysterio a Sima me
segredou... isto  sr.^a morgada... sem falta!... Que pena perder os
sentidos!... Que ser? Pois que no tem direco... (_lanando novamente
os olhos em redor_) facil  sabel-o. (_Abre, l attentamente, e acaba
com um grito de admirao_) Oh!... (_passeiando e meditando_) Quem tal
havia de dizer? (_pra como resolvendo de repente_) No ha que pensar...
Agora posso ir encommendando a sege... (_assoma  porta da E. o
commendador, sem que o morgado o presinta_) Com um segredo d'estes!...


COMMENDADOR

Que segredo, sr. morgado?


MORGADO (_sobresaltado, e guardando apressadamente o papel_)

Segredo!... (_serenando, ironicamente_) Um segredo meu, sr. commendador.


COMMENDADOR (_com o habitual sorriso entre fatuo e maligno_)

Segredos, s debaixo da terra... como faziam os romanos!

(_Cae o panno_)


FIM DO PRIMEIRO ACTO




ACTO II


Ao fundo a frente e esquina d'um quarteiro da rua Augusta, tomadas da
extremidade de uma travessa, cujos edificios esto ainda em obras.
Janellas praticaveis em dois andares. A entrada do predio pela
travessa.--Renques de marcos de pedra guarnecendo os passeios.--Toldo
cubrindo a rua.--As janellas, ornadas de armaes de damasco, e
preparadas para illuminao. Cubertores de seda e colxas da India nos
parapeitos.--O cho areiado; espadanas e murta. Faltam ainda os
lampies.

Fins da tarde. Pouca animao. Alguns transeuntes apenas.


SCENA I


BOCAGE (_ paizana, encostado  esquina da direita, com os olhos n'uma
das janellas da rua Augusta_.)--COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO
(_que veem de lados oppostos_.)

(_Durante esta scena e a seguinte,_ BOCAGE _d algumas voltas,
apparecendo e desapparecendo, mas sempre tornando ao mesmo logar e 
mesma observao_.)


COMPADRE AMANCIO (_topando-se com o outro_)

Aonde vae com tanta pressa, compadre Theotonio!


COMPADRE THEOTONIO

Ao _presepio_ da Mouraria. Quero ver se apanho ainda o Manuel Gonalves
da Ribeira das Naus.


COMPADRE AMANCIO

Trabalha hoje com os arames?


COMPADRE THEOTONIO

Entra no fim. Porqu? No vou a tempo?


COMPADRE AMANCIO

Se vae! O Manuel Gonalves tem sua graa... principalmente na scena do
diluvio, quando se queixa que perdeu o pente de derrubar.


COMPADRE THEOTONIO

Pois quando ardem as estopadas! As pulhas que elle deita aos
demonios!... Tem pilhas de graa!--Deixe-me ir que se faz tarde, e j
agora a de seis est destinada (_partindo_).


COMPADRE AMANCIO (_detendo-o_)

Que eu, c para mim, como o Tortinho da S, apesar de velho,  que no
ha... Nem o Antonio Antunes, do Bairro-Alto. Saca as palavras assim com
um tremor do buxo, o maldito, que  a gente espojar-se!--Deus o leve,
compadre. At  noite na loja.


COMPADRE THEOTONIO

No fecha hoje?


COMPADRE AMANCIO

L mais tarde.  dia de muito freguez de fra, no tem mos a medir os
rapazes, e para alguma barba, assim mais tal, preciso servir eu. Bem
sabe a roda que tenho.--Chego alli abaixo  Arcada, a comprar os Autos
da Maria Parda para o sero das pequenas, e volto j.


COMPADRE THEOTONIO

V com Deus, compadre Amancio, e at logo. (_Separam-se e sahem,
compadre Theotonio para a E., compadre Amancio para a D._--_Entram logo
tia Paschoa, e tia Vicencia vindo juntas da E._)


SCENA II


TIA PASCHOA, TIA VIGENCIA _e_ BOCAGE


TIA VICENCIA

Ih! Jesus, Deus Menino! Ainda por aqui arrastadinha, tia Paschoa! O seu
homem ainda no Limoeiro! Quer creia, quer no, estava de pedra e cal que
se tinha ja livrado. Uma pessoa estabelecida! com loja aberta!...


TIA PASCHOA

E mestre d'officio!... Um mestre de torno, que ninguem lhe leva as
tampas!...  isto, que v, tia Vicencia... Debaixo dos ps se levantam
os trabalhos... Que a culpa no  d'elle...


TIA VICENCIA

Isso sempre eu disse... Pobre homem!... No fui logo l quando sube,
porque da rua dos Remedios  Esperana sempre  um estiro. Aquillo com
a labotao do padejo,  vir uns dias por outros ao Terreiro, e no ha
tempo para mais.


TIA PASCHOA

Pois eu no sei!--Tudo intrigas do Alcaide!


TIA VICENCIA

Sim? Ora vejam! E ento como foi?


TIA PASCHOA

O Alcaide tem uma sobrinha na rua do Lambaz... Sobrinha, vamos...
sobrinha ou o que quer que , que se eu tivesse m lingua...


TIA VICENCIA

Sim, sim, no sabe a gente o que so sobrinhas d'essas!... Que mundo,
ai! que mundo, tia Paschoa!


TIA PASCHOA

Uma sobrinha toda peralta!... Sempre como em dia de cirio ou de
festa!... Quer na rua, quer em easa, capotilho de durante e baj de
escumilha, um palmito mesmo!... Sobrinha, pois no!... V que fosse
sobrinha... Estava a ir-nos todos os dias  loja, que at j eu no
andava contente, Deus me perde... Tudo era encommendar continhas,
botesinhos, coquilhos, cabos de chapeus... um nunca acabar. Mas coisa
de pagar, qual! Tanto encommendou, e tanto faltou, que o meu Francisco
por fim deixou de lhe fazer obra, e quiz obrigal-a a pagar por
justia... Justia, est bom!... Ella tinha o pae Alcaide... pae ou tio,
que eu sei l o que lhe ... Foi-n'os a casa toda assanhada... palavra
puxa palavra... Emfim, deram-n'os uma fora por injuria, e agora o
vers... Eu bem dizia ao meu homem:  Francisco, deixa... deixa. No
apertes com a moa. Agoa vertida nem toda  colhida. Mas, nada.
Pensam que s elles teem juizo, estes senhores homens! Teimou, teimou, e
aqui est. Vae j para um mez que dura este fadario. Sempre com o
mantinho aos hombros!... E Deus sabe o que durar!... E tudo em casa a
derreter-se... Os meus cordes e arrecadas, foi tempo... Dois tros de
buxo, que elle tinha comprado pelo S. Miguel... sem um n, que eram
mesmo uma perfeio... e haviam de render bons vintens... j l vo por
dez ris de nada... At uma grosa de pies, que estavam para a Senhora
do Cabo... hade crer, tia Vicencia?... a quinze ris cada um, que a bem
dizer mais custou o ferro!... E ainda se no fosse o mestre Jos
Gomes... Deus lh'o pague!... Sabe? O mestre Jos Gomes, cerieiro s
Trinas, que  juiz do povo!... Se no fosse elle nem resquicios havia j
da loja. Agora venho eu do Terreirinho das Olarias, de casa do escrivo,
e vou para o Poo dos Negros, a ver se fallo ao sr. juiz do crime do
Mocambo.


TIA VICENCIA

At hoje! Cuidei que andava a ver as ruas!


TIA PASCHOA

A ver as ruas, eu! Ai, santo Antonio e almas! No fao seno correr de
Herodes para Pilatos... E  duas peas a um, quatro moedas a outro...
Que os leve a todos trezentos... Jesus, santo nome de Jesus! Nossa
Senhora do Livramento me perde, que nem eu sei o que ia a dizer...
Cruzes, inimigo!... Mas Paschoa do Espirito Santo no seja eu, se o
Alcaide, e a beberrona da tal sobrinha, m'o no pagam mais duro que
ossos... Pesquei hontem c uma coisa... O que eu queria era fallar ao
sr. Juiz... Dizem que ha ahi uma tal sr.^a morgada, de l de cima... uma
sr.^a D. Felicia, que d assembla todas as semanas, aonde vae o sr.
Juiz...


TIA VICENCIA

Sei eu quem ... Mra s Portas da Cruz...  minha fregueza, e por
signal que me deve bons vintens. Vou l muita vez.


TIA PASCHOA

Vae? Se me arranjasse modos de fallar  morgada, para ver se ella
pedia...


TIA VICENCIA

Isso  fcil. Mas quer que lhe diga?... Se deseja que o Juiz lhe d
audiencia, e depressa, v  Esteireira... aquella que representa no
Salitre... passe por casa da madama Charles, e leve-lhe uma pea de
esguio... se no pde chegar a um rosicler de pedras.


TIA PASCHOA

Ai! Senhor!... Coisas que custam os olhos da cara!...


TIA VICENCIA

Ento  deitar o corao  larga... Deus ainda est onde estava, e atraz
do tempo, tempo vem. Eu c nas minhas afflices pego-me com a Senhora
da Purificao, rainha madrinha, que ainda me no faltou. Agora mesmo
lhe vou levar  Boa Hora uma quarta de cera, que comprei alli em cima no
Soccorro...


TIA PASCHOA (_dispondo-se a acompanhal-a_)

Vamos para a mesma banda.


TIA VICENCIA

Eu da Boa-Hora tenho de ir  botica das Portas de Santo Anto, que se
vende l uma agoa...


TIA PASCHOA

Tambem tenho de tornar ao Terreirinho. Em quanto fica na egreja, chego
eu acima e volto por l.--Teve novidade em casa?


TIA VICENCIA

Tive a minha _Guiteria_ com umas ters, que no havia tirar-lh'as do
corpo... Estava-me a enthisicar, a enthisicar todos os dias... na
espinha mesmo... Assim Deus purifique a minha alma, em como no foi se
no mal que lhe deu a Brites do Forno... Conhece?


TIA PASCHOA

Pois no conheo. No fosse ella atravessada! O tio!... E ento
porqu?


TIA VICENCIA

Contos largos. Vamos andando. (_Saindo juntas ao passo que entra da D.
um transeunte_.) E a respeito da sobrinha do Alcaide, no me disse...?


TIA PASCHOA

Paga-m'as todas, com certeza. O caso  fallar ao Juiz. Hontem ao
escurecer, tinham dado trindades no convento, vinha eu...
(_desapparecem_.)


SCENA III


BOCAGE, _e o_ TRANSEUNTE


TRANSEUNTE (_embuado, observando, descendo a Bocage, que est de novo
parado  esquina, e batendo-lhe no hombro_)

Elmano, a lyra divina
Por que razo emmudece?


BOCAGE (_voltando attonito, mas acudindo logo_)

Porque mais cala no mundo
Quem mais o mundo conhece!


TRANSEUNTE

Que tens n'esse mundo achado
Que mais assombro te faa?


BOCAGE

Um poeta com ventura,
Um tratante com desgraa.

(_Entra da E. Gonalo Mendo, de fumo no brao, e pra ao F.
observando_.)


TRANSEUNTE

Bem respondido, sr. Bocage.


BOCAGE

Bem perguntado, sr. Tolentino.

(_Nicolau Tolentino aperta-lhe a mo, e segue para a D. saindo_.)


SCENA IV


BOCAGE, GONALO MENDO


GONALO

Quizera que tivesse mais testemunhas o encontro e o improviso.


BOCAGE (_chegando-se_)

Para que?... Riam... mofavam. Dois poetas que se cumprimentam em verso!


GONALO

Effectivamente no so vulgares os cumprimentos entre poetas... e consta
que no  prodigo d'elles o sr. Bocage.


BOCAGE

No sou, porque no me inclino seno ao merito verdadeiro e superior. A
este qualquer pde inclinar-se. Raramente nos encontramos; fallamo-n'os
ainda menos; mas admiro-o e respeito-o.


GONALO

Desejara tambem que lhe ouvissem essas palavras.


BOCAGE

Porqu?


GONALO

Porque sou seu amigo. Correm por ahi, de mo em mo, copias d'alguns
improvisos satyricos... seus decerto...--Deixa-me fallar-lhe com
franqueza?


BOCAGE

To custoso  o que me quer dizer!


GONALO

A verdade amarga.


BOCAGE

Trava menos na bocca da amizade, e eu creio na sua.


GONALO

Encontro-o em occasio grave para mim. Talvez d'ahi venham estes desejos
de o prevenir e aconselhar.


BOCAGE

Ainda agora reparo. De luto?


GONALO

Achei em Lisboa a noticia do fallecimento de meu irmo.


BOCAGE

Sinto!... (_apertando-lhe a mo_.) Sinto-o.--Cheguei tambem ha oito dias
do Alemtejo com licena. No sabia ainda...


GONALO

Tornou-se-me obrigao a sisudeza.--Tem um grande talento, sr. Bocage;
no lhe faltam proteces... Empregando esse talento em proveito da
patria, ser grande em pouco, e dar-lhe-ha grandeza. Se to altos dotes
recebeu de Deus, foi para honra da sua terra. Dedicar-lh'os  dever;
esperdial-os  sacrilegio. O engenho, o saber, o estro so instrumentos
que valem segundo o uso que d'elles se faz. No ha gloria maior quando
bem dirigidos; no ha mais pesada responsabilidade quando mal
aproveitados.


BOCAGE (_um pouco resentido_)

Porque me diz isso? Estou em crer que tenho aos ps um abysmo.


GONALO

E tem talvez. As suas frechas epigrammaticas promovem-lhe odios tenazes
e profundos. Quanto mais agudas forem, e mais acertarem no alvo, mais
inimigos lhe ho de suscitar. E os perigosos no so os que lhe
respondem como podem; so os que na perfidia dissimulam a vindicta; so
os que no sorriso affectado encobrem a vaidade ulcerada, e o rancor que
no perda.


BOCAGE

Quer ento que desa a humilhar-me em dissimulao egual? Quer que abata
aos ps do vicio dourado, ou da ignorancia presumida, esses dons em que
me falla? Quer que envilea a lyra fazendo-a servir aos festins dos
poderosos, como accessorio apettitoso, ou como adorno comprado?


GONALO

Quem lhe diz tal! Supe-me capaz de lhe aconselhar baixezas? Consagre a
lyra  patria, como os egregios poetas de todos os tempos, como Homero,
como Virgilio, como o Dante, como Cames... como o nosso grande
Cames... to grande e to nosso, que se tudo em Portugal acabasse, elle
s bastara para dar a immortalidade ao nome portuguez!... Faa-o que
pode. So largos trabalhos esses, so cruas batalhas tambem. No arduo
trilho achar egualmente diante de si o erro, o vicio, a vulgaridade, a
ignorancia!... mais ainda, a mediocridade!... peior ainda, a inveja!
Ter de cingir o corpo como os peregrinos, ter de affrontar o martyrio
como os apostolos. No lhe faltaro obstaculos nem dissabores. No lhe
faltaro perigos nem trabalhos. No lhe faltar a luta, a luta acerba,
continua, ardente... Mas ao cabo est a gloria, a verdadeira gloria, a
gloria infallivel ainda que tardia.--Hade seduzil-o esta!


BOGAGE

E no ser ainda servir a patria castigar os ridiculos? No faltam ahi
tambem em compensao de qualquer desgosto, os applausos para impellir,
para embriagar, para exaltar, para inspirar a musa... E a minha musa...
que lhe hei de fazer, sr. tenente?... a minha musa  toda isenes e
aventuras. No consente sujeio.


GONALO

Os ridiculos d'estes! os applausos d'aquelles! Que applausos e que
ridiculos? No valero tanto uns como outros?  para mais o seu engenho
do que para servir de desafogo a rivalidades pequenas. E diga-me: tem
certeza de ser sempre justo? No o entristecem muitas vezes esses
ruidosos applausos em recintos frequentados de ociosos? No v que
muitos glorificam nos seus versos, menos a claridade que os illumina, do
que o raio que vae ferir um mulo, ou um superior? [1]No v que
arrastando na ignominia os seus competidores, a si mesmo se apouca? No
repara que d'esse modo s favorece os baixos instinctos dos detractores
sem alma?  para isso a musa e a lyra? Applaudem-n'o! Applaudem. Mas
como? Mas porqu? Mas quem? lhe em torno de si e medite. Applaudem-n'o
enthusiasmos que depois o nauseam, applaudem-n'o paixes que depois o
envergonham. O epigramma cortante, a hyprbole sarcastica, a imagem
insultuosa, despertam na sua presena um delirio interessado, que lhe
deixa aps o vacuo e o pejo. Compare esse applauso suspeito com outros
menos estrepitosos, mas selectos, que j lhe tem grangeado obras mais
altas e mais dignas. Recorde a satisfao que lhe fica na consciencia,
quando arremessa o vo s regies luminosas onde fita os
astros!--Falla-lhe pela minha bocca a sympathia, e a experiencia. Somos
camaradas; sou seu amigo, repito-lhe... sou ainda mais amigo d'esta
terra, de que deve ser, de que pde ser ornamento e brazo... e que o
precisa, creia... que precisa de todos os grandes esforos para a
levantar da ameaadora decadencia.--Est nas primeiras impresses e nos
primeiros annos. Tem aberta a carreira das armas. Com o seu nascimento,
com a sua capacidade, com a instruco e o estudo... qualquer outra que
prefira se lhe pde abrir.  por isto,  para isto que o importuno...
Nicolau Tolentino  official de secretaria... Manuel de Figueiredo
tambem... Ahi em dois poetas!...


BOCAGE (_interrompendo arrebatado_)

Manuel de Figueiredo, poeta!... Um moralista seccante, que se julga
innovador por imitar de longe os antigos!... O Tolentino, sim... esse ha
de ficar para a posteridade!... (_Pausa, longa reflexo_. _Gonalo
observa-o attentamente_. _Levanta depois o rosto e contina com
progressiva exaltao_.) Oua-me tambem, sr. Gonalo Mendo. Ver que
avalio os seus affectuosos conselhos... E se alguma vez lhe disserem que
Bocage  uma indole pertinaz e intractavel, poder affirmar como a
austeridade e a razo o acharam docil.--Oia-me. No  novo para mim o
que me diz...


GONALO

Ahi ver!


BOCAGE

Tem-m'o repetido a meudo a consciencia.

Oh! no mais que momentos inebria
O sordido clamor da turba sordida!...

Perdoe, involuntariamente se me formulou em, verso a ida.


GONALO

Prodigiosa faculdade! E quer desbaratal-a?


BOCAGE (_proseguindo_)

No pense que estimo a plebe das admiraes... tanto como admiro as
magras rimas de ccos versejadores!... No meio das mais estimulantes
palestras, quando  maior o alarido e a matinada, quando egualmente
espumam os copos e os labios, quando se condensa o vapor que tolda a
casa e o crebro, quando os motejos se crusam como settas, e os
paradoxos refervem como vagas, que de vezes no fico eu mudo, absorto,
sem escutar, sem perceber, sem discernir o que tenho diante!...  que se
me desprende a alma para cima!... Tenho os olhos e o espirito nos
espaos radiantes, d'onde se encara o infinito e o futuro!... Ouo o
hymno triumphal na bocca dos povos reconhecidos!... Enfeixo nos braos
as palmas das naes!... Cinjo na fronte os louros perpetuos!... Vejo as
edades curvadas aos ps d'um monumento coroado de perennes
resplendores!... Esta e s esta  a gloria, digo... esta e s esta...
eterna primavera, eterna aurora... eterna recompensa!


GONALO (_enthusiasmado_)

E quem tal sabe conceber no ha de saber realisal-o!


BOCAGE (_tristemente, estendendo-lhe a mo_)

D-me que o mundo se povoe de juizos como o seu, de almas como a sua...
e ser possivel, e ser facil... Como elle , no sei se algum dia terei
fora para tanto... Por ora, no... Resgate a minha franqueza a minha
fragilidade... O menor abalo que d'esse extasi me atire  realidade, mal
acerto com a vista na nullidade soberba, na villeza prospera, na
abjeco remunerada, na astucia triumphante, na hypocrisia
omnipotente... n'esse ascoroso acervo das miserias humanas... todo se me
revolve o corao... e sae-me pela bocca em strophes irritadas, que a
amargura envenena, que a indignao inflamma! Quero, e no posso, conter
esta furia, represar esta onda, que se entumece, e trasborda com o
temporal de dentro!... Depois... Nenhuma fraqueza lhe dissimulo...
Depois, as palmas, os bravos, as acclamaes, o frmito das turbas, que
pendem da minha voz e a minha voz avassalla, todo este rumor contagioso
e irresistivel...  novo excitante  febre,  maior alimento ao
incendio, que lavra, que lavra, que se desata em labaredas accumulando
as cinzas... que investe ao acaso... que devora quanto encontra... que
hade acabar por me devorar tambem!


GONALO

Veia exuberante! Seiva excessiva! Torrente impetuosa!--Os annos o
corrigiro.


BOCAGE

No sei... Nasci assim. Acho-me assim ao entrar no mundo. Corrige-se
isto?


GONALO

Quando se no corrige, mata. E o sr. Bocage ha de viver.--Desculpe se o
turbei nas suas contemplaes... No pude resistir... posto saber o fito
d'ellas.


BOCAGE (_sorrindo_)

Das minhas contemplaes de agora? Duvido (_passeiando com Gonalo_).


GONALO

Quer que o v perguntar ao honrado mercador Manuel Simes, que mra
n'aquelle primeiro andar, para onde entrou haver uma hora, com a sua
interessante afilhada a sr.^a morgada D. Felicia? Bem se v que est
todo no seu enlevo... Tem por mysterio o que se passa nas ruas!...
Presumo que no anda ahi por causa da morgada velha... (_Bocage
protesta_) Logo vi.--E a viuva, diga-me? Quando ha quinze dias nos
encontrmos na Torre da Palma parecia meio apaixonado.


BOCAGE

Apaixonado de todo.


GONALO

Que fez ento a essa paixo subita?


BOCAGE (_gracejando_)

Foi como veio... subitamente. V que no est na minha mo dissimular,
e aproveita-se.


GONALO

Se pensa...


BOCAGE

No: desculpe.--Sei que no  curiosidade indiscreta. E a quem melhor
podia abrir o corao? Como hei de eu dizer-lh'o? A viuva  cheia de
attractivos... merece todas as adoraes... (_malicioso_) No  esta a
sua opinio, sr. tenente?


GONALO

Ainda que o seja? Pouco vem ao caso.


BOCAGE

Reservas commigo! Vamos, confidencia por confidencia. Confesse que no
deita luto pela morte da minha paixo da Torre da Palma.


GONALO (_sriamente_)

A sr.^a D. Maria Joanna Galvo nunca me deu direito para me offender de
qualquer preferencia sua.


BOCAGE

Podia no se offender, e custar-lhe. E no seria da minha parte loucura
constituir-me rival do unico amigo verdadeiro que ainda encontrei?...
(_Movimento de Gonalo_.) Oh! no, no cuide que lhe quero forar os
segredos... no pense que foi generosidade... J que me obriga,
digo-lhe tudo. Peo-lhe s que no seja severo. Ou venha dos annos ou do
temperamento, o amor em mim  egual  musa, compraz-se no improviso.
Rebenta em chammas, mas a chamma fulge e esvae-se como relampago...
Depois... outra fraqueza ainda...  to superior s damas que tenho
conhecido, a sr.^a D. Maria Joanna Galvo!... to superior pela graa
senhoril, pelo tracto do mundo e cultura do espirito!... (_Pausa_.)
Encontrei-a, logo que cheguei, n'uma assembla, em casa de sua tia D.
Felicia onde me apresentaram... Ferviam os motes, e eu calado. Passei
quasi todo o tempo escutando-a e reflectindo.


GONALO

Foi um estudo ento?


BOCAGE

Um exame de consciencia. Intimida aquella distinco, subjuga aquella
formosura, ordena respeitos aquella voz. Revoltou-se-me o corao contra
similhante imperio... Se abomino todo o captiveiro!... Estava alli
tambem, como esquecida, uma flor modesta, a afilhada da sr.^a D.
Felicia. Com ser mimosa sua, era visivel a inferioridade da condio.
Como, porqu, no sei... Para essa me voou a alma... Admira-se?.... No
posso supportar a ida da dependencia, nem sequer em amor.  dama
opulenta e festejada que podia dar o pobre cadete, o poeta novio? Ainda
que me correspondesse... esmola seria a sua mesma preferencia. Com a
donzella humilde succede o contrario...  ella a favorecida, e eu o
generoso.--Prefiro estes amores... no tolero outros!


GONALO (_olhando para a E._)

Tem muito empenho em se encontrar com o mercador?


BOCACE

Porqu?


GONALO

Porque se no tem, podemos ir aqui de roda dar uma volta at  esquina
da Inquisio, e tornar depois.


BOCAGE (_olhando tambem_)

 elle, e no sei quem mais. (_a Gonalo_) Com todo o gosto...
(_indicando a janella_) Como v, as minhas contemplaes no eram bem
succedidas... no tinham ainda objecto.


GONALO (_andando_)

Logo tero. As estrellas levantam-se com a noite!


BOCAGE (_saindo com elle pela D., ao passo que entram da E. Manuel
Simes e Francisco_)

Invade tambem os dominios da poesia, o sr. tenente! (_Saem_.)


SCENA V


MANUEL SIMES _e_ FRANCISCO PEDRO SIMES


MANUEL SIMES

Que espantos que no vae agora fazer a sr.^a Monica!... Se nem me
lembrou dizer-lhe nada!...


FRANCISCO

E est boa a minha tia Monica?


MANUEL

Toda em cuidados pelo seu menino, pelo seu Francisquinho, que has de ser
sempre para ella o Francisquinho, como ha vinte e trez annos, quando o
Sebastio foi para a Bahia, e tu ficaste tanto monta no bero... As
raparigas e a caixeirada no te chamam j seno o sr. doutor... Ella...
sim!... Nem annos nem Coimbras lhe persuadem que o seu Benjamim est um
homem... (_revendo-se n'elle_) e d'aqui a pouco um sr. doutor devras...
no  assim?


FRANCISCO

Este anno ainda, espero.


MANUEL

Mas v l, rapaz... No te sirva de atrazo esta vinda a Lisboa! Jornadas
para c, jornadas para l... sempre  tempo perdido!...


FRANCISCO

Sendo por poucos dias...


MANUEL

Ser. Pois que!... No pensei n'isto quando te escrevi.--Recebeste a
minha carta a tempo? Recebeste, est visto. Pui-te esperar  estalagem,
por me parecer que no faltavas... mas como no respondeste...


FRANCISCO

Mandei logo buscar os machos, e puz-me a caminho. A resposta era
obedecer. Que novidade foi esta, pae?


MANUEL

Estava tremendo no chegasses... (_em voz baixa_) Vem esta noite c teu
padrinho.


FRANCISCO

O sr. marquez!... a nossa casa!


MANUEL

 nossa propria casa. Ser o primeiro marquez que vem a casa de teu pae?


FRANCISCO

 verdade... o sr. marquez de Pombal era tambem padrinho de meu irmo, e
tenho-lhe ouvido que...


MANUEL

Que me visitava em pessoa, elle mesmo... (_olhando em redor_) o grande
marquez... E no foi s isso... De vez em quando mandava-me parar a sege
 porta da loja... (_esquecendo-se_)  que tambem no torna c homem
como aquelle... (_caindo em si e olhando em volta_) que este no 
somenos, em certas coisas! Vem, vem hoje... Podia l deixar de lhe ter
c o afilhado! Vem hoje... hoje, em vespera de Corpo de Deus, faze ida!
E toda a gente pelas janellas!... E o que se hade fallar no
arruamento!... E o que ahi no vir de encommendas!--J mandei buscar
mais um caixeiro.


FRANCISCO

Que no seja como o Z Braga ou o Zeferino... Lembram-me ainda.


MANUEL

O Z Braga estabeleceu-se na terra... e vamos, tem queda para o
negocio...  nosso correspondente.


FRANCISCO

Ah!


MANUEL

O peralvilho do Zeferino... esse l foi para esses Brazis... No sae
d'alli coisa de geito, vero... Confundia-me sempre o lemiste com os
droguetes, e o panno jardo com as baetas!... Deu em fazer de faceira...
j de chapeu  Anastacia... sempre em touros e presepios... S lhe
faltavam os polvilhos. Deixal-o. C me tenho remediado com outros dois
novos, e maranos no faltam.--Ai! ns aqui a fallar, a fallar, e l em
casa tudo cheio de gente!... A Monica estou que perde a cabea!... No
me lembrava com o gosto de te ver, e de te fazer beijar a mo ao sr.
marquez... que elle sempre hade puxar por ti!--Anda, rapaz, vamos...
vamos!... (_em acto de partir_.)


FRANCISCO

Tudo cheio de gente l em casa!  novidade... E quem est? No me hei de
apresentar n'este trajo de jornada, se so pessoas de respeito.


MANUEL (_voltando_)

Tens razo. No vieras tu de Coimbra!... Com isto sempre me embalaram:
ou armas ou letras. Quem est?... Has-de ir mudar de fato primeiro,
has-de. Esto pessoas de considerao, e espero mais. Vers... Sujeitos
de peso e de porte, que me honram com a sua amizade... (_comsigo_) e
precisam do meu dinheiro... Pois n'um dia d'estes, e vindo c teu
padrinho!... Est a sr.^a morgada D. Felicia, que essa  j conhecimento
velho... est...


FRANCISCO (_alvoroado, vivamente_)

E a afilhada?


MANUEL

E a afilhada... bem sabes que nunca a larga... Est a afilhada, e vem
tambem uma sobrinha, que chegou de Frana ha dias!


FRANCISCO (_em acto de partir_)

E ns aqui a perdermos tempo.


MANUEL (_detendo-o_)

Espera, espera. Que fogo te deu mal te fallei na morgada! Dar-se-ha
caso... (_severo_.) Francisco?


FRANCISCO (_timidamente_)

Meu pae.


MANUEL

Esse alvoroo no  natural!


FRANCISCO (_como acima_)

Est fazendo falta de certo, pae.


MANUEL

J vamos. (_Comsigo_.) A morgada no pde ser... a sobrinha no a viu
ainda... Querem ver... (_com inteireza_) Sr. Francisco Pedro, forma-se
este anno. D'aqui a tempos ser juiz de fra, desembargador, quem
sabe?... Conversei j a seu respeito com o meu amigo Joo Pires...
Conhece? O sr. Joo Pires,  Magdalena, que traz dois navios para a
India, e tem uma filha que no anda por assemblas, mas leva quarenta
mil cruzados de dote.--Quando pensar em casar,  a noiva que lhe convm.


FRANCISCO (_consternado_)

Oh! meu pae! Por quem  no disponha assim do meu corao!


MANUEL

Do seu corao! A que proposito vem o seu corao? Quer dizer que olhou
para a afilhada da sr.^a D. Felicia? Ignora que  filha d'uma criada?


FRANCISCO

Mas educada com tanta estimao! O amor no mede distancias.


MANUEL

Ensinaram-lhe isso em Coimbra?... No o tirasse eu do balco!...
Felizmente seu pae no dorme. Perca d'ahi o sentido. J lhe disse o que
lhe convinha. Escusa de se canar... no costumo repetir as coisas duas
vezes!


FRANCISCO

No me permitte uma supplica ao menos?


MANUEL

Com tanto que seja breve.


FRANCISCO

Morro por ella... (_hesita_).


MANUEL

Se me no diz mais...


FRANCISCO

E dei-lhe palavra de casamento.


MANUEL

Deu-lhe palavra... (_furioso_) Porqu? Para qu?... Sem me consultar...
sem consultar seu pae!... sem saber se lhe fazia transtorno!... Viu-se
j!... (_fitando-o_) Estes rapazes!... (_mais brando_) Com que ento
deste-lhe palavra? (_Gesto affirmativo de Francisco_.) Pois se lh'a
dste, cumpre-a.--Um Simes nunca faltou a ella!


FRANCISCO (_transportado_)

Consente!... Consente?... Como lhe hei de agradecer, meu pae!


MANUEL

No  o que eu queria, e custa-me... No te mandei a Coimbra para te
empregar na filha d'uma criada!... Mas na nossa casa a palavra 
escriptura. Pagamos  vista... sempre, e tudo:  o nosso brazo!


SCENA VI


OS DITOS _e o_ MORGADO


MORGADO

Ora at que o encontrei, sr. Manuel Simes. Procurei-o hontem, antes de
hontem, esta manh...


MANUEL (_interrompendo-o seccamente_)

Sei, sei... Bem sei.


MORGADO

Se me dsse licena logo...


MANUEL

Tenho gente em casa, tenho muita gente... Hade-me dar licena.--Vamos,
Francisco, vamos.


SCENA VII


MORGADO _pouco depois o_ COMMENDADOR


MORGADO (_desesperado e ameaador_)

Se fra da nobreza... e se no fra a necessidade!...


COMMENDADOR (_que tem entrado_)

Que  isso, sr. Morgado? Quem o fez agastar?

(_Durante esta scena os creados acendem de dentro as illuminaes das
janellas_.)


MORGADO

Quem hade ser? Esta gente de negocio que na verdade...


COMMENDADOR

No tem uso do mundo,  sabido... cana-se de dar dinheiro, e nem sempre
se lembra das jerarchias!... Que quer? Na opinio de Cicero o dinheiro
faz todos eguaes... e l resa o nosso rifo: negro  o carvoeiro,
branco  o seu dinheiro!!


MORGADO

Mas quem lhe diz...


COMMENDADOR

Que precisa de dinheiro? O sr. Morgado precisa sempre... Que o mercador
lh'o recusa? Encontro Manuel Simes, e acho-o enfadado. No  preciso
ser astrologo para adivinhar. Excellentes astrologos so os olhos... que
sabem ver. Bem o disse o poeta Manilio, e melhor o explica Julio Firmico
Materno, contemporaneo de Constantino Magno, nos oito livros que
escreveu sobre o assumpto.


MORGADO (_meio aborrecido_)

Oito? Admiro-lhe a paxorra.--Mas, vamos, sr. Commendador... Esto j
accendendo as luminarias. D'aqui a pouco enche-se ahi tudo de
gente.--Que noticias?--Sabe que morreu Salvador Teixeira, o irmo mais
velho de Gonalo Mendo? Ficou senhor da casa agora o tenente, e...


COMMENDADOR

E... receia o competidor.


MORGADO

Receial-o! Porqu? Em qu? Um homem como eu no teme nenhum rival...
Minha prima  senhora de gosto e de juizo... E em ultimo caso tenho modo
infallivel de supplantar o tenente... (_intencionalmente_) ou qualquer
outro.


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Infallivel!


MORGADO

Infallivel.


COMMENDADOR

Contra qualquer?


MORGADO

Contra qualquer.


COMMENDADOR

No dizer de Plinio poucas coisas se pdem julgar infalliveis.--Tem
estado com sua prima?


MORGADO

Todos os dias.--Ainda antes de hontem em casa da morgada da Torre da
Palma... ainda hontem a ver correr parelhas e alcanzias em Campolide.


COMMENDADOR

Ento para que pergunta noticias?


MORGADO

Para saber o que se diz.--Posso contar com a sua amizade?


COMMENDADOR

Como eu com a sua.--Amizade de obras mais do que de palavras, como a
quer Tito Livio.


MORGADO

Tambem... commigo pde o commendador contar para a vida e para a morte.
O brao e a espada do morgado da Gesteira esto sempre ao seu dispor.


COMMENDADOR

Deseja saber o que ha?


MORGADO

No se me dava... para afugentar de vez o primeiro que se atreva a
galantear abertamente minha prima.


COMMENDADOR (_malicioso_)

Ter que fazer.--Veja o que Propercio diz da sua Cynthia... Pde fazer
calar os requebros dos pintasilgos  aurora?


MORGADO

Pintasilgos, diz bem. Principalmente o cadetinho... o tal sr. poeta de
loas, ou das duzias... Ia-me saindo das medidas na casa da Torre da
Palma. Se no fosse a morte quasi repentina de Sima!... J o encontrei
por ahi e no o perco de vista. No que minha prima possa olhar para
similhantes figuras...


COMMENDADOR

Eu sei, morgado. Elle  de boa gente, e as damas... Emfim a respeito
d'esse, descance... Traz o Sentido n'outra parte.


MORGADO (_avidamente_)

Em quem?


COMMENDADOR

Ainda no reparou?... Na afilhada de D. Felicia.


MORGADO (_desdenhoso_)

Ah!... (_como reflectindo_.) Mas o filho do mercador?  correspondido, e
est ahi.


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Era correspondido... Ver como os dois se arrufam, como o poeta fica e 
acceito, como... Isso corre por minha conta.


MORGADO

Por conta do commendador! (_desconfiado_.) E com que interesse?


COMMENDADOR

Interesse? Nenhum... Amizade... Desejo de lhe ser util... No queria
afugentar os galanteadores de sua prima?... Para isso vale mais a
astucia do que a fora, creia. O mestre das rhetoricas ensinava a
Herennio que a verdadeira prudencia era a sagacidade, e como diz
Cornelio Nepote, mais poude a destreza de Themistocles do que as armas
da Grecia.


MORGADO (_pensativo_)

No  fra de raso... ainda que nada d'isso vale uma recarga a tempo
como a ensina o alferes Theotonio Rodrigues, ou uma flanconada como as
queria o grande Montenegro. (_mirando-o de revez_) Com que o poeta
desistiu j de minha prima?


COMMENDADOR (_sorrindo, e do mesmo modo_)

Respondo-lhe por elle.


MORGADO

O tenente, esse...


COMMENDADOR

Faz-se desistir.


MORGADO (_como acima_)

E depois?


COMMENDADOR

Depois... no ha rivaes que affrontem o sr. morgado. (_Cresce o numero
dos passeiantes_.--_Ruido dentro_.) Ahi vem j o rancho dos poetas.
Conhece-se pela algazarra.

(_Principiam a apparecer s janellas algumas senhoras de gala, e
toucadas_.)


MORGADO (_olhando para as janellas_)

J as _madamas_ comeam tambem a apparecer.


COMMENDADOR

Vou n'um instante a casa do mercador para lhe fazer a vontade. Volto
logo.


MORGADO

Encontra l minha prima.


COMMENDADOR

E no vem?


MORGADO (_despeitado_)

O sr. Manuel Simes no me fez a honra de me convidar.


COMMENDADOR

Que dissabor lhe ha de ser ter sua prima alli e ficar de fra! Que quer?
Diogenes, de Synope, comparava as riquezas s plantas... que nascem em
despenhadeiros! (_Sae tomando  esquina ao F._)

(_Entram logo Bocage, 1.^o e 2.^o poetas, companheiros, e Gonalo Mendo,
da E._)


SCENA VIII


BOCAGE, GONALO MENDO, 1.^o _e_ 2.^o POETAS


GONALO (_a Bocage, despedindo-se e indicando as janellas de Manuel
Simes_)

Boa sorte e propicios amores!... Da inspirao no lhe fallo: nunca lhe
falta, e hoje menos lhe faltar.


BOCAGE (_meio desconfiado_)

J no quiz entrar commigo um instante no Nicola, e agora deixa-me!


GONALO

 noite de festas, e est ainda mal fechada a sepultura de meu irmo!


BOCAGE (_caindo em si_)

Tem raso.


MORGADO (_chegando-se_)

Sube o desgosto que teve, sr. tenente Gonalo Mendo... Muitos
parabens... (_corrigindo-se_) dou-lhe os sentimentos, quero dizer... Seu
irmo, tambem era doente... Quantos annos tinha?... Boa casa!...  uma
boa casa, a casa de Mendl, dizem todos. E de mais a mais com os coutos
de Sandim!... Deixou uma grande casa!... O sr. Gonalo Mendo
naturalmente larga a vida militar.--Com uma casa d'aquellas!


GONALO (_com inteireza_)

Sr. morgado da Gesteira, a minha familia foi sempre uma familia de
soldados. Alli cumprir a lei e servir a patria no  especulao, 
preceito. Se meu irmo por fraco e enfermo no poude satisfazer a
obrigao, por elle a satisfazia eu. Hoje, que me falta, essa obrigao
fez-se duplicada:  a d'elle e a minha!--Creio que o sr. Bartholmeu
Tojo no v no vinculo seno a renda. A mim ensinaram-me de pequeno a s
considerar no patrimonio dos meus, como coisas superiores, o dever e o
nome!--Adeus sr. Bocage! (_Sae_.)


MORGADO

E ento! Ds que est senhor da casa parece que traz el-rei na barriga!


BOCAGE (_fitando-o_)

Engana-se. Tem o corao no seu logar... e no succede o mesmo a todos.

(_Signaes de approvao nos circumstantes_.)


MORGADO (_ameaador_)

Isso entende-se commigo?


BOCAGE (_com obsequioso sarcasmo_)

De nenhum modo: era suppor-lhe corao!

(_Riso nos circumstantes_.)


MORGADO (_com satisfao_)

Logo vi que se no podia entender commigo.

(_retira-se magestosamente, e sae pela E._)


SCENA IX

BOCAGE 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, 1.^o _e_ 2.^o MANCEBOS,
DAMAS, POVO

(_Vo-se povoando mais e mais as janellas; augmenta na rua a
concorrencia_.)


1.^o MANCEBO

Sr. Bocage, sr. Bocage!


BOCAGE (_ainda agastado da altercao com o morgado_)

Que ?


1.^o MANCEBO

Fez-me o favor de limar aquellas decimas, que lhe entreguei o outro dia?


BOCAGE

Pois no!


1.^o MANCEBO

Queria ver se as recitava esta noite... Tem-n'as ahi?


BOCAGE

O que?


1.^o MANCEBO

As minhas decimas.


BOCAGE

Como hei de ter, se nada sobrou d'ellas.


1.^o MANCEBO (_pasmado_)

No sobrou nada?


BOCAGE

Absolutamente nada. Ficou-me tudo na lima!

(_Riso nos circumstantes; o 1.^o mancebo mette-se na turba corrido_.)


2.^o MANCEBO

Sr. Bocage, um obsequio?


BOCAGE

Que temos?


2.^o MANCEBO

Faz annos, depois d'amanh, um tio que eu tenho...


BOCAGE

A novidade seria fazer annos um tio que no tivesse.


2.^o MANCEBO

Compuz dois sonetos...


BOCAGE

Dois d'uma assentada! J vejo. Monta um Pegaso manhoso que lhe desandou
uma parelha de...


2.^o MANCEBO (_ingenuamente_)

Isso. Esto aqui os sonetos. S lhe peo que me diga qual  o melhor...
para o offerecer ao tio...


BOCAGE

Ao sr. seu tio... que vocemec tem.--Deixe ver. (_2.^o mancebo
entrega-lhe um papel de dois que tem na mo_.--_Bocage chega-se  luz
das luminarias, e l attentamente_. _Em quanto l, o 2.^o mancebo
responde aos poetas que parecem divertir-se com elle_. _Depois de ler,
restituindo-lhe o papel e em tom decidido_.) Leve-lhe o outro.


2.^o MANCEBO

O outro! Mas ainda no viu o outro.


BOCAGE

 o mesmo... leve.


2.^o MANCEBO

Porqu?


BOCAGE

Porque no pde ser peior do que esse.

(_Riso dos circiumstantes; o 2.^o mancebo sae tambem corrido_.)


SCENA X


BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, DAMAS, POVO


2.^o POETA

Est de veia hoje, o nosso cadete.


BOCAGE

Menos isso.--O cadete ficou onde ficou a farda. Aqui est s o poeta.


1.^o POETA (_ao 2.^o_)

Condemnado como reu de lesa Arcadia. O Bocage tem razo. Ser cadete no
regimento; entre os pastores do Pindo  Elmano, o esperanoso Elmano,
como tu s Alcino, como eu sou Lereno. A propsito, falta-nos Albano.

(_Bocage parece cair em profunda meditao_.)


2.^o POETA

Foi jantar a casa d'algum fidalgo.  o seu costume. Mas vem de certo.
Disse-me que vinha.--Agora nego que fosse reu de lesa Arcadia tratando
Elmano pelo grau militar.


1.^o POETA

Como provas essa?


2.^o POETA

Muito facilmente. Qual  n'este caso o distinctivo do vale e do soldado?
Uma estrella. O mesmo em ambos. Cada qual tem a sua. Logo...
(_declamando_)

O Appollo, e o Marte que zellas,
No se afastam grande espao:
Tem um a estrella no brao,
Outro o brao nas estrellas!


1.^o POETA

Fra o seiscentisto. Sempre te achei queda para os conceitos alambicados
e antitheses retorcidas! Essa vem na _Phenix renascida_, ou nos
_Desmaios de Maio_, aposto!--Bocage... (_reparando e tomando-lhe o
brao_.) Bocage!... Em que pensas?... Que fizeste  picante jovialidade
to bem estreada, e que tanto promettia para esta noite?


BOCAGE (_como despertando_)

Que?... Eu?... (_comprehendendo_.) Ah!... Jovialidade lhe chamas? No
era, no. Era raiva, era furia, era...


1.^o POETA

Contra uns pobres rapazes! Deixa versejar a vadiagem. Canar depressa.
No vale a indignao.


BOCAGE

Isso dizem todos, e d'isso sobra foras  mediocridade e a vilania, que
so gemeas. Uns pobres rapazes! Hoje nescias vaidades apenas... manh
calumniadores invejosos!... Deixae-os medrar, deixae; e queixae-vos
depois dos damnos que vos fizerem! E ha peiores ainda... Peiores e mais
nocivos so os desalmados, que nem adivinham a alma, e d'esse aleijo
moral fazem a bitola de todos os caracteres!... Que me ho de apparecer
por toda a parte vilezas!... No reparem, amigos... So restos da clera
em que me deixou esse homem, que at na morte v o interesse sem lhe ver
as lagrimas!... Quando estas ignominias me surgem diante, sou como
aquelle tyranno antigo, que desejava um s corpo  humanidade, para a
degollar d'um golpe!... Quizera tel-as tambem todas congregadas e
encorporadas debaixo da mo, para lhes arrancar a mascara hypocrita,
para as retalhar com o ltego justiceiro, para apresental-as como so,
hediondas e infames, perante a sociedade que illudem ou
pervertem.--Desculpem a rajada. Vamos ao que importa. (_olhando para as
janellas do mercador, ainda desertas_) Ficamos aqui?


1.^o POETA

Alcino tem uma Anarda alli n'um segundo andar do quarteiro immediato, e
ella provavelmente traz-lhe mote preparado. Queres vir?


BOCAGE (_com os olhos nas janellas_)

Com tanto que voltemos depressa!


2.^o POETA

Percebo. Temos tambem por c pastora! Uma Armia, uma Isbella, uma
Anfrisa?


BOCAGE

Melhor do que isso. Uma esperana!

(_Gritos, tumulto fra  E._)


2.^o POETA

Ha novidade, ao que parece.

(_Grande tumulto  E. fra_. _Gritos_: Aqui d'el-rei! Agarra! _O povo
afllue quelle lado_.)


BOCAGE

 desordem?


1.^o POETA

O costumado.


VOZES (_no povo_)

Arreda! arreda!

(_Reflue tudo sobre a D._--_Bocage,  frente dos companheiros, impellido
pela turba, acha-se na extremidade D. quando entra, correndo d'este
lado, Alcaide, e a ronda de quadrilheiros e paisanos_.)


SCENA XI


ALCAIDE, BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, MORGADO (_que entra
esboforido da E._) DAMAS, POVO.


ALCAIDE (_topando Bocage, e pondo-lhe uma pistola aos peitos_)

Da parte da ronda--quem ? d'onde vem? para onde vae?


BOCACE (_serenamente_)

Sou o poeta Bocage,
Venho ha pouco do Nicola,
E vou para o outro mundo
Se me dispara a pistola!


POETAS _e_ COMPANHEIROS

Bravo! Bravo, Bocage!


ALCAIDE (_deixando-o_)

Ah!  o Bocage! Que foi ento? Quem gritou?


MORGADO

Foi um chibante de cigarro que deu tres facadas n'um moo das
carvoarias, que ia cantando a _Ffa_ alli para a banda da Bitesga!...
Ah! que se o apanho a geito!... (_esquiva-se para a D. logo que o
Alcaide interroga_.)


ALCAIDE

Quem fallou para ahi?... (_ ronda_) Depressa, anda... Venham as
lanternas, que nas travessas est escuro como breu. (_Os paisanos
adiantam-se com as lanternas, mostrando certa repugnancia_.) Mais
depressa... (_aos quadrilheiros_) Para a frente vocs. (_Estes obedecem
com promptido, e passam velozmente para a E._--_O Alcaide continua para
este lado como fallando a um dos quadrilheiros que passou_.)  Gaiola,
bota cordo l para diante... agarra tudo!... O sr. Corregedor do Crime
mora ahi para cima; elle que os joeire!... V, v.

(_Os grupos abrem vivamente passagem ao Alcaide e aos mais da ronda, que
saem apressados pela E._)


SCENA XII


OS DITOS, _menos o_ ALCAIDE _e_ RONDA, _depois_ UM CEGO (_que vende
impressos_)

(_Apenas o Alcaide sae, ouve-se tambor e gaita de folles para a D._--_O
povo grupa-se para esse lado_.)


2.^o POETA

Cirio agora, querem vr!


1.^o POETA (_observando_)

No. So os folies do Espirito Santo com a bandeira, e o ermito da
Senhora do Monte com o Embrechado. Metteram-se para a outra travessa.


BOCAGE

Por isso esto todos nas janellas dos lados.


2.^o POETA

Com similhante inferneira, bem se ha de poetar agora.


O CEGO (_passando ao F. e apregoando em cantilena_)

Comprae, meninas comprae,
Por dez ris, ou meio tosto,
_O Testamento da Velha_
_Ind'antes da serrao_;
Ou as obras afamadas,
Que ninguem comprou em vo,
Da Chrystaleira de Coimbra,
Coisa de satisfao.


BOCAGE (_rindo e como terminando a trova do cego_)

Temos rival pela pra:
V, ao outro quarteiro


1.^o e 2.^o POETAS (_galhofeiros_)

V, vamos. (_Saem os tres_.)


SCENA XIII


O CEGO, _logo depois_ TIA VICENCIA. _e_ TIA PASCHOA, _logo depois_
COMPADRE THEOTONIO _e_ COMPADRE AMANCIO. (_Movimento_. _Homens
apregoando caramello_. _Pretas apregoando alcomonia, etc_.)


CEGO

Comprae, meninas, comprae,
Por dez ris ou meio tosto...

(_Perde-se-lhe a voz na distancia_.)


TIA VICENCIA

Bem lh'o cantava eu, tia Paschoa! Qual juiz, nem meio juiz! No lhe poem
a vista em cima! A Esteireira  que  de desengano. Que eu no lhe digo
isto para me esquivar... Se quer que pea  morgada, apparea manh...
manh no,  dia de festa... apparea depois de manh, e l iremos...
Ver que me no diz que no...


TIA PASCHOA

Vou... Sempre vou... Se por ahi se arranja o negocio  uma boa dse que
poupo, e para quero est j to arrastado...


COMPADRE AMANCIO (_entre as dez e as onze, capote a um lado, entrando
com compadre Theotonio_)

Safa!... Cuidei que me filavam tambem!


TIA PASCHOA

Se no se fizer nada, ento tomo o seu conselho, e vou  Esteireira...
Por fim de contas so conhecimentos que se tomam... Ah! meu rico Santo
Antonio! sou capaz de vender a camisa do corpo s para metter pelo cho
abaixo aquelles marotos que nos desgraaram... (_Saem pela E.
conversando_.)


SCENA XIV


COMPADRE THEOTONIO, COMPADRE AMANCIO (_observando para a E._) _pouco
depois_ MORGADO _e_ COMMENDADOR. _Grupos rareados_.


COMPADRE THEOTONIO (_tambem com um gro na aza, mas dando-lhe para
taciturno, e preoccupado, e servindo-se com frequencia de um cheirador
de simonte_)

Prenderam o homem?


COMPADRE AMANCIO

A ronda vae apanhando a torto e a direito, mas o homem, sim! Metteu-se
para a rua das Hortas, salta n'um pulo a S. Roque, e de l  Cotovia...
Depois... boas noites... (_puxando, endireitando o capote, e mirando-o_)
Por um triz se no vae d'esta feita, o meu cobre-miseria! E o seu no
ficou tambem pouco derreado, compadre Theotonio!


COMPADRE THEOTONIO

Leve a fortuna os apertes, compadre Amancio.


COMPADRE AMANCIO

Olhe se no vae na ronda o mestre Joaquim da Ferraria... (_olhando em
redor_) Est isto por aqui s ainda! (_Ouvem-se fra  D. palmos e
applausos_.) Que ? (_Vae vr_) Ah! so os poetas que andam pelo outro
quarteiro... Vamos at l, compadre?... Quero dar o meu voto a respeito
do Bocage, que ainda no ouvi... Tem-me ido j umas poucas de vezes
barbear-se  loja, e dizem que na versaria pe tudo a uma banda!


COMPADRE THEOTONIO

C por mim... o Jos Daniel!


COMPADRE AMANCIO

No digo que no, mas vista faz f. Vem?

(_Entram da D. o morgado e o commendador_. _Formam dois grupos
distinctos_.)


COMMENDADOR

Onde ia to assustado? No me via?


MORGADO

Assustado eu!... Ia desesperado... O tal sr. cadete, o tal sr. poeta!...


COMMENDADOR

Disse-lhe alguma?


MORGADO

A tanto no se atrevia elle... Ainda agora o fiz eu tornar atraz... Os
modos... os modos  que me do a perros... Tomra achar azo de lhe
pregar uma boa vaia, ahi diante de toda a gente.


COMMENDADOR

Havia de lhe doer... mas isso  antes desforra de mulher que de homem...
A verdadeira vingana quer-se mais segura. No conceito de Seneca toda a
soberba  injuria, e Plauto ensina como as injurias se pagam... (_Ficam
conversando_.)


COMPADRE AMANCIO (_do outro lado_)

No se mexe d'ahi, compadre? Parece-me jarra! Largue o cheirador, que 
capaz de lhe subir o simonte ao miolo. Se no est para ouvir os poetas,
venha at ao Talaveiras, que tem uma pinga do velho...


COMPADRE THEOTONIO

C por mim, o Petinga.


COMPADRE AMANCIO

No sae d'isto!  compadre Theotonio, voc por mais que me digam j fez
hoje mais de uma estao!... (_Ouve-se campainha  E._) Ser a
Misericordia? (_Indo verificar_) Ora o que ha de ser!


COMPADRE THEOTONIO

O que ?


COMPADRE AMANCIO

 o Bernardo atafoneiro, que vem ahi todo vestido de hollandilhas, com
bordo de gancho e lanterna pendurada, a pedir para o Senhor Jesus dos
Afflictos... Conheo-o pelo rolio. Aquillo faz dinheiro de tudo!
Rendem-lhe mais as penitencias que o officio, e ainda em cima aluga a
preta para andar a vender pelas ruas.

(_Atravessa ao F. o penitente, como est descripto tocando a espaos a
campainha; traz  cinta um mealheiro_. _Do-lhe esmola_.)


COMPADRE THEOTONIO (_elevando a voz_)

Ora se ha um birbas assim!


COMPADRE ANASTACIO (_impondo-lhe silencio_)

Mais devagar, compadre, mais devagar, que o Bernardo  familiar do Santo
Oficio... como alguns fidalgos!


MORGADO (_do outro lado, ao commendador olhando para a janella dum 2.^o
andar_)

L est uma palmilhadeira do meu conhecimento, no 2.^o andar, mesmo por
cima da casa do mercador... (_depois de reflectir, como achando_) Ah!


COMMENDADOR (_ironico_)

Teve alguma lembrana feliz?


MORGADO

Tive. (_olhando para a D._) C vem o rancho outra vez! (_D. Felicia e D.
Maria Joanna apparecem a uma das janellas do 1.^o andar da esquina_.
_Maria Gertrudes a outra_. _Enchem-se as janellas_.--_Affluem
suecessivamente os grupos_.) Ver Ver que vergonhaa!... Digam que no
sei varar um gamo, nem pegar n'uma espada, nem determinar uma mesa, se o
poeta no fica hoje corrido!... (_Sae precipitadamente pela D. dobrando
a esquina_. _O commendador v-o sair, encolhe os hombros
desdenhosamente, e mette-se por entre os grupos_. _Compadre Theotonio e
compadre Amancio giram na turba_. _Entra Bocage e os poetas_. _O grupo
d'estes fica sobresaindo_.)


SCENA XIV


BOCAGE, 1.^o _e_ 2.^o POETAS, COMPANHEIROS, COMMENDADOR, COMPADRE
AMANCIO, COMPADRE THEOTONIO, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA _e_ MARIA
GERTRUDES, (_nas janellas_) DAMAS, POVO.--(_Grande animao_)


1.^o POETA

Oh! agora est j tudo pelas janellas. Vamos, quem rompe?


BOCAGE

Eu no... Logo.


2.^o POETA

Rompo eu. (_para as janellas_) Mote... Venha mote, minhas senhoras!

(_Grupam-se todos curiosamente para ouvir_.)


D. FELICIA

Essas peraltas de agora,
Eu no sei d'onde lhes vem.


2.^o POETA (_repetindo_)

Essas peraltas de agora...
Eu no sei d'onde lhes vem.

(_Fica por momentos pensativo_.)


BOCAGE (_ao 1.^o poeta_)

Foi a morgada que deu o mote?


1.^o POETA

Foi. (_ao 2.^o Poeta_.) Glosa-lh'o ao geito, se queres que te applauda,
a tartaruga!


2.^o POETA

Deixa. (_batendo as palmas_) L vae:

Cambrayas, sedas, matizes;
Vermelhas capas bem fartas
Forradas de pelles martas;
Bons vestidos de paizes;
Fils, rendas, pertiguizes;
Scias tudo, e a toda a hora;
Sempre em visitas por fra;
Conhecendo toda a gente:
Eis-aqui, succintamente,
Essas peraltas de agora;


1.^o POETA (_interrompendo_)

Bravo!


D. FELICIA (_applaudindo_)

Bravo! Bravo!


BOCAGE (_de parte ao 1.^o poeta_)

No  glosa:  rol da roupa!


2.^o POETA (_continuando_)

No dia cinco e seis vezes
Correm, sem que isto as affronte,
Dos perfumes do _Le-Conte_
s lojas dos genovezes;
No faltam nos entremezes;
De casa, nem um vintem;
Trazem fiado o que tem
E na roca no pem mo:
Ou  milagre, ou ento
Eu no sei d'onde lhes vem!


D. FELICIA (_debruando-se encantada e applaudindo_)

Bravo!... Lindo!... Bravissimo... Uma suspenso!... uma suspenso!

(_Alguns applausos nos quaes se distingue Mestre Amancio_.)


2.^o POETA (_a Bocage rindo_)

Que tal?


BOCAGE

Um trocadilho de Luiz de Gongora!


COMPADRE AMANCIO (_como consultando Compadre Theotonio_)

Ento?


COMPADRE THEOTONIO (_cheirando_)

Percebeu, compadre?


COMPADRE AMANCIO

Isso  seca, homem! Se percebesse, porque havia de applaudir?


VOZES (_no povo, que, olhando  E., se afasta como para dar logar_)

Olha! Olha!  o volantim do nosso Marquez.


COMPADRE AMANCIO

O volantim do Marquez... De qual Marquez?... (_olhando_) Ai!  o do sr.
Marquez de Marialva! (_o volantim, passa, e dirige-se rapidamente  casa
da D., que dobra_.) L vae... Como elle vae!... (_a onda do povo
dirige-se para aquelle lado, como para observar_. _Compadre Amancio
precede-a_.) Aonde ir? (_Olhando para fora_. _Attonito_.) A casa do
mercador Manuel Simes!... Vae... Entrou... (_Voltando ao Compadre_.)
Compadre Theotonio, compadre. Grande novidade!... Querem ver que o
Marquez vem a casa do Manuel Simes!... (_observando_) Vem... L esto
j os caixeiros com as tochas  porta, e o patro no patim!


COMPADRE THEOTONIO

Ns que temos com isso?


SCENA XV


OS DITOS _e_ MORGADO (_que se aproxima procurando o Commendador_)


2.^o POETA

 feliz este Manuel Simes! Compadre do Marquez de Marialva!... e j o
foi do outro... Por isso lhe chove a freguezia, que est podre de
rico... (_a Compadre Theotonio_.)


COMPADRE THEOTONIO (_a Compadre Amancio_)

O Marquez de Pombal  que era o nosso!


COMPADRE AMANCIO (_baixo e vivamente_)

Cale-se! Quer que nos mettam na inquisio?


1.^o POETA (_ao segundo_)

No ha nada como negociar!


2.^o POETA

O mau da poesia  no se medir aos covados.


BOCAGE

Ests enganado. N'esse ponto a poesia  como as fazendas da loja.
Medidos se querem tambem os versos... e quem peior os mede mais lucro
tira.


COMPADRE AMANCIO

Ahi vem o sr. Marquez de Marialva... ahi vem... Traz comsigo o Almeiro
e o Gaeta. Olhe, compadre, o Gaeta, que em mettendo o rojo, deita
sempre abaixo o toiro!


COMPADRE THEOTONIO

C por mim... o Fava-Secca!


COMPADRE AMANCIO

Deixou a sege na travessa, para no atropellar ninguem... Elle sempre 
bom de lei!... Viva o nosso Marquez, que  pae do povo!

(_Entra o Marquez, 3.^o Poeta, o Gaeta, o Almeiro, sequito de picadores
e escudeiros_.)


VOZES

Viva!


SCENA XVI


OS DITOS, _o_ MARQUEZ, 3.^o POETA _e sequito_


MARQUEZ

Obrigado! Obrigado! (_a um dos picadores_) Toma cuidado, Gaeta. O teu
cardo tem um gavarro no p esquerdo. Sente-se do casco ao bater na
calada. Est em principio ainda, mas se lhe no acodes, vae-se-te o
animal, e  pena! (_aos poetas_) Ento, tem-se poetado muito?...
(_Olhando para as senhoras, que lhe fazem mesura_.) Com taes musas,
muito e bem decerto (_a outro picador_). Almeiro, anda-me com tento no
tordilho.  um cavallo fino, mas tem pouca escola ainda. Tira pela mo,
e no ganhou unio nos movimentos. Para praa no est capaz. (_olhando
de novo para as janellas_) Oh! l vejo a Morgada da Torre da Palma, e
mais a sobrinha que veiu de Frana. (_Cumprimenta-as_. _Aos poetas_) 
formosa, e dizem que no menos discreta... (_a Bocage_) Oh!... Manuel
Maria... Est em Lisboa com licena, sabia j... D'esta vez ainda no
foi ver-me a Belem.


BOCAGE

V. Ex.^a estava em Salvaterra.


MARQUEZ

Cheguei esta tarde,  verdade. Quero-o l um dia cedo... Aqui lhes trago
reforo. (_indicando o 3.^o poeta_) Foi esperar-me ao desembarque!


2.^o POETA

Tardava-nos o nosso pastor Albano!


MARQUEZ

Ahi est j o meu compadre Manuel Simes. Hode me dar licena.--Manuel
Maria, espero ter o gosto de ouvil-o hoje. (_Sae com o sequito para o F.
acompanhado do grupo dos poetas_.--_As senhoras das janellas do mercador
desapparecem momentaneamente_.)


SCENA XVIII


OS DITOS _menos_ MARQUEZ _e sequito_


VOZES

Viva o nosso Marquez! Viva!


MORGADO (_de parte ao Commendador_)

Ver agora a camisa de onze varas em que eu metti o poeta!


COMMENDADOR

Quem! o sr. Morgado? Hade permittir que duvide.


MORGADO (_impondo-lhe silencio_)

Pschiu!--Ver!

(_O grupo dos poetas volta alvoroado_.)


3.^o POETA (_para as janellas_)

Mote, minhas senhoras.--Venha mote!


A PALMILHADEIRA (_no 2.^o andar_)

Sr. Bocage, sr. Bocage!


BOCAGE (_levantando a cabea_)

Quem me honra?


PALMILHADEIRA

O meu amor foi para a India!


1.^o POETA

India!--Mais parece pea que mote!


MORGADO (_ao Commendador esfregando as mos_)

Olhe como ficou embuchado!


BOCAGE (_comsigo, surprehendendo-lhe o movimento_)

J vejo d'onde vem a chufa. (_aos poetas_) Ser pea, mas se , tenho
pena de quem a quiz pregar. Seja quem for,  ainda mais asno que
tratante.


3.^o POETA

A rima  difficil.


BOCAGE (_desdenhosamente_)

Difficil! Com dois verbos que remedeiam.--Guindar, findar; guinde-a
finde-a. (_fitando o grupo do Morgado e do Commendador_) Nem sabem
inventar difficuldades! (_D-lhes as costas e passa adiante_.)


PALMILHADEIRA

Sr. Bocage: O meu amor foi para a India.


BOCAGE (_voltando a cabea_)

Sim? Pois quando vier... d-lhe muitas saudades. (_Segue_.)

(_Riso_. _Applauso_.)


COMMENDADOR (_ao Morgado_)

No lhe dizia eu?

(_As senhoras voltam s janellas do mercador_.)


3.^o POETA

Mote, minhas senhoras... Mote.


D. MARIA JOANNA

s ondas se lanou Ero formosa!

(_Bocage aproxima-se; o 3.^o poeta fica meditando momentos_.)


2.^o POETA

O mote  conceituoso.


BOCAGE

. D um banho de mar  formosura!


3.^o POETA (_batendo as palmas_)

s ondas se lanou Ero formosa!

Canada de esperar o terno amante,
Ero infeliz ao ceu se pranteava,
E como que o futuro adivinhava,
Aqui e alli corria delirante;

Da aurora em tanto a face radiante,
Nos mares pouco a pouco se espelhava,
E  frouxa luz ao longe se avistava
Sobre ellas um cadaver fluctuante:

A triste vacilava suspirando
Nos braos da incerteza suspeitosa,
At que emfim se vae desenganando:

Ento, desesperada e lacrimosa,
Do caro esposo os manes invocando.
s ondas se lanou Ero formosa!

(_Alguns applausos_.)


2.^o POETA

Bravo, Albano!... Descriptivo e sonoro!


1.^o POETA (_a Bocage_)

Correcto, no?


BOCAGE

Correcto, mas frio. No admira. Uma paixo que vae por agua abaixo!


2.^o POETA

Mote. Venha mote.


MARIA GERTRUDES

Os roubos que me fez a m ventura!


BOCAGE (_vivamente aos poetas_)

Este para mim. (_repetindo immediatamente_)

Os roubos que me fez a m ventura!

Eu deliro, Gertruria, eu desespero
No inferno de incertezas e temores,
Eu da morte as angustias e os terrores
Por ti mil vezes sem morrer tolero!

Pelo co, por teus olhos te assevero
Que ferve esta alma em candidos amores:
Longe a riqueza, e os seus vos favores,
Quero o teu corao, mais nada quero.


VOZES (_diversas_)

Bravo! Bravo!


BOCAGE (_continuando arrebatado_)

Ah! no sejas tambem qual  commigo
A cega divindade, a sorte dura,
A varia deusa, que me nega abrigo!

Tudo perdi; mas valha-me a ternura;
Amor me valha, e pague-me comtigo
Os roubos que me fez a m ventura!

(_Grande exploso de applausos_.)


2.^o E 3.^o POETAS

Bravo! bravo, Bocage.


1.^o POETA

Inimitavel!


3.^o POETA

Uma copia!


DIFFERENTES VOZES (_em torno de Bocage_)

Uma copia! uma copia.


COMMENDADOR (_junto a Compadre Amancio_)

Gertruria! Gertrudes!--Dava uma moeda de oiro s por uma copia d'este
soneto.


COMPADRE AMANCIO

Uma moeda!...  devras?


COMMENDADOR

Devras.


COMPADRE AMANCIO

Aonde lh'a heide levar? (_Commendador diz-lh'o ao ouvido_.--_Misturam-se
os grupos, continuando todos a felicitar Bocage_.)


MORGADO (_ao Commendador_)

Quer dar uma moeda de ouro por uma copia d'aquillo! Para qu?


COMMENDADOR

O sr. Morgado tem os seus segredos... Eu tenho os meus!


1.^o POETA (_a Bocage_)

Est aqui um amigo que nos convida a todos para o Izidro  meia noite.


BOCAGE (_rindo_)

Vem a proposito a ceia... para servir de jantar!

(_Ouvem-se  E. os clarins e tambores dos pretos, que logo se afastam_.)


VOZES

As charamellas! As charamellas!

(_Corre tudo  E._--_N'este movimento Bocage fica um pouco isolado_.
_Compadre Amancio aproveita a occasio e aproxima-se-lhe_.)


COMPADRE AMANCIO (_tomando-o de parte_)

Sr. Bocage!


BOCAGE (_satisfeito do triumpho_)

Tambem por c, mestre?


COMPADRE AMANCIO

Venho aqui pedir-lhe um favor, que  quasi uma esmola... O sr. Bocage
bem me podia remediar a minha necessidade!


BOCAGE

Diga, mestre!


COMPADRE AMANCIO

Um ginja quer copia d'aquelles versos que recitou ainda agora, e d por
ella uma moeda d'ouro... (_instando_) Podiamos repartir ao meio...


BOCAGE (_atalhando_)

Fique-se ahi, ou estraga o negocio.--manh lhe dou a copia... se me
lembrar ainda. E guarde para si o que lhe offereceram. O sr. mestre pde
vender barbas e sonetos, se quizer... (_Compadre Amancio desfaz-se em
agradecimentos_.) A lyra de Bocage ninguem a paga!

(_Repiques, foguetes ao longe_. _Afflue o povo_. _Est a festa no auge
da animao_.)


OS POETAS

Mote, mote... Minhas senhoras, venha mote!

(_Cae o panno_)


FIM DO SEGUNDO ACTO




ACTO III

*Em janeiro de 1786*


Sala em casa de Manuel Simes. Mobilia dos meiados do seculo
XVIII.--Porta ao _F._-- _D._, no 1.^o plano, porta do escriptorio; no
2.^o plano, porta que leva ao interior da casa.-- _E._ janellas de
sacada.


SCENA I


D. FELICIA, D. MARIA JOANNA _e_ MARIA GERTRUDES

(_em trajo de passeio_)


D. FELICIA (_a D. Maria Joanna_)

Pois muito bem, sobrinha. Truxe j o meu escudeiro de
proposito.--Aproveito a occasio para ir  festa de S. Domingos. Prga
hoje o Padre Mestre fr. Joaquim do Rosario... Sabe? o Padre Mestre fr.
Joaquim, que vae s nossas assemblas, e canta  viola franceza _De
saudades morrerei_, com tantos requebros, que  mesmo uma suspenso?


D. MARIA JOANNA

Sei. Pde ir descanada  sua festa.--Provavelmente preciso demorar-me
com o sr. Manuel Simes, visto que em resulado de conselho seu lhe
entreguei por uns mezes, como precisava, a administrao da minha casa.


D. FELICIA

No se arrependa. Honrado at alli. Depois que elle me administra... por
obsequio, j se v...  outra coisa. A minha pena  no lhe ter pedido
ha mais tempo. Sermes no faltam,  verdade... o dinheiro espremido,
que nem que fosse d'elle... mas prompto sempre, e incapaz de arredar um
fio!


D. MARIA JOANNA

Acredito.--Tinha necessidade de descano. Passei o vero no campo, e
nada examinei ainda... Parece-me que  tempo.--J lhe mandou recado?


D. FELICIA

Est l em baixo nos armazens. No tarda.--E foi s por isso que
veiu?... Ai! sobrinha! no faz ida que mal me sinto dos meus hystericos
vendo tratar com tanto afinco d'essas coisas uma pessoa da sua edade, e
no seu caso... com tantos vinculos... com...


D. MARIA JOANNA

Por isso mesmo!


D. FELICIA

Emfim, a sobrinha gosta de se entreter em negocios!... C por mim...
_abrenuntio_!... Negocios, deixo-os a quem toca. No so para senhoras
da nossa jerarchia!... (_movimento de D. Maria Joanna_) No digo nada,
no digo nada... A sobrinha  senhora das sua aces.-- uma conferencia
ento? E hade ser longa!


D. MARIA JOANNA

No se apresse, minha tia. Tem tempo para tudo, j v.


D. FELICIA

Deixo-lhe a afilhada para a acompanhar. Venho logo buscal-a, e de
caminho darei tambem duas palavras ao sr. Manuel Simes.


D. MARIA JOANNA (_sorrindo-se e ameigando-a_)

E dizia que era inimiga de negocios!


D. FELICIA

Jesus! Deus me defenda!... Ai! eu, so duas palavras s. At logo.
(_para sair, e voltando  afilhada_.)  verdade, Maria Gertrudes.
Trazes-me ahi a minha agua da Rainha d'Hungria?


MARIA GERTRUDES (_dando-lhe um pequeno frasco_)

Aqui est, madrinha!


D. FELICIA (_recebendo-o, cheirando-o, e depois arrecadando-o_)

No posso andar sem isto... por causa dos hystericos... At logo,
sobrinha.


SCENA II


D. MARIA JOANNA _e_ MARIA GERTRUDES


D. MARIA JOANNA (_voltando, e olhando meio impaciente para as portas da
D._)

Demora-se!... (_pausa_.) Est triste, Maria?


MARIA GERTRUDES

Eu, minha senhora! Triste! Porque?


D. MARIA JOANNA

No tem razo, decerto. Minha tia no a pde trazer mais estimada, e
merece-lh'o.


MARIA GERTRUDES

A minha rica madrinha! No sei como lhe hei de agradecer a creao que
me deu... e o muito que me quer!...


D. MARIA JOANNA

Querendo lhe tambem, como faz.--Vamos, d'ahi no procede o mal. Do que
de ordinario mais inquieta na sua edade menos ainda.--Se no me engano,
est em Lisboa um certo cadete... j poeta de fama... cada dia de maior
fama, que...  certo?


MARIA GERTRUDES (_atalhando, envergonhada_)

Oh! minha senhora!


D. MARIA JOANNA

Ento que tem? Uma inclinao no est mal... Em se no faltando ao
recato!... E elle mostra-se respeitoso, que  sempre bom indicio...
Todos os casamentos por ahi principiam, e estou que no quer
professar.--Que lhe diz o corao?


MARIA GERTRUDES (_olhando receiosa em redor_)

Nunca fallei n'isto, nem a minha madrinha!


D. MARIA JOANNA

Pudra! Fallo-lhe eu, porque tambem lhe sou afeioada. Provavelmente no
se entendia to bem com minha tia.


MARIA GERTRUDES

O corao... Nem, eu sei.--O sr. Bocage diz-me coisas como ninguem...
(_inadvertidamente_) mas o outro...


D. MARIA JOANNA

Ah!... Ah! temos outro!...


MARIA GERTRUDES (_toda balbuciante_)

Eu disse outro? (_animando-se_.) Disse. Disse, porque  verdade...
(_acudindo_.) A culpa no  minha!


D. MARIA JOANNA

Est visto. Pois ns temos culpa nunca d'essas... complicaes!--E o
outro?


MARIA GERTRUDES (_quasi chorando_)

Foi um ingrato! No posso, no devo mais lembrar-me d'elle...


D. MARIA JOANNA

Ento d'ahi estamos desenganadas. Naturalmente fica preferido o poeta.


MARIA GERTRUDES (_hesitando_)

Ai! agora fica... (_mais decidida_.) Fica... mas...


D. MARIA JOANNA

Mas?... Suspeito d'esse _mas_.


MARIA GERTRUDES (_meio impaciente_)

Tomra quem me ensinasse como se conhece um amor verdadeiro. (_achando
uma ida_.) Ah!... A sr.^a D. Maria Joanna hade saber...  viuva,
sabe... Diz-m'o?


D. MARIA JOANNA

Eu!... (_enleiada_.) Devia saber, devia... mas... (_comsigo_.) Aqui
estou eu tambem a cair nos _mas_...


MANUEL SIMES (_dentro_)

Ainda agora m'o dizem!


D. MARIA JOANNA (_comsigo_)

Vem muito a proposito o sr. Manuel Simes.


SCENA III


AS DITAS, MANUEL SIMES (_da porta, 2.^o plano,  D._)


MANUEL SIMES

Que vergonha!... que vergonha para esta casa!...


D. MARIA JOANNA

Que  isso, sr. Manuel Simes?


MANUEL SIMES

Fazerem esperar tanto tempo s. s.^a!... N'este instante me deram o
recado, aquelles brutos... Que hade dizer?... Hade dizer que nem sei
tratar com pessoas de condio, eu, Manuel Simes, que toda a minha
vida... com bem o digamos... fui favorecido da grandeza!... eu, um
compadre de dois marquezes!... (_corrigindo-se_) De dois... de um, que o
outro...


D. MARIA JOANNA

O outro j l vae.--No se afflija com isso. Esperei, mas no me
enfastiei. E bem era que esperasse, que o negocio  meu...


MANUEL SIMES

Negocios!-- verdade... a sr.^a morgada? Em seu nome me levaram o
recado.


D. MARIA JOANNA

Vim com ella. Foi  festa a S. Domingos. Volta logo.


MANUEL SIMES (_admirado_)

Negocios! V. S.^a! Commigo!


D. MARIA JOANNA

Pois no me tomou a administrao?


MANUEL SIMES

Por pouco tempo, disse-lh'o logo... Estou j to sobrecarregado!...
Depois, estas administraes... afastam-me do meu giro.


D. MARIA JOANNA

Justamente. Ahi ver se precisamos fallar. Para no o incommodar mais, e
tomar a direco da casa, preciso examinar, preciso esclarecer-me... e
agora ninguem melhor do que o sr. Manuel Simes.


MANUEL SIMES (_attonito_)

Ah!


D. MARIA JOANNA

Admira-se?


MANUEL SIMES

Admiro, porque no  o costume. Admiro, mas approvo. Quando querer sua
tia D. Felicia fazer o mesmo, ou pelo menos ouvir-me? Pois devia...
devia, que se continua como vae, no sei como hade ser... Por mais que
lhe pea, por mais que lhe diga, nada. No quer saber seno de
dinheiro... Como se o dinheiro se cavasse!... Quando lhe fallo em
contas, do-lhe os seus hystericos, e... acabou-se, no  possivel.--Os
papeis esto todos em ordem no meu escriptorio (_indica a porta
respectiva_). No  casa costumada a donaires, mas se no a assusta...


D. MARIA JOANNA (_dirigindo-se  porta indicada_)

Pois a que vim eu?


MANUEL SIMES (_reparando em Maria Gertrudes e com certo affecto_)

Ai! a menina Maria Gertrudes! J aqui lhe mando minha irm Monica para
lhe fazer companhia.


MARIA GERTRUDES

No  preciso... Vou eu mesmo procural-a, se me d licena.


MANUEL SIMES (_como acima_)

Bem sabe que  de casa! (_encaminha-se ao escriptorio.--Como
lembrando-se de repente_) Oh!... (_Novamente s senhoras_) Permittem?
(_indo  porta da D., 2.^o plano_) Levem l para baixo essas peas de
saragoa, que ho de ir manh para Abrantes... e arjem-me as baetas,
no se esqueam... (_voltando_) Isto, se eu no determinar tudo!...
(_inclinando-se e esperando  porta do escriptorio que D. Maria Joanna
passe_.--_Sae D. Maria Joanna e Manuel Simes_.)


SCENA IV


MARIA GERTRUDES, _pouco depois_ FRANCISCO


MARIA GERTRUDES

Hade ser grande a demora e a espera. (_indo  janella_) No so como as
nossas estas ruas da baixa.  um borburinho de gente sempre! (_Chega-se
 janella_.--_Entra Francisco do F. V-a e no pde reprimir um
movimento de involuntario alvoroo_.)


FRANCISCO

Ah!


MARIA GERTRUDES (_voltando vivamente, vendo-o_)

Ah!


FRANCISCO (_constrangido_)

Desculpe... No a esperava aqui... J me retiro.


MARIA GERTRUDES (_do mesmo modo_)

Pde ter que fazer... Sou eu que vou procurar sua tia.

(_Do alguns passos; elle dirigindo-se ao F.; ella passando 
D._--_Quando vo a affastar-se, param e voltam-se quasi
simultaneamente_.)


FRANCISCO (_com vivacidade_)

Chamou?


MARIA GERTRUDES (_de olhos no cho_)

Chamou?


FRANCISCO (_depois de pausa_)

Nada.


MARIA GERTRUDES (_idem_)

Nada.


FRANCISCO

Adeus, menina Gertrudes!


MARIA GERTRUDES

Adeus, sr. doutor.

(_A ponto de retirar-se, ella pela D., 2.^o plano, elle pelo F.,
Francisco torna atraz_)


FRANCISCO

Quer-me ouvir um instante?


MARIA GERTRUDES

O sr. doutor est em sua casa! (_de olhos baixos_.)


FRANCISCO (_picado_)

Ah!  s por isso? E porque me no chama Francisco como d'antes?


MARIA GERTRUDES

Um doutor, j formado!--E porque me trata por menina? No era o seu
costume.


FRANCISCO

So preceitos do seu poeta?


MARIA GERTRUDES

Receia que o vo dizer  sua apaixonada?


FRANCISCO

Uma apaixonada, eu!


MARIA GERTRUDES (_com impeto_)

Hade negar que teve o outro dia uma briga por causa da Esteireira que
representa no Salitre?


FRANCISCO

Ia passando...  mulher... Insultavam-n'a... defendi-a.


MARIA GERTRUDES (_com ressentida ironia_)

Deu agora em defender todas as mulheres! at mulheres que representam no
theatro!... E o que ella lhe est obrigada... E o que falla no
senhor!... no sr. Doutor!... E o que...


FRANCISCO

Mas se lhe digo...


MARIA GERTRUDES (_atalhando_)

No negue... sei tudo... Contou-me tudo a mulher de um torneiro, que tem
o marido na cada, e vae l s vezes s Portas da Cruz, fallar 
madrinha para peditorios... (_elle quer atalhar; ella no o deixa_.)
Conhece tambem a tal creatura, a mulher do torneiro... ouviu-lh'o mesmo
da sua bocca... (_como acima_) Veja se  verdade, ou no!


FRANCISCO (_desesperado_)

Pois  verdade... ser verdade... Porque no hei de estar apaixonado de
uma comica, se a menina no v seno o seu novo arrojado.


MARIA GERTRUDES (_quasi chorando_)

lhe? Confessa!


FRANCISCO

Nem se atreve a dizer que no!


MARIA GERTRUDES

Depois do que me tinha promettido!


FRANCISCO

Depois do que me tinha protestado!--E eu que voltei ainda to descanado
para Coimbra, depois d'aquella vespera do Corpo de Deus o anno
passado!... Estava entretido a responder a meu padrinho quando por alli
andavam os poetas a versar... Nem dei por cousa nenhuma... Parti logo no
dia seguinte de madrugada, e demorei-me depois at me doutorar... Andava
cego... Mas apenas cheguei ultimamente a Lisboa, tive logo quem me
abrisse os olhos.


MARIA GERTRUDES (_vivamente_)

Quem?


FRANCISCO

Quem?  verdade, j v.--Quem? Uma pessoa de porte e de respeito... uma
pessoa que no mente!... (_mostrando um papel_) Lembra-se do soneto que
fez o Bocage ao mote que lhe deu n'essa noite? (_lendo_.)

Eu deliro, Gertruria, eu desespero.

Gertruria, Gertrudes!  evidente. (_lendo_)

Pelo ceu, por teus olhos te assevero
Que ferve est'alma em candidos amores.

Ferve-lhe a alma em amores... Escreve-se isto!... Querem-n'o mais claro?


MARIA GERTRUDES (_picada_)

Porque me no hade o sr. Bocage fazer versos, se o sr. Doutor tem a sua
apaixonada!


FRANCISCO

Outra vez a apaixonada! Sim? No tem mais que me dizer? (_suffocado_)
Pois eu estava morto por encontral-a em liberdade, para lhe declarar...
que est tudo acabado...


MARIA GERTRUDES

Isso esperava eu!...


FRANCISCO (_continuando_)

E para lhe jurar, por alma de quem Deus tem, que haja o que houver...


MARIA GERTRUDES

No jure, sr. Doutor, no se cance... No  preciso... (_com dignidade_)
Sua tia est l dentro, no? Sou pobre, sou humilde, mas no obrigo
ninguem. Fao-lhe a vontade. (_Sae_.)


SCENA V


FRANCISCO, _s_

Viu-se nunca uma coisa assim! Ainda em cima!  ella que me faz a
vontade!... (_passeiando agitado_.) Quem me havia de dizer?... Com
aquelles modos innocentes... Ah! mulheres, mulheres! O que so as
mulheres!... Que heide agora fazer? Queria-lhe mais que  vida, mas
humilhar-me, no... Embarco...  o verdadeiro... Embarco... vou para
longe. Tomra eu uma vida em que nem ouvisse fallar de mulheres... Meu
pae no consente de certo... Ah!... Meu padrinho... Vou hoje mesmo
fallar a meu padrinho para que me alcance...


SCENA VI


FRANCISCO _e_ MANUEL SIMES


MANUEL SIMES (_ porta do escriptorio_)

Falta a escriptura do arrendamento da Carvoa. Tenho-a na carteira do
armazem... Trago-a j.


FRANCISCO (_correndo ao pae_)

Meu pae, quer-me ouvir.


MANUEL SIMES (_complacente_)

Ai!  o sr. doutor... Deixa-me que estou com pressa.


FRANCISCO

So duas palavras. Pensei melhor. Escusa de fallar  sr.^a D. Felicia...
No caso j com a afilhada.


MANUEL SIMES (_indignado e attonito_)

Que  isto! Ento assim se fazem e se desfazem essas coisas! Dei-lhe
palavra!... J no caso!... Assim zomba de seu pae, sr. Francisco
Pedro!... Cuida que por ter o grau, j no sou quem sou?...
Desembargador do pao que fosses, no consentia que me faltasses ao
respeito... J no casas!... Agora?... Depois de te formares, que era s
o que faltava!... Tinha que ver!... Costumei me a considerar a pequena
como filha!... E no sabes tambem que j dei uns longes  morgada?...
(_Entra o commendador_.) Queres que passe por um catavento n'aquella
casa, que por fim de contas  uma casa honrada!... Pensasses antes.--O
dito, dito: casas... Queiras ou no queiras, has de casar!


SCENA VII


OS DITOS _e o_ COMMENDADOR


COMMENDADOR (_intervindo a Manuel Simes_)

Faa a vontade a seu filho. (_a Francisco_) Descance que no casa.


MANUEL SIMES (_furioso_)

Quem diz que no casa?... (_vendo o commendador, e moderando-se_.) Ah! 
o sr. commendador... Se fosse outro!... Isto so coisas de familia... V.
s.^a no sabe...


COMMENDADOR

Sei... e hade chegar-se  razo.


MANUEL SIMES

Pois eu na minha casa, no posso...


COMMENDADOR (_tomando-o de parte_.--_Francisco affasta-se_)

O padre Ignacio deseja que se no faa este casamento.


MANUEL SIMES (_respeitosamente_)

O padre Ignacio!


COMMENDADOR

Bem sabe o que lhe deve, e o que deve aos padres da Companhia!... O
irmo Simes no quer desobedecer decerto... e fazia mal se
desobedecesse, que o nome acabou, mas o poder hoje revive!


MANUEL SIMES (_fitando-o aterrado_)

O sr. commendador tambem ?... (_o commendador faz-lhe signal de
silencio: a meia voz_.) Os padres sabem que nunca desobedeo... Mas que
interesse pdem ter...


COMMENDADOR

No  preciso que o saiba.


MANUEL SIMES

E quem me assegura...


COMMENDADOR

Que o no engano? Veja este bilhete. (_d-lh'o_.)


MANUEL SIMES (_lendo_)

Faa quanto lhe disser o sr. commendador de Monsars.--Padre Ignacio!
(_resignado_.) No casar.


COMMENDADOR

Agradea a seu pae, que por minha intercesso lhe faz o gosto.


MANUEL SIMES (_comsigo_)

Com esta gente nem pae se pde ser!...


FRANCISCO (_humilde e tristemente_)

Meu pae...


MANUEL SIMES

Est bom, est bom... O sr. commendador deseja mais alguma coisa?


COMMENDADOR

Tenho ainda que lhe fallar a respeito do negocio de um amigo meu, que
hade aqui vir ter commigo.--Est occupado agora?


MANUEL SIMES

Estava ajustando umas contas, e confesso que muito desejo concluir.


COMMENDADOR

Conclua, conclua. No tenho pressa, e o meu amigo ainda no chegou.
Esperarei, se m'o permitte.


MANUEL SIMES

Est em sua casa. Dando-me licena, vou acabar. (_comsigo_.) E o tempo
que j tenho perdido!... (_como occorrendo-lhe_.) Olha, Francisco... Vae
l abaixo ao armazem... abre a carteira... aqui tens a chave...
(_d-lha_) hasde achar ao canto da direita um masso pequeno, atado com
um nastro encarnado. Manda-m'o aqui ao escriptorio, e a chave tambem...
Pdem vir de roda para no incommodar o sr. commendador e o seu amigo,
se j tiver chegado. (_Francisco sae_. _Para o commendador_.) Aproveito
o obsequio, e abreviarei o que poder.


SCENA VIII


COMMENDADOR _s, pouco depois_ MORGADO


COMMENDADOR (_saboreando uma pitada_)

Bem diziam os escriptores da gentilidade: estavam fra de si os deuses
quando inventaram o homem, e mal recobraram o tino desataram a rir pondo
os olhos na sua obra. Tudo n'elle  vo. _Vana mortalitas_, como lhe
chamava Plinio, o Historiador. Movem-se por um fio... (_sentando-se_)
Tudo est em saber-lho atar. (_Entra o morgado esboforido e derreado_.)
Chega a proposito, morgado... ia-me tardando... Que  isso?... Teve
alguma coisa?... Aposto que fez das suas... No quer domar esse
genio!...


MORGADO (_lisongedo_)

No posso. Muitas vezes quero ter mo em mim... mas qual... todo eu sou
fogo.


COMMENDADOR

Deixe, deixe. Casars, amansars!--Foi briga, pendencia, rixa,
desafio?... Pois nem pensando em sua prima, deixa descanar a espada!
Quer ser como Lucio Licinio Dentato, que oito vezes em repto singular
saiu vencedor  vista de dois exercitos?...


MORGADO (_mais lisongeado_)

Cada vez o vejo mais: o commendador  um amigo devras... um amigo como
ha poucos...


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Ainda agora d por isso!--Homem,  boa a fama de valente para captivar
as damas, mas nem tanto que assuste. Brigou?


MORGADO

Nada. (_com fatua arrogancia_.) No acho j quem queira.


COMMENDADOR (_comsigo_)

_Miles gloriosus_!


MORGADO

Qu?


COMMENDADOR

Estou morto por saber o que teve... que o morgado no vinha no seu
natural.


MORGADO

Que havia de ser?--Esta manh, para matar o tempo, fui at  feira das
cavalgaduras... alli pela banda do nascente do passeio... Bem sabe o meu
fraco. Estava na barraca dos juizes, segundo o costume... Tudo
entendedores de mo cheia... No sei como se passou o tempo... o caso 
que deram dez horas... Era a hora a que tinhamos ajustado o nosso
encontro aqui... Despedi-me  pressa... instaram-me que ficasse... Se
elles no pdem passar sem mim! Foi preciso dizer-lhes que tinha que
fazer na baixa, e era tarde j... O Domingos Sanches... aquelle
polvorista rico... Decerto conhece... (_gesto negativo do commendador_.)
Ora, no conhece outra coisa!... O Domingos Sanches quiz por fora que
viesse no seu laso... um laso melado... bonito animal... mas de maus
signaes... gazio dos olhos, e bebendo em branco... No s boa pea,
no, disse eu logo commigo... esperem que vo ver o que  o morgado da
Gesteira a cavallo!... (_enthusiasmando-se_.) Estava tudo attento...
Monto... como eu costumo montar... O cavallo, apenas me sente, comea a
defender-se, e a negar-se... Eu aperto-lhe as esporas... Elle atira dois
saltos encabritados... Eu cozo-me com a sella... Elle furta-me o
corpo...


COMMENDADOR (_depois de breve pausa_)

E depois?


MORGADO

Depois... ca!


COMMENDADOR (_erguendo-se, sem poder suster o riso_)

Caiu?... Cuidei... Caiu!...


MORGADO (_mais enthusiasmado_)

Mas como eu cai!... com todos os preceitos... Ficou tudo pasmado!


COMMENDADOR

Creio, creio... E o cavallo?


MORGADO

Fugiu.--Para no perder tempo, vim s carreiras... Ahi tem a razo da
demora.


COMMENDADOR

Bem empregada foi, visto que lhe proporcionou triumpho
similhante.--Tacito conta que Julio Cesar, o fundador do imperio, tambem
caiu d'um cavallo... Provavelmente caiu assim.


MORGADO

Favores, favores.--E a respeito do meu negocio? Fallou j a Manuel
Simes?


COMMENDADOR

A respeito do seu negocio ainda no. Est ajustando umas contas, no
tarda. E primeiro temos ns que fallar, porque emfim... (_Sussurro na
rua_.--_applicando o ouvido_.) Espere. No ouve?


MORGADO

Oio. Parecem gritos de agarra! (_Chegam ambos  janella do 2.^o plano,
e debruam-se para ver_.)


SCENA IX


OS DITOS, MANUEL SIMES, _e_ D. MARIA JOANNA (_ porta do escriptorio_)


MANUEL SIMES

Enganou-se o Francisco. No era aquelle o arrendamento... (_vae a
avanar, e detem-se vendo os dois_) Ai! que j me no lembrava.


D. MARIA JOANNA (_rapidamente_)

 o commendador Louzllos, e o morgado da Gesteira?


MANUEL SIMES

So.


D. MARIA JOANNA

Quizera esquivar-me s suas importunidades.


MANUEL SIMES

No a viram. Pde esperar no escriptorio... O peior  que talvez tenha
de me demorar um pouco. So horas de enfardar as fazendas, e...


D. MARIA JOANNA

V, v... No tenho pressa. Espero.


MORGADO (_attento para fra_)

V o que ?


COMMENDADOR

So os rapazes a correr... Ah! agora...  um cavallo solto... e 
laso... Ser o tal?


MORGADO (_affirmando-se_)

, !


MANUEL SIMES (_rapidamente a Maria Joanna_)

Se lhes no quer fallar...


D. MARIA JOANNA (_fechando a porta_)

At logo. (_fecha vivamente a porta_.)


SCENA X


OS DITOS, _menos_ D. MARIA JOANNA


MORGADO

E como elle se leva! No o apanham, no.--J se no v.


COMMENDADOR (_voltando tambem e rindo_)

Em vez de vir o Morgado atraz do cavallo, veiu o cavallo atraz do
Morgado. (_vendo Manuel Simes_) Ah! Sr. Manuel Simes! Acabou j as
suas contas?


MANUEL SIMES

Ainda no. So horas de carregar as fazendas que ho de embarcar ao meio
dia, e se eu no assisto... No tendo v. s.^a coisa de maior urgencia...
Na minha vida no se pde perder um instante!...


COMMENDADOR

J lhe disse que o no quero estorvar.--Sei o que  a lida de uma casa,
no ponto a que chegou a sua... (_intencionalmente_) Vamos, que lhe no
tem corrido mal... Passei ainda agora pela loja, e vi a azafama que por
l ia... Uma fileira de carros  porta, e um deitar abaixo de fazendas
das prateleiras, que era um terramoto!


MANUEL SIMES (_cobrindo o rosto com as mos_)

Um terramoto!... Jesus! Santo nome de Jesus, sr. Commendador! Pelo amor
de Deus, no diga essa palavra diante de mim! J l vo trinta annos, e
ainda me parece ver as torres da S a danar!... E a minha casa!... E a
minha pobre mulher, a primeira, que alli ficou!... E toda essa ira de
Deus!... (_benzendo-se_) Em nome do Padre, do Filho, e do Espirito
Santo!... Todo eu me arripio ainda.


COMMENDADOR

Tem razo... no direi mais... Mas o que l vae, l vae! E d graa a
Deus (_intencionalmente_) pelas boas proteces que tem tido!


MORGADO (_cumprimentando obsequiosamente_)

Sr. Manuel Simes!


MANUEL SIMES (_seccamente_)

Viva, sr. Morgado! (_ao Commendador_)  o amigo que esperava?


COMMENDADOR

Em pessoa.


MANUEL SIMES (_ao Commendador_)

D'aqui a meia hora, o mais, estou s suas ordens.


COMMENDADOR

No se apresse... Temos tempo.


SCENA X


MORGADO _e_ COMMENDADOR


MORGADO

V como elle me trata? Oh! que se no fosse...


COMMENDADOR

Quando estiver de posse da casa de Carregueiros, faa-lhe o mesmo.


MORGADO

Oh! isso!... E ha-de ser quanto antes. Estou resolvido a acabar de vez
com estas incertezas e duvidas de minha prima. Tenho o remedio na mo.


COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Tem?... (_indo examinar a porta do F. e a da D., 2.^o plano, e depois
voltando_.) Ninguem na casa de fra, nem no corredor... Estamos ss e 
vontade... Podemos conversar um pedao.--Com qu... resolveu casar com
sua prima quanto antes? Faz muito bem. Casar, e casar rico, era j
conselho de Plauto. _Nubere in divitias_!


MORGADO

Fao muito bem?  devras a sua opinio, Commendador?


COMMENDADOR

Pois porque no h de ser?


MORGADO

Quer que lhe diga uma coisa?


COMMENDADOR

Diga.


MORGADO

Andei muito tempo desconfiado... Loucuras minhas, agora vejo!... Uma
pessoa prudente e de juizo, como o commendador?...


COMMENDADOR

Diga sempre. De que andou desconfiado?


MORGADO

Tinha-me querido parecer que se inclinava a galantear tambem minha
prima.


COMMENDADOR (_tranquillamente_)

No se enganou.


MORGADO (_sobresaltado_)

No me enganei?


COMMENDADOR

Socegue. Passou-me isso pela cabea na jornada em que a acompanhei de
Paris... Mas reflecti depois.--Socegue. J l vae.--Escreveu-me um
antigo conhecimento de Santa Clara.


MORGADO (_malicioso_)

Ah! chegaram-lhe lembranas dos doces e da grade!


COMMENDADOR

Reflecti... ds que o encontrei.


MORGADO (_lisongeado_)

Ds que me encontrou?


COMMENDADOR

E principalmente quando o conheci a fundo. Cada vez tenho por mais
seguro que ninguem convem tanto a sua prima... nem a mim.


MORGADO (_admirado_)

Nem ao Commendador?


COMMENDADOR

Reflecti muito.--Sua prima est ainda no calor da mocidade, no lhe
ficaram as melhores impresses do primeiro matrimonio, e ha-de querer
indemnisar-se... O segundo marido leva grande responsabilidade e grandes
trabalhos!... Eu, o que preciso  descano... Mesa substancial, o meu
copo do Porto velho, os meus livros... e uma boa sege  bolea. A doirada
mediania, de que falla Horacio Flacco, o Venusino.--N'isto assentei... e
veja como o tenho ajudado.


MORGADO (_convencido_)

Assim , assim . Realmente, no sei como lhe hei de pagar tantas
obrigaes!


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Ah! isso no lhe d cuidado.--O Bocage no o affronta j: est todo
captivo da afilhada de D. Felicia... E a afilhada de D. Felicia... no
lh'o prognostiquei?... deu j de mo ao filho do mercador. O tenente, de
um momento para o outro... D'esse depois se tratar, sendo preciso.--Bem
v como lhe abro praa, e o deixo s em campo tornando-lhe facil a
victoria. (_vae sentar-se  E._)


MORGADO (_recuando com uma especie de terror_)

E tudo por amizade!


COMMENDADOR

A amizade  o meu fraco. Chegue-se para aqui. Sente-se. Vamos ao que
importa. (_O morgado senta-se-lhe ao p_.) Manuel Simes no parece
muito disposto a dar-lhe ao cincoenta moedas de que me disse precisava
infallivelmente.


MORGADO

E preciso. Que faria eu diante de minha prima sem real?


COMMENDADOR (_preparando a caixa para tomar uma pitada_)

Mau era na verdade... Mas a Gsteira, que nunca chegou para muito, j
no d para mais... As vinte moedas, qne lhe arranjei o anno passado,
foram-se n'um instante  banca, e ao loto de Gnova... Manuel Simes
sabe tudo isto perfeitamente, v-o afogado n'um diluvio de hypothecas, e
no  homem que deite o seu dinheiro pela janella fra...
(_offerecendo-lhe a caixa_) Toma?


MORGADO (_erguendo-se consternado_)

Mas ento como ha de ser? Se me mandou vir aqui s para me dizer
isso!...


COMMENDADOR

Hade ter as cincoenta moedas; abono-o eu.


MORGADO (_sentando se e abraando-o_)

Isto  que  um amigo.


COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Que rendimento ter a sr.^a D. Maria Joanna? J averiguou?... Hade ter
averiguado.


MORGADO

S da casa de Val-Moreno, que recebeu pela me, anda por cinco mil
cruzados.


COMMENDADOR (_offerecendo-lhe tabaco_)

Serve-se? (_Morgado tira machinalmente uma pitada_.)  isso.--Quanto aos
vinculos de Fresnos e Carregueiros... que lhe tocaram por parte do pae,
e que o pae tinha herdado de seu irmo o Capito-mr, marido de D.
Felicia, que morreu sem filhos... quanto aos vinculos de Fresnos e de
Carregueiros, deve andar cada um para mais ainda... principalmente o de
Carregueiros.


MORGADO

No tem menos de quinze a dezeseis mil cruzados ao todo. Mas a que
proposito...


COMMENDADOR

Calculos necessarios. Vinte moedas em junho passado, cincoenta agora,
fazem setenta... que o morgado vem a dever-me.


MORGADO (_como protestando_)

Devo, devo... Heide dever, e heide pagar... juro-lhe. Juro por... pela
cruz da minha espada.


COMMENDADOR

Se podesse jurar por outra coisa!


MORGADO (_offendido_)

Duvda?


COMMENDADOR

Ha viver e morrer.--Homem, a commenda, bem sabe, apenas me chega para
viver com decencia... e parcimonia.--Suetonio, e outros auctores, louvam
a parcimonia como virtude; mas Terencio tem que a dureza da vida no 
para gente adiantada... e eu sou da opinio de Terencio!--O morgado no
ha-de querer que perca assim setenta moedas!


MORGADO (_desconfiado_)

Deseja alguma segurana?


COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Quasi nada. O morgado faz-me uma escriptura de divida de trinta mil
cruzados!... e sou eu que lhe hei-de pr a data!


MORGADO (_erguendo-se de subito e exclamando furioso_)

Trinta mil cruzados! Dois annos de rendimento da casa de minha prima!...


COMMENDADOR (_tranquillamente_)

No grite.--lhe se estivesse ahi alguem perto?


MORGADO (_contendo mais a indignao_)

Trinta mil cruzados para pagar setenta moedas!


COMMENDADOR

Quem lhe diz isso? Para deitar sege, e ter honradamente as commodidades
que me faltam.--Oia, e entre na razo. Desistindo de aspirar  mo de
sua prima, renuncio quella riqueza toda. No tem valor isto? E fao
mais; trabalho para desafogal-o de rivaes perigosos... perigosos,
podemos dizel-o entre ns. No merecero estes servios trinta mil
cruzados? Contou bem. So dois annos do rendimento de sua prima. Pde
pagar em quatro. Fica-lhe ainda metade. Veja quem lh'o fazia por
menos.--No recuse, ou ponho-lhe quarenta por condio.


MORGADO

Por condio?


COMMENDADOR

Por condio. E hei-de obtel-a.--Ha condies de muitas especies. No
codigo de Justiniano, e nos cincoenta livros dos Pandectas, que lhe
servem de commentario...


MORIGADO (_atalhando-o desesperado_)

Quaes Pandectas nem qual Justiniano! Esse pinhal de auctores e de
latins,  um pinhal da Azambuja. (_passeiando agitado_) Trinta mil
cruzados!... Nada, no me deixo roubar... To tolo era eu que assinasse
similhante escriptura!... Poem-me condies!... a mim!... Sempre quero
vr!...


COMMENDADOR (_cruzando a perna tranquillamente e tirando um papel do
bolso_)

Hade ver.


MORGADO

Poem-me condies!... E d'essas!...  muito caro o seu auxilio,
commendador. Dispenso-o. Tenho outro modo de convencer minha prima, mais
seguro e mais barato.


COMMENDADOR

Mais barato, duvido.


MORGADO

Ver.


COMMENDADOR

O seu famoso segredo?


MORGADO

Ver.


COMMENDADOR (_socegadamente_)

Pois ento experimente. (_O morgado pra e fita-o_.) V dizer a sua
prima: Prima, tenho aqui uma declarao, que me entregou nos ultimos
momentos a Sima da Torre da Palma...  provavel que a traga no
bolso... (_O morgado leva vivamente a mo ao bolso, como para verificar
se l est o papel indicado_.) Traz, descance!...


MORGADO (_mais tranquillo_)

Conjecturas para pescar verdades... O ardil  velho.


COMMENDADOR

Quer saber o que diz a declarao? (_desdobra o papel que tem na mo_.
_Esto ambos attentissimos um para o outro_. _Descerra-se mansamente a
porta do escriptorio, e D. Maria Joanna apparece alli, a rapidos
intervallos, observando_.)


SCENA XII


OS DITOS _e_ D. MARIA JOANNA (_meia occulta_)


COMMENDADOR (_lendo_)

--Por temor de Deus, e amor da verdade, eu Joaquina Sima, familiar da
casa da Torre da Palma, tendo presentimento de que me chegar breve a
hora de dar contas, e no querendo condemnar a minha alma, declaro o
seguinte, que n'esta hora confirmo com juramento aos Santos Evangelhos,
em presena do reverendo padre cura de Vayamonte, e por sua exhortao e
conselho... (_O morgado, primeiro attonito, depois aterrado, tem tirado
do bolso a outra declarao, como para comparar com o que ouve, e
parecendo duvidar ainda_.)  exactamente isto?


MORGADO

Ou o commendador tem parte com Satanaz... ou  verdade o que dizem!


COMMENDADOR (_negligentemente_)

Ento que dizem?


MORGADO

Dizem que  um jesuita... dos que no trazem roupeta.


COMMENDADOR (_severamente_)

Sr. morgado, no repita levianamente as maledicencias do vulgo, que se
pde arrepender!--Quer verificar o resto da declarao? Conta n'ella a
Sima:--como estando j separada do marido a morgada da Torre da Palma,
a filha della Sima adoecra;--como o capito mr, em casa de quem a
mesma Sima nascra e se crira, a reduzira a prometter-lhe que, se a
creana morresse, lhe substituiria a filha d'elle e de D. Felicia, e
faria passar por morta a herdeira, tudo isto para que os bens de
Carregueiros passassem a varo;--como o escudeiro Luiz Manuel fra
mandado administrar uma herdade da casa ao p de Olivena, at  morte
do Capito-mr, para que nem elle soubesse do segredo, de que a mulher
ficava unica depositaria;--finalmente como a Sima, levada das
obrigaes que devia  casa do Capito-mr, tivera a fraqueza de ceder,
e crira como sua a filha de D. Felicia, at que esta a mandou buscar j
crescida cuidando ser a afilhada.--Est tudo claramente explicado, e
devidamente datado e assignado.


MORGADO (_subjugado_)

Essa declarao passou das mos da Sima s minhas... nunca a mostrei...
nunca a larguei... Como  possvel sem ser por artes sobrenaturaes...


COMMENDADOR

Tem innocencias!--Dei uma volta a Vayamonte. O cura ...  meu amigo.
No me podia negar a minuta do papel que elle mesmo escrevra.
(_sentando-se de novo_) Como iamos dizendo... O morgado vae a sua
prima... mostra-lhe esse documento, e diz-lhe: a supposta afilhada de
sua tia D. Felicia  sua prima direita, e herdeira da casa de seu tio
Capito-mr. Este papel e este segredo valem dois teros da sua riqueza.
 a unica prova. Se quizer que tal prova desapparea, case commigo. Nada
tenho de Adonis; sou um tanto nescio; fallador insoffrivel e farfante
rematado. (_Movimento do morgado_)  tudo isto, , morgado... e mais
alguma coisa. (_Como se proseguisse o discurso do morgado_.)
Mas,--continuar,--rasgando este papel  como se lhe trouxesse em dote
os vinculos de Fresnos e de Carregueiros. O argumento conclue. Entra na
ordem d'aquelles a que Cicero chamava: _argumento premente_. Ora como o
tenente Gonalo Mendo no  ainda coisa certa, e como ninguem perde de
vontade dez mil cruzados de renda, sua prima fecha os olhos,
convence-se, e o morgado casa. Com isso conta, e faz bem em contar. Nada
mais solido, mais engenhoso e brilhante. Que pena, se apparecesse esta
minuta, e pela data se visse que o sr. morgado tem ha oito mezes em seu
poder a declarao, sem a entregar!... Era deitar tudo a
perder!--Verdade, verdade; no vale quarenta mil cruzados?


MORGADO

Quarenta agora!...Trinta!...Tinha dito trinta!...


COMMENDADOR (_abrindo a caixa_)

Tinha? Enganei-me. Quem se no engana? Lucio Floro, da nobre familia dos
Anneanos, conta que um engano decidiu uma batalha, e Seneca chama-lhe
_allucinatio_ para mostrar a perturbao mental que o determina
(_voltando-se mesmo sentado, inclinando-se sobre a esquerda, como para
evitar que a pitada que vae sorver lhe macule a tira_.) Foram quarenta,
nem menos um real... E se hesita...


MORGADO (_acudindo_)

No hesito... Assigno-lhe a escriptura.


D. MARIA JOANNA (_que se adiantra sem que os dois, absorvidos na
conversao a presentissem, apresentando-se entre ambos com jovial
placidez_)

E eu sirvo de testemunha!


COMMENDADOR (_erguendo-se sobresaltado_)

A sr.^a D. Maria Joanna Galvo aqui!


D. MARIA JOANNA (_com o mesmo modo prazenteiro_)

Porqu? No sou interessada?


MORGADO (_enleiado_)

A prima, naturalmente, no sabe ainda...


D. MARIA JOANNA (_atalhando como transfigurada, com grave altivez o
severa dignidade_)

Sei... Sei que o sr. morgado da Gsteira me entrega immediatamente esse
papel... e o sr. commendador esse tambem!


SCENA XIII


OS DITOS, BOCAGE _e_ GONALO MENDO, (_apparecendo ao F. e detendo-se a
observar_)


MORGADO

Ha de perdoar, prima. Este papel foi-me confiado.


D. MARIA JOANNA (_como acima_)

De que modo correspondeu  confiana?--Esse papel  o allivio d'uma
saudade, a consolao de uma familia, a restituio d'um patrimonio...
Esse papel  a consciencia e o dever. Tem direito de o conservar nas
suas mos?


COMMENDADOR (_de parte ao morgado_)

No ceda. Se fica ella com a prova, fica o morgado sem o casamento!


D. MARIA JOANNA (_sem os perder de vista_)

Sr. commendador, no se envilea mais... nem faa envilecer mais o sr.
morgado! A cegueira de um homem, que j no vive, privou sua propria
filha do nome e dos bens que lhe pertenciam... O temor da hora extrema
corrigiu essa injustia... (_crescendo em indignao_) Sobre este erro,
que  para chorar, sobre este remorso, que devia ser sagrado, ajusta-se
um pacto infame... (_Movimento dos dois_.) Infame, repito!... Um
mercadeja a honra, outro a consciencia!... Um sacrifica a natureza,
outro o decro!... Isso tudo que  seno valor para traficar, fazenda
para vender?... Que importa a filha desherdada? Que importa a mulher
offendida? A mulher ha-de calar-se e consentir.  o seu interesse...
Pensaram isso?... Pensaram, e nem lhes passou pelo rosto o pejo de o
pensarem!  o mal das indoles corrompidas no admittirem sequer a
existencia de coraes sos e inteiros, para quem a satisfao do dever
seja a primeira riqueza! Fizeram-me o ultrage de me julgar por si. No o
podiam imaginar maior!--Sr. morgado, esse papel!... Sr. commendador,
esse papel!


MORGADO

Se outra pessoa que no fosse a prima se atrevesse a dizer-me
similhantes coisas!...

(_Bocage quer adiantar se; Gonalo detem-n'o_.)


COMMENDADOR

Estes papeis pertencem-n'os!


D. MARIA JOANNA (_mais exaltada_)

 a minha tia que pertencem. Sou eu que lh'os quero entregar!... Sou eu
que devo entregar-lh'os!... No me obriguem a...


GONALO (_adiantando-se e interpondo-se com respeitosa serenidade_)

Perde, sr.^a D. Maria Joanna Galvo... Uma senhora da sua qualidade no
pde entender-se com estes senhores.


BOCAGE (_com ironia mal dissimulada_)

Estes senhores vo pr j nas suas mos os papeis que lhes no
pertencem.


GONALO (_com terrivel frieza, crescendo contra o morgado, que recua na
sua presena_)

O sr. morgado no ha-de querer desattender sua prima!--O papel?


BOCAGE (_do mesmo modo ao commendador_)

O sr. commendador de certo no falta ao respeito a uma dama.--O papel?

(_O Morgado e o Commendador, tranzidos e suffocados, entregam os papeis
aos homens que teem diante_.)


GONALO (_entregando reverentemente o papel a D. Maria Joanna_)

Aqui est.


BOCAGE (_idem_)

Aqui est.


SCENA XIV


OS DITOS _e_ D. FELICIA, _entrando do F. pelo brao de_ MANUEL SIMES,
_que vem sem chapeu_


MANUEL SIMES

Isto  coisa que se creia! Obrigar-me a sair assim pela rua fra, eu, um
compadre dos dois marquezes!


D. FELICIA

Queria que entrasse pelos armazens, ou dsse o brao ao escudeiro? Viu-o
na loja... chamei-o para me acompanhar. Vinha com o meu hysterico, e j
no podia...


D. MARIA JOANNA (_correndo a ella e atirando-se-lhe ao pescoo_)

Minha tia! minha tia! Mal sabe...


D. FELICIA

Credo, sobrinha! Olhe que me desmancha o penteado. Isso so modos de uma
senhora?--A afilhada no est na sua companhia?


MANUEL SIMES

Est l dentro com a mana Monica.


D. MARIA JOANNA (_alvoroada_)

A sua... a minha... (_dando-lhe o brao do outro lado e levando-a
comsigo_.) Venha, venha, que a espera uma grande alegria.


D. FELICIA (_toda turbada_)

Que dia de juizo  este!--No me largue o brao que no estou boa, sr.
Manuel Simes.

(_Saem pela porta do 2.^o plano da D._--_D. Maria Joanna puxando por D.
Felicia, D. Felicia puxando por Manuel Simes_.)


SCENA XV


BOCAGE, GONALO, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Pausa em que os quatro se medem reciprocamente_.)


GONALO (_rindo, para Bocage_)

Conhece alguma coisa mais horrenda do que o sr. morgado quando se faz
amarello?


BOCAGE

Conheo:  o sr. commendador quando se faz verde.


MORGADO

Oh! que se eu me no contivesse... Mas contenho-me.


COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

Motejos sempre, sr. Bocage! Plinio, o moo, celebra como coisa de muito
apreo a graa das palavras!


BOCAGE (_a Gonalo_)

Est mais verde ainda... Foi a peonha que se lhe derramou!


MORGADO

Oh! que se eu me no contivesse!...


GONALO

J disse isso!


BOCAGE

Que lhe parece, sr. Gonalo Mendo! Acabamos com esta raa damninha?
(_indo  janella_.) A altura  soffrivel. Dmos um exemplo.--Deitemos
_isto_  rua. (_indica os dois_.) Limpamos a cidade.

(_Morgado recua aterrado_.)


COMMENDADOR (_sorrindo mais_)

Tem graa o sr. Bocage, tem muita graa!


GONALO (_fitando o commendador_)

 a praga de todos os tempos!... Deixe... Espera-os a publica justia,
que hade chegar... Em gente d'essa no pem mo homens de bem. As
viboras esmagam-se com o p! (_Indicando-lhes a porta, com um gesto a
que os dois logo obedecem_.) Temos que fallar com o dono da casa!

(_Cae o pano_)


FIM DO TERCEIRO ACTO




ACTO IV


Em casa da morgada D. Felicia, s Portas da Cruz.--Sala de visitas dando
para outra.--Ao F. a porta que abre sobre esta.-- E. a porta da
ante-sala, fechada com reposteiro de pano azul, orlado de amarello, com
as armas da casa ao meio.-- D. duas portas. Para o F.,  E. da porta de
communicao com a outra sala, um bufete com tinteiro, etc.--_Trumeaux_,
cadeiras o canaps; a mobilia branca e dourada de meias canas.


SCENA I


(_Ao levantar do panno, um grupo de homens  porta do F. como vendo e
admirando o que se passa na outra sala.--Ouve-se n'esta uma rebeca
terminando o minuete da crte.--Apenas acaba, muitas palmas em que toma
parte o grupo da porta. Logo depois entram os personagens da scena
seguinte, e a sala toma o aspecto de uma reunio ou assembla do
tempo.--As damas vem successivamente sentar-se na ordem adiante
designada.--Os homens ficam pela maior parte em p diversamente
grupados_.)


SCENA II


D. FELICIA _pelo brao do_ COMMENDADOR; _successivamente_ D. MARIA
JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MORGADO, GONALO MENDO, DAMAS _e_
CAVALHEIROS CONVIDADOS


D. FELICIA (_para fra_)

No o faz melhor o proprio Dupr!... Admiravel!... Divino!... Uma
suspenso!... (_ao commendador_.) Ninguem dana o minuete da crte como
o sr. Thomaz Xavier... Uma gravidade... um garbo!... Viu, aquelle
rasgado das cortezias?


COMMENDADOR

E a sr.^a D. Angelica?... Uma magestade... um donaire!


D. FELICIA.

 o par mais completo!... (_procurando com os olhos em redor_.)
Maria?... A minha filha?...


MARIA GERTRUDES

Estou aqui, minha me!


D. FELICIA (_sentando-se_)

Isso... Bem ao p de mim, filha. (_ao commendador_) No repare... No me
cano de repetir este nome de filha... Tinha-o quasi desaprendido!...
Ainda o no creio... Ainda me parece tudo um sonho... Foi milagre, sr.
commendador, no foi?


COMMENDADOR

Com razo symbolisaram os doutos e discretos o maternal affecto na ave
chamada pelicano, figurando-a o dar-se a morte para dar vida aos filhos.
(_contina como conversando_.)


GONALO (_dando o brao a D. Maria Joanna_)

Se sua tia soubesse com quem desafoga aquelles enlevos!


D. MARIA JOANNA

E para que o ha de saber? Mais lhe vale ignorar sempre similhantes
vilanias. (_sentando-se_.) Foi meu cumplice no cumprimento do dever.
Seja-o no segredo d'essas iniquidades.-- dever tambem.


GONALO

A que no me obrigar com a perspectiva de tal
cumplicidade?--Cumplice!... Mediu bem a palavra?


D. MARIA JOANNA (_graciosamente_)

Medi. (_continuam conversando_.)

(_Entra Francisco, como procurando alguem. V D. Maria Gertrudes, e vae
tristemente encostar-se ao trumeau fronteiro_.)


SCENA III


OS DITOS _e_ FRANCISCO


D. FELICIA (_beijando D. Maria_)

A minha filha!... Bem parecia que me adivinhava o corao!... (_vendo
Francisco_.) Sr. dr. Francisco Pedro, seu pae est na roda do
_isque_?... Estas modas novas de Inglaterra fazem os homens bem pouco
sociaveis!


FRANCISCO (_com melancolica resignao_)

No, minha senhora... No  homem de modas, meu pae.--Creio que o vi ao
p do padre procurador de S. Vicente.


D. FELICIA

Ai! se elle se fica a ouvir as historias que o sr. D. frei Caetano conta
s meninas, no sae de l to depressa... (_abanando-se_.) Porque no
nos tem apparecido, sr. morgado da Gesteira?

(_Acham-se todos dispostos como segue: D. Felicia n'um canap  E.,
tendo ao lado D. Maria Gertrudes em cadeira.--N'outro canap, defronte,
D. Maria Joanna, e Gonalo Mendo proximo, em p.--O Commendador, que
passou  extremidade D., sentado conversando com uma dama. Junto d'este
o morgado em p.--Do mesmo lado, encostado ao trumeau, Francisco Pedro
extatico para D. Maria Gertrudes, que no ousa levantar os olhos para
elle_.)


MORGADO

No tenho tido mos a medir, sr.^a D. Felicia, no tenho tido mos a
medir... Fui passar quatro dias ao p da Arrabida... No me deixava um
amigo, homem poderoso, que tenho para aquelles sitios... Tudo por causa
d'uma caada de javardos... Sem mim no se podia fazer... Fui eu que
dispuz os emprazadores. Fui eu que dirigi os couteiros. Fui eu que fiz
chapear os cavallos por causa dos estrpes, e metter-lhes as apatilhas
e peitoraes de matto como  indispensavel. Fui eu que determinei a
_calcada_... Finalmente, bateram-se duas moitas, e trouxemos nem menos
de seis rezes grandes, uma cerva, dois vareiros e trez javardos... S eu
 minha parte, a tiro e  faca, matei sete.


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Trouxeram seis, e matou sete!


MORGADO

 verdade. Perdeu-se um bique enorme... Sumiu-se no brejo que no foi
possivel achal-o.


COMMENDADOR

Fez tudo o morgado. E os outros caadores?


MORGADO (_ao commendador_)

Admiraram. (_a D. Felicia_) Antes de hontem passei a tarde n'uma
academia de espada... (_ao commendador_) em casa de mestre Estevo da
rua das Hortas... (_ companhia_) Ia l um genovez de quem se diziam
maravilhas. E com effeito  homem desembaraado na arte. Tirou a melhor
de quantos contenderam. Eu estava alli a vr, e no queria assim sem
mais nem menos entrar em assalto com um estrangeiro, que no sabe a
gente quem ... Mas os amigos, que me tinham levado alli...
provavelmente j de proposito... comeam a dizer-me: Sr. morgado, isto
 uma vergonha para o reino!... Sr. morgado, s v. s.^a pde
desaffrontar a nao!... Sr. morgado, isto so pontos d'honra!...
Atacaram-me pelo meu fraco... No pude resistir... (_fazendo meno de
despir_) Largo o jossinho... pego na espada... colloco-me no recto...
Ao terceiro passe, o genovez tira-me de quarta a fundo... Paro de forte
contra forte!... Fao um prendimento rapido... Estava desarmado o homem!
(_Gonalo sorri_.) No  por me gabar: confessou elle mesmo que nunca
vira pulso to rijo, nem uma agilidade assim!


GONALO (_com obsequiosidade ironica_)

Estava em boas mos... a honra nacional!


MORGADO (_seccamente_)

Favores! (_continuando_.) Hontem fui a uma corrida de pombos a Carnide.
(_negligentemente_) No enfiei seno cinco. Deram-me para correr um
cavallo quasi serril... E era  gineta, que se fosse  brida!... Hoje
estava convidado para jantar em casa d'um desembargador da Casa da
Supplicao, meu amigo de tu. Chegou-lhe um cosinheiro de Frana, que
faz na perfeio a sopa de natas e as tortas de espargos.--O meu amigo,
sabendo como sou entendedor, fazia empenho no meu voto.-- tambem tarde
de opera na Rua dos Condes. Representam uma coisa italiana que se
chama... que se chama...


COMMENDADOR

_Il Mercato di Malmantile_... Uma opera nova.


MORGADO

Creio que sim. A estas primeiras representaes nunca falto.


D. FELICIA

E no foi? Um peralta de quarto voto, como o sr. morgado!


MORGADO

No fui... s para no faltar aqui logo no principio, e vir aos ps da
sr.^a morgada!


D. FELICIA

J vejo que me queixei sem razo. Uma pessoa como o sr. morgado nunca 
senhora de si. (_ao commendador_.) E que tal  a opera?


COMMENDADOR

No so para mim similhantes futilidades. Em coisas de theatro s acho
sabor aos gregos e romanos.--Sabia o titulo da opera nova, porque o vi
na _Gazeta_ de tera feira. Aqui a trago eu. (_tira do bolso uma folha
impressa, em papel pardo, em quarto pequeno_.)


D. MARIA JOANNA

A opera nova?


COMMENDADOR

No, minha senhora... a _Gazeta_. J se sabe a razo por que o eleitor
de Saxonia toma parte to activa na liga germanica. Eu prophetisei-o
sempre!


D. FELICIA

No gosta do nosso theatro? No tem razo. Queria que visse aquella pea
intitulada... _As lagrimas da bellesa so as armas que mais vencem_...
que se representou o anno passado no Bairro Alto... Faz chorar as
pedras... E j no  o que era, aquella casa. Viu, sobrinha?


D. MARIA JOANNA (_que conversava com Gonalo_)

No vi, minha tia.


D. FELICIA

Em Frana tambem ha theatros e peas bonitas? Se hade haver! Tem
gracioso em todas, como c? E magicas?


D. MARIA JOANNA

Ha de tudo, e com abundancia.--Para mim nunca achei auctor que me
deleitasse como um chamado Molire. No  dos modernos, nem est agora
em voga; mas escreveu comedias, que ainda no li outras de egual
verdade... duas sobre tudo... o _Tartufo_... No conhece o _Tartufo_ sr.
commendador?


COMMENDADOR (_um pouco turbado_)

No conheo seno os antigos... Terencio, Plauto, Aristphanes...


D. MARIA JOANNA

Que pena! Pois  excellente comedia o _Tartufo_... E acho tambem um
sainete particular ao _Importuno_... O sr. morgado da Gesteira devia dar
uns annos de folga  monteria, ou  esgrima, ou  gastronomia, e
aprender o francez... s para ler o _Importuno_!... Estou que havia de
gostar.


(D. FELICIA _que a ouvia admirada_)

Vs, filha, que de coisas se sabem l por fra?


MORGADO (_a D. Maria Joanna_)

Os homens da minha condio no perdem o seu tempo com...


D. MARIA JOANNA (_atalhando ironicamente_)

Com um insignificante como Molire. Acho-lhe razo.


D. FELICIA

Em operas, vi eu j o que se pde ver. Quem assistiu em Queluz  opera
da Galathea!... Eram os annos do principe D. Jos, e estavam para se
ajustar as pazes com a Hespanha... Quem assistiu a uma coisa
d'aquellas...


D. MARIA JOANNA

Ah! esteve no theatro da crte?


D. FELICIA (_hesitando um pouco_)

Estive... alguma coisa de longe... No era onde devia estar... mas
estive... Alcancei entrada pelo sr. marquez de Marialva, que esse sabe
dar estimao a quem a merece... Estive... Por signal fui achar entre as
aafatas a mulher d'aquelle da alfandega... que se no sabe d'onde lhe
veiu o dom... No tem seno um criado d'almofada... e quando lhe vo
visitas, chama pelo nome e sobrenome o criado de porta abaixo, que no
ha outro na casa, para figurar de escudeiro... Estava l, estava alli,
ella, em quanto pessoas que sempre se trataram  lei da nobreza...
Aafata aquillo!... No foi seno por empenho do Estacio, o bobo do
pao, algum dia que teve a fortuna de fazer rir Suas Magestades...
Aquillo aafata!... Ai!... Ai!... Maria, filha... a agua de Melissa...
depressa!...


D. MARIA JOANNA E D. MARIA GERTRUDES (_erguendo-se como para
socorrel-a_)

Tem alguma coisa?


D. FELICIA

No  nada... o meu hysterico!...


D. MARIA JOANNA (_ameigando-a_)

Passou?... Passou... (_voltando a sentar-se_.) E a Galathea?


D. FELICIA

Isso sim!--A Galatha, de Metastario, com musica do Antonio da Silva...
a orchestra dirigida pelo Joo Cordeiro... tudo professores da real
capella!... Pois os cantores!... Vindos de Italia de proposito... o
Romanini, o Violani... o Violani principalmente... Umas volatas... uns
gorgeios... uma... uma suspenso!... No espero tornar a ouvir cantar
assim... E depois o baile d'Alberti!--E as pessoas reaes!... E toda
aquella crte... No se via seno sedas, veludos e oiro!... E que
tellas, que pinturas, que lustres!... Theatro aquelle! Opera aquillo!...
o mais...


SCENA IV


(_Entra um escudeiro velho e dirige-se respeitosamente a D. Felicia_.)


D. FELICIA

Que quer, Joo Rodrigues? (_a D. Maria Gertrudes_)--So j sete horas?


D. MARIA GERTRUDES (_distraida, e sem levantar os olhos_)

So.--Ho de ser.


D. FELICIA (_vivamente_)

Que tens?... Triste agora!


D. MARIA GERTRUDES (_constrangendo-se_)

Triste, eu?--Nunca estive to alegre!...

(_O escudeiro diz algumas palavras em voz baixa a D. Felicia_.)


D. FELICIA (_ao escudeiro_)

J sei, j sei. Ponha a banca e as urnas na outra sala. (_Levanta-se, e
todos_. _Aos circumstantes_.) So horas do nosso ch. (_indo a uma das
damas presentes_.) A menina Escolastica hade-nos cantar depois aquella
modinha brazileira com primeiras e segundas... to linda, to linda...
uma suspenso mesmo!... Aquella... Recorda-se?... (_achando_.) Ah! _Os
Melindres da Sinh_! Canta, riquinha, sim?


D. MARIA JOANNA (_a Gonalo_)

Se no estiver com a rouquido do costume.


GONALO

Est decerto, em quanto no chegar o seu tudo.


D FELICIA (_a outra_)

A sr.^a D. Euphrasia das Neves faz a segunda e o sr. D. frei Caetano
acompanha-as ao cravo... (_a uma dama_.) Alli onde o v, o meu cravo foi
o primeiro cravo de martellos que veiu a Lisboa... j depois da guerra
de 62, creio... Mandou-o vir Sua Alteza o sr. conde de Lippe, que era
grande tocador, e muito divertido, (_a Gonalo Mendo_.) Lembra-se da
guerra de 62?...


GONALO

Uma guerra que no passou do principio?


D. FELICIA

Desculpe... No pde lembrar-se... Tive um primo nos reaes
voluntarios... foi morrer  India. A proposito, o nosso cadete? O seu
amigo Bocage demora-se... Estou vendo que nos falta hoje!... Logo hoje
que no veiu outro, e esto c tantas pessoas para o ouvir!...


GONALO

No falta. (_em voz baixa_) Mas pelo amor de Deus, sr.^a morgada, no
lhe diga isso...


D. FELICIA

Isso o qu?


GONALO

Que lhe faz falta por no ter outro.  capaz de se declarar mudo... se
no fizer peior!


D. FELICIA

Sempre lhe digo que tem um tal genio, o cadetinho!


GONALO

Desculpe-o. No  poeta como os outros.


D. FELICIA

Fazem-se sempre assim. Em ganhando fama!... (_como em confidencia ao
commendador, que veiu dar-lhe o brao_)  a novidade, que eu c para mim
acho mais chiste ao padre Braz... e mesmo ao Caldas.


COMMENDADOR

Pois tem dvida!--Chamarem quillo poeta!...


D. FELICIA

Ai! nem tanto!... (_Saem_.)

(_Vo saindo todos_. _Fica em ultimo logar Gonalo Mendo com D. Maria
Joanna pelo brao_.)


GONALO (_em quanto os outros saem_)

Que me diz s nossas assemblas? Francamente, lembra-se com pena do seu
Paris?


D. MARIA JOANNA

Pensa que no h ridiculos tambem? No tenho pena! Vaidades? lhe a
lucta de Marmontel e do abbade Arnaud por causa de Gluck e do Orlando.
Vicios? lhe o processo do cardeal de Rohan o anno passado, a priso da
condessa de la Mothe, e as negras machinaes de Cagliostro!... Se visse
o que de l me escrevem!


GONALO

Devras; no lhe do saudades?


D. MARIA JOANNA (_gentilmente_)

Cada vez menos.


GONALO (_transportado_)

Oh!... Quando poderei eu ter esperanas?


D. MARIA JOANNA (_como acima_)

No comeou j?


SCENA V


OS DITOS, BOCAGE (_da E._)


GONALO (_vendo Bocage_)

Ah!... Ahi chega o nosso poeta. Permitte-me que lhe falle em quanto vo
ao seu ch? (_conduzindo-a  porta da outra sala_.)


D. MARIA JOANNA

Permitto que v da minha parte agradecer-lhe.


SCENA VI


GONALO _e_ BOCAGE


BOCAGE

Pelo que vejo parece-me que lhe posso dar os parabens.--Pois dou, e de
todo o corao.  mais do que formosa a sr.^a D. Maria Joanna...  mais
do que discreta...  uma alma grande, d'essas que  fortuna encontrar.
Como ella se despojou facilmente e alegremente da maior parte dos bens,
que desde pequena tinha como seus!


GONALO

 o menos, isso. Era dever: bastava. Tem raras qualidades em tudo... por
isso a adorava j de longe...


BOCAGE

Ah! confessa?


GONALO

Posso confessal-o... agora.


BOCAGE

Porque a adora... de perto. Foram ento a proposito os parabens!


GONALO

Os parabens, ainda no.


BOCAGE

Mas no podem tardar.


GONALO

Mais caso de parabens  o seu. A transformao da menina da casa
engrandece o objecto das suas predileces. Em vez da humilde afilhada,
pobre e dependente, acha uma boa familia e uma rica herdeira!


BOCAGE (_despedidamente_)

Por causa d'isso estive para no vir!


GONALO

Porqu? No lhe tem j amor? Bem me dizia ento...


BOCAGE

Dizia mal... O que lhe dizia no se entendia com esta!... No lhe tenho
j amor? Tenho. E bem devras, e bem de dentro... De certo o primeiro da
minha vida... e... quem sabe?... talvez o ultimo! Mas o que provocou
este amor desappareceu. Foi-se o que lh'o fazia grato, o que m'o fazia
generoso. Foi-se-lhe com a condio, foi-se-lhe com a orphandade.


GONALO

Se tem esse modo de encarar as coisas...


BOCAGE

Poucos me ho-de entender. Poucos me entendem com effeito. Mas
entende-me o sr. Gonalo Mendo... Sei j que entende.--Rica! Rica? E eu
que lhe levo em troca?... Diro que lhe procuro a riqueza!... Diro que
fiz do affecto um pretexto, do carinho um degrau, da paixo uma
usura!... A poesia quelle serviu, repetir contente por ahi a turba
vilan dos malevolos e dos zoilos... Arrendou-a por contrato... poz a
lyra a juros... vende mais caro o corao que as obras.--Diro isto,
diro... e Deus sabe o que mais... E o grande numero cr... e no poucos
applaudem...--Vender-me, eu!... Eu, Bocage!... Vender o corao! vender
a musa!... esta musa indomita e indomavel!... Oh! basta que o suspeitem!


GONALO (_calorosamente_)

Pois a taes consideraes sacrifica a felicidade? Pois...


BOCAGE

A felicidade?... Seria... Aqui presinto que era... Mas o orgulho a
sublevar-se-me de continuo!--Resistiria a felicidade a similhante
procella?--Podia a donzellinha modesta ser a estrella pollar do poeta
sem graus nem haveres... Podia em quanto era o infortunio... Deixou de
ser a constellao melancholica das noites saudosas; fez-se o astro
d'oiro dos dias refulgentes!... Era... era a felicidade no amor casto,
no puro enlevo... Veiu a fatalidade, e levantou em seu logar o idolo das
multides.--Esse no pde ser o idolo de Bocage!


GONALO

Tudo exagera... tudo leva ao extremo.  de condio distincta. Casando
com a herdeira, pde desafogadamente cultivar o talento, aproveitar o
estro, e servir a patria... O que recebe em fortuna, paga-o em gloria!


BOCAGE

Bocage casar! Casar eu!... Curvar o collo a esse jugo!... roxear os
pulsos com esses grilhes! Sujeitar-me a esse perenne captiveiro!...
Eu!... Que mal me conhece!-- pouco para mim o ar e o espao... Toda a
ida de sujeio me opprime como as grades de um carcere... Alexandre de
Macedonia, no auge do poder, visitou em Corintho o philosopho que da
miseria extrema fazia officio e gala.--Pede sem receio. Que queres de
mim? disse o grande conquistador.--Que te affastes d'ahi, para me no
tirar o sol, respondeu o festivo indigente. Tenho alguma coisa do
espirito d'esse philosopho... Acima de todas as venturas ponho uma... a
verdadeira, a maior, a superior, a unica... a minha independencia!


GONALO (_severamente_)

Que quer ento fazer? Desvalida ou abastada, a menina da Torre da Palma
 uma flor de candura.--Quer-lhe inutilisar sem fito os breves annos
juvenis?... Quer-lhe immolar a mocidade?... A qu?... Ainda ha pouco
estava ahi um pobre moo, penando por ella que fazia d... penando uma
paixo sincera e sem egoismo. Sabe quaes so os intentos d'esse mancebo?
Deixar o lar e a patria... s para no vl-a indifferente!...


BOCAGE (_arrebatado_)

Quem ?


GONALO

Conhece-o j...  o filho de Manuel Simes, que se doutorou
ultimamente.-- um rapaz honrado...  rico tambem... e comea uma
carreira estimada. Podia fazel-a feliz... e fazia de certo. Com que
direito a priva se no pde compensal-a? Julgaria elle destino invejavel
o que o sr. Bocage reputa insupportavel priso!


BOCAGE (_pensativo_)

E ella?


GONALO

Ella, a pobre innocente, sabe l!--Diga-me, o que quer fazer?


BOCAGE (_pensativo_)

No sei. (_reparando para dentro_)  o morgado da Gesteira, e o
commendador de Monsars, que vejo na outra sala?


GONALO

So.


BOCAGE

Aqui? ambos!


GONALO

Ambos.--A sr.^a D. Maria Joanna deseja formalmente que se no falle do
que se passou com elles em casa do mercador. E tem raso. Impe-lhe este
dever a delicadeza. No podemos publicar a parte vergonhosa, que tiveram
no caso, sem dar occasio a divulgarem elles a fraqueza do
capito-mr.--Isso quer evitar a sr.^a D. Maria Joanna por atteno 
memoria de seu tio. Calando ns, calam-se forosamente os dois. Que
estamos todos na resoluo de nos calar, j o Commendador percebeu, e
d'ahi tiram ambos a audacia.--Comprehende agora o nobre silencio da
sr.^a D. Maria Joanna, e a presena do Commendador e do Morgado?


BOCAGE

Comprehendo o silencio: no comprehendo a impudencia. Esses homens no
teem sentimentos!


GONALO

Se tivessem sentimentos no faziam o que fazem. Eil-os ahi.


BOCAGE

Vamo-n'os ento, ns. Custa-me a conter.


SCENA VII


OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO

(_Gonalo e Bocage vo a sair_. _Os dois veem entrando_.
_Encontram-se_.)


COMMENDADOR (_indo prazenteiramente a Bocage, e offerecendo-lhe a mo_)

Oh! sr. Bocage! Como vae?


BOCAGE (_sem lhe dar a mo, passando_)

Vou para diante! (_Sae com Gonalo para a outra sala_.)


SCENA VIII


COMMENDADOR _e o_ MORGADO


COMMENDADOR (_tirando a caixa e encolhendo os hombros_)

Mocidade imprudente!


MORGADO

V, commendador? No temesse eu que fallassem, e saberiam...


COMMENDADOR

No fallam. Se o podessem fazer, j o tinham feito.


MORGADO

O que lhe invejo  o socego.


COMMENDADOR

Claudiano diz: O espirito do sabio  similhante ao cume do Olympo; fica
to superior aos ventos e s nuvens, que nunca as tempestades o
inquietam.


MORGADO

Mas eu que no sou sabio... nem tenho pena... aqui estou agora...
(_olhando em redor_) Ninguem nos ouve... Aqui estou agora sem dinheiro,
sem casamento, e sem esperanas.


COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Sem esperanas!... Porqu?--Sua prima tem ainda a casa de Val-moreo.
Cinco mil cruzados de renda, creio que me disse... No  o mesmo,
seguramente... um tero apenas do que era... mas nas suas circumstancias
actuaes... Pela minha parte sou justo. (_olhando em redor, em voz
baixa_) A escriptura de divida, no ser j de trinta, ser de dez mil
cruzados. Dispenso a sege.


MORGADO

Pois teima ainda! No se desenganou com o desastre do outro dia?


COMMENDADOR

O outro dia... veja o que tirou das suas duvidas e espalhafatos!
Quintilliano tem por vergonha desesperar do possivel. Eu nunca me
desengano em quanto vejo remedio.


MORGADO

Remedio! Mas que remedio? No v como o tenente anda todo derretido para
minha prima? No v como ella o attende? E agora, de mais a mais, que
est senhor de uma boa casa.


COMMENDADOR

Extranho-o. Pois  possivel imaginar que pde alguem competir com o
Morgado?


MORGADO

No digo isso...


COMMENDADOR

O tenente fica por minha conta. Tenho que lhe pagar uma divida... e ao
Bocage tambem. Ns sabemos esperar... e nada esquecemos. No ha inimigo
peior do que o inimigo que espera e no se espera. _Inexpectatus
hostis_, lhe chama Ovidio, Sulmonense.--Sua prima est j casada,
porventura?


MORGADO

Mas aquelle ajuste que ella ouviu! a impresso que lhe ficou!


COMMENDADOR

Empregue tambem pela sua parte algum esforo. No sejam tudo vozes
vs.--Se estivesse no seu logar, d'isso mesmo faria um merecimento mais.
Attribua-me toda a culpa. Indigne-se bem contra mim: no tem duvida.
Diga-lhe que foi a desesperao, o amor, o desejo de alcanar a sua mo.
As damas raramente deixam de se convencer d'isso. Affirme-lhe que vive
no meio de um incendio... como a salamandra... Ainda que Gesnro
assevera que a cinza de salamandra  remedio soberano, e d'ahi se deva
concluir que mal poder viver no fogo o que se reduz a cinzas... Em fim
pinte-lhe ao vivo as chammas em que se abraza... (_enfastiado_) Isso 
com o Morgado, no  commigo.--Convem-lhe ou no lhe convem ainda o
casamento?


MORGADO

Se convem! O que eu no sei  como se ha de agora estorvar o tenente!


COMMENDADOR

Sei eu (_olhando para dentro_). Acabou o ch. Ahi vem todos outra vez.
(_Vae ao F. dar o brao a D. Felicia para a conduzir para o seu logar_)


SCENA IX


OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, BOCAGE,
GONALO, FRANCISCO _e_ CONVIDADOS


D. FELICIA

Que pena ter enrouquecido a menina Escholastica! Tambem, havia de ir
logo sentar-se ao p do corredor... No foi seno o ar da porta com o
calor do ch... (_ Dama_) Quer a sua pelicia, minha joia? (_gesto
negativo_) Tomra que ouvissem!... Canta as modinhas brazileiras como
ninguem... Tem uma graa n'aquelles tons menores!...  mesmo...


COMMENDADOR (_atalhando_)

Uma suspenso.--E , na verdade, .


GONALO (_a D. Maria Joanna_)

No lhe dizia eu? Faltou-lhe o seu _tudo_.


D. MARIA JOANNA

Faltando-lhe... tudo, como havia de ter voz!


GONALO

So os namorados mais extremosos! Ella, sangrou-se ha tempos. Elle, foi
logo procurar o cirurgio, e deu-lhe cinco moedas pela lanceta!


D. FELICIA

Felizmente veio o sr. Bocage. No imagina como estamos impacientes por
ouvil-o. (_Sentam-se_. _Tomam todos os seus anteriores logares_.
_Unicamente D. Maria Gertrudes passa  E. de sua me_. _Bocage fica em
p junto a D. Felicia na extremidade E. e o Commendador em p ao lado do
Morgado, defronte_.) Aqui  melhor, no? O padre procurador no acaba
com as suas historias!...


BOCAGE

Pedi j desculpa, sr.^a morgada. Fui passar o dia ao Lumiar. Na volta
demorei-me mais do que desejava no Campo Pequeno. Ha toiros manh.


GONALO

No Campo Pequeno? Tinham-me dado idas.  cavalleiro o Manuel dos
Santos, no?


BOCAGE

. E o Romo a p.


MORGADO (_intromettendo-se_)

Tem disposies o Manuel dos Santos. Chama bem  estribeira; mas no tem
pulso para o rojo, e  espada  fraco. O Romo com as farpas no vae
mal. Se um dia me resolver...


BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

A sr.^a D. Maria Joanna vae?


D. MARIA JOANNA (_que estava entretida_)

Como, sr. Bocage? (_percebendo_) No vou. Confesso que no  dos
divertimentos mais do meu gosto.


D. FELICIA

Ouvi que se no correm touros em Frana. Naturalmente ho de dizer mal
de ns por isso.


D. MARIA JOANNA

Nem todos. Ao conde de Saint-Germain, que os tinha visto em Hespanha no
tempo de Filippe V, ouvi eu que era apaixonadissimo.


BOCAGE

No tempo de Filippe V! Quantos annos tem hoje esse conde de
Saint-Germain, e quantos tinha quando esteve em Hespanha?


D. MARIA JOANNA

Esteve em Hespanha e percorreu o mundo. O conde de Saint-Germain  um
viajante como no ha outro. Beijou a mo a Francisco I na vespera da
batalha de Pavia; conheceu El-Rei D. Sebastio quando se preparava a
expedio d'Africa; e teve em Cuba amisade com Fernando Cortez antes de
este ir conquistar o Mexico.


BOCAGE (_rindo_)

Parece to convencida! Ninguem dir que est gracejando.


D. MARIA JOANNA

Mas no estou.


BOCAGE (_rindo_)

Ha ento em Frana Mathusalens ainda? Julgava perdida a especie.


D. MARIA JOANNA

Um Mathusalem! Na apparencia no. Quem o vir dir que tem a edade do sr.
Morgado, pouco mais ou menos... (_maliciosa_) antes para menos que para
mais.


MORGADO

E conheceu El-Rei D. Sebastio! Essa agora!...


D. MARIA JOANNA

Diz elle. Pergunte ao sr. Commendador, que o viu na embaixada, e lhe
fallou nas salas do meu contra-parente D. Vicente de Sousa.  verdade,
sr. Commendador?


COMMENDADOR

 verdade. E viu-o toda a gente em Paris. O conde affirma que possue o
elixir da immortalidade. S assim.--O grande Raymundo Lullio refere...


BOCAGE (_cortando-lhe a palavra, a D. Maria Joanna_)

E os parisienses acreditam isso?


D. MARIA JOANNA

Acreditam.


BOCAGE

Fallem-me ento na credulidade portugueza.


D. MARIA JOANNA

Duvidaram ao principio. Agora vo-lh'o negar! O conde sabia os segredos
de todos... No admira, tendo vivido e viajado tanto!... Est l, ainda
creio... Se acaso se lembra de dar uma volta por Lisboa... Ha de ser
incommodo, um homem que est senhor dos segredos de toda a gente... No
lhe parece, sr. Morgado?


MORGADO (_balbuciante_)

Por mim...


D. FELICIA

Coisas de estrangeiros! Eu, se tal visse, tinha o meu hysterico, por
fora. Nome da Benta Hora! Credo!


BOCAGE

E eu quizera encontral-o, para satisfazer uma curiosidade. Desejava
perguntar-lhe... visto que tanto andou e tanto sabe... se alguma vez,
nas suas longas peregrinaes, encontrou figuro mais sem pejo... do que
dois sujeitos do meu conhecimento.


COMMENDADOR (_baixo ao Morgado_)

Esto apostados a molestal-o. No succumba.


MORGADO (_idem_)

Vae vr. Deixe... Deixe que vae vr.


D. FELICIA (_a Bocage_)

Queria encontral-o? No diga isso.--N'estas conversas se vae o tempo, e
nada se faz.--Sr. Bocage... Um improviso dos seus... Quem d mote?... D
mote, sobrinha!


MORGADO

Versos a motes quem quer faz... No tenho eu querido, seno... Versos a
motes!... Sempre ouvi dizer que era o _A B C_... e est claro que 
(_sem achar sada_), porque os versos com os motes e os motes com os
versos... ou para fallar mais claro, os versos sem os motes e os motes
sem os versos...


COMMENDADOR (_sugerindo-lhe indirectamente a ida_)

O mote com effeito  uma sentena, que serve de assumpto, e pe a
caminho o engenho. O principal est feito. O mais  ajustar palavras e
combinar as rimas. Com algum exercicio no  difficil!


BOCAGE (_medindo-os admirado e retraido_)

Ah!


COMMENDADOR (_continuando_)

Mote querem alguns que venha do latim _motus_, que significa movimento.
E bem se pde ter que assim , porque do mote em verdade nasce o impulso
que faz mover o estro...


MORGADO (_atalhando_)

 o que eu queria dizer. O mote vem a ser tudo... Mais por aqui, mais
por alli,  tudo o mote.--O mote  o assumpto; no havendo mote no ha
assumpto; e ahi  que est! (_satisfeito de si e com extrema
volubilidade_) Fazer versos sem assumpto no  para qualquer: tem de se
tirar tudo da cabea, assim de repente, do p para a mo, sem mais nem
mais. Tambem no sei porque se ha de pedir mote. Quando uma pessoa monta
a cavallo no precisa de mote para fazer os piafs, e as curvetas, e as
balotadas, e as garupadas; nem to pouco se d mote quando qualquer
mette mo  espada, e entra a executar batiduras, ligamentos,
juntamentos, cambiamentos, tentamentos, e esquivamentos. Eis ahi. Isto 
que eu queria... Chegar um homem, no esperar por mais, nem esfregar a
testa, nem pr os olhos em alvo, bater as palmas e logo alli, zs...
como quem deita um foguete de sete respostas!...


BOCAGE (_atalhando e batendo as palmas_)

L vae!


COMMENDADOR (_sorrindo_)

Sem assumpto?


BOCAGE

Est ahi defronte, o assumpto.

Famosa gerao de falladores
Consta que foi, Morgado, a origem tua,
Que nem todos os ces, ladrando  lua,
Tiveram que fazer com teus maiores:

Um a lingua ensinou dos palradores;
Outro, o motu continuo achou na sua;
Outro, alm de encovar toda uma rua,
Aaimou n'uma junta a cem doutores:

Teu av, santanario venerando,
Soube mais oraes que mil beatas,
Com reza impertinente os ceus zangando:

Teu pae foi um trovo de pataratas:
Teu tio, o bacharel, morreu fallando;
Tu, fallando sem tom, no morres--*matas*!


TODOS (_applaudindo_)

Bravo! bravo!


MORGADO (_engasgado de raiva_)

Sr. Bocage!... Sr. Bocage!...


BOCAGE (_fitando-o serenamente_)

Que ?...


COMMENDADOR (_com o seu sorriso, ao Morgado_)

Agasta-se? De qu? No tem raso... So facecias innocentes, e muito
graciosas na verdade!... (_Gonalo passa disfaradamente para o lado de
Bocage_) Mais picantes ainda as fez Juvenal!... Se fosse verdadeiramente
improviso, era deveras um primor... E no digo que no seja... Mas 
facil trazer estas coisas estudadas j... (_Bocage estremece de
indignao ante a contradictoria perfidia_.--_Gonalo que lhe est ao p
detem-o_.)


GONALO (_baixo_)

Querem fazel-o sair de si. Com algum fito . Modere-se.


COMMENDADOR (_observando_)

Depois, os conceitos naturalmente andam preparados com antecedencia.


BOCAGE (_sem poder ter-se, batendo as palmas_)

L vae!--Sr. Commendador, permitta-me descrever-lhe um certo
individuo... do nosso conhecimento...  moda de Juvenal!

Do Sena, que foi ver por seu desdouro,
Um pedante voltou, de escassa fama,
Que os livros cata, os cartapacios ama,
E n'elles julga os annos um thesouro:

Traz laivos de francez, arranha o mouro,
Sabe que Deus em turco _Allah_ se chama,
Que no grego alphabeto o _G_  _gamma_,
Que _taurus_ em latim quer dizer touro:

Tem de velhos canhenhos chocho extracto;
Abocanha talentos que no gosa;
Se rosna, prega unhadas como um gato:

Achareis na pintura rigorosa
Um fofo sabicho, posto em retrato,
Que  nada em verso, quasi nada  prosa!

(_Impresso de assombramento_. _Ninguem ousa applaudir_. _Segredam todos
mutuamente_.)


COMMENDADOR (_parecendo satisfeitissimo_)

Muito bem, muito bem, sr. Bocage. Esse sim. A isso  que se chama
responder _apposit_. (_O escudeiro, vem apressadamente a D. Felicia, e
falla-lhe em voz baixa_) Retrato lhe chama, no? V-se que : ha de
mostrar-me o original. Mas cuidado, no o saiba elle!...


D. FELICIA (_ao escudeiro_)

Que me diz! (_erguendo-se alvoroada_) Meus senhores, o sr. marquez de
Marialva est ahi. (_levantam-se todos_.)


SCENA IX


OS DITOS _e_ MANUEL SIMES


MANUEL SIMES (_alvoroado_)

O meu compadre! Est ahi o meu compadre? (_a Francisco_.) Olha que  o
teu padrinho, Francisco.


D. FELICIA

Valha-me Deus! Sem estar nada prevenido... Mande abrir j o porto, Joo
Rodrigues. (_O escudeiro sae vivamente para a E._) Querem fazer-me o
favor de me acompanhar?...


MANUEL SIMES

Vamos esperal-o todos!


D. FELICIA

Vamos receber sua excellencia.

(_Saem todos_. _Fica s o morgado passeiando agitado, e o commendador
observando-o_.)


SCENA X


COMMENDADOR _e_ MORGADO


MORGADO (_depois de os ver sair_)

Ter a confiana de me tratar por tu!... D'esta vez fao uma fallada!...
Ambos... ho de ser ambos!... Fizeram bem em aproveitar a occasio de se
esgueirar.... No podia j conter-me!... E agora...


COMMENDADOR (_tomando-lhe o brao_)

Deixe-se d'isso.


MORGADO (_forcejando para se desembaraar, e mais agitado_)

No me sustenha, commendador, no me sustenha!


COMMENDADOR (_largando-o_)

Aonde quer ir?


MORGADO

Aonde quero ir? Boa pergunta! Aonde quero ir!... (_forcejando como
antes_.) No me sustenha... (_vendo que o no sustem, e hesitando_.)
Qu?... (_em grandes passos_.) No me sustenha... Quero dizer,
sustenha-me, sustenha-me, seno vou fazer uma grande desgraa!...


COMMENDADOR

Accommode-se. No ouviu quem vem ahi?


MORGADO (_estacando transido_.)

So elles?


COMMENDADOR

No, homem. No sabe que  o marquez?


MORGADO

No so elles? (_recomeando as bravatas_.) Podra! Olhem se nos
apparecem agora! Olhe l se voltam seno no meio de toda essa gente!...
Cobardes!


COMMENDADOR

Esteja quieto. Estamos aqui ss... e j nos conhecemos!


MORGADO

Ento isto hade ficar assim?--No  seno o tenente que mette a caminho
o Bocage para nos chasquear. No o viu ha pouco ir ter com elle?--Isto
hade ficar assim!...


COMMENDADOR (_com o seu sorriso_)

No lhe disse j que no... Andam a semear!... Deixe, que ho de
colher!... Ouve? O marquez subiu j. Vamos tambem. (_Dirigem-se  porta
da E._. _Entra o escudeiro, corre o reposteiro, e colloca-se 
humbreira_. _Os dois tomam tambem de uma e outra parte logar 
porta_.--_Entra o marquez, ao lado de D. Felicia, e seguido de toda a
companhia anterior_.)


SCENA XI


MARQUEZ, D. FELICIA, D. MARIA JOANNA, D. MARIA GERTRUDES, MANUEL SIMES,
FRANCISCO, GONALO, BOCAGE, COMMENDADOR, MORGADO _e_ CONVIDADOS


MARQUEZ

Se soubesse que vinha incommodal-a, sr.^a morgada...


D. FELICIA

Incommodar-nos, v. ex.^a! Estava bem longe de esperar tamanha honra, e
por isso...


MARQUEZ

Cheguei ha pouco de Cintra, e achei em Belem uma carta de Martinho de
Mello, que me obrigou a vir logo aqui.--Passei por sua casa, Simes...
Disseram l ao meu volantim, que tinha ido com seu filho de visita 
sr.^a morgada.--(_a D. Felicia_.) Vim assim mesmo, com as minhas
saragoas... No esperava encontrar to luzida companhia.--Como  caso
de pressa no queria perder a occasio.


MANUEL SIMES (_sem perceber_)

V. ex.^a dignou-se passar por minha casa...  negocio de pressa...


MARQUEZ

Um negocio com o meu afilhado... Onde est elle?


FRANCISCO (_apresentando-se respeitoso_)

Meu padrinho!


MARQUEZ (_em confidencia_)

Teu pae sempre o hade saber... e mais vale que seja agora, diante de
mim. (_alto_.) A nau de viagem sae para a semana. J vs que se no pde
perder tempo.


MANUEL SIMES (_attonito_)

A nau de viagem... o Francisco!...


D. FELICIA.

O sr. marquez de p! (_offerecendo-lhe o canap_.) Sr. marquez...


MARQUEZ

No me demoro... (_indicando a cadeira junto ao bufete_.) Prefiro
aquella cadeira. Est alli um tinteiro, e hade ser preciso... (_a
Francisco_.) Fui eu mesmo fallar a Martinho de Mello. Achei-o em boa
occasio. Serviu-me logo, sem objeces... que  raridade. Pediu-me s
que lhe mandasse o nome por escripto... No sei como... as minhas
distraces do costume... passou-me de todo. Agora,  volta de Cintra,
recebo uma carta d'elle, e dentro o decreto j assignado, dizendo-me que
fra expedido com o nome em branco para no causar atrazo, vista a
proximidade da partida... Venho remediar o esquecimento. (_Dirige-se 
cadeira indicada, e senta-se_. _Sentam-se as damas_.)


MANUEL SIMES

Mas, meu senhor... V. ex.^a foi fallar ao ministro da marinha? Por causa
de meu filho?... Traz-lhe um decreto!... Sou pae, sr. marquez... no se
hade estranhar... Um decreto de qu?


MARQUEZ

De guarda marinha para Ga.


MANUEL SIMES (_atterrado_)

Guarda marinha!... Para Ga!... quando eu pensava... quando esperava...
E pediu meu filho similhante coisa a v. ex.^a... pediu-lh'o sem me dizer
nada!


MARQUEZ

Ponderei-lhe isso mesmo... aconselhei-o... Deu-me razes que me
convenceram. Entendo que faz bem... As viagens so distraces
poderosas... so convenientes  mocidade... Voltar quando fr tempo...
e espero que ser breve... Se lhe no convier a vida do mar, dar
baixa... Agora  bem que v.--Simes seu filho est formado, no se lhe
pde oppr... D-lhe o seu consentimento. Peo-lhe que d, e digo-lhe
que o deve dar... (_a Francisco_.) Aprompta-te quanto antes. Embarcas
para a semana.


D. MARIA GERTRUDES (_sem poder j, levando a mo ao corao_.)

Ai! Jesus!


D. FELICIA

Que tens... que tens, Maria?... (_vendo-a debulhada em lagrimas_.) Ai! a
minha filha... A agua de Melissa... a agua da Rainha d'Hungria!...
(_acodem todas as damas a soccorrel-a_.) No repare v. ex.^a, sr.
marquez...  minha filha!


MARQUEZ (_erguendo-se_)

Sei... sei j...  coisa de cuidado?


D. MARIA JOANNA

No  nada. Um pequeno espasmo. Passa j.


GONALO (_de parte a Bocage, indicando D. Maria Gertrudes_)

V?

(_Bocage contempla-a meditativo_.)


D. MARIA GERTRUDES (_com esforo_)

No foi nada... Um affrontamento.


FELICIA

O melhor  recolheres-te ao teu quarto. Queres?


D. MARIA GERTRUDES (_vivamente_)

No, no, minha me... No  nada.

(_Retomam todos os seus logares_. _O marquez senta-se de novo_.)


MARQUEZ (_a Manuel Simes_)

Ento, Manuel Simes, consente?


MANUEL SIMES

Que remedio...  desejo d'elle... e v. ex.^a approva.


MARQUEZ (_tirando o decreto, desdobrando-o sobre a meza, e tomando a
penna_.)

Vamos...  pr o nome, e podemos dar os parabens ao novo guarda marinha.

(_Bocage passa lentamente por detraz de todos dirigindo-se ao bufete_.)


MANUEL SIMES (_tristemente, ao filho_)

Sempre cuidei que te acharia ao p de mim... para me fechar os olhos.


FRANCISCO (_lanando-se-lhe commovido nos braos_)

Meu pae!


MARQUEZ (_acabando de ler o decreto_)

Samora Correia, em 31 de janeiro de 1786. Com a rubrica de Sua
Magestade.--Est em ordem. (_Sem levantar os olhos_.) O nome todo?


BOCAGE (_atraz do marquez_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage!

(_Espanto nos circunstantes_.)


MARQUEZ (_erguendo attonito o rosto, e depondo a a penna_)

Qu?


BOCAGE (_mostrando Francisco nos braos do pae_)

Ser elle que deva partir?


MARQUEZ

Mas sabe porque o meu afilhado quer embarcar?


BOCAGE

V. ex.^a deseja-o feliz?... Deseja...  o seu corao, e o seu costume.
Permitta-me que faa por um momento as suas vezes, e ver... (_indo ao
grupo do pae e do filho_.) Desculpe, sr. Manuel Simes. (_tomando
Francisco pela mo, em voz baixa_.) No viu j que o ama? (_indo a D.
Maria Gertrudes, em voz baixa e rapida, indicando-lhe Francisco_.)
Quer-lhe como ninguem. (_alto a D. Felicia_.) Sr.^a morgada da Torre da
Palma, estou auctorisado a pedir a mo de sua filha para o sr. dr.
Francisco Pedro Simes. (_Atteno geral_.)


D. FELICIA (_assombrada_)

A mo de minha filha... Se no fosse o respeito do sr. marquez, tinha o
meu hystrico!... A mo de minha filha!... D'esse modo!... to de
repente!... (_depois de breve pausa_) O sr. Manuel Simes  um homem
honrado; estimo-o; sou-lhe obrigada, no nego... mas... mas elle bem
sabe que a nossa jerarchia... (_O marquez ergue-se_. _Erguem-se todos_.)


MARQUEZ (_intervindo_)

Perdoe, sr.^a morgada... O meu afilhado segue uma profisso nobre...
Doutorou-se... poder em breve alcanar algum despacho de Juiz de
fra... Como seu padrinho tenho obrigao de lhe dar um presente de
noivado. (_baixo_) Fallei j  rainha, minha senhora, a respeito da
sr.^a D. Felicia.--O presente que destino ao meu afilhado  um alvar de
aafata para sua sogra.


D. FELICIA (_encantada_)

Ai! sr. marquez! Devras? Filha, filha, a minha agua da rainha
d'Hungria!...


MANUEL SIMES (_baixo ao commendador em tom supplicante_)

Sr. commendador, posso dizer que sim ao casamento?


COMMENDADOR

Embarca o Bocage? (_Gesto affirmativo de Manuel Simes_) Pde.


MARQUEZ (_proseguindo a D. Felicia, mais baixo_)

Depois, Manuel Simes d ao doutor quarenta mil cruzados. Excellente
occasio de restaurar a Torre da Palma, que o precisa. (_a Manuel
Simes_) No d quarenta mil cruzados a seu filho, Simes?


MANUEL SIMES (_no auge de alegria_)

No, meu senhor. Dou sessenta.


MARQUEZ (_baixo a D. Felicia_)

Por causa de sua filha, queria o meu afilhado embarcar! (_indicando
Francisco e D. Maria Gertrudes_.) E veja... Ter corao para fazer dois
desgraados? (_alto_.) A sr.^a morgada diz que sim.


FELICIA

Basta ser vontade do sr. marquez. (_comsigo_) Aafata do pao!


MARQUEZ (_que passou a Bocage, em jovial confidencia_)

Acertou, sr. Manuel Maria.


BOCAGE

Ento ganhei o meu decreto.


MARQUEZ

Insiste?


BOCAGE

Espero s que v. ex.^a me faa a honra de escrever o meu nome.


MARQUEZ (_indo sentar-se ao bufete_)

Veja bem. Pensou?


BOCAGE

Pensei. Meu pae deixou-me a vocao livre. O mar  a minha vocao.
(_dolorosamente_) Se tivesse aqui um affecto, se podesse haver esperana
que me prendesse... No tenho. No ha. E  justo. (_com profunda
amargura_) Ns os poetas cantamos tanto o amor, que o amor todo nos va
no canto!


MORGADO (_baixo ao commendador_)

Que lhe parece? Vae para Goa..


COMMENDADOR

Em Goa temos gente tambem.


MORGADO

E se voltar?


COMMENDADOR

Est c o Santo Officio.


MARQUEZ (_dispondo-se a escrever_)

Repita-me o nome por inteiro... Bem sabe a triste memoria que tenho...
Est a tempo ainda. Considere.


BOCAGE (_decidido_)

Manuel Maria Barbosa Hedois de Bocage. (_Marquez escreve lentamente_)
Meu av, Gil de Bocage, foi coronel do mar. Herdei talvez a inclinao
com o sangue.


FRANCISCO (_indo a Bocage_)

No o conhecia ainda... (_intencionalmente_) Ninguem agora o admira
mais.


GONALO (_apertando-lhe a mo_)

Regosije-se. Felicito-o.  uma nobre aco.


BOCAGE

Comeo outra vida, rude vida de ancias e trabalhos, mas vida explendida
de alvoroos e promessas. (_inebriando-se das proprias palavras_) Oh!
quem me dra j nas solides do oceano, entre os dois abysmos, para no
ver mais do que o eterno lampadario dos astros, para no ouvir mais do
que o magestoso hymno das vagas!... (_como vendo o que repete_) Ondeante
 ppa a bandeira que recorda as margens distantes... a melancolia da
saudade!... Diante de mim os horisontes infinitos... a incerteza do
futuro!... Aos meus ps a voragem tumultuosa... a advertencia dos
desenganos!... E alm... l bem ao longe, a nossa India... a India que
dmos de presente ao mundo!... o recesso dos mysterios... a terra dos
prodigios... crivada dos nossos padres, povoada das nossas memorias,
cheia ainda do nosso passado, repetindo de todos os angulos a
maravilhosa historia que os povos decoraram em todas as linguas!... alm
as grandes recordaes dos grandes feitos... os grandes ccos dos
grandes nomes... as grandes imagens das grandes edades!... alm emfim a
perenne e inflammada viso, que acima da escurido dos tempos e do luto
das catastrophes, como um pharol no meio das trevas, ergue rutilante do
bero do sol a gloria da patria!


D. MARIA JOANNA (_fervorosamente_)

Tem a India inspirado os nossos grandes poetas! Comeou j a inspiral-o!


MARQUEZ (_erguendo-se e dando-lhe o decreto_)

Aqui tem sr. guarda marinha. (_a D. Felicia_) Est tudo justo, no? As
escripturas do casamento assignam-se em Belem d'hoje a oito dias!


D. FELICIA

Pois v. ex.^a quer fazer tamanha fineza a minha filha!...


MANUEL SIMES (_promptamente_)

Que honra!... Que honra para o afilhado!...


MARQUEZ

Justo  que sejam testemunhas todos os que presenciaram este feliz
accordo. Ficam prevenidos. (_inclinando-se_) Terei occasio de dizer 
sr.^a D. Maria Joanna Galvo o muito que a estimo e respeito. (_D. Maria
Joanna faz mesura_.--_O marquez dirige-se  porta da E._--_Dispem se
todos a seguil-o_.) Sr.^a morgada, dispenso etiquetas... no consinto...


D. FELICIA

Seria privar-nos da maior satisfao!


MARQUEZ (_a Bocage_)

No nos falte, Manuel Maria. Quero vl-o com o seu novo uniforme! (_Sae
com D. Felicia_.--_Acompanham-n'o todos_. _Ficam successivamente em
ultimo logar, Francisco que d o brao a D. Maria Gertrudes, Gonalo ao
lado de D. Maria Joanna, o commendador e o morgado da parte opposta,
Bocage_.)


SCENA XIII


OS DITOS, _menos_ MARQUEZ, D. FELICIA _e os_ CONVIDADOS


GONALO (_a D. Maria Joanna, indicando D. Maria Gertrudes_)

No lhe diz nada a vista d'aquelle par?


D. MARIA JOANNA

Diz-me que preciso um protector... e que j o aceitei!


GONALO (_transportado_)

 definitivamente uma esperana?


D. MARIA JOANNA (_dando-lhe a mo_)

 mais...  uma certeza.

(_O morgado mostra ao commendador esta aco_.--_D. Maria Joanna
esquiva-se como envergonhada, e mette-se no sequito_.)


MORGADO (_consternado ao commendador_)

Viu?


COMMENDADOR (_saboreando a pitada_)

Vi... No esto ainda casados.


GONALO (_que seguiu um instante D. Maria Joanna, volta a Bocage, e
mostra-lhe D. Maria Gertrudes e Francisco que de embevecidos se deixaram
ficar atraz de todos_.)

Repare... O amor e a mocidade, coroados pela ventura!... Alli tem o seu
melhor poema!


BOCAGE

Creio que sim... (_dolorosamente_) porque nenhum ainda me custou tanto!

(_Cae o panno_)


FIM DO QUARTO ACTO




ACTO V


*No palacio dos Marialvas, em Belem*

Sala forrada de damasco, severamente sumptuosa, abrindo sobre um
terrasso que d para o Tejo. Em perspectiva os montes da
Outra-Banda.--Explendido dia de inverno. Amplas colguduras de seda.
Cadeiras de damasco egual ao do forro da casa. Altos contadores
marchetados, cobertos de preciosas curiosidades.  _D._ a mesa preparada
para a assignatura das escripturas. Portas  _D._ e _E._


SCENA I


GONALO, (_esperando_) _o_ MARQUEZ, _um_ CAVALHEIRO, _um_ MOURO

(_O Cavalheiro, que mostra mais de trinta annos, entra da D., de botas e
esporas, seguido do Mouro_. _Este vestido a uso marroquino, botas
escarlates, zorame, etc_. _O mouro traz-lhe a vara de marmelleiro_. _Ao
mesmo tempo entra do F. o Marquez_. _O Mouro fica immovel onde est_. _O
Cavalheiro vae com profundo acatamento ao Marquez, ajoelha e beija-lhe a
mo_.)


MARQUEZ (_com magestosa simplicidade_)

Deus o abenoe, D. Jos! J sei que o murzello comea a executar
soffrivelmente a lio dos quatro circulos para a esquerda...  preciso
trabalhal-o...  rijo dos rins, convem-lhe o trote avanado. Est ainda
desigual dos travadouros.--Pde recolher-se agora aos seus quartos,
filho... Hade precisar descano... Oia... recommende ao Mouro que v
ver como atam o murzello... e se lhe estendem bem as coberturas.--Se
quizer escrever para Cintra a suas irms, e ao Marquez D. Diogo, tenha
tudo prompto. manh de madrugada partimos para Samora. Acompanha-n'os o
conde de Villa-Verde. (_O Cavalheiro sae_. _O Mouro segue-o_.)


SCENA II


O MARQUEZ, GONALO


MARQUEZ (_comsigo_)

Estes rapazes precisam dirigidos! (_vendo Gonalo, que se conserva
respeitosamente de parte, e indo a elle_) Desculpe que o no via. Chegou
ha muito?


GONALO

Entrei ha pouco, sr. Marquez.


MARQUEZ

Tenho pena de o no ter apresentado a meu filho.


GONALO

Tive j a honra de fallar ao sr. D. Jos de Menezes! Encontrei-o varias
vezes no quartel de Lippe e na academia de Antonio Diniz.


MARQUEZ

Ah! conhecia-o?... No lhe d ares do Conde dos Arcos, que to
desgraadamente... (_suffoca-se, e desvia o rosto para limpar
escondidamente as lagrimas; pequena pausa; mais senhor de si_) 
tristeza que me no deixa, e  paixo que nunca me hade passar! No
posso ver qualquer dos meus filhos que me no lembre aquella
fatalidade!... Ha quem murmure de me no ter deixado d'estes
exercicios... No pensam que assim se fazem homens para as armas, e
soldados para a patria... Na minha casa os costumes transmittem-se
intactos como a honra. Deixal-os murmurar.


GONALO

Quem se atreveria a murmurar do venerando patriarcha dos Marialvas, to
respeitado e to querido na crte e no povo!


MARQUEZ

Deixal-os. No sei que faam mais do que ns; com as suas modas de
hoje!--Deixal-os, e deixemos tambem o que no vem para aqui.--O dia  de
alegrias, e creio que tem bom quinho n'ellas. Cumprimentei j a sr.^a
D. Maria Joanna Galvo. Uma dama completa. No podia escolher melhor...
nem ella tambem. Supponho no ser indiscreto.


GONALO

A sr.^a D. Maria Joanna j me permittiu confessar francamente o que era
ha muito a minha secreta esperana, o que hoje se me fez inapreciavel
realidade.


MARQUEZ

Estimo... estimo-o devras.--Uma dama prendada, um valente soldado...
boas familias... elevados sentimentos... Vae tudo de accordo.-- assim
que se perpetuam as casas honradas... Hade, prevenir-me quando fr o
casamento.--No andar longe, no?-- festa de que tambem me no
dispenso. O regosijo dos velhos  casar os moos... (_com os olhos no
terrasso_) A sua familia nova j ahi anda... O meu afilhado, esse
madrugou, como  natural... Esto todos, creio...  cedo... ainda me no
deram parte de ter chegado o tabellio.--E o nosso poeta?... o nosso
novo guarda-marinha?... Vem de certo.


GONALO

No o tenho visto. Disse-me que ia a Setubal despedir-se dos paes.


MARQUEZ

Voltou ha tres dias... D'onde procederia aquella resoluo repentina!...


GONALO

Do mais generoso impulso!


MARQUEZ

Quiz-me parecer...--Que logo de cabea! Vae em tudo aos extremos.--Ou
hade subir muito alto, ou fazer-se muito infeliz!


GONALO

O mesmo diz a sr.^a D. Maria Joanna.


MARQUEZ

 ella que o Hade saber avaliar!... Do espirito e do corao da sua...
da sua noiva... vamos, pde-se j dizer.


GONALO

Pde.


MARQUEZ

Do seu espirito e corao tinha ouvido muito Hontem porm fui ainda mais
informado. Esteve aqui o Juiz do Civel da Crte, que se no canou de me
gabar a nobreza e desinteresse que provou com a restituio dos vinculos
 prima. Ella mesma desfez todas as difficuldades... e com tal zelo, com
tal contentamento!... A proposito, deu-me tambem a entender coisas um
pouco desagradaveis a respeito do Morgado da Gsteira, e do Commendador
de Monsars... Quasi que me arrependi de lhes ter aberto as minhas
portas... Sabe se com effeito...


GONALO (_constrangido, e volvendo os olhos com frequencia para o
terrasso_)

Que heide eu saber, sr. Marquez?


MARQUEZ (_reparando_)

Fiz a pergunta sem reflexo. Contaram-me tambem que se mostram seus
inimigos declarados... e os homens como o sr. Gonalo Mendo nunca fallam
de um inimigo pelas costas... Essa mesma resposta confirma o que me
disseram... Que o Morgado, fraco inimigo pde ser... Mais de temer  o
Commendador... (_movimento de Gonalo_) de acautelar, quero dizer... tem
relaes que... (_notando como elle olha para o terrasso_) No o
preoccupam agora os inimigos, vejo... e tem razo... (_sorrindo_) Hade
querer cumprimentar as senhoras. Na minha edade j se esquecem
facilmente essas impaciencias.


GONALO

Sr. Marquez!... No pense v. ex.^a...


MARQUEZ (_festivamente_)

No pensava, no pensava... Acompanho-o tambem.

(_Vae a sair; D. Maria Joanna vem a entrar, seguida do Morgado, que se
retira logo vendo o Marquez e Gonalo_.)


SCENA III


OS DITOS, D. MARIA JOANNA


MARQUEZ (_inclinando-se affavelmente_)

Minha senhora! No lhe queira mal pela demora. O culpado fui eu:
faltei-lhe a seu respeito. (_reparando para fra_)  sua tia que est
alli?


D. MARIA JOANNA

, sr. Marquez,--encantada do palacio, da vista, do dia, do Tejo... e
principalmente de v. ex.^a!...


MARQUEZ

E eu que to mal lhe pago, que ainda quasi lhe no fiz as honras da
casa, nem lhe cumpri a palavra. (_Desapparece no terrasso_. _D. Maria
Joanna vae a seguil-o_. _Gonalo detem-a_.)


SCENA IV


GONALO, D. MARIA JOANNA


GONALO

Esquivava-se ao Morgado, pareceu-me. Esse homem atreve-se ainda a
perseguil-a?


D. MARIA JOANNA

O Morgado?... O Morgado no pde perseguir ninguem! Cuido que tentava
no sei que justificao... Nem eu percebi... Andava passeiando no
terrasso. Ao passar, ouvi a sua voz aqui: entrei... para o no ouvir, a
elle.


GONALO (_contendo a colera_)

Tenho agora direitos sagrados. Se o Morgado ousou...


D. MARIA JOANNA

Ousou... evaporar-se apenas o viu. Ora, vamos...  homem que inquiete
alguem, o Morgado?... Comea a fazer de marido cioso?... Previno-o de
uma coisa... tenho horror aos ciosos! (_gracejando_) Se no pde
conter-se, estamos a tempo ainda!...


GONALO

No me contive eu tres annos... padecendo a ausencia... sem uma palavra
de esperana ou de conforto... vendo-a repartir sem differena graas
que s para mim cubiava, agrados pelos quaes dera a vida?


D. MARIA JOANNA

No vero o avarento!... Ahi est o que estes senhores querem... e ahi
est porque eu fugia de prender-me!... Se no fazemos differena nos
agrados, um cro de suspiros, uma circular de queixumes... todos a mesma
coisa... Apenas temos a fraqueza de mostrar uma preferencia, o
favorecido converte-se em tyranno, e pede-nos conta... at dos sorrisos
passados.--Bem me dizia em Paris o cavalheiro de Florian... um moo de
gosto e saber.


GONALO

Que lhe dizia?


D. MARIA JOANNA

Que para uma dama era inestimavel presente de Deus a mocidade e a
independencia.


GONALO (_picado_)

Ah!... (_tristemente_) Repito-lhe ento as suas mesmas
palavras:--estamos a tempo ainda!...


D. MARIA JOANNA

Eil-o ahi j todo serio e enfadado! Valha-me Deus!... no v que estou
gracejando?--A independencia... a nossa independencia!... Muito  para
invejar, na verdade!... Parece  primeira vista que nos festejam e nos
adoram. Examinando bem... no ha mais duro captiveiro do que similhante
liberdade... Os galanteadores so sentinellas, os lisongeiros
espias.--No foi to vigiada a nympha da fabula. Ao menos os cem olhos
de Argos fecharam-se uma hora...


GONALO (_sorrindo_)

E no foi preciso mais!


D. MARIA JOANNA

Malicioso! (_em tom mais jovial_) Estes Argos interesseiros no os
fecham nem de dia nem de noite. No sei como fazem, que se fortalecem da
vigilia, como os outros do repouso. Para qualquer lado que nos voltemos,
l esto elles com os madrigaes assestados. Cada protesto de respeito 
uma atalaya dissimulada. Cada cumprimento  uma bayoneta posta ao peito
para nos tomar o passo... E que severa inquisio!... Se olhamos, 
leviandade; se rimos, inconstancia; se nos desviamos, desdem... se
baixamos os olhos,  disfarce; se choramos,  fingimento; se estamos
sisudas,  reserva... At se nos encerramos, nos poem  porta a
suspeita!... As mesmas illuses de uns, se fazem nos outros furibundas
indignaes. Suffoca-n'os um circulo insuperavel de cortezias
insidiosas, de reverencias desconfiadas, e de homenagens hostis...
(_seriamente_) e quando menos o pensamos, achamo-n'os envolvidas pela
astucia, pela cubia, pela perfidia... no poucas vezes pela
calumnia!--Eis aqui a nossa independencia!... (_no tom anterior_) O
cavalheiro de Florian ainda no conhecia o mundo!


GONALO (_gracejando tambem_)

Ds de quando faz essa ida da independencia feminina?


D. MARIA JOANNA (_gravemente_)

Ds que uma proteco opportuna me libertou d'esse ambito oppressivo...
cheio de laos e de perigos... e me fez respirar os ares limpos e sos
de um nobre e generoso affecto!... (_com gentileza_) No sei se
vacillava ainda... (_dando-lhe a mo com meiga dignidade_) Sei que
d'esse instante para diante no vacillei mais.


GONALO (_beijando-lhe a mo, e conservando-lh'a nas suas_)

Desculpa um momento de irreflexo?


D. MARIA JOANNA (_esquecendo a mo nas de Gonalo_)

Ninguem  perfeito n'este mundo.


SCENA V


OS DITOS, _e_ BOCAGE _da D_.

(_Bocage entrando, vendo-os, e detendo-se_.)


D. MARIA JOANNA

Ah!... O sr. Bocage? (_retira vivamente a mo_.)


BOCAGE

O ano da casa encaminhou-me para aqui. Se sou importuno... (_como para
sair por onde entrou_.)


GONALO (_indo a Bocage e detendo-o_)

Era esperado, e desejado... venha. (_descendo com elle_) Ninguem
aceitaria com mais satisfao para confidente dos meus alvoroos.


D. MARIA JOANNA

No  j o sr. Bocage da nossa intimidade? No me esqueceu ainda!


BOCAGE (_com forada jovialidade_)

Filho de Marte e de Venus pintaram o Amor.  indispensavel corrigir a
mythologia... O Amor, de menino fez-se homem; de azougado cordato; de
despido composto; de vendado attento... abjurou por fim a gentilidade, e
at de pago se converteu a bom catholico... para santamente unir e
abenoar, como o pediam os seus merecimentos, um novo Marte e uma Venus
melhor!


GONALO (_fitando-o_)

Porque violenta o espirito?... Esse tom festivo tem o que quer que seja
de febril... no vem do corao.


BOCAGE (_naturalmente_)

No vem, no; diz bem. No corao... tenho uma tristeza profunda... uma
dr que eu desconhecia.


GONALO (_apertando-lhe a mo_)

Comprehendo. Sente agora o sacrificio!


BOCAGE

No a merecia!... Deus no quiz!


D. MARIA JOANNA

Arrepende-se?


BOCAGE

No, minha senhora, no me arrependo. Fiz o que devia fazer...


D. MARIA JOANNA

O que poucos saberiam fazer to bem!


BOCAGE

Mas a impresso no se apaga assim!... (_a Gonalo_) Confessei-lhe a
minha natural inconstancia... Conhecia mal esta grave e sincera
affeio, que podia emendar-me... que outro me tornaria talvez!... Que
lhe heide fazer? Bem certo , que s se d valor ao bem quando se
perde!...


D. MARIA JOANNA

Hade encontrar um corao que o aprecie... Com o seu merito!... A
felicidadade, que hoje cuida perdida, facil lhe ser restaural-a.


BOCAGE

Duvido, minha senhora. Ama-se uma s vez assim... quando se ama. Est em
mim mesmo, est na minha indole, o germe do infortunio. Se o podia
atalhar alguma coisa, era isto... (_resignando-se_) Enfim no estava
para mim!... (_abatido_) A imprudencia foi prometter que viria aqui
hoje... Vinte vezes tive tentaes de voltar para traz... Faltava-me o
animo!


GONALO

Isso no. Tempera-se a alma nos lances difficeis. E na vida que vae
seguir  preciso ter corao para tudo.


BOCAGE (_recobrando impetuosamente a resoluo_)

.--Isso pensei; por isso vim... e ver!--Era fraqueza: no lhe quiz
ceder. Seria encetar mal uma carreira, em que o sacrificio  condio de
todas as horas, em que o esforo  necessidade de todos os momentos!
N'estas procellas d'alma quero dispor-me para as tempestades temerosas
que resolvem os cos e os mares. O espirito sacudido de embates
angustiosos, que em si mesmo lutou e venceu, est preparado para se no
assombrar nem desmaiar, quando os horisontes se condensam... e os ventos
se desencadeiam... e os abysmos se rasgam... e a crista das vagas,
empinadas como serras, se cruza com a fita do raio, livido como
espectro... quando os silvos do vendaval na enxarcia parecem ais de
agonisante... quando, n'esse tumulto, n'esse horror, n'esse cahos, o
baixel que o valor sustenta, que a intelligencia dirige, que salva a
pericia, range at s profundezas com o stertor do moribundo!...
Attrae-me, convida-me a perspectiva... E quasi me esqueo do mais... e
todo me ufano revendo-me n'este uniforme, que significa a honra o dever,
o patriotismo, a abnegao... contemplando aquelle glorioso estandarte,
que se j no varre as aguas como conquistador, se j no as senhoreia
como soberano, hade no mundo ser sempre venerado por aces egregias...
hade em Portugal ser sempre saudado de legitimas esperanas!


GONALO

Com esses sentimentos, sr. Bocage, no ha magoa que no se console...
no ha grandeza a que se no aspire!


BOCAGE

Os sentimentos... So, sim... estes so, estes devem ser.--(_comsigo_)
Mas o que faz d'elles muitas vezes o destino!


GONALO (_olhando para o terrasso_)

O marquez dirige-se para aqui, se no me engano.


D. MARIA JOANNA (_olhando_)

Veem todos.


BOCAGE (_idem_)

O commendador e o morgado so os primeiros! (_a Gonalo_) Teem-me feito,
pagar bem caro o peccado das ms companhias, estes heroes.


SCENA VI


OS DITOS, COMMENDADOR _e_ MORGADO


MORGADO (_ao commendador_)

O que eu vejo, commendador,  que est tudo perdido!


COMMENDADOR (_ao morgado_)

Socegue.--A tempo chega quem sabe dispr as coisas. Hoje por vs,
amanh por ns. Affirma Cicero que um dia basta para pr termo aos
triumphos.


BOCAGE (_a Gonalo_)

Aves de ruim agouro!


GONALO

Que ho de agourar-nos agora?


SCENA VII


OS DITOS, MARQUEZ, (_entrando sem dar attenco ao commendador e
morgado, que se inclinam_)--_Depois_ Um ESCUDEIRO, _de habito de
Christo_


MARQUEZ

Vo sendo horas. (_a D. Maria Joanna_) Manuel Simes no cabe em si de
contente, e sua tia anda nos ares. (_vendo o escudeiro_) Creio que
chegou o tabellio. (_O escudeiro dirige-se respeitosamente ao marquez,
e diz-lhe algumas palavras em voz baixa_.) Est ahi com effeito. (_ao
escudeiro_) Mande entrar, e mande pr as cadeiras.


SCENA VIII


OS DITOS, D. FELICIA, D. MARIA GERTRUDES, FRANCISCO, MANUEL SIMES _e_
CONVIDADOS


D. FELICIA (_vendo Gonalo, jovialmente_)

O sobrinho no tem pressa de cumprimentar a sua tia nova?... No lhe
chega o tempo, j vejo... Era bem feito que me oppozesse agora!


GONALO

Para nos cobrir de tristeza!


D. FELICIA

Ai! no... no quero vr ninguem triste... Sabe?... O sr. marquez!...
Oh! grande marquez!... O sr. marquez entregou-me j o alvar de
aafata.--Que dia!--que dia para a familia, sobrinha!... Estou curada
dos meus hystericos!


D. MARIA JOANNA

Parabens, minha tia!


MANUEL SIMES (_impaciente, ao marquez, mas sem nunca esquecer o usual
acatamento_)

O tabellio traz j as escripturas promptas, meu senhor.-- s assignar.


MARQUEZ

Ler e assignar.--Vejam como vem guapo o nosso guarda marinha!... (_a
Bocage_) Quando levanta ferro a nau?


BOCAGE

Amanh, sr. marquez.


MARQUEZ (_aos circumstantes_)

E de uniforme grande, em honra do dia. No lh'o agradece, Manuel Simes?


FRANCISCO

Sou eu... (_indicando D. Maria Gertrudes_) somos ns dois... que
principalmente lhe devemos agradecer. (_indo a Bocage_) Se os votos
d'uma gratido profunda pdem ser-lhe aceitos... asseguro-lhe que no os
ha mais ardentes e sinceros.


D. MARIA GERTRUDES

Ho de acompanhal-o sempre as nossas oraes!


BOCAGE (_commovido_)

As oraes dos anjos so para os infelizes... (_com esforo_) e eu...
sou apenas um desterrado voluntario!


MANUEL SIMES

Ahi vem o tabellio.--(_comsigo_) Meu filho doutor!... minha sogra
aafata!... a minha nora morgada!... por compadre um marquez!--Est-me a
cair o habito de Christo!...


SCENA IX


OS DITOS, O ESCUDEIRO _precedendo_ O TABELLIO, _e seis ou oito criados_

(_O tabellio entra fazendo reverencia a todos, e inclina-se
profundamente diante do marquez; sob indicao do escudeiro toma o seu
logar  meza em p, e desenrola as escripturas._--_Os criados chegam ao
marquez uma cadeira d'espaldas, e collocam em torno da meza mais algumas
cadeiras communs. O marquez e as damas sentam-se. O escudeiro fica 
frente dos criados, fazendo parede ao F._)


MARQUEZ (_sentado, ao tabellio_)

Pde comear a leitura. (_O tabellio dispe-se a ler_.)


MANUEL SIMES

Ainda o no posso crr!


GONALO (_por detraz da cadeira de D. Maria Joanna, que fica na
extremidade_)

Chegar tambem brevemente o nosso dia!


SCENA X


OS DITOS _e_ UM PAGEM

(_O pagem entra apressadamente com uma bandeja de prata, e em cima um
officio; dirige-se ao marquez, ao qual apresenta a bandeja com um joelho
em terra_.)


MARQUEZ (_vendo o pagem, ao tabellio_)

Queira esperar. (_recebendo o officio_) O que ser? (_O pagem retira-se
para o lado_.)  para o sr. Gonalo Mendo... traz o sello da secretaria
de estado... Provavelmente no o achou em casa o correio, e disseram-lhe
que estava aqui. (_O pagem vae receber o officio da mo do marquez,
leva-o a Gonalo Mendo, e sae_.)


GONALO

Para mim... Da secretaria?--(_recebe o officio, abre, e l, com visivel
gitaco_.)


COMMENDADOR (_de parte, ao morgado, tirando a caixa_)

Quer apostar que se no faz o casamento de sua prima!

(_O marquez observa-os_. _Bocage no tira os olhos d'elles_.)


MARQUEZ (_inquieto_)

Que ?


GONALO (_consternado_)

A nomeao de capito de Sofla... e ordem terminante de partir na nau
de viagem, que sae amanh!


D. MARIA JOANNA (_erguendo-se com um grito angustioso_)

Jesus! (_Soccorrem-n'a D. Felicia e D. Maria Gertrudes_.--_Erguem-se
todos, e affluem em roda de Gonalo_. _Mostras de pezar na familia_. _O
morgado no pde conter o alvoroo_. _Bocage contina a observar os
dois, refreado unicamente pelo respeito da casa_.)


MARQUEZ (_admirado_)

Tinha requerido?


GONALO

Eu, sr. marquez!--N'esta occasio!...


COMMENDADOR (_saboreando a pitada hypocritamente_)

Que transtorno!... No livro 5.^o da Eneida ha...


BOCAGE (_prorompendo_)

Sei eu... vejo eu d'onde vem o tiro...


GONALO (_dolorosamente_)

Acertaram-m'o no corao!... (_Breve pausa_.--_A Bocage, com animo
inteiro_) Somos companheiros de viagem.

(_D. Maria Joanna solua, com o leno nos olhos, nos braos de D.
Felicia, e sua prima_.)


BOCAGE (_impetuosamente_)

No pde ser... no deve ser... O ministro foi enganado!


MANUEL SIMES (_insinuando_)

Uma palavra que o sr. marquez diga a Sua Magestade!...


MARQUEZ

Parto d'aqui a um instante para Samora. Vou fallar  rainha, minha
senhora. Ha tempo ainda.--No embarca, sr. Gonalo Mendo. (_ao
escudeiro_) Que apromptem o meu escaler. (_O escudeiro vae a sair, e
detem-se  voz de Gonalo_.)


GONALO

Peo perdo, sr. marquez: embarco.--Sei o que v. ex.^a pde... mas sei
tambem o que devo.--(_grave e solemne_) Quando ultimamente fui tomar
posse do meu solar de Mendel, aonde no voltara ds que entrei no
collegio dos Nobres, a primeira coisa que me deu nos olhos, na sala de
respeito, foi a longa fileira dos retratos de meus avs... um morto na
defeza de Ceuta... outro espedaado nos basties de Diu... outro
mal-ferido na batalha de Montes Claros!... Todos com o arnez no peito e
a espada no cinto... todos soldados desde Aljubarrota!... Parei a
contemplal-os na vasta quadra, triste e deserta, que novamente a morte
visitava.--Do alto das sombrias paredes pareciam dizer-me aquelles
vultos severos: por servir a patria, e para servir a patria, nos foi
dado o patrimonio que te deixamos, com as obrigaes do nosso nome, com
as tradices do nosso sangue. De ferro eram os nossos coraes, como
eram de ferro as nossas armaduras... nunca tremeram nos riscos mais
affrontosos... nunca vacillaram nos mais apertados transes!... Esta
immaculada austeridade nos fez estimados e honrados... Tal  o deposito
de virtudes hereditarias que te confiamos... Recebe-o para o transmittir
como o recebes.--Isto julguei ouvir... isto se me gravou n'alma.--Podia
esquecel-o agora?


BOCAGE

Mas essa nomeao foi solicitada pela perfidia... essa ordem...


GONALO (_atalhando_)

 da patria. No a examino; obedeo-lhe. Foi o que prometti quando jurei
bandeiras.--O primeiro predicado militar  a obediencia: o valor 
apenas o segundo. (_vehemente_) O soldado que se nega a obedecer  como
um desertor em dia de batalha,--atraia egualmente o juramento! Ninguem
ousaria aconselhar-m'o... ninguem espera tal de mim! (_D. Maria Joanna
ala o rosto, e escuta-o attenta, enxugando os olhos_.)


BOCAGE

No, o esquecimento do dever ninguem lh'o poderia aconselhar... Mas o
estado que vae tomar, mas a familia que lhe abre os braos, no lhe dita
deveres tambem?


GONALO

A patria  a familia das familias!--Se uma veneranda me chama por seus
filhos em nome da honra commum, qual pde recusar-se? com que pretexto
hade eximir-se?--Os affectos de familia! Quem  o desamparado que no
tem alguma familia? Se essa razo prevalece, ninguem servir. Mais que
para qualquer, para ns, os que seguimos a profisso das armas, e a
patria me rigida e imperiosa, mas amada sobre tudo. Ainda mais sua do
que nossa  aquella honra que entregaram  nossa guarda. Que filho
consente que a honra de sua me possa entrar em duvida?--Sr. Bocage, o
pundonor do soldado no exige menos que a iseno do poeta. Um passo
para ficar... (_com os olhos no Commendador e Morgado_) e no faltar
quem diga que eu... eu, um militar, um portuguez, um neto de
veteranos!... recuei diante dos perigos do clima, ou da azagaya dos
cafres... A calumnia  a espada da hypocrisia... no tem outra. Haviam
de dizel-o. (_com resoluo enthusiasta_) No o diro... Podem os meus
inimigos triumphar com o meu supplicio; no triumpharo com as minhas
fraquezas. Ninguem dir nunca de Gonalo Mendo, que o viu hesitar... nem
diante da catastrophe subita das mais justas esperanas!


BOCAGE (_desesperado_)

No tenho palavras que o convenam? (_indicando-lhe D. Maria Joanna_)
Veja se resiste quelle rosto, quella dr, s supplicas alli
estampadas,  voz e s lagrimas que mais do que eu o persuadiro.


D. MARIA JOANNA (_descendo, triste e gravemente_)

O que existe no mundo mais santo do que o amor puro de duas almas, que
uma da outra vivem, que uma para a outra s querem viver? Ha distancia
que lhes desate os laos? (_crescendo em vehemente sensibilidade_)
Haver golpe que lhes corte os vinculos? No lhes so communs as
alegrias? No lhes so communs as penas? No lhes  tudo commum? Pde
alguem separal-as em sentimentos, quando foi o sentimento que as uniu,
que das duas fez uma, quer para viver, quer para pensar, quer para
soffrer? (_Pausa_. _Com ponderativa energia_.)  a mulher de um soldado
a companheira de todos os seus perigos, de todos os seus trabalhos... e
de todos os seus deveres. A gloria d'elle  unico desvelo, unico fito,
unico enlevo d'ella. A obediencia, que  n'elle empenho, n'ella 
culto... Cumpre que seja em ambos a resoluo egualmente heroica. Se no
pde acompanhal-o nos dias de batalha... pde esconder-lhe o pranto nos
dias de provao!... (_Pausa meditativa_. _Com subito e convulso
esforo_.) V, sr. Gonalo Mendo... v que eu espero-o!


GONALO

No, sr.^a D. Maria Joanna. Admiro a nobreza do seu animo... para mais
sentir o que n'elle perco... mas o sacrificio da sua mocidade pesaria
eternamente sobre a minha consciencia.--Restituo-lhe a palavra que me
deu.  livre.


D. MARIA JOANNA (_solemne e decidida_)

Sr. Gonalo Mendo, se na sua familia o juramento  timbre que a tudo
sobreleva, na minha casa do-se juntamente o corao e a palavra, e a
palavra s deixa de obrigar quando o corao deixa de bater. Pde
julgar-se livre; eu no. Se tiveramos tempo de consagrar a nossa
alliana, podia negar-me o favor de acompanhal-o? Se estivessemos j
unidos  face do altar, teria acaso direito de dizer-me: restituo-lhe a
palavra e a liberdade? Considero-me ligada perante Deus: s Deus me
pde desligar. manh recolho-me ao convento de Santos. Unicamente a sua
mo me abrir aquellas grades!


GONALO

Quem se no deixar vencer?-- volta irei dedicar-lhe esta vida, que j
toda lhe pertence. Hade permittil-o Deus!


MARQUEZ (_intervindo_)

Fizeram todos o seu dever. Tenho tambem um para cumprir... (_para o
Commendador e Morgado_) s pessoas, que eu protejo, nem o proprio
Marquez de Pombal se atreveu nunca! (_fulminando-os de desdem_) Sr.
Morgado da Gsteira, precisa sair de Lisboa e tornar quanto antes para a
sua terra... (_O Morgado fica attonito_.--_Com intimativa_.)
Precisa.--Hade ter disposies que fazer. No o quero demorar... (_O
Morgado percebe e encaminha-se todo encolhido e confuso  porta da D._)
Espere... o seu amigo Commendador deseja acompanhal-o.--Sr. Commendador,
 provavel que a Meza da Consciencia lhe queira tomar contas do modo por
que tem cumprido os encargos da sua commenda. (_O Commendador, que ao
principio ouvia altivo, resigna-se tambem o segue o Morgado_.)


SCENA ULTIMA


OS DITOS, _menos_ COMMENDADOR _e_ MORGADO


BOCAGE (_vendo-os sair_)

A vilania e a jactancia... a cobia e a hypocrisia!... Ahi esto os
homens, ahi esto os vicios, que me ensopam a satyra em fel... que me
inflammam de raios a musa!... Bem o prevejo, bem o presinto...
Contribuiro elles para me abreviar a vida... pagar-lhes-hei eu com a
immortalidade do ridiculo!...


MARQUEZ

Guarde para mais a lyra, Manuel Maria. No v como os castiga o despreso
da gente de bem?--(_a Gonalo_) Hade voltar... e hade voltar breve.


D. FELICIA (_consolada_)

Hade... hade... que m'o diz o corao!


MANUEL SIMES (_sempre impaciente_)

Ainda bem! (_ao Marquez insinuante e respeitoso_) Ento agora... as
escripturas...


MARQUEZ

Podem ler-se e assignar-se.

(_O Tabellio torna a pegar nas escripturas_. _O Marquez, D. Felicia e
Manuel Simes voltam aos seus logares, mas sem se sentarem_.--_Francisco
e D. Maria Gertrudes esto  E.; Gonalo e D. Maria Joanna  D.; Bocage
na extremidade da D._)


FRANCISCO (_a D. Maria Gertrudes_)

Finalmente... vou firmar a minha ventura!


GONALO (_a D. Maria Joanna_)

Ao menos... levo a esperana!


BOCAGE (_pensativo e com os olhos nos dois pares_)

E a mim... (_comsigo, dolorosamente, em quanto D. Maria Joanna que o
observa, se lhe aproxima com Gonalo Mendo, cuja atteno chama pelo
gesto_) a mim... que me fica?


D. MARIA JOANNA

Fica-lhe... a posteridade!

(_cae o panno_)


FIM

       *       *       *       *       *

A propriedade d'esta pea no imperio do Brazil pertence a Francisco
Pereira da Cunha Novaes.

Rio de Janeiro, 1865.




*Notas:*

[1] Este periodo, e os seguintes, marcados com commas, supprimem-se na
representao para abreviar as respectivas scenas.





End of the Project Gutenberg EBook of Os Primeiros Amores de Bocage, by 
Jos da Silva Mendes Leal

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS PRIMEIROS AMORES DE BOCAGE ***

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     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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